sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Programação das mesas literárias da Flica 2016



Site oficial aqui


Quinta 13/10

Mesa 1 – 15h
“Histórias da gente brasileira”
Mary Del Priore
Mediação: Jorge Portugal

Mesa 2 – 19h
“100 anos de Zélia Gattai”
Maria João Amado e Jailma Pedreira
Mediação: Mira Silva

--------

Sexta 14/10

Mesa 3 – 10h
“Do Éden à Finlândia”
Eduardo Spohr e Scarlet Rose
Mediação: Suzane Lima Costa

Mesa 4 – 15h
“A voz do autor”
Miltom Hatoum e João Filho
Mediação: Mirella Márcia

Mesa 5 – 19h
“O mar, um mapa, a audácia”
Ana Maria Machado conversa com Mônica Menezes

--------

Sábado 15/10

Mesa 6 – 10h
“Histórias de humor sutil, micromundos familiares e fratura generalizada”
Juan Gabriel Vásquez (Colômbia) e Antonio Prata
Mediação: Zulu Araújo

Mesa 7 – 14h 
“Exílios interiores”
Ana Martins Marques e Ângela Vilma
Mediação: Mônica Menezes

Mesa 8 – 17h
“As águas dos contrassonetos e os olhos da vândala insubmissão”
Conceição Evaristo e Alex Simões
Mediação: Lívia Natália

Mesa 9 – 20h
“Entre cidades atlânticas”
Kabengele Munanga (Congo) e Goli Guerreiro 
Mediação: Zulu Araújo

--------

Domingo 16/10

Mesa 10 – 10h
Caruru dos 7 Poetas na Flica

--------

Curadoria: Emmanuel Mirdad

Cinco poemas e três passagens de César Gilcevi no livro Os ratos roeram o azul

César Gilcevi (foto: Fernando Prates)


Infância IX
(o livro dos mortos)
César Gilcevi

reginaldo tomou formicida roberto tiro da polícia
ronaldo gauche endividado no amor & no baralho
rubens o morto virgem  sob os aguapés da pampulha
rosa cardíaca neusa infartada
euclides caduco gérson chagas
renato cabeça a prêmio por pedra penhorada

márcia sob as rodas do carro mirileide foi violada
lucas era bom no ringue mas punho não para bala
alice estava no lugar errado flávia na fila do sus
vinha eclipsou o ventre chico não teve escolha
preto chacinou o natal & se foi com o berro na boca

no início era o verbo
morrer


--------


Infância VIII
(o hóspede)
César Gilcevi

& de repente
nos demos conta
daquele hóspede ao pé da escada
gordo & inconfessável
como um crime antigo

ninguém (talvez os mortos que tudo veem)
o havia notado antes: a calva farta
aquele estranho broquel pendendo na lapela
traz os lábios paralisados num sorriso indecifrável
séculos curvam seus ombros mas caminha leve & resoluto
seu perfume cheira a bíblia velha
& tem os bolsos atulhados de perguntas
que ele distraído deixa cair pela casa

agora que nos conhecemos
não faz mais questão do velho recurso da invisibilidade
usado durante esses anos todos
diz que é cansativo
& lhe causa dores terríveis na têmpora esquerda

à vista de todos
se ergue intratável a cada amanhecer

alguns se tornaram íntimos (a avó caduca
passa o dia pedindo que a leve pra longe desses filhos
& netos ingratos)
outros fingem não vê-lo

é brincante com as estátuas
& as mulheres o perseguem desesperadas
ofertando pincéis & alguma nova & milagrosa química

à noite os cachorros ganem baixinho
dentro de sua branca insônia
somente os gatos o seguem bocejosos
os pássaros & as borboletas fogem
com um medo azul nas asas

pontualmente às três da madrugada
ele irradia um tropel enganoso no sótão

fato é que ele não mais vai embora
está sempre atrás de uma porta
arruinando a teia de uma aranha
aprisionando uma sombra no gramado
consolando a tinta gasta das paredes

às vezes sinto um arrepio no corredor
às vezes o vejo no fundo do quintal retendo a noite
negra & absurda do lado de fora
em outras o percebo
sussurrando desconhecidas mitologias
para o recém-nascido

diariamente um prato fica intocado na mesa
às vezes deixa alheios bilhetes suicidas em cima da cômoda
ou deposita um sonho bom em minhas retinas

às vezes pluma às vezes hipopótamo
sei-o aqui rente
ontem hoje amanhã sempre


--------


Cidade industrial
César Gilcevi

aqui as crianças já nascem
desmemoriadas do azul


--------


Infância VII
(little boy blue)
César Gilcevi

magrelo fodido
faminto fadado
poeta (na genealogia
só bandido pataxó pinguço
preto & pereba)

ao sair de casa
ao caminhar pelas ruas
ao entrar na escola
ao voltar pra casa
sob o céu
me guardam
o salmo 23

& o pequeno punhal (herança
do primo fugado assassino) escondido
na grácil cintura
dos meus 12 anos
envoltos em ódio roto tergal
& esperança


--------


Infância III
(sangue ruim)
César Gilcevi

I. clã dos silva

da parte do pai vinham os de pele escura & parda
índios pegos no laço ladrões d'além mar capitães do mato
idólatras do cobre da preguiça & das armas
malvivendo amontoados naquela casa pau a pique senzala
partiam para o leste sob a tutela da noche oscura
levavam na matula a bússola a meiota de cachaça
carcaças de pequenos animais
sapienciais pergaminhos: eis que vou agora dormir no pó
se me procurares pela manhã já não existirei

II. clã dos souza

os irmãos da mãe na fronte acuada traziam sardas
lixo branco escorraçado das terras de lund
lazarones no monturo do morro das pedras
ralé de pés rachados sonâmbulos na encruzilhada
malvivendo amontoados naquela casa adobe senzala
pico & cola arranhando as grades da alma
falavam uma gíria bárbara & cheia de fúria
:o terceiro mundo vai explodir quem tiver de sapato não sobra


--------


"nu pagão violento
dançarei pela cidade em desforra
convulsionando os oráculos os desígnios os elementos
cuspindo de volta o abismo
para dentro do homem"


"aparece nas noites mais improváveis
geralmente quando já estou bêbado ou louco ou triste ou
quando o asfalto o tédio o futuro empoeirado além-eras
já aleijaram meus passos hesitantes rumo ao quarto sublocado ou
já dilapidaram o que restava daquele mundo que um dia vi
em nós & que talvez se tornasse puro ou
quando já bati uma longa punheta pensando nela ou outra qualquer"


"era a época em que a lua parecia não nascer
& ela não me deixava dormir
descrevendo o bestiário imemorial à espreita
na escuridão
ouvia retinir cascos carrancas caudas bilioso
algodão represando as narinas do semovente cadáver
há muitos anos velado na sala

(...)

um dia ela trouxe campânulas agraços o vagido
do primeiro arco-íris
acorrentou tudo ao meu coração
disse que agora tudo ia ficar bem
que tinha ido ao rio da minha infância
& atirado nele meus mortos meu fundante
cansaço minha treva & aço"




Presentes no livro de poemas Os ratos roeram o azul (Letramento, 2016) - os trechos são de Neguinha, About a girl e Diana 35.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)


Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para trás?
pensarão em rodovias
aeroportos
postos de fronteira?
quando disserem
quero me matar
pensarão em lâminas
revólveres
veneno?
pois eu só penso
no mar


--------


Minas
Ana Martins Marques

Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridente
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia

Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais


--------


Tradução
Ana Martins Marques

Este poema
em outra língua
seria outro poema

um relógio atrasado
que marca a hora certa
de algum outro lugar

uma criança que inventa
uma língua só para falar
com outra criança

uma casa de montanha
reconstruída sobre a praia
corroída pouco a pouco pela presença do mar

o importante é que
num determinado ponto
os poemas fiquem emparelhados

como em certos problemas de física
de velhos livros escolares


--------


"sei que o que aprendi do mar não foi o mar
que só a morte ensina o que ela ensina
sei que é um mundo de medo de vizinhança
de sono de animais de medo
sei que as forças do convívio sobrevivem no tempo
apagando-se porém
sei que a desistência resiste
que esperar é violento
sei que a intimidade é o nome que se dá
a uma infinita distância"


"Pela força do desejo
o longínquo
aproxima-se um instante
até que a proximidade
recua
o próximo distancia-se
e pouco a pouco
avizinha-se a distância

Tão cedo era tarde demais"


"As casas pertencem aos vizinhos
os países, aos estrangeiros
os filhos são das mulheres
que não quiseram filhos
as viagens são daqueles
que nunca deixaram sua aldeia
como as fotografias por direito pertencem
aos que não saíram na fotografia"





Presentes no livro de poemas O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015), páginas 89, 40, 80-81, 78, 22, respectivamente, além dos trechos de O que eu sei (p. 82) e dos poemas das páginas 64 e 60, presentes na mesma obra.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Gustavo Felicíssimo no livro Desordem & outros poemas inéditos

Gustavo Felicíssimo (foto: Fausto Roim)


À posteridade
Gustavo Felicíssimo

Ocorreu-me de escrever
um poema à posteridade.
Um poema que assegure
a permanência do meu nome,
seja lá o que isso signifique.
Um poema tão claro e puro
quanto essa exclamação:
posteridade, vá se foder!


--------


Ladrando feito um cão
Gustavo Felicíssimo

Certo! Um dia verei Deus
com esses olhos que a terra há de comer.
O que face a face me dirá, não sei,
           mas lhe beijarei as mãos
           e tomarei a sua benção
como outrora fiz à minha mãe.
Então mostrarei o nome do seu filho
impresso nas paredes dos prostíbulos
e nas páginas de antigos livros
que unem e separam os homens.
Mostrarei tantos clamores inauditos,
os discursos pela paz mundial
            e aquele franzino Davi
montado em poderosos helicópteros
e tanques de guerra subjugando o seu irmão.
Estarei ladrando feito um cão
           e ele me lembrará
que a videira é seca, suja e torta,
que esse vale é feito de lágrimas.


--------


Hodierno
Gustavo Felicíssimo

Aqui, onde bárbaros viram heróis,
onde por vergonha ou medo
todas as vozes se calam
num delito coletivo e contraditório,
todas as solidões se proliferam
e os remorsos frutificam
silêncios cada vez mais vastos.
Os gritos no vazio se expandem,
mordaças são distribuídas gratuitamente
           e na mente do incauto
a aparente sensação de felicidade
enquanto o amanhã, por mais remoto que pareça
            ri da hipocrisia reinante
e abrolha nos comerciais de televisão,
Ah! Já não faço mais planos,
meu futuro é o tempo presente
gasto com tudo o que não possui serventia,
pois na ternura do abraço amigo
sou o anfitrião das coisas vãs
e vivo porque em viver não há mistério,
apenas uma perene solidão e seu perfume.
Existo pela palavra, resisto pela fé,
ouço a voz de um Deus a me amparar
como se ampara uma criança
enquanto, do meu carnal assombro,
me liberto da sombra que me encarcera
e canto a desimportância das horas
no imperecível momento de um verso.


--------


Conceitual
Gustavo Felicíssimo

Meu verso
nunca será livre
Será vivo
Pois ao poeta
     não cabe
o livre arbítrio
Meu verso
nunca será um grito
Antes, o silêncio
         com todos
         os seus ruídos
Nele, tão-somente
      o que pulsa
      o que se agita
      ou rumoreja
na folha alvíssima
     sobre a qual
     me debruço
     e padeço
Pois se o poema
     por inteiro
     me ofereço
cada verso será
sentido e delírio
Cada verso meu
será – mesmo –
um suspiro, apenas
E nada mais
Chega mais perto
leitor
          e ouve
o que nele habita


--------


Desordem
Gustavo Felicíssimo

Dois cães regem o homem:
            um, é tormento
            o outro, entusiasmo
Equilibrar esses dois cães
é questão de vida e morte
Dois cães
              quais
                        dois deuses
Qual deles será comigo hoje?


--------


"Outro chope, garçom
Sentimos sede porque a realidade é fuga
e fugaz o tempo se apresenta
Sentimos sede porque a realidade é crua
e terríveis os seus desdobramentos"


"Não sabemos das nuvens negras
             se faz sol lá fora
ou se enfrentamos nossa via-crúcis
navegando assim sem bússola
nos debatendo às portas da escuridão
e ainda sonhando cada vez mais alto
pois na memória esquecida
           os ausentes se confundem
fundem as vidraças dos velhos padrões
os velhos porões sucumbidos sob a noite
incerta de tantos escombros
            enquanto
nada muda a verdade no firmamento
ou dele se faz brotar evidências
o significado das coisas
e toda voz perdida sem saber o que dizer
           frente aos enigmas
que florescem diante da morte
esfinge do universo a igualar o ser"


"O que me exila me liberta,
lâmina que trago junto ao corpo,
faz vibrar as cordas de um violino
chamando os meus cães"




Presentes no livro Desordem & outros poemas inéditos (Mondrongo, 2015), páginas 43, 45-46, 61-62, 15-16 e 11, respectivamente, além dos trechos dos poemas Elegia para Alberto da Cunha Melo (p. 39), Elegia para Rimbaud 
(p. 34 e 35) e Canção do meu exílio (p. 49),
presentes na mesma obra.


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Seis poemas de Carollini Assis em O livro das palavras mal ditas

Carollini Assis (foto daqui)


Paixão
Carollini Assis

A dor do crucifixo
da mulher
roçando o pescoço
do amante.


--------


Noivado
Carollini Assis

Peço-te a mão.
Aceitas
uma punheta?


--------


Avó
Carollini Assis

– Vou me casar.
– Deus te abençoe.
(silêncio)
– Ele te bate, minha filha?


--------


Valença
Carollini Assis

Esse cheiro de peixe
que de mim exala
mesmo quando uso
Chanel nº 5.


--------


Chapeuzinho Vermelho
Carollini Assis

Enquanto seu lobo não vem,
visito o lenhador.


--------


Faz-me rir
Carollini Assis

Acreditei quando criança:
sapos viram príncipes.
Agora estou no brejo.







Presentes em O livro das palavras mal ditas (Mondrongo, 2016), páginas 56, 65, 38, 47, 39 e 16, respectivamente.




segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Nove passagens de Carlos Barbosa no livro de contos O chão que em mim se move

Carlos Barbosa (foto: Sarah Fernandes)


"O gemido da mulher eclode e mistura-se aos ruídos do motor, dos pneus no asfalto e do ar deslocado pelo ônibus em seu mergulho na noite. Um gemido que prenuncia tragédia, não dor passageira, pontada qualquer. E se faz choro espremido, nasalado, numa contenção que só a discrição da mulher sertaneja pode engendrar. Servílio apruma-se na poltrona e repara nas palavras que a mulher deixa escapar por entre lágrimas. Nem precisava. Compreende de imediato que o bebê morrera, estava morto, talvez, desde quando estivera em seus próprios braços."


"Com o bucho na boca, minha mãe montou uma égua e viajou doze léguas até o Bendiá. Lá, me despejou no mundo. Dias depois, meu pai teve que providenciar uma caixa de sapatos pro meu enterro. Que, obviamente, não aconteceu. O detalhe da caixa de sapatos, cujo número jamais soube, em urna funerária feita, sempre me espantou mais que o risco que corri de um dia morrer sem nadar no rio São Francisco. Nada espantoso pra minha mãe, no entanto, que dizia sem tremer a voz, ninguém achou que você vingaria, aquela coisinha miúda, magrela e desconjuntada, cabia com sobras na caixa de sapatos. A caixa voltou intacta pra seus sapatos ou pra serventia de guardar miudezas de seu dono, e melhor destino teve."


"(...) Saiam daqui! Sumam todos! É minha mãe quem está a morrer! Morro também eu-menino; tudo que representei para ela com ela se vai... Silêncio! Toda expectativa e desconforto da gestação, toda alegria e dor do parto, todo cuidado ao me limpar e banhar e alimentar por todos os anos de minha infância, todo remédio ministrado, a lista de minhas doenças, as datas de meus machucados, de minhas travessuras, todo curativo aplicado, minhas roupas costuradas e remendadas e lavadas e passadas, toda palavra dura de repreensão e castigo, minhas más-criações, toda palmada e todo beijo, principalmente todo beijo, todo meu preparo de gente, tudo em mim que reconheço bom e generoso, tudo de mim que não habita minha memória vai-se embora com ela, se perderá... Calem-se! (...)


"(...) Certos acontecidos guardam parelha com carro de boi em carreiro de canavial: avançam lentamente, rangem doridamente, parecem rejeitar o despejo final da carga e seus desdobramentos em melaço, álcool, rapadura e bagaceira, a propiciar doce e ácido, sustança e embriaguez em vidas desligadas da trama."


"(...) a morte parece chegar antes e marcar presença de tal forma que respirar torna-se tarefa pra muito esforço; constitui, assim, um peso solto no ar que pode desabar sobre o vivente a qualquer instante. A esquiva fica dificultada por esse manto funéreo não se tornar visível. E a inquietude se instala entre aqueles que podem pela morte ser eleitos ou indicados ao seu dispor pelo tribunal improvisado. Há os que saboreiam essa inquietude como se refresco fosse; há os que se apressam e precipitam a colheita; e há, ainda, os que insistem em reparar em frestas, em atalhos, em pedir água, raspar a garganta e reinventar-se humano."


"(...) há quem mantenha a posse de mais de duzentos desses cartões! Com as senhas! – dizem que isso garante sem falta mantimentos e remédios, aquilo de que mais necessitam os aposentados na vidinha deles, nessa ignorância doída que só!, sem os riscos de serem espancados ou até mesmo mortos que, para um cabra que tira dinheiro de aposentado, matar deve ser coisa trivial, mesmo que o idoso seja seu parente, difícil é saber nessa história quem mata o aposentado primeiro, o assaltante ou o falso tutor, pois é o mesmo esquema dos barracões das fazendas que mantêm trabalho escravo, o sujeito fica enredado nas contas, o dinheiro cada vez mais comprando menos, a dívida crescendo, o sujeito preso ao esquema, se escravizando. O governo inventa essas coisas de cartão, máquinas eletrônicas, senhas... será que fiscaliza o uso, apura o resultado? (...)"


"Arrasta a bruaca de debaixo da galharia derrubada. Ajoelha-se e desfaz o nó feito na tira de couro que fecha a tampa. Hesita em abri-la. Há, em volta da rude arca, uma aura de mistério, pressentido pelo velho no estranho gosto que sua saliva instala na boca. Um gosto de sangue como se tivesse mordido a língua. Não, não vou abrir essa bruaca, posso sentir no coração seu conteúdo, não vou abrir. E nela permanece sentado por longo tempo. Gostaria de se espalhar em raízes, galhos e folhas do mais bravio cansanção e plantar-se eternamente sobre aquele segredo, protegê-lo com sua copa e seu veneno da curiosidade humana, e desse modo enterrar o perigo contido ali, sim, pois conclui que o conteúdo da bruaca é perigoso, e angustia-se."


"(...) O pouco dinheiro que o velho possuía escoava a galope e Joana começou a temer prejuízo em sua bolsa murcha, não sei por que assumi esta missão, o povo fica olhando à distância, gostando de alguém ter se apresentado para o desencargo, ô raça!, e agora o velho não melhora, e não sei como vai ficar o atendimento das necessidades de comida e remédios se demorar mais esse catarro e essa moleza de corpo do infeliz, e no fim das contas ainda vão falar mal de mim, é sempre assim o pagamento da caridade prestada."


"Mulher não releva nenhum direito que possua ou que a ela se atribua. Homem é capaz de guardar direitos em sacolas velhas, enterrá-los no quintal e se esquecer por inteiro do lugar onde os reservou. Mulher os traz sempre à mão. Às vezes, pendurados no pescoço, nos braços, e os sacode na cara de qualquer um, a qualquer tempo, mesmo que a onça esteja a turrar no terreiro, ela brada seus direitos, exige a apresentação das mesuras e o desfiar das palavras do seu agrado, capazes de recompor sua condição latifundiária de ofendida; a onça que não avance muito em território alheio."





Presentes no livro de contos O chão que em mim se move (Penalux, 2016), páginas 43-44, 13, 64-65, 58,
25-26, 53, 105, 50 e 22, respectivamente.




Seleta dos contos

01) Corpo de mãe
02) O encontro
03) Queimada
04) Joana e suas cercas
05) Era uma vez o Bendiá
06) De volta ao Bendiá
07) Corpo de pai

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Ruy Espinheira Filho no livro Milênios e outros poemas

Ruy Espinheira Filho (foto: Joá Souza, daqui)


Soneto das mesas
Ruy Espinheira Filho

Convido os irmãos mortos para a mesa.
E mais o pai. E a mãe. E amigos tantos.
Não para reviver coisas de prantos,
pois horas dolorosas nesta mesa

não podem ter lugar. Tem a certeza
do amor com que bordamos nossos mantos
de dias já cumpridos e outros tantos
que são dos reunidos nesta mesa.

Os que se foram, eis que não se foram
de vez. E sempre vêm, quando os convido
ou não convido – jovens, sem tristeza.

Pai, mãe, irmãos, grandes amigos... Douram-me
a alma – enquanto aguardo, comovido,
minha vez de sentar-me à sua mesa.


--------


Brilhos
Ruy Espinheira Filho

Não muito natural despertar
na manhã aberta de verão
pensando que os brilhos se apagam.

Mas assim comecei hoje
e logo recordei uma amiga dizendo
com olhos úmidos
em saída de cemitério
que o que mais vira na vida
é tudo nos puxar para baixo
para o chão.

Disto me lembro e de um momento
em que tendo ouvido minha mãe comentar alguma coisa
e depois se afastar
meu pai murmurou para mim
num tom amargo
que ela estava envelhecendo.
Meu pai
que nem a viu mesmo envelhecer
pois que se foi muito antes
brilho de súbito apagado
não lentamente como se apagavam as fogueiras
                                                        [que ele acendia
em junhos antigos
e
bem depois
vindos de uma glória remota
os balões
(como uma resposta aos que ele fazia
e enviava ao desconhecido)
que desciam exaustos
pálidos
na noite silenciosa
e fria.

Penso nesses brilhos
e em outros
e todos se apagaram
ou estão se apagando
eu mesmo já me apaguei
muito
e continuo me apagando
como o brilho do perfume
do café
na xícara esquecida
sobre a mesa posta para
esta manhã em que se apaga
esta manhã.


--------


Simplicidade
Ruy Espinheira Filho

Prazer de ficar lendo,
ao longo da tarde,
um poeta simples.

Que não é menos complexo
do que um poeta complexo:
é que é complexo
de uma maneira simples.

Tão simples que os poetas complexos
não conseguem atingir sua simples
complexidade.

Procurando alcançá-la,
tornam-se cada vez mais apenas
complexos.
E então,
como não conseguem atingir a complexidade
de um poeta simples,
acusam o poeta simples
de simples simplicidade.

E assim ficam, com ares arrogantes,
destilando desprezo
pelos poetas simples.

E chegam a dizer até que não têm cabeça...

O que até pode ser verdade,
mas da mágica verdade da
Mula-Sem-Cabeça,

que,
não tendo cabeça,
solta fogo pelas ventas...


--------


Breve canção da caminhada
Ruy Espinheira Filho

Vamos todos caminhando,
entre o amor e a morte,
por sobre o fio da navalha,
sem sul, leste, oeste ou norte.

E vamos, da luz da infância
até a alma anoitecida,
buscando um sentido no
nenhum sentido da vida.

Que mais fazer? Ah, brindar,
entre o que tarda e o de súbito,
às vitórias sobre a morte,
até o último decúbito


--------


Hálito
Ruy Espinheira Filho

Desperto ao último
hálito da noite
que observo nos coqueiros lânguidos,
nos tímidos galhos da romanzeira,
nas nuvens já quase sem memória
das sombras.

Último hálito da noite,
desta que está acabando
de passar.

Sereno hálito, como espero que seja
o meu último
quando chegar a noite que jamais
passará.


--------


"Já pensei que poderia ter sido melhor
esse outro destino.
Que também poderia não ser
nada melhor.
Porque, na verdade, a vida,
seja qual for,
não dá garantia nenhuma
de coisa alguma."


"Mas vamos levando o barco,
desafiando oceanos,
pois o que sustenta a alma
sempre é a graça dos enganos"


"A vida é um bordado labiríntico,
ou pior,
um novelo que se enovela cada vez mais
e se mistura com outros novelos
de cuja existência sequer suspeitávamos
e que são,
enquanto durar a vida,
infinitos."





Presentes no livro Milênios e outros poemas (Patuá, 2016), páginas 19, 37-38, 63-64, 92 e 54, respectivamente, além dos trechos dos poemas Destinos (p. 120), Clepsidra (p. 21) e O último poema (p. 142), presentes na mesma obra.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Ângela Vilma no livro A solidão mais funda

Ângela Vilma (foto daqui)


Para Lívia Natália
Ângela Vilma

Tenho nesse corpo – aparentemente frágil –
uma raiz longa, úmida, selvagem.
Minha carne negra
vislumbra o que há de mais secreto
no céu:
a noite.

Sou maré alta, amiga. E também sou árvore.
Um bambu, cai não cai, e embora eu venha do rio
tenho o sal do mar no meu corpo magro,
assim como tens no corpo
o mar e a tempestade
das águas escuras do rio Gafanhoto
e do Paraguaçu: moradias de Oxum,
encobrindo o excesso de claridade
de todas as manhãs.

Temos as mesmas águas na alma
feita de peixes, marés, e pedras:
frenéticas, nos levam ao fundo
ao fundo
onde moram
os enterrados
vivos.


--------


Para Rimbaud
Ângela Vilma

A lua zombou amarelo nesse sol de setembro.
Meus braços se abriram negros para o amor
e a branca nuvem, que é a morte, me enlaçou.
A branca nuvem das ausências e escolhos
solapou o vermelho sangue dos sortilégios
amorosos, e o mais azulado fogo fátuo
das promessas. Eu grito em lilás, como as violetas,
com a tez viva, embora morta, e a silhueta
espiritual em cinza. Realmente, Rimbaud acertou:
o A é negro, profundo, abissal; eu sou.


--------


Para Rita Santana
Ângela Vilma

Vem, homem, deitar sobre "meus seios flácidos",
minha barriga percorrida por riachos e quedas d'água,
minhas carnes plissadas pelos tempos que passaram.
Tenho o escandaloso furor de mulher guardada
            [em convento,
e minhas roupas de baixo são o vazio de uma
            [luz de dentro
que esconde o que é mais duradouro.

Na minha pele, doidas celulites sensualizadas; um
            [trocar de pernas
de um lado para o outro, e uma virtude dessas rugas
embelezaram meu rosto.
Vem, homem, que sou a mulher que lhe banhará
com o sal grosso das marés.
Recolherá seu rosto no meu íntimo
mais côncavo, onde as ondas se escondem
atônitas


--------


Para José Paulo Paes
Ângela Vilma

Na imensa casa de meus avós, que desapareceu, há
insistentes fantasmas:

Uma jarra de copos de alumínio, com nomes gravados
em letras bordadas, sobre um pote encostado na sala.
Um rádio que falava a voz do Brasil em meio aos grilos
e canto dos sapos, como se detivesse a noite.
Uma cama de patente e seu colchão de mola, cheirando
à cerimônia.
Uma penteadeira com o retrato de um menino
gordo, de paletó e gravata, pintado em pincel, cores
esmaecidas, pois muito velho na vida aquele menino
           [estava.
Na outra sala, um guarda-louça e um oratório: santos
antigos, perdidos em sua fé com as caras
           [desbotadas.
Nos imensos quartos, uma vastidão de vazio e de gente
ausente que foi tudo para São Paulo.

Na cozinha, minha avó acocorada, pitando seu
cachimbo fantasma.

Tudo, tudo ali está morto, tudo ali morreu,
até minha caneca de tomar café com bolacha
           [e coalhada.
Meu avô desapareceu em sua bicicleta, numa das
curvas do mato; com o bolso cheio de bala: de mel e
amendoim, bala de roça, revestida de papel barato.
Nas costas ele levava um pacote de requeijão – que era
só de mãe, sua filha amada.

Minha avó assiste a tudo isso, com seu cachimbo
           [fantasma.

Nem mais carros passam ali, o mato tomou tudo; a
casa enorme e seu fogão de lenha, e as caçarolas de
alumínio, os vidrinhos de perfume, tudo tudo como
sino tocam com o vento da madrugada.

O fantasma de minha avó não se rende:
pita seu cachimbo, acocorada no nada.


--------


Para Ferreira Gullar
Ângela Vilma

Não vi quando enterraram Clarice
no cemitério judeu de S. Francisco Xavier,
mas eu estava, Gullar, do teu lado
e também vi os grandes olhos dela
resistindo à terra.
Dois grandes olhos abertos
vendo as nuvens, a vida e a morte,
principalmente vendo, a custo,
a enorme ingratidão do vento,
do vento que não se abaixava
à cova, a fim de refrescar-lhe
o rosto.


--------


"Ninguém mais chora,
nem se espanta.
Tudo virou apenas
curiosidade."


"Já fiz quase tudo a fazer nesse mundo.
Doei meu beijo e meu abraço mais íntimos
minhas roupas e meus sapatos, meus cabelos
doei ao vento, ao redemoinho, às tempestades.
Entrei na fuzilaria da morte, no muro
com a idade certa. Para que arrumar a casa?

(...)

Oh Patativa, como eu queria tuas rimas, tua pureza
tua inocência, tua vida eterna!
Sou nordestina ingrata, farta de vida íntima!
Nunca fui, não sou, nem serei, voz de nenhum povo
nem de minha voz, mouca, ínfima ilusão
a falar sem oitiva, recitando em silêncio
a solidão para mim mesma."


"O silêncio que aqui mora
é duro, e se houvesse pedra
            por aqui
            e não ferro

eu abriria a porta."





Presentes no livro de poemas A solidão mais funda (Mondrongo, 2016), páginas 38, 65, 54, 43-44 e 64 respectivamente, além dos trechos dos poemas Para Carlos Drummond de Andrade (p. 13), XI (p. 83-84) e Para Mariana Botelho (p. 16), presentes na mesma obra.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Mônica Menezes no livro Estranhamentos

Mônica Menezes (foto: Sarah Fernandes)


Do tempo
Mônica Menezes

                              Para Íris Hoisel e seu pai

meu avô
é uma cadeira de balanço
vazia


--------


Dos triunfos
Mônica Menezes

sou um fracasso para o sucesso
sou um sucesso para o fracasso

mas, quando eu nasci, o médico disse:
– por pouco.


--------


Poema de areia
Mônica Menezes

escrevi meu destino
na areia da praia
o mar apagou


--------


Relíquia
Mônica Menezes

levarei comigo
o retrato de nós dois
que não tiramos


--------


Semente
Mônica Menezes

quando eu nasci
enterraram meu umbigo
na fazenda do meu avô

os anos passaram
meu avô morreu
retalharam a terra
e eu parti para a cidade

mas até hoje
estou plantada lá
naquele chão vermelho
que nem existe mais


--------


"se eu pudesse
desceria ao seu abismo
para vivermos juntos
a escuridão"


"os pés, as mãos, os joelhos, o nariz
tudo é tão esquisito nela
os polegares pequenos
dificultam o entremear dos fios
o corpo verga-se facilmente
embora os ossos não suportem
que carregue a mala
infantil e invertido
o útero jamais se contrai
mas a criança nasceu
desfazendo a profecia

foi cega, louca, vidente
suicida
um dia, decidiu escrever outras histórias
mais estranhas ainda"


"há uma rosa escarlate
sob meu vestido
e dentro do meu silêncio
mora um grito"





Presentes no livro de poemas Estranhamentos (P55, 2010), páginas 44, 13, 28, 22 e 11, respectivamente, além dos trechos dos poemas De uma carta de amor (p. 34), Esquisita (p. 9)
e Artifício (p. 33), presentes na mesma obra.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dez passagens de Pepetela no romance A gloriosa família – O tempo dos flamengos

Pepetela (foto daqui)


"(...) No fundo, devo constatar, a única coisa que se acumula numa vida são as dúvidas."


"(...) Ngola Kiaito saiu dali muito satisfeito, pois até o governador reconhecia o valor do sábio Sukeko, os filhos da terra começavam a ganhar notabilidade. E trouxe o kimbanda em grande estilo, com um séquito numeroso de dançarinos com ngomas, marimbas e pandeiros, enquanto o Sukeko vinha numa rede transportada entre dois cavalos, o mesmo sucedendo com o soba. Os bailarinos davam grandes saltos, brandindo azagaias, apontando escudos de pede de antílope, imitando gestos guerreiros, numa prova de grande alegria pela honra feita ao incomparável kimbanda. Só que, ao tentarem atravessar o rio Lucala para entrarem na vila, foram cercados pela infantaria portuguesa e com alguns tiros foi afastada a multidão que os acompanhava. O kimbanda e o soba foram presos. (...) Sukeko foi para as masmorras. Vários padres falaram com ele, tentando doutriná-lo para renegar as suas práticas diabólicas. Mas Sukeko dizia com grande arrogância, não sei o que é isso de diabo, eu apenas curo as pessoas com os conhecimentos que tenho das ervas desta terra e ajudado pelos espíritos dos antepassados. Duas vezes lhe disseram para renegar as suas práticas e duas vezes ele disse que essas práticas realmente curavam. Vendo que não podia convencer o feiticeiro a abraçar a religião cristã, mandou o governador erguer enorme pira de lenha num alto junto da igreja de São Benedito, para queimar Sukeko na fogueira, como mandava a sagrada Inquisição. (...)"


"(...) a atracção do sexo é mais forte que o medo da morte, o que não deixava de ser muito optimista quanto ao futuro da raça humana. (...)"


"(...) Os brancos são mesmo engraçados, de tudo fazem um drama. Se um homem é apanhado em adultério, se desafiam para duelos, têm pelo menos de se ferir, senão o marido enganado deixa de ser considerado homem, é um miserável cão. Complicam enormemente as coisas, dá divórcio, depois é preciso saber com quem ficam os filhos e como vão dividir as propriedades e os bens, enfim, uma trabalheira. (...) Na terra da minha mãe é tudo muito mais fácil, o enganador apanhado em flagrante tem de pagar uma multa, que alguns chamam macoji, e pronto, com a galinha ou o cabrito entregue fica reparado o dano provocado na família. Continuam todos amigos, a paz reina. Se do acto nascer um filho, é pertença da casa onde nasceu, e o pai é evidentemente o marido da mulher. Quem pode mesmo saber se o acto provocou a gravidez? E porquê haveria a criança de pagar pelo erro dos outros, ficando bastardo como entre os brancos? Depois, eles é que são os civilizados..."


"(...) Os predikant bem tentavam imitar os papistas, com quem no fundo aprenderam. Talvez não chegassem a mandar os católicos para a fogueira, se os deixassem. Mas lhes tiravam a língua. Ora, o conde Maurício pensa de maneira radicalmente diferente. E nunca deixou que as razões religiosas interferissem na política de Estado. Sempre tentou separar a religião da política, o que é crime para um espírito estreito. Por vezes falhava, os predikant ganhavam uma batalha. Mas de um modo geral conseguiu manter a liberdade de crença para os católicos, o que foi importante para nos aproximar dos moradores. Como é que podíamos corrigir a política fanática e bárbara dos portugueses se agíssemos de forma fanática e bárbara contra eles?"


"– Como estrangeiro, não devia intervir na política local. Você mesmo o disso.
– Não está a perceber. Eu apoio o governador. Estou no meu direito, pois ele é a autoridade. Os outros é que não têm o direito de fazer política contra ele.
– Já percebi. Se é para defender o poder, é permitido ao estrangeiro fazer política. Mas se for contra o poder, então é proibido. Não é isso?"


"(...) E vi naquele crepúsculo trágico que caía sobre a cidade os soldados entrarem no colégio vazio, pilharem tudo o que puderam e depois trazerem papéis e mais papéis para o largo, onde os queimaram em verdadeiro auto da fé, pois eram escrituras dos demoníacos hereges calvinistas, os mais peçonhentos que há, adoradores do diabo, que conspurcam tudo o que tocam e por isso só o fogo pode purificar as coisas que as mãos deles seguraram, excepto as moedas, claro está, essas são benvindas porque imunes a todo o contágio, metais tão nobres como os corações da verdadeira fé. E vi o lençol de gravuras que era o mapa que desenhamos se contorcer em dores no meio do fogo criminoso, fogo que me queimava por dentro, labareda a labareda, mais destruidor que o do próprio inferno. Desconsegui de salvar o projecto e o mapa, meu pai, e a nossa cidade continuará a sofrer da sede, por mais quanto tempo? Séculos, respondeu Matilde. (...)"


"(...) a Companhia nunca viu com bons olhos o que se gastava com o estudo do país e com as obras feitas para melhorar o Recife. Era uma aldeia infecta no tempo dos portugueses, passou a ser uma cidade agradável de se viver. (...) Para os Dezanove, melhorar o modo de vida dos habitantes é esbanjamento inútil. (...) E ter um grupo de cientistas e de artistas para conhecerem e darem a conhecer as realidades do Brasil é luxúria. (...) Porque para a Companhia das Índias Ocidentais, a ciência e a arte estão a mais e os cientistas e artistas são parasitas, ociosos vivendo das migalhas dos poderosos. Para os Dezanove, a única ciência válida é a mecânica, que ajuda a melhorar o rendimento do trabalho, o resto é especulação, arte do demônio. (...) Pode uma colonização ser exitosa se feita apenas em função do lucro dos accionistas? Pode uma companhia colonizar sozinha um território? Não terá de haver uma política de Estado, concebida por políticos e não por comerciantes? Porque está é a questão essencial. Quem manda nos territórios é a Companhia. E esta só pensa nos benefícios dos accionistas, senão estes desistem, os capitais são aplicados noutra coisa."


"– Do que aprendi no Brasil, é chocante a maneira como os portugueses tratam os habitantes da terra, os negros – disse Marcgraf. – Pensam que não têm alma. É também a sua opinião que nós tratamos melhor os habitantes, senhor Van Dum?
– Sem dúvida, há outro respeito. Veja o meu compadre, Dom Agostinho Corte Real. É tratado com a deferência que um aristocrata merece. Os portugueses só não o venderam como escravo porque não puderam."


"– Não sei como é com os católicos, nem me interessa. A cerimônia com o padre foi apenas um estratagema. O que importa é que a sua filha me traiu. Acha que tem sentido manter um casamento, depois disso, só porque ele foi celebrado por um padre? Tenho de ficar todos os dias a reabrir a ferida, sempre que olhar para ela, ou a ouvir? Para satisfazer a sua religião, ou uma religião qualquer? Não, senhor Van Dum, o senhor não tem o poder de me obrigar a manter este casamento que já morreu.
– Tenho, sim. Vou mandar a Matilde voltar para esta casa. O que você pense não me interessa. Nem o que vocês façam por trás das paredes, até se podem matar. Mas ficam aqui a viver juntos, como um casal. Por isso casaram. E você tem de trabalhar para a sustentar. Portanto, o mais fácil é mesmo fazer a farsa à frente do major, para não perder o emprego. (...)"





Presentes no romance A gloriosa família – O tempo dos flamengos (Nova Fronteira, 1999), páginas 356, 154-155, 398, 161, 152-153, 273, 400-401, 151, 152 e 171, respectivamente.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Olhos abertos no escuro - Vídeos - Leituras de trechos pelo autor



O escritor Emmanuel Mirdad, autor do livro Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016), lê os trechos selecionados de cada um dos 30 contos da obra, em vídeos gravados por Sarah Fernandes em agosto de 2016, na cidade de Salvador, Bahia.



Não consegue visualizar o player? Clique aqui para ver a playlist.



#01 - Impermanência - Selvagem - Botox

Dois amigos conversam sobre a transitoriedade da vida | Moreno enfrenta uma barata cascuda na cozinha | A empresária Marília enfrenta o inimigo implacável: uma doença terminal, repentina e voraz.

Veja aqui




#02 - Deserto poema - Despedaço - Ingênio

As decepções do professor Belizário com a literatura e o encontro de um zumbi telepático com a empresária Aisha | Um profissional se fascina pelo pôr do sol. Outro, caminha desolado. Encontram-se, desabados | Um astro da música brasileira assume o fracasso de ser apenas uma caricatura "genial".
Veja aqui




#03 - Que seja duro enquanto sempre - Qualquer um - Vingança

O amigo sensato se encontra com o amigo de coração partido num bar de ponta de esquina | Qualquer um volta pra casa e percebe que é só mais um medíocre solitário na multidão de medíocres | O cadeirante espreita o gigante, munido de pólvora e chumbo. Veja aqui




#04 - Sereno aceitar - Alucinação - Ela não quis

Um solitário porteiro leva uma vida ordinária, até que um par de sapatos vermelhos importados provoca o fatal alumbramento repentino | Uma peça escapole do tabuleiro de dominó, iniciando a saga surreal da alucinação | Manuela, 15 anos, estudante. Davi, médico. Da sedução matreira da garota à proposta arriscada e cretina. Veja aqui




#05 - Cinzas - Amante - O Reino

Os seis dias de Carnaval de uma mãe solteira, duas filhas pequenas | As peripécias de um ser que atende às necessidades sexuais de diversas mulheres | O conquistador confronta um adversário mais viril e poderoso: os falos de pedra maciça da mãe Gaia.

Veja aqui





#06 - Absoluto - A farsa - Sem dó

A assessora de imprensa Madá esbagaça a sua vida por conta de uma obsessão | Ele é um grande canalha que finge estar só. Ela é uma atriz que pergunta o que nunca poderá compreender | Uma mulher disposta ao matriarcado que não consegue arrumar um companheiro. Veja aqui





#07 - Formigas - Hoje é sexta-feira 13 - Maestro

O velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, nobre e ilustre, à beira de um riacho, trágica | Um homem se torna extremamente sortudo no suposto dia do azar. Demais? | O mendigo Maestro é assediado para disputar as eleições, candidato-fantoche da vez. Veja aqui




#08 - Pássaros deliram - Play it again, Sam - Adonias Chumbo

O delegado Mauro caça o Monstro, um psicopata abominável, prolífico em sua matança desenfreada | A diferença da opinião pública quando se trata de uma assassina negra e o desencanto de um matador de aluguel | Um policial corrupto e o seu rolezinho aditivado para vingar o cunhado Pedra 90 e salvar a deputada caô. Veja aqui




#09 - Derrame - Farfalla Solar - Como uma pedra

O romântico nunca deixou de amar as mulheres que um dia declarou o seu amor libertário | A borboleta da carne e cor do sol é uma musa que flutua e embasbaca o pobre homem | O marido descobre a traição da esposa e resume a sua mediocridade numa obsessiva pergunta. Veja aqui





#10 - Fraseando - Brutalistas -
O barão do cagaço

Uma patrulheira de redes sociais destila a sua inveja em posts corretinhos | Para-raios de malucos brutalistas, todos girando no balão frágil | Um solitário ganha sozinho o prêmio de 47 milhões de reais. O que fazer? Quem procurar? Veja aqui


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Olhos abertos no escuro - Fraseando - Brutalistas - O barão do cagaço - Leitura de trechos pelo autor



Uma patrulheira de redes sociais 
destila a sua inveja em posts corretinhos.


Para-raios de malucos brutalistas: Cristal, Thiago, Andrômeda, Tavinho, Moloko Veloz, Mestre Ganja, Fuça-fuça, Peripinho, Xica, Virussapiens, Fantasma Comparsa, Carrapatos Suspensos, Mendigos Cheirosos e I’m tired, todos girando no balão frágil.


Um medíocre solitário ganha sozinho o prêmio de 47 milhões de reais. E, na noite da revelação, vai da euforia incontrolável à paranoia suprema. O que fazer? Quem procurar? Em quem confiar? Onde guardar o papelzinho de merda, única prova que dará acesso à vida de luxo e ostentação?



Não consegue visualizar o player? Clique aqui

Vídeo gravado em 27/08/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Os trechos selecionados foram esses aqui  |  aqui  |  aqui

Informações sobre o livro aqui

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Olhos abertos no escuro - Derrame - Farfalla Solar - Como uma pedra - Leitura de trechos pelo autor



O romântico nunca deixou de amar as mulheres que um dia declarou o seu amor libertário. De encontro em desencontro, o encanto de uma nova tentativa a livrá-lo dos desencantos da ilusão faminta, da reles possessão desesperada.


A borboleta da carne e cor do sol é uma musa que flutua e embasbaca o pobre homem da carne e cor do sol.


O marido descobre a traição da esposa e resume a sua mediocridade enquanto homem na obsessiva pergunta, a única que lhe interessa: "Vocês transaram?"   



Não consegue visualizar o player? Clique aqui

Vídeo gravado em 27/08/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Os trechos selecionados foram esses aqui  |  aqui  |  aqui

Informações sobre o livro aqui

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Olhos abertos no escuro - Pássaros deliram - Play it again, Sam - Adonias Chumbo - Leitura de trechos pelo autor



O delegado Mauro caça o Monstro, um psicopata abominável, prolífico em sua matança desenfreada, e uma esfinge extremista: não deixa pistas, impressões digitais e o intento de exterminar a humanidade.


Um pequenino exemplo da diferença no tratamento da opinião pública quando se trata de uma assassina negra e o desencanto do matador de aluguel Claudinho Tamagotchi.


Um policial corrupto e o seu rolezinho aditivado
para vingar o cunhado Pedra 90 e salvar a deputada
caô, sequestrada por quatro esfomeados canalhas.  



Não consegue visualizar o player? Clique aqui

Vídeo gravado em 27/08/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Os trechos selecionados foram esses aqui  |  aqui  |  aqui

Informações sobre o livro aqui

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Olhos abertos no escuro - Formigas - Hoje é sexta-feira 13 - Maestro - Leitura de trechos pelo autor



O velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, nobre e ilustre, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, que está surpreendentemente frágil, à beira de um riacho, trágica.


Um homem se torna extremamente sortudo 
no suposto dia do azar. Demais?


O mendigo Maestro, bem-humorado e carismático pensador, morador da calçada do açougue, é assediado para disputar as eleições, candidato-fantoche da vez.



Não consegue visualizar o player? Clique aqui

Vídeo gravado em 23/08/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Os trechos selecionados foram esses aqui  |  aqui  |  aqui

Informações sobre o livro aqui