Israel Deodato
Emmanuel Mirdad
Eu não quero morrer. Os meus pedaços estão por todos os lados. A bomba me surpreendeu e explodiu antes de ser implantada, longe o suficiente do alvo, que não sofreu arranhão algum. Eu, o único que foi ferido. Ao redor, populares se aproximam. Alguns fingem compaixão. Outros estão perplexos. A maioria saboreia os suculentos “se fudeu, otário” e “bandido tem que morrer mesmo” que as expressões faciais nem tentam esconder.
A dor é muita. Onde estará a minha mão direita? Não sinto os pés. Quero gritar, mas preciso respirar primeiro. Puxo ar e sufoco sangue. Inspiro, de novo, e percebo que uma cratera está situada no meu dorso, pele queimada, órgãos expostos, sangue e fedor. Avisto urubus no céu. Questiono se são reais. Tento adivinhar os meus frangalhos. Há agonia e medo. Quero o meu corpo capaz, preciso de tudo que ainda pulsa para, quem sabe, sobreviver.
“Quer saber? Tenho nojo desse lixo. Bem que mereceu”. Deduzo que o homem à esquerda, de barba, a apontar com escárnio para mim, bufa o seu julgamento. É inútil, pois os meus ouvidos estão estourados. “O que ele pretendia?” deve ser o que a mulher, à frente, acaba de falar, pois parece que investiga os meus motivos. Cogito que essa curiosidade não é jornalística, e sim um disfarce para justificar a contemplação das minhas vísceras expostas e feridas.
Começo a tremer muito. Devo estar pior que um atropelado. Como foi que isso aconteceu? Fiz tudo tão certinho... Baixei na internet as informações sobre a construção da bomba e me entreguei com fé à missão de explodir a sede do partido que odeio. Odiamos. Muitos. O meu grupo. Milhões de pessoas, acreditamos. “Na falta do que amar, entupa-se de devoção”, Cacá me criticou, ao me reencontrar na rua, a desfilar com uma camisa de apoio à volta do regime militar no Brasil e com os olhos vidrados nos paraísos prometidos. Mais ainda: o amigo, ao ouvir de mim que somos milhões de patriotas, rebateu que nós não passamos “de uma minoria ridícula”.
Ao redor, nenhum dos meus. Onde estão? Vejo bodes, caranguejos, aranhas, uma ovelha. A experiência da morte começa a me preencher. Eu sou Israel Deodato. Afirmo, para não me esquecer. Alguém encosta em mim e tenta conter uma das hemorragias. “O erro é continuar caído”, lembro do meu tio, o louco da praça, a ler o que podia e a querer me influenciar com as suas ideias sobre a revolução. “Estradas são pessoas. Perpassadas uma a uma”. E eu preferi ter outras referências, outros ídolos, outra ideologia. Xingar desconhecidos na rede. Polemizar. Reproduzir o discurso pactuado. Opinar sobre assuntos que nunca dominei. Radicalizar, agir e destruir. Retomar o que é nosso.
Amoleço. A dor me leva para além. Fantasio que os fósseis vivos do meu crânio estão a poucos metros do alvo. A vida se escurece. Opto pela última visão, antes de apagar: encaro um velho que tenta interagir com alguém, dentre os que observam os meus restos. Aposto que visa a um discurso que comova pelo medo. Deve ter falado assim: “Tempos sombrios! São tempos sombrios!”
E quando foi que não vivemos nas sombras?
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