segunda-feira, 30 de junho de 2014

Composições de Mirdad: Lost Mails - The Orange Poem


Psicodelia progressiva da Orange Poem, uma bela canção bem ambientada por efeitos de guitarra (lembram desde arranjo oriental a um cello suave e harmônico) e uma interpretação fluida nos momentos suaves e forte/rasgada nos momentos altos da cantora Nancy Viégas (atual Radiola e ex-Crac! e Nancyta e os Grazzers). Os versos tratam de algumas automações de uma vida moderna, de correspondências perdidas, poesias ao redor e referências artísticas como Salvador Dalí e Clarice Lispector. Para ouvir, basta clicar no botão laranja de "play" abaixo. Acompanhe The Orange Poem aqui.




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Lost Mails
(Emmanuel Mirdad)
BR-N1I-14-00009

Waking up and think of nothing
There’s a lot to loose all day
Thank like a robot, agree with the ruling program
I acknowledge the frailty, my usual automatic

The best creation of his domain
All the air which inhabits me and runs away smells like nausea
They’re the flowers along the path dissolving prison’s pieces
A hurricane seeks options and brings me sleep in snow shape
Only regret the gray above my broken escape

Poetries around the atmosphere; that’s Dali twisting the clock hands
Lost mails return from Spain modelling the dream
In my insanity I kissed some toads, shut the critics with the fairy tales
Clarice coughed and I saw the sea: the abstract suicide

I make the clock bomb crazy and the foolish is the hero custom
All that’s hidden has got a sad end
The eagle flies above the ruins and the sand makes it thirsty
There’s only mud in the oasis of freedom


Faixa 02 - EP Wide (2014) | Composta e Produzida por Emmanuel Mirdad | Nancy Viégas - voz | Mirdad - violão 12 cordas e grito | Zanom - guitarra | Tadeu Mascarenhas - guitarra | Fábio Vilas-Bôas - guitarra | Hosano Lima Jr. - bateria | Artur Paranhos - baixo | Gravado, mixado e masterizado por Tadeu Mascarenhas no Casa das Máquinas, Salvador-BA | Encarte: Glauber Guimarães


Cifra digitalizada da canção "Lost Mails"


CONTEXTO

No processo de gravação do álbum "O Primeiro Equilíbrio" (1999/2000), do Pássaros de Libra, o arranjador André Magalhães encrencou com um verso da canção "Antiga Poesia", que dizia: "será que perderei os envelopes?". Ficava me pirraçando, cobrando uma explicação, já que, pra ele, o verso não tinha sentido na letra. Acabou virando piada interna e pra imortalizar nossa amizade, acrescentei-o, modificado, no título da música: "Antiga Poesia (envelopes perdidos)".

Anos depois, retirei o parêntese, arquivando a canção apenas como "Antiga Poesia". Mas antes disso, numa quinta, 29 de março de 2001, acordei com uma frase futucando minha cabeça: "Acordar e pensar em nada". Fui para um ensaio com o baterista Hosano Lima Jr. (a Orange Poem estava às vésperas de seu primeiro ensaio), e a frase continuava. De volta à casa, ela se ampliou com " há tanto o que perder no dia todo". Era o sinal; tive que poetá-la.


Letra original digitalizada de "Envelopes Perdidos"


A partir do terceiro verso da segunda estrofe, a inspiração acabou e resolvi roubar partes da letra de "Flowers in My Way" ("I’m lost in a confuse hurricane" e "In my dreams I kissed some frogs", entre outros) e acabei direcionando a letra para ser uma versão em português da bela canção folk (que, ao lado de "Last Fly" e "Wideness", foram os destaques do 1º repertório laranja no quadrimestre final do ano 2000). O resultado não ficou muito bom e eu arquivei no mesmo dia a letra no caderno de versos, com o título de... "Envelopes Perdidos".

Talvez tenha passeado pelo caderno e encontrado a letra de "Antiga Poesia (envelopes perdidos)" e pensado: adoro esses envelopes, não posso perdê-los com o fim do Pássaros de Libra. Talvez tenha lembrado a piada interna. Talvez. Só sei que o título ficou e o poema foi completamente esquecido.


Cifra original digitalizada da 1ª versão de "Lost Mails"


RECICLAGEM

Quinta, 21 de agosto de 2003. Eu estava a fuçar meus papéis, fazendo uma limpeza (volta e meia arrumo meus arquivos) e encontrei o poema "Envelopes Perdidos". Surpreso, não me lembrava mais de seus versos. Achei mal realizado e escrito "nas coxas". Mas a sincronia operou. Era o período "Last Fly" (de 21 a 24 de agosto), época que me trazia muita inspiração. Em vez de jogar fora, como fiz nessa limpeza com outros versos mal acabados e poemas ruins, decidi reciclar a letra, aproveitando suas melhores ideias.

De "Envelopes Perdidos" original de 2001, além do título, aproveitei: "Acordar e pensar em nada, há tanto o que perder no dia todo", "agradecer como um robô", "a melhor criação do seu domínio", "todo ar que me habita", "em meus sonhos beijei uns sapos" e "tudo que é escondido tem um triste fim", além de reciclar as ideias da bomba-relógio, náusea, fantasia e herói, e homenagear a canção "Flowers in My Way" com os novos versos "são as flores ao longo do caminho" e "um furacão busca opções". Pra fechar, inseri dois mestres que admiro bastante no novo poema: Clarice Lispector e Salvador Dalí.


Salvador Dalí e Clarice Lispector homenageados na letra de "Lost Mails"


Agora sim "Envelopes Perdidos" era um poema descente. O que fazer? Musicá-lo, lógico! No dia seguinte, uma noite chuvosa da sexta 22/08, os primeiros acordes surgiram. Como o sono era tamanho, deixei a composição pro sábado 23. Mas a melodia veio básica e veloz, algo no lugar da face pesada da Orange Poem, contrariando as psicodélicas gestadas anteriormente nesse período criativo de agosto (vide as belas "Last Fly" em 2000 e "Melissa" em 2001). Mesmo assim, possuía a energia necessária aos solos de Fábio Vilas-Boas e foi escalada de imediato no 2º repertório TOP.

"Envelopes Perdidos" tornou-se "Lost Mails" na quinta, 4 de dezembro de 2003. Gostei tanto da sonoridade que uma frase dela adquiriu em inglês que resolvi batizar o futuro 2º CD de "Sleep in Snow Shape". Ironicamente o peso dessa primeira versão de "Lost Mails" não tinha nada a ver com o sono em forma de neve.


The Orange Poem no 50º ensaio (janeiro de 2004)


PESO E TRONCHURA

Terça-feira de Carnaval, 24 de fevereiro de 2004. À noite, ao invés de dar um "zignal" na namorada que ia trabalhar e ir pro último dia de carnaval como um legítimo baiano (que nunca fui), preferi ficar no violão "Alhambra" de minha mãe. Ao repassar o repertório do 2º CD, percebi que "Lost Mails" foi arquivada sem a cifra (no papel, só a letra, sem os acordes). Putz, que vacilo! Tentei relembrar a melodia, consegui em quase tudo, mas uma passagem se perdeu, que servia de mudança da melodia principal para o riff pesado. O jeito foi compor outra ponte e cifrar a canção que queria se perder (engraçado que não tenho nenhuma gravação dessa "Lost Mails" original, pesada, nos meus arquivos).

Dois mil e quatro passou, a Orange Poem fez vários ensaios e a série de sete shows chamada "Agente Laranja Gueto Cultural" e em nenhum momento "Lost Mails" foi sequer mencionada por mim; os músicos laranjas desconheciam por completo sua existência. Começamos a gravação do 1º CD, 2005 chegou, finalizamos e lançamos o bicho em setembro. Mais uma vez, a canção estava perdida no repertório. Nem em casa eu a tocava. Só resistiu e não foi arquivada porque batizava o 2º CD.

Era a sincronia operando para que não perdêssemos sua bela letra nessa melodia horrenda. Não sei precisamente quando, mas implodi o peso da canção (estava buscando, progressivamente, eliminar a face metal do som laranja), permanecendo a letra (!!!) no repertório sem melodia. No final de novembro de 2005, organizei o repertório de "Sleep in Snow Shape", e escrevi: "será composta ainda, em conjunto com Jesus (Zanom), Fábio e Hosano, no próximo ensaio".


Mirdad, Fábio e Zanom em 2005 - Foto: Rui Rezende


Na tarde da quarta 14/12/05, rolou um ensaio de cordas do novo repertório com Zanom e Fábio. No apê 703-B onde morava, eu e o itapuãzeiro aguardávamos o atrasado pastor chegar. Sugeri então que os filhos de outubro 80 compusessem uma nova música. Apresentei a Zanom a letra de "Lost Mails", para que ele saísse cantando a primeira melodia que surgisse (sempre tentei trazê-lo para o centro do querer laranja, mas ele só quis tocar e só). Começou tímido; o guitarrista não estava muito criativo. Nada saiu.

Então, tive a ideia de pedir um 5/9/13. No primeiro show que produzi da excelente banda Sócrates no Tangolomango Bar (não lembro a data precisa), durante a passagem de som, brinquei com o baterista Smith, pedindo que ele tocasse um groove progressivo, evoluindo os tempos quebrados de 5 por 4 para 9 por 4 e, por fim, para 13 por 4. Muito louco, troncho, Smith mandou ver e a fórmula 5/9/13 gravou-se em meu inconsciente; retomei-a nessa quarta do sono em forma de neve.

Zanom criou alguns riffs e o trabalho seguiu. Ele, na execução e criação; eu, na formatação da nova melodia. Pro refrão, um estranho 6 por 8, que não se encaixou muito bem. Para a introdução, um riff interessante, muito próximo ao baião – e aí, vamos psicodelizar o som ou abrimos a concessão e tocamos sonoridade brasileira no novo repertório? (único exemplo até então foi o final bossa-nova da sequelada "Dubious Question"). Com o formato mais ou menos firmado, tentamos criar a melodia; Zanom ficou numa qualquer em português, e eu insisti com tentou "Lost Mails", sem jeito para se encaixar na harmonia troncha – precisaria de um estudo mais profundo, exigente. O processo parou com a chegada tardia de Fábio e fomos estudar o "Sleep in Snow Shape".


Mirdad, Zanom e Hosano em 2005 - Foto: Rui Rezende


Dois dias depois, na noite da sexta 16/12, rolou o 89º ensaio TOP, o último do ano 2005. Mal de gripe, Fábio não pode ir. Ao menos foi uma excelente reestreia do baixista Artur Paranhos em um ensaio laranja (saiu da banda em agosto, mas aceitou gravar no novo CD). Ensaiamos maciçamente o novo repertório. Quando chegou a vez do poema "Lost Mails", pedi para que construíssemos a canção baseada nos riffs tronchos de Zanom da minha fórmula 5/9/13.

Pois o baterista Hosano se ferrou todo pra tentar tocar e não saiu resultado algum; ele teria que pegar pesado em casa, caso essa versão realmente fosse ficar. Digo caso, porque eu também não conseguia encaixar o poema em cima da repetitiva harmonia. Que sina. Nem peso, nem tronchura. E "Lost Mails" estranhamente permanecia, aguardando para ser encontrada.


ORIGEM

Desde o começo dos anos 90 que eu sentia um presságio muito forte, uma ânsia pela chegada de dois anos específicos, captada assim: "vai acontecer algo muito bom e relevante". Assim, o ano 2000 se cumpriu, parindo "Last Fly" e o projeto da Orange Poem, o grande amor Leila K (cuja felicidade e tristeza geraram muitas canções), o começo da amizade fraterna e presente com Rodrigo Minêu (que apoiou enormemente várias produções laranjas) e o vestibular definitivo para jornalismo na Facom/Ufba, onde me formei. O outro ano era 2006.


Rodrigo Minêu, o grande amigo de Mirdad, que registrou 
a Orange Poem em vários vídeos. Foto em 2004.


Para o projeto laranja, dois mil e seis era o limite, o último prazo. Já havia acordado o seguinte: caso não conseguisse nada por aqui, iria fazer o êxodo pra Londres por conta própria, com ou sem os demais músicos. E 2006 surgiu com o último na faculdade e o novo amor que se cristalizava fortemente na querida promissora Vanessa Caldeira. Comovido pela importância do ano redentor, na noite do Reveillon 2005-2006, fiz minhas orações de uma forma mais profunda, com os pés no mar do paraíso e as vibrações em alta, regida pelos fogos e gritos.

Morro de São Paulo, paraíso. Minha praia predileta da Bahia, quiçá do Brasil. Depois de um espetacular 2005, de muita curtição adoidada, eis que o Lado Negro da Facom/Ufba (a turma xibiateira que fundei e fazia parte) resolve repetir a histórica viagem de farra em 2002 organizando um Reveillon no paraíso. Só que, dessa vez, uma nova casa, entupidaça de agregados. E eu sobrei, por ter chegado apenas na quinta 29/12, tendo que hospedar o colchão e a recém-namorada Vanessa colados na porta do único banheiro. É, foi esquema Lost, mas foi massa.


Casa do Reveillon em Morro de São Paulo, Bahia


A casa ficava no alto de um dos muitos morros de Morro de São Paulo. Da varanda, uma bela vista de mata e abismo, além de algumas barracas de faconianos & agregados (os primeiros espertos que chegaram cedo). Era sábado, 31 de dezembro, manhã com chuva e sol, pra alternar as expectativas para a grande noite da virada. Último dia do belíssimo ano de 2005 (o melhor da década 00 para mim, disparado!), minha recém-amada dormia. Vários faconianos também. Alguns acordavam aos poucos. Eu, madrugador, estava de pé há algum tempo.

Avistei o violão do comparsa Lázaro, o Flávio Bustani do Palossamba (Clube da Malandragem). Arrumei um cantinho na varanda pra não incomodar quem dormia nas barracas da varanda. Que bela vista, sereno + fracos raios de um sol a despertar, nuvens por dentro da mata, psicodelia. Sintonizei nas cordas e nasceu um trecho melódico bem simples, com uma pegada do fluido rosa. Toquei-o exaustivamente para não esquecê-lo, como se fosse possível esquecer tamanha simplicidade, ainda mais a batidaça caída harmônica de G, F#m e Em. Por fim, em paz, revisei todo o repertório de "Shining Life, Confuse World", como se para abençoá-lo e reafirmá-lo na chegada do precioso ano. E no universo paralelo do Lado Negro em Morro de São Paulo, cristalizei uma genitora sequência melódica.


Flávio Bustani e o seu violão em que Mirdad compôs 
a origem de "Lost Mails" no reveillon de 2005/2006


Quinta-feira, 05 de janeiro de 2006. De bobeira em casa, renovadaço pela boa farra em Morro, fui ao violão retomar a sequência fluida, a fim de eternizá-la em uma nova canção laranja. Compus mais uns dois trechos melódicos, dando uma cara progressiva à harmonia, finalizando com um posfácio suingado, parecido com o que fechava "Clouds, Dreams" nos primórdios da banda e que está registrado na jam que encerra o DVD demo de 2003. Empolguei!

No embalo, tentei escrever uma letra nova, mas a preguiça bateu – gastei os neurônios artísticos na melodia. Fui revisar o caderno de versos e não encontrei nada sobrando. Exceto... "Lost Mails". Claro! Com o peso não deu certo, com a tronchura 5/9/13 menos ainda (nada de parceria com Zanom, putz!). Algumas pequenas modificações na letra aqui e ali, eis que nasce a bem vinda versão definitiva da canção, que continuou no repertório do 2º álbum, por decisão umbilical de um pai coruja. Pirei na música, xodó instantâneo!!! – foi uma das que mais toquei ao violão em 2006. Eis que a sincronia finalmente me fez encontrar os envelopes não mais perdidos.

Até hoje, 2014, "Lost Mails", de 2006, é a última canção em inglês composta por mim.


Hosano Lima Jr. em 2005 - Foto: Rui Rezende


CONSTRUÇÃO

O primeiro laranja a conhecer a nova e definitiva "Lost Mails" foi o baterista Hosano Lima Jr., no ensaio preparatório só com ele para a gravação de "Sleep in Snow Shape" em 20 de março (apresentei também "Homage" e "Farewell Song" que ele não conhecia). Pois a bela canção não teve reverberação no amigo. Na semana seguinte, mais um ensaio, faltando menos de um mês para começar o 2º álbum TOP. Depois de ensaiarmos três músicas no cafofo sauna do apê de Hosano, já perto de dez da noite, partimos pra última. Puxei "Lost Mails", que foi criticada na chapa pelo baterista: "esse disco está bem lento". Rebati: "opção pela excelência floydiana do som laranja".

O baixista Artur Paranhos conheceu "Lost Mails" no atípico 93º ensaio TOP sem os guitarristas; Zanom teve de levar seu pai às pressas no hospital e Fábio simplesmente não quis ensaiar com um antológico "ô, véi, to cheio de coisa me atentando que não dá pra ensaiar hoje não". Baixo, bateria e violão, "Lost Mails" foi a mais ensaiada, com um longo tempo dedicado apenas à última parte (a gruvada) e a criação das paradas (silêncio total) nas partes das subidas E, F, G e Am (ex : "...sleep in snow shape").

Orange Poem completo ensaiou pela 1ª vez "Lost Mails" na terça, 04 de abril de 2006, 94º ensaio. Estudo meia boca, sem nenhum comentário de Fábio e Zanom, que saíram tocando qualquer coisa, e o groove final foi confirmado. Ao menos fiquei satisfeito que a canção foi mesmo inserida no repertório e seria gravada no 2º CD. E na segunda 17/04, registrei "Lost Mails" no escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional em Salvador, no caderno de letras e partituras "Sleep in Snow Shape", junto a mais sete músicas ("Homage" e "Farewell Song" incluídas).


Trecho inicial da partitura de "Lost Mails", transcrita de punho pela mãe de Mirdad,
Martha Anísia, registrada na Biblioteca Nacional no caderno "Sleep in Snow Shape"


GRAVAÇÃO

"Lost Mails" começou a ser gravada sem os arranjos dos guitarristas estarem prontos, nem a sua forma ideal. Mas foi mesmo assim, um retrato preciso do processo do "Sleep in Snow Shape", que foi construído durante o seu registro. 20h15 da quarta 26 de abril de 2006, a quinze minutos do fim da 1ª sessão, no estúdio "Casa das Máquinas", de Tadeu Mascarenhas, o baterista Hosano Lima Jr. sugeriu "Madness", mas o produtor (eu) cortou a ideia. Ela não era fácil, tinha umas quebradinhas e pedaços diversos que poderiam complicar num final de sessão. Pensei em "Farewell Song", mas o baterista cortou enfaticamente: "essa não!". O jeito foi recorrer a "Lost Mails", quadradinha, com um groove no final que Hosano dominava tranquilamente – gravou com maestria, embora que tinha ficado descontente com sua performance na sessão (como sempre).

No domingo 07/05, rolou o 2º ensaio preparatório com o guitarrista Fábio Vilas-Boas no apê 101 do Edf. Cosdam, Avenida Paulo VI, onde ele morava. Uma chuva torrencial transformou Salvador em cinzas, clima deprê, ótimo pra tocar. Passamos um bom tempo em "Lost Mails", onde testamos vários arranjos, ficando apenas com a base da guitarra-teclado. O pior foi que ele descartou sua presença nos próximos dois ensaios antes da despedida de Hosano de Salvador (estava de mudança para Jundiaí-SP), com a estranha desculpa de que não queria mais ensaiar à noite, pois ficava perturbado e não conseguia dormir depois.

Com o baixista Artur em casa preferindo estudar a sós com o metrônomo, o 98º ensaio (09/05) teve a laranja como power trio de novo (como no 93º citado mais acima). Hosano passou muito tempo parado, mexendo no metrônomo, circulando pela sala, resumido pelo seguinte comentário: "Porra, isso aqui é ensaio de cordas, seus sacanas... o que é que eu tô fazendo aqui?". Zanom estudou bastante as novas músicas, mas quando chegou a vez de "Lost Mails", ele pediu penico: "nem sei pra onde ela vai".


Mirdad grava o violão 12 cordas em "Lost Mails" em 19/05/2006


Artur Paranhos gravou o baixo em "Lost Mails" na quarta 10 de maio, 4ª sessão. Foi a primeira da tarde, gravada tranquila e rapidamente. Eu gravei o violão no xodó na manhã da sexta, 19 de maio, 8ª sessão. Depois de registrar três músicas, cheguei ao final da sessão. Entre gravar "Cuts", que era muito longa, e "Neither Gods, Nor Devils", que tinha o problema do perfeccionismo do riff (acabei nem gravando nela depois), escolhi, pra garantir o violão, "Lost Mails", que precisava muito mais do instrumento que as outras. Porém, foi a mais estressante do dia. Eu não conseguia entrar certo na primeira nota; confundia-me com o tempo e a pegada do baixo. Acabei desistindo de gravar as notas do riff. Tadeu teve de bancar o psicólogo e eu só consegui gravar na base da raça. Cansado e sem saco pra nada, desisti de novo: nada de violão no groove – Zanom que gravasse o riff e a base do final.

Terça, 23 de maio de 2006, quatro anos da estreia de Artur Paranhos no Orange Poem, rolou o ensaio de despedida de Hosano, o 99º. A essa altura, com baixo, bateria e violão gravados no 2º álbum, e os ensaios solitários de Fábio acontecendo, não tinha motivo mais pra ensaiarmos. Mas fizemos, para registrar o começo do fim. Repassamos o repertório, e Zanom criou o arranjo em slide para "Lost Mails".


The Orange Poem (sem Fábio) no 99º ensaio em 2006


Primeiro dia de junho, greve de ônibus em Salvador, a empregada não veio e eu fiquei sem almoço. Quem salvou foi Fábio, que trouxe o rango e ensaiamos pesadamente as músicas do "Sleep in Snow Shape". No dia seguinte (coincidentemente oito anos antes do que viria a ser o dia do lançamento do EP Wide), 11ª sessão, o guitarrista (atacado bizarramente de alergia e em marcha lenta) ligou o módulo Digitech RP-01 no delay "tecladão" e foi gravar "Lost Mails" às 11h.

Muitos erros nos acordes, erros estranhos. Entrei na sala pra entender o que tava rolando. Quando vi, a cifra era da música errada – Fábio costumava confundir "Lost Mails" com "Another Lost Skin", ainda mais lesado pela alergia como estava. O "tecladão" ficou pronto, pausa pra tomar água e pensar no que o guitarrista ia fazer na parte do acorde fá ("A hurricane seeks options... "). Minha sugestão foi abaixar e levantar o volume das notas; Tadeu traduziu isso emprestando o seu pedal de volume. Fábio gravou e ficou lindo, mesclado ao delay. Já na sexta 09/06, 12ª sessão, o guitarrista gravou rapidinho o seu solo no groove final da canção.


Tadeu auxilia Fábio a escolher o timbre pra gravar "Lost Mails" em 02/06/2006


Antes da pausa de São João, gravei a voz na minha xodó na sexta 16 de junho. O registro foi fluindo tranquilamente; defini a melhor intenção e fiz as já rotineiras correções de afinação. Mas aí faltou luz no bairro inteiro – a sorte é que não demorou muito pra voltar. O bizarro foi ouvir de Tadeu que tinham perdido a voz de "Lost Mails" com o apagão. Fiquei na merda, tentei regravar, mas não consegui colocar a mesma intenção. Arrasado, abortei a gravação. Antes de ir embora, por um milagre, Tadeu encontrou o arquivo da voz e salvou o dia. Apenas consertei a afinação em algumas passagens e a voz ficou pronta.

Quarta, 28 de junho de 2006, 15ª sessão, pausa para o almoço. Tadeu levou Zanom e eu pra comer num boteco no largo de Santana, Rio Vermelho. Bife acebolado, carne do sol e frango, cada um com seu prato e sua resenha – a minha foi contar como conheci os músicos e formei a banda. De volta ao "Casa das Máquinas", pedi a dona da tarde inteira: "Lost Mails". Zanom consumiu um bom tempo gravando o slide na guitarra. Quando chegou na parte do acorde fá, travou. O que fazer? Qual arranjo criar?


Tadeu auxilia Zanom a escolher o timbre 
pra gravar "Lost Mails" em 28/06/2006


Tadeu recuperou a ideia do pedal de volume, como foi com Fábio, mas um pouco diferente, algo como um violoncelo. Topamos! Aí, Zanom tentou fazer, mas não conseguiu a pegada que o arranjo precisava. Passei a responsa pra Tadeu, que assumiu a guitarra e ficou testando vários arranjos, consumindo um tempo danado, mas ficou muito bom. Zanom aprovou e adorou. E assim começou a primeira participação especial nesse álbum, a primeira de Tadeu Mascarenhas na Orange Poem.

Veio a parte groove de "Lost Mails" e o guitarrista Zanom gravou um arranjo clean sutil. Não ficou legal, muita informação. Pedi então pra Tadeu gravar um piano Rhodes e fui prontamente atendido. Alguns takes depois e as teclas estrearam no poema laranja. O resultado ficou tão bom que Zanom abriu mão do seu solo.


Tadeu Mascarenhas grava sua 1ª participação na Orange Poem em "Lost Mails" em 28/06/2006


Na quinta, 6 de julho, fui até o IRDEB. Revi o pessoal da Rádio Educadora, colegas de trabalho em 2004/2005 (seriam novamente em 2009/2010), e me encontrei com o amigo ex-chefe Mário Sartorello. Tinha projetado sua participação no 2º álbum TOP, gravando um solo de sax barítono no final groove de "Lost Mails". Apresentei a canção, o lugar do solo e deixei um CD pro amigo ensaiar. Dei um prazo longo, pra quando o corre-corre da vida de Mário permitisse. Não permitiu. No mês seguinte, via telefone, pediu muitas desculpas e negou – por conta do trampo na Educadora, não tinha tempo de ensaiar no sax. Ficou para uma longínqua próxima vez um outro convite (nunca mais rolou).

Na 18ª sessão de gravação, quinta, 17 de agostoZanom concluiu sua participação no "Sleep in Snow Shape" pela manhã (foi o único que teve mais tempo para criar seus arranjos). Na vez de "Lost Mails", tinha duas sugestões (desistiu de tocar acordeon nela): o arranjo 01 era um dedilhado estranho, que não casou bem com a melodia; já o arranjo 02, um dedilhado abafado lembrando uma marimba me encantou e foi o escolhido. E na parte groove, topamos o arranjo apenas na parte da voz – um scratch nervoso, feito com wah-wah e cordas abafadas.

Na manhã da terça, 29 de agosto de 2006, fizemos a primeira mix de "Lost Mails". A meu pedido, começamos por ela, porque era imensa de tracks e consumiu três horas de mix. O maior esforço foi achar o timbre preciso do Rhodes, entre o que Tadeu e o que eu queria. A "marimba" de Zanom subiu de posto e ganhou do slide a honra de introduzir a canção. Sax no ponto, muita atenção a todos os detalhes, ficou lindo o meu xodó, maior orgulho! Concluímos a canção na quarta 30/08. Regravei a palavra "critics" (tinha registrado como "crits"). Na parte 2, ao invés de recomeçar a música com a marimba, deixei pro slide fazer sozinho, pra variar. E fizemos mais alguns ajustes na parte groove.


Zanom grava a "marimba" de guitarra em "Lost Mails" em 17/08/2006


"Sleep in Snow Shape" ficou pronto no início de outubro de 2006. Um desperdício. Gaveta nele, pois a banda acabou em março de 2007. Dois anos depois, quando resolvi disponibilizar duas coletâneas dos álbuns pra download no meu blog (uma com a face psicodélica e a outra com a face rock), fiz uma edição de "Lost Mails", eliminando seu final de groove. Analisei meu xodó e verifiquei que esse posfácio não tinha nada a ver com o brilho da canção. Era quase uma concessão ao "a banda está muito lenta nesse CD", forjando um momento dançante incoerente com a sua beleza de transcendência psicodélica. Pois bem, cortei e fiz bem. Aquela manhã etérea do final de 2005 voltou à canção, para sempre.

PS - Assim como o ano 2000, a previsão acertou que 2006 seria muito bom e relevante. Três motivos: a gravação de "Sleep in Snow Shape"; a conclusão do curso de Jornalismo na Facom/Ufba; e o primeiro ano de um grande amor que durou três anos e meio.


Nancy Viégas grava a voz em "Lost Mails" em 14/05/2014


VERSÃO FINAL

De todas as 22 músicas que gravei a voz na Orange Poem, "Lost Mails" foi disparada a minha melhor interpretação. Quando retomei a banda em 2014 (processo iniciado na gravação do EP Ground em dezembro de 2013 com a voz de Glauber Guimarães), tinha pensado em Artur Ribeiro para regravá-la, mas como o amigo negou a proposta, cogitei deixá-la como está, para que o CD cheio do final do ano tivesse ao menos uma canção com meu registro vocal. Que nada! A sincronia arrebentou essa ideia rapidinho, para que "Lost Mails" pudesse ser eternizada no extremo de sua beleza.

De um dia pra outro, desisti de ter minha voz (mesmo com a melhor interpretação dela), e mandei a canção para Nancy Viégas avaliar no primeiro dia de abril de 2014. E, pra minha gratíssima surpresa, a múltipla artista curtiu meu xodó e topou gravá-la, mesmo com a dificuldade evidente: o tom grave para a sua voz e a melodia entupida das palavras do poema.


Tadeu Mascarenhas, Nancy Viégas e Emmanuel Mirdad 
na gravação do EP Wide (Foto: Germano Estácio)


A gravação do EP Wide foi agendada para maio. Nancy focou os estudos em "Wideness" e "Shining", e não teve tempo pra se dedicar à "Lost Mails". Na tarde da quarta, 14 de maio, encarou o desafio de gravar muita letra num tom pra homem. Em três horas, ralamos bastante. Nancy foi compreendendo a música durante a gravação, testando interpretações, regravando muitas vezes vários trechos.

Tadeu quis seguir no formato linear e eu assumi a direção pra otimizar a sessão. Ao invés de regravar, opções de gravação; Nancy passou a gravar algumas vezes os trechos. Tadeu questionou se não estávamos perdendo trechos e eu respondi: "confie em mim". Em 3h de estúdio (das 16h30 às 19h30), a múltipla artista terminou seu trabalho. Mais uma hora pra mixagem – assumi a edição e indiquei para Tadeu os caminhos do quebra-cabeça, frankzando a voz. Aos poucos foi tomando forma a belíssima interpretação de Nancy Viégas. No final, fiquei profundamente emocionado e muito satisfeito com o resultado. Bravo, Nancy, bravíssimo!


A cantora Nancy Viégas e o produtor Mirdad celebram 
a excelente sessão de "Lost Mails". Foto: Tadeu Mascarenhas


A mixagem final rolou na segunda 19/05 e o EP Wide foi lançado na segunda, 02 de junho de 2014. E aquela canção que leva no nome uma celebração de amizade, no poema o orgulho de seu poeta por um trabalho bem feito além das homenagens a Dalí e Lispector, e na melodia a transcendência de uma manhã em Morro de São Paulo, foi eternizada, para nunca mais ser perdida.



domingo, 29 de junho de 2014

Pílulas: O Reacionário, de Nelson Rodrigues

Nelson Gonçalves (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


Descrição extraída do site da Livraria Travessa:

"Seguindo a mesma linha temática confessional de A cabra vadia e O óbvio ululante, esta é uma coletânea das crônicas de Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo brasileiro, publicadas na coluna “Confissões”, do jornal O Globo, e também na coluna “Memórias”, do Correio da Manhã, durante o período de 1969 a 1974"



Parte I
Leia aqui

"Assim é o brasileiro: - um sujeito atormentado por culpas imaginárias"




Parte II
Leia aqui

"O brasileiro tem por hábito cochichar o elogio e berrar o insulto"




Parte III
Leia aqui

"O Brasil é muito impopular no Brasil"





Parte IV
Leia aqui

"O entendido só não se torna abominável porque o ridículo o salva"



Nelson Rodrigues
(Agir/2008)
728 pg
Preço médio: R$ 85,90

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Pílulas: Parte 04 - O Reacionário, de Nelson Rodrigues

Nelson Gonçalves (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"O entendido só não se torna abominável porque o ridículo o salva"


"Um analista não se espanta. Se lhe cair uma bomba atômica na cabeça, dirá, com a maior naturalidade e sem ponto de exclamação: " - Morri.""


"Não há idiota que, aqui ou em qualquer idioma, não explique com a sociedade de consumo todos os mistérios do céu e da terra"


"Um gênio não move uma palha, não ameaça, nem influi. Ninguém morre por um gênio, ninguém mata por um gênio ... Um gênio não convence ninguém, o idiota sim. Ponham um pateta na esquina e deem o caixote ao pateta. Ele trepa no caixote e fala. Imediatamente, outros idiotas vão brotar do asfalto, dos ralos e dos botecos ... o idiota é uma "força da natureza". Ele chove, relampeja, venta e troveja"


"Suporta-se com muito desprazer a glória alheia e, sobretudo, a glória de quem tem metade da vida pela frente"


Nelson Rodrigues
(Agir - 2008)


"Todas as dimensões do brasileiro estão na mais pomposa finalíssima ou na mais franciscana pelada"


"Os estilistas, se é que ainda existem, estão condenados a falar sozinhos. Por outro lado, os escritores, em sua maioria absoluta, estão degradando a inteligência ... Qualquer um sabe que romance, poesia, teatro, cinema, pintura, etc., etc. vivem da obra-prima. São as obras-primas que carregam, nas costas, todas as mediocridades, todas as falsificações, todas as ignomínias artísticas"


"Se são escritores e não fazem literatura, que fazem? Certo crítico aconselhava aos subliteratos: - "Não façam literatura, façam família." E, se os subliteratos já tinham família, retrucava: - "Façam outra." ... Houve o tempo das passeatas. Uma maneira fácil de ser intelectual sem ler uma linha, sem escrever uma linha: - era marchar nas passeatas ... E o romancista se sentia compensado de sua esterilidade romanesca. E o poeta voltava para casa certo de que era um Dante ... Passou, em todos os idiomas, a época do grande romance, da grande peça, da grande poesia. Hoje, quando se quer definir o reles, o idiota, o alienado, diz-se: - "Isso é literatura!""


"Todas as palavras são rigorosamente lindas. Nós que as corrompemos"


"Falta-nos a nobilíssima coragem para confessar, de fronte alta, olho rútilo: - "Eu não leio nada. Só me interessa manchete de jornal" ... O justo, o correto, o exemplar é que assumíssemos a nossa ignorância e a confessássemos, lisamente"

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Pílulas: Parte 03 - O Reacionário, de Nelson Rodrigues

Nelson Gonçalves (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"O homem só começa a ser homem depois dos instintos e contra os instintos"


"O co-piloto do avião conseguira sobreviver ao choque. Muito ferido, porém, pediu que o matassem com o seu próprio revólver. Diz a notícia, de maneira sucinta, impessoal, inapelável: - O que foi feito. Se as palavras têm um valor preciso, temos aí um assassinato. E não foi só. Os outros sobreviventes não só mataram como ainda o comeram. E mais: - resgatados, os antropófagos voltaram de avião para sua terra. No meio da viagem, um patrulheiro descobre em pleno voo que os sobreviventes ainda levavam carne humana. No seu espanto, perguntou: - "Por que vocês trazem isso?" Explicaram: - na hipótese de que faltasse comida no avião, eles teriam com que se alimentar"


"Todos comeram carne humana? ... houve um, entre tantos, entre todos, que disse: - "Eu não faço isso! Prefiro morrer, mas não faço isso!" E não fez. Os outros tentaram convencê-lo. E quando ele, em estado de extrema fraqueza, arquejava na dispneia pré-agônica, quiseram forçá-lo. Mas só de ver a carne, cortada como no açougue, ele tinha náuseas medonhas. Seu último suspiro foi também um último não ... Mas reparem num detalhe desesperador: - aquele, que preferiu morrer a devorar o seu semelhante, não merece nenhum interesse jornalístico. A reportagem dedica-lhe, no máximo, três linhas frívolas e estritamente informativas. Por sua vez, o público ignora o belo gesto que preservou, até o fim, a condição humana. Era homem e morreu homem"


"O Brasil é muito impopular no Brasil"


"O que chamamos de "Nordeste" é um saco ou pacote, onde enfiamos várias misérias. Chega a ser uma impiedade. Dentro do saco ou do pacote, ninguém é ninguém, os Estados perdem a identidade, nada tem nome. E ocorre esta coisa a um só tempo hedionda e patusca: - enquanto resolvemos os problemas do Nordeste, não cuidamos dos flagelados de cada qual"


Nelson Rodrigues
(Agir - 2008)


"Os homens públicos só costumam fazer o que rende promocionalmente ... a seca, por exemplo, é plástica, literária, retórica, jornalística. E há sempre alguém disposto a fazer nome com a seca"


"Os romancistas não fazem romance, os poetas não inventam uma metáfora, os dramaturgos não criam um personagem. Temos uma literatura que não escreve. Se aparecer um Dante, um Shakespeare, um Proust, sei lá, ninguém vai saber, porque não temos uma consciência crítica ... Perguntam: - e por quê? Porque os intelectuais exigem dos intelectuais atestado de ideologia ... se for um solitário, um independente, um original - não terá uma linha em jornal nenhum"


"Há uma debilidade mental difusa, volatilizada, atmosférica. Nós a respiramos. Isso aqui e em todos os idiomas. É um fenômeno internacional tão nítido, tão profundo, que não cabe nenhuma dúvida, não cabe nenhum sofisma. E acontece, então, esta coisa nunca vista: todos agem e reagem como imbecis. Não que o sejam, absolutamente. Muitos são inteligentes, sábios, clarividentes e têm um nobilíssimo caráter, e uma fina sensibilidade, e uma alma de superior qualidade. Mas num mundo de débeis mentais, temos de imitá-los ... para sobreviver, para coexistir com os demais, o sujeito precisa ir ao fundo do quintal e lá enterrar todo o seu íntimo tesouro"


"Sempre digo que o pior da bofetada é o som. Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa, nem humilhação, nada. Agressor e vítima poderiam, em seguida, ir tomar cerveja no boteco mais próximo, em festiva confraternização"


"Então, há o desastre de avião. Quando apanharam o rapaz, ele estava tecnicamente morto. Levam o agonizante para o hospital. Onassis corre para os médicos: - "Peçam toda a minha fortuna. Pagarei pela vida do meu filho o que quiserem." Era o dinheiro, sempre o dinheiro, que dá a esse homem taciturno uma sensação de onipotência. Pouco antes, o filho dissera, com sereno fatalismo: - "Meu pai vai me sobreviver." Sabia que a morte amadurecia, silenciosamente, na sua carne e na sua alma. Quando Onassis sentiu que tudo era inútil, disse apenas: - "Deixem meu filho morrer."

quarta-feira, 25 de junho de 2014

terça-feira, 24 de junho de 2014

Pílulas: Parte 02 - O Reacionário, de Nelson Rodrigues

Nelson Gonçalves (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"O brasileiro tem por hábito cochichar o elogio e berrar o insulto"


"Devo confessar o meu horror aos intelectuais, ou melhor dizendo, a quase todos os intelectuais ... a maioria não justifica maiores ilusões ... A inteligência pode ser acusada de tudo, menos de santa. Tenho observado, ao longo de minha vida, que o intelectual está sempre a um milímetro do cinismo ... e, eu acrescentaria, do ridículo"


"Duas ou três vezes por semana, digo eu o seguinte: - "Nada mais invisível do que o óbvio ululante." E vejam vocês: - apesar da repetição deslavada, a frase tem, sempre, um ar de novidade total. O leitor ainda não desconfiou que eu já escrevi isso mil e uma vezes, sem lhe tirar e sem lhe acrescentar uma vírgula. E sempre vem alguém me bater nas costas: - "Boa, aquela de óbvio! Ótima!" Fico eu a imaginar que ninguém lê nada ou não se lembra do que leu"


"Bem sei que certos sujeitos precisam odiar. Odeiam e não sabem quem e por quê. E quando, eventualmente, não odeiam, rosnam de impotência e frustração"


"Veio, lá de dentro, um som abominabilíssimo: - era o riso da mulher, riso agudo, cantante, de soprano. Até então, o nosso Disraeli não sabia se odiava a mulher, se a desprezava ou se, pelo contrário, a amava mais do que nunca. Mas o som o enfureceu. Puxa o revólver e faz saltar, à bala, a fechadura. Em seguida, invade o quarto. O amante se enfiou debaixo ... da cama. Mas a infiel, mais ágil, mais elástica, acrobática, quase alada, teve tempo de se atirar do alto do terceiro andar. Por aí se vê que ela pecava por sexo e não por amor. O sexo corre e sobrevive. E, se fosse amor, ela se deixaria varar de balas como uma santa; e ainda morreria agradecida"


"As senhoras me diziam: - "Eu queria que seus personagens fossem como todo mundo." E não ocorria a ninguém que, justamente, meus personagens são como todo mundo: e daí a repulsa que provocavam. Todo mundo não gosta de ver no palco suas íntimas chagas, suas inconfessas abjeções"


Nelson Rodrigues
(Agir - 2008)


"Uma moça quebrou o braço. Saiu de hospital em hospital, procurando um médico; e, se não fosse médico, um estudante; e, se não estudante, um porteiro; em último caso, um servente. Mas vinha médico, ou estudante, olhava e concluía: - "Não é de urgência." Qualquer barbeiro diria: - "É de urgência, sim." E um açougueiro seria talvez mais enfático: -"De urgência urgentíssima." Mas não houve, repito, um médico que reconhecesse o óbvio como tal ... Se fosse um hospital só, vá lá. Mas ela bateu em todos ou quase todos, um por um. Até que a moça morreu, apenas morreu e nada mais. E por que morreu? Porque, na maioria dos casos, é tão falsa, tão irresponsável, tão desumana a piedade oficial ... Daí o meu horror à medicina socializada ... A socialização cria uma responsabilidade difusa, volatizada, que não tem nome, nem cara, nem se individualiza nunca"


"Não insinuarei nenhuma novidade se disser que o nosso cotidiano é uma sucessão de poses. O ser humano faz pose ao acordar, ao escovar os dentes, ao tomar café. E nunca se sabe se o nosso ódio, ou nosso amor ou nosso altruísmo é ou não representado. Ninguém gesticula tanto quanto o homem e repito: - ninguém gosta tanto de fazer quadros plásticos"


"Com dez minutos de jogo, morria a admiração que, aliás, nunca tive pelo futebol inglês. Eis a pergunta que me fazia: - "Quem é que joga assim?" Penso, penso, até que me baixou uma luz: - era o Bonsucesso. O time leopoldinense leva qualquer um à loucura. Como a Inglaterra, Bonsucesso defende-se com onze. E, simplesmente, a bola quer passar e não sabe como"


"Ninguém fala do Piauí, eu falei, e acuso o Brasil de abandoná-lo; e clamo por uma solidariedade nacional. Digo que a nossa imprensa faz, sobre o belo Estado, um silêncio crudelíssimo. Resultado: - os patriotas de Teresina estão ventando fogo por todas as narinas. O Secretário particular do Governador escreveu-me uma carta, que ainda não recebi, mas que já foi publicada. E, lá, para esmagar-me com seu sarcasmo, apresenta uma lista de todos os nomes ilustres do Estado. Penso que vai entupir-me com quinhentos piauienses notáveis. Diz dois nomes, exatamente dois. Não acredito. Quero crer que Piauí tenha dado muito mais que dois escassos talentos"


"Fiz-lhes a pergunta final: - "Vocês são a favor da matança do embaixador alemão?" Há um silêncio. Por fim, falou o comunista: - "Era inevitável." E eu: - "Se você acha inevitável o assassinato de um inocente, também é um assassino." E era. Assassino sem a coragem física de puxar o gatilho"

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Livro Nostalgia da Lama (2014), de Emmanuel Mirdad



Nostalgia da Lama
(Cousa, 2014)
ISBN: 978-85-63746-43-6
100 poemas | 152 pg | Capa dura
Capa de Nelson Magalhães Filho
Prefácio de André Setaro
Posfácio de Ildegardo Rosa


Nostalgia da Lama contém 100 poemas e traz acidez, frustração, angústia, paixão e espetos de um feroz nômade contemporâneo, ilustrado pela bela pintura "Série Nus" de Nelson Magalhães Filho, com prefácio do professor e crítico André Setaro e posfácio do poeta e filósofo Ildegardo Rosa, pai do autor, falecido em 2011. 

Estreando em livro de poemas, embora os escreva desde 1996, o poeta laranja apresenta suas farpas psicodélicas em uma jornada sobre o cotidiano e o tênue disfarce ilusório que nos habituamos a amar e a chamar de realidade. “São uns poemas crônicos, meus enquadros de fatos, ferinos ou micropatéticos, transitando na superfície ácida dos encontros e desencontros das relações humanas”, sintetiza Mirdad.


Compre aqui

25 poemas selecionados aqui

Vídeos com o autor lendo poemas do livro aqui

Pílulas (trechos selecionados do livro) aqui

Matéria no programa de TV Mosaico aqui

Matéria no jornal Correio aqui

Matéria no jornal A Tarde aqui

Matéria no site iBahia aqui

Release aqui

sábado, 21 de junho de 2014

Composições de Mirdad: Shining - The Orange Poem


Primeira composição em conjunto da Orange Poem (autoria: Emmanuel Mirdad, Artur Paranhos, Marcus Zanom, Hosano Lima Jr. e Fábio Vilas-Boas), traz uma sonoridade diferente de groove rock, mas com solos diversos, do nervoso ao suingue, do blues-rock ao sintetizador psicodélico, intercalando com o groove pesado do baixo e muita plasticidade e rítmica nas interpretações vocais. O poema traz aquele ocasional "às vezes eu me sinto" que sempre nos interfere e provoca sérias reflexões internas. Terceira canção do EP Wide (lançado em junho de 2014), traz a voz suingada da múltipla Nancy Viégas (atual Radiola e ex-Crac! e Nancyta e os Grazzers). Para ouvir, basta clicar no botão laranja de "play" abaixo. Acompanhe The Orange Poem aqui.




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui


Shining
(The Orange Poem)
BR-N1I-14-00010

Sometimes I feel so mute
A silence that risks giving meaning to nothing
I become alone to avoid breathing
What madness is the need to be there
Shining Lightening, go strike away from here

Sometimes I feel so numb
The wild system, the being, wide life
There are things to be done, but I don’t want to
The problem is that I have debts
Shining Lightening, smile I must

Where’s my amputated hand ... violating mercy in pages?
Where’s the meaning of existing suiciding the gifts?
Who’ll bring me the beliefs so that I forget them?
Who’s the person that putrefies the being created by me?

Sometimes I’m black
The colors that drill the minds
My galaxy that disturbs my fetters
It’s a shame it’s so fast
Shining Lightening, make me lie...


Faixa 03 - EP Wide (2014) | Composta pela banda The Orange Poem | Produzida por Emmanuel Mirdad | Nancy Viégas - voz | Zanom - guitarra | Tadeu Mascarenhas - sintetizador | Fábio Vilas-Bôas - guitarra | Hosano Lima Jr. - bateria | Artur Paranhos - baixo | Mirdad - grito | Gravado, mixado e masterizado por Tadeu Mascarenhas no Casa das Máquinas, Salvador-BA | Encarte: Glauber Guimarães


Cifra digitalizada da canção "Shining"


CONTEXTO

Em 2002, a Orange Poem estava muito bem acolhida no estúdio "Aquarius", que ficava na rua Macaúbas, no Rio Vermelho. No final de maio, a banda faria o décimo quinto ensaio no estúdio, do amigo Herbert Rangel (conhecemos o estúdio em 2001), celebrando a primeira "casa" da laranja de fato, após circular em dois ensaios no "Mutti Studio" (o primeiro estúdio que entrei na vida em 1997, conhecendo o que era ser uma banda de rock com a Raska de Álvaro M. Valle, que viria a ser o 2º baixista TOP), três ensaios pelo caro com poucos recursos "Sonar" e dez ensaios e muita história para contar no "JAM Studio" do final de linha da Pituba (a estreia da banda, rotatividade de três baixistas, ensaios madrigais e as confusões das caronas e horários – deixamos de ensaiar lá porque o baterista Hosano reclamou do aumento no preço do ensaio sem nenhuma melhoria nos equipamentos).

O "Aquarius" sempre tinha uma energia positiva no ar, que deixava a banda tranquila para fluir a psicodelia do som laranja. Era a casa do poema mesmo, adorávamos tocar por lá! E, na sincronia precisa, ainda ajudou a solucionar o nosso recorrente problema com baixistas. Depois das idas e vindas de Rajasí Vasconcelos e Álvaro M. Valle, do fracasso com Cedric Romano e da falsa esperança em Paulo Suzart, fora os diversos contatos perdidos e negados (Caio Mutti, Maurício Uzêda, etc.), a vaga da vez do baixo laranja estava com um rapaz bem mais novo que os demais músicos (na verdade livrou-me da alcunha de caçula do poema, pois Hosano é de 1974, Fábio de 1976 e Zanom três dias mais velho que eu, librianos de 1980), mas promissor. Seu nome era Artur Paranhos, nascido em julho de 1983.


Mirdad e Fábio Vilas-Boas no estúdio Aquarius em out/2001 – Foto: Mark Dayves


Sábado, 4 de maio de 2002. Como sempre, eu e Fábio na saga de resolver o problema do baixista TOP. A indicação da vez era Miguel Hoisel, conhecido do guitarrista. Fomos até a reservada casa dele em Alto do Coqueirinho, perto de onde morava Zanom. Ao apresentarmos o som, Miguel não curtiu. Ao saber do projeto, discordou:  "Os gringos querem que uma banda de brasileiro toque as influências do seu país, como misturar com percussão e temas tribais, assim como o Sepultura fez em ‘Roots’". Pra sacramentar o abismo, concluiu: "O baixista que não for groovento é um péssimo baixista... não se pode pensar baixo sem groove... se não tiver groove, é primário". Não era o que eu buscava. Queria transcendência, não balanço.

Muito chateado, queixei um almoço na casa do companheiro de luta Fábio (Hosano e Zanom apenas tocavam e nada mais) e fui quebrando a cachola até à Pituba, em busca de uma nova opção. Ao chegar no apt 101 do Edf. Cosdam, onde morava o guitarrista, liguei decidido a convocar de novo a indicação de sub de Álvaro, que Zanom vetou enfaticamente após testá-lo em um ensaio. A sincronia impediu; tanto o telefone da casa, quanto o celular de Felipe "Barão" chamou até cair. Desânimo pra mim, uma estranha calma de Fábio, talvez pelo calejamento de fracassos com testes para baixistas.


A seta vermelha indica onde ficava a entrada do estúdio Aquarius, 
que deve ter sido incorporado ao estabelecimento ao lado 
e a porta virou parede (imagem: Google Maps)


Depois do almoço, fui operado pela sincronia. Abruptamente, bateu-me a ideia sem noção: telefonei para Herbert do "Aquarius"e perguntei se tinha alguma banda ensaiando. O amigo confirmou, ensaio até às 18h. Perguntei: "e o baixista toca bem?". Herbert disse que o menino era de uma banda de uns "meninos raivosos" de cover, e que tinha uma boa pegada. Wow! Pra mim, ao ouvir "de cover", foi a chave – pensei: é uma banda sem futuro, sem sonhos, pois um trabalho próprio é que vincula o músico jovem à banda, e não uma brincadeira de colégio. Catei Fábio e chegamos ao "Aquarius" às 17h – o guitarrista surpreendeu, pois ele normalmente falaria "vá lá você e ajeite tudo sozinho porque eu estou cansado".

Surpresa: a tal banda de "meninos raivosos" era a Blind, power trio do vocalista e guitarrista Thiago Ereias, primo de Bruno, meu vizinho no Edf. Bilbao. De vez em quando a gente se encontrava no play e conversava sobre rock e os caminhos das nossas bandas. O engraçado é que a Blind sempre estava à frente da laranja (gravaram um demo primeiro, já faziam shows) e Thiago tirava sarro: "Não gravou o CD ainda? Não fez show ainda? Que moleza é essa?". Aproveitei a intimidade e assisti a hora restante do ensaio dentro do estúdio. Brinquei bastante com os músicos, agitando, pulando, tudo para disfarçar uma criteriosa análise do baixista. Notei que o menino magro tinha uma boa postura (lembrou-me Stefan Lessard, baixista da Dave Mathews Band) e não errava nota alguma, sempre constante e sem esmorecer as bases.


Zeco (o Boni da Falsos Modernos, 3º na foto) ficou sem banda pra tocar num festival 
no Costa Azul em 2002 e a Blind (da esquerda pra direita, Thiago e Artur) quebrou o galho 
(completando a banda, Henrique Britto, que foi baterista da Pangenianos)


Xereta, pedi que tocassem um hardcore bem pesado para testar a velocidade. O "sequinho" passou bem no teste, sem perder o ritmo. Continuei interferindo e pedi para que tocassem uma balada. O baixista passou também; tinha um feeling sensível, melodioso, excelente indicativo para as músicas viajandonas da laranja. Por fim, captei que ele aprendia fácil as músicas novas. Por mim, aprovado. Fábio, que ficou do lado de fora o tempo todo, nem um pouco a fim de estourar os ouvidos com o som raivoso do power trio, deu uma pequena olhada pelo aquário e aprovou Artur somente pelo visual – segundo o pastor, com uma vasta experiência filosófica, um olhar já basta. Herbert profetizou que o magro era promissor, seria um excelente músico em um futuro próximo – acertou.

18:15h. Em menos de cinco minutos, convidei Artur Paranhos para ser o baixista do Orange Poem. Expliquei que o projeto era profissional e para exportação, que os músicos eram tarimbados e se ele fosse tocar com a laranja, iria evoluir muito mais do que na Blind – banquei o escroque capitalista. Um discurso agressivo, que fez Artur ponderar: "Na segunda, você me mostra o som". Deu o telefone de sua casa e se mostrou profissional ao conversar sem nenhuma empolgação de "menino raivoso" – ganhou muitos pontos com isso (a ausência de deslumbre sempre conta muito para mim).


Artur Paranhos em 2003 – Foto: Mark Dayves


ARTUR, LARANJA

Segunda, 6 de maio de 2002. À noite, depois de um dia puxado na Facom/Ufba (era a última semana do semestre, cheia de trabalhos e provas), ia rolar a audição do som laranja para Artur, que morava na Pituba, assim como eu. Estacionei meu carro na saudosa praça Igaratinga (em meados de 1996, às vezes ficava distante dos amigos, tocando sozinho nos bancos dessa praça canções de Bob Marley) e subi ao apê 1301. Encontrei o baixista ouvindo a banda baiana Inkoma (origem da cantora Pitty).

Artur estava com a farda do [hoje extinto] Colégio Drummond (o mesmo em que fiz todo o ginásio, de 1992 a 1995, nerd de óculos no meio de pichadores, maloqueiros e alguns marginais – e eu sofri tal qual um filme norte-americano), onde fazia o terceiro ano em 2002. Disse que estava procurando um vocalista para um projeto que estava montando, pra tocar em formatura, num repertório que misturava forró, pagode, pop, axé e até Blink 182.  Ou seja, em 2002, já era o mesmo eclético músico e produtor da atualidade.


Artur Paranhos psicodélico – Arte: Mirdad


Alertei que o som laranja não tinha nada a ver com o que ele estava ouvindo (Inkoma), e que era mais suave e às vezes pesado. "Last Fly" no play bastou. O som foi muito bem aceito por Artur. Mas nesse primeiro contato com o repertório, percebi que ele curtiu mais as pesadas, especialmente "One and Three". E não houve uma pergunta formal. De violão em punho, ensinei para Artur (de baixo em punho) os arranjos de Rajasí Vasconcelos para "Wideness" e "Last Fly" (obriguei todos os baixistas a tocarem esses arranjos criados no começo de 2001).

Das 20h às 22h, Artur Paranhos conheceu o som e o projeto laranja. Aceitou sem problemas as condições do poema, afirmando que estava assumindo um compromisso importante e que não iria sacanear como o titular anterior tinha feito, ou desistir por motivos de estudo como o sub mais recente (e de fato cumpriu, desistindo por motivos profissionais em 2005 e retornando em 2006). Na maluquice da época, alertei que ele precisava de um codinome curto, como os demais (Fábio era saint, eu era lunes, Hosano era howl e Jesus era zanom – o único que vingou). Artur informou que tinha muitos apelidos, tais como "tutu", "tutuzinho", "Artur do cavaco", "calango" e outros mais esdrúxulos e prosaicos. Contive a risada e decretei: "Você será o lord" – talvez pela postura ereta, magra e de nariz protuberante, pensei nos lordes, mas debochado como sempre foi e legitimamente um xibiateiro baiano, o apelido nunca serviu.


Artur Paranhos no 3º show da Orange Poem 
no Havana Bar em 2003 – Foto: Gabriel Franco


No dia seguinte, passei de surpresa no apê de Artur e fiquei surpreendido: ele estava estudando as músicas laranjas e já tinha tirado três do repertório! O eclético (na estante, CDs de Pixinguinha, tango, rap, Soulfly, Pink Floyd, Chico Buarque, Harmonia do Samba, etc.) contou que tinha se encontrado com um colega que ficou muito impressionado: "Porra, véi, você vai tocar com aqueles monstros? Tu não vai aguentar, a galera toca muito!". Adorei! Era a confirmação de um excelente pressuposto: o menino que tocava em uma banda colegial é promovido a uma banda profissional e dá o máximo de si porque seu trabalho foi reconhecido. Pois foi o que realmente aconteceu. Artur entrou na laranja como o músico mais limitado e se tornou o músico mais técnico, o único que seguiu carreira profissional na música, até mesmo na universidade.

Nos ensaios preparatórios, emprestei meu baixo quatro cordas para Artur, para que ele o ajustasse e desse vida para o instrumento (encalhado no meu armário). Foi o início de uma longa relação, em que o amigo tocou com ele em vários ensaios e shows, chegando a comprá-lo de mim por uma pequena quantia. E Artur Paranhos estreou no Orange Poem na quinta, 23 de maio de 2002, 29º ensaio TOP no estúdio Aquarius.


Artur Paranhos toca no baixo que foi de Mirdad no 57º ensaio TOP em maio de 2004


O clima estava bem descontraído, Artur bem à vontade. Tirei um sarro de Zanom: "Você é irmão de Artur, são muito parecidos fisicamente, inclusive esse nariz de papagaio-tucano". O guitarrista não fez cara feia e rebateu a la Itapuã: "O que é, seu Freddie Mercury frustrado, sem voz, mas com viadagem?" – herança da perturbação de Álvaro. E o repertório foi revisado pela ordem. O baixista não errou nenhuma nota, aprendeu "The Green Bee" e "Child’s Knife" com incrível rapidez e deixou os guitarristas bem à vontade, para entupirem as músicas de improvisos. Até Zanom, o encrenqueiro de sempre, aprovou veemente o garoto pródigo.

PS – Na época de pré-ensaios com Artur, reencontrei o Thiago da Blind, e foi minha vez de tirar um sarro: "Não se chateie não, vou mandar um abraço à sua banda nos shows, agradecendo o baixista que nos forneceu ... se você quiser, para compensar a perda de Artur, indico a Blind para a gravadora ou lhe forneço a vaga de roadie do TOP".


Artur e Zanom em 2004


ORIGEM

Noite de uma terça-feira, 28 de maio de 2002, 30º ensaio da Orange Poem no estúdio "Aquarius" – segundo ensaio com a presença de Artur Paranhos. Nessa época, a banda tinha o repertório do 1º CD afiado (mesmo com a entrada recente do novo baixista), ansiava por fazer shows (o 2º show nosso só rolou em outubro!) e eu já começava a formular o embrião do próximo CD, esperando que os companheiros laranjas compusessem em conjunto, algo inédito no projeto – a exceção era "One and Three", feita com o guitarrista Fábio Vilas-Boas.

O ensaio foi sensacional: satisfação geral, aprovação sincera e muitos aplausos para a ótima performance do novato Artur. Revisamos o repertório por completo e ainda faltava uma hora para terminar o período. Zanom sugeriu para tocarmos de novo o repertório. Fui contra e o bluesman de Itapuã assumiu o microfone e puxou, perfeitamente acompanhado por Artur, vários blues consagrados instaurando a tradicional jam blues laranja. Até Fábio, que não curtia tocar covers, solou certinho e se divertiu muito – clima fantástico nesse 30º ensaio!


The Orange Poem em 2003 – Foto: Mark Dayves


E tome-lhe covers! Nessa época, estávamos montando o repertório para show, e reservamos cinco vagas para os covers. Eu sugeri uma inusitada versão para "Daddy" (amo esta canção) da cantora canadense Jewel, Fábio propôs "New Year’s Day" do U2, Zanom veio de "Since I’ve Been Loving You" do Led Zeppelin, Hosano ficou indeciso (bem característico dele: "Qualquer uma, cara, qualquer uma tá bom") e Artur pediu um blues desconhecido. Nunca tocamos nenhuma delas.

Quando os músicos se cansaram de tanto blues (até a plateia de hoje – José Bonifácio, amigo de Artur, o Zezinho da SG ou Zeco [da foto em que a Blind salvou sua pele em 2002], guitarrista conhecido meu e de Zanom, curtidor do bom rock’n’roll e música de qualidade em geral, letrista, que veio a fundar a Pedradura junto a mim, Artur e Edu, e hoje é o Boni da Falsos Modernos, vocalista e guitarrista – cantou "Rock das Aranhas" de Raul Seixas), eu fiz uma inédita sugestão: "Vamos compor uma música agora, todos juntos, aproveitando esta ótima harmonia/energia; chega de tirania do vocalista, vamos lá, comece Jesus" – como eu chamava Zanom na época.


Artur e Zanom em ação no 3º show TOP em 2003


Eu sabia que o guitarrista era um ótimo compositor de riffs. Assim que pedi, ele tocou um riff novo. Artur compreendeu a mensagem e criou toda a base, acompanhado por Fábio, que ficou solando. Hosano sacou o groove e puxou um funk, mas eu intercedi e pedi pra rockar mais, estilo anos 70. A aura blues apareceu e eu criei uma melodia em cima de palavras sem nexo, só para marcar a métrica. Surgiu um groove blues rock’n’roll e eu dividi a canção em quatro partes. As duas primeiras estrofes e a última eram iguais, e a terceira deveria ser totalmente diferente, no estilo da caída louca do poema progressivo, tipo a parte jazz de "The Green Bee".

Artur compreendeu a mensagem experimental e trouxe uma harmonia jazz. Zanom acompanhou o improviso do baixista e Hosano sacramentou a batida jazzística. Perfeito! Fábio fez solos contundentes e, ao meu comando, nasceu a primeira composição da banda Orange Poem no repertório laranja. Brilhante! Batizei-a de "Shining". O único revés foi que não gravei esse momento único, deslize crasso.


Letra original em português digitalizada de "Shining"


Não lembro a data precisa de quando escrevi a letra. Nem sei se foi antes de maio, ou se foi a necessidade de letrar a nova composição em conjunto que me fez fazer o poema. Algo raro essa falta de documentação. Mas o que me lembro é que escrevi a letra na Facom em 2002, não sei se em aula ou no intervalo, mas é a única lembrança que tenho de ter escrito uma canção na sede do curso de Jornalismo da Ufba. Lembro-me de estar no banco próximo ao Centro Acadêmico e um "às vezes eu me sinto" surgiu pela sincronia, guiando a materialização da mensagem do poema "Shining".


Antes do 2º show The Orange Poem em outubro de 2002, 
na Facom/Ufba – estreia de Artur em shows laranjas. Foto: Rodrigo Minêu


NO REPERTÓRIO... COMO LADO B

Em 2001, ao compor novas músicas como "The Unquietness" e "Rain", mexi no 1º repertório e incluí as novatas excelentes. Não conseguimos gravar um demo que prestasse em outubro e só iríamos tentar de novo em julho de 2002. Pois me impressiona que a euforia da criação conjunta de "Shining" não me fez incluí-la no repertório de "Shining Life, Confuse World" (e nem os músicos laranjas solicitaram isso). Se as doze eram imutáveis, bastaria acrescentar mais uma. Mas não. A única composição da Orange Poem foi direto pro 2º repertório. Junto à pesada "Excited Happiness", foram as únicas presentes em ensaios preparatórios para os shows que tentamos fazer em 2002 depois da estreia de janeiro – no único que rolou, não tocamos nenhuma das duas.

Meados de 2003, estávamos registrando ensaios em vídeo para um DVD demo. Resgatei "Shining" para encerrar o tal DVD, na hora da rolagem dos créditos finais. No 48º ensaio TOP de 25/07, a banda foi pega de surpresa com minha indicação, inclusive eu próprio, que só me lembrava de um verso da letra – em cima deste, cantou três, no maior improviso cara de pau. Mas quando estava editando o bicho na terça 26/08, tive de limar "Shining", porque o tempo total estourou tudo e a canção acabou pagando o pato. Nessa mesma data, registrei no escritório da Biblioteca Nacional em Salvador o caderno de partituras "Innocent Child in a Dangerous Quest", com "Shining" e mais dezessete composições.


Trecho inicial da partitura de "Shining", transcrita de punho pela mãe de Mirdad, 
Martha Anísia, registrada na Biblioteca Nacional no caderno 
"Innocent Child in a Dangerous Quest"


BRILHANDO NOS SHOWS

"Shining" continuou a aparecer nos ensaios do primeiro semestre de 2004. Com a série de shows "Agente Laranja Gueto Cultural" agendada para os domingos no Tangolomango Bar, a agitada canção do grupo foi escalada no repertório – era uma das poucas com cara totalmente de show, crua e direta (era difícil executar a face psicodélica em um show comum em barzinho; precisávamos de uma elaboração maior, em teatro, com projeção, etc.).

Por ser democrática, com espaço de solos para todos, "Shining" foi utilizada para apresentar os músicos. No DVD demo "Live at Tangolomango Bar", contendo o melhor que rolou nos sete shows do "Agente Laranja Gueto Cultural", "Shining" ficou registrada na versão do 7º show (29/08/2004). Segundo o repertório, a canção abriria uma parte pesada do show, seguida de "One and Three" e "Dubious Question", mas naquele momento não havia clima algum para peso ou bate cabeça. Então, gastei preciosamente o tempo restante do show apresentando a banda. No final de "Shining", conduzi a exibição de cada músico.


7º show The Orange Poem em 29/08/2004 - Foto: Jamille Magalhães


Com Fábio, brincamos de subir e descer escalas; fiz floreios horríveis com a voz tentando acompanhar as notas da guitarra. Com Zanom, deixei-o à vontade, e o itapuãzeiro fez um longuíssimo solo blues crazy (uma enorme versão do que ele registrou na gravação final). Como foi um solo sem muita inspiração, pedi que ele mostrasse ao público sua faceta João Bosco. Zanom fez um bom floreio voz & solos a la MPB e o clima amistoso no bar continuou a fluir. Passei a bola pra Artur que, um pouco inibido, mandou um groove interessante, mas muito aquém do que poderia ter feito. Terminei a papagaiada em Hosano, que assumiu o posto de melhor músico laranja da noite, destruindo no solo como nos velhos tempos.

PS - Essa interminável "Shining" consumiu 15 minutos.


CONSTRUÇÃO

Groove. A ausência dessa palavra mágica na laranja evitou qualquer possibilidade do baixista Miguel Hoisel tocar na banda em 2002. E, ironicamente, 24 dias depois, definiu o gênero da única música composta pela banda Orange Poem. O som do poema sempre foi psicodélico progressivo, com pitadas de blues e rock’n’roll. Como produtor, sempre cortei qualquer lembrança de swing, mesmo que os músicos laranjas, principalmente Artur e Hosano (Zanom também) sempre deram um jeitinho de passar som nos ensaios ou shows tocando algum groove. Mas "Shining" surgiu, naquela alegria toda de final de 30º ensaio, e foi ficando.


10º show The Orange Poem em 10/10/2004 - Foto: Jamille Magalhães


Revelou-se fundamental para a temporada de shows, perfeita para ser tocada ao vivo, enérgica. E foi um trunfo nos ensaios, sempre bem tocada pela banda, elevando o astral dos músicos ou acordando-os de alguma maresia provocada pelo cansaço do dia a dia. Mas não entrou no repertório do nosso 1º CD, que foi gravado no verão de 2004-2005. E ficou ali, de lado B, como uma carta na manga.

No desenrolar de 2005, bateu uma grande frustração com o 1º CD que, aliado ao cansaço da face pesada da banda, confirmou meu preconceito com "Shining", mesmo ela sendo a única feita pela banda (na verdade, único motivo dela não ter sido descartada como sua colega de agitação "Excited Happiness" foi porque era [e é] o resultado concreto de nossa união enquanto banda, algo que sempre quis que fizéssemos mais, e nunca consegui desenvolver). A sonoridade da canção nunca me pegou de fato, sendo uma das que menos curti, ainda mais quando entrei na fase "só presta a psicodelia na Orange Poem".

"Sleep in Snow Shape", o 2º CD TOP, entrou na pauta. "Shining", presente nesse segundo repertório desde maio de 2002, quando foi criada, continuou, lá embaixo, nas últimas tracks (um pouco perdida das demais canções, encontrou refúgio no final do álbum, algo parecido com o que aconteceu com "New Help" no 1º CD). "Foi ficando" define bem. Depois de uma breve passagem de Fabrício Mota como baixista TOP nos shows em Maragogipe e Laranjada Rock, Artur Paranhos estava de volta, como músico convidado, para gravar no 2º CD (topou fazer de boa, na camaradagem, só porque curtia o som e sentia que a Orange Poem era sua banda – voltou no 89º ensaio, em 16 de dezembro de 2005).


Orange Poem (sem os guitarristas) no canjão de despedida de Hosano Lima Jr. que rolou no 
Tangolomango Bar em 15/07/2006 - o baterista se mudou de Salvador para Jundiaí-SP.


2006 chegou e março veio veloz, com a gravação agendada de novo no "Casa das Máquinas" de Tadeu Mascarenhas (gravamos lá o 1º CD) e os ensaios 90, na última casa do Orange Poem, o estúdio das galinhas (ficava no quintal de uma casa antiga, única que permanecia em pé contra a especulação imobiliária que devorava o bairro até então residencial), do camarada Léo, no final da Paulo VI já no Caminho das Árvores – próximo à casa da família de Rodrigo Pinheiro, o cantor do Sad Child e Besouros do Sertão que gravou no EP Unquiet do TOP. Na terça 21/03, 92º ensaio, Artur apresentou um arranjo mais veloz para "Shining", com mais notas, mais gruvado, numa evolução técnica que surpreendeu os laranjas (foi a tônica de dois e mil e seis: "rapaz, Artur tá foda!") e que acabou registrando no álbum (hoje em dia considerado nota pra caralho, poderia ter sido menos).

"Shining" estava praticamente pronta e foi a música que menos exigiu preparação (o amigo Rajasí Vasconcelos, 1º baixista TOP, esteve presente ao 97º ensaio em 25/04 e conheceu as novas músicas. A que mais gostou foi o groove rock "Shining").


Hosano Lima Jr. grava em "Sleep in Snow Shape" em abril de 2006


GRAVAÇÃO

Final de tarde de uma quarta-feira, 26 de abril de 2006, 1ª sessão de gravação do álbum "Sleep in Snow Shape". O baterista Hosano Lima Jr. tinha acabado de chegar quando o meu ford Ka "Black Bee" estacionou na ruela do primeiro endereço do "Casa das Máquinas", no Rio Vermelho. Sincronicamente o baixista Artur Paranhos surgiu andando – veio de ônibus diretamente da Escola de Música da Ufba. Sua presença foi requisitada para orientar e auxiliar no groove, principalmente em "Shining", que não tinha meu violão base.

Hosano estava "de rango", nem tinha almoçado. A sorte foi que eu tinha levado uns biscoitos, caso a fome batesse. Alguns pedaços depois, até que deu pra disfarçar. Já na antessala do estúdio (vide sobradinho da casa), os laranjas foram avisados pelo cantor Álvaro Lemos que teriam de esperar Tadeu terminar a gravação da bateria da banda que estava produzindo – foi um atraso de meia hora. Ruim? Nada disso! A outra banda estava gravando justamente a bateria. Ou seja, quando começasse nossa sessão, encontraríamos a batera toda montada e equalizada, sem precisar gastar tempo/dinheiro laranja pra isso. Pra passar o tempo, Artur ficou contando suas aventuras sexuais.


Hosano Lima Jr. e Artur Paranhos na gravação de "Sleep in Snow Shape" em 2006


Devidamente instalados e com o som passado, perguntei qual era a música que o baterista queria gravar primeiro. "Aquela que a gente tocou com metrônomo ontem, a que Rajasí mais gostou" (a única canção que ele escolheu pra gravar foi esta; depois, deixou a ordem de gravação ao meu encargo). Respondi: "Vai, Artur, puxa aí "Shining", com muito groove". E o metrônomo (neste álbum rolou!) em que beat? Putz, esqueci o papel com os tempos. Adivinhar é preciso! Como me lembrava vagamente, pedi, com clareza e cagada de acerto, "132, Tadeu". Começamos o "Sleep in Snow Shape".  

O que aconteceu com a primeira música foi o resumo do que rolou em toda gravação: Hosano gravava as músicas por inteiro e errava algumas vezes. Ouvia o que tinha feito, pra todos analisarem e detectarem erros, e retornava à sala pra regravar pedaços aqui, pedaços acolá. Preocupado em não perder o ritmo, travou muito a criatividade. Foi um baterista exato, mas sem o brilho e inovações/surpresas dos ensaios e shows. Sua desculpa, que tinha um fundo de verdade, era que as músicas desse álbum eram mais quadradas, não forneciam o espaço experimental do primeiro álbum.


Artur Paranhos grava no "Sleep in Snow Shape" em 2006


Artur Paranhos gravou "Shining" na quinta, 11 de maio, 5ª sessão do "Sleep in Snow Shape". Diferente de Hosano, foi a última música que gravou. Semelhante ao batera, fez no esquema de grava tudo e depois remenda, sendo econômico onde "deveria descer a mão" e exagerado onde devia ter se segurado. Na parte do seu solo, reprovei vários takes. Ao fim, ele não conseguiu superar o solo espetacular do 97º ensaio TOP, aquém do tão incensado e celebrado músico que arrasou nos ensaios preparatórios. Não tinha jeito; esse tipo de música, baseada no groove, tem que ser registrada ao vivo, todo mundo tocando junto, curtindo a energia, o feeling – só assim pra captar todo o brilho criativo dos artistas.

Final de tarde da sexta 26/05, 10ª sessão e o guitarrista Fábio Vilas-Boas a postos para gravar "Shining". Investimos 12 minutos à procura do timbre perfeito. Tentamos os pedais de Tadeu. Nenhum funcionou por causa do tipo de som da guitarra Crafter de Fábio. O jeito foi gravar com algum timbre do velho (e eficiente) módulo Digitech RP-01 mesmo. Testamos vários timbres, até encontrar um bom. E Fábio gravou com facilidade o riff base da canção, que já conhecia e tocava bem desde 2002. Quinze dias depois, novo final de tarde de uma sexta, Fábio resumiu: "Essa eu já conheço de outros carnavais". Assim, com excelência e rapidez, gravou seus solos em "Shining".


Módulo Digitech RP-01 igual ao de Fábio Vilas-Boas


Última música da 13ª sessão em 12/06, gravei num tapa a voz na velha conhecida, lascando a garganta nos lugares exatos, aproveitando que era o fechamento. Nada como reviver, mesmo que brevemente, o rock’n’roll de antes. E Zanom gravou sua guitarra base depois do São João de 2006, na quarta, 28 de junho, 15ª sessão. Na beira da pausa do almoço, indiquei "Shining". Uma escolha certeira de timbragem e efeito deu vida ao riff da introdução, o que originou a música. No restante, uma groove guitar e o solo do final criado hoje mesmo, no esquema funky de pouca nota e muito swing. Gostei! – principalmente pelo contraste enorme com o solo de muita nota de Fábio, essa diversidade excelente tão característica da laranja.

Na terça, 11 de julho de 2006, 17ª sessão, revi o rasta Fabrício Mota. Que felicidade reencontrar o amigo gente fina, tão inteligente e simpático! Não o via desde o último show TOP, em outubro de 2005 – o contato foi mantido por esporádicos scraps no Orkut. Escalado como participação especial no "Sleep in Snow Shape", veio gravar um pandeiro no final de "Shining". Pandeiro? Que maluquice é essa? Fabrício é baixista! Pois é, na maluquice daqueles dias, achei que ficaria interessante colocar uma percussão pela primeira vez no som laranja. Não estávamos gravando um groove pela primeira vez? Por que não colocar também um som legitimamente baiano? E Fabrício só foi escalado porque eu queria ter um registro dele no CD, não importava o que fosse.


Fabrício Mota grava no "Sleep in Snow Shape" em 2006


O rasta ouviu rapidamente "Shining", pouco tempo para estudar algo. No improviso total, gravou vários takes. Por fim, o cirurgião Tadeu fez a edição e o solo ficou pronto. Na doideira, aproveitando o embalo, pedi para que ele gravasse o pandeiro em "Madness" também, a canção que ele tinha mais curtido do 2º CD. Como tinha um buraco na volta do 2º refrão, foi aí que ele gravou mais uma faixa. Mais improvisado que antes, com Tadeu sendo contra, Fabrício criou uma dinâmica ótima, que encantou e acabou ficando. Pronto. Mal sabíamos que esse arranjo de improviso foi o que ficou, não como "Madness", que foi descartada, e sim como a versão em português "El’eu" (uma das 50 selecionadas no Festival da Educadora FM em 2007), eternizada no EP ID (ouça aqui). Já o pandeiro planejado de "Shining" foi descartado na versão final de 2014.

Na manhã da quarta, 9 de agosto, rolou um ensaio só com Zanom em sua casa em Itapuã. Precisávamos acertar os últimos arranjos do laranja de libra para concluir sua participação no álbum. Depois de ensaiarmos e discutirmos sete músicas, veio "Shining". Zanom bateu pé firme que não tinha gravado o seu solo durante a música, e que a guitarra que eu ouvia era só base (o tal solo funky). Topei, então, o tal solo blues que eu não curtia tanto – aquele que bizarrou no 7º show TOP em 2004. Meio dia da quinta 17/08, 18ª sessão, Zanom estava cansado, satisfeito com o seu trabalho. Impressionante como o rendimento tava excelente, veio pra concluir mesmo sua participação no 2º álbum TOP. Sem pestanejar, início da sessão distorção. Pedi "Shining". Num tapa, o guitarrista fez o seu solo blues nervoso, a última gravina que faltava na canção.


Zanom prepara-se para gravar "Shining" 
no "Sleep in Snow Shape" em agosto de 2006


Terça, 29 de agosto de 2006, 7ª sessão de mixagem. Depois de uma extenuante mix de "Lost Mails" e uma limpada básica de erros em "Young Poet’s Song" (título de então de "8/8/88"), partimos para "Shining". Meus pedidos: a) na hora dos solos, riff base de Fábio; na hora da voz, só o swing da guitarra base de Zanom; b) por quase toda a 4ª e última estrofe, silêncio na guitarra de Fábio e no baixo de Artur (voltando no "Shining lightning"), deixando apenas voz e bateria, com pontas swing de Zanom. Com essa dinâmica, a música ficou bem melhor, mais limpa, o tapa final para que eu, o produtor, topasse a sua permanência no álbum – ficou por ser uma referência da essência do 1º álbum e por ser a única composição de todos os laranjas.

Uma pena que "Sleep in Snow Shape" não foi prensado e morreu na gaveta, poucos meses depois de ficar pronto em outubro de 2006. A Orange Poem acabou em março de 2007.


EM PORTUGUÊS

Em agosto de 2006, descontente e desacreditado do projeto do êxodo para Londres, transformei as letras das músicas do repertório Orange Poem para português. Na sexta 4, "Shining" tornou-se "Brilhante" e foi a transcrição mais fácil de todas, com apenas uma alteração. Quase que acabei regravando a voz do álbum "Sleep in Snow Shape" toda para essas versões em português – ainda bem que não fiz.

2007 chegou, meu diploma como Jornalista e trabalho como produtor na Plataforma de Lançamento também, e a evidência ficou ululante. Orange Poem, com Hosano morando em Jundiaí-SP e eu desistindo de ir morar na Europa, acabou. Imediatamente propus para Zanom formarmos um duo que se chamaria Pedradura. Não deu certo com ele, a proposta foi ampliada para uma banda e antes de procurar os músicos, fui montar o repertório. Em abril de 2007, catei as letras transcritas em agosto do ano anterior e fui modificando aqui e ali, acrescentando novas melodias, fundindo outras, e criei o repertório do meu novo projeto musical, de volta ao português (primeira experiência foi o Pássaros de Libra em 1999 e 2000).


Artur Paranhos no último ensaio TOP em 05/01/2007. Meses depois, seria o único 
músico laranja a fazer parte do novo projeto de Mirdad, a banda Pedradura.


A primeira versão criada foi a psicodélica "Emaluquiar-se", para "Clouds, Dreams", no sábado 14 de abril de 2007. Depois vieram: o blues "O Milagre", versão para o lado B laranja "Miracle of a Blind Fly" (15/04); o groove "Anti-Plástico", versão da letra de "Neither Gods, Nor Devils" e da melodia de "Dubious Question" (18/04); o groove "Armadilha", versão de "The Green Bee" (18/04); o samba-rock "Ela Gosta, Mas Não Assume", versão da melodia de "Neither Gods, Nor Devils" (19/04); a valsa/samba-rock "Petecas", versão da letra de "Homage" e da melodia de "Cuts" (21/04); a psicodélica "Fantoche", versão da melodia de "A Song to You, My Home" (29/04); o groove "El’eu", versão definitiva de "Madness" – que foi descartada para sobreviver apenas essa nova versão em português (06/06). Além dessas, rolaram mais três versões de músicas lado B da Orange Poem (como "At Least a Wish II" e "Flowers in My Way").

"Brilhante" foi finalizada na segunda, 23 de abril de 2007. Mexi bastante na segunda e terceira estrofes, melhorando significativamente o poema criado em 2002. Na verdade, foram adaptações necessárias à nova melodia – a criada em conjunto com a Orange Poem em maio de 2002 foi descartada. Com o fim da laranja, tomei o poema só pra mim, e fiz uma adaptação acidental da melodia de "Farewell Song"; ao tocar de forma nordestina a passagem dos acordes A9 pra Am, tive o estalo que transformou o blues em baião (no Nordeste é muito comum a associação de blues com baião). Criei uma nova passagem melódica para a 3ª estrofe e a canção ficou pronta.

Virou meu xodó. Foi a música que mais toquei nessa nova fase em português. Tenho muito amor pelo baião "Brilhante" e foi muito frustrante aceitar que a banda Pedradura, já formada, não conseguiu pegá-la de forma descente. Entrou no repertório, foi ensaiada, mas não deu tempo pra ficar pronta para a gravação do álbum "Universo Telecoteco" (a canção ficou de fora como "Petecas" e "Ela Gosta, Mas não Assume"). Engraçado que, no final das contas, o registro da Pedradura só levou duas adaptações da laranja: "Anti-Plástico" e "Armadilha" (as outras foram canções compostas por mim do zero e um cover).


Artur Paranhos seguiu carreira como músico profissional. 
Na foto, toca na banda Estakazero em 2013 
com baixo "laranja" que foi de Mirdad


VERSÃO FINAL

2014, o ano do recomeço. Retomei a Orange Poem com lançamento virtuais de EPs de três músicas, bancados do meu bolso mais uma vez. Em janeiro, lancei o primeiro, EP Ground, com a voz do cantor e compositor Glauber Guimarães, o melhor vocalista de rock do Brasil na minha humilde opinião. O segundo lançamento, do EP Unquiet, estava agendado para abril, com a voz do cantor Rodrigo Pinheiro, amigo de longa data. A gravação da voz rolou na sexta, 28 de março, no estúdio "Casa das Máquinas", de Tadeu Mascarenhas.

A cantora, compositora, produtora e múltipla artista Nancy Viégas (atual Radiola e ex-Crac! e Nancyta e os Grazzers), considerada uma das divas do rock baiano, mulher de Tadeu, trabalhava no estúdio também e já tinha presenciado a gravação de Glauber, seu amigo de longa data. Na época, tinha comentado que tinha curtido as músicas e ofereceu seu trabalho de preparadora vocal ou produtora, caso eu precisasse. Pensei: "melhor que isso, quem sabe ela não topa cantar num EP laranja?". Eu curtia bastante o timbre de Nancyta, ácido como Glauber, mas múltiplo com seu trabalho artístico, indo da fluidez à aridez, do sotaque folk à energia do punk. Pois de passagem pela sala dela, num intervalo qualquer da gravação de John (o apelido de Rodrigo Pinheiro), convidei-a.


Clipe massa da música "O Beijo Amargo", de Nancy Viégas


Nancy foi super receptiva e pediu pra ouvir as músicas, avaliar se a voz dela caberia, já que as canções foram gravadas pro meu timbre, mais grave, de homem. Pois na terça, 1º de abril, mandei as três músicas que eu queria que ela gravasse: "Melissa" (a única que Mauro Pithon topou gravar quando o convidei em janeiro, mas como ele só quis fazer uma, acabei deixando pra lá o contato, retomando no meado de maio com nova proposta, que ele topou, gravando em junho o EP Balance), "8/8/88" (novo nome para "Young Poet’s Song") e o meu xodó "Lost Mails".

Precavido, para caso ela não curtisse as músicas, mandei mais duas opções: "Shining" e "Dubious Question" – escolhidas porque, na minha avaliação, eram músicas "Nancyta", a primeira por ela ter o groove e a pegada da banda Radiola, trampo atual da cantora, e a última por ela ter uma pegada mais experimental. E mandei também as três músicas ("Wideness", "Clouds, Dreams" e "Cuts") propostas para o cantor e compositor Tiganá Santana (que pediu um tempo para avaliar e nunca me deu uma resposta).


Nancy Viégas à frente da banda Radiola em 2012 (Foto: Carolina Bittencourt)


No sábado 5 de abril, Nancy respondeu o email assim: "Oi Mirdad, massa o trabalho! Psicodelia pura!! Gostei de Shining, abre pra interpretações, pode crescer a música. Lost Mails também, a tonalidade dela é pra voz masculina, mas cabe uma abertura de voz que pode ficar legal ... Sobre Melissa, massa a música. A tonalidade dela também é pra voz masculina, só que diferente da outra, na voz feminina o refrão muda muito, bem grave ou agudo demais ... As de Tiganá, se ele não quiser fazer Wideness, gostei dela também".

No final de abril, pela ausência de resposta do amigo Tiganá, deduzi que ele não iria gravar mais e liberei "Wideness" para Nancy. Marcamos a gravação para maio. Na sexta, 09 de maio de 2014, rolou a 1ª sessão do EP Wide no "Casa das Máquinas". Tarde histórica para mim: a primeira vez que uma voz feminina gravava minhas composições. Depois de investir um bom tempo em "Wideness", e fazermos umas fotos (eu, Nancy e Tadeu) para a matéria de Chico Castro Jr. no jornal A Tarde (no quebra-galho de brodagem total de Germano Estácio, que fez as fotos - leia a matéria aqui), Nancy concluiu a sessão gravando "Shining" tranquilamente.


Tadeu Mascarenhas, Nancy Viégas e Emmanuel Mirdad: uma parte da Orange Poem 
e sua ilustre convidada no EP Wide (Foto: Germano Estácio)


Na terça, 13 de maio, rolou a 3ª sessão do EP Wide, com a gravação do synth por Tadeu Mascarenhas. Quebramos cabeça pra encontrar um timbre e escolher o arranjo. Consumimos um tempão, Tadeu cogitou até não fazer, mas conseguiu timbrar no funky e Radiolizou o som laranja, criando arranjos excelentes e um solo bala! Não deu tempo pra mixar, e só concluímos a 1ª mix de "Shining" na manhã do dia seguinte, quarta 14/05, também com a gravação de mais arranjos do synth – a parte espacial do início, da 3ª estrofe (da saída dela também) e do final.

Se é pra ser uma nova música, resolvi mexer bastante em "Shining". A estrutura original de solos era: a) Saída da estrofe 1: Solo Fábio 01; b) Saída da estrofe 2: Solo blues de Zanom; c) Saída da estrofe 3: Solo Fábio 02; d) Final 01: Solo Fábio 03; e) Final 02: Solo funky de Zanom; f) Final 03: Solo baixo; g) Final 04: Bateria + pandeiro; h) Final 05: Pandeiro. De cara, eliminei o pandeiro, que não tinha nada a ver com o som laranja, e entrava de gaiato no navio no final, encerrando a música, sem noção ou justificativa, soando forçado. Na verdade, eu queria a presença do amigo Fabrício Mota no 2º álbum, mas como Artur já tinha gravado todos os baixos, improvisei essa participação, totalmente deslocada.


Tadeu Mascarenhas grava o synth em "Shining" no dia 13/05/2014


Depois, avaliei que tinha muito solo de Fábio e só deixei um. Orientando a edição de Tadeu, remontei a música assim: a) Saída da estrofe 1: Solo Fábio 01; b) Saída da estrofe 2: Solo baixo e a criação de uma pausa na bateria pra entrar no clima da 3ª estrofe; c) Saída da estrofe 3: Solo blues de Zanom; d) Final 01: Solo funky de Zanom; e) Final 02: Solo Tadeu; f) Final 03: Solo Bateria + synth. Achando que tinha feito uma grande criação, mandei a 1ª mix para os músicos laranjas avaliarem (menos Fábio, retirado desse processo desde que desdenhou a nova fase laranja no primeiro EP ainda). Pois foi a 1ª mix que Hosano condenou veemente.


Tadeu Mascarenhas finaliza a gravação do synth em "Shining" no dia 14/05/2014


Para o baterista, criar uma pausa para a entrada do clima diferente da 3ª estrofe estragava seu arranjo original, que mudava a bateria na correria, surpreendendo o ouvinte. No início, resisti, mas acabei compreendendo o arranjo de Hosano e na mix final, segunda, 19 de maio de 2014, refiz definitivamente a estrutura de "Shining" para: a) Saída da estrofe 1: Solo Fábio 01; b) Saída da estrofe 2: Solo funky de Zanom; c) Saída da estrofe 3: Solo blues de Zanom; d) Final 01: Solo Tadeu; e) Final 02: Solo baixo; f) Final 03: Synth.

O EP Wide foi lançado na segunda, 02 de junho de 2014, e a primeira (e até então única) música composta pela Orange Poem foi eternizada com brilho e suingue na voz de Nancy Viégas. Brilhe, "Shining"!