segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Modesta homenagem a um grande poeta

Dois meses se passaram. Tiganá Santana, meu grande amigo, fez esse lindo poema abaixo, "modesta homenagem a um grande poeta", em suas palavras, para o meu inesquecível pai poeta Ildegardo Rosa. O dia 13 é dia de saudade, pai. Obrigado, Tiga, eu li pra ele quando ainda estava consciente. E ele gostou muito, viu?


Uma Perspectiva, um Documento, o Tudo-Nada
Tiganá Santana

A hora é recurso inexato da organização...
o fio é a agricultura do gesto mais alto,
a inconfidência do poema preso que catapulta a veneração
de se ter inventado a vida, a comida, o não mais gastar os
sapatos.

Resta o que é para restar... a réstia, o magma virando água fria de açude,
o pau-de-arara a levar o último êxodo da emoção... ao que o campo fique limpo,
ao que a fresta se reduza,
ao que a crina se penteie pela carne do vento.

Que não se pergunte pela presença, nem pela falta... há um fio.
um fio de cobre de tecnologia e a retransmissão da palavra não dita.

Proceder no interior do motivo... a vastidão visitada pelo efêmero êxtase
do corpo coroado na placenta da calma ou na paixão da calma.

Não se é mulher, não se é coisa, não se é artista,
quando a noite passa e é singrada pela direção-flecha.

O fastio do espírito legado aos filhos enquanto experiência de uma
música que se dançou no salão do país, no vértice do município;
a experiência de habitar o buraco sempre inóspito de habitar.

Eram vários... agora só é um...
esperando a hora exata...

.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Glauberovsky Orchestra

Glauber Guimarães

Folk de um homem só, que toca violões, banjo, viola caipira, cavakelele, percussão, caixa de fósforo, trombone de boca, samplers e efeitos diversos, em gravações suas e regravações de grandes artistas (de Tom Waits a Edu Lobo, de Neil Young a Walter Franco) feitas em casa, no melhor esquema low-fi “faça você mesmo”, lançando-as em EPs disponibilizados gratuitamente na internet, sempre com capas e encartes feitos com esmero (em casa também), dando vazão ao artista que sempre foi, desde berço, e que andava meio escondido.

Mas tudo isso não importa mais que ouvir a sua voz inconfundível, ácida, sinuosa, dilacerante, uma atriz em diversas interpretações distintas, ao molde de experimentações intrigantes, transmutando o timbre em distorções e freqüências estranhas que não incomodam, mas atraem a contemplação para um lugar não-comum.

Glauberovsky Orchestra surgiu a partir de agosto de 2011, e continua, a cada novo lampejo criativo, restabelecendo nossa atenção a esse legítimo artista/voz/compositor que andava subaproveitado, e agora põe suas cartas na mesa, com facas.

É necessário ouvir Glauber Guimarães, a orquestra de uma palha de aço só.



Glauberovsky Orchestra
[2011]


Com 13 faixas, é o maior dos EPs lançados. Glauber tem a honra de gravar seu pai, Lula Carvalho ("Estradas e Sonhos"), e revisita Pink Floyd, Tom Waits, Edu Lobo, Bob Dylan e Beck, além de apresentar as fantásticas versões para "Bete Balanço" e "All You Need is Love", em que altera a melodia com uma propriedade artística fora do comum, fomentando o belissímo de forma imediata à 1ª audição.

De sua autoria, o folkman apresenta duas canções ("Trincando" e "Adieu"), um blues pequenino ("Escravo da Souza Cruz") e uma experimental 'fecha-álbum' ("Badito").

Tracklist:

01) Vento Bravo (Edu Lobo / P.C. Pinheiro)
02) Static (Beck Hansen)
03) Bete Balanço (Cazuza / Frejat)
04) Trincando (Glauber)
05) All You Need is Love (Lennon / McCartney)
06) Estradas e Sonhos (Lula Carvalho)
07) Escravo da Souza Cruz (Glauber)
08) Strange Weather (Tom Waits)
09) Você Não Me Conhece (Glauber)
10) Adieu (Glauber)
11) Paintbox (Richard Wright)
12) This Wheel's on Fire (Dylan / Danko)
13) Badito (Glauber)



Na Na Ni Na [2011]


O que "Burn" (clássico setentista que atravessou gerações do Deep Purple), "Human Behaviour" (primeiro single de sucesso da islandesa Björk) e "Coração de Luto" (toada-milonga do gaúcho Teixeirinha, grande sucesso nos anos 60) tem em comum?

"Na Na Ni Na"! Glauber lasca o cotovelo e conclui com uma vinhetinha escrota trollando a Chapeuzinho Vermelho ("Violência") e um samba-corno de radinho de pilha ("Tudo que Essa Nega Quer"), que poderia ter sido composto nos anos 30, mas só agora ficou de bem consigo.

Tracklist:

1) Burn (Blackmore / Coverdale / Lord / Paice)
2) Coração de Luto (Teixeirinha)
3) Human Behaviour (Björk / Nelle Hooper)
4) Violência (Glauber)
5) Tudo que Essa Nega Quer (Glauber)



Neuróbica Cha Cha [2011]


As versões funcionalmente recriadas para a psicodélica banda Superfine Dandelion (EUA 60's) e para os trovadores Neil Young e Chico Buarque dão o tom neuróbico a este EP dançarino de sensações, completamente sincado a alucinações diversas.

Eis que Glauber nos apresenta um EP bem redondo-espiral, com duas canções curtinhas suas muito fofinhas ("O Velho, o Garoto e Eu" e "Menino Bom"), enxotando seus fantasmas, o jingle "Hino dos Perdedores Sensacionais" (pra botar Beck no bolso) e a melhor canção de sua nova safra, "Patinsss", dedicada ao novo amor "a solução faz parte do problema".

Tracklist:

1) Don't Let it Bring you Down (Neil Young)
2) Vida (Chico Buarque)
3) O Velho, o Garoto e Eu (Glauber)
4) Patinsss (Glauber)
5) Menino Bom (Glauber)
6) Ferris Wheel (Mcfadden)
7) Hino dos Perdedores Sensacionais (Glauber)



Pequenos Frascos [2012]



Único inteiramente autoral, o EP "Pequenos Frascos" é uma coletânea com 10 faixas que tem menos de 10 minutos de duração. Posso estar enganado, mas tenho a impressão que é o álbum mais rápido da história da música contemporânea.

Para um apreciador de rock progressivo, é um desafio compreender o "Pequenos Frascos", pois com seus 8 minutos e pouco, parece uma faixa só. Mas quem sabe não é? Além das pequeninas faixas lançadas nos outros EPs (tem até uma do Teclas Pretas, o outro projeto de Glauber - a música "Simples"), o artista nos apresenta três novas: "Janeiro vs. Godzilla", "Tiaanna" e "Adhemar".

Tracklist:

01) Janeiro vs. Godzilla (Glauber)
02) O Velho, o Garoto e Eu (Glauber)
03) Tiaanna (Glauber)
04) Adhemar (Glauber)
05) Badito (Glauber)
06) Simples (Glauber)
07) Menino Bom (Glauber)
08) Você não me Conhece (Glauber)
09) Violência (Glauber)
10) Escravo da Souza Cruz (Glauber)



Mepalav [2012]


"Everybody felt the rain", ou seja, meia-palavra já basta e Glauber abre o EP com uma incrível versão para a cultuada The Kinks, "Rainy Day in June", que mal parece que foi gravada em casa.

No melhor esquema álbum sequencial, a excelente "Dopamina" (lisérgica versão em português da sua "Sad Clown") e o clássico "Eu e as Flores" (do mestre Nelson Cavaquinho) nos conduzem ao crepúsculo que a capa propõe.

"Entre um Trago e Outro" é a canção mais radiofônica da orquestra de um só Glauber, estradeira e viciante. E, como essa tem um tom claramente Lobão, o artista encerra o excelente EP 'caetanando' em homenagem ao amigo conterrâneo, linkando opostos similares.

Tracklist:

1) Rainy Day in June (Ray Davies)
2) Dopamina (Glauber)
3) Eu e as Flores (Nelson Cavaquinho)
4) Dopamina (incidental) (Glauber)
5) Entre um Trago e Outro (Glauber)
6) Livros (Caetano Veloso)



Uáu! [2012]


Após abrir seus EPs com versões para Edu Lobo, Deep Purple, Neil Young e The Kinks, Glauber apresenta sua melhor "abre-caminho", revivendo e resgatando do imaginário cancioneiro nacional a linda "Vela Aberta", de Walter Franco, gravada aqui com o tom psico-viajandão de gaivota que a música sugere.

Com "Uáu!", Glauber se arrisca mais, apresentando mais canções autorais que covers, com destaque para o potencial hit "Como é Bom Ter um Pouco de Paz" (feita em parceria com o amigo guitarrista Ricardo Flash) e a floydiana "Shhh..." - que, na parte 2, tem a participação especial de sua filha Clara.

Tracklist:

1) Vela Aberta (Walter Franco)
2) Working class Hero (John Lennon)
3) Shhh...(Glauber)
4) Sancho Panza (Glauber)
5) Como é Bom Ter um Pouco de Paz (Glauber / Ricardo Alves)
6) Shhh...2 (Glauber)



Banjobanzo [2012]


Nas palavras do criador, o EP traz "cansaço, esperança, tristeza, amor, dureza, leveza...como a vida mesmo". Mais extenso que os anteriores, "Banjobanzo" nos apresenta versões para clássicos de David Bowie, Beach Boys e Slim Rhodes and His Mountaineers, além de "Boss Inside", do contemporâneo folkman Adam Green.

Das autorais, Glauber apresenta quatro novas canções, apostando em ruídos ácidos, sons e melodias mais experimentais, e a presença nostálgica do banjo. Por fim, "Banjobanzo" dá espaço para o amigo músico Heitor Dantas debochar: "O que fazer de Glauber, Fabão e Heitor? Quem sabe enterrá-los no meio do jardim".

Tracklist:

1) Space Oddity (David Bowie)
2) Take and Give (Hesselbein/Rhodes)
3) Mundos (Glauber)
4) O que Fazer de Glauber Guimarães, Fabão e Heitor Dantas? (Heitor Dantas)
5) Convescote (Glauber)
6) Boss Inside (Adam Green)
7) Dia Primeiro (Glauber)
8) Vice-Versa (Glauber)
9) Be Here in the Morning (B. Wilson / C. Wilson / Love / Jardine)



Carnavácuo [2012]


Lançado nas cinzas da quarta-feira fim da folia momesca, "Carnavácuo" traz apenas 03 faixas, repleto de colagens e ambiências distintas, com uma pegada mais progressiva que os demais. Segundo Glauber, representa três fases distintas de sua vida, repleto de mensagens subliminares, indiretas e até mesmo diretaças, como na afiada "Fakeflores": “Fakeflores, sempre uns amores não passam de um pedaço de mera imitação da vida. E o que sobra depois?”.

Das três faixas (uma delas um medley de 11 minutos, o que ressalta o toque "progressivo" do EP, e contradiz a proposta do EP "Pequenos Frascos"), Glauber traz o clássico norte-americano "Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive", que já foi gravado por Ella Fitzgerald e Aretha Franklin, a sagaz "Augusta, Angélica e Consolação", de Tom Zé, além das autorais "Fakeflores" e "Naive". Salve a lavanderia glauberiana!

Tracklist:

1) Intro + Ac-Cent-Tchu-Ate the Positive (Glauber - Mercer/Arlen)
2) Augusta, Angélica e Consolação / Fakeflores / Naive / Estúpido Cupido (Tom Zé / Glauber / Glauber / Sedaka-Greenfield-Fred Jorge)
3) Quarta-feira de Cinzas (Glauber)




Após o vácuo do Carnaval, ainda em fevereiro, Glauber apresenta-nos o EP "Sol", dedicado a mulheres especiais de sua vida, pluralizando a sua obra, deixando nascer três belas canções autorais: "Balaustrada" (“Será que ela vem? ‘Se não vier, tudo bem’. Ah, tudo bem nada. A quem vou enganar?”), "Prontofalei" (“Meu skype é um deserto. A saúde, um boato. Ela tão longe, tão perto. E eu aqui, gato escaldado”) e a excelente "Colorado" (“Eu não creio em nada, nada além de Clara, ah, minha linda filha... quem dera também fosse clara, a vida”), que dialoga um filete cancioneiro com a eterna "Vapor Barato", de Macalé e Salomão. Completando o EP, duas covers distintas: "Drama de Angélica", da dupla caipira Alvarenga e Ranchinho, e "Like Dreamers Do", dos Beatles.

Tracklist:

1) Balaustrada (Glauber)
2) Prontofalei (Glauber)
3) Colorado (Glauber)
4) Drama de Angélica (sinopse) (Alvarenga / Barreto - adaptação: Glauber)
5) Like Dreamers Do (Lennon / McCartney)



Rediviva [2012]


Paulinho da Viola, George Harrison, MPB-4, David Crosby e o obscuro supergrupo britânico 60's de um álbum só: Blind Faith. E, é claro, uma do baiano GLAUBER-caixa-alta, "Ouça": "A vida se reinventa e o resto é com você”. Esse bolo doido de música brasileira + folk mundial você encontra no novo EP da Glauberovsky Orchestra, "Rediviva", o 10º e último da série produtiva do fotogênico Glauber Guimarães.

Tracklist:

1) Sea of Joy (Steve Winwood)
2) Ouça (Glauber)
3) Beware of Darkness (George Harrison)
4) A Lua (Renato Rocha)
5) Roendo as Unhas (Paulinho da viola)
6) Song with no Words (Tree with no Leaves) (David Crosby)

.