sábado, 30 de novembro de 2013

Dedicatórias: Livros de Jessica Smetak, Carpinejar, Eduardo Bueno e Mariana Paiva

Livros de Jessica Smetak, Carpinejar, Eduardo Bueno e Mariana Paiva


2013 - "Walter Smetak - Som e Espírito" (ALBA/2013), de Jessica Smetak Paoli


"Mirdad, você apostou nessa biografia e sonhou com esse grande dia assim como eu. Você tocou essa pedra! Obrigada pelo apoio e orientação incondicionais. Você também construiu esse momento. Beijos, Jessica Smetak. 7.11.13"
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2013 - "Canalha!" (Bertrand Brasil/2008), de Carpinejar


"Cachoeira, 24/10/13. Para Boneco de Olinda, amado, a infância tem repescagem. Beijo Carpinejar"
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2013 - "Brasil Uma História" (Leya/2013), de Eduardo Bueno


"Pro Mirdad, aqui vai um mergulho no Brasil. Um abraço do Eduardo Bueno. Cachoeira 25/10/2013"
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2013 - "Barroca" (P-55/2011) de Mariana Paiva


"Para Emmanuel Mirdad, boa leitura! (e até que enfim!). Beijo, Mariana 25/10/13 (direto da Flica!)"
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Vamos ouvir: Opanijé

Opanijé (2013) - Opanijé




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Release disponível no soundcloud do grupo:

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OPANIJÉ

Dia 26 de novembro o grupo OPANIJÉ lança o primeiro disco da carreira, em parceria com o selo GARIMPO MÚSICA (www.garimpomusica.com.br). Com repertório formado em sua maioria por músicas autorais da dupla Lázaro Êre e Rone Dum-Dum o disco tem produção musical de André T, responsável por trabalhos importantes da cena musical (Pitty, BaianaSystem, Cascadura, Retrofoguetes).

O álbum chega com 14 faixas e as participações especiais de Ellen Oléria em Aqui Onde Estão; os rappers G.O.G., Aspri e Gomez na faixa Sangue de Angola e Gomez e X em O Que Eu Quiser; Orquestra Rumpilezz em Deus que Dança; Robertinho Barreto (BaianaSystem), DJ Márcio Cannibal e Sereno Loquaz na faixa Vamuinvadi; Heider Soundcista em Encruzilhada; e ainda contaram com o auxílio luxuoso do percussionista Gabi Guedes em diversas faixas.

Gravado, mixado e masterizado por andre t e produção executiva de Soraia Oliveira, na direção de arte e projeto gráfico Pedro Marighella com fotografias Filipe Cartaxo, o disco foi realizado através do apoio do projeto Conexão VIVO|FazCultura.

O grupo OPANIJÉ surgiu em 2005 com a proposta de fazer um estilo próprio de RAP com letras que exaltam a cultura negra e a ancestralidade africana. Formado por Lázaro Erê (voz e letras), Rone Dum-Dum (voz e letras)e DJ Chiba D(toca-discos). O grupo une o que existe de mais tradicional na cultura afrobaiana, como o uso de instrumentos percussivos, berimbaus e cânticos de candomblé, com o que há de mais moderno na tendência musical contemporânea, como samplers, efeitos e batidas eletrônicas.

O lançamento em streaming será feito no link: @garimpomusica. E, estará a venda também a partir da mesma data nas lojas digitais DEEZER e Itunes. O disco físico chega as lojas no mês de dezembro. Em fevereiro o grupo inicia a turnê de lançamento e divulgação do disco

CONTATO | DIVULGAÇÃO
Garimpo Música | Soraia Oliveira
garimpo@cadamacaco.com.br
(71) 3331.4351 | 9136.8224"

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 02 - O Drible, de Sérgio Rodrigues

Sérgio Rodrigues (foto: Bel Pedrosa - interferida por Mirdad)


"Aquilo a paralisou. Ela ia dizer alguma coisa, travou. Neto teve a impressão de que seus olhos negros ficavam ocos de repente, não vidrados mas vazios, como se o espírito tivesse escapado feito gás por um buraco abaixo da linha da visão. Ou da cintura. A consciência de ter acabado de desferir um golpe de violência ultrajante o desequilibrou ... Era a mesma sensação que tivera na infância ao matar a porretadas, indignado por ter sido arranhado de leve no braço, o filhotinho de gato amarelo encontrado atrás de uma moita do Parque Guinle. A vertigem de ter ido longe demais, de ter agido de forma atroz e já não poder recuar. A náusea de saber que viveria para sempre com a lembrança da carinha assustada do bicho. A consciência de ser um monstro. “Tudo bem, Gleyce, eu pago o aborto. Você vai na melhor clínica do Rio”"


"Sim, estava se aproveitando de uma vantagem socioeconômica para descolar sexo, mas existia alguém no mundo que, podendo, não fizesse isso? Que milionário ia abrir mão de traçar, digamos, uma bela universitária tijucana com base em princípios morais? Fazia tempo que a Realpolitik sexual tinha vencido o debate. Suave no pouso e na decolagem, Neto acabou se convencendo de que não só não fazia nada errado como fazia apenas o bem para as suas namoradas. Excluída a prostituição e a Mega-Sena, como poderiam aquelas meninas pisar no Quadrifoglio, degustar um Montes Alpha 2009, desfrutar de confortos mínimos que deveriam estar ao alcance de todos mas ainda eram exclusivos de uma minoria ridícula?"


"Na moldura da porta da cozinha ele começou a tremer de medo. A atriz de pornochanchada deve ter achado que fosse de tesão e não deixava de ser, eram as duas coisas e talvez uma terceira ainda sem nome. De repente a mulher estendeu os braços e seus olhos azuis o tragaram com a voracidade do mar na ressaca, rosto tombado para a esquerda como uma flor de caule partido, expressão dolorida de quem se enternece além o suportável diante de um gatinho abandonado.
Comeu Magda Vita em cima da mesa do café entre sacolas de Plus Vita e caixas de Kellogg’s, ela gemendo com hálito leitoso em seu ouvido:
“Ui, meu menino, ui, meu anjo, meu filhinho.”
Foi a primeira mulher que dividiu com o pai" 


"Foi o tempo das drogas e do sexo fácil, sem a culpa e o medo dos anos que vinham dobrando a esquina. Maconha era o mato de sempre e a cocaína estava no auge da fartura, mais barata que uísque no mercado carioca. A aids mal passava de um boato de mau gosto. O argumento politicamente correto de que consumir drogas é financiar o crime organizado dormia no limbo das ideias futuras. Somava-se a isso um sentimento coletivo de liberdade, subproduto eufórico e meio apatetado do fim da ditadura, ainda não contaminado pela desilusão que logo ia se revelar a fibra mais resistente do tecido democrático"


Sérgio Rodrigues
(2013 - Companhia das Letras)


"Alma não se lava no chuveiro"


"Os gemidos eram escandalosos: berros, uivos. Pensou em dar meia-volta, não deu. Permaneceu paralisado na sala por um longo tempo, com medo até de respirar enquanto a gritaria atingia o clímax e finalmente começava a decair. Langorosas, esticadas como notas de guitarra, as vogais de uma trepada que soava épica foram se quebrar feito espuma na barra de um silêncio arfante"


"Entre o fim da infância e o auge da adolescência, meio orgulhoso e meio horrorizado, Neto aprendeu pela imprensa a soletrar o rol das amantes de seu pai, uma por uma: princesas europeias libertinas, starlets americanas drogaditas, socialites de pescoço longo de Modigliani, filhinhas perdidas de general e brigadeiro em idade ilegal dadas a vomitar às seis da manhã sob a mesa do Hippopotamus, escritoras intoxicadas de Anaïs Nin e Shere Hite, atrizes do Zé Celso imunes aos desconfortos da depilação, atrizes de pornochanchada e de Tchékhov, capas de Ele Ela e Status, aspirantes às capas de Ele Ela e Status, psicanalistas reichianas, cantoras bissexuais" 


"E Gleyce Kelly foi no embalo. Neto desabilitou o áudio dela e ficou olhando para o seu rosto bochechudo de Goldie Hawn esquecida no forno ... Enquanto ela mexia a boca, Neto balançava a cabeça de vez em quando como se ouvisse mesmo a sua história, que no fim das contas não teria como passar de uma variação pouco criativa da triste história de abandono paterno e abnegação materna que um condicionamento bioquímico tão ancestral quanto besta levava a ser contada o tempo todo nas camas intercambiáveis do Shalimar, do Vip's e do Sinless"

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 02 - O Oco-Transbordo, de Tiganá Santana

Tiganá Santana (foto: Rodrigo Sombra - interferida por Mirdad)


"A espera detona os explosivos por não pertencer ao tempo. E, no que não pertence ao tempo, repassa-o às mãos da realidade"


"O rio talvez seja um caminho reverso arrumando a simplicidade das nascenças, a manutenção da prosa recuada, a permissão para lavar roupa que se limpa do trabalho. Um modo direto de aceitar a esquistossomose porque é o rio também uma fenda, uma ofensa que parece livre e descontrolada, acúmulo de água na pleura dos desertos"


"Três coisas hão de mudar: o rio, a causa e a cicatriz.
O primeiro, porque não regressa; o segundo, porque não segue e o terceiro, porque estanca.
... nada passa pelo corte.
ruptura da louça, da seiva e do que enverga"


"A roda não gira por ser ilusão; afeiçoa-se por ser amiga da morte"


Tiganá Santana
(2013 - Rubra Cartoneira Editorial)


"A ignorância de todos é o rio – não há o olhar em cheio – conforme a sua meritocracia e o seu arrependimento, conforme a fatalidade rica, descontínua, agnóstica"


"Sobram-lhe, ainda assim, fugidias,
certas tiras de independência tête-à-tête.
Nessas horas, o que é vivo
parece uma bola de buscas, parece a injustiça
face
ao cachorro raquítico ou a paciência da dissolução"


"Vai-se a lama e tudo o que dá chama de sangue
à avalanche"


"É preciso sair de onde se está, apunhalar, de frente, a vocação e tê-la informe, transfigurada, de melancolia, mas de fundo interino, de dutos, mas de opção por uma trilha em vez de outra"

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Pílulas: Mayombe, de Pepetela

Pepetela (foto: Internet - interferida por Mirdad)


O romance "Mayombe" do escritor angolano Pepetela tem um protagonista sensacional: o comandante Sem Medo. Primeiro, é um daqueles nomes perfeitos que alguém eterniza - Pepetela gastou essa ficha [como eu queria ter um personagem chamado Sem Medo!]. Segundo, que é um grande líder, firme, corajoso, companheiro e irônico, mordaz em críticas ao partido que segue, expondo o que interessa: a coerência. Sem Medo diz "Eu não posso manipular os homens, respeito-os demasiado como indivíduos. Por isso, não posso pertencer a um aparelho". 


Fascinei-me por Mayombe, é um dos livros que quero adaptar ao cinema, pois renderia um filmaço. Trata de um grupo de guerrilheiros do MPLA em prol da independência de Angola, mas também apresenta um sedutor triângulo amoroso. E muitos diálogos certeiros, como na "cena" em que Sem Medo questiona as intenções políticas do seu grupo com o segundo em comando, o Comissário. O comandante arrebenta: "Não acredito numa série de coisas que se dizem ou se impõem em nome do marxismo. Sou pois um herético, um anarquista, um sem-Partido, um renegado, um intelectual pequeno-burguês... Uma coisa, por exemplo, que me põe doente é a facilidade com que vocês aplicam um rótulo a uma pessoa, só porque não tem exatamente a mesma opinião sobre um ou outro problema". Abaixo as pílulas de Mayombe:



Parte I
Leia aqui

"Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez"





Parte II
Leia aqui

"O amor é uma dialética cerrada de aproximação-repúdio, de ternura e imposição. Senão cai-se na rotina, na mornez das relações e, portanto, na mediocridade"




Parte III
Leia aqui

"Sou é contra o princípio de se dizer que um Partido dominado pelos intelectuais é dominado pelo proletariado. Porque não é verdade. É essa a primeira mentira, depois vêm as outras"




Parte IV
Leia aqui

"Para os homens que apreciam a vida humana, que lutam porque apreciam a vida humana, camarada, é muito difícil ser-se voluntário para executar à punhalada um homem, mesmo que seja um traidor miserável"


domingo, 24 de novembro de 2013

Crônicas: Barquinho Amarelo

Outubro de 1985


Na legenda do álbum de fotos da infância, D. Martha [minha mãe] escreveu: “Salvador, 7/10/85. Aniversário de Mirdad de 5 anos na escola ‘Barquinho Amarelo’. Ele está aí com a 1ª paixão”. Na foto, me impressiona a cumplicidade do abraço, como a menina entrelaça confortavelmente seus bracinhos no pescoço do menino, e ele retribui o enlace com as mãozinhas em força, no típico entrelaçamento robusto de quem possui por amor. Primeira paixão. É algo tão remoto e inocente que nem restou o nome. Como você se chama? Quem é você? Aliás, o que você se tornou?


No poema “Amor à primeira vista”, a poetisa polonesa Wislawa Szymborska, em tradução de Regina Przybycien, diz: “Porque afinal cada começo é só continuação e o livro dos eventos está sempre aberto no meio”. Este trecho é lindo e de uma intensa verdade. A cada novo amor que a sorte e a persistência nos proporciona, continuamos o melhor do legado afetivo construído em parceria com quem passou por nós e leva agora a alcunha de ex-amor [no melhor dos casos, um amor e não ex].


É impossível considerar meus feitos ou apenas pedaços vividos na rotina e as melhores lembranças sem entrelaçá-los à importância afetiva de cada amor que vivi. Como digo no poema “Inhame”, cuja síntese me satisfaz plenamente: “Sou o mais chapado de todos: não bebo, não fumo, não cheiro, nem injeto ou dissolvo; eu amo”. Eu preciso amar, sempre. Sou a antítese do estar solteiro, não consigo, embora a coincidência force-me a tanto. As relações acabam, mas o sentimento não.


Nunca reduzi à condição de “esteja comigo” para quantificar se há amor ou não pela parceira. Isto é muito pouco; revela a face da posse como hábito de quem não está propenso à compreensão. Mas deixo que cada uma conduza o pós-relação da melhor forma que seja para si. E geralmente o resultado é bem doloroso para mim; uma porta é melhor tratada do que a depreciativa alcunha de ex.


Será que você foi bem amada? Sobreviveu sem sequelas emocionais às inevitáveis traições dos homens de vinte anos? Foi preterida por outra, abandonada quando tinha sido mais entregue, surpreendida pelos descaminhos que o destino soterra os sonhos a dois [quando a força do que deve ser feito é sempre mais importante que o delírio de estar junto a qualquer custo]? Ou se casou com um longevo amor lá de sua adolescência ou colégio/faculdade, transformando-se numa mulher de poucos falos, tediosa balzaquiana de passeio em Shoppings e prazer por chocolates?


E se hoje, quase trinta anos após o nosso primeiro encontro [fomos coleguinhas desde 1984], você estiver morta? Ou mãe de dois filhos? É possível, mãe ou morta. Considerando nossa sociedade baiana, a probabilidade de você ser uma visionária destemida, uma intrépida sangue no olho, focada em seus objetivos ou solta no mundo, uma admirável mulher dona de si com um vasto conteúdo e questões a responder, hetero ou lésbica, é muitíssimo pequena. Uma pena – perdoe-me pelo preconceito, é só o meu melhor desejo para que você seja feliz e uma linda mulher, referência de feminilidade e beleza.


Niver de Mirdad em 1985 na Barquinho Amarelo


A “Barquinho Amarelo” funcionava na Barra, no Jardim Brasil, próxima ao primeiro lugar que morei, Edf. Barraville, na Rua Florianópolis. Comecei minha vida escolar nessa escolinha, frequentando-a em 1984 e 1985, antes de seguir com a família para o Sul da Bahia em 1986. O tal aniversário de cinco anos foi uma festinha toda arrumada por minha mãe, a atenciosa e amorosa D. Martha. Não me lembro de porra nenhuma dessa festinha. Só restaram as fotografias.


Interessante visitar as fotos da infância perdida. São tantas crianças desconhecidas, sem referência alguma. Quem são vocês? Que crueldade à curiosidade não saber quem são vocês, quem vocês se tornaram! Será que já conversamos 20 anos depois? Será que já fechamos negócio e não sabíamos? Trinta anos depois, será que algum de vocês foi à Flica? Fomos parentes via cunhados? Ficamos numa balada qualquer, encontros casuais de bocas famintas?


Quase não me lembro de você, doce menininha, primeira paixão. Relatos familiares espaçados informam que meu menininho de três anos, há trinta anos [quase], fulminou-se de paixão desde o primeiro contato em 1984 – plenamente possível, sou um fã incondicional do sortudo e bem raro “à primeira vista”. A única lembrança que restou foi a glória de ter desfilado ao seu lado no sete de setembro: é a primeira memória cristalizada de amor vivenciado que guardo.


Doce menininha, que agora é uma mulher feita [ou morta], provavelmente com a mesma idade que tenho, nascida entre 1980 e 1981, perdoe-me pela exposição e constrangimento. O único sentido disto aqui é agradecer-lhe por ser a origem do meu primeiro afeto, que causou o vício confesso e interminável de vivenciar o amor em formas cíclicas, último romântico que sou. Como se diz muito na Bahia, valeu!


Trilha sonora desta crônica: Solidão nº 4  do pianista Vitor Araújo.



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Dedicatórias: Livros de Pepetela

Livros de Pepetela


2013 - "Mayombe" (Leya/2013)


"Para Mirdad, com a amizade e o reconhecimento pela maneira como me receberam na Flica. Pepetela. 26.10.13"
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2013 - "A Geração da Utopia" (Leya/2013)


"Para Mirdad, com o afecto e estima do Pepetela. 26.10.13"
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2013 - "Predadores" (Língua Geral/2012)


"Para Mirdad, com um abraço. Pepetela. 28.10.13"
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2013 - "O Planalto e a Estepe" (Leya/2013)


"Para Mirdad, com a amizade do Pepetela. 28.10.13"
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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 01 - O Drible, de Sérgio Rodrigues

Sérgio Rodrigues (foto: Bel Pedrosa - interferida por Mirdad)


"Muita coisa distancia vida afora pessoas que se contemplam sobre um abismo de vinte ou trinta anos – música, moda, política, costumes, tecnologia –, mas são praticamente indissolúveis os laços forjados na infância em torno das cores de uma camisa, do culto a ídolos vivos ou mortos, do frenesi terrível de se apertarem lado a lado entre milhares de seres humanos reduzidos a uivos primais, o menino de todas as épocas sentindo no estômago o pavor de ser engolido pela multidão e encontrando na presença do pai a segurança necessária para se perder em algo maior do que ele sabendo que, no fim da partida, fará o caminho de volta" 


"É de supor que esteja frustrado pelo gol que não conseguiu fazer, mas parece tranquilo, de uma placidez até arrogante de quem dá a entender que na verdade nunca quis fazer o que parecia ter querido fazer, que tudo saiu conforme o planejado e aquela impressão deixada em todo mundo – de que queria fazer o gol enquanto o tempo inteiro de sua intenção era perdê-lo por pouco, gravar no corpo coletivo da espécie a cicatriz desse “por pouco”, sabendo que ela queimaria mais que o gozo da realização –, aquilo era o drible definitivo, inconcebível, o drible em cima do drible em cima do pobre Mazurkiewicz"


"O futebol é cheio de planícies imensas, horas mortas como a que nós acabamos de ver. Um bololô de ruído, intenções que não se concretizam, acidentes, lances de sorte e azar. Nas horas mortas pode acontecer tudo ... O futebol só pode ser revivido em melhores momentos, editado, enxugado, porque é a expectativa de ver qualquer momento se revelar um desses melhores momentos que leva a gente a transpor seus desertos imensos. Se nós já sabemos quais serão eles, e quando, a seca nos mata de sede ... Sem a interrogação do futuro o futebol e a vida são de uma pobreza de bocha"


"Sem a nossa vocação doentia para a metáfora bombástica, o papo furado, o causo inverossímil, a gente não teria chegado tão longe. Mais de noventa por cento do público só tinha acesso ao futebol pelo rádio, e no rádio qualquer pelada chinfrim disputada em câmera lenta por perebas com barriga-d’água ficava cheia de som e fúria. A cada cinco minutos os narradores faziam um zé-mané qualquer aprontar um feito de deus do Olimpo. Claro que esse descompasso entre palavras e coisas era inviável a longo prazo, não tinha como se sustentar. E como obrigar a narração radiofônica a ficar sóbria estava fora de questão, restava reformar a realidade. Foi assim que o futebol brasileiro virou o que é: em grande parte por causa do esforço sobre-humano que os jogadores tiveram que fazer para ficar à altura das mentiras que os radialistas contavam"


Sérgio Rodrigues
(2013 - Companhia das Letras)


"O futebol é um grande produtor de lixo pop"


"Não é o pior pedaço. É a vida. O jogo normal. Futebol é assim: o caos ... Não é como o basquete, no vôlei, esses esportes em que a equipe mais talentosa e mais bem preparada faz valer sua superioridade noventa e nove por cento das vezes"


"A diferença entre vitória e derrota sempre teve muito de fortuito no futebol, isso explica as crendices no oculto ... A medida de caos que nunca deixa de reinar em campo mesmo quando os times são talentosos e organizados. O Nelson Rodrigues satirizou isso com o personagem do Sobrenatural de Almeida. O Zagallo, até onde eu sei, é o último remanescente dessa, hã, escola filosófica. Só que era tudo besteira, ou se não besteira, vá lá, mitologia, linguagem. Como um radialista chamando de proeza um lance banal: linguagem pura. O sobrenatural era um véu que o pessoal aplicava sobre a realidade, não a própria realidade"


"Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais a humanidade dormia tranquila. Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele não fez não é só o maior momento da história do Pelé, é também o maior momento a história do futebol. Você entende isso? A intervenção do sobrenatural, o relâmpago de eternidade que caiu à esquerda das cabines de rádio e TV do simpático Jalisco, 17 de junho de 1970?"


"A incrível história de Peralvo, o craque paranormal que sabia um segundo antes de todo mundo o que ia acontecer num campo de futebol e decifrava as almas que o cercavam a partir de um cardápio de cores mais variado que o catálogo de tintas da Suvinil"

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 01 - O Oco-Transbordo, de Tiganá Santana

Tiganá Santana (foto: Rodrigo Sombra - interferida por Mirdad)


"A morte
é o que a sinopse
não abordou"


"O instante é
puir a cera do ouvido para cheirar as vistas
enquanto o fogo circula a febre ou
a fuga dos espíritos"


"Fossem vitais os tecidos, não haveria rio,
que delonga a
emoção grossa do que é pisado
pelo peso ou pelo fato"


"Não há nada no mundo
que se importe com o mundo enquanto coisa extrínseca.
O rio, à noite, faz um sol esquecido do protagonismo"


Tiganá Santana
(2013 - Rubra Cartoneira Editorial)


"Das moradas que invadimos, uma se dedica a ser espaço, a segunda, à desordem; a mesma, à autotrofia ... Outras pontes conectam o corpo com o sumiço ... é sempre solar a estagnação sobre a sombra ... é sempre sombria a riqueza concentrada dum corpo mudo"


"O lacre é o que permite identificar a nudez em novelo, na rua, geminando as oficinas de filosofia. Pra quando se ocupa de fazer o próprio ânimo, a paisagem de extremos. O blues na navalha ou vadiagem que amplia, no berimbau, a árvore; ou então a lança restituída no imprensar-se pelas camadas de atenção, regresso e pândega"


"Na interioridade é tudo material e pensamento-transbordo. O engaste das fascinações, ordens comparadas e revelações bem argumentadas da mentira de viver"


"A técnica que incomoda a casa de adobe, que lhe inscreve as cinzas de fim de fogueira, do rio que lhe vaza o som"

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Pílulas: O Filho Eterno, de Cristovão Tezza

Cristovão Tezza (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


Demorei seis anos para chegar no romance "O Filho Eterno", de Cristovão Tezza, mesmo após ele ter levado, de uma só vez, os seis mais importantes prêmios literários do país entre 2007 e 2009. Mesmo após todo o mercado comentar, e catapultar o escritor à sina "(I Can't Get No) Satisfaction" pra toda sua vida - sempre onde for, em cada entrevista ou palestra que der, vai ter que falar sobre o incrível romance. Engraçado que dias antes de começar a leitura, dois escritores amigos, que tenho admiração pelo conteúdo e obra que empenham, menosprezaram o livro. Fiquei intrigado, pois o amigo Márcio Matos (que admiro também!) tinha feito uma louvação à obra que não me deixou dúvidas ser merecedora de tantos louros. Pois bem, encarei "O Filho Eterno" com o atraso digno de um Barrichello com a disposição de ver quem estava correto. Márcio tinha razão - endosso seu comentário no Facebook: "Livraço aço aço!". Seguem abaixo as pílulas, e que venha logo a adaptação cinematográfica:



Parte I
Leia aqui

"O nascimento é uma brutalidade natural, a expulsão obscena da criança, o desmantelamento físico da mãe até o último limite da resistência, o peso e a fragilidade da carne viva, o sangue – cria-se um mundo inteiro de signos para ocultar a coisa em si, tosca como uma caverna escura"




Parte II
Leia aqui

"O país teima, década a década, em não sair do lugar - quando se move, é para trás. Cruzadas medievais de reforma agrária, o modelo de massacre de Canudos como eterna inspiração da justiça e da polícia brasileiras, o vale-esmola como ponta de lança da política social do país. Um espírito de mendicância abraça a alma nacional - todos, ricos e pobres, estendem a mão; alguns abanam o rabo"



Parte III
Leia aqui

"A felicidade. Sempre sentiu medo dessa palavra, que lhe soa arrogante, quando levada a sério; quando usada ao acaso, gastou-se completamente pelo uso e não corresponde mais a coisa alguma, além de um anúncio de tevê ou uma foto de calendário"


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 04 - Mayombe, de Pepetela

Pepetela (foto: Internet - interferida por Mirdad)


"Quando um homem anda com uma pistola a gritar que vai matar outro, ninguém faz nada. É preciso que ele dispare para que se tomem medidas"


"Para os homens que apreciam a vida humana, que lutam porque apreciam a vida humana, camarada, é muito difícil ser-se voluntário para executar à punhalada um homem, mesmo que seja um traidor miserável. Eu vi as caras dos outros. Os maiores combatentes viravam-se para não ver, os mais duros combatentes tapavam os olhos com as mãos. E estas mãos, camarada, estas mãos espetaram o punhal na barriga do traidor e rasgaram-lhe o ventre, de baixo para cima. E o meu corpo todo sentiu as convulsões da morte no corpo do outro. Queres mais detalhes?"


"O soldado era um miúdo aterrorizado à sua frente, a uns quatro metros, as mãos fincadas na culatra que não safava a bala usada. Os dois sabiam o que se ia passar. Necessariamente, como qualquer tragédia. A bala de Sem Medo abriu um buraquinho na testa do rapaz e o olhar aterrorizado desapareceu. Necessariamente, sem que qualquer dos dois pensasse na possibilidade contrária"


"- Vocês falam tanto das massas populares e querem esconder tudo ao povo.
- Vocês, quem?
- Vocês, os quadros políticos do Movimento. Os que têm uma sólida formação marxista.
- Tu também a tens.
- Eu? - Sem Medo sorriu. - Eu sou um herético, eu sou contra a religiosidade da política"


"Há uns que precisam crer na generosidade abstrata da humanidade abstrata, para poderem prosseguir um caminho duro como é o caminho revolucionário. Considero que ou são fracos ou são espíritos jovens, que ainda não viram verdadeiramente a vida. Os fracos abandonam só porque o seu ideal cai por terra, ao verem um dirigente enganar um militante. Os outros temperam-se, tornando-se mais relativos, menos exigentes. Ou então mantêm a fé acesa. Estes morrem felizes embora talvez inúteis"


Pepetela
(2013 - Nova Edição/Leya)


"Quando há problema tribal, não vale a pena pensar quem é que tem a culpa. Se duma vez foi um que provocou, é porque antes o outro tinha provocado. Quem nasceu primeiro, a galinha ou o ovo? É assim com o tribalismo"


"Defensor verbal do direito à revolta, adepto da contestação permanente, abusa da autoridade logo que a contestação se faz contra ele"


"Eu quereria que na guerra a disciplina fosse estabelecida em função do homem e não do objetivo político. Os meus guerrilheiros não são um grupo de homens manejados para destruir o inimigo, mas um conjunto de seres diferentes, individuais, cada um com as suas razões subjetivas de lutar ... Eu fico contente quando um jovem decide construir-se uma personalidade, mesmo que isso politicamente signifique um individualismo"


"A certeza de que estava perdido foi tão grande que decidi que o Inferno não existia, não podia existir, senão eu estaria condenado. Ou negava, matava o que me perseguia, ou endoidecia de medo. Matei Deus, matei o Inferno e matei o medo do Inferno. Aí aprendi que se devem enfrentar os inimigos, é a única maneira de se encontrar a paz interior"

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pílulas: Canalha!, de Carpinejar

Carpinejar (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


Segundo a descrição no site do Carpinejar, a coletânea de crônicas "Canalha! - Retrato Poético e Divertido do Homem Contemporâneo" (Bertrand Brasil/2008), vencedora do Prêmio Jabuti de crônica de 2009, é "uma provocação desde o título. Um ato corajoso e irreverente contra os rótulos masculinos. Uma leitura divertida do homem contemporâneo, perplexo e desorientado com as transformações de comportamento e a dissolução dos papéis fixos familiares. O autor mostra que o canalha mantém o charme sexual, mas não é mais o mesmo apregoado pelo Nelson Rodrigues e tantos escritores da metade do século XX". Confira abaixo as pílulas de "Canalha!":



Parte I
Leia aqui

"Eu não me sinto sujo depois do sexo. Eu me sinto limpo, eu me sinto perfumado, eu me sinto enredado de nascimento. E não darei tão cedo minha memória para a água"






Parte II
Leia aqui

"Sua morte não me torna importante, nem sublinhará o que passamos juntos. Mas sua morte me transforma repentinamente em seu familiar. A morte é a intimidade que deveríamos ter criado em vida"

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dedicatórias: Livros de Cristovão Tezza

Livros de Cristovão Tezza


2013 - "O Filho Eterno" (Editora Record/2007)


"Ao Mirdad, neste ótimo encontro em Cachoeira, com um grande abraço do Cristovão Tezza. Cachoeira, 23/10/13"
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2013 - "Um Operário em Férias" (Editora Record/2013)


"Ao Mirdad, um operário da cultura sem férias, estas 100 crônicas escolhidas, com um grande abraço do Cristovão Tezza. 23/10/13"
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2013 - "Breve Espaço" (Editora Record/2013)


"Ao Mirdad, com um grande abraço do Cristovão Tezza. 23/10/13"
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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 03 - Mayombe, de Pepetela

Pepetela (foto: Internet - interferida por Mirdad)


"Eu não posso manipular os homens, respeito-os demasiado como indivíduos. Por isso, não posso pertencer a um aparelho"


"Não acredito numa série de coisas que se dizem ou se impõem em nome do marxismo. Sou pois um herético, um anarquista, um sem-Partido, um renegado, um intelectual pequeno-burguês... Uma coisa, por exemplo, que me põe doente é a facilidade com que vocês aplicam um rótulo a uma pessoa, só porque não tem exatamente a mesma opinião sobre um ou outro problema"


"Homens que trabalham há muito tempo juntos cada vez têm menos necessidade de falar, de comunicar, portanto de se defrontar. Cada um conhece o outro e os argumentos do outro, criou-se um compromisso tácito entre eles. A contestação desaparecerá, pois. Onde vai aparecer contestação? Os contestatários serão confundidos com os contrarrevolucionários, a burocracia será dona e senhora, com ela o conformismo, o trabalho ordenado mas sem paixão, a incapacidade de tudo se pôr em causa e reformular de novo"


"Afinal essa construção levará trinta ou cinquenta anos. Ao fim de cinco anos, o povo começará a dizer: mas esse tal socialismo não resolveu este problema e aquele. E será verdade, pois é impossível resolver tais problemas, num país atrasado, em cinco anos. E como reagirão vocês? O povo está a ser agitado por elementos contrarrevolucionários! O que também será verdade, pois qualquer regime cria os seus elementos de oposição, há que prender os cabecilhas, há que fazer atenção às manobras do imperialismo, há que reforçar a polícia secreta, etc., etc. O dramático é que vocês terão razão. Objetivamente, será necessário apertar-se a vigilância no interior do Partido, aumentar a disciplina, fazer limpezas. Objetivamente é assim. Mas essas limpezas servirão de pretexto para que homens ambiciosos misturem contrarrevolucionários com aqueles que criiticam a sua ambição e os seus erros. Da vigilância necessária no seio do Partido passar-se-á ao ambiente policial dentro do Partido e toda a crítica será abafada no seu seio. O centralismo reforça-se, a democracia desaparece"


Pepetela
(2013 - Nova Edição/Leya)


"Os homens serão prisioneiros das estruturas que terão criado. Todo organismo vivo tende a cristalizar, se é obrigado a fechar-se sobre si próprio, se o meio ambiente é hostil: a pele endurece e dá origem a picos defensivos, a coesão interna torna-se maior e, portanto, a comunicação interna diminui"


"O organismo vivo, verdadeiramente vivo, é aquele que é capaz de se negar para renascer de forma diferente, ou melhor, para dar origem a outro"


"Sou é contra o princípio de se dizer que um Partido dominado pelos intelectuais é dominado pelo proletariado. Porque não é verdade. É essa a primeira mentira, depois vêm as outras. Deve-se dizer que o Partido é dominado por intelectuais revolucionários, que procuram fazer uma política a favor do proletariado. Mas começa-se a mentir ao povo, o qual bem vê que não controla nada, o Partido nem o Estado, e é o princípio da desconfiança, à qual se sucederá a desmobilização"


"Um só homem excecional poderá mudar tudo? Então tudo repousará nele e cair-se-á no culto da personalidade, no endeusamento, que entra dentro da tradição dos povos subdesenvolvidos, religiosos tradicionalmente. O problema é esse. É que, nos nossos países, tudo repousa num núcleo restrito, porque há falta de quadros, por vezes num só homem. Como contestar no interior dum grupo restrito?"

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 03 - O Filho Eterno, de Cristovão Tezza

Cristovão Tezza (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Livre significa: sozinho"


"Seria bom se fosse simples assim, ele suspira: uma explicação, qualquer uma. O problema é justamente o contrário: não há explicação alguma. Você está aqui por uma soma errática de acasos e de escolhas, Deus não é minimamente uma variável a considerar, nada se dirige necessariamente a coisa alguma, você vive soterrado pelo instante presente, e a presença do Tempo - essa voracidade absurda - é irredimível"


"Simular que um gesto produzido pelo mundo da cultura é natural, autêntico, verdadeiro, uma expressão transcendente e inelutável, um fruto da natureza e não uma escolha contingente entre milhares de outras, pela qual somos responsáveis, é também a essência do messianismo. O messias, de qualquer tipo, é alguém que atribui ao próprio gesto, lapidarmente construído, uma naturalidade - quando não uma divindade - que ele jamais terá"


"O inesgotável poder da mentira se sustenta sobre o invencível desejo de aceitá-la como verdade"


"A felicidade. Sempre sentiu medo dessa palavra, que lhe soa arrogante, quando levada a sério; quando usada ao acaso, gastou-se completamente pelo uso e não corresponde mais a coisa alguma, além de um anúncio de tevê ou uma foto de calendário"


Cristovão Tezza
(2007/Editora Record)


"É isso. Levem o seu pacote, ela parece dizer, quando enfim sorri o seu sorriso profissional. Dizer as coisas como elas são: não reclame, ele se vê pensando. Você quer ouvir uma mentira, e isso a médica não tem para dar. Você quer um gesto secreto de piedade, disfarçado pela mão da ciência, e isso também está em falta. Há séculos as funções da vida já se separaram todas, cada uma em sua especialidade. O que ela tem a dizer, além de descrever cientificamente a síndrome, é o que você pode fazer pela criança, mas não espere muito disso; no máximo você vai tornar as coisas suportáveis. Você não é nem o único, nem o último" 


"Assim, em um átimo de segundo, em meio à maior vertigem de sua existência, a rigor a única que ele não teve tempo (e durante a vida inteira não terá) de domesticar numa representação literária, apreendeu a intensidade da expressão "para sempre" – a ideia de que algumas coisas são de fato irremediáveis, e o sentimento absoluto, mas óbvio, de que o tempo não tem retorno, algo que ele sempre se recusava a aceitar"


"A estatística é uma mera regulamentação do caos realizada numa sala escura por funcionários de má vontade"


"O riso desmonta – nenhuma tragédia sobrevive a ele. E oculta: o homem que ri não é visível. O riso não tem forma – ele dá a ilusão da igualdade universal de todas as coisas"

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 02 - Canalha!, de Carpinejar

Carpinejar (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"É triste encontrar um livro autografado no sebo. O desconsolo de ser recusado pelos pais biológicos. A dedicatória ingênua acreditando na leitura, alheia ao desprezo que lhe será reservada. A data e os nomes evidentes, mal sabendo que seriam revendidos como artigo anônimo. O volume repudiado volta idoso e frágil às livrarias, sem a arrogância de lançamento, aguardando a adoção em nome do preço baixo"


"Nada mais implacável do que perder a casa por falta de pagamento e baixar o olhar, impotente, aos filhos enquanto o oficial de justiça e os policiais empurram tudo para fora. No despejo, a única honra possível é recolher suas coisas antes dos estranhos ... Não importa o grau de instrução, na dívida se é um iletrado. Um inconsequente. Um irresponsável. O devedor pede desculpa já no café da manhã. Nada mais implacável do que não contar com uma sombra familiar para repartir a inquietação ... Nada mais implacável do que recuar produtos na esteira no mercado, escolher entre o essencial e o essencial, para chegar a um valor suportável"


"Quem censurou a casca de amendoim não entende o tamanho da ansiedade do intervalo entre o primeiro e o segundo tempo. Não tem filhos para repassar a arte de quebrar amendoim durante o ano. É uma arte sucessória, para que a criança não passe vergonha ao enfrentar as nozes no Natal. Quem censurou a casca de amendoim não entende a gravidade de uma derrota no domingo para regressar ao trabalho na segunda-feira. É necessário amassar o pão antes que o Diabo o faça"


"A verdade humilha. Para fugir dela, jura-se pelos amigos, familiares, por Deus e por tantos santos para convencer da mentira. É uma persuasão sem caráter, desesperada. Não haveria problema de jurar por si, porém não é suficiente. Mente-se pelo bairro inteiro para escapar da responsabilidade. Aquela declaração sincera que não aconteceu se converte em um sequestro. Além da ausência de franqueza, será preciso explicar o fato de botar tanta gente jurada em risco"


"Sua morte não me torna importante, nem sublinhará o que passamos juntos. Mas sua morte me transforma repentinamente em seu familiar. A morte tem disso: de aproximar telepaticamente quem se viu uma ou duas vezes. A morte é a intimidade que deveríamos ter criado em vida"


Carpinejar
(2008 - Bertrand Brasil)


"Pantufas são fraldas geriátricas nos dedos"


"As mulheres têm o direito de deslocar sua data de nascimento; elas são as idades que imaginam"


"Enquanto me provocam, estou certo de que estamos bem. Posso ser consultor amoroso fora de casa; dentro de casa sou o último a ser consultado. Em minha família, são todos contra mim, inclusive eu"


"A poesia não pergunta sua ocupação, ela pousa"


"A megera é incapaz de falar ‘Tudo bem?’; logo, pergunta ‘O que foi?’"


"Ai de quem surgir de repente apertando o interfone e interromper o sono, a janta e o jogo de futebol "Como é que não ligou?", reclamarão os anfitriões. Ele será massacrado de indiretas ou provocará uma discussão de casal ou os residentes fingirão que não há ninguém ... Ai de quem desejar pedir ajuda e conselho, ai de quem contrai uma pontada súbita de desespero e parte com suas pernas ingênuas em direção ao endereço de um nome mais leal. Ai de quem depende dos olhos nos olhos de uma companhia para se ouvir melhor. Ai de quem sofre de um amor separado e de solidão no fim de semana e está prestes a se matar. Antes os amigos ajudavam com os problemas, hoje os amigos são vistos como os problemas"

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 02 - Mayombe, de Pepetela

Pepetela (foto: Internet - interferida por Mirdad)


"É isso o amor. Manter a ternura pelo mesmo homem, embora se deseje outros a momentos diferentes"


"O amor é uma dialética cerrada de aproximação-repúdio, de ternura e imposição. Senão cai-se na rotina, na mornez das relações e, portanto, na mediocridade. Detesto a mediocridade! Não há nada pior no homem que a falta de imaginação. É o mesmo no casal, é o mesmo na política. A vida é criação constante, morte e recriação"


"Há mulheres que podem ser conhecidas do exterior, as atitudes correspondendo à maneira de ser. Outras só podem ser estudadas na intimidade, no modo como se entregam, quais os centros de prazer, quais as defesas que se forjam"


"Viver duradoiramente com uma mulher, respeitar os seus desejos, confrontá-los com os meus, procurar um compromisso quando os desejos são divergentes, aceitar que ela decida, como eu, sobre os pequenos e grandes problemas, tudo isso hoje me é difícil. Tornei-me demasiado independente. Para continuar a fazer uma vida independente, mesmo casado, então não vale a pena. Prefiro a independência duma vida e a dependência duma noite, de vez em quando. A menos que apareça a mulher excecional, aquela que só aparece uma vez numa década!"


"- Tu és o gênero de homem que as mulheres gramam. Tu passas por elas, indiferente e altivo.
- Isso é uma declaração de amor?
- Não.
- Ah bom! Senão fugia já!"


Pepetela
(2013 - Nova Edição/Leya)


"Demasiado seguro de si, fora isso que a irritara quando se conheceram. Vencera-a com a tranquilidade de quem está habituado a vencer e já não dá importância à vitória. Ao pé dele, Ondina sentia-se uma garota intimidada, precisando de se salientar para chamar a atenção sobre si. O desafio contra ele tornara-se impossível, o duelo não tinha sentido: Sem Medo não se prestava a ele, não por receio, mas por desinteresse pela conquista. E, no entanto, Ondina pressentia que Sem Medo a desejava e que sentia mesmo ternura por ela"


"Caim não matou Abel por causa duma mulher? Tentou recordar a passagem da Bíblia. É possível que na Bíblia isso não venha expresso. Mas é evidente que uma mulher esteve na origem do crime"


"Fizeram amor uma, duas vezes, ele sempre desajeitadamente. O Comissário convencia-se que ela não tinha prazer e perdia-se em divagações, auscultando as reações dela, sem se entregar realmente, e sem gozar. Ela sentia-se espiada e deixava de gozar: o orgasmo era um resultado mecânico dum ato maquinal. Mentiam-se depois um ao outro, dizendo terem tido um vivo prazer. Cada um sabendo que o outro mentia. Ondina não ousava falar desse problema, pois o noivo ficaria chocado: ele não permitia que se formasse a verdadeira intimidade dos amantes que podem falar naturalmente, sem preconceitos. Eram noivos, não amantes"

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 02 - O Filho Eterno, de Cristovão Tezza

Cristovão Tezza (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"O país teima, década a década, em não sair do lugar - quando se move, é para trás. Cruzadas medievais de reforma agrária, o modelo de massacre de Canudos como eterna inspiração da justiça e da polícia brasileiras, o vale-esmola como ponta de lança da política social do país. Um espírito de mendicância abraça a alma nacional - todos, ricos e pobres, estendem a mão; alguns abanam o rabo"


"Os moderados diriam que progresso e natureza não são incompatíveis, mas é preciso alguma civilização entre uma coisa e outra, e no Brasil parece que não há tempo para nada, entre um projeto e outro há um mar de pessoas que vão sendo esmagadas pelo caminho" 


"Os ricos no Brasil parecem perfeitamente corresponder ao imaginário coletivo que se criou em cinco séculos: na sua parte visível, é uma elite tosca, com frequência grotesca, de uma ignorância assustadora, renitentemente corrupta e corruptora e instalada capilarmente em todos os mecanismos de poder do país, que por sua vez se fundem na outra ponta com a bandidagem em estado puro"


"Nos dias de hoje, muito provavelmente teria sido metralhado pulando aquele portão antes mesmo que abrisse a boca, dramatiza ele; e as pessoas todas achariam isso justo e bom. O que ele fazia pulando o portão? Um ladrão a menos. Agora é o seu filho na balança: um a menos. A subtração é a regra"


Cristovão Tezza
(2007/Editora Record)


"A língua portuguesa foi a única língua românica que aceitou a ordem papal de mudar os dias da semana, da nomenclatura pagã dos romanos para o seriado insosso da nossa vida: segunda-feira, terça-feira... Um povo obediente, capaz de trocar, por um simples decreto, o nome de seus próprios dias. E ele ali, carregando uma bandeira ridícula, o comunista acidental, como Chaplin virando a esquina"


"A rotina é uma máquina extraordinária de estabilidade e a condição básica de maturidade emocional e social"


"O futebol, uma instituição de importância quase superior à da ONU e que ao mesmo tempo congrega em sua cartolagem universal algumas das figuras mais corruptas e vorazes do mundo inteiro, um esporte que onde quer que se estabeleça é sinônimo de falcatrua, transformado num negócio gigantesco e tentacular, a mais poderosa máquina de rodar dinheiro e ocupar o tempo jamais inventada"

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Pílulas: Parte 01 - Canalha!, de Carpinejar

Carpinejar (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Não suporto a ideia de homens que mal deixam o corpo da mulher e logo vão tomar banho, logo querem se afastar daquele ato e se desculpar pela impetuosidade ... Que não se deitam mais para recomeçar, que não dormem agarrados com a nudez dela a completar os seus músculos, que não suspiram após gemer. Que não ficam a conversar a toa sobre os planetas que não foram descobertos, a rir dos vaga-lumes histéricos fora de casa ... Eu não me sinto sujo depois do sexo. Eu me sinto limpo, eu me sinto perfumado, eu me sinto enredado de nascimento. E não darei tão cedo minha memória para a água"


"Na dor do amor, o desejo é chegar ao fundo de si, mas o fundo de si está na pessoa que deixou de nos amar. E nunca se chega ao fim. O fim não está mais com a gente. Foi junto com quem traiu a fidelidade em que acreditávamos" 


"O casamento deveria ser refeito mensalmente. Não fechar para balanço, não ser encerrado em um número inteiro. Que pudesse ser sempre insuficiente, inseguro, para que não perdêssemos a atenção um minuto sequer e cuidássemos para que ele sobreviva ao nosso lado. Sem folga, sem compensação, sem demora" 


"Estar chegando revela a ansiedade em definir os relacionamentos. Fala-se da proximidade para afugentar a distância. Não é uma mentira, é uma verdade afoita. Apressamos em dizer que amamos para não conviver com as dúvidas e tampouco gerar suspeitas da legitimidade do sentimento. Há uma pressa pelo final em todo início e há uma pressa pelo início em todo final. É obrigatório dizer ‘eu te amo’ para continuar e formalizar o laço ... Amor é estar a caminho"


"A noção de que todo gay é promíscuo provém de uma teoria machista. Os gays não pensam sempre em sexo (os homens pensam muito mais). Ao pensar somente em sexo, empobrecemos o sexo. O gay tem a liberdade de dizer o que sente, o homem é obrigado a sentir o que dizem e esperam dele. Gay não precisa demonstrar que é gay. O homem é treinado a pensar em sexo ou a pensar que é homem. Não sobra tempo para amadurecer. Ele terá de decidir entre se exaurir e se renovar"


Carpinejar
(2008 - Bertrand Brasil)


"Sonhamos melhor com a certeza da companhia"


"Ser chamado de ‘canalha’ por uma voz feminina é o domingo da língua portuguesa. O som reboa redondo. Os lábios da palavra são carnudos. Vontade de morder com os ouvidos. Aproximar-se da porta e apanhar a respiração do quarto pela fechadura ... Não ser chamado de canalha pela maldade, mas por mérito da malícia, como virtude da insinuação, pelo atrevimento sugestivo"


"A mulher bebe do veneno para apressar a cura. É tomada de uma fúria santa, doida, inexplicável pelo canalha. A hostilidade atrai, inquieta, desestabiliza. Aspira à conversão. Assume um misticismo sexual. Confia que será diferente com ela. Ela salvará o canalha. Ele foi canalha porque não a conheceu antes. Canalha antes de Cristo. Já cogita casamento e filhos, uma casa com pátio ou um apartamento com varanda. Bate ainda um orgulho competitivo de mostrar às ex do canalha que conseguiu corrigi-lo. Só mulher entende esse duelo de memórias, essa vingança velada e implícita"


"O canalha não tem passado; tem histórico. É um bicho competitivo e não mede esforços em detalhar suas cenas. Sugiro a todos os homens em crise conjugal que assistam a uma rodada de causos. Voltará curado de qualquer culpa. Equivalente em terapia aos alcoólatras anônimos. Quem é escoltado por um amigo canalha encontra a redenção. Reconhece que suas maldades, as mesmas que subtraíram o sono por várias noites, são do jardim de infância. Por contraste recupera a paixão, descobrindo que não tem vocação para a carreira"