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Selvagem (Olhos abertos no escuro, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Selvagem
Emmanuel Mirdad

          Moreno é surpreendido por uma cascuda na cozinha. Taca-lhe a vassoura. O inseto não morre. De casco para baixo, tenta se virar, quer fugir. Moreno banca o sádico e faz a experiência de banhar a enorme barata numa poça de água sanitária. A cascuda fervilha, a vibrar todas as patas e antenas. O homem sente remorso e, a relembrar a honra dos antepassados, decapita o bicho com uma garrafa vazia de água mineral.

          Satisfeito com o que considera um justo fim para o inimigo, que nada fez, Moreno corta rodelas de inhame e põe para cozinhar. Do fogão, olha para a poça. A surpresa acontece: bem antes do tempo necessário para que o ser humano se transforme num zumbi, de acordo com as regras do universo ficcional da série The Walking Dead, a cabeça e as antenas do inseto voltam a se contorcer e tentam escapar da ardência da poça criada pelo sadismo do homo sapiens, enquanto o tórax e o abdômen se mantêm imóveis.

          Moreno quase derruba a panela de inhame. Recupera a garrafa de plástico, que havia jogado no lixo, e esmaga a parte da oponente que se figura viva. Segundos depois, a sobra da cascuda volta a se mexer. Ele repete a tentativa de erradicá-la. Não consegue, pois os movimentos retornam e, freneticamente, objetivam retirar, da poça de água sanitária, o resíduo que busca sobreviver. Então, Moreno espera. Quando o inquebrantável fragmento do inseto consegue o alívio do piso frio da lajota, o homem levanta-o pela antena e pensa em comê-lo. Talvez a devorar a oponente, Moreno terá semelhante força. E resiliência.

          “Basta!”, ele decide, como um moleque que se entedia das traquinagens. Moreno dá fim à experiência ancestral de aniquilamento do outro: protegido pelo papel higiênico, glória da civilização, ele esmaga, melhor, tritura, com todos os dez dedos, o que resta da cascuda, embolando-a num sepulcro. Descarta no lixo, nauseabundo.

          Mais tarde, Moreno vai fechar o gás na cozinha, a se preparar para dormir, e não consegue acreditar no que vê: as perninhas se balançam no corpo decapitado, enquanto formigas tentam desmontar os pedaços da barata.

          Para o banquete.

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