Download no Google Drive aqui
Entre o nebuloso e o desanuviado
Emmanuel Mirdad
Onde começa quem eu sou? Quanto de mim há aqui dentro? O intruso luta para me assumir. Resisto. Será? Coqueiros a bailar, coqueiros tortos, coqueiros eretos, pedaços de coqueiros sem vida, canteiros onde deveria haver coqueiros. Um pouco de mato aqui, plantinhas ali, pedras, pedrinhas, pedregulhos, e nada que me estabilize. O azul que dilacera a autopiedade veraneia o sol, a me seduzir, mais uma vez, a me oferecer a sua doçura, o encanto, a energia, a impressão de divino painel, oceano ao inverso, o mergulho impossível. É tão distante, é a cor mais quente, é o que faz desse lugar habitável; mesmo assim, a vontade é outra. Escapar. Ir além. O salto para o céu, acima do que me penetra na areia e machuca.
A dor. Por que sempre? O que é bom para os meus olhos ilude o ego. Pois que haja espaço para o belo que é cru, permanente, sem dedos humanos, a existir nas sagas e a encantar os sapiens com a competência estrutural do que não fala. Estou aqui, esparramada na areia como um croquete, a imitar os pais, tentando vivenciar o instante, ser parte. Por que é tão complicado? A ilha e a sua notável nudez, ainda que o plástico a ameace. Por aqui, tudo vibra, tudo se faz como um todo, sem furos, sem vazios, sem possibilidades. Apenas é. E eu, quando serei?
Sempre brinco: cinco milhões por uma pista que desamordace o ser. Os meus amigos me tacham com as suas fugas tão prontas, cheios de respostas ou fé, seres tão máquinas, de comportamento previsível. E eu continuo a acreditar que é muito animal conseguir focar os olhos no lugar nenhum. Por isso, overdose. Só que também não adianta. Difícil eu de mim, restam-me as mesmas dúvidas, inclusive em outras línguas. Um ente secreto, dopado a esmo. E, agora, por favor, tire-o daqui!
O sol me queima. O intruso insiste na luta para me assumir, o que é bom para os seus olhos. Diz ele que sim. Digo eu que não. Por que é tão complicado? É muito animal, também, ambular testando portas. Sendo assim, escreva a si mesma. Vejo um reflexo no azul totalitarista acima. Aproveito o instante e vibro. Relembro a minha infância e antecipo o abismo: nascida, já com incontáveis arfadas de oxigênio, e ainda a lutar contra a materialização da carne, vivi embates terríveis; queria flutuar, enxergar cores que não se expressam por cores, e a vida a insistir no seu trampo: viver, aqui, desse jeito. Entre o nebuloso e o desanuviado, pouco fiz, a não ser encolher os joelhos e me calar.
Prossegui. Aprendi a segurança dos automáticos. Ser, num mínimo, como um semelhante, um pouquinho só de cordialidade e não agressão. Em vez de explodir, retive-me e fiz o dever direitinho. E o intruso, a minha cria estimada, fixou-se no canto úmido dos quereres contidos. Do reflexo que alcanço agora, daqui desse deitar na areia da ilha, penso em permitir que ele assuma. O intruso inane, adiposo, celerado, simiesco, engulhoso, nutante, xenômano, insidioso, sibarita, tartufo, doxomaníaco, graveolente, capadócio, misoneísta. Mefistofélico, como eu.
A previsão continua. Dor, que aumenta. A imitar os pais. O intruso luta para que eu me desamordace. Respondo: cinco milhões por uma pista. Será que dá para conseguir tirar os olhos do ser do sempre? De novo, eu faço. Overdose.
Sem conhecer o destino do lugar nenhum.
Comentários