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Dez poemas de Ferreira Gullar no livro Na vertigem do dia



A alegria
Ferreira Gullar

O sofrimento não tem
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

                   A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
                        querem estar contentes.

--------

Digo sim
Ferreira Gullar

Poderia dizer
que a vida é bela, e muito,
e que a revolução caminha com pés de flor
nos campos de meu país,
com pés de borracha
nas grandes cidades brasileiras
           e que meu coração
é um sol de esperança entre pulmões
           e nuvens.

Poderia dizer que meu povo
é uma festa só na voz
de Clara Nunes
                           no rodar
das cabrochas no carnaval
da Avenida.
                   Mas não. O poeta mente.

A vida nós a amassamos em sangue
          e samba
enquanto gira inteira a noite
sobre a pátria desigual. A vida
nós a fazemos nossa
alegre e triste, cantando
          em meio à fome
          e dizendo sim
— em meio à violência e a solidão dizendo
          sim —
pelo espanto da beleza
pela flama de Thereza
                       pelo meu filho perdido
neste vasto continente
                       por Vianinha ferido
                       pelo nosso irmão caído
pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
                       pelo que virá enfim,
                       não digo que a vida é bela
                       tampouco me nego a ela:
                       — digo sim

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Subversiva
Ferreira Gullar

A poesia
quando chega
                        não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
                                Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
                                                relincha
como puta
          nova
          em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
reconsidera: beija
                       nos olhos os que ganham mal
                       embala no colo
                       os que têm sede de felicidade
                       e de justiça.

E promete incendiar o país

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Poema obsceno
Ferreira Gullar

Façam a festa
               cantem dancem
que eu faço o poema duro
                                      o poema-murro
                                      sujo
                                      como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
                       Bethânia Martinho
                       Clementina
Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente de Vila Isabel e Madureira
                                                        todos
                                                        façam
                       a festa
enquanto eu soco este pilão
                               este surdo
                                     poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
                       Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
                       o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
                       — e espreitam.

--------

Um sorriso
Ferreira Gullar

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
                      embaixo
                      te espetalas

quando
            com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
         que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
         que busco eu
                               em fogo
         aqui embaixo?
         senão colher com a repentina
         mão do delírio
         uma outra flor: a do sorriso
         que no alto o teu rosto ilumina?

--------

Morte de Clarice Lispector
Ferreira Gullar

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
E as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

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Traduzir-se
Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

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Homem sentado
Ferreira Gullar

Neste divã recostado
à tarde
num canto do sistema solar
em Buenos Aires
(os intestinos dobrados
dentro da barriga, as pernas
sob o corpo)
                       vejo pelo janelão da sala
parte da cidade:
                            estou aqui
apoiado apenas em mim mesmo
neste meu corpo magro, mistura
de nervos e ossos
vivendo
à temperatura de 36 graus e meio
lembrando plantas verdes
que já morreram

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O espelho do guarda-roupa
Ferreira Gullar

Espelho espelho velho
alumiando
debaixo da vida

Quantas manhãs e tardes
diante das janelas
viste se acenderem
e se apagarem
quando eu já não estava lá?

De noite
na escuridão do quarto
insinuavas
que teu corpo era de água

e te bebi
sem o saber te bebi e te trago
entalado
de um ombro a outro
dentro de mim
e dóis e ameaças
estalar

estilhaçar-se
com as tardes e as manhãs
que naquele tempo
atravessavam a rua
e se precipitaram em teu abismo claro
                                                         e raso

espelho
espelho velho

e por trás de meu rosto
                                      o dia
bracejava seus ramos verdes
sua iluminada primavera

II
Um homem
com um espelho (feito
um segundo esqueleto)
embutido no corpo
não pode
bruscamente voltar-se para trás
não pode
juntar nada do chão
e quando dorme
é como um acrobata
estendido sobre um relâmpago

Um homem com um espelho
enterrado no corpo
na verdade não dorme: reflete
um voo

Enfim, esse homem
não pode falar alto demais
porque os espelhos só guardam
(em seu abismo)
imagens sem barulho

III
Carregar um espelho
é mais desconforto que vantagem:
a gente se fere nele
e ele
não nos devolve mais do que a paisagem


Não nos devolve o que ele não reteve:
                o vento nas copas
                o ladrar dos cães
                a conversa na sala
barulhos
sem os quais
não haveria tardes nem manhãs

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A voz do poeta
Ferreira Gullar

         Não é voz de passarinho
         flauta do mato
         viola

         Não é voz de violão
         clarinete pianola

         É voz de gente
(na varanda? na janela?
na saudade? na prisão?)

         É voz de gente — poema:
         fogo logro solidão



Na vertigem do dia” está incluído em “Toda poesia” (Companhia das Letras, 2021), de Ferreira Gullar, donde esses poemas foram peneirados, páginas 302, 305, 282, 282-283, 294-295, 299, 280, 299, 288-289 e 303, respectivamente.

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