domingo, 31 de maio de 2015

Tardes noites & dias, uma canção que eu amo




Tardes noites & dias
(Wal Jr./Esso A.)

saímos soturnos no escuro da noite
caindo poeira, vertendo histórias
mas é tão tarde, tão tarde da noite
no mesmo lugar dess’euforia lenta
canções dispersas, tantos dispersos
que eu possa cantar, trazer-nos aqui
vem, se distraia com algo estranho
lhe beba a leveza, lhe dança a tristeza

vem a madrugada densa, leve e fria
iluminando o corpo de sombras e sonhos
horas lancinantes em ruas, becos, cidades
monstros que devoram a vontade de ficar
mas sozinho vai andar de hoje em diante
procurando curar seus ferimentos de batalhas
e outros sem lugar

mas é tão cedo, tão cedo e cortante
retirando as cordas do violão noturno
me vens tão cansado com a mão enrugada
de viagens tão distantes por sobre o vazio
a vida e os desejos
desenhos em ti mesmo
borrados no teu rosto
por que tanto choras?
se mostra em teu corpo no escuro da tua boca
a pele na leveza, os tons da tristeza

dorme o prisioneiro no canto de uma cela
lhe jogam o que comer e ele grita de fome assim mesmo
somos tão menores acordados nos braços de sonhos
isso é tão gigante, ninguém poderia nos contar
é tão tarde
é tão cedo
as noites e os dias vão embora
e voltam amanhã


Sexta faixa do disco Bossta Nova (Elephante Registros/2006), do cantor e compositor Esso.

Esso - voz, violão de nylon e guitarra
Lula Alencar - baixo e violão de aço
Wal Jr. - base eletrônica
Teco Cardoso - sax

Letra: Wal Jr.
Música: Esso A./ Wal Jr.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Oito passagens de Anton Tchekhov no conto Enfermaria № 6

Anton Tchekhov (foto daqui)


"(...) O pensamento livre e profundo, que procura compreender racionalmente a vida, e um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo - eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu (...)"


"(...) Não existe sobre a terra nada de bom que não tenha na sua origem alguma vilania."


"(...) Por mais esplêndida que seja a aurora que ilumine a sua vida, apesar de tudo no final será encerrado num caixão e atirado numa fossa."


"(...) um juiz, para destituir um homem inocente de todos os direitos civis e condená-lo aos trabalhos forçados, só precisa do seguinte: tempo. Apenas tempo para a execução de umas poucas formalidades, pelas quais o juiz recebe um ordenado, e a seguir tudo acaba (...) não será ridículo cogitar de justiça, quando toda violência é recebida pela sociedade como uma necessidade razoável e oportuna, e quando todo ato de piedade, por exemplo, uma sentença absolutória, provoca uma verdadeira explosão do sentimento de vingança insatisfeito?"


"'Quem de nós dois é louco?', pensava com mágoa. 'Eu, que procuro não incomodar com nada os passageiros, ou este egoísta, que pensa ser o mais inteligente e interessante de todos aqui, e que por isso não dá sossego a ninguém?'"


"(...) a vida na cidade era abafada, aborrecida, a sociedade ali não possuía interesses superiores e levava uma vida apagada, sem sentido, diversificando-a com a coação sobre os mais fracos, uma devassidão rude e a hipocrisia; os calhordas estavam vestidos e alimentados, enquanto as pessoas honestas alimentavam-se de migalhas; eram necessários escolas, um jornal local com orientação honesta, um teatro, leituras públicas, uma união das forças intelectuais; era preciso que a sociedade tomasse conhecimento de si mesma e ficasse horrorizada (...)"


"A doutrina que prega indiferença à riqueza, às comodidades da vida, o desprezo pelos sofrimentos e pela morte, é de todo incompreensível para a imensa maioria, pois esta jamais conheceu a riqueza nem aquelas comodidades; e desprezar os sofrimentos significaria para ela desprezar a própria vida, pois toda a essência da vida humana consiste em sensações de fome, frio, ofensas, privações e um medo hamletiano da morte (...)"


"(...) Quando a sociedade se isola dos criminosos, dos doentes psíquicos e da gente incômoda em geral, ela é inflexível (...) Se existem prisões e manicômios, alguém deve ficar neles. Se não for o senhor, serei eu, se não eu, algum terceiro. Espere, quando, num futuro distante, tiverem terminado sua existência as prisões e os manicômios, não existirão grades nas janelas, nem roupões de internados. Está claro que essa época chegará cedo ou tarde (...) Ivan Dmítritch teve um sorriso de mofa."




Trecho do conto Enfermaria № 6, presente no livro de contos O beijo e outras histórias (Editora 34/2014), páginas 214, 198, 213, 190-191, 229-230, 188, 219 e 212, respectivamente, na tradução de Boris Schnaiderman.


terça-feira, 26 de maio de 2015

Tchekhov e o teatro do entretenimento

Anton Tchekhov (foto daqui)


"Pode-se convencer a multidão sentimental e confiante de que o teatro, em sua forma atual, é uma escola. Mas não se pode fisgar com esse anzol aquele que conhece a escola em seu sentido autêntico. Não sei o que será daqui a cinquenta ou cem anos, mas nas condições atuais o teatro só pode servir de divertimento. Todavia, esse prazer é demasiado caro para que se continue a aproveitá-lo. Ele tira ao país milhares de homens e mulheres jovens, sadios e talentosos, que, se não se devotassem ao teatro, poderiam ser bons médicos, plantadores de trigo, professoras, oficiais do Exército; ele tira ao público as horas do anoitecer, as melhores para o trabalho intelectual e as conversas amigas. Isto não se falando nos gastos em dinheiro e nos prejuízos morais que sofre o espectador, quando vê no palco o assassínio, o adultério ou a calúnia, tratados impropriamente."





Trecho do conto Uma história enfadonha, presente no livro
O beijo e outras histórias (Editora 34/2014), páginas 133-134, na tradução de Boris Schnaiderman.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Quatro passagens de Anton Tchekhov no conto Uma história enfadonha

Anton Tchekhov (foto daqui)


"(...) se um jovem cientista ou literato inicia a sua atividade queixando-se amargamente de outros cientistas ou literatos, isso quer dizer que ele já se extenuou e não serve para o trabalho (...)"


"Quando amanhece, estou sentado na cama, abraçando os joelhos, e, não tendo o que fazer, procuro conhecer a mim mesmo. 'Conhece-te a ti mesmo' - eis um belo e útil conselho; dá pena, porém, que os antigos não tenham adivinhado como indicar o meio de utilizá-lo."


"(...) Eis os traços que diferenciam um cavalo de carga de um homem de talento: o seu campo visual é acanhado, limitado abruptamente pela especialização; fora da especialidade, ele é ingênuo como uma criança (...)"


"(...) Não consigo expressar para o senhor a amargura que sinto, vendo a arte que amo tanto nas mãos de gente que odeio; é triste que os homens melhores somente vejam o mal de longe, não queiram aproximar-se e, em lugar de entrar na luta, escrevam lugares-comuns num estilo pesado e preguem uma moral de que ninguém precisa... (...)"





Presente no livro de contos O beijo e outras histórias (Editora 34/2014), páginas 135, 177, 120-121 e 136, respectivamente, na tradução de Boris Schnaiderman.

domingo, 24 de maio de 2015

Anton Tchekhov e a ciência

Anton Tchekhov (foto daqui)


"Infelizmente, não sou filósofo nem teólogo. Sei perfeitamente que não tenho mais de meio ano de vida; agora, parece, deveriam ocupar-me particularmente questões sobre as trevas de além-túmulo (...) Mas, por algum motivo, minha alma não quer saber dessas questões, embora a razão compreenda toda a sua importância (...) agora, diante da morte, só me interessa a ciência. Emitindo o suspiro derradeiro, ainda hei de crer que a ciência constitui o mais importante, o mais belo, o mais necessário na vida do homem, que ela sempre foi e será a manifestação mais elevada do amor, e que somente por meio dela o homem vencerá a natureza e a si mesmo."





Trecho do conto Uma história enfadonha, presente no livro
O beijo e outras histórias (Editora 34/2014), página 125, na tradução de Boris Schnaiderman.

sábado, 23 de maio de 2015

Três passagens de Anton Tchekhov no conto Uma crise

Anton Tchekhov (foto daqui)


"- Que roupa bonitinha a sua! - disse ele e tocou com o dedo a franja dourada do seu lenço de cabeça.
- Tem-se o que se pode... - disse desanimada a morena.
- A senhora vem de que região?
- Eu? De longe... Da região de Tchernigov.
- Boa terra. Lá é bom.
- É bom onde não estamos."


"(...) Há talentos literários, cênicos, pictóricos, mas ele tinha um talento peculiar: o talento humano. Possuía uma intuição sutil, magnífica, para a dor em geral. Assim como um bom ator reflete em si os movimentos e a voz alheios, Vassíliev sabia refletir em sua alma a dor alheia. À vista de lágrimas, ele chorava; ao lado de um doente, ele mesmo também ficava enfermo e gemia; se presenciava um ato de coação, tinha a impressão de que essa coação exercia-se contra ele, assustava-se como uma criança e, em seguida, corria em socorro da vítima. A dor alheia enervava-o, deixava-o exaltado, fazia-o atingir um estado de êxtase (...)"


"Pôs-se novamente a caminhar, sempre pensando. Agora formulava o problema de outro modo: o que era preciso fazer para que as mulheres decaídas não fossem mais necessárias? Era indispensável que os homens, que as compravam e assassinavam, sentissem toda a imoralidade do seu papel de donos de escravos e se horrorizassem."





Presente no livro de contos O beijo e outras histórias (Editora 34/2014), páginas 94, 103 e 102, respectivamente, na tradução de Boris Schnaiderman.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Seleta Mirdad do Embrulhador 2014

Minha seleção de álbuns da seleta do Embrulhador 2014






1º) Tom Zé
      Vira Lata na Via Láctea
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2º) Rua
      Limbo
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3º) Sacassaia
     Boca da Terra
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4º) Thamires Tannous
      Canto para Aldebarã
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5º) The Junkie Dogs
     The Junkie Dogs
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6º) Pipo Pegoraro
     Mergulhar, Mergulhei
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7º) Bernardo Puhler
      O Alumbramento de um Guará Negro 
      Numa Noite Escura
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8º) Telecoteco
      É Hora de Trocar as Válvulas
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9º) Wem
     Começo
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10º) ruído/mm
       Rasura
       Ouça aqui









11º) Pitanga em Pé de Amora
       Pontes para si
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12º) Musa Híbrida
        Verde Fosco Roxo Cinza
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13º) Versos que Compomos na Estrada
        Versos que compomos na estrada
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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Cinco passagens de Anton Tchekhov no livro de contos Um homem extraordinário [e outras histórias]

Anton Tchekhov (foto daqui)


"Ver e ouvir como mentem (...) e depois te chamam de bobo, porque toleras essas mentiras; suportar ofensas, humilhações, não se atrever a declarar abertamente que estás do lado das pessoas honestas e livres, e mentires tu mesmo, sorrir, e tudo por causa de um pedaço de pão, por causa de um titulozinho qualquer, que não vale um centavo - não, não é mais possível viver assim!"


"(...) o marido é sempre assim... honesto, justo, ponderado, sensatamente econômico, mas tudo isso em dimensões tão extraordinárias, que os simples mortais sentem-se sufocados. Os parentes afastaram-se dele, os criados não param mais do que um mês, conhecidos não há, a mulher e os filhos estão sempre tensos de medo com cada um dos seus passos. Ele não bate, não grita, tem muito mais virtudes que defeitos, mas quando ele sai de casa, todos se sentem mais leves e saudáveis."


"Quanto mais desenvolvido é o homem, quanto mais ele pondera e entra em detalhes, tanto mais ele fica vacilante, cismado, e põe mãos à obra timidamente. Na verdade, se pensarmos em profundidade, quanta coragem e confiança em si mesmo são necessárias para se atrever a ensinar, julgar, escrever um livro grosso."


"Confesso que sepultar pessoas como Biélikov é um grande prazer. Quando voltávamos do cemitério, ostentávamos expressões modestas e neutras; ninguém queria demonstrar esse momento de satisfação - um sentimento parecido com aquele que experimentávamos havia muito, muito tempo, ainda na infância, quando os adultos saíam de casa e nós corríamos pelo jardim uma hora ou duas, deliciando-nos com a liberdade completa. Ah, liberdade, liberdade! Até uma alusão, até uma débil esperança da sua possibilidade empresta asas à alma, não é verdade?"


"As desgraças que já experimentamos e que estão presentes agora são tão grandes, que é difícil imaginar algo ainda pior. Que mal ainda se pode causar ao peixe que já está pescado, frito e servido à mesa, ao molho?"





Presente no livro de contos Um homem extraordinário [e outras histórias] (L&PM Pocket/2013), páginas 89, 94, 47, 87 e 61, respectivamente, na tradução de Tatiana Belinky.





domingo, 17 de maio de 2015

Trechos da orelha de Paisagem da insônia e do posfácio de Muralha: O goleiro imbatível

Victor Mascarenhas - Foto: Facebook do escritor


"A cada conto, a cada página e a cada parágrafo, a solidão maníaca dos personagens se exibe quase que pornograficamente e se esfrega na cara do leitor, sempre numa prosa caudalosa, que não poupa os adjetivos, os exageros e uma misantropia domesticada e usada a serviço do texto. Os zumbis insones de Emmanuel Mirdad vagueiam pra cá e pra lá em um círculo vicioso que envolve desde a mais banal dor de cotovelo ao mais sofrido fracasso. Dormir? Melhor não, a paisagem da insônia tem caminhos tortuosos, armadilhas a serem superadas e, para fugir dali, picadas precisam ser abertas entre os excessos de um autor sem filtros."


O escritor e roteirista Victor Mascarenhas, autor dos livros de contos 
A insuportável família feliz e Cafeína, escreveu a orelha de 
Paisagem da insônia, terceiro e último livro de contos de Emmanuel Mirdad
que tá na fila pra ser lançado, aguardando a revisão e a finalização.

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Elieser Cesar - Foto: Facebook do escritor


"Em sua estreia no romance, gênero que exige fôlego, Emmanuel Mirdad exibe o gás de um jogador que corre o campo todo, atacando e voltando para marcar, e o condicionamento de um escritor que não dá bicudas no estilo, não tropeça no texto e não faz firulas retóricas. E ainda mais: consegue escapar ileso das armadilhas da ficção de chuteiras, a maior delas ceder à tentação do fácil, repetitivo e batido jargão da crônica esportiva, repleto de lugares-comuns, como a transmissão de um jogo pela TV. Um a zero!"


"O Mudinho do começo da história é uma muralha no gol e uma rocha, impenetrável, na vida, pois, calado, fechado em copas, introspectivo e infenso a quaisquer emoções, sobretudo aquelas à flor da pele exibidas fartamente numa partida de futebol. Muralha: O goleiro imbatível é também um romance de formação; os anos de preparação de um jogador que se torna imbatível em campo e indomável fora dele."


"No romance do 'técnico' Mirdad entram em campo jogadores cabeças-de-bagre e medianos, candidatos a craque, torcedores fanáticos, cartolas inescrupulosos e uma sequência de lances tramados nos bastidores, intrigas, inveja, sabotagem, tentativa de arranjar resultados, negociatas, muito daquilo que há de heroico e edificante, mas também de sórdido, inescrupuloso e ilegítimo que o futebol comporta, sem faltar o cronista esportivo venal e sempre disposto a escalar o time em lugar do técnico e de quem mais entende de bola."


O escritor e jornalista Elieser Cesar, autor de A garota do outdoor 
O azar do goleiro, entre outros, escreveu o posfácio de 
Muralha: O goleiro imbatível, o primeiro romance de Emmanuel Mirdad,
que tá na fila pra ser lançado, aguardando a revisão e a finalização.


sábado, 16 de maio de 2015

Um trecho genial de Anton Tchekhov

Anton Tchekhov (foto daqui)


"A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento."





Presente no livro de contos A dama do cachorrinho [e outras histórias] (L&PM Pocket/2014), página 148, tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Luto por B.B. King (1925-2015)

B. B. King por Andy Freeberg


Luz, mestre! O gênio, a voz, a nota única, a simpatia, a cordialidade, o sentimento, a dor e a redenção do blues, Rei de milhões de súditos órfãos, insubstituível, inigualável, B.B King eterno! Muito obrigado!







Quatro passagens de Anton Tchekhov no livro de contos A dama do cachorrinho [e outras histórias]

Anton Tchekhov (foto daqui


"O passado acabou e não interessa, o futuro é insignificante, e esta noite maravilhosa, única na vida, logo vai terminar, vai se fundir com a eternidade - então, para que viver?"


"Enquanto caminhava, ele pensava que muitas vezes você encontra pessoas na vida e que, infelizmente, desses encontros não fica nada mais do que recordações. Acontece vermos de relance as cegonhas no horizonte, a brisa traz seus gritos triunfais e lamentosos, mas um minuto depois, por mais que você esquadrinhe ansiosamente o azul distante, não verá nem sinal delas, e não ouvirá um som sequer - exatamente assim as pessoas, com seus rostos e falas, passam de relance por nossa vida e se afundam em nosso passado, sem deixar mais do que ínfimos vestígios de lembranças."


"(...) ele julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, supondo sempre que para cada pessoa, sob o manto do segredo, assim como sob o manto da noite, se passava a sua verdadeira vida, a mais interessante. Cada existência pessoal sustenta-se no segredo, e talvez por isso que o homem educado exige tão nervosamente respeito à sua privacidade."


"Na companhia dos homens ele se sentia entediado, pouco à vontade, ficava calado e frio; mas, no meio das mulheres, sentia-se livre e sabia o que dizer e como se comportar. Era-lhe fácil até mesmo ficar calado na presença delas. Na sua aparência, no seu caráter, em todo o seu modo de ser havia algo sedutor, imperceptível, que predispunha favoravelmente as mulheres em relação a ele e as atraía (...) Sua farta experiência, na realidade uma experiência amarga, há muito lhe ensinara que toda aproximação, que no início traz uma agradável variedade à vida e que promete ser uma aventura leve e divertida (...) fatalmente se transforma num problema terrivelmente complexo, e no final a situação se torna muito penosa. Porém, a cada novo encontro com uma mulher interessante era como se essa experiência escapasse da memória; dava vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido."





Presente no livro de contos A dama do cachorrinho [e outras histórias] (L&PM Pocket/2014), páginas 81, 48-49, 159 e 142, respectivamente, na tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Anton Tchekhov e o trato com um burguês

Anton Tchekhov (foto daqui) 


"Aos poucos ele aprendeu pela experiência que, enquanto se trata de jogar cartas ou de comer na companhia de um burguês, este permanece pacífico, benevolente e é até mesmo inteligente; porém, basta apenas puxar o assunto para algo não comestível, como política ou ciência, por exemplo, que ele fica num beco sem saída ou vem com alguma filosofia obtusa e perversa, e o único remédio é desistir e ir embora. Quando Stártsev tentava conversar com um burguês, mesmo um liberal, a respeito, por exemplo, da ideia de que a humanidade, graças a Deus, está avançando e de que, com o tempo, os documentos de identidade e a pena de morte serão dispensáveis, o tal burguês o olhava de esguelha e perguntava desconfiado: 'Quer dizer então que qualquer um vai poder degolar quem quiser na rua?'. E quando, em sociedade, num jantar ou tomando chá, Stártsev dizia que era necessário trabalhar, que não se pode viver sem trabalhar, cada um interpretava isso como uma crítica, zangava-se e começava a discutir de maneira inconveniente"




Presente no livro de contos A dama do cachorrinho [e outras histórias] (L&PM Pocket/2014), páginas 132 e 133, tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Seis qualidades literárias por Anton Tchekhov

Anton Tchekhov (foto daqui

As qualidades de uma obra de ficção (conto ou novela) segundo Anton Tchekhov:

1) Ausência de longas verborragias de cunho político, social ou econômico.

2) Total objetividade.

3) Veracidade na descrição de personagens e coisas.

4) Concisão absoluta.

5) Ousadia e originalidade, evitando-se os chavões.

6) Calor humano.

O autor russo listou essas qualidades em 1886. Continuam valendo.

PS: Qualidades retiradas do prefácio de 
Maria Aparecida Botelho Pereira Soares à edição 
da L&PM do livro A dama do cachorrinho.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Três passagens de Andrew Solomon em Longe da árvore

Andrew Solomon (Foto: Annie Leibovitz / Scribner - daqui)


"Por mais alegre que eu me sentisse por causa de nossa decisão, me entristecia o fato de que eu nunca saberia o que poderia resultar da mistura de meus genes com os de John. Eu estava feliz por podermos conseguir um óvulo, mas triste por nenhum de nós ser capaz de produzi-lo; feliz por podermos afinal ter um filho, mas triste por causa da aura de produção industrial que permeava todo o processo. Sem a tecnologia da reprodução assistida, eu nunca teria os filhos que tenho, mas teria sido bom produzi-los num momento de êxtase de amor físico em vez da exaustiva burocracia. Foi caro, também, e embora o dinheiro tenha sido bem empregado, nós dois lamentamos que uma situação econômica privilegiada tenha sido condição necessária para o que preferimos considerar como um ato de amor" - PS: O autor fala de sua experiência com o companheiro John.


"Conversando com muitas mulheres que deram à luz filhos nascidos de estupro, impressionei-me com sua incapacidade de prever a probabilidade do perigo inerente a suas decisões. Todas as coisas ruins que lhes aconteceram, mesmo nas mãos de quem já as agredira, foram recebidas com surpresa. Elas não distinguiam as pessoas que mereciam confiança das demais. Não tinham a intuição a guiá-las e apresentavam uma cegueira para a falta de caráter até o momento em que esta se manifestava (...) Praticamente todas as mulheres com essas características que conheci não tinham sido amadas ou protegidas na infância. No nível mais elementar, elas não sabem o que é o comportamento carinhoso, portanto são incapazes de reconhecê-lo. Algumas estavam tão carentes de amor e atenção que se tornavam alvos fáceis. A maior parte delas estava tão familiarizada com o abandono e o abuso que aceitava essas atitudes como normais quando apareciam em seu caminho; para muitas, abuso era sinônimo de intimidade"


"Não admito modelos competitivos de amor, só modelos aditivos. Tanto minha jornada em busca de uma família quanto esse livro me ensinaram que o amor é um fenômeno multiplicador - qualquer aumento de amor fortalece todo o amor do mundo, que o amor que sentimos por nossa família pode ser um meio de amar a Deus, de modo que o amor existe numa família pode fortalecer o amor de todas as famílias. Defendo o libertarianismo reprodutivo porque, quando todos podem fazer escolhas mais simples, o amor se expande"






Presente em Longe da árvore (Companhia das Letras/2013), páginas 802, 599-600 e 810, respectivamente.