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Impermanência
Emmanuel Mirdad
“O ser humano sobrevive a ferro e antibióticos na roleta-russa da existência. E a duração do seu legado por, no máximo, duas ou três gerações, caso haja procriação, satiriza o impulso biológico da autopreservação a qualquer custo. Ou seja, não adianta. Você e todo o seu fundamentalismo umbilical irão fenecer.” “Eu sei disso, todos passam.” “Sim, todos!”
Dois amigos conversam sobre a impermanência durante uma corrida matinal, castigada por uma frente fria que chegou ontem à cidade marítima. Eles não se importam com as possíveis consequências da combinação roupas molhadas, suor e vento frio que bate na nuca. Num ponto da orla cinza, o mais alto diz:
— Eu quero ser temido!
O mais baixo contesta:
— Que nada! Eu quero ser amado...
Eis que, muitos anos à frente, o das reticências, que visou ao amor, está sozinho, escanteado pelo temor generalizado das mulheres e amigos em corromper o hábito da descartabilidade dos bons sentimentos. E aquele da exclamação, que quis se resguardar pelo ódio numa solidão egoica, desperta paixões exacerbadas, pulsões de devoção e aclamação, de mulheres e amigos em terrível carneirada a idolatrarem o líder que maltrata.
Gerações depois, os dois não permaneceram.
Como todos.
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