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Amante (Olhos abertos no escuro, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Amante
Emmanuel Mirdad

          Um dia, fui para a cama com uma mulher que amava fazer sexo, mas estava numa abstinência forçada de cinco meses, por causa do novo amor, que era evangélico e não cedia aos apelos de corromper a convicção de que sexo só depois do casamento. Ajudei e a fiz esquecer o impasse por três horas; ela gozou muitas vezes na calada de uma noite em que, supostamente, já estaria dormindo, e, entre os descansos das retomadas de fôlego, na cama do motel, apoiei o namorado, a arrumar argumentos bonitinhos para ela continuar acreditando no romance, mesmo com a diferença de credo. Ela concordou: agarrou o crente numa cilada e aproveitou bastante. Ele também. A rebordosa veio logo depois: aos gritos de “discípula de satã, pecadora, desviou-me do caminho”, ele largou a namorada na fossa com um término brusco. Giramundo fez a sua parte, e hoje ela é mãe, amada e feliz, e não se converteu.

          Certa vez, fui para a cama com uma mulher que estava noiva de um milionário, mas que foi comigo à alcova de ônibus, topou a aventura de transar dentro de um apartamento em reforma, sem piso, com sacos de entulho, poeira, chão cru e colchão fubambento emprestado pelo porteiro. Descobrira uma traição do noivo e quis descontar, para equivaler os direitos na relação. Justo. Ao final de muitas gozadas histéricas, escandalosas, seduziu ao telefone, carinhosamente, o noivo, que foi buscá-la, mesmo em horário de trabalho, na porta do prédio em que o traiu. O que ela fazia ali? Estudava física para o vestibular com a amiga nerd, que ele sabia que existia, mas não havia nenhuma informação adicional que despertasse alguma suspeita. O casório causou na capital. E ela foi estudar em uma das fábricas de diploma de Minas Gerais, com o marido a tiracolo.

          Outro dia, fui para a cama com uma mulher que me revelou o motivo do seu tédio constante: “Ele é perfeito demais”. Tantas mulheres buscando o homem perfeito e, esse, por ser perfeito, era demais. Ela chegou a atendê-lo ao celular enquanto estava sendo chupada por mim. Não parou de se mexer e se contorcer, e o desafio de manter a mínima aparência na conversa telefônica a fez gozar logo após ter desligado; mesmo que a minha fosse outra língua e técnica, a voz do namorado de cinco anos a fez relembrar o percurso do estímulo acostumado. Dias depois, apertei a mão do homem perfeito, que possuía o conjunto completo das qualificações consolidadas e impostas pela classe dominante, num encontro acidental, apresentado pela própria namorada, cúmplice no vil “que otário, ele não desconfia de nada”. O meu ego estalou como nunca. E, para satisfazer a família, a mulher se casou com o homem perfeito; dizem que continua a atender o celular nas horas mais impróprias, mesmo durante a gravidez de um casal de gêmeos.

          Outra vez, fui para a cama com uma mulher em trânsito e em fuga. O marido havia sido diagnosticado com uma doença terminal. Cuidou dele com afinco nos dois primeiros meses, a validade do amor contratado — e até mesmo a validade do seu sentimento numa relação que, contando também o namoro e o noivado, chegara aos vinte anos. Perto do fim, ela sumiu, abandonando-o aos cuidados do pai idoso e quase senil. Precisava de um tempo para si. Viajou para outro país: o meu. Não era altruísta. Nem deveria ser, por inaptidão. Essas coisas de compaixão e esforço deveriam ser proibidas para ela, pois era um espetáculo de mulher, elegante, feminina, uma grande artista. Eu bem soube explorar os seus dotes, aos poucos, a engordar a sua vaidade, a consumir a sua arte, a divulgar a sua genialidade aos meus, e, dos seus fluidos, bebi, dias seguidos, um gozo que era um berro de libertação, um expurgo da maldita culpa cristã. O problema foi que ela se apaixonou e quis ficar no Brasil. Eu não; viajei, sem avisá-la, ao seu país, um desejo antigo, e, entre as visitas a museus e monumentos, morbidamente procurei o enfermo e só encontrei a lápide; fiz uma foto e a enviei para a egoísta — eu também sou, pois aqui brilha a “estrela no abismo do espaço”, como Raul Seixas cantou.

          De volta ao Brasil, caí no abismo de uma paixão avassaladora por uma mulher que nunca havia experimentado o mesmo sexo até então. A família não aprovou. Duas mulheres se beijando, uma delas negra e, ainda por cima, de origem humilde, era uma tríade impossível de ser respeitada por um clã tradicional da elite, mesmo diante do meu sucesso profissional, gabaritado e explorado pela mídia antenada às benesses de se apoiar as causas da minoria — que, em alguns casos, na real, é a maioria. Continuamos. O namoro proibido decolou, fui enraizando o amor sem equiparar; não me interessava notar se ela faria o mesmo. Não fez. Nua, enrolada nos nossos lençóis, adormeceu nas caudalosas inundações do gozo íntimo. Eu catei o seu celular e, como uma esposa traída de folhetim, fucei as mensagens da amada. Desabei. Na noite em que fui ao cinema sozinha, e que ela sabia que aquele filme era importante para mim e mesmo assim faltou com uma desculpa ridícula, a minha namorada, esposa ainda não oficial, a mulher com quem eu queria passar os meus melhores dias, ficou por duas horas sentando num membro que expelia fluidos. Assumiu, em vários caracteres de uma mensagem longa e afetada, que sentia falta era de um homem, como aquele canalha, que a varou em outras madrugadas, tantas.

          E eu nunca desconfiei.

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