Download no Google Drive aqui
A interferência arruinadora das inutilidades
Emmanuel Mirdad
Da varanda de um quarto de hotel, em Morro de São Paulo, uma mulher contempla, sozinha, o pôr do sol e escreve no celular: “O horizonte e o final da tarde, na composição harmônica do poente, são lastreados de cores em dissolução. Um preparo que inebria, conforto gratuito ao descanso dos fardos; basta parar e assistir. Caso alguém aguce a vista para além do olhar, sentirá a interferência arruinadora das inutilidades. O que você venha a interpretar da visão, nesse caso, será falho. Simples: é apenas o ciclo solar. O ópio gerado pelas informações visuais, captadas pelo nervo óptico, é uma bobagem de símbolos inventados que não deveriam ser traduzidos e interpretados — dispensável projeção dos seres que querem escapar de algo, mesmo que a eficácia da fuga, há tempos, tenha se comprovado nula, pois não há alternativa, só a existência a cravar a mediocridade do que há de ser feito, comprimido pela gravidade, necessitado de oxigênio e vitaminas”.
De dentro do quarto do hotel, o namorado da mulher reclama:
— Bem, você só vive no celular, cadê o romance?
Comentários