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Cinzas (Olhos abertos no escuro, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Cinzas
Emmanuel Mirdad

          Fevereiro, 2015. Quinta-feira. Salvador, Bahia. Ontem, a dentista havia telefonado para o ex-namorado, que não atendeu. Só veio a receber de volta um emoticon de sorriso amarelo na manhã de hoje. Ela insiste no contato. O símbolo de uma mão com o polegar levantado é o suficiente para entender que a consideração já era; a indiferença é tamanha que nem o tempo de digitar um “ok” no celular vale a pena de ser gasto. Ela perde a primeira noite de Carnaval por ficar na fossa. Assiste a “Leviatã”, de Andrey Zvyagintsev, preguiçosamente baixado na internet, a considerá-lo um grande filme, por retratar, com excelência, o brutal esmagamento do indivíduo pelo Estado. Sente-se esmagada, também. Vai torcer por ele no Oscar.

          Sexta-feira. Ela almoça com o ex-padrasto letão, que ainda manda dinheiro para a sua conta. Ele não sabe que a mãe da dentista, a sua ex-esposa que apelidara de “tropicaliente” e havia cortado drasticamente o contato, morreu em setembro passado, vítima da vaidade — hidrogel nas coxas, sem comoção nacional. A dentista sente pena; uma longa viagem da Letônia à Bahia, e a primeira moqueca da vida provavelmente irá provocar uma severa diarreia nele, mais tarde, no hotel — dizem que o dendê faz estrago quando as emoções se descontrolam. E a seriedade dos bálticos, que a ex-enteada supunha existir, vem abaixo: o letão se acaba em lágrimas, explicitamente, na mesa dum restaurante em Itapuã. A dentista nem espera pela sobremesa e se livra do último vestígio que resta da sua mãe piriguete: recomenda que o ex-padrasto não envie mais dinheiro para ela e que não a contate mais. Caso precise de ajuda enquanto estiver no Brasil, que procure o seu consulado. Em Brasília ou no Rio Grande do Norte, para fugir da seca em São Paulo.

          Sábado. A dentista acorda de ressaca numa cama em que não queria estar, mas, carente, teve de encarar. Depois do letão em lágrimas, fez uni-duni-tê entre os admiradores insistentes e escolheu o menos garganteiro e de bairro mais confortável — fora do circuito da folia carnavalesca — para passar a noite de sexta longe do apartamento em que mora há trinta anos; primeiro, sem o pai, depois, sem a mãe, e, agora, sem o euro extra no final do mês. Órfã e filha única, cedeu um anal ao insistente de óculos só para que ele parasse com o teatro do “escorregou” e resolvesse logo dormir — de conchinha, é claro. Sexo por um abraço numa noite tenebrosa pelo dia. De volta ao sábado, cedo ainda, veste o biquíni e topa um rolé até Baixio, a “nova” descoberta praiana dos entediados moradores de Salvador, na companhia da amiga saradona, que até topless quer fazer para inaugurar o silicone. Como elas não escolheram o destino da praia naturista de Massarandupió, decidem não desnudar os peitos, por segurança. Também, a Lagoa Azul de Baixio está lotada, “que farofada terrível”, reclamam. Não há privacidade, exceto na trilha, onde, na volta, a saradona tenta beijar a dentista e é rechaçada, abreviando o passeio, a forçar um retorno constrangedor a Salvador, a amiga sem palavras que atenuem a sua vergonha. Em casa, a dentista, chateada por ter esmolado ontem e pelo embaraço de hoje — que complicará uma amizade até então valiosa —, resolve dormir cedo, deixando sem resposta as várias mensagens não lidas no WhatsApp.

          Domingo. Ela lagarteia até o meio-dia, quando o pai, o seu ex-marido, devolve as duas meninas e vai curtir o feriado em Itacaré com a nova namorada, que a dentista julga como “um lindo e exótico bichinho da floresta praticante de cross yoga fit zouk” — ou qualquer outra mixagem de conceitos que deixam o corpo sarado à base de muito suor e diversas tatuagens. Duas. Filhas. Pequenas. Pela tarde, ela paga quarenta reais para o mesmo estacionamento em que pagaria dez, no máximo, nos dias sem assalto. Ao menos, as ruas históricas estão repletas de outras famílias; quase todas, na mesma sintonia de aproveitar as crianças antes que elas cresçam e magoem, maltratem ou afrontem os pais. No Carnaval do Pelô, a dentista topa o algodão-doce de um moreno casado, fascinada pelos braços fortes que o ex-marido nunca teve, divertindo-se sozinha ao lembrar que os bíceps do “bichinho da floresta” devem ser maiores que o dele. O moreno dá um amasso bom, num cantinho, de onde ela avista a esposa traída, a cuidar, com zelo, das suas filhas, amiguinhas integradas aos rebentos da família do canalha.

          Segunda-feira. A dentista pega estrada até Vitória da Conquista, primeira parada. Viagem longa, mas tranquila, sem sustos, meninas entretidas ao tablet. À noite, via site patrocinado pelo Governo, curte um pouco do show do BaianaSystem no seu laptop. Ela se dá ao luxo de arrochar de camisola no corredor do hotel, só na terapia de cumprir uma das exigências do seu personal “Christian Grey”, via Skype, que assume, descaradamente, que deveria ter levado a dentista para testar a cápsula suspensa da Durex no Camarote Salvador, em vez da atriz global, que não resistiu ao seu plantão etílico e agora testa a qualidade do posto médico. “Perdeu, playboy!” E ela, numa inversão de masô para sádica, a enlouquecer o bofe à distância, despe-se em frente ao quarto 404, a suingar um striptease até ficar totalmente nua, enquanto geme os versos de Russo Passapusso na canção “Playsom”, a melhor do Carnaval 2015: “Tem que ter amor na manha/ Tem que ter oh mon amour/ Seja onde for, na manha/ Se não for, apanha”.

          Terça-feira. Mais um dia inteiro rodando por estradas, e as soteropolitanas chegam à cidade de Chapada Gaúcha, em Minas Gerais, já quase no final da tarde. As meninas cansaram no percurso, demorou mais que o previsto, várias paradas pelo caminho, calor danado. A dentista consegue que o farmacêutico largue a passagem de Wesley Safadão pelo Carnaval de Salvador, na tevê, e a atenda. Clausura no hotel, cuidados de mãe para que as filhas descansem o suficiente; amanhã, dia de trilha no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, a primeira da sua vida. Quando o trio de Armandinho, Dodô & Osmar desponta em Ondina, o insistente de óculos lhe manda uma foto pelo celular, direto do circuito — estava rendendo assunto, a querer mais escambo. Ela apaga a foto de imediato e o bloqueia em todas as redes sociais. Faz um carinho na filha mais velha e admira a sua prole, que considera resistente e bela. O ovário vibra e ela quer fazer mais. Telefona para o ex, não o marido, e sim o namorado, com quem passou os últimos três anos e não foi fecundada em nenhuma noite, nem quando, sorrateiramente, suspendeu o anticoncepcional e ele descobriu. “Um desperdício de sémen”, lamenta. Inesperadamente, ele atende, por estar numa área onde acreditava que não havia cobertura, sem reconhecer o número.

          — Você pode nos guiar amanhã?

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