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Mostrando postagens de Maio, 2015

Tardes noites & dias, uma canção que eu amo

Tardes noites & dias
(Wal Jr./Esso A.)

saímos soturnos no escuro da noite
caindo poeira, vertendo histórias
mas é tão tarde, tão tarde da noite
no mesmo lugar dess’euforia lenta
canções dispersas, tantos dispersos
que eu possa cantar, trazer-nos aqui
vem, se distraia com algo estranho
lhe beba a leveza, lhe dança a tristeza

vem a madrugada densa, leve e fria
iluminando o corpo de sombras e sonhos
horas lancinantes em ruas, becos, cidades
monstros que devoram a vontade de ficar
mas sozinho vai andar de hoje em diante
procurando curar seus ferimentos de batalhas
e outros sem lugar

mas é tão cedo, tão cedo e cortante
retirando as cordas do violão noturno
me vens tão cansado com a mão enrugada
de viagens tão distantes por sobre o vazio
a vida e os desejos
desenhos em ti mesmo
borrados no teu rosto
por que tanto choras?
se mostra em teu corpo no escuro da tua boca
a pele na leveza, os tons da tristeza

dorme o prisioneiro no canto de uma cela
lhe jogam o que comer e ele grita de fome as…

Oito passagens de Anton Tchekhov no conto Enfermaria № 6

Anton Tchekhov (foto daqui)

"(...) O pensamento livre e profundo, que procura compreender racionalmente a vida, e um desprezo absoluto às vaidades estúpidas do mundo - eis os dois bens mais elevados que o homem jamais conheceu (...)"


"(...) Não existe sobre a terra nada de bom que não tenha na sua origem alguma vilania."


"(...) Por mais esplêndida que seja a aurora que ilumine a sua vida, apesar de tudo no final será encerrado num caixão e atirado numa fossa."


"(...) um juiz, para destituir um homem inocente de todos os direitos civis e condená-lo aos trabalhos forçados, só precisa do seguinte: tempo. Apenas tempo para a execução de umas poucas formalidades, pelas quais o juiz recebe um ordenado, e a seguir tudo acaba (...) não será ridículo cogitar de justiça, quando toda violência é recebida pela sociedade como uma necessidade razoável e oportuna, e quando todo ato de piedade, por exemplo, uma sentença absolutória, provoca uma verdadeira explosão d…

Tchekhov e o teatro do entretenimento

Anton Tchekhov (foto daqui)

"Pode-se convencer a multidão sentimental e confiante de que o teatro, em sua forma atual, é uma escola. Mas não se pode fisgar com esse anzol aquele que conhece a escola em seu sentido autêntico. Não sei o que será daqui a cinquenta ou cem anos, mas nas condições atuais o teatro só pode servir de divertimento. Todavia, esse prazer é demasiado caro para que se continue a aproveitá-lo. Ele tira ao país milhares de homens e mulheres jovens, sadios e talentosos, que, se não se devotassem ao teatro, poderiam ser bons médicos, plantadores de trigo, professoras, oficiais do Exército; ele tira ao público as horas do anoitecer, as melhores para o trabalho intelectual e as conversas amigas. Isto não se falando nos gastos em dinheiro e nos prejuízos morais que sofre o espectador, quando vê no palco o assassínio, o adultério ou a calúnia, tratados impropriamente."





Trecho do conto Uma história enfadonha, presente no livro
O beijo e outras histórias (Editora 34…

Quatro passagens de Anton Tchekhov no conto Uma história enfadonha

Anton Tchekhov (foto daqui)

"(...) se um jovem cientista ou literato inicia a sua atividade queixando-se amargamente de outros cientistas ou literatos, isso quer dizer que ele já se extenuou e não serve para o trabalho (...)"


"Quando amanhece, estou sentado na cama, abraçando os joelhos, e, não tendo o que fazer, procuro conhecer a mim mesmo. 'Conhece-te a ti mesmo' - eis um belo e útil conselho; dá pena, porém, que os antigos não tenham adivinhado como indicar o meio de utilizá-lo."


"(...) Eis os traços que diferenciam um cavalo de carga de um homem de talento: o seu campo visual é acanhado, limitado abruptamente pela especialização; fora da especialidade, ele é ingênuo como uma criança (...)"


"(...) Não consigo expressar para o senhor a amargura que sinto, vendo a arte que amo tanto nas mãos de gente que odeio; é triste que os homens melhores somente vejam o mal de longe, não queiram aproximar-se e, em lugar de entrar na luta, escrevam luga…

Anton Tchekhov e a ciência

Anton Tchekhov (foto daqui)

"Infelizmente, não sou filósofo nem teólogo. Sei perfeitamente que não tenho mais de meio ano de vida; agora, parece, deveriam ocupar-me particularmente questões sobre as trevas de além-túmulo (...) Mas, por algum motivo, minha alma não quer saber dessas questões, embora a razão compreenda toda a sua importância (...) agora, diante da morte, só me interessa a ciência. Emitindo o suspiro derradeiro, ainda hei de crer que a ciência constitui o mais importante, o mais belo, o mais necessário na vida do homem, que ela sempre foi e será a manifestação mais elevada do amor, e que somente por meio dela o homem vencerá a natureza e a si mesmo."





Trecho do conto Uma história enfadonha, presente no livro
O beijo e outras histórias (Editora 34/2014), página 125, na tradução de Boris Schnaiderman.

Três passagens de Anton Tchekhov no conto Uma crise

Anton Tchekhov (foto daqui)

"- Que roupa bonitinha a sua! - disse ele e tocou com o dedo a franja dourada do seu lenço de cabeça.
- Tem-se o que se pode... - disse desanimada a morena.
- A senhora vem de que região?
- Eu? De longe... Da região de Tchernigov.
- Boa terra. Lá é bom.
- É bom onde não estamos."


"(...) Há talentos literários, cênicos, pictóricos, mas ele tinha um talento peculiar: o talento humano. Possuía uma intuição sutil, magnífica, para a dor em geral. Assim como um bom ator reflete em si os movimentos e a voz alheios, Vassíliev sabia refletir em sua alma a dor alheia. À vista de lágrimas, ele chorava; ao lado de um doente, ele mesmo também ficava enfermo e gemia; se presenciava um ato de coação, tinha a impressão de que essa coação exercia-se contra ele, assustava-se como uma criança e, em seguida, corria em socorro da vítima. A dor alheia enervava-o, deixava-o exaltado, fazia-o atingir um estado de êxtase (...)"


"Pôs-se novamente a caminhar,…

Seleta Mirdad do Embrulhador 2014

Minha seleção de álbuns da seleta do Embrulhador 2014





1º) Tom Zé
Vira Lata na Via Láctea
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2º) Rua
Limbo
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3º) Sacassaia
Boca da Terra
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4º) Thamires Tannous
Canto para Aldebarã
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5º) The Junkie Dogs
The Junkie Dogs
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6º) Pipo Pegoraro
Mergulhar, Mergulhei
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7º) Bernardo Puhler
O Alumbramento de um Guará Negro 
      Numa Noite Escura
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8º) Telecoteco
É Hora de Trocar as Válvulas
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9º) Wem
Começo
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10º) ruído/mm
Rasura
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11º) Pitanga em Pé de Amora
Pontes para si
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12º) Musa Híbrida
Verde Fosco Roxo Cinza
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Cinco passagens de Anton Tchekhov no livro de contos Um homem extraordinário [e outras histórias]

Anton Tchekhov (foto daqui)

"Ver e ouvir como mentem (...) e depois te chamam de bobo, porque toleras essas mentiras; suportar ofensas, humilhações, não se atrever a declarar abertamente que estás do lado das pessoas honestas e livres, e mentires tu mesmo, sorrir, e tudo por causa de um pedaço de pão, por causa de um titulozinho qualquer, que não vale um centavo - não, não é mais possível viver assim!"


"(...) o marido é sempre assim... honesto, justo, ponderado, sensatamente econômico, mas tudo isso em dimensões tão extraordinárias, que os simples mortais sentem-se sufocados. Os parentes afastaram-se dele, os criados não param mais do que um mês, conhecidos não há, a mulher e os filhos estão sempre tensos de medo com cada um dos seus passos. Ele não bate, não grita, tem muito mais virtudes que defeitos, mas quando ele sai de casa, todos se sentem mais leves e saudáveis."


"Quanto mais desenvolvido é o homem, quanto mais ele pondera e entra em detalhes, tanto ma…

Trechos da orelha de Paisagem da insônia e do posfácio de Muralha: O goleiro imbatível

Victor Mascarenhas - Foto: Facebook do escritor

"A cada conto, a cada página e a cada parágrafo, a solidão maníaca dos personagens se exibe quase que pornograficamente e se esfrega na cara do leitor, sempre numa prosa caudalosa, que não poupa os adjetivos, os exageros e uma misantropia domesticada e usada a serviço do texto. Os zumbis insones de Emmanuel Mirdad vagueiam pra cá e pra lá em um círculo vicioso que envolve desde a mais banal dor de cotovelo ao mais sofrido fracasso. Dormir? Melhor não, a paisagem da insônia tem caminhos tortuosos, armadilhas a serem superadas e, para fugir dali, picadas precisam ser abertas entre os excessos de um autor sem filtros."


O escritor e roteirista Victor Mascarenhas, autor dos livros de contos 
A insuportável família feliz e Cafeína, escreveu a orelha de 
Paisagem da insônia, terceiro e último livro de contos de Emmanuel Mirdad
que tá na fila pra ser lançado, aguardando a revisão e a finalização.
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Elieser Cesar - …

Um trecho genial de Anton Tchekhov

Anton Tchekhov (foto daqui)

"A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento."





Presente no livro de contos A dama do cachorrinho [e outras histórias] (L&PM Pocket/2014), página 148, tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares.

Luto por B.B. King (1925-2015)

B. B. King por Andy Freeberg

Luz, mestre! O gênio, a voz, a nota única, a simpatia, a cordialidade, o sentimento, a dor e a redenção do blues, Rei de milhões de súditos órfãos, insubstituível, inigualável, B.B King eterno! Muito obrigado!







Quatro passagens de Anton Tchekhov no livro de contos A dama do cachorrinho [e outras histórias]

Anton Tchekhov (foto daqui

"O passado acabou e não interessa, o futuro é insignificante, e esta noite maravilhosa, única na vida, logo vai terminar, vai se fundir com a eternidade - então, para que viver?"


"Enquanto caminhava, ele pensava que muitas vezes você encontra pessoas na vida e que, infelizmente, desses encontros não fica nada mais do que recordações. Acontece vermos de relance as cegonhas no horizonte, a brisa traz seus gritos triunfais e lamentosos, mas um minuto depois, por mais que você esquadrinhe ansiosamente o azul distante, não verá nem sinal delas, e não ouvirá um som sequer - exatamente assim as pessoas, com seus rostos e falas, passam de relance por nossa vida e se afundam em nosso passado, sem deixar mais do que ínfimos vestígios de lembranças."


"(...) ele julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, supondo sempre que para cada pessoa, sob o manto do segredo, assim como sob o manto da noite, se passava a sua verdadeira vid…

Anton Tchekhov e o trato com um burguês

Anton Tchekhov (foto daqui)

"Aos poucos ele aprendeu pela experiência que, enquanto se trata de jogar cartas ou de comer na companhia de um burguês, este permanece pacífico, benevolente e é até mesmo inteligente; porém, basta apenas puxar o assunto para algo não comestível, como política ou ciência, por exemplo, que ele fica num beco sem saída ou vem com alguma filosofia obtusa e perversa, e o único remédio é desistir e ir embora. Quando Stártsev tentava conversar com um burguês, mesmo um liberal, a respeito, por exemplo, da ideia de que a humanidade, graças a Deus, está avançando e de que, com o tempo, os documentos de identidade e a pena de morte serão dispensáveis, o tal burguês o olhava de esguelha e perguntava desconfiado: 'Quer dizer então que qualquer um vai poder degolar quem quiser na rua?'. E quando, em sociedade, num jantar ou tomando chá, Stártsev dizia que era necessário trabalhar, que não se pode viver sem trabalhar, cada um interpretava isso como uma crític…

Seis qualidades literárias por Anton Tchekhov

Anton Tchekhov (foto daqui
As qualidades de uma obra de ficção (conto ou novela) segundo Anton Tchekhov:

1) Ausência de longas verborragias de cunho político, social ou econômico.

2) Total objetividade.

3) Veracidade na descrição de personagens e coisas.

4) Concisão absoluta.

5) Ousadia e originalidade, evitando-se os chavões.

6) Calor humano.

O autor russo listou essas qualidades em 1886. Continuam valendo.

PS: Qualidades retiradas do prefácio de  Maria Aparecida Botelho Pereira Soares à edição  da L&PM do livro A dama do cachorrinho.

Três passagens de Andrew Solomon em Longe da árvore

Andrew Solomon (Foto: Annie Leibovitz / Scribner - daqui)

"Por mais alegre que eu me sentisse por causa de nossa decisão, me entristecia o fato de que eu nunca saberia o que poderia resultar da mistura de meus genes com os de John. Eu estava feliz por podermos conseguir um óvulo, mas triste por nenhum de nós ser capaz de produzi-lo; feliz por podermos afinal ter um filho, mas triste por causa da aura de produção industrial que permeava todo o processo. Sem a tecnologia da reprodução assistida, eu nunca teria os filhos que tenho, mas teria sido bom produzi-los num momento de êxtase de amor físico em vez da exaustiva burocracia. Foi caro, também, e embora o dinheiro tenha sido bem empregado, nós dois lamentamos que uma situação econômica privilegiada tenha sido condição necessária para o que preferimos considerar como um ato de amor" - PS: O autor fala de sua experiência com o companheiro John.


"Conversando com muitas mulheres que deram à luz filhos nascidos de estupro, i…