domingo, 31 de janeiro de 2016

Melhores da revista piauí por Emmanuel Mirdad



O escritor, compositor e produtor Emmanuel Mirdad foi assinante da revista piauí, de fevereiro de 2007 (primeiro comprando nas bancas e depois na forma padrão) a outubro de 2016, e a partir de 2013, passou a selecionar os melhores textos e quadrinhos (na sua opinião) que lia por ano, enfocando nos literários, trechos de livros de ficção e ensaios, artigos e reportagens emocionantes ou intrigantes. Confira abaixo a seleção.



Melhores 2016
Veja aqui
Svetlana Aleksiêvitch, Vladimir Nabokov, Karl Ove Knausgård, Siddhartha Mukherjee, Malu Gaspar, Margarita García Robayo, entre outros.




Melhores 2015
Veja aqui

Karl Ove Knausgård, Joseph Mitchell, Reinaldo Moraes, Armando Antenore, Ta-Nehisi Coates, Gilberto Scofield Jr., Ian Buruma, Robin Marantz Henig, Dulce Maria Cardoso, Bernardo Esteves, entre outros.




Melhores 2014
Veja aqui

Patrick Radden Keefe, Consuelo Dieguez, André Cardoso, Jonathan Crary, Richard Lloyd Parry, Andrew Solomon, Alejandro Zambra, Reinaldo Moraes, Michael Pollan, entre outros.




Melhores 2013
Veja aqui
Andrew Solomon, Fernanda Torres, Margarita García Robayo, Nuno Ramos, entre outros.



Melhores 2012
Veja aqui
David Foster Wallace, Francisco Goldman, Rafael Cariello, Jonathan Franzen, entre outros.



Melhores 2011
Veja aqui
Consuelo Dieguez, Julio Cortázar, Curzio Malaparte, Persio Arida, Fred Vargas, entre outros.



Melhores 2010
Veja aqui

Reinaldo Moraes, Atul Gawande, Edmundo Paz Soldán, Lydia Davis, Catherine Herszberg, Greg Grandin, Dorrit Harazim, entre outros.



Melhores 2009
Veja aqui
Mario Vargas Llosa, João Moreira Salles, Jean-Marie G. Le Clézio, Elizabeth Bishop, entre outros.




Melhores 2008
Veja aqui

David Foster Wallace, Samantha Power, Diablo Cody, Tony Judt, Vladmir Nabokov, Norman Mailer, Dorrit Harazim, S. Abbas Raza, Julio Cortázar, Roberto Pompeu de Toledo, entre outros.





Melhores 2007
Veja aqui

Douglas Duarte, Mario Vargas Llosa, Simon Schama, Nilton da Silva, Wislawa Szymborska, Steve Martin, Woody Allen, Raquel Freire Zangrandi, Nando Reis, Kenneth Tynan, Elvis Costello, entre outros.




Melhores 2006
Veja aqui
Millôr Fernandes, João Moreira Salles, Fernanda Torres, Antonio Prata, Rubem Fonseca, entre outros.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Olhos abertos no escuro - Noite de autógrafos - Fotos de Sarah Fernandes



Na terça-feira, 26 de janeiro de 2016, aconteceu a noite de autógrafos do livro de contos Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016), de Emmanuel Mirdad. no San Pietro Tapas, em Salvador, Bahia. A cobertura fotográfica foi feita por Sarah Fernandes, que também fez a foto que ilustra a capa do livro. Abaixo, algumas fotos da noite.


Emmanuel Mirdad




Emmanuel Mirdad


Martha Anísia e seu filho Emmanuel Mirdad 


Emmanuel Mirdad 


Emmanuel Mirdad e Sarah Fernandes - Foto: Lima Trindade 


Lima Trindade e Emmanuel Mirdad


Mel Campos e Emmanuel Mirdad 




Emmanuel Mirdad 




Mayrant Gallo e Emmanuel Mirdad 


Mônica Menezes, Carlos Barbosa, Sarah Fernandes e Emmanuel Mirdad 
Foto: Andrea Mello




Paulo Bono, Emmanuel Mirdad e Victor Mascarenhas




Catarina Guedes e Emmanuel Mirdad 


 Emmanuel Mirdad


Zanom e Emmanuel Mirdad 


Emmanuel Mirdad 


Andrea Mello e Emmanuel Mirdad 


Carlos Barbosa, Mônica Menezes, Lima Trindade,
Catarina Guedes (e marido) e Mayrant Gallo


Emmanuel Mirdad e Marcus Borgón




 Lilia Gramacho e Emmanuel Mirdad


Lilia Gramacho e Emmanuel Mirdad 


Emmanuel Mirdad 


Emmanuel Mirdad e Katia Borges 


Saulo Dourado e Emmanuel Mirdad 


Edmilia Barros e Emmanuel Mirdad 


Emmanuel Mirdad


Roberto Martins e Emmanuel Mirdad 




Veja a cobertura completa aqui


A presença de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo e Emmanuel Mirdad por Sarah Fernandes
Noite de autógrafos do livro Olhos abertos no escuro
San Pietro Tapas - Pituba - Salvador - Bahia - Brasil


Foi só pelo impacto de ler Pés quentes nas noites frias (Funceb-EGBA, 1999) que eu passei a escrever contos. E foi graças às leituras de muitos livros seus (leia trechos aqui), além do já citado, e das leituras que você me indicou, como os mestres Anton Tchekhov e Dino Buzzati, que pude escrever Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016), dedicado a você, com 30 epígrafes suas abrindo os meus contos, que selecionei com muito gosto.


Meu professor, mestre, amigo, que me honrou com a presença na noite de autógrafos no San Pietro Tapas, mesmo com a dor da ausência da querida Andréia. Para quem não o conhece, esse é Mayrant Gallo, o melhor escritor baiano em atividade (embora que o poeta eu considere Ruy Espinheira Filho), uma biblioteca viva de leituras, uma enciclopédia de cultura pop e erudita, um grande amigo, sempre presente. Grato! Valeu demais!



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Oito passagens de Antônio Torres no romance Um táxi para Viena d’Áustria

Antônio Torres (foto daqui)


"Na praia é a mesma coisa. Principalmente nos fins de semana, quando aparecem os amigos e conhecidos que você invariavelmente encontra batendo perna na areia ou no calçadão. Tudo bem? Como vão as coisas? Patati, patatá, você acaba abrindo o jogo, a maldita palavra escapa da sua boca. Desemprego. Ai, que horror. Até parece sinônimo de lepra. Aí o papo fica atado, não vai pra lá nem vem pra cá. As despedidas também são invariavelmente iguais: – Depois a gente se fala. (...) – Telefona pra mim, um dia desses. (...) – Qualquer coisa me procura, tá? Estamos aí. (...) Aí, onde? (...) E assim vou confirmando, comprovando, experimentando, sentindo na pele a hospitalidade tipicamente carioca: – Aparece lá em casa pra gente tomar um drinque. (...) O gentil autor do convite, porém, nunca se lembra de dar o seu endereço. Muito menos o telefone."


"Sol, céu, mar. Meu sentimento é oceânico. É sal, é sol, é sul. Minha visão é atlântica. Vai até a linha do horizonte, na fronteira da nostalgia. E tudo é azul demais – a cor perfeita para se morrer em estado de graça ou para se viver à flor dos poros. (...)"


"Palmas para quem consegue tirar um desemprego de letra. Eu não estou conseguindo. Os meus sentimentos a respeito, na verdade, são contraditórios. Às vezes penso que, quando pintar uma oportunidade, vou ficar muito chateado. Porque vou ser obrigado a aceitá-la. E aí? Trabalhar de novo? Voltar a me aporrinhar o dia todo, com a chatice do dia a dia empregatício? Emprego é um saco. Cansa, dá gases, úlcera, infarto e câncer. Vai ver até Aids. Hemorroidas, com certeza. E o desemprego? Dá preocupação, cabelos brancos e tudo o mais. Então fica combinado assim: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come."


"Ai se eu soubesse antes que matar era tão fácil, tão bom. (...) Agora já sei que não existe emoção mais forte. Uma emoção única. Indivisível. (...) É assim como uma prova definitiva de potência, de saúde – você se sente física e mentalmente em plena forma. (...) E descobri mais: não existe movimento mais moderno. (...) Só requer velocidade e cinismo, a receita universal da modernidade."


"Belo exemplar de tirarucu brasiliense, esse motorista. Pintou uma trolha, vai tirando o dele da reta, rapidinho. Como todos fazem. Todos os tirarucus brasilienses. Mau-caráter. Pusilânime. Hipócrita. Vai ver frequenta uma igreja todos os dias. (...) Sou capaz de jurar que não passa de um dedo-duro. De minha parte terá cem anos de perdão se não desligar o rádio ou mudar de estação. Estamos viajando em dó maior, o tom sob medida para os torturadores abafarem os gritos dos torturados."


"É uma parede que aumenta e diminuiu de tamanho de acordo com o espaço que estou ocupando. E se move, acompanhando os meus passos, sempre ao meu lado. Quando me ergo da cama, ao acordar, ela também se levanta e me segue até o banheiro, me cercando. E assim por diante. Não me larga. Nem dentro de casa, nem na rua, muito menos quando estou andando na praia, onde às vezes ela se posta ao lado do mar e em outras do lado da rua, dependendo se estou indo ou vindo. Ainda não sei por quê, mas ela prefere sempre a minha direita. De vez em quando apostamos uma corrida, que acabo perdendo. É uma parede olímpica. (...)"


"Quero tropeçar num bêbado genial, como os de antigamente – mas neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios. (...) E o poeta que disse isso não mora mais aqui. (...) Ele virou nome de rua e me abandonou numa garganta engarrafada. (...) Poetas, seresteiros, namorados, correi. Lá vem bala. (...) Todos ao mar – esse marzão besta que Deus nos deu e que ainda não aterraram e ainda é de graça e não me perguntem qual foi o milagre."


"E o morro mora ao lado. Se descer mesmo, como é que vai ficar? Vai caber todo mundo na nossa garganta?"





Presentes no romance Um táxi para Viena d’Áustria
(Record, 9ª edição, 2013), páginas 138, 52, 146,
92-93, 51, 123-124, 18 e 17, respectivamente.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Cento e cinco passagens de Emmanuel Mirdad no livro de contos Olhos abertos no escuro

Emmanuel Mirdad - Foto: Sarah Fernandes


Olhos abertos no escuro apresenta uma constelação de personagens complexos, situações extremas, solidão, romance, ironia e prosa poética. Plural, ácido e reflexivo, contém 30 contos, que podem ser divididos em três linhagens: 1) reflexivos e poéticos; 2) sobre relações afetivas; 3) literatura policial. Para Carlos Barbosa, que assina o posfácio, são pontuados por “amor e traição, bebidas e drogas, insegurança e solidão, tédio e indignação, sarro e revolta, sexo e medo – coisas da nossa contemporaneidade difusa e obscena”. Para Victor Mascarenhas, que assina a orelha, o livro é “uma coleção de contos que apresenta uma plêiade de personagens que vagueiam por aí, levando sua escuridão particular a qualquer hora do dia e da noite, assombrando e tirando o sono dos incautos leitores”. O título da obra foi retirado de uma passagem do conto Gravidade, do escritor Mayrant Gallo, para quem Mirdad dedica o livro, com uma epígrafe dele abrindo cada um dos seus 30 contos.


Absoluto: A assessora de imprensa Madá esbagaça a sua vida por conta de uma obsessão
tresloucada pelo misterioso mímico de rua Absoluto, sem palavras, só gestos.


“É impressionante a forma como o ser humano se desfigura, se degrada, se arrebenta por conta de uma possessão, erroneamente classificada como ‘amor possessivo’ — que, de amor, não há nada. Quando o outro determina o fim, a vítima de si mesma está presa a uma armadilha cruel, definitiva. Não há cura, só remendo, que pode ser de dois tipos: a) conseguir ser ‘amado’ de novo, sabe-se lá como, pela mesma criatura que a sua projeção construiu e se submeteu aos caprichos — uma opção quase impossível de ser realizada; b) assassinar o ‘amado’ e suicidar-se em seguida, para que a morte os una, ao menos, na mesma condição de defunto — a opção bastante provável, mais fácil e de rápido reenlace no cemitério. E foi pelas vias do impossível que Madá não se rachou por completo: graças ao acaso, que, supostamente, interfere no óbvio — sendo que, na tragédia da existência, não há o que não seja óbvio.” (p. 28)


“Durante o intervalo, sempre às quartas-feiras, havia uma apresentação artística, no centro da praça. Alunos de várias séries, idades, gostos e medos se revezavam no círculo central para assistir à encenação do mímico, acomodados pela sombra generosa da grande amendoeira. O artista transmutava os elementos do imaginário em gestos delicados, movimentos sutis, inspiradores, hipnotizantes. (...) O tamanho e a variedade de peças apresentadas faziam o pocket-show do mímico funcionar para os estudantes. Um dia, o mundo urgente, descartável e eletrônico irá catapultá-lo da praça. Tal sina não preocupa o artista. Sempre há espaço, em outras paragens, para quem é fluido e safo. E, mesmo na versão reduzida, da dose aos estudantes, para extrair o sumo da sua arte, era preciso a paciência da contemplação. Parar para ver. Parar para sentir. Parar para ser envolto pela aura do inefável. Parar. Foi isso que Madá fez.” (p. 19 e 20)


“O mímico usava um chapéu desbotado, portava uma velha mala marrom e se vestia com um macacão escuro, rajado por uma camisa amarela de listas, calça remendada e sapato gasto. Trapos, mas limpos, perfumados. Humildes, sim, molambos, não. E os seus olhos brilhavam. Muito. Eram castanhos, mais claros que os seus cabelos cacheados, e comportavam mundos estranhos e sonhos do além. Gostava de dançar. Ah, como bailava... Recriava os fatos em lendas, suaves, fluidas, impossíveis de se tornarem livros, por serem tão etéreas, brisas fugazes. Uma breve passagem, paisagem do que não se engarrafa, tragada pela respiração da cidade, quando desaparecia ao final das apresentações, deixando Madá a suspirar profundamente, apaixonada, feliz, uma bola de fogo, radiante, linda.” (p. 24 e 25)


“A praça de médio porte, em frente à entrada principal do colégio, foi reformada recentemente e ficou aconchegante, arborizada, com espaço infantil, bancos de madeira, equipamentos esportivos e banca de revista. Na hora do intervalo, os alunos têm permissão para frequentar o espaço. Para atender à demanda de segurança por parte dos pais, funcionários ficam de olho nos jovens, e uma empresa realiza a ronda, armada e motorizada. Entretanto, quem quisesse fumar um baseado, comprar entorpecentes e matar aula, conseguia. Afinal, é inerente aos jovens burlar qualquer geração supostamente preparada para contê-los.” (p. 19)


“O trânsito é ótimo para equilibrar as diferenças sociais: todos xingam e se agridem da mesma forma, furiosa e imbecil. Ontem, Madá levou uma tapa de uma senhora, na esquina da sorveteria elegante. Sonolenta pelo efeito do domingo à tarde, a assessora arranhou, com o seu carro de luxo, um nobre sedan estacionado. De que adiantou o sobrenome famoso? A senhora foi lá e estapeou. E ficou por isso mesmo. Sem a agressora saber, o revide não foi dado, porque a maldita era mãe do melhor cliente da cidade.” (p. 15 e 16)


“Ao surgir, o absoluto era um vulto surreal. Na praça, vestiu-se da personificação exímia de virtudes de um ídolo querido do passado — Bonorico — já enterrado, que veio à tona novamente, por capricho do acaso. Nos encontros casuais, atendeu às carências maternais por um ser a ser cuidado. Na rotina, tornou-se o exímio divã, silencioso, que só se manifestava em palhaçadas, combustível das risadas tão necessárias ao entorpecimento diário das dificuldades. Num ocasional arroubo incontido, correspondeu às súplicas carnais de uma mulher a redescobrir a sua força sexual, que estava amortecida pela repetição de um casamento de tarefas e acordos. Por fim, respirava apenas para se manter pulsante e gostoso, endurecido e predisposto, uma foda atrás da outra, o atraso de uma década inteira.” (p. 25)


Impermanência: Dois amigos conversam sobre a
transitoriedade da vida — todos, sem exceção, passam.


“O ser humano sobrevive a ferro e antibióticos na roleta-russa silenciosa da existência. E a duração patética do seu legado como nome e/ou imagem e/ou obra e/ou genes por, no máximo, duas ou três gerações — caso haja procriação —, satiriza o animalesco impulso biológico da autopreservação a qualquer custo. Ou seja, não adianta. Você e todo o seu fundamentalismo umbilical e peculiar irão fenecer. Todos passam. Mesmo.” (p. 34)


Qualquer um: Qualquer um volta pra casa, depois do trabalho, e percebe que é só mais um
medíocre solitário na multidão de medíocres, que vai morrer só e o seu legado é tão pífio
que rapidamente será esquecido, por qualquer um.


“Qualquer um entrou no apartamento, após um dia de trabalho estafante e repetitivo, sem acesso à rede por sugestão do analista. Mal fechou a porta, sacou o celular do bolso. Acessou o Facebook e se excitou ao ver o anúncio vermelho de oito notificações. (...) eram convites para festas a que nunca iria, nem que fossem da sua prima desafinada e insistente; para shows com atrações que nunca ouviu e desprezava antes de um play sequer; para lançamentos de livros que não valiam o investimento absurdo de vinte reais numa ruma de papel encadernada que desencadearia mofo e infestação de traças.” (p. 36)


“Qualquer um (...) aplicou-se no WhatsApp. Excitou-se: várias mensagens não lidas. (...) Leu, uma por uma, de todos os grupos, as individuais também, e todas estavam direcionadas a outros membros, ou eram piadas machistas, homofóbicas, racistas, memes babacas e tacanhos, vídeos de putaria, fofoca, intriga política, e dezenas e dezenas de flyers e convites para shows e lançamentos de discos e de livros, num âmbito em que todo mundo produz e ninguém é plateia, exceto por escambo. (...)” (p. 37)


“(...) Ninguém ligava para qualquer um. Ninguém pensava em qualquer um pra chamar pra sair, dar uma volta, comprar um sorvete, jogar conversa fora, ver a rua e as pessoas, sorrir, sentir a brisa, fumar um, tomar uma. Qualquer coisa serviria para qualquer um, desde que, à noite, ou no final de semana, qualquer um pudesse existir além da estafante e repetitiva rotina de sua mísera existência banal.” (p. 37)


Ela não quis: Manuela, 15 anos, estudante. Davi, médico. Colegas de natação.
Da sedução matreira da garota à proposta arriscada e cretina.


“— Não consigo nadar borboleta, cansa muito... — Manuela puxa conversa. (...) — Como? (...) Na raia entre os dois não há ninguém. Às seis de uma manhã chuvosa, apenas quatro alunos treinam na água fria da piscina. No professor, a vontade justificável de dispensá-los e voltar pra casa antes que a avenida alague. Manuela passa da terceira raia para a quarta, a fim de ser notada, como se fosse possível alguém estar num mesmo espaço que ela e não notar o espetáculo das suas formas e curvas desenvolvidas de uma mulher grande e precoce, num rosto simétrico e indeciso entre o infantil e o maduro, iluminado por um sorriso redemoinho que captura e naufraga o incauto admirador do seu percurso sublime. (...) — Borboleta... Não consigo... Cansa muito... Mas eu acho lindo... — para cada palavra, ela mordisca o polegar, uma malícia saborosa.” (p. 40)


“Davi tem uma barba elegante, bem aparada, que tonifica o queixo quadrado, marcado por uma pequena dobra ao meio, hipnose máscula que leva Manuela a fremir os ovários aptos e predispostos à estreia.” (p. 40 e 41)


“Manuela sorri, graciosa, e faz da respiração um ímã. Davi segura o seu braço pela primeira vez. Sente os pequenos pelos se arrepiarem, e os elementos do inefável compartilham as informações secretas que creditam ambos ao enlace, ao encaixe, à troca de fluidos e genes. O toque é uma foda. Ela vibra. Ele endurece. Uma mão no antebraço. Um feito para o outro.” (p. 42 e 43)


“(...) afobado por dar um bom dia significante de ‘estou aqui e te quero’, maquiava a cadência e o fôlego do treino para puxar assunto entre os descansos, mesmo com uma raia a separá-los, e não se concentrava na aula enquanto não falasse com ela, que rendia as conversas até que surgisse algum comentário preciso, bem arquitetado, engraçado, que a fazia rir e se sentir bem — um homem preparado, companhia agradável, muito além dos moleques pegajosos que conhecia e dava uns beijinhos na escola ou nas festinhas de aniversário das amigas. A virgindade? Só um homem feito, inteligente e responsável teria o dom para tanto — a senhora de dentro de si exigia essa qualificação à menina sapeca na linha de frente.” (p. 41)


“(...) Ao bater na borda ao mesmo tempo em que Manuela, ele revive uma sensação há muito adormecida, que ainda não foi maculada pelo acúmulo de experiências fadadas ao fracasso, traumas e frustrações da vida adulta. Os dois trocam sorrisos e olhares, harmônicos e compactuados, numa mesma vibração de afeto. Se Manuela o amar, será o seu primeiro amor, e por ela não ter nenhuma maldita referência anterior, Davi poderá aplicar o seu melhor na relação, pois já conhece bem qual de si deve ser ao amar, caso esse amor seja justo e merecedor de tanto empenho.” (p. 43)


Formigas: O velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, nobre e ilustre,
laureada de prêmios e acúmulos de títulos, que está surpreendentemente frágil,
à beira de um riacho, trágica.


“O amor é tudo na vida, mas quase perfeito, eu cobri um lar que nunca revelei. Desde o início, enfurnei-me no banco, cursos, faculdade, viagens, negócios, acúmulo financeiro, extremos. O bate-estaca métrico e soturno: trabalho – trabalho – trabalho. Venci pelo esforço, construí um pequeno império de cifras, de gozos poucos. Nada faltou ao lar. Apenas eu. (...) De babá em babá, a minha filha aprendeu a ausência, a distância e os contornos superficiais das relações humanas. E venceu. Mas não teve filhos, não se floresceu enquanto mãe e não se apaixonou. Doce por fora, ventre seco por dentro. E o que eu quis dela, ficou em algum outro extremo, longínquo.” (p. 50)


“(...) São vinte e cinco anos de uma carreira invejável, sem filhos, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, maquete viva da glória acadêmica, nobre e ilustre. Começou cedo, aos dezesseis, na gaiola das loucas do curso de Psicologia. Hoje, é a senhora de duas teorias: superlativos de páginas duma célebre pesquisa, ao revés de um best-seller chinfrim de autoajuda. Contraditória senhora de si, é esperta e funcional, trapezista de tendências. Contudo, agachada desse jeito, como dói nos olhos meus, transmuta-se na Clarinha do picolé e boneca, dos ingênuos anos de nada fazer.” (p. 48)


“Ela está silenciosa, à beira do riacho. No passado, arremessava pedras, escutava o vento, mordia o braço; queria poder enxergar os seus ossos, entender das carnes. Agora, mantém-se imóvel, esquisita, inalcançável. Do fundo, um grito represa o menino que buscava. Sempre no fundo, um boto perdido e falante. Imagens, apenas. E eu estou descrente demais para concretizar até mesmo as fábulas redundantes; a velhice rende pílulas, a piada inesperada, a linha final. Desfechos que a mente constrói e assassina. Quem sabe um empurrão às mochilas e cajados, para salvar o corpo de ninguém? Apenas imagens.” (p. 48)


“O que será de mim, assim, sem a última compensação da velhice? Não posso me expirar do apodrecer progressivo sem a ilusão do continuísmo na prole. Minha filha, a única, tem que compensar o meu último suspiro, alívio do serviço bem feito. Teria, mas ela não pode.” (p. 50)


“(...) Minha filha, venerada por milhares de famintos, senhora de tantos poderes ilustrados, está prostrada em uma posição frágil, minúscula como as formigas que piso com o que resta do meu sadismo. Merda! Não é só a posição do seu corpo que insinua o suicídio. É o seu conteúdo, todo o recheio oco de uma vida de autômatos. Contraditória, vivera, até então, embebida de ‘faça o que eu mando, não faça o que eu faço’. Tanto esforço e tanto tempo empregados à cura dos pacientes transtornados, enquanto o transtorno de si mesma evoluía, sorrateiramente, incólume.” (p. 49 e 50)


Que seja duro enquanto sempre: O amigo sensato se encontra com o amigo
de coração partido num bar de ponta de esquina. O acaso faz tocar 
a canção Por enquanto, na voz de Cássia Eller.


“O bar é de ponta de esquina. Um boteco. O amigo sensato se encontra com o amigo de coração partido, após um breve telefonema, resgate, naquela inevitável caridade da qual, às vezes, não se tem como escapar.” (p. 54)


“(...) Cássia Eller, nervosa acusticamente, acaba de cantar a definitiva Por enquanto, de Renato Russo. As estações mudam, mas não o dilema: (...) — É duro quando o pra sempre acaba. (...) — Mas ele sempre acaba, não?” (p. 54)


Ingênio: Um astro da música brasileira rememora a sua importância para o público e
imprensa, remexe as suas lembranças contraditórias e assume o fracasso de ser apenas
uma caricatura "genial" que a sua carreira forjou no imaginário popular.


“Essas canções que fiz propiciaram emprego a muita gente. Os jornalistas acostumaram-se ao assunto e venderam revistas, jornais, programas de rádio e tevê com as besteiras que me perguntavam, às quais eu sempre respondia com um sorriso largo, acolhedor e um monte de palavras floreadas e desconexas só para forjar um mito intelectual, mas próximo ao povo por eu ter origem pobre. (...) eu passei a ser necessário para elevar a audiência. Cumpri a função: sempre solícito, de programa em programa, matéria por matéria, parte fundamental no excesso de conteúdo produzido num país novo, carente de ídolos para referendar a sua trajetória, algo que aliviasse a condição de pasto do mundo.” (p. 56 e 57)


“(...) o povo, conservador por excelência e essência — condição imutável do nosso fracasso como revolução —, continua a cantar, dançar, chorar e a fazer filhos com toda essa baboseira de caça-palavras e ritmo que produzi enquanto ainda fumava maconha, à beira do mar, só pra comer os bichos-grilos de saias que trepavam ao primeiro acorde de um violão supostamente combatente ao sistema — eu toco, você dá, eu fabulo, você me segue. Tudo continua, mas eu não. Cansei.” (p. 57)


“Eu fiz canções que o povo cantou. Outras ajudaram a tevê a construir o seu império, cristalizaram os símbolos pretendidos da dramaturgia pasteurizada, exibida à noite — meu nome caiu na boca do povo. (...) também ajudaram a compor o interminável repertório de tantas bandas operárias do cachê, sem arte, somente a função: entreter a massa. (...)” (p. 56)


Sereno aceitar: Um solitário porteiro leva uma vida repetitiva e ordinária, até que um
par de sapatos vermelhos importados provoca o fatal alumbramento repentino,
forjando o mito do bacana em quem nunca deixou de ser
medíocre — embora que ambos sejam ordinários, ao fim.


“Metralharam alguém. Como é estranho o silêncio que rege o fluir da pólvora pelo ar! O espanto zelou os suspiros atônitos da vizinhança. Mesmo a sentir o receio basilar dos mais previdentes, a curiosidade faminta por tragédias o impeliu a sair para averiguar, típica imprudência dos que são condicionados pela mídia policialesca. Ele pensou: ‘Quem sabe não sobra uma ponta pra mim?’ Sempre sobra. O defunto, um desconhecido de uns trinta e poucos anos, perfurado com tirambaços na fuça, peito e barriga, portava sapatos luxuosos e vermelhos, dignos de Bento XVI. Enquanto as tripas e fluidos internos borbulhavam pelos buracos para fora do corpo, ele vislumbrou o solado, novinho, ainda com uma marca italiana aparente. Deduziu ser grã-fina. Na carteira da vítima, à mostra pela queda, havia muita grana. Não deve ter sido levada por causa da pressa do serviço. E, em vez de pegar a dinheirama, ele preferiu os sapatos. A bufunfa, os comparsas investigariam. O calçado, ninguém cobraria.” (p. 61 e 62)


“A fome roncou em chiliques. Ir até o último andar custou um suor extra, escadas acima, ofegante. Durou pouco. A alma caridosa foi ágil: sem muito perrengue, a Temerária deu-lhe algumas bananas amassadas e só. Solidariedade. Estômago tapado, boa noite, boa sorte. De volta ao apê, os pelos fartos do corpo fediam mais ainda. Teve que improvisar a higiene. De balde e cara de pau armada, foi até o único ponto de água, fora dos apartamentos, do surrado edifício. À vista do espaço comum, sem cerimônia alguma — e nada disposto a subir um lance de escada com o balde cheio —, lavou apenas as axilas e o rosto e o pescoço. Era o necessário para um homem solitário.” (p. 60 e 61)


“Quando o ônibus conseguiu atravessar a marcha do MST, o ar voltou a circular. As pessoas deixaram de suar e se acalmaram; logo estariam imersas na rotina mecânica de sempre. Esqueceriam os protestos e rompantes pelo sereno aceitar da normalidade, sobrevivência. Quanto mais quieto, menos perigo, mais vida. Assim, o mundo gira e a máquina continua a produzir. Nessa equação, uma incógnita se deturpou: ele.” (p. 64)


“Raras vezes se permitia algum lazer. Costumava não sorrir nem alimentar esperanças. Rabugento, sobrevivia, como todos, sem perspectiva, só ação, repetida e exaustiva. Porém, o acaso do assassinato e o inesperado surrupio dos sapatos distorceram o rumo da programação. O que era apenas um objeto de calçar — mais vistoso que outros, é claro, mas servia apenas para pisar, como todos —, foi remodelado num ícone em combustão. Subitamente, na inevitável virada da noite para o dia, um porteiro obeso e bigodudo, solitário e fedorento, inchou-se progressivamente com o vírus da ostentação burguesa. Portando o tal objeto caro, de valor, belo, enobreceu-se pela frágil e farsante via da autoproclamação, sem uma cifra a mais na carteira.” (p. 64)


“Em vez de ônibus, seguiu a pé, na dilaceração final dos tornozelos. A cada passada, um passeio. Exibido. E bem que tentou atravessar a cidade de vales e contrastes. Velho e gordo, foi forçado a parar. Precisou descansar, mesmo alucinado; o mundo real o estapeou. Como tinha pouco para se bastar, estagnou-se em silêncio por duas horas, numa praça confortável, recém-inaugurada. Tempo bastante para sonhar, contemplado. Tomou, bem devagar, umas três cervejinhas, saboreando a espuma quente pelo atraso do gole como se fosse vinho. Imaginou o que faria com o salário do novo emprego, fantasiando que era uma dinheirama. Equipado por sapatos vermelhos e importados — caríssimos, na sua dedução ingênua —, curtiu a possibilidade de ser milionário. (...)” (p. 68)


Alucinação: Mataram a Rita! E uma das peças, apaixonada pela bucha de sena, 
irrita-se com a jogada tonta que vitimou a sua musa, e escapole do tabuleiro
de dominó, iniciando a saga surreal da alucinação.


“O dominó proporcionava umas partidas bastante disputadas, com muito empate, um toma-lá-dá-cá danado, não havia favorito. Quem decidia, quase sempre, era a sorte mesmo. Com os jogadores safos, todos escolados, só o azar pra vencer os empates e os embates. E as apostas fervilhavam. Todo mundo fazia a sua fezinha. Mas a plateia era obrigada a ficar em silêncio, quase absoluto. Qualquer troço diferente, seja movimentação ou diálogo, era motivo para alguém acusar de trapaça. Dependendo do palavrão, saíam na mão, sempre respeitando o tabuleiro, sem bulir nas peças. Depois dos socos e apartações, a partida recomeçava. Ninguém comprometia o dinheiro dos apostadores por conta de tapas e murros. Que brigassem o quanto quisessem! Sangue e caras estapeadas depois, o jogo havia de recomeçar, de qualquer maneira. Eram nobres, os cavalheiros do ócio.” (p. 74)


“A vida me borbulha. Sobrevivo à vodca pirata e ao antidepressivo, e saio, compenetrada, rumo à orla. Andarilha e nostálgica, escolho morrer no mar, a promover uma batalha entre os meus germes e o sal flamejante, para desinfetar, do restritivo mundo padrão, a minha existência, à vista dos outros, monstruosa. Basta! Resignada, não choro e apenas vou, corajosa, em passos calmos. Chego bem perto da água salgada. Do calçadão, um berro agudo interrompe o vigor suicida; alguém grita o meu nome, com força e desespero. Uma mulher grande, galopante e pontilhada. Rita. (...)” (p. 72 e 73)


“Um crime terrível, hediondo, inafiançável. Um absurdo! Mataram a Rita! Irritada, clamei por justiça, mas o que os desgraçados fizeram, foi apenas virar os dados e embaralhar as peças, para o jogo recomeçar. Fiquei furiosa com tamanha impunidade. Aproveitei a mão mole do embaralhador e escapuli, tabuleiro abaixo. Deram conta da minha falta, imediatamente. Suspenderam o embate. Ninguém conseguiu me encontrar. Fugi para o mundo real. Sem mim, não houve mais partida. Dominó faltando peça é que nem infarto e derrame; fulminam, mesmo com o corpo inteiro.” (p. 75)


“Sempre fui esquisita, mas era decisiva nas vitórias. (...) não parei de pensar em minha Rita. Amor platônico. Nunca nos colaram, as malditas regras não permitiam. Nas vezes em que ficamos separadas apenas por uma peça — aproximadas pelas alcoviteiras, as minhas primas de 2º grau, com o número seis gravado em uma das pontas —, eu saboreava o cheiro dos buracos mil da minha paixão, pesada, de maior valor entre nós todas. Com sorte, durante os rodopios antes do recomeço das partidas, ocorria da gente se chocar, se bater, se roçar. Uau! Como isso me excitava! Muitos lasquinês que proporcionei, vieram depois desse rebuliço. Que saudade...” (p. 76)


Botox: A empresária Marília, influente, estrategista, sagaz e bem-sucedida,
dona da grife mais valorizada, enfrenta o inimigo implacável:
uma doença terminal, repentina e voraz.


“(...) Na ampla e climatizada loja que ergueu, a venda é camuflada. O que importa é a satisfação das consumidoras, que precisam se sentir confortáveis para que possam falar muito, desabafar as suas angústias e vontades, como se estivessem na casa da melhor amiga, a confidente secreta e leal. (...) Para cada cliente, uma vendedora específica, que possui um detalhado banco de dados sobre a sua intimidade e as suas necessidades, previamente analisado por um terapeuta — a bula é construída desde o primeiro encontro. Cada frase, gesto e postura são calculados antecipadamente, visando à sedução emblemática. (...) As clientes confiam de forma plena, entregue, total. Além das cartadas certeiras, Marília atende em sala reservada, a oferecer exclusividade, importância, simulando uma sessão de análise. Acomoda as clientes em um confortável e fashion sofá, e permite que elas despachem as mais variadas angústias e insatisfações: dúvidas existenciais, reclamações cotidianas, relatos de traição e impotência dos maridos, drogas e vagabundagem dos filhos, sessões secretas de sexo com amigas e empregados, entre outros segredinhos que precisam ser contados, mas nunca se sabe em quem confiar. Ela? ‘Sim, desabafe, eu garanto o sigilo...’ E a cliente aproveita para conferir as tendências da estação. (...) Ao final do processo, todas pagam o preço que for. (...)” (p. 83 e 84)


“(...) No material que expõe, com brilho e afetação, há o couro moldado por sertanejos, os panos costurados por candangos e muita mercadoria comprada em queima de estoque de depósitos no sul do País, e em outras liquidações baratas, nos confins das fronteiras e até em outras terras latinas. Então, o balaio de gato cai nas hábeis mãos de poucas funcionárias, de extrema confiança, que costuram, com muita delicadeza, a preciosidade da coleção: a etiqueta. (...) É a marca que faz o material chinfrim custar tanto. O que interessa à cliente é comprar, possuir e ostentar o ícone referendado que assina a coleção, do vestido de gala ao chaveiro personalizado. (...) A cliente paga, propaga e é certificada a transitar pela sociedade compartilhando o mesmo código de conduta e consumo que as demais mulheres ricas, as mesmas regras de etiqueta e comportamento do seu meio social, amparada e legitimada pelas peças que Marília vende (...)” (p. 80 e 81)


“Marília desliga o som do carro. Enxuga as maçãs do rosto e olha para a entrada da sua loja, de rua, uma maison. Bem vigiada, segurança privada armada e atenta, apoiada por viaturas da polícia militar a rondar pelo tradicional bairro nobre, permite-se ao luxo de estampar diversas ricaças na sua porta e nenhum assalto. Entretanto, há um burburinho maldoso. A empresária analisa que o deboche é sobre o seu sumiço. Mais: estavam a avacalhar a sua pessoa, algo impensável meses atrás. Só que as clientes têm razão. Afinal, faria o mesmo, caso fosse uma das fofoqueiras. A mulher, em equívoco ancestral e absurdo, é algoz da mulher.” (p. 85 e 86)


“Antes do envelope-tormenta, era cúmplice da cisão familiar. A regra da existência contemporânea é cada um por si, o meu primeiro. O egoísmo impera e regula, o recurso financeiro entra e a felicidade é ágil, fugidia. Não se engane: Marília vivia bem consigo mesma. Bastava-se. Da família, queria os garotos sadios e estudando. Do ex-marido, que continuasse a pagar em dia a pensão e demais despesas eventuais, requisitadas pelos filhos. Sexo? Trocou pelo glamour e chocolates. (...) Saudável engano; o corpo humano destroça as fantasias. E é cruel, revelando as mazelas de repente, num pedaço de papel com letrinhas impressas. Exame de rotina. Resultado incomum. Suspeita estranha, novo exame, específico. Marília abriu-o, assim que saiu do laboratório. Choque. Profundo. (...) desaba na cama king size. Quer romper o pacto, ligar para o ex-marido, que é médico. Não pode, mas precisa. Disputa difícil, entre o mito poderoso e a carne frágil. E se acionasse os filhos? Não dá; há muito o cordão foi podado pelo elo do comércio ‘notas altas = dinheiro extra vs. notas baixas = corte na mesada’. Pensa: ‘Quanto será que eles cobrariam por um apoio sempre ruim de dar?’ — para a empresária, não há quem segure a barra da doença alheia sem levar alguma vantagem com isso.” (p. 88 e 89)


“O poder está intrinsecamente ligado à quantidade de contatos e à qualidade das informações que o poderoso acumula e mantém. E a rede precisa ser vasta, abrangente, plural, corporativista. Faz parte do bom jogo colaborar, compartilhar, trocar, intercambiar os interesses constantemente. Além disso, para sobreviver às tempestades ocasionais que a frágil carne humana impõe, é fundamental estar no topo da hierarquia e ter um longo dossiê sobre os deslizes de cada peça dessa engrenagem corrupta e vital. Não importa o que aconteça, quando e quanto tempo irá passar até que se volte à ativa. Se ainda tiver as provas muito bem resguardadas, e se a habilidade de escapar das ameaças for maleável e sutil, nem precisará de dinheiro para se reerguer. Ofertarão.” (p. 106)


“(...) antes de apagar, pede para que a acompanhante se aproxime. Fala, bem baixo, ao ouvido: (...) — Vou colocar o seu nome no meu testamento. (...) — Qué isso! Vai ficar tudo bem... (...) É uma falha dos românticos cogitar a moral mesmo em momentos extremos. (...) — Não precisa me agradar, sei da lama em que habito.” (p. 92)


“Muitas vezes, quem se classifica como preparado, não está. É na dificuldade que surge a real competência do posto em xeque. E os novatos no comando costumam se estrepar com frequência, decaídos pela prepotência inflada do poder recém-adquirido, e se desesperam: tomam decisões desastrosas e se tornam acuados e imprudentes, a demitir o primeiro funcionário que questionar e expor os seus equívocos; a absorver para si toda a responsabilidade, afundando o grupo no confuso redemoinho das metas insanas, pretensiosas e mirabolantes, criadas no afã por soluções imediatistas. (...) Érica chorou, escandalosa, no banheiro. A polícia prendeu quatro grandes fornecedores, ferrando com o comércio de muita gente. A nova chefe foi cortar verbas justo da segurança... É a regra: deve-se pagar, com assiduidade, para os agentes da Lei permitirem o funcionamento da operação clandestina e ilegal. O sistema ficou comprometido, justo agora, quando as mulheres ricas estão mais arredias; o casamento está próximo.” (p. 96 e 97)


Despedaço: Um profissional, por conta do acaso, se fascina pelo pôr do sol.
Outro, caminha pela areia da praia, de terno, desolado.
Encontram-se, desabados. O que há de comum além da dor e da redenção?


“Equilíbrio. O horizonte e o final da tarde, essa composição harmônica do poente, são lastreados de cores em dissolução. Um preparo inebriante, conforto gratuito ao descanso dos fardos; basta parar e assistir. Caso alguém aguce a vista para além do olhar, sentirá a interferência arruinadora das inutilidades. O que você venha a interpretar da visão, nesse caso, será falho. Simples: é apenas o ciclo solar. O ópio gerado pelas informações visuais, captadas pelo nervo óptico, é uma bobagem de símbolos inventados que não deveriam ser traduzidos e interpretados — dispensável projeção dos seres que querem escapar de algo, mesmo que a eficácia da fuga, há tempos, comprovou-se nula, pois não há alternativa, só a existência a cravar a mediocridade do que há de ser feito, comprimido pela gravidade, necessitado de oxigênio e vitaminas.” (p. 114)


“A paciência profissional do homem o fez sair do acidente sem emitir um gemido sequer. Um pouco tonto, por ter batido a cabeça, afastou-se do burburinho, quis evitar curiosos e as autoridades, e foi andando pela calçada, paralela ao mar, aborrecido pelo transtorno que não previra. Entretanto, o acaso pôs para funcionar a sua armadilha, o seu turbilhão: a beleza. O sol, no processo de se despedaçar ao final da tarde, aos poucos forjara uma miríade de cores, que deixou o homem fragmentado pela revelação: nunca avistara o mar de tão perto, quiçá o estonteante pôr do sol salino, no horizonte da baía. Abandonou-se na apreciação do espetáculo, na corrosão da carapaça imbecil de operário do hábito. Sentou-se na balaustrada e ficou até anoitecer o impacto, a permitir a contemplação de tal deleite desconhecido.” (p. 115)


“Basta distorcer um pouco o formato para que os grupos de curiosos se formem, aglomerados num bloco compacto, tribunal e plateia. Na balaustrada desse final de tarde incomum, com risadas contidas e palavras soltas, chegaram a um consenso: bêbado, demitido e traído. O martelo confortável do coletivo — ou a ausência da responsabilidade do indivíduo — fora batido, para celebrar a catástrofe alheia. O deboche malicioso e a saída impune e cúmplice dos curiosos alimentariam o escárnio, a render e ilustrar o movimento das conversas inúteis pelo resto do dia.” (p. 116)


Selvagem: Moreno, armado com uma garrafa de água mineral, enfrenta uma
barata cascuda na cozinha. Mas ela insiste em não morrer.


“Moreno foi surpreendido por uma cascuda na cozinha. Tacou-lhe a vassoura. Nada. O inseto ficou de casco pra baixo, tentando se virar, pra fugir. Moreno bancou o sádico e fez a experiência de banhar a barata gigante numa poça de água sanitária. A cascuda fervilhou, vibrando todas as patas e antenas em agonia. A compaixão fez uma alusão imediata: deve estar sofrendo como os X9 queimados em pneus. O homem ficou com remorso e, relembrando a honra dos antepassados, decapitou o bicho com o fundo de uma garrafa vazia de água mineral de um litro e meio.” (p. 118)


Derrame: O romântico nunca deixou de amar as mulheres que um dia declarou
o seu amor libertário. De encontro em desencontro, o encanto de uma nova tentativa
a livrá-lo dos desencantos da ilusão faminta, da reles possessão desesperada.


“As mulheres-muletas que arranjei, após o término da minha relação, não se comunicaram com o afeto. Para quem não é grande coisa, imprimo o silêncio da prudência. Elas telefonam, afetadas, procuram e querem mais. Eu sumo. Outro dia, me chapei, e uns rasgos de azul, no abafado céu plúmbeo, foram insuficientes ao estímulo; a lâmina do clima percebeu e decepou os pés do meu manequim, que iria flutuar nas plácidas nuvens da sugestão psicotrópica. Nessa minha saga, de quem será o próximo pouso? A tempestade se aproxima e eu preciso estar nu, novamente.” (p. 122 e 123)


“(...) O ódio se encarrega do serviço fácil: esfarelar os frágeis sentimentos que foram tão exacerbados publicamente e que não enraizaram a cumplicidade e a compreensão um tiquinho sequer, flanando nas aparências da felicidade instantânea e dos gozos supérfluos. Engulo a seco o drama-comédia da minha amada, e é agora que os porcos passeiam nas lembranças. Maçãs na estrada, nuvens, zumbidos.” (p. 122)


“(...) As desculpas que crio, favoráveis à preservação de me manter seguro, evidenciam o rápido vencimento de certos compromissos supostamente assumidos. (...) Mesmo assim, às considerações de uma lâmina, não quero perder alguém que amo por não querer amar da forma como a que muitos erram: desespero, oxigênio, não razão, ilusão faminta. (...)” (p. 122)


“Deixo a minha barba crescer. Esse é o momento crespo. Sofrido. Selvagem. É preciso primitivizar-se, tornar-se vasto, horizonte árido, dar um tempo das lâminas, permitir que os ombros bebam dos cabelos o que escorrer do peso que vai jorrar da consciência baleada, manca, rente e atabalhoada. (...) Pois elas viajaram, a minha romântica trindade, e nunca mais voltaram: uma ficou na estrada, a outra, na ponte, e a última, em mim. Eu ainda a amo. As três. Aliás, nunca deixei de amar nenhuma das que um dia declarei o meu amor, para sempre. Estão todas aqui, em mim.” (p. 123)


Maestro: O mendigo Maestro, bem-humorado e carismático pensador, morador da
calçada do açougue, é assediado para disputar as eleições, candidato-fantoche da vez.


“Escorado na parede da velha padaria, encostava o pé em forma de quatro e fazia perguntas, óbvias, sobre o que é claro e inerente. Não tinha freguês que não fosse interpelado por tal voz branda. Vinha de cantinho, murmúrio sutil, cativante. Alguém sempre parava o seu percurso e o ouvia. E era nesse sempre que alguma migalha surgia, seja alimento ou fomento. (...) De tanto ele perguntar, certa vez, brotou dum ouvinte uma questão intrigante: — Por que você não pergunta sobre algo que não é real? (...) Maestro respondeu: ‘O nosso engano surge ao questionar para além do tato. É inválido o saber do que nunca se pode tocar’. O mendigo era contra a busca e, contra os tolos, perguntava o que era óbvio.” (p. 126)


“Pregar. Mas como, se pregado estava? O crente vinha com uma baboseira de fé encartilhada, metodologia da salvação e expurgo. E falava, mas como falava! Maestro ouvia, humildemente, dando o espaço necessário à peça programada, com a cabeça afirmando as pausas e a mente, distante, num equilibrado cinismo social. Métodos e fórmulas mil eram gastos. De tanto clamar pelo o que não existia, o evangelizador gastava muita saliva e se cansava. Então, com uma risadinha marota, sem mostrar os dentes, e a mesma postura firme e clara de quem opta pela razão a cada experiência vivenciada, Maestro, o infiel, despedaçava aquela argumentação desprezível, sustentada por um credo vendado, sempre correto e dono de uma hipotética verdade única, que rejeitava as demais possibilidades de conexão com o divino. Simples e genial, o mendigo negava a oferta e desconcertava a mendicância da pregação. O que nunca poderia ser tocado era ilusão, apenas — o tato sentencia as bordas, o pulso, as carnes e a morte. (...)” (p. 127 e 128)


“(...) Desnudados, os crentes se irritavam. Viravam o diabo e o mandavam tanto ao inferno que o chifrudo cobrava aluguel antecipadamente. Pobre coitado do Maestro, transformado em turista dos quintos, desde já endividado com a besta, sem querer. Como arderia quando juntasse os pés! Esperto ser, ajeitava as madeixas imundas e crespava as vistas dos outros coçando o saco e berrando amizade ao cão: — Meu parente, deixe bem quente a fornalha, que eu quero fumar um tarugo nervoso e beber o meu sangue ardido! (...) Mas o inferno não era sua origem, apenas fazia chacota com o medo que transborda da ignorância. O humor, a sua marca sacra, seduzia as crianças, e, pelo carinho que as tocava com (eu)stórias, notava-se bondade. Isso o mantinha vivo, protegido pelo bruto que vendia carne, o padrinho, dono da calçada esbagaçada do açougue onde se aleijava.” (p. 128)


“(...) Coitado do mendigo. Nunca quis ser fantoche e, por isso, teve que resistir à hipnose que vinha à tarde, de terno, munida de leis e quadrados. Palavreado difícil, impossível de aplicar o mesmo cinismo que se defendia dos crentes. Era gente letrada, ladina, escolada nas fábricas de coiotes. (...) Finalmente, Maestro tremeu. Não conseguia mais dominar a situação. O dinheiro, bicho-verme, era oferecido em gordos maços. Possuíam sabor. Possuíam cheiro. Possuíam. E o mendigo, há tempos, não possuía. Nada além da sua simpatia. Sobrevivia do seu teatro. Dilacerava a piedade alheia e usufruía da caridade, o necessário para não morrer.” (p. 130 e 131)


Deserto poema: As decepções do professor Belizário com a literatura e o encontro
de um zumbi telepático, que oferece lições filosóficas a anjos e transeuntes carnais,
com a empresária Aisha, cuja especialidade é faturar em cima de mitos burgueses.


“Nalgum recôndito abafado da cidade que não dorme, um certo zumbi, que maltrapilha a avenida por vontade própria, filosófica e estética, aponta para Aisha. Com o dedo firme, sem emitir som algum, alerta, por empatia, os seus cães pensamentos: ‘Nunca se relacione com o suposto amor da sua vida. A liberdade é a maior farsa compartilhada historicamente, pois esta vida não é sua — quem opera são as coincidências e as armadilhas. Não se relacione, porque a carne é frágil e qualquer objeto pontiagudo pode cessá-la, a vida que se esvai fácil pelos vasos partidos das feridas. Nada, absolutamente nada, se sustenta à soberana decadência do extinguir-se’. (...) Aisha esfrega o antebraço esquerdo e sente o calafrio. Pensa: ‘Eu estou aqui e não quero escapar’. O zumbi rebate, ainda na fábula do fluir em cacos e adesivos telepáticos, o alerta de si, das têmporas ao chão: ‘Por mais que rodeie, não há destino ou sina. É tudo pó! E não há água que aplaque a sede eterna em significar o algo, que nunca deixará de ser uma pretensa ilusão’.” (p. 134)


“(...) Belizário se frustra com a fala da sua autora portuguesa predileta e resolve sair, aos quarenta minutos, desvalorizando à mesa a sua ilustre presença na plateia. Fora da moderna tenda climatizada, evita o assédio da imprensa especializada e dos escritores inéditos com os seus originais risíveis, e vai passear sozinho pelo centro histórico, de preferência, longe da badalação da festa literária. O casario lhe inspira olhar para cima, sem amor. Numa noite profundamente escura do céu de Paraty, pidão, ele conclama: ‘Cadê as estrelas?’ Enfadado, supõe que não estejam salivando palavras, estas que sempre embaçam o brilho dos astros pelo pó das suposições do discurso. (...)” (p. 135)


“(...) Bateu foi em gente, humilhou, esculachou nos jornais, em comissões julgadoras, bancas, à frente e às costas, limou talentos desconhecidos ao primeiro brotar no deserto. (...) O profeta que zurra é chamado de ‘asno eu’ por Belizário. Conviveu com muitos; a maioria, alunos da universidade onde se aposentou. Um desses ‘asno eu’, que se vitimizava numa autoproclamada depressão, certa vez, propagandeou que a vaidade, o poder e o consumo estavam certos, ao fim; o seu mundo, de supostas integridade, coerência e responsabilidade, é que era o distorcido. Mas não é que era mesmo? Para o professor, esse idealismo tolo, projeção infantil, resumia-se a mais uma página gasta, valoração equivocada de um profissional pateta, fadado ao fracasso, pois, ao resto dos seres normais, vaidosos, poderosos e consumistas, não interessa o processo, e o que importa é o resultado. Pois o ‘asno eu’ deprê irá se apresentar amanhã, ironicamente, em Paraty, incensado pelos progressistas, escritor referendado pelo resto que sobrou do jornalismo cultural no Brasil. Vende? Não. (...)” (p. 137 e 138)


“O céu da cidade que não dorme também não tem estrelas. Contudo, para o zumbi telepático, a lua continua lá, incomodando-o, porcaria que não serve, povoada de fábulas, lendas, projeções e suposições, ilusoriamente pregada no veludo negro da noite, a manchar o que seria o mar de estrelas com uma forma excessiva, a comprimir o ser na sua pequenez mortal e sem asas — desamparo ancestral de estar a sós e desprotegido na escuridão da ausência solar. (...)” (p. 140)


Como uma pedra: O marido descobre a traição da esposa e resume a sua mediocridade
enquanto homem na obsessiva pergunta, a única que lhe interessa: "Vocês transaram?"


“Louise gosta de despejar os pés na cadeira mais próxima; lagarteia a sua preguiça, às vezes esticada, sorrindo sozinha a malícia que recheava, lupinamente, os seus automáticos de sempre. E, com os celulares no silencioso, curte os últimos instantes de solidão, antes que o marido volte. Álbuns de fotos foram revirados em sua gaveta, sem nenhuma pretensão em disfarçar a invasão. Louise ouve uma canção chamada Meu norte, do cantor e compositor Kalu, que suplica: ‘Eu não tô nada bem’. Kaluniana, ela recorda a sua paciência com a morena, que se mudara pra Roraima e diz até hoje que não quer mais ninguém.” (p. 146)


“— Como é o nome dela?! (...) — Cristiane. (...) — Nome de piranha! (...) — Sua mãe. (...) Kadir quer rebater, chamá-la de puta, traíra, vadia, vagabunda. Até bater. Mas se lembra de que a sua mãe se chama Cristiane. (...)” (p. 149)


“— Moravam no mesmo bairro, inclusive próximo àquela lojinha charmosa de produtos naturais. Que você detesta — meio marota, Louise risca nos lábios um sorriso de charada. (...) Kadir resmunga alto e cruza os braços, com a foto entre os dedos. Sente que, dentro dessa loja, deve ter sido humilhado muitas vezes; um lugar reservado o suficiente para ser o esquente perfeito à alcova. (...) — Nessa mesma época, Bruno me demitiu. Fiquei arrasada, você se lembra, é claro. (...) Greve de sexo. Sim, ele se lembra. Tempos difíceis, quase perdeu também o seu emprego.” (p. 148)


“Uma ambulância passa na quadra vizinha. O som propaga sala adentro; não há comércio por perto. É um bairro de casas e plantas, morno de mais um final de tarde, no meio da semana. Louise recupera a perna e segue firme numa posição de cotovelos. Em silêncio. Finalmente, alcança os olhos petrificados do companheiro em xeque. Deixa escapar um expiro denso e revela, num relato saqueado: — Foi estranho. Éramos amigas, mas ela insistiu em me amar. Oferecia carona e, quando eu entrava no carro, tocava as suas obviedades, como Eu preciso dizer que te amo, de Cazuza, sempre nessa insuportável sugestão adolescente. E havia flores também. Flores... Flores! Imagina? Logo eu, que detesto! Se ela me conhecesse bem, saberia disso. Você bem que sabe. Aquelas orquídeas importadas, lembra?” (p. 147)


Vingança: O cadeirante espreita o gigante, munido de pólvora e chumbo,
degustando pacientemente o prato cruel da vingança.


“O gigante está na minha frente. De cabeça em riste pra cima, paraliso o impulso e tento não compreender os olhos mais cândidos que o sol já ilustrou. Com a arma em mãos, aponta pra mim, um pouco afobado; nunca fez isso antes. Quer devolver o que não lhe pertence. Não movo uma pálpebra. Próximo, o serviçal se espanta, levanta-se — como se nada o estivesse aleijando — e pica a mula, não o fumo, veloz e satisfeito pela heroica sobrevivência de si mesmo. Em mim, a inércia, entediada, me exige alguma ação. Balbucio, apontando para o revólver: — É meu! (...) Ele me suspende do chão como se eu fosse um graveto. Sua mão é um alicate hidráulico, comprimindo a minha deficiência contra as leis da mecânica. O gigante me põe de pé, sustentando-me por baixo do sovaco esquerdo. E a candura se transforma numa indagação símia; estou brinquedo. Ele me devolve a arma. Encaro a besta ogro e sorrio. (...)” (p. 157 e 158)


“A maloca é mofada e quebradiça, mas é bem próxima ao cafofo do algoz. Por volta das seis, espio pela fresta e avisto uma sombra noir. Em contraluz, é ele que acorda e se arremessa à vida vazante; o som estapafúrdio dos latidos vira-latas confirma. Que comece mais uma andança! (...) Ordeno a minha camisa e a cadeira. Quero estar perto do epicentro, de qualquer jeito. Hoje, muito mais próximo. Esse brinquedo dos habitantes será meu também. A grande escultura dos seres não pensantes, que atira brutalmente a sua vida à parte dos julgamentos, esbagaçando as noções pré-concebidas do que é a liberdade do outro. Um poeta inato, montanha sem nome. E eu, prosseguindo atrás. Dessa vez, munido de pólvora e chumbo.” (p. 154)


“Será que ele viveria bem com ordens? Ou era, quem sabe, um 8 ou 80, como eu? Não. O gigante é direto, compacto e uníssono. Para o mundo, este sim, uma dubiedade impactante. O existir tão cândido atiça um misto de ódio e encantamento. Às vezes, dão-lhe pães. E, por vezes, tapas, paus e pedras. Ser imenso, troncho, feio e deveras desengonçado não amedronta o bairro. Ao contrário; acolheram o monstrengo a serviço de bater e assoprar, síndrome da animalesca infância tardia. O maldito homem não identificado, sem nome, desce a rua. São dois, na verdade. O que anda e o que segue. O gigante e eu.” (p. 153)


“Vaso’eu frágil. Preso em uma cadeira com rodas. Essa doença não preexistente, que os meus genes nunca predispuseram ou codificaram. Antes, era um homem único ser eu. Arrotava poder, sabia os métodos de machomer a mulher, era descolado e rico, ator de fama internacional, no auge. E, para atiçar a adoração, ficava nu, na praia, a ser fotografado, exposto e idolatrado. (...) Tudo o que eu preparava tinha aquilo de bonito e popular, o ego e o encanto: romances e aventuras, amores meus. Antes de tudo, sempre o eu soou. Desembestada hemorragia em prol de mim mesmo, a solidariedade única ao espelho. Até que o improvável e inconcebível aconteceu.” (p. 155)


Brutalistas: Para-raios de malucos brutalistas: Cristal, Thiago, Andrômeda, Tavinho,
Moloko Veloz, Mestre Ganja, Fuça-fuça, Peripinho, Xica, Virussapiens, Fantasma Comparsa,
Carrapatos Suspensos, Mendigos Cheirosos e I’m tired, todos girando no balão frágil.


“O precipício alucina, as pernas vagam, o raciocínio falha. A percepção de que o êxtase já se foi, ordena que a depressão se instale. Nenhum ser de luz consegue alumiar, porque tudo isso é mais fundo do que a luz da oração de alguém — a fim do abono ‘fiz minha parte’ da caridade programada. As mãos de Cristal, ávidas por garrafas, não conseguem alcançar o gatilho do salvador. E a mesa da sala foi quebrada desde ontem; foi Thiago, amigo de pó e álcool, que também se jogou da ponte quando soube do filho que morreu de fome.” (p. 162)


“Por que é tão complicado? A previsão é sempre dor? O ego de Fuça-fuça infla, a testar portas, descrevendo a si mesmo em overdose, sem ter destino do lugar comum — cinco milhões por uma pista. O intruso. O difícil eu de mim. É muito animal ambular testando portas, imitar os pais, amordaçado. Esperar a prova aprovar-se. O desafio: mais um obstáculo novo nascido. Pular a trave, ultrapassar a linha na posição que lhe ponha a respirar, arregalar a sua cabeça para fora da matéria. Vingar-se. O nome teu: indivíduo fadado ao esquecimento.” (p. 163)


“Sinuoso ser que se molda e foge. De quê? Por onde ir, se entorta a seta em cálculo medusa? Tentáculos e gracejos, apodera e abandona, ser de muitos truques, fruto e consequência. Como calcular se, das possibilidades, o incerto infunda o seu veneno confuso, repleto de saídas obscuras? Virussapiens quase não tem cor, olhos de prata; da noite, um sobretudo, trunfos e lábia, a poderosa vaidade que conforta. Sorrateiro e pé de valsa. No chão, desliza; no céu, encanta. Músculos finos, mente talhada — troféus de uma vida carrapato. Assim, Virussapiens perfuma e perfura, invade e destrona, ocupa o que pulsa e, fatal, degenera!” (p. 164 e 165)


“(...) presos aos meus inúmeros pelos, reconheço também os Carrapatos Suspensos, aquelas criações paranoicas de supostos predadores, que avaliam constantemente as condições da minha engrenagem — deixo que suguem. E os Mendigos Cheirosos estão na minha porta; sofrem de lepra virtual, despedaçando os pedaços podres dos nossos desamores no Facebook. Matéria morta, invadem a minha sala, de cabeça baixa, cravados no celular, monossilábicos. Calam o meu piano com fotos de tudo que veem. Sorrisos tecnicamente escravos, sem sexo, sem alimento, o jpeg infantilmente prostrado. Os Mendigos Cheirosos dissecam a minh’alma em poucos caracteres. Estou pobre, gordo e fedido. (...)” (p. 165)


O barão do cagaço: Um medíocre solitário ganha sozinho o prêmio de 47 milhões de reais.
E, na noite da revelação, vai da euforia incontrolável à paranoia suprema. O que fazer?
Quem procurar? Em quem confiar? Onde guardar o papelzinho de merda, única prova
que dará acesso à vida de luxo e ostentação?


“Quarenta e sete milhões de reais. Quatro sete, seis zeros. M-I-N-H-A-G-R-A-N-A! Só minha. Rico, barão, milionário, rei da cocada preta, o maioral, playboy, futuro jogador de polo a ostentar ‘matéria’ na revista Caras. Alguém me pergunta, de dentro da cachola: ‘Você vai fazer o quê primeiro?’ Posso comprar o que eu quiser. Posso ir aonde eu quiser. Posso comer quem eu quiser. Posso. É tanta coisa (PQP!), que eu nem sei por onde começar... Chega! Tenho que dormir. Não consigo... Impossível... (...) O telefone não toca mais. Arranquei. O som não funciona. Quebrei sem querer, nos pulos tresloucados. O aparelho de TV foi junto. Ô, sina! Queria ver as especulações. ‘Quem será? Quem será?’ (...) Sou eu. Eu. O barão do cagaço.” (p. 170)


“O bilhete é tão frágil, um reles papelzinho, que não dura e não é resistente. Sinto que qualquer coisa pode estragá-lo. Suor? Resolvi, colocando-o no bolso. De calça, ninguém dorme. Amassa. Ai, meu Deus! Boto na carteira. Ladrão pode roubar. É verdade. Na mesa não dá; pode bater vento e flutuar. Nos livros, pode mofar e a tinta sair. Na pasta, pode se misturar, e, na agonia, parar no lixo, enrolado a algum outro papelote supérfluo. Já sei! A caixa dos óculos escuros. Que nada... Ladrão rouba. Na pochete, o ‘dono’ pode levar também. Vai na cueca? E o suor? E o sebo? E o medo? Se eu me borrar de novo? Eles vão receber o bilhete cagado?” (p. 171)


“Parente, nem pensar. São especialistas em aparecer nas horas em que precisam de algo e desaparecer quando é a sua vez de cobrar ou pedir. Malditos inúteis, escusos interesseiros por essência. Ao saberem da grana, irão se reproduzir como micróbios, parindo uma dezena de subparentes desconhecidos, amasiados e similares, todos às custas de uma maldita ética sanguínea. (...)” (p. 173)


“Já é tarde da noite. Finalmente, o silêncio se arrisca. Com o bilhete na mão esquerda, manuseio o mouse com a direita, apertando o botão de desligar. Satisfiz as dúvidas. Conferi, por horas seguidas, o mesmo resultado. Quase depredei o meu apê. Alguns vizinhos interfonaram, o síndico bateu à minha porta, mas eu não abri nem respondi. Como Maluf, não estou nem aqui! Não reconheço ninguém. Não tenho parentes. Não fiz amigos. Nunca trabalhei. Não saio de casa há anos! Não sei mais quem eu sou.” (p. 169 e 170)


Cinzas: Os seis dias de Carnaval de uma mãe solteira, duas filhas pequenas,
entre a arrochada de camisola no corredor do hotel para um strip-tease via Skype
a uma fossa regrada ao brilhante esmagamento do indivíduo pelo Estado no filme Leviatã.


“Domingo. Ela lagarteou até o meio-dia, quando o pai, o seu ex-marido, devolveu as duas meninas e foi curtir o feriado em Itacaré com a nova namorada, uma linda e exótica bichinho da floresta praticante de cross yoga fit zouk — ou qualquer outra mixagem de conceitos que deixam o corpo sarado à base de muito suor e diversas tatuagens. Duas. Filhas. Pequenas. Pela tarde, ela pagou R$ 40,00 para o mesmo estacionamento em que pagaria dez reais, no máximo, nos dias sem assalto. Ao menos, as ruas históricas do Pelourinho estavam repletas de outras famílias; quase todas, na mesma sintonia de aproveitar as crianças antes que elas cresçam e magoem, maltratem ou afrontem os pais com inevitáveis escolhas erradas na profissão e nas relações amorosas. (...)” (p. 177 e 178)


“(...) A dentista ligou para o ex-namorado, que não atendeu. Só foi receber de volta um emoticon de sorriso amarelo na manhã do dia seguinte. Insistiu. O símbolo de uma mão com o polegar levantado foi suficiente para que ela entendesse que a consideração já era; a indiferença é tamanha que nem o tempo de digitar um ‘ok’ no celular vale a pena de ser gasto. Perdeu a primeira noite de Carnaval esperando por uma resposta, e ficou na fossa, assistindo ao belíssimo esmagamento do indivíduo pelo Estado no filme Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, preguiçosamente baixado da internet. Sentiu-se esmagada, também. Vai torcer por ele no Oscar.” (p. 176)


“(...) À noite, via site patrocinado pelo Governo no seu MacBook, ela curtiu um pouco do show do BaianaSystem, dando-se ao luxo de arrochar de camisola no corredor do hotel, só na terapia de cumprir uma das exigências do seu personal Christian Grey (via Skype no tablet das meninas), que estava achando o Camarote Salvador um porre e assumiu, descaradamente, que deveria ter levado a dentista pra testar a cápsula suspensa da Durex, ao invés da atriz global, que não resistiu ao seu plantão etílico e foi testar a qualidade do posto médico do templo coxinha. Perdeu, playboy! E ela, numa inversão de masô pra sádica, enlouquecendo o bofe a distância, ficou nua em frente ao quarto 404, suingando um strip-tease enquanto gemia os versos de Russo Passapusso na canção Playsom, a melhor do Carnaval 2015: ‘Tem que ter amor na manha/ Tem que ter oh mon amour/ Seja onde for, na manha/ Se não for, apanha’.” (p. 178 e 179)


A farsa: Ele é um grande canalha que finge estar só. Ela é uma atriz que pergunta
o que nunca poderá compreender. Não existe “nós” no “eu te amo”.


“Ele é um grande canalha que finge estar só, a esburacar o peito a sós, naquele lugarzinho doído, para delimitar, bem definido, o não amor. Expõe, a 360º, o vazio fabricado do seu coração e aponta como se fosse a ponta de uma luneta: ‘Deste peito só verás o horizonte’ — passe por ele e não more, porque buraco está, mas não é vazio. Cilada, o homem que possui e cumpre, mas não hospeda, alerta; tal qual um túnel, aquece e despacha — canalha de muitos nós.” (p. 182)


“— Não consigo sem você. (...) — Isso é preguiça de insistir. E medo de apanhar numa outra tentativa. (...) — Já estou espancada sem você. E a preguiça é só o cansaço interminável. (...) — Compre vitaminas. E saia da cama num dia de sol. (...) — Mas eu tô te esperando há tempos... (...) — Prefiro pagar uma puta. (...) — É mais fácil brochar quando paga?” (p. 182)


“Caetano canta, no rádio dum táxi que passa veloz e não respeita a faixa: ‘Eu quero seguir vivendo, amor’. Ela vai. Amy Winehouse morreu ontem. E, agendada pela mídia, a amiga reclama com a atriz, enquanto aguardam a entrada gordurosa chegar: — Ai, que horrível, tão cedo, é uma falta enorme, tô sentindo uma dor tão grande, tô pasmada, por que ela fez isso, tão jovem, tão genial, incrível, uma diva, que voz perfeita, gênio da música, maravilhosa, única... (...) — Engraçado... Nunca ouvi você falar dela antes...” (p. 184)


Pássaros deliram: O delegado Mauro caça o Monstro, um psicopata abominável,
prolífico em sua matança desenfreada, e uma esfinge extremista: não deixa pistas,
impressões digitais e o intento de exterminar a humanidade.


“Levanta-se no arroubo, excitado e viril, e escolhe, das quatro armas à disposição, o trabuco que mais esburaca as carnes, filha predileta, para as ocasiões especiais. É preciso ser um bom anfitrião, receber os indesejados com balaços na barriga e na cabeça. Armado, de cartucheira e pijama, está digno do besteirol cinematográfico norte-americano. Dentre as várias opções, abandona a espreita e segue de peito aberto mesmo, passando do quarto à sala, pelo corredor e escada. Pensa na fragilidade da cozinha. Lança-se ao quintal. Aguça a temperatura da escuridão e filtra as sombras. A ansiedade molda alguns cálculos errôneos. Avança, desguarnecido, e tem a sorte que, lá fora, só se apresenta o inimigo ancestral: o silêncio noturno, sempre recheado de vultos suspeitos, pirraça do medo. Ele retém o faro de tenso caçador à direção do espaço vazio, alagado pela madrugada. E nada acontece. Resmunga. Deve ser a idade, que dizem ser do lobo. Do bobo, na verdade. (...)” (p. 187)


“(...) Volta-se à cozinha. Fica ouvindo a noite de dentro. Nada anormal para o horário. Sem estampidos, passos, viaturas. Alucinação? Rompe a insatisfação na porta principal. Quer sentir a vibração do crime, fora de casa, empossado do metal que o faz temível. Fareja sangue, por perto. Desce a rua, orientado pela memória auditiva, mesmo a se alfinetar da possibilidade de que o motivo que originou os disparos fora um vagabundo, e que ele poderia abusar da sua mulher, na sua ausência. Entretanto, a intuição de raposa velha é mais forte. E ela se cumpre.” (p. 187)


“A imprensa o batizou de Monstro. Um psicopata abominável, surgido meses atrás, prolífico em sua matança desenfreada. Qualquer um poderia ser a sua vítima, e nunca se viu uma sensação de pânico tão grande na cidade, acostumada à violência já amortecida do tráfico, sequestro e latrocínio. Monstro atacava, preferencialmente, à noite, em qualquer lugar, e sempre conseguia fugir, matando policiais e seguranças também. Era uma esfinge; não deixava pistas e impressões digitais, mesmo com a barbárie que aplicava, numa longa lista de atrocidades. As mais recentes: decepou uma turma inteira de uma universidade tradicional; ateou fogo em uma recepção de casamento, trancafiando mais de trezentos convidados dentro; destroçou alunos de duas escolas municipais com ácido, marreta e machado; invadiu uma galeria de lojas e mutilou com facões, indiscriminadamente, quem passava na sua frente. A única similaridade entre os crimes era o bárbaro ato de matar o máximo de pessoas possível, sem nunca deixar sobreviventes.” (p. 189 e 190)


“No final de uma das ruas esburacadas do labirinto de muitas ruelas, o carro para. Terrenos baldios, casarões desmoronados, casas abandonadas e apenas umas três construções funcionando. Em frente ao último estabelecimento, um enorme canal de esgoto, perfumando o ambiente com os dejetos do consumo humano. Letreiro? Apenas o tapete sujo da entrada. Motel Miranda, aberto nos anos 1930. Salve Vô Tomé! Quem diria que, aquele pardieiro aos pedaços, refúgio de insetos, fora o aconchego de tantos casais excitados? Mal sabemos do muito que cada ruína e ruga contêm. Hoje, desmorona, cercado por desolação, escorado por tábuas e algum milagre, entupido de junkies fedorentos, viciados em crack — o sexo é o último dos prazeres na decadência do Mirandinha.” (p. 196)


“O quarto é todo branco, de pintura impecável. Não há móvel algum, só o espaço vazio, límpido, as janelas lacradas por tábuas, pintadas de branco também, e uma caixa de metal no chão, branca, encostada na parede. Matanza, que, de carne, gritos e sangue entende muito bem, e de coisas do sobrenatural, treme feito vara verde, emenda um safo: ‘Ei, pivete, fique com o chefe que eu vou dar cobertura lá embaixo’. O enfermeiro, ainda esbaforido, se intriga. Como é que, naquele lugar, alguém investe paciência e dinheiro para enfeitar o quarto e mantê-lo limpo e impecável? A esfinge de Monstro persiste.” (p. 197)


Play it again, Sam: Um pequenino exemplo da diferença no tratamento da opinião
pública quando se trata de uma assassina negra e o desencanto
do matador de aluguel Claudinho Tamagotchi.


“Ela nunca foi maníaca. Odiava parques. Um dia, o seu marido, tão belo, fogoso e atrevido, que não lhe era, comeu mais do que deveria — na avaliação do povo, nunca é demais a quantidade de traições que um marido pode acumular. Restou o facão. Ela retalhou, na sua cama de casal, o marido que traçava a cunhada, a sua irmã, Art. 121 do Código Penal, cadeia nela, a considerar o §1º. O problema é: criam-se ícones do pop, consumo de idiotias. Embolada de microfones e trancos, respondeu: ‘Lavei a minha honra’. (...) Houve uma bradação histérica coletiva, o povo xingando e odiando com ênfase e gula, efeitos da implacável agenda setting. E se a esposa que lavou a honra com sangue fosse branca? Seria habitualmente considerada doente, quem sabe até distorcida ao nível de uma impoluta senhora traída, oh, coitadinha, perdoem-na (...)” (p. 202)


Sem dó: Uma mulher disposta ao matriarcado
que não consegue arrumar um companheiro.


“A amiga pediu uma nova fatia de outro bolo gourmet, caro pra dedéu. Quis compensar a ausência de três semanas do marido, a trabalho; como se o seu trabalho obsessivo já não fosse suficientemente comprometedor à saúde. Enervou o tom: — Fica assim não, amiga. Homem é tudo filho da puta! (...) — Cuidado que você ainda vai ser mãe um dia. — alertou, sem dó.” (p. 206)


Farfalla Solar: A borboleta da carne e cor do sol é uma musa
que flutua e embasbaca o pobre homem da carne e cor do sol.


“A borboleta da carne e cor do sol flutua, numa leveza minuciosa, bem próxima a mim. Discreta e decidida, ausente de dúvidas, contrariando a gravidade que nos reduz, ela é capaz de seguir pra onde quiser, num piscar de olhos, fluindo ao menu de um querer mágico só seu, soberana de si, encantadora e profundamente imortal ao fascínio que, definitivamente, gravara em mim — enquanto vida me houver, recordarei do deleite de contemplar o triunfo da beleza feminina da borboleta da carne e cor do sol.” (p. 208)


“Intuição. Primeiro, o sorriso, depois, as cores que ilustram cada espaço, formando a matéria tangível. Os olhos marejam, e ele, o sorriso, arrisca brotar o inevitável. Da face dos lábios da borboleta da carne e cor do sol, modela-se o enigma: ‘Qual de vocês é você?’ Sugiro o sentido ao que dele, o sorriso, intuo: ‘O que a casca comporta é o que se sustenta’. A torrente e o gozo. (...) O silêncio é meu por escancarada perturbação. Você não é muito mais do que já sei, moça. Mas eu quero. (...) Tento. Mesmo. Com a intuição do fracasso. Pois os olhos são rios. Eu sorrio. Ela também. Da face do seu mistério, desfaz-se o meu segredo: ‘Você me interessa’. O silêncio é seu por incontestável investigação da minha personalidade. Mesmo assim, eu arrisco: ‘Sou muito menos de tudo que você não sabe de mim’.” (p. 208 e 209)


“Um dia, a Farfalla Solar me revelou a oferta: ‘Meu impulso maior é doar-me ao amor. Acolha-me!’ Acolhi. E ela pariu a fuga, anos más tristes, outro dia: ‘Não!’ Disse-me assim, três palavras, um fim. Foi melhor? Sim. Outra dose de três palavras, a compreender o fim. Mas eu queria ter dito: ‘Sim!’ Não seria o mesmo que ter dito ‘Não!’? Não há como evitar o fim. Nunca — o futuro. Eu, dono deste bode, torcia para que ela voltasse, talvez milagrosamente resgatada, trancada numa manhã a reconstruir o coração de açúcar mascavo.” (p. 210)


Adonias Chumbo: Um policial corrupto e o seu rolezinho aditivado para vingar
o cunhado Pedra 90 e salvar a deputada caô, sequestrada
por quatro esfomeados canalhas.


“O fenômeno foi tanto, que ela conseguiu o apoio das mulheres e mães das comunidades, que, tradicionalmente, poderiam tê-la rechaçado, por ser jovem, bela e gostosa. Armou-se de uma simpatia de gestos milimétricos, fala suave, mansa e muitos sorrisos, limpos e cronometrados, além da atenção de praxe dos abraços e ouvidos abertos às reclamações e pedidos mil. Não era uma rival, e sim a irmã e filha graciosa, moça do campo, simpática e atenciosa, carismática. (...) A imprensa caiu de joelhos à expressiva votação da candidata, tanto no interior quanto na capital — que foi decisiva em sua eleição. Feita deputada, a mais votada em quase todos os currais — o candidato a governador, principal apoiador, também ganhou a eleição —, logo se envolveu num tórrido romance midiático com um certo senador galã, aprofundando-se nos tortuosos caminhos da política nacional, preparando o próximo salto da promissora carreira. Não demorou muito para que o sistema a enquadrasse na hegemonia real, longe daqui. Das propostas concisas, restou apenas o esquecimento progressivo dos eleitores. Desapareceu, como todos.” (p. 215 e 216)


“Adonias Chumbo sabe onde é a residência da deputada na cidade. Meses atrás, recrutado pelo prezado Pedra 90, teve que fazer um serviço de limpeza na casa da brilhante cidadã. Um faxineiro, excluído do seu nome, mas de beleza propagandeada pelas madames, foi espancado até a morte pelo hóspede de luxo, o galante senador, uma besta bêbada e enciumada, arvorado por uma tropa de seguranças, animais. O secretário de segurança foi acionado de madrugada, que acionou o seu homem de confiança, que, por sua vez, disponibilizou o seu operário. Adonias Chumbo tocou fogo no pé rapado à estrada da desova, e o pobre homem bonitão desapareceu feito mágica do opressor. Prevendo uma tendência sensacionalista do crime, o policial ainda teve que visitar, umas duas ou três vezes, a família do faxineiro. De forma amistosa. Delicada. (...)” (p. 216 e 217)


“Dentro da viatura barreada, o policial Adonias Chumbo e o seu comparsa lamentam. (...) Eles? Apenas peças do tabuleiro, sem fantasias ou mitos, nada da mão do amor da tevê, a informar o sonho do bom salário. Dois xexelentos sem procedência, de quase quarenta anos, com ferrugens embainhadas nos coldres, e escassos de valor. De vez em quando, um saudável relapso: ‘Será que algum dia iremos chegar ao topo?’ Pra furar a cabeça pra fora do limbo, o melhor que um deles conseguiu, o Adonias, foi o contato dum amigo de infância, hoje secretário do Estado, seu patrão: uma improvável esperança de apadrinhá-lo. Promessas, vazias, rapidamente esquecidas.” (p. 212)


“Adonias Chumbo sabe agradecer. Do próximo corredor, faz uma carreira volumosa, com os melhores grãos, fragmentados em um pó de cor azulada. Quatro homens, quatro narizes aspiradores. Tecados, então, os policiais partem, com balas nas agulhas das armas enferrujadas, azucrinados, sedentos, querendo vingar a infelicidade do padrinho Pedra 90 e punir a má-conduta moral de quem atacava uma fiel do patrão Estado.” (p. 214 e 215)


Fraseando: Uma patrulheira de redes sociais destila a sua inveja em posts corretinhos.


“‘Quanto mais conheço o ser humano, mais gosto do meu cachorro.’ (...) Ela acaba de ver a postagem da amiga surfista, dona de um labrador, que sempre está muito feliz nas fotos que expõe no Facebook. Inclusive, a imagem que ilustra o texto foi registrada na areia da praia, dia de sol fumegante e de um azul de estalar as retinas, e o cachorro parece sorrir, com a língua de fora, descansando de algum pique que fez na orla junto à dona esportista e saudável, fisicamente.” (p. 220)


Hoje é sexta-feira 13: Um homem se torna extremamente sortudo no suposto dia do azar. Demais?


“É do tipo que se levanta de pé direito da cama e odeia gatos pretos. Sempre se acode de presságios e arrepios com um apressado sinal da cruz e batidas espalhafatosas em qualquer tipo de madeira. É feliz, supondo ser graças a Deus, como um cordeiro, servo do Senhor. Nos últimos meses, passou por um aperto financeiro bem grave, que acabou hoje. (...) O advogado liga bem cedo, lá de São Paulo, e revela o valor da herança. Na Bahia, um novo rico. Acorda a amada numa euforia sacudida e, contrariando a lógica canalha intrínseca a homens fiéis ou ateus, pede-a em casamento, livrando-a de um encalhe mal falado de doze anos. (...) — Aceito, sim, aceito, claro, aceito! Vem cá, meu amô...” (p. 222)


Amante: As peripécias de um ser que atende às necessidades sexuais de
diversas mulheres, cada uma com um motivo distinto que justifica a traição.


“Um dia, fui pra cama com uma mulher que amava fazer sexo, mas estava numa abstinência forçada de cinco meses, por causa do novo amor, que era evangélico e não cedia aos apelos de corromper a maldita convicção de que sexo só depois do casamento. Ajudei e a fiz esquecer o impasse por três horas; ela gozou muitas vezes na calada de uma noite em que, supostamente, já estaria dormindo, e, entre os descansos das retomadas de fôlego, na cama do motel, apoiei o namorado, arrumando argumentos bonitinhos para ela continuar acreditando no romance, mesmo com a diferença de credo. (...)” (p. 226)


“(...) O marido havia sido diagnosticado com uma doença grave, dilacerante, terminal. Cuidou dele com afinco nos dois primeiros meses — a validade do amor contratado (e até mesmo a validade do seu sentimento numa relação que, contando também o namoro e o noivado, chegara aos vinte anos). Perto do fim, ela sumiu, abandonando-o aos cuidados do pai idoso e quase senil. Precisava de um tempo pra si. Viajou para outro país: o meu. Não era altruísta. Nem deveria ser, por inaptidão natural: era um espetáculo de mulher, formas exuberantes, elegante, feminina, uma grande artista. Essas coisas de compaixão e esforço deveriam ser proibidas para ela. Eu bem soube explorar os seus dotes, aos poucos, engordando a sua vaidade, consumindo a sua arte, divulgando a sua genialidade aos meus, e, dos seus fluidos, bebi, dias seguidos, um gozo que era um berro de libertação, um expurgo da maldita culpa cristã. (...)” (p. 227 e 228)


“Certa vez, fui pra cama com uma mulher que estava noiva de um milionário, mas que foi comigo à alcova de ônibus, topou a aventura de transar dentro de um apartamento em reforma, sem piso, com sacos de entulho, poeira, chão cru e colchão fubambento emprestado pelo porteiro. Descobrira uma traição do noivo e quis descontar, para equivaler os direitos na relação. Justo. Ao final de muitas gozadas histéricas, escandalosas, seduziu ao telefone, carinhosamente, o noivo, que foi buscá-la, mesmo em horário de trabalho, na porta do prédio em que o traiu. (...)” (p. 226)


“Outro dia, fui pra cama com uma mulher que me revelou o motivo do seu tédio constante: ‘Ele é perfeito demais’. Tantas mulheres buscando o homem perfeito e, esse, por ser perfeito, era demais. Ela chegou a atendê-lo ao celular enquanto estava sendo chupada por mim. Não parou de se mexer, contorcer, e o desafio de manter a mínima aparência na conversa telefônica a fez gozar logo após ter desligado; mesmo que a minha fosse outra língua e técnica, a voz do namorado de cinco anos a fez relembrar o percurso do estímulo acostumado. (...)” (p. 227)


O Reino: O conquistador confronta um adversário mais viril e poderoso:
os falos de pedra maciça da mãe Gaia.
As "preda" encantadas do sertão-montanha do Reino!


“Com o olho esquerdo, vê-se a entrada; o direito, a saída. Vilarejo, de boteco, bêbado, dominó, roça, igrejinha, maluco, meninos barrigudos, fumo e segredos; árido, de vida morna, silêncio na sesta, cadeiras nas portas, de noite tenebrosa, que murmura histórias de medo. Cercado de morros e trilhas, incrustado na chapada turística, famosa, é o primo pobre dos destinos mais procurados, lado B dos guias, com pouco a oferecer. Final de linha, com todo o charme de se fingir um isolamento, isso das pessoas precisarem de um refúgio, ainda mais quando se acredita ter encontrado um ‘cafundó’ — como se fosse possível fugir do que sufoca. (...)” (p. 232)


“Nos fundos da roça, há um pequeno descampado. Brotados do chão, dois elevados formaram-se há tempos. Não há morro nem plantas os vestindo; estão nus, limpos, lisos, enormes e roliços. (...) Majestosas pedras singulares, dignas de culto. De certa forma, até que são dois outros seres, desagradáveis de se ver. Parecem projetar um poderoso império, singulares e paralelas, dois falos amedrontadores. A velha história de subjugar o mais fraco pelo sexo. São paus, sem ovos, sem pentelhos ou pregas, sem veias ou deformações, duros e maiores que os de quaisquer homens; nenhum macho pode combatê-los. (...) roubariam os desejos das fêmeas e as possuiriam nos sonhos, surrupiando até a sua beleza mais primorosa. (...) Deve ser por isso que o vilarejo se chama Reino. E o conquistador, até então, soberano do lugar, é destituído: não passa de um merdinha, perante a força cruel e inexorável da natureza. Quando os homens fantasiam a sua grandeza, Gaia aproveita e humilha, e, nesta forma de dois seres eretos e calados, vinga-se às gargalhadas, a implodir o orgulho dos machos.” (p. 246 e 247)


“Ele não esconde a fome quando Genisvaldina serve a buchada de bode. Engole sem paladar, na pressa para entupir o buraco estomacal. E a bomba estoura; estica-se na rede, derrotado. Dorme, largado, preguiçoso, como sempre. Arrota, peida. Sem vergonha, coça o saco assado da viagem e dá umas apalpadas no pau, duro, pelo tempero quente da comida. As mulheres? Não ligam. Mário é a primeira visita da cidade grande, que não é parente ou ex-vizinho, hospedada no seu casebre.” (p. 235)


“Um tempo bom. O espaço largo do fluxo interiorano. A vida simples que transmuta os ponteiros e a contagem ao seu saber específico, a paciência como artefato primal, a danação demorada do dia e da noite em se findar. Ilusões do silêncio, do vento, do engano. (...) Um capricho ou castigo de uma anomalia geológica, nada mais do que partículas sólidas, possivelmente formadas pelo vento e chuva, sem sentido. O azar do ser humano foi que a maldita forma do acaso se assemelhou ao falo, o ícone mastro da virilidade, do poder, do manter-se a ordem a partir da opressão machista e da repreensão paternalista, a gerar uma idolatria temerosa, fantasiosa: brotada pelo todo-poderoso, está explícito e duro o sexo da mãe-terra, digna de respeito e adoração. (...) Se até o homem mais intitulado e gabaritado pelas ciências desabaria as muralhas do ego perante o poder imagético dos paus de pedra, imagine o pobre povo do Reino, ignorante, primitivo e isolado, ligado à terra e ao animismo? (...)” (p. 251 e 252)


“O conquistador consegue a simpatia da casa aberta e rango na hora que quiser, com uma jogada canalha: a) chamou o cafuzo no canto e lhe ofereceu dinheiro — tudo o que possuía, mas Altamigusto não sabia desse detalhe —, pouco, mas que, no Reino, poderia comprar muito; b) informou-lhe que é para custear a sua estada; c) o gesto caridoso, vindo de uma pessoa que se diz sofrida, amalucada, significou para o matuto uma prova de boa índole, de amizade; d) Altamigusto recusou prontamente a grana; e) de imediato, Mário continuou a impor para que ele aceitasse; fim) impressionado pela humildade do conquistador, o cafuzo aceitou apenas um terço da grana — acabaria oferecendo muito mais em hospedagem, comida e confiança. (...) ‘Que otário...’, celebra.” (p. 236 e 237)


“A caçula empurra o conquistador e se manda, correndo, assustada. Ele reconhece essa reação. ‘Já arranquei muito cabaço na vida. Ninfetinha que age assim é porque nunca viu um antes. E, quando vê um, roliço e grande, se assusta bastante. Normal. Alguma paciência depois, senta do mesmo jeito, rebolando’, explica o imprevisto num diálogo consigo mesmo, Narciso. Mas o equívoco do especialista em cabaços é que a caçula não é mais virgem; então, supostamente, ela já conheceria um pau e os seus usos, e não fugiria daquela forma — deveria ser por outro motivo. Aliás, mesmo se ela fosse virgem, poderia ter bagagem suficiente para não se assustar ao avistar um falo. ‘Por que diabos ela se escafedeu, tão alvoroçada daquele jeito?’, intriga-se. Sem cogitar outra alternativa — do tipo ela não quis, desistiu, achou o pau grande demais, pode ter se arrependido de se expor na viela, entre outros —, o conquistador decreta: ‘Mistérios do Reino’. Coisas que voam longe no sertão-montanha.” (p. 241 e 242)





Presentes no livro Olhos abertos no escuro 
(Via Litterarum, 2016), de Emmanuel Mirdad.