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O banquete
Emmanuel Mirdad
Um homem corre. Um bando corre atrás, com pedaços de pau, soqueiras, canivetes e rojões. A camisa dele é de cores frias, diferente das cores quentes da turba uniforme. Ele tem um nome: Carlito Alarcón. Tem um rosto, preferências, trabalho. Parentes, mulher, amigos, mãe. É moreno, um chapaco da cidade de Tarija, sul da Bolívia. O bando, não; é apenas impulso, vômito, ação assassina. Sem rosto, sem indivíduos, inimputável.
Um homem e o seu erro: desgarrou-se da sua turba para telefonar. Individualizou-se. Tornou-se um alvo. Agora, corre. E acaba encurralado, por não conhecer a área dos até então adversários; agora, inimigos. Enquanto os times começam o embate da final do campeonato, dentro do estádio ali próximo, Carlito é surrado num beco, longe da interferência da polícia. Ele perde dentes, tem ossos quebrados, sangue no chão, traumatismo múltiplo. Antes do fim, alguém manda o bando parar no berro:
— Mata não, mano, agora não! Enfia a bandeira, quero ouvir os gritos.
Do alto de um prédio no fundo de um beco, uma pessoa se comove e decide agir: atira em direção ao bando, para salvar o boliviano. Um linchador cai morto. Outros disparos. Acerta a perna de mais um, o braço de outro. A turba recua. Mais tiros; desta vez, para o alto. O bando corre para fora do beco, em fuga. Carlito agoniza, mas está vivo e salvo da empalação final, graças ao desconhecido, que se torna o seu herói. Um herói que mata — alguém, que acredite na existência de um opressor onipresente, nomeado como “o sistema”, poderia questionar: “É herói quem mata?”.
Uma senhora telefona para o serviço de emergência. Outras testemunhas aparecem. A polícia, montada, chega no momento em que ninguém mais necessita.
Exceto o fotógrafo do jornal.
*
Carlito Alarcón recepciona a carga que o comparsa traz. O pedido havia demorado, problemas na estrada, muita chuva e buracos, terceirizados que desistiram do negócio, propina mais cara para os meganhas. Contudo, o que importa é que ela está intacta. Nenhum boliviano nem boliviana doentes, adultos, sem filhos, querendo trabalhar. Todos com um nome, um rosto, preferências. Em minutos, serão informados: trabalho escravo ou morte.
Pelo telefone, o advogado do contratante — que é dono de lojas de departamento e de grife — confirma os termos do novo acordo com Carlito, a atender à sua requisição pelo reajuste. Segundo o boliviano, ano novo, preço novo, a considerar a inflação do período e os custos para conseguir mão de obra escrava e manter a produção da fábrica ilegal de roupas a funcionar, livre de investigações.
No dia seguinte, Carlito vai com a esposa a um shopping, com o objetivo de comprar uma camisa do time brasileiro pelo qual escolhera torcer, pois a final do campeonato será amanhã, e ele quer estar vestido a rigor. Ao passar por uma loja na ala nobre, resolve adquirir apenas duas camisas, vendidas como “de marca”, mas que foram costuradas por conterrâneos escravizados. Carlito não desconfia da procedência.
Caso soubesse, pediria um desconto.
*
Ela se recusa a atender uma senhora, pois a avalia como mal vestida. “Odeio pobre, vai você.” Sempre que alguém entra na loja com alguma característica que fuja aos seus padrões estabelecidos de cliente ideal, a vendedora finge que não vê ou repassa a outro colega de trabalho, de forma explícita. Mal completara vinte e três anos, está com o peso bem acima do que deseja ter, o cabelo é colorido, os óculos, de aros grossos, exibe uma tatuagem da Mafalda na parte de trás da coxa direita e costuma reproduzir o mesmo discurso da ideologia que admira. Bate o ponto, feliz pela meta conquistada com um cliente michê, mais cedo, e dá uma risadinha de saída pelo amigo, que só conseguira empurrar duas camisas, das mais baratas, a um cliente que ela julgara ter “cara de pobre”, só porque é boliviano. “Eu que atendesse... Afff!”, pensa.
O expediente termina, e a vendedora sai do shopping a pé e sobe num ônibus, relativamente cheio para o horário. Dentro do mesmo coletivo, um jovem dá o seu lugar na cadeira para a senhora que fora avaliada como “mal vestida” mais cedo, e que segura uma sacola de compra apenas, pois tem de economizar desde que o marido falira. A situação está tão apertada que ela foi obrigada a se mudar para um bairro periférico e perder o status de dondoca — a ex-rica se sente fracassada e ressentida. A vendedora se segura, de pé, numa das barras do veículo, para não se desequilibrar durante o trajeto, e se enfurna nos fones de ouvido em volume máximo, pescoço voltado para baixo e dedos velozes, a conversar em dezenas de grupos e amigos virtuais no aplicativo do celular.
A senhora se ajeita para descer num ponto, recebe um pisão acidental no dedo e esbraveja vários palavrões antes de olhar a cara do algoz. Quando observa que é um homem com feição e forma do que o clichê classifica como “nordestino”, descarrega toda a sua frustração acumulada pela perda de poder num repertório de frases prontas, a incluir que “esse povo horrível” é o responsável por estragar “a sua cidade”, a trazer pobreza, falta de educação, drogas, prostituição, destruição da família e dos bons valores. E ela bate o recorde de acúmulo de culpabilidades por segundo, a enumerar diversas misérias humanas na conta do êxodo, enquanto executa o seu lento percurso do ônibus para a rua.
O homem, que é mesmo nordestino, de Catolé do Rocha, na Paraíba, não revida nem diz uma só palavra, a escutar todas as bravatas em silêncio. O seu carro está na oficina, e a bela suburbana, com quem vai se encontrar logo mais, recusara esperar até terça-feira, a intimá-lo. O único gesto que faz: coça a ponta da pistola na sua cintura. Por um breve assovio na mente, pensa em matar. Ou prender. Prefere o anonimato. O método: antes de cumprir um mandato, é preciso ter paciência, “mesmo quando tudo pede um pouco mais”, como cantou Lenine.
Apenas a vendedora não se inteira da confusão.
*
Ela desce no ponto compenetrada ao celular, sem olhar para os lados nem perceber o ambiente. Não há pessoas, nem animais, na rua — que, de dia, é movimentada por conta das lojas de ferragem e material de construção. Nenhum bar próximo. Silêncio geral. Ela se move para uma ruela adjacente, em que alguns postes estão com as luzes queimadas. E três carecas se aproximam por trás. O que possui uma suástica tatuada no cocuruto exagera a mão na pancada, e a vendedora apaga de primeira, a despencar no chão. Os homens chutam-na bastante, cospem, xingam, e o mais alto ainda faz questão de lhe esmurrar o rosto, deixando-o desfigurado. Ela não respira mais.
Antes de fugir, um dos agressores rouba-lhe o celular. Dentro do carro, a sensação entre os três assassinos é de dever cumprido. Chacotas. O aparelho passa de mão em mão. O mais alto dos carecas apaga as fotos da viagem que a vendedora fizera com a namorada para o litoral, como se pudesse excluir da existência a opção que tanto odeia, como se fosse possível exterminar bilhões de seres humanos. O careca da tatuagem na cabeça muda de assunto e combina o horário de ir ao estádio com os dois amigos; ansioso para a final do campeonato, beija o escudo do time para o qual torce fanaticamente.
A camisa que veste é de cores quentes.
*
O telejornal apresenta uma entrada ao vivo com uma repórter em frente a uma delegacia. Noticia o fim de semana violento na capital, chacina, acidentes de trânsito e um latrocínio com requinte de crueldade. A mãe da vítima rechaça: “Não foi roubo! Não foi roubo! A minha filha foi assassinada! Mataram a minha filha porque ela é lésbica!”. O diretor corta para o estúdio, e o âncora, com quinze anos de casa, emenda:
— A indignação dessa mãe é a de todos nós. Um absurdo viver neste país, entregue à corrupção e à violência. E o Governo não se mobiliza. Mas, agora, vamos falar de esporte, que é coisa boa, porque nós já temos um novo campeão. Veja, depois do intervalo, as cenas lamentáveis de violência antes da partida, as torcidas se enfrentando...
Na última eleição, sintonizado com as diretrizes políticas da emissora, sem precisar forçar a parcialidade por conta do emprego, o âncora votou no partido que, por muitos anos, fora governo, mas que, atualmente, se encontra na oposição. No estúdio, sacaneia o câmera 1, torcedor do time que perdeu o título, e bole com a produtora, a verbalizar que “se ela fosse mulher, ele a pegava”. Abalada com o que aconteceu à vendedora, desta vez não deixa passar:
— Vá se fuder, seu machista!
Camarim. Uma nova estagiária fica a sós com o âncora, pela primeira vez, num mesmo recinto. Ele é uma referência profissional para a jovem universitária da Faculdade de Comunicação. Ela, de família rica do interior, dá um presente, meio tímida, ao seu ídolo; considera-o um mestre, a completar quarenta e um anos naquele dia, embora não aparente. Ele abre a embalagem e faz questão de experimentar na sua frente. Tira a camisa e expõe o seu torso malhado, mas não veste a presenteada. Aproxima-se da jovem, quer agradecer — os bolivianos fizeram um bom trabalho, costura impecável, acabamento também, mas não tem como ele saber disso nem os parabenizar — e deixa a camisa na cadeira. Acaricia o braço da estagiária e sugere, com o timbre grave da sua voz, que, para ter uma carreira no jornalismo, é preciso ter padrinhos, quem possa zelar por ela, abrir portas, indicar, referendar. As carícias aumentam, a imprensar a jovem contra a mesa. Apanhada de surpresa, ela fica paralisada. Ele lhe aperta a bunda e tenta beijá-la. A estagiária reage e consegue se esquivar. Quer sair do camarim, mas o âncora a retém pelo braço. Exige que ela se acalme.
— Você só tá começando, tem uma carreira inteira pela frente... Não vai estragar, vai?
A estagiária consegue sair do camarim, não se contém e vai chorar no banheiro. A decepção: o âncora não poderia ter feito isso com ela, não o seu mestre, o ídolo. Enquanto isso, a olhar para a camisa, sem saber da coincidência, ele se lembra da notícia sobre a vendedora — que fora certeira ao indicar a cor do presente para a estagiária — e julga que, se ela tivesse sido forçada a transar com um “homem de verdade” para se tornar uma “mulher de verdade”, não teria sido morta.
Sem saber do que aconteceu com a estagiária, a produtora protocola uma reclamação contra o âncora no RH. A funcionária que a atende, revela que são muitas as denúncias, e ele continua impune.
— Ah, mas isso vai mudar!
*
Duas amigas, universitárias, dividem o mesmo apartamento numa zona nobre da cidade e gozam de uma liberdade que o interior nunca poderia oferecer: homens, drogas e bebidas, a alternar o uso e os tipos, dando para quem elas quisessem, desde que não fizessem muito barulho — para as amigas, os vizinhos nunca são confiáveis, e a discrição é que garante a farra seguinte. Modelos e modelos de paus diversos a explorar, zero de sentimento, a dispensar, com gosto, os que se tornavam moleques, a babar um amor urgente e descartável. Toda a intensidade dos vinte anos, e uma delas reclama do que considera uma bobagem: dar presente para o chefe. “Não é meu chefe, já te falei, pô, ele é o cara, meu mestre! E vou dar sim.” A amiga insinua que o que ela quer dar é outra coisa. Fica sem resposta.
Uma noite, a estagiária de Comunicação aceita a proposta da estagiária de Direito, e vai pegar uns tipos marginais, para flertar com o perigo, variar o tédio. Mais tarde, estão de volta ao apartamento, acompanhadas. O mais alto faz a amiga gozar muitas vezes. O que ela escolhera, que parecia o líder, com uma cara de mau mais eficaz, a figurar “cheio de atitude”, brocha a madrugada inteira. Chora, até. A jovem banca a terapeuta para tentar uma reação, a pensar no seu interesse de gozar, mas a paciência estoura, e bota o homem para fora. Pronto. A foto do careca, tirada quando ele estava em pé, nu, a chorar com os olhos cobertos pela mão direita, corre todos os grupos de universitárias e vários outros, e a estagiária não poupa o escracho: brocha, pau pequeno, moleque chorão, babaca e burro. Uma das universitárias sente medo e alerta que se trata de um nazista: “Se ele souber, vai atrás de você, vai se vingar...”. A estagiária desconsidera o aviso e continua a tirar sarro.
Um dia, ao chegar a pé, no portão do prédio onde mora, a jovem reconhece a suástica tatuada do careca, que está sentado de cócoras na calçada, cabeça enfurnada nos braços, à sua espera. Ele percebe o movimento e se levanta rapidamente.
— Desculpa aparecer assim, mano, sem avisar, é que eu quero mais uma chance, mano, não sou um merda. Você acredita em mim, mano?
A estagiária manda o careca vazar. Ele implora:
— Não conta pra ninguém, mano, por favor!
O portão é batido na cara. A resenha, imediata, com direito a foto do nazista desamparado na calçada, tirada sem ele perceber. Concentrada no deboche, a estagiária nem responde ao boa-tarde do senhor Otávio, o seu vizinho, dentro do elevador, que insere o gesto no balaio das reclamações: “esses jovens mal-educados, sem respeito aos mais velhos, é tudo culpa da dissolução da família, dos valores”.
Um assaltante armado rouba o celular que estava com o careca. O porteiro observa toda a movimentação e pensa:
“O bairro tá muito violento”.
*
Admirador de Ernesto Geisel, Otávio vai se encontrar com os amigos no clube para uma manifestação a favor da volta do regime militar no Brasil, marcada para a semana seguinte da decisão do campeonato — segundo a organização, ninguém pode concorrer com o futebol. O velho lamenta que o tempo está fechando; avalia que, pela forma das nuvens, vai ser uma tempestade. Otávio dirige o seu SUV, a enfrentar engarrafamento por engarrafamento. E o stress aumentando. A chuva começa a desabar. O asfalto parece sabão. O freio não segura a tempo. Um carro importado bate no fundo do utilitário de Otávio.
“Puta que pariu! Na chuva!” O velho cata o seu guarda-chuva e sai para verificar o estrago. O outro motorista é um homem, sem guarda-chuva, de terno. Otávio pergunta:
— Quem é o seu patrão?
— Como?
— Isso mesmo, não falo contigo, me dê o número do seu patrão.
— Calma aí, senhor, não entendi.
Sem olhar no rosto do outro, o velho brada pelo número e o compara a um animal. A chuva engrossa. A reação do homem é empurrar Otávio, que despenca na lama — e o acaso permite que nenhum osso seja quebrado, mesmo a padecer de uma osteoporose aguda.
— Seu racista filho da puta, vou te botar na cadeia! Você não sabe o que eu sou capaz de fazer!
O velho não reconhece o principal âncora do telejornalismo local. Otávio é erguido da lama como uma folha de papel. O homem o sacode, enquanto brada que vai chamar a polícia, que ele vai ser preso, “racista desgraçado”. O acidente engarrafa a rua, começa um buzinaço; pedestres e motoristas, mesmo na chuvarada, aproximam-se para assistir à confusão. Bem próximo, dois homens assaltam uma loja de grife numa galeria e correm. Dois guardas observam a movimentação, mas não seguem atrás dos assaltantes; preferem passar um rádio para a Central, a pedir reforço. Um motorista de entrega de correspondências, no veículo logo atrás da batida, torcedor do time campeão no último domingo, toma o partido do velho e se mete na confusão, a brigar com o âncora. Otávio aproveita para voltar ao SUV e foge. O motorista rasga o terno do adversário e toma uma sequência de murros, a cair na lama, desacordado. O jornalista se livra do resto do terno, da gravata e da camisa encharcada. “Passa o carro, passa o carro, anda, anda!” E o âncora se embola também com o assaltante, que se atrapalha, escorrega e perde a arma para o adversário, fugindo a pé. O outro bandido descarta a briga, só pensa em si e entra no importado, que está ligado; acelera, a derrapar a milímetros de capotar. O jornalista corre atrás, a atirar contra o seu próprio carro. No cruzamento, uma viatura permite que o importado passe e fecha para cima do atirador, que deixa cair a arma. Talvez por causa da chuva, a pistola do policial falha, e o âncora não leva bala — por ser negro e estar armado, é como se todos os seus direitos humanos fossem sumariamente cassados e ele pudesse ser imediatamente abatido; as estatísticas da violência expõem claramente a diferença de tratamento entre um branco, antecipadamente inocente, e um negro, imediatamente culpado.
O âncora é algemado com força e enfiado no camburão, a tomar alguns tapas de “cala boca, marginal!”, enquanto tenta explicar quem é.
Que se trata de um famoso da tevê.
*
Com o coração a ponto de um enfarto, Otávio não percebe a ferocidade da chuva e entra num alagamento. O SUV não aguenta. O velho está preso. A água começa a invadir o veículo. Em poucos minutos, forma-se uma enxurrada. Ele se ergue pelo teto solar e começa a berrar por ajuda. Um carro popular segue arrastado pela correnteza e colide com o utilitário. Os dois boiam juntos até bater numa divisória de pista e ficarem presos. O popular está esmagado entre o concreto e o utilitário, mas, de certa forma, está protegido pelo SUV, que começa a ser engolido pela enxurrada. Otávio consegue se erguer de novo pelo teto solar, a engolir muita água, balançando os braços, a implorar por socorro. Algumas pessoas se mobilizam para o salvamento. Numa loja de ferragens, arranjam uma corda e a amarram num poste, mas ninguém se dispõe a enfrentar a enxurrada.
Dois bolivianos, que não falam português, querem entrar na correnteza, sem pensar no risco. Nunca fizeram um salvamento antes, nem têm ciência de como fazer. Mesmo assim, amarram-se à corda e se jogam no perigo apenas por compaixão. Otávio está no teto do SUV, desesperado pela proximidade da morte, mas, ao avistar os rapazes, passa a incentivá-los aos berros, “venham logo!”, quer ser salvo, imediatamente. Quando os bolivianos estão próximos, já a tocar no utilitário, uma menina coloca a cabecinha para fora da janela, num espaço mínimo entreaberto no vidro do outro carro, e grita, entre lágrimas, por socorro. A mãe está desacordada dentro do popular. Os bolivianos e Otávio enxergam a menina. O SUV começa a tremer, a parecer que vai virar, descolar-se do outro carro e ser engolido pela água, a descer corredeira abaixo. Os bolivianos se questionam: o velho ou a menina?
— La niña!
Para este boliviano, a vida que mais vale é aquela que tem muito a viver, e não aquela que já vivera tanto. O outro concorda. E o utilitário começa a se desprender do popular.
— Não, seus miseráveis, me salvem, me salvem! Eu vou morrer, eu vou morrer, meu Deus!
Otávio desaparece na enxurrada.
*
O telejornal enaltece os dois bolivianos, com direito a entrevista ao vivo, na hora do almoço do dia seguinte, conduzida por uma apresentadora, fluente em espanhol — o âncora mais famoso está de licença médica. Maravilhados pela recepção do povo e da mídia, recebem dinheiro e promessa de emprego, e talvez até ganhem uma medalha do prefeito. Por um breve clarão da fama, esquecem-se de que são fugitivos da fábrica ilegal de roupas e estão jurados de morte.
O delegado destacado para a investigação do trabalho escravo na cidade desconfia dos dois bolivianos e os convoca; direto do estúdio de TV para a delegacia. Logo após o depoimento, a polícia estoura a fábrica ilegal de roupas — os escravizadores não assistem à tevê aberta e não tiveram como esvaziar a operação. Comandando a invasão, o delegado, que nunca teve receio em matar. Derruba quatro. Para ele, faz parte do heroísmo ter que matar alguém, ainda mais ao libertar centenas de bolivianos — serão deportados em breve. A polícia só não prende o dono da fábrica, Carlito Alarcón, porque ele está internado no hospital, gravemente ferido pelo espancamento do último domingo. Ainda. O delegado, paraibano de Catolé do Rocha, que um dia foi herói do alto de um prédio no fundo de um beco, é bastante paciente.
O celular vibra.
“Você vem hoje?”, a bela suburbana quer saber.
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