quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Pílulas: Georgio Rios


Georgio Rios é natural da cidade de Riachão do Jacuípe, e eu tive acesso a sua obra pelo blog Cavaleiro de Fogo, de JIVM. O poeta de 1981 é graduado em Letras com Espanhol pela UEFS, e publicou Só Sobreviventes (Tulle, 2008), uma coletânea de poemas em parceria com os poetas Paulo André e Thiago Lins. Mantém e edita o blog Modus Operandi, onde publica seus poemas.

Em agosto, JIVM o entrevistou para a seção Sangue Novo (leia aqui), e logo na primeira pergunta, apedrejou: “Por que ser poeta?”. Georgio sentenciou: “Não consigo ficar sem escrever ... É imperativo, escrevo, logo existo”.

"...

Sobre a velha ponte
fiz passar meus medos.

Em fila,
os tangi para o outro lado.

Pela outra
rua,
meus novos medos
chegavam

------

toda mulher
é um mar

toda musa,
uma baia

nós
cães
catando migalhas
ao pé da
mesa

------

Uma única palavra
rompe
as portas do ouvido

A cidade é a cova rasa onde desabam
os homens
amontinados

Cada página é um deserto
de inúmeros seres
que se escondem em metáforas

(cães gestando cães na tarde)

------

Ir além da formula de triturar os
cantos do dia
e
argüir a ânsia desenfreada
de seguir em certa direção.

É preciso a precisão das facas
na superfície líquida da lâmina,
na dança ereta do sabre,
nas dobras do espelho,

O nó desencava o nu
do dia.

A faca tem sede de reflexos.
O espelho tem fome de luz.

------

Estar no mundo como um inseto
no bico do pássaro...

Num passeio rápido, plástico
ao desconhecido.

Um rasante vôo,
de ver o azul que
reparte os céus.

------

Passamos,
pesamos os passos,
e nem pensamos que somos
feitos de fatos.

- Não tenho relógios.

------

A tarde é a isca para alimentar as feras
Elementos do exercício das dobras.

Lá fora, entre as altas cavas dos prédios,
a pressa dos homens
marchando,
para a morte certa de cada sono.


------

É do barro, das águas fundas
que emana o homem.

Destas águas barrentas,
deste
verde regado a sal e sol
que se faz a bruta forma.

Resta mergulhar, neste rio
abissal que é
estar no mundo.

------



Os segundos,
mentiras bem
arrumadas e prontas
a iludir
ostentam como reis
Vida e Morte...
deixam-nos à sorte
para consolar os
enganados, inertes
diante do seu vago passar.

------

Desligar o celular.
As células.

Abrir os olhos e ver
que o pôr do sol
não é mentira.

Amputar a soberba
e sóbrio desequilibar
o fio do arame.

------

Não importa quais as luzes que saem
das pequenas cavernas escavadas nas paredes da casa.

Uma tarde é uma fenda na trajetória do dia.

------

Retirar a casca
retirar os cacos
a reforma do barro
traz o homem que sou.

só o amanhecer
e o cair da tarde
falam sem alarde
os segredos do som...

------

Pois
o Sertão é isso:
uma vasta estrada que sai cá de dentro
e arruma num sem fim de veredas
um não sei quanto de caminhos

..."

Trechos dos poemas Ponte, Odisséia, Surpresa, Baile de Facas, Risco, O Mundo é uma Porta Aberta, Mudança, Sedimentos, Horas, Pôr do Sol, A Criação das Janelas, Dedilhado e Matutando sobre o Sertão, de Georgio Rios, publicados no blog Modus Operandi (2009). www.georgio-rios.blogspot.com

.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Intervalo: Yun-Fat

Yun-Fat

A Yun-Fat fez um dos melhores shows do Festival Bigbands 2009 ontem à tarde, no segundo dia do evento. Mas o foco do post de hoje é o clipe da música He Wants a Bullet Between His Eyes, que concorreu a Música do Ano na 1ª edição do Prêmio Bahia de Todos os Rocks em 2008 (ficou em 2º lugar na votação pela internet), e é o grande destaque do primeiro CD dos caras, Action Movie Stunts Get to Die (Torto Fonogramas 2007).

Lançado na segunda-feira passada (19/10), o clipe é mais um bom resultado do projeto Oficina Geração Bit, e tem como diretores e roteiristas, David Campbell, Danilo Castor e Núbia Teixeira. Segundo o release do Youtube, trata-se da "história de um jovem confuso entre tantas faces, do animador de festa ao 'metaleiro' que nos shows pode mostrar todo o seu lado malvado enquanto sua mãe o espera em casa com seu leitinho e presentes para o filhinho que nunca cresce".

Confiram abaixo a paródia deste porrada broca na testa paiaçada tu nem aí doce minino Yun-Fat:

Yun-Fat - He Wants a Bullet Between His Eyes



.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ano da França no Brasil #03


O blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia apresenta mais uma série de artistas e bandas francesas, em comemoração ao Ano da França no Brasil, neste 2009 de turbulências. A amiga Irène Kirsch, adida cultural da França na Bahia, vem apresentando, desde julho, no Especial de Sábado da Educadora FM 107,5, programas dedicados à música francesa. O próximo será em novembro, com um balanço completo sobre as diversas ações culturais que rolaram no país e por aqui. Agora, confiram abaixo mais seis representantes da França.





-M- (Matthieu Chedid)

www.myspace.com/matthieuchedid

/site

/wiki

- M - - Qui de Nous Deux



- M - - La Bonne Étoile



----------



Autour de Lucie








www.myspace.com/autourdeluciemyspace

/site

/wiki

Autour de Lucie - Personne N'Est Comme Toi




----------



Tom Poisson

www.myspace.com/tompoisson

/site





Tom Poisson - Mon Ami Sans Voix



----------




Helena Noguerra








www.myspace.com/helenanoguerrafraisevanille

/wiki

Helena Noguerra - Minimum



----------



Kyo

/site

/wiki





Kyo - Je Cours



----------



Vincent Delerm

www.myspace.com/vdelerm

/site





Vincent Delerm - Quatrième de Couverture




.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Intervalo: Teclas Pretas

Teclas Pretas - Cidade Subtraída (e os Perigos do Sonambulismo Filosófico)



Cidade Subtraída (e os Perigos do Sonambulismo Filosófico), novíssimo clipe do duo Teclas Pretas, que foi lançado ontem à noite, na sala de arte da UFBA, junto aos demais clipes do projeto Oficina Geração Bit (que tem, entre outros, Retrofoguetes, Nancyta e Yun Fat).

A música foi lançada recentemente no EP Nó dos Mais Gravatas (download aqui), e é de autoria de Glauber Guimarães (entrevistado por Chico Castro Jr. na revista Muito do último domingo - leia aqui no blog desta), que junto a Jorge Solovera, forma o duo Teclas Pretas, interessante projeto que sobrevive a carreira deste brilhante e experimental artista que é Glauber (bota pra frente, Gaubito!).

O clipe tem a direção de Rodrigo Araújo e Diego Haase, com a edição de Wallace Nogueira, e ficou bem bacana, ambientado na Estação da Calçada entre outras locações da downtown baiana. Além de ter a presença da atriz Laíse Leal, vencedora do concurso de Pin Ups da festa Pin Ups and Hot Rods.

.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Perambulando #10 - Eric Assmar Trio

foto: Pedro Coelho


Eric Assmar Trio - Texas Flood



Perambulando é uma seção deste blog destinada a expôr os vídeos que irei registrar nas andarilhadas por aí.

Nesta edição, destaco o show de estreia do Eric Assmar Trio, que rolou ontem, 15.10.09, no projeto Clube do Blues, Groove Bar, Barra, em Salvador-BA. O trio é formado por Rafael Zumaeta no baixo, Ricardo Ubdula na bateria e Eric Assmar na guitarra e vocal. E o projeto, de iniciativa muito massa, traz uma noitada de blues nas quintas do Groove Bar. Já passaram por lá o camarada Luiz Rocha e Ícaro Britto. E este mês ainda tem Lia Chaves e Diego Andrade (Mundiça). Não percam!

Foi o comparsa Lobão que primeiro me falou do prodígio Eric Assmar. Ele foi ao show do Vandex no Segundas Musicais em 2008, e me alertou sobre um certo “moleque”, que entupiu tudo no show, e foi o grande destaque na guitarra. Finalizou com a procedência: é filho de Álvaro Assmar, camarada da Educadora FM, maior nome do blues na Bahia, genial guitarrista e enciclopédia viva do rock e blues. Pronto! Antenas em riba, só fui coletando boas referências a partir daí, até que veio a Cerimônia de Entrega do Prêmio Bahia de Todos os Rocks 2008 (outro só em 2010 - é bienal), em que o Eric tocou ao vivo de novo com o Vandex. Confirmei o potencial do rapaz, mas queria vê-lo tocando blues. Acompanhei seu trabalho nas noites divertidaças do Cavern Beatles no 30s (toda sexta), mas o dia não chegava. Até que surgiu o Clube do Blues, e o trio do rebento sacana foi tocar o bom e velho blues.

O show demorou como a porra pra começar, mas pelo menos o Assmar pai, escolado entertainment, preparou um DVD coletânea só com petardos, o que ajudou a agüentar o atraso, e a preparar um ambiente bluesy. Até que finalmente o trio abriu pocando tudo, com uma versão massa pra Everyday I Have the Blues. Logo depois veio a gruvada Marry You, que você confere logo abaixo.

Eric Assmar Trio - Marry You



Em suma, o show foi bem legal, o clima tava ótimo pra uma estreia, cheio de amigos, familiares e conhecidos, a maioria sentada em cadeiras à beira do palco, como deve ser um clube de blues (parabéns, ‘produça’ do Groove). A banda tava coesa (embora o Ricardo, em alguns momentos, tocou muito forte para as sutilezas do blues), Zuma como sempre um baixista coerente, doido pra fazer a sua Black Music, mas pairando em outros estilos com profissionalismo, e Eric tocando à vontade, careteiro como deve ser um feeling guitar man, buscando a sinergia com os olhares atentos do público a todo instante, cantando bem, sem excessos, comandando a dinâmica com rigor, pra deixar o Assmar pai embiritado e orgulhoso.

Muitos aplausos, bis pra mais de quatro músicas depois, e repertório de vários clássicos como Sweet Home Chicago, Outside Woman Blues, Reelin’ and Rockin’, entre outros. No fim, ficou a sensação boa de ver que o ‘moleque’ tem muito potencial, e que enquanto estiver por aqui em Salvador, irei acompanhar a sua carreira de perto, admirando e dando toques também (como limar a cover de Raul que ficou desastrosa), porque ele também é um grande comparsa. Bota pra frente!

Segue abaixo Bold as Love, do mestre maior Jimi Hendrix, com uma longa lista de agradecimentos (perdoável, é claro!), e uma inusitada versão reggae pro clássico I Got a Woman, de Ray Charles.

Eric Assmar Trio - Bold as Love



Eric Assmar Trio - I Got a Woman



.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pílulas: Tarcísio Buenas

Tarcísio Buenas

Não sei ao certo se conheci Tarcísio Buenas na saudosa loja de discos São Rock, onde trabalhava como bibliotecário e desanuviador de ignorâncias, mas de fato poucas palavras conversamos. Conheci, porém, seus escritos neste 2009 de turbilhões, através dos dois blogs que mantém: On The Rocks e La Verga Del Buenas.

No primeiro, publica resenhas musicais de grande apreço, além de cinema e variedades de sua vida em cavanhaque. No segundo, escracha a tela com poemas eróticos chulapa na xana, sem perhaps, diretos e francos, mobilidade nas lamas da cidade de dentro de cada um. E é deste (o terceiro ainda não vi, confesso) que trago as pílulas abaixo, que particularmente gosto muito, por esganiçar as maldades reais do ser humano.

Mas quem é Tarcísio Buenas? Nas palavras do próprio: "Sou Tarcísio Santana. Meus amigos me chamam carinhosamente de Tarcísio do Disco ou Buenas. Por isso me auto-batizei DJ Buenas. Nasci em Cruz das Almas-Ba em 18 de Maio, data da morte de Ian Curtis e dos enterros de Chet Baker e de meu pai. Sou formado em Artes Cênicas".

"...

uma criança faz
sexo oral no velho
da banca de jornal

Suas lágrimas se confundem
com jatos de esperma
encharcando
seu lindo rostinho

------

Eu que não te amo, nunca te amei
sinto falta das tuas carícias
da tua colada na boca
de passar minha língua pelo teu queixo
enxugando tua baba

Eu que sempre tive paciência - em teus momentos
mais tensos - esperar pelo teu gozo
sentada em meu caralho esplêndido de vigor & dilacerante & fulminante

Eu que não acredito no amor, nunca acreditei
desejo por teu sorriso tímido
tua indecisão, tua fragilidade -
teu pessimismo para com sua beleza -
assim como o amor que não acredito.

------

"no cu não, no cu não"
ela grita desesperada

"ai! ai! tá doendo"

ele bate forte em sua bunda
ela grita: "goza logo, porra!"

"cala a boca, caralho!"

nunca tinha ouvido a voz
daquele cara antes

parecia tranquilo
sempre cumprimentando os moradores
do prédio parque das agruras

------

"Qual a diferença entre a polícia
e o bandido", alguém pergunta

"A polícia usa farda", alguém responde

Gargalhadas em uníssono

A sociedade até que não é
tão idiota assim

(...)

Ela não espera
tirar
meus sapatos

Puxa-me
pela gravata

Passo a mão
por sua franjinha

Está menstruada

Mas ela não se
incomoda
com essas coisas

Nem eu.

------

Suporto suas carícias e não reclamo
Já enxerguei a morte numa ladeira
escura e estreita
"você vai descer aí?", perguntou o motorista

------

Ela era insaciável
"Você gosta da minha bucetinha, hein?"
"Adoro!"
"É sua"
"Sei..."

O telefone toca
ele atende
era sua ex-mulher
gritando, disse:
"Você já pagou a escola dos meninos?
a irmã tá me cobrando direto!"

Desligou

"Caralho!"

------

entre portões e cercas
de arame farpado

você fica mais à vontade
quando estou embriagado
se solta mais,
se doa mais

minha embriaguez
é um santo
remédio

sua buceta molhadinha...
a calcinha
no meio das pernas
minha língua
deslizando
maliciosamente

mesmo que seja
por uns instantes
ouvir seus gemidos
é minha missão.

------

Meu caralho não diferencia
As putas das santas
Mas quem são as santas?

..."

Trechos dos poemas Nas Pequeninas Horas, Balada de um Romântico Solitário, São Cinco Horas e os Vizinhos Gemem, Nas Pequeninas Horas (2° Parte), Uma Jarra de Suco de Cereja, Marina Tinha Vinte Anos, Teu Olhar é um Enigma e Toda Puta é Triste, de Tarcísio Buenas, publicados no blog La Verga Del Buenas (2008/2009). www.lavergadelbuenas.blogspot.com

.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Intervalo: Marcelo Nova e Os Panteras

Marcelo Nova e Os Panteras - Rock'n'Roll



Marcelo Nova, com participação especial de 2/3 d'Os Panteras (Carlos Eládio na guitarra e Carleba na bateria), no palco do TCA, projeto Música Falada, há uma semana (06.10). A música é o clássico Rock'n'Roll, de Marcelo e Raulzito, e foi o momento que mais valeu pra mim: a história da Kombi, que arrancou várias risadas da plateia.

.

domingo, 11 de outubro de 2009

Ano da França no Brasil #02


Como alguns de vocês já sabem, 2009 é o Ano da França no Brasil, uma resposta a 2005, quando foi a nossa vez por lá. Então, para homenagear este relevante intercâmbio cultural, o blog El Mirdad - Farpas e Psicodelia está publicando a série Ano da França no Brasil, copilando artistas e bandas francesas que rolaram nos Especiais de Sábado que produzi, na Educadora FM 107,5, em parceria com a amiga Irène Kirsch, adida cultural da França na Bahia.

O próximo programa dedicado à música francesa já foi gravado e editado, e irá ao ar no próximo sábado, dia 17/10, ao meio dia. Não percam! E confiram abaixo mais cinco representantes da França.

sábado, 10 de outubro de 2009

Pílulas: Tiganá

foto: ?
"...
Apenas uma gota
fará transbordar o quadro da manhã...

------

Roseira abriu-se em mulher...
mulher errou de caminho,
e o caminho da “desamada”
é o grande amor a lhe surrar rumo à madrugada.

------

A raça humana aqui
pode ser infinita
se ela se chama partir
certa de sua unidade morta.
A África está dentro das crianças
e o mundo está fora...

..."

Trechos de letras do álbum Maçalê (2009), Para a Poetisa Íntima, Do Alto e Le Mali Chez La Carte Invisible (traduzida), de Tiganá Santana, que está pronto e será lançado muito em breve. www.myspace.com/avozdetigana

.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Canções de Minha Vida: Vinte e Nove

Legião Urbana

No dia 11 de outubro de 1996, Renato Russo morreu por complicações da AIDS. Enquanto milhares de fãs sofriam pelo país inteiro, um giz estalou bem no meio da minha testa (sala vazia, costumava ficar sozinho num canto, rabiscando proto-poemas ou olhando o mar da Pituba, ao longe, nos intervalos das aulas). Um tal de Marquinhos, colega de todo médio PhD, aproveitando a sala vazia, fez-me de alvo, o que era normal. Aproveitou para comentar a notícia do dia, lançou mais alguns e foi embora, perturbar outro Zé Mané qualquer.

Lembro que fiquei um pouco surpreso; morte de famosos sempre nos provoca aquela pausa: “pô, fulano de tal, rapaz, que merda...”, mas de volta ao silêncio dos esquisitos, recordei da canção Vento no Litoral, tocando na Globo FM, e uma certa tristeza me afligiu. Desenvolvi: “É, como ele morreu, vão tirar seus discos de mercado, e eu não tenho nenhum... Putz, preciso comprá-los!!!”. Pronto. Ilogicamente, endossei as grossas estatísticas das vendas pós-morte. Dias depois, já com a discografia da Legião Urbana devidamente anotada (via revista, não tinha Google), elaborei um plano pra efetivar uma compra simultânea, já que a ansiedade canibal (logo eu, hoje tão ferrenho inimigo do consumismo!) não ia esperar quase um ano pra completar a coleção (como foi com os discos de Bob Marley & The Wailers).

Dezembro de 96 chegou, e a severa economia da mesada (trabalhar, que é bom, nunca foi levado em conta nessa época), aliada à grana extra do gentil tio Djalma e às promoções de Natal das Lojas Americanas, garantiram a compra de sete álbuns da Legião Urbana, de vez. Assim, entulhei o CD player, saciando a compulsão. Na mesma medida, o rei Bob e o reggae foram bruscamente esquecidos, descartados pela descoberta de uma nova relação com a música; não mais ‘elevar-se’, e sim ‘imergir-se’.

Tornei-me então um legionário póstumo, já com a clara posição de curtir as canções ‘depressivas’ de Renato. O rock, esse bicho estranho, só viria depois. E em 1997, invejando o louco do Álvaro, que era o motor da galerinha nos intervalos na Albani, massacrando o violão, decidi tocar também (maldito anseio rock star, maçã!).
















Montei uma pasta lotada de cifras xerocadas da Legião Urbana (garimpagem escrota na enorme coleção de revistas de minha mãe e outras emprestadas por amigos - sem Google, again), e a primeira música que aprendi foi Montanha Mágica, do disco V (1991), por ter pouquíssimos acordes básicos. Depois que o amigo Alan me ensinou o segredo da pestana (maior obstáculo para os iniciantes no violão - acordes em que o indicador tem que segurar todas as cordas), e eu consegui tocar os fatídicos acordes de Bb e F, ampliei o fanatismo pelas canções do Russo. Agora, munido do violão ‘coruja’ roubado do irmão Mark Dayves e a pasta abarrotada.

Tapado, fiz questão de limitar meu aprendizado ao mero acompanhar de acordes simplistas. Não quis estudar teoria, resistindo bastante aos ‘ataques’ de minha mãe professora (era uma insistência por certas vezes até terrorista, porque ela sabia que tosco assim eu não iria longe, o que ficou comprovado, enfim). E pra piorar mais ainda, só aceitei tocar músicas da Legião e nada mais; de jeito algum tocava outro som. Ou seja, um fracasso nas rodas de violão, jukebox de ficha travada.

E a afinação da voz? Um desastre, carniça sem ‘simancol’. Minha mãe passou então a me exigir que tomasse aula de canto, mas fui firme, na auto-suficiência típica dos adolescentes. Prossegui autodidata, longínquo do santo de casa, curtindo muito tentar simular o vozeirão de Renato Russo. E eu não queria fazer solos, ou estudar escalas e riffs, harmonias. Não me interessava ser um ‘guitar hero’, e não tinha como referência um músico instrumentista. Eu queria apenas tocar violão e cantar pra espantar a tristeza, ou pra fazer sucesso com os amigos e meninas, coisa muito simples, básica. No fim, só consegui mesmo foi espantar.

De tanto tocar, mas tanto mesmo, saturei de Renato Russo e pedi baixa da Legião. Até porque a descoberta do mundo, em 1997, já estava acontecendo, e eu precisava admirar outros sons, como relatei em posts anteriores. Mas a curta experiência nas imitações provocou uma revolução interna, que rendeu uma sensação estranha, de sair ‘cantando qualquer coisa’ em cima de ‘qualquer seqüência de acordes’. Pegar o violão e tocar. Criar. Compor.

















Estava a folhear as páginas de uma revista cifrada qualquer, quando parei em uma música chamada Juventude à Vácuo, de uma banda desconhecida chamada Não Religião. Comecei, do nada, a tocar os acordes e a cantar a letra do jeito que quis, já que não a conhecia, o que, aliás, me faz pensar hoje por que diabos estava naquela revistinha chamada Sucessos. Alguns dias depois, escrevi um poema com versos lisérgicos, primários. Por conta da estrutura de 4 estrofes de 4 versos, fiquei estimulado a cantá-lo. O que fiz? Copiei os acordes da música desconhecida, rearrumei do meu jeito, e saí cantando o poema. Assim, no dia 18 de julho de 1997, nascia Vastidão, a minha primeira composição. Hoje, depois de várias versões distintas, ela está eternizada na coletânea Rock (disponível para download aqui), da banda The Orange Poem, com o nome Wideness.

O começo de um artista é quase sempre imitando um ídolo. Enquanto vários de minha geração se apadrinharam de Bob Dylan, Guns n’Roses, Nirvana, The Beatles, Iron Maiden, Pink Floyd, João Gilberto, Caymmi, etc., eu comecei com Legião Urbana, personalizada pelo poeta tenor Renato Russo. Legionário, aprendi a tocar violão, ser dublê de cantor e a descobrir-me compositor, de quebra poeta. Hoje em dia, ex-compositor declarado, ainda escuto a Legião, raramente, com os álbuns preferidos: A Tempestade (e o complemento Uma Outra Estação), V e Descobrimento do Brasil. E é deste último que destaco a canção da série deste post.

Hoje é meu aniversário. Cheguei aos 29 anos. Não se trata de um clichê. É a solução de uma questão antiga. Quase 13 anos atrás, quando descobri o Descobrimento..., e a canção que o abre, que gosto muito, instaurei uma curiosidade no meu HD: “Como estarei aos vinte e nove? Será preciso decidir começar a viver?”. Guardei. Esqueci. Mas ela ficou. E muito antes deste outubro, lá em abril, ela ressurgiu. Coincidência. Muita! Neste ano dos 29, aprendi a pedir perdão, a duras penas. E hoje, digo: até perdôo. Confesso que não sei a duração; por isso que este é o maior ensinamento de Jesus Cristo. Quem perdoa de fato é quem dá a face ao tapa. Humildade, tão alienígena deste ser erroneamente humano. E a decisão de (re)começar a viver está tão longe, ainda.




Vinte e Nove
(Renato Russo)

Perdi vinte em vinte e nove amizades
Por conta de uma pedra em minhas mãos
Me embriaguei morrendo vinte e nove vezes
Estou aprendendo a viver sem você
(Já que você não me quer mais)

Passei vinte e nove meses num navio
E vinte e nove dias na prisão
E aos vinte e nove, com o retorno de Saturno
Decidi começar a viver.

Quando você deixou de me amar
Aprendi a perdoar
E a pedir perdão.
(E vinte e nove anjos me saudaram
E tive vinte e nove amigos outra vez)

.

domingo, 4 de outubro de 2009

Pílulas: Zanom (Especial)

Zanom na Bolívia (2009)

Hoje é aniversário deste cabra aí. Conheci Marcus Vinícius (Jesus, Zanom, Zanomia, etc.), natural de Itapuã, no ano 2000, no cursinho pré-vestibular do PhD, em Salvador. Em março de 2001, estreou comigo a The Orange Poem, com mais três cabras que não se conheciam. Durante seis anos, tocou uma guitarra espetacularmente sensível e psicodélica, um Hendrix floydiano bluseiro sem exageros, suficiente no feeling, sem falsa estrelinha, raridade nessas terras d’acá. Além disso, dividiu sua sabedoria musical, e me instruiu muito, ampliando meu senso de admiração aos deuses da música, como Hermeto, Sivuca, Gismonti, etc. Graças a esse cabra aí, tenho hoje um discernimento musical mais coerente (tento!) e atuante, que me faz canonizar gênios como Tiganá e Mou Brasil, o que seria, talvez, pouco provável de acontecer sem a influência desse amigo irmão de Libra acima.

Zanom hoje mora no Rio, vive uma história de amor real, é fonoaudiólogo mestre, e tem uma bela obra musical autoral pouquíssima conhecida, engavetada, já que não tem a terrível disposição de encarar as armadilhas de uma carreira profissional na música. Escreve bonito também, e tem os dois blogs, este e este, que estão aguardando uma visita de vocês.

Parabéns, meu amigo! Longa vida a tua música e literatura. Ainda produzirei um disco teu, caso deseje assim também. Tal como está no teu Orkut, desde 2006, “eu te admiro profundamente”.

Segue abaixo mais uma série Pílulas com o trabalho de Zanom.

"...

Damos forma ao objeto
para o vazio que o contém

------

Um verso sozinho já faz poema

(...)

E antes só do que mal acompanhado

------

Não sei

se escrevo
ou
se escravo

------

Os partidos são como facas
e nós somos os re-partidos

Entre a Esquerda ou a Direita
É você que vai tomar bem ali no meio

------

O amor pra mim
como sempre imaginei
é morar na mão do outro.

------

Em seu último dia
Inverno se fez presente
Na tentativa de esfriar
Os corações aquecidos

------

São infinitas mulheres infelizes
queixando-se do quão escroto
todos são.

Se ele soubesse,
subia no cordão umbilical

e voltava ao ventre
daquela que
também reclama dele
só que pelos outros

------

Fazendo cara de quem tudo sabe
A médica chegou com o seu estetoscópio
aproximou do peito do homem, e disse :

- Ele morre ainda hoje, vou avisando ao necrotério.

Minha mãe quase morreu junto
afinal, o homem era meu pai

------















------

De fato, tem sempre um momento
que apoiando-se nos joelhos
ele pensa

Porque me levanto?

------

Em tudo aquilo
em que estás, baseado
Eu trouxe, trago e também passo

------

Quem muito se acha acaba se perdendo.

------

Tens Coragem de Amar?

Pouco importa
Será inevitável

------

De longe o que se vê
É um complexo de luzes

A favela é o céu no inferno
Existem ali, milhões de estrelas
Impedidas de brilhar livremente
com violência, fome e desprezo

Mas quando as pessoas acenderem suas luzes
não haverá homem que não se emocione

------

Fazer da pele
um imenso tapete
Imerso em plumas
Abrir os poros
Para que as almas passem
e os corpos passeiem

------

Minha felicidade ao acordar
é ouvir o bater das folhas
ver as sombras que invadem

Escancarar a janela
Para que as árvores entrem
e façam parte daqui de casa

..."

Trechos dos poemas O Vazio, Destinos - No Centro - Milagres, Deixa Eu Cuidar de Ti, O Inverno, A História da Culpa e da Reclamação, Será que Existe um Convênio Entre a Morte e os Médicos?, Encontro, Luzes, Sumiço e Árvores das Laranjeiras, e a íntegra dos poemas Um Verso, Não Sei, Queda, Ele Traz, Eu Trago e Coragem..., de Zanom (Marcus Zanomia), publicados no blog O Poema Nosso de Cada Dia (2009). www.opoemanossodecadadianosdaihoje.blogspot.com

.

sábado, 3 de outubro de 2009

Ano da França no Brasil #01


2009
é o Ano da França no Brasil, uma resposta a 2005, quando foi a nossa vez por lá. Desde julho que venho produzindo, na Educadora FM, um Especial de Sábado por mês dedicado à música francesa, com o auxílio precioso de Irène Kirsch, adida cultural da França na Bahia, que traz à rádio as opções de artistas franceses e ainda apresenta o programa, com um astral descontraído, uma quase radialista! Então, decidi socializar um pouco dessa produção aqui no blog, com essa nova série.

Confiram os artistas e as músicas que rolaram (e rolarão) nos programas. O próximo será no sábado 17 deste mês, ao meio dia, não percam!




Anis

www.myspace.com/anislachance

/wiki





Anis - Cergy (ao vivo)




Anis - Cergy (trecho de videoclipe)



-----




Yann Tiersen

www.myspace.com/yanntierseninprogress

/site

/wiki

Yann Tiersen - La Rade (ao vivo)



Yann Tiersen - La Rade (clipe - só no youtube)

-----




Emilie Simon


www.myspace.com/emiliesimonmusic

/site

/wiki

Emilie Simon - Fleur de Saison (ao vivo)



Emilie Simon -
Fleur de Saison (clipe)




-----




Benjamin Biolay

www.myspace.com/benjaminbiolay


/site

/wiki

Benjamin Biolay - Dans la Merco Benz (clipe só no youtube)


Benjamin Biolay - Dans la Merco Benz (ao vivo)



-----




Rachid Taha

www.myspace.com/rachidtaha

/site




Rachid Taha - Ecoute-moi Camarade (clipe)



Rachid Taha - Ecoute-moi Camarade




.