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Hoje é sexta-feira 13 (Olhos abertos no escuro, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Hoje é sexta-feira 13
Emmanuel Mirdad

          É do tipo que se levanta da cama com o pé direito e odeia gatos pretos. Sempre se acode de presságios e arrepios a fazer o sinal da cruz e a bater em alguma superfície de madeira. É feliz, supondo ser graças a Deus, como um cordeiro, servo do Senhor. Nos últimos meses, passou por um grave aperto financeiro, que vai acabar hoje.

          O advogado telefona bem cedo, lá de São Paulo, e revela o valor da herança. Na Bahia, um novo rico. Acorda a amada com euforia e, a contrariar o costume dos homens héteros recém-endinheirados, pede-a em casamento, livrando-a de um encalhe mal falado de doze anos.

          — Aceito, sim, aceito, claro, aceito! Vem cá, meu amô...

          Um outro telefonema interrompe o sexo, e a tia avisa que a sua mãe, finalmente, tem alta do hospital, safando-se de um enfarto, seguido de um AVC e uma estadia na UTI. “Obrigado, Senhor!”, ele vibra. Relembra que, semanas atrás, ela estava praticamente morta — pesquisou até se era melhor enterrar no jardim ou no concreto. Agora, nova rodada. Informa que vai buscar as senhoras de imediato, pois quer contar sobre a herança que o pai lhe deixou. Abre as cortinas para respirar o sol, e eis que aquele passarinho que estima, o cantador que se alimenta das pontinhas das suas bananas, reaparece, após meses sumido, a entoar esta manhã tão Disney.

          No céu, o sol forte e um azul soberano. Ele nem precisa ir ao trabalho para pedir demissão. Noutro telefonema, o RH quer acertar as contas, a acumular o sortudo com direitos trabalhistas. O happy hour da sexta começa mais cedo.

          Meio-dia, o primeiro sobrinho nasce, saudável e chorando alto, a vingar a gravidez de risco aos 45 anos da sua irmã mais velha, única. O cunhado berra, chora e desliga sem querer. Perto das duas horas da tarde, a amada telefona para avisar que o sorteio da liquidação do período pós-junino havia revelado o vencedor do importado de luxo: ele. E o sortudo consegue estacionar o carro velho em frente à agência de viagens sem ter de pagar o flanelinha, preso horas antes por desacatar um policial federal.

          Dentro da agência, acerta uns pacotes para Cancún e as praias da Croácia, e ainda leva uma promoção-surpresa para hoje, com vagas na saída de emergência. De supetão, irá rever a querida irmã em São Paulo e conhecer o sobrinho recém-nascido, além de acertar os trâmites burocráticos com o advogado. Embarca sem atrasos, com a amada radiante, no final de tarde de brigadeiro, salpicado de um belo pôr do sol.

          — Não me lembro de um dia com tanta sorte assim na minha vida!

*

          Turbulência. Forte. A aeronave sacoleja. Os passageiros se entreolham. O comandante esclarece que uma tempestade maltrata a capital paulista. Começa o procedimento de pouso.

          — Tô com medo, bem — a amada treme, quase se descontrola.

          Ele ora. Alguém, na poltrona de trás, deixa escapar:

          — E hoje é sexta-feira 13...

          — É...

          Concorda o sortudo, baixinho.

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