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Deserto poema (Olhos abertos no escuro, 2ª edição, Emmanuel Mirdad)

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Deserto poema
Emmanuel Mirdad

          — Mesmo com tantas mudanças, as crianças precisam saber que nem tudo saiu do lugar.

          “Não é coerente com a obra” — Belizário se frustra com a fala da sua autora portuguesa predileta e resolve sair, aos quarenta minutos, a desvalorizar à mesa a sua ilustre presença na plateia. Fora da tenda climatizada, evita o assédio da imprensa e dos escritores inéditos com os originais que considera risíveis, e vai passear sozinho pelo centro histórico, de preferência, longe da badalação da festa literária. O casario lhe inspira olhar para cima, sem amor. Numa noite profundamente escura do céu de Paraty, ele conclama: “Cadê as estrelas?” Enfado. Supõe que não estejam salivando palavras, estas que “embaçam o brilho dos astros pelo pó das suposições do discurso”. Começa, então, a sinfonia: “Os gostos estão a dizer bobagens, desejos voláteis. (...) Basta muito pouco para extinguir a fantasia. (...) Saciar-se é tão fácil quanto se sentir vazio. (...) E tome-lhe fatos infames em frascos de felicidade fast food, vendidos a seres que o tempo rapidamente consome, repletos de lembranças que não foram moldadas pelas pequenas fadas, as belas e intangíveis, e sim por manobras decrépitas de especialistas em pilantragem, os forjadores de opinião. (...) Enquanto isso, a peça do desespero: todos precisam de reconhecimento. E é por isso que se mostram, assim, em sonhos pequenos, desprezíveis, a liderar as listas dos mais vendidos”.

          Belizário caminha, a verificar as reentrâncias por onde a borracha do sapatênis vai buscar a firmeza para o passo num chão irregular de pedras. Relembra de quando foi emissário da cultura brasileira em um evento organizado pelo governo de um ditador, criado só para legitimar trocas comerciais e apoio político, e reencontrou uma escritora polonesa, por quem tinha muito afeto. À noite, também, lá pelas tantas, quando o vinho indicava o caminho dos lençóis, disparou o seu pessimismo, a camuflar a impotência sexual: “Acorda, poetisa, a fantasia acabou! Concretaram a arte, arregaçaram a ilusão. A ciência domina, enfim. O espírito são números e fórmulas e seivas. Nada mais pode ser, apenas é. Exato é o mérito. E o silêncio, troca de turno. Oferte o teu adeus a quem te for caro. E se vá pela sombra”.

          Belizário negou fogo. Agora, segue pelas sombras das ruas iluminadas de Paraty. Um boteco expõe um aparelho de TV sintonizado, com as agulhas ao combate, e as cadeiras de plástico na calçada. Ele abrevia a caminhada. O dono do mundo está na tevê. Que trampolim! Belizário se lembra de “Eu fujo — um erro.”, uma frase classificada como bobinha e reducionista, que inicia a sua primeira novela, paga pelo pai. “É preciso ser arrogante, competir, meu filho” — o negócio que ele aprendeu, mais de cinquenta anos atrás. Bateu foi em gente, humilhou, esculachou nos jornais, em comissões julgadoras, bancas, à frente e às costas, limou talentos desconhecidos ao primeiro brotar no deserto. Mas, um dia, por vários segundos, a dor no peito o atordoou, engoliu muita água salgada e começou a se deserdar. O salva-vidas chegou a tempo, evitou o afogamento na praia catarinense. “Deixe-me quieto, vá!” Depois do quase empacote, enfartado, decidiu parar o massacre. Agora, só o faz ao vivo, na lata, tal qual um vampiro: só se for convidado a opinar.

          O profeta que zurra é chamado de “asno eu” por Belizário. Conviveu com muitos; a maioria, alunos da universidade onde se aposentou. Um desses “asno eu”, que se vitimizava numa autoproclamada depressão, certa vez, propagandeou que a vaidade, o poder e o consumo estavam certos, ao fim; o seu mundo, de supostas integridade, coerência e responsabilidade, é que era o distorcido. E o professor concordou, pois, para ele, esse idealismo tolo, projeção infantil, resumia-se a mais uma página gasta, valoração equivocada de um profissional pateta, fadado ao fracasso, pois, ao resto dos seres normais, vaidosos, poderosos e consumistas, não interessa o processo, e o que importa é o resultado. Pois esse “asno eu” irá se apresentar amanhã, ironicamente, em Paraty, incensado pelos progressistas, escritor referendado pelo resto que sobrou do jornalismo cultural no Brasil. E, a compor a mesa com ele, uma “sessão de compadres sem debate, só afagos e politicagem, bem ao estilo de um balneário turístico carioca explorado por paulistas”, outro “asno eu”, ex-aluno de Belizário, autor de “Apontamentos ligados na expressão do ser”, capa de todos os cadernos de cultura dos mais famosos jornais brasileiros. Mais cedo, na livraria oficial do evento, o professor passou o olho na obra. “Que porcaria! Um pó e ema daqueles!” O que abre o livro e resume o estilo desse “asno eu” foi escrito sem a estrutura de versos e estrofes, linear como uma prosa, “um vômito”, segundo Belizário: “Para tantos, o bolso é a principal veia do nosso corpo. Em vez de sangue, pulsa grana, a entupir, soberbamente, esse acúmulo desregrado de significados, tapumes de um vazio personificado. Já por aqui, prefiro acumular hemácias saudáveis de um oxigenado coração que, em vez de grana, pulsa amor”. Por fim, um símbolo gráfico abaixo do último ponto, a simular um coração, o mesmo gesto popular que Belizário acaba de ver duas adolescentes dedicarem uma para a outra.

          — Professor! Professor!

          “Pronto. Mais um ‘asno eu’. Aliás, como proliferam em Paraty! Talvez seja a reunião anual dos postulantes à notoriedade”. Belizário nem lembra o que fez com o exemplar de “cópia da cópia da cópia da cópia da cópia da cópia da cópia” do “asno eu” que agora o importuna. Na introdução desse livro, considerado “uma bosta” pelo professor, o “asno eu” se desculpa: “CHEGA! Cansei de reproduzir o que já fizeram com palavras muito piores do que aquelas que já escreveram. O maldito círculo é o rumo em que estamos aprisionados! A reta já foi há muito, caralho!” Belizário, a fingir que não ouviu e a apertar o passo, capta, ao longe, um clássico de Gonzaguinha: “E a vida... e a vida o que é, diga lá, meu irmão...”

          “Quem é doido de dizer alguma coisa?”, distrai-se.

*

          Nalgum recôndito abafado da cidade que não dorme, um certo zumbi, que maltrapilha a avenida por vontade própria, aponta para Aisha. Com o dedo firme, sem emitir som algum, alerta, por empatia, os seus cães pensamentos: “Nunca se relacione com o suposto amor da sua vida. A liberdade é a maior farsa compartilhada historicamente, pois esta vida não é sua; quem opera são as coincidências e as armadilhas. Não se relacione, porque a carne é frágil e qualquer objeto pontiagudo pode cessá-la, a vida que se esvai fácil pelos vasos partidos das feridas. Nada, absolutamente nada, se sustenta à soberana decadência do extinguir-se”.

          Aisha esfrega o antebraço esquerdo e sente o calafrio. Pensa: “Eu estou aqui e não quero escapar”. O zumbi rebate, ainda na fábula do fluir em cacos e adesivos telepáticos, o alerta de si, das têmporas ao chão: “Por mais que rodeie, não há destino ou sina. É tudo pó! E não há água que aplaque a sede eterna em significar o algo, que nunca deixará de ser uma pretensa ilusão”. Aisha dá as costas ao zumbi e tenta se proteger, a elevar o volume do martelo na sua mente: “Eu sei que vou morrer! As pessoas são estradas, torrente consciência... Posso estar trêmula novamente, e até ficar suja e sedenta; mesmo assim, não largarei!” O zumbi, sem atravessar a avenida, na autoridade “do meu vazio cuido eu”, não vai atrás. Diante da síndrome “não sabe o que fazer, vai correr” espalhada por aí, ele prefere deixar o seu vazio assim, vazio. E, antes de voltar a sentir a terra da pracinha confortar as suas nádegas, esvazia o pensamento: “Acalme-se e se cale. Ouça. O deserto sopra, em progressão, o extermínio da coleção de todas as fugas estratégicas. Firme-se como uma raiz, suficiente”.

          “A temporizar o adeus.”

*

          Aisha, cuja especialidade é faturar em cima de mitos burgueses, passa no escritório da sua empresa, ao final do expediente. Nem todos os funcionários a conhecem, pois o deserto é amplo. Tem sede; o entrevero telepático com aquela pessoa secou a sua saliva. Quem mandou caminhar pela rua, mesmo com tantos recursos disponíveis? O estagiário Eugênio se aproxima do bebedouro, quer sondar opções para o final de semana.

          — Ainda bem que hoje é sexta!

          Aisha termina o gole. Lança o primeiro teste:

          — Já podia emendar com a segunda, não é?

          — Tá doida? E o final de semana? Trabalho a semana toda só pensando em curtir o meu descanso no findi!

          A empresária quer agredir.

          — Já eu trabalho a semana toda planejando a próxima. E essa é a diferença entre ser peão e ser patrão.

          — Vixe! Deus me livre! Eu quero é ser feliz!

          “Cuidado com o machado, Eugênio”, ela pensa, antes de responder.

          — E eu quero ganhar mais dinheiro ainda com a sua felicidade.

          Aisha intriga o estagiário a ser demitido, com os lábios finos e as misteriosas entrelinhas de um sorriso árabe.

          — E qual é a boa de hoje?

          Ele insiste.

*

          O céu da cidade que não dorme também não tem estrelas. Contudo, para o zumbi telepático, a lua continua lá, incomodando-o, porcaria que não serve, povoada de fábulas, lendas, projeções e suposições, ilusoriamente pregada no veludo negro da noite, a manchar o que seria o mar de estrelas com uma forma excessiva, a comprimir o ser na sua pequenez mortal e sem asas — desamparo ancestral de estar a sós e desprotegido na escuridão da ausência solar. “Para que cobiçar até a lua? Inútil metáfora”.

          As demais pessoas dormem no deserto. Nenhuma delas é viciada em crack, a contrariar a obviedade do reducionismo. Estão, naquela pracinha, pela falha no planejamento das carreiras, por desilusões amorosas e familiares, doença, solidão ou ausência. Ou o dinheiro acabou. Ou quebraram, por usura, incompetência, excesso ou descaso. Já o telepático está em situação de rua por vontade própria e tem o apelido de zumbi, porque não dorme e devora as carnes humanas a desnudá-las todos os dias, praticamente. Agora, na falta de um exemplar para o seu laboratório a céu aberto, sobra o destrinchar da lua — a moça árabe foi-se depressa demais.

          Lá de cima da porcaria que não serve, onde fica o reino das casas de asas, cai uma folha que leva um pedido. Surpreso, o zumbi observa-a descer, a bailar reflexos de uma crise suave, feita de um papel que não tem nome nem textura. Ele intui, sem palavras: “Aí em cima faz falta o aprendizado. As raízes, os erros e a respiração, esse balé do ar: inspirar para manter, expirar para imprimir a permanência”. A folha migra, como uma lágrima densa, que desce devagar, só para marcar que o seu percurso é precioso, o sofrimento original que não se basta no excesso do choro descontrolado, e sim na cadência homeopática da compreensão e maturação da chaga.

          O zumbi recebe a folha com o seu nariz. Cheira a mensagem, que exala:

“Lá embaixo, há uma casinha, que não era casa, e sim coisa minha. A minha grande vontade de voltar, correr, sujar, me... Sujar de barro, sentir-me íntimo da terra, que agora é sua, verdade absoluta, poeta de versos letais.”

          O zumbi tosse; dispensa os versos e choramingos dos senhores da sensibilidade. Ele sabe que a mensagem continua, mas o perfume se esvai com a zanga. O jeito é dobrar e colocar a folha no ouvido. Após o zumbido preliminar, algo como uma estática da queda de sinal televisivo, a fala surge, afiada, parece a língua dos elfos, timbre agudo como uma lâmina, e a esperteza das vogais que se reúnem, no segundo seguinte, num memento ritmado, revigoradas em um português claro:

“Lá embaixo, as perfeições morrem por imperfeições. Sem fronteiras, sem podas. Enquanto, daqui de cima, afogo-me no exato, óbvio, limite correto.”

          “Correto?”, o zumbi questiona. E tem fome. Interrompe a tradução auditiva e intui que a folha tem sabor de frutas silvestres, de algo doce vindo de plantações primordiais, nunca classificadas. Embola o papel que não é papel e o coloca, por completo, na boca, um banquete apreciado como uma pílula. Tem razão. Mas o sabor parece amora, e a língua saliva o final da mensagem que caiu lá de cima, do reino das casas de asas:

“Deus, como era bom ser humano, ousado, na ilusão de ser indomável, liberto, nunca adestrado às equações do juízo perfeito.”

          “Anjo burro. Não há liberdade. O livre arbítrio é uma mentira. Um por tudo, todos por nada”. O zumbi sente a barriga reclamar, o prenúncio de uma diarreia. Levanta-se do chão de terra da pracinha e pragueja ao céu sem palavras, apontando o seu dedo firme: “Você! Sim, você! Você que está sentado nas nuvens, venha até aqui e rasgue essa terra, pedaço por pedaço, até formar um nada além de matéria apodrecida, a parte mais reduzida, pilha recortada, micropartículas de átomos que são fragmentos de um falso sonho. Enquanto há o corpo físico, todos comungam com o óbvio, dia após dia; porém, se você rasgar, pedaço por pedaço, e formar a pilha do nada, eles nunca mais poderão voltar a ser um recorte inteiro e admirar os que estão sentados nas nuvens, e serem admirados por quem das nuvens quer cair, asno eu”.

          Uma mulher se incomoda com o alvoroço do colega zumbi e reclama:

          — Vá dormir, Belizário! Esse tá doido, doido...

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