sábado, 31 de maio de 2014

Nostalgia da Lama no Jornal A Tarde

Nostalgia da Lama no jornal A Tarde de 31/05/2014 


O lançamento do meu livro de poemas Nostalgia da Lama (Cousa/2014) em destaque no jornal A Tarde de hoje, 31/05/2014, em uma matéria muito legal da jornalista Mariana Paiva. Hoje é o dia do lançamento e será das 16h às 19h na RV Cultura e Arte, info aqui.

Aproveite e veja a matéria no programa de TV Mosaico Baiano aqui e no jornal Correio aqui.


Matéria ampliada do A Tarde de 31/05/2014
uma honra pra mim que foi feita pela poetisa Mariana!


Versão digital da matéria

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Pílulas: Parte 01 - Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad

Emmanuel Mirdad (foto: Léo Monteiro - interferida por Mirdad)


"mal fiz trinta, mas já carrego a solidão dos sessenta
dobrando o meu não-pertencimento
duplicando as negativas apressadas às soluções
alternando, falsamente, a armadilha implícita do herói
e o fascínio panaca do mártir pelo pedestal"


"é difícil explicar a alguém
como chegar a um determinado lugar
se a pessoa estiver pilotando
um animal assombroso
aspirador de pó
cão que rói tudo"


"comedor de cuscuz e inhame
participo do Nordeste que me situa e enraíza
aqui é o lugar qu’eu pretensamente pertenço
o pêndulo que me badala cangaço e trabalho
lar e gene d’gente, sol e salitre
é por mim que nunca cesso; prossigo
avexado e alumiado, cabra macho"


"o amor é pra valer nada
está muito além de qualquer conceito de preço ou prêmio
nunca será objeto de troca ou intercâmbio
não há consciência de importância ou referência
absolutamente não sobrevive à dependência alguma

o amor não possui"


Emmanuel Mirdad
(Cousa - 2014)


"a senhora varre a sala da casa
para que a poeira volte
e ela tenha que varrer de novo
a manhã

nas frestas que não alcança, o excesso dos dias
nos cantos, as dívidas do amanhã farei
das aranhas no teto, a preguiça de se esticar
quem sabe depois?"


"a paixão passa
e o que não passa é o patético perceber
que tudo aquilo não passou de um fugaz desespero
enraizar um sentimento que já nasceu distorcido
e fadado ao esvaziamento progressivo
quando o concreto soterra a projeção ilusória
de mais um infantil “amor pra sempre”"


"quero o seu dedo dentro de você
a passear pela memória táctil
de todo espaço que ocupei ontem à noite"


"cataliso os sonhos na substância que almejo
ontem à noite dissequei charadas como um herói
quem nunca quis ser um herói?"


"busquei-te no inferno
a esmagar cabeças com minha pressa habitual
com a mesma cara de paisagem que sempre fiz
quando a miséria bateu à janela do meu carro"

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pílulas: Parte 01 - Memórias, de Nelson Rodrigues

Nelson Gonçalves (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Minha família morava diante do mar. Mas o mar, antes de ser paisagem e som, antes de ser concha, antes de ser espuma – o mar foi cheiro. Há ainda um cavalo na minha infância profunda. Mas também o cavalo foi cheiro. Antes de ser uma figura plástica, elástica, com espuma na ventas – o cavalo foi aroma como o mar"


"Se as novas gerações me perguntassem o que era "A vida como ela é...", diria: – "Era sempre a história de uma infiel." Apenas isso. E o leitor era um fascinado. Comprava a Última Hora para conhecer a adúltera do dia. Claro que, na minha coluna, também os homens traíam. Mas o que o público exigia era mesmo a infidelidade feminina. Quando saí da Última Hora, e acabei "A vida como ela é...", o telefone não parava. Homens e mulheres queriam saber se não ia sair mais e por quê. Dir-se-ia que o problema do brasileiro é um só: – ser ou não ser traído"


"O que dá ao homem um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões"


"Enquanto os cinco caixões não chegam, penso que há entre mim e Paulinho não sei quantas coisas entrelaçadas. Naquele momento, descobri que não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. E como me doía não ter dito a ele tudo, não ter feito as confissões extremas. Eu percebia, ali, que nós olhamos tão pouco as pessoas amadas. Quantas palavras calei com o pudor de ser meigo, vergonha de parecer piegas? Agora mesmo eu não chorava como queria"


"Eu não teria a paciência de Samuel. Ninguém a teria. Outro qualquer meteria uma bala ou em si mesmo ou em Carlos Lacerda ... O chamado escândalo de Última Hora fizera de cada qual um Carlos Lacerda. Samuel não poderia sair por aí chumbando milhares, milhões de Carlos Lacerda. Mas eis o que eu queria dizer: – uma geração não basta para explicar tamanha paciência. Ela é anterior a Samuel, começou a ser elaborada, trabalhada, há seis mil anos. Eu me espantava; outros se espantavam. Samuel, não, em momento nenhum. O que ele via por trás dos deputados, de Lacerda, dos artigos, dos discursos e da cólera popular, era um velho conhecido: – o martírio"


"Nada mais arcaico do que o pudor da véspera"


Nelson Rodrigues
(Agir - 2009)


"Agora, despacha-se o cadáver pelos fundos. É uma espécie de rapto vergonhoso, como se a morte fosse obscena. Naquele tempo, o sujeito era velado, chorado e florido no próprio ambiente residencial. Tudo era familiar e solidário: – os móveis, os jarros, as toalhas e, até, as moscas. De mais a mais, o enterro atravessava toda a cidade. Milhares de pessoas, no caminho, tiravam o chapéu. Ninguém mais cumprimentado do que o defunto, qualquer defunto. Mas havia o chapéu, e repito: – tínhamos o chapéu. Pode parecer pouco, mas é muito. Sei que o nosso tempo não valoriza a morte e a respeita cada vez menos. Por vários motivos e mais este: – falta-nos o instrumento da reverência, que é o chapéu"


"A cara do marido pode influir no adultério. A cara, ou a obesidade, ou as pernas curtas, ou a papada, ou a salivação muito intensa. Lembro-me de uma senhora que também traía o marido. Quando lhe perguntaram por quê, ela alçou a fronte e respondeu, crispada de ressentimento: – "Porque ele sua nas mãos." Uma outra era infiel porque descobriu apenas o seguinte: – o marido tinha saliva ácida. Às vezes, eu quero crer que foi uma dessas pequenas causas, um desses motivos insuspeitados, intranscendentes e, mesmo, humorísticos, que a induziu ao adultério"


"Os vizinhos que me viam chegar em casa, com um liquidificador debaixo do braço, olhavam pra mim com escândalo e ira. "Lá vai o tarado", deviam cochichar entre si. Eu podia abrir o embrulho e argumentar: – "Estão vendo esse liquidificador? É o meu salário." No fundo, no fundo, eu achava o seguinte: – aquele liquidificador provava minha pureza, provava minha inocência. O sujeito que recebe, como remuneração profissional, uma panela, uma fruteira, é quase um São Francisco de Assis"


"O homem esquece antes de sofrer. Agora mesmo, tenho diante de mim um recorte de jornal. É a croniqueta do poeta Drummond, sobre o desabamento. Já vasculhei o papel impresso, já o apalpei, já o farejei, já o virei de pernas para o ar. E o papel não diz nada. Mas como? O nosso poeta nacional escreve sobre a tragédia e não consegue dizer nada? Aí está dito tudo: – nada ... uma catástrofe, para os seus largos movimentos, exige espaço, exige extensão. E a crônica miúda é um gênero próprio para o furto de galinhas. Duzentas mortes pedem a abundância de Jorge de Lima da Invenção de Orfeu. Ora, o poeta teria de dizer, em meia dúzia de linhas, verdades jamais concebidas. Não disse. E há, no meio da crônica, quase no fim, uma alusão, de passagem, a Paulo Rodrigues. Os dois se conheciam; Paulinho tremia de admiração pelo poeta; dedicou-lhe seu último livro ... E Drummond faz-lhe a concessão de uma frase e repito: – Drummond pinga uma frase, e não mais, sobre os cinco corpos cravados na pedra"


"Foi então que descobri esta verdade eterna do palco ou da tela: – a verdadeira vocação dramática não é o grande ator ou a grande atriz. É, ao contrário, o canastrão, e quanto mais límpido, líquido, ululante, melhor ... o grande ator nada tem de truculento e nem berra. É inteligente demais, consciente demais, técnico demais; e tem uma lucidez crítica, que o exaure. O canastrão, não. Está em cena como um búfalo da Ilha de Marajó. É capaz de tudo. Sobe pelas paredes, pendura-se no lustre e, se duvidarem, é capaz de comer o cenário. Por isso mesmo, chega mais depressa ao coração do povo, deslumbra e fanatiza a plateia"

terça-feira, 27 de maio de 2014

25 poemas selecionados do Nostalgia da Lama

Enfrascafatos, Micropatetice, Superficiacidez, Umbiego, Ferinar, (P)arte e (Mo)rte 
são os sete capítulos do Nostalgia da Lama


O livro Nostalgia da Lama (Cousa/2014) de Emmanuel Mirdad contém 100 poemas e traz acidez, frustração, angústia, paixão e espetos de um feroz nômade contemporâneo, ilustrado pela bela pintura "Série Nus" de Nelson Magalhães Filho, com prefácio do professor e crítico André Setaro e posfácio do poeta e filósofo Ildegardo Rosa, seu pai, falecido em 2011.  Estreando em livro de poemas, embora os escreva desde 1996, o poeta laranja apresenta suas farpas psicodélicas em uma jornada sobre o cotidiano e o tênue disfarce ilusório que nos habituamos a amar e a chamar de realidade. “São uns poemas crônicos, meus enquadros de fatos, ferinos ou micropatéticos, transitando na superfície ácida dos encontros e desencontros das relações humanas”, sintetiza Mirdad.


Como um aperitivo para o livro, o poeta selecionou 1/4 dele, ou seja, 25 poemas de todos os sete capítulos e os disponibilizou em cinco partes que podem ser acessadas abaixo:




Parte I
Leia aqui
Capítulo Umbiego
"Espiando os Velhos", "Depende", "Inhame", "O2" e "Em Vão"







Parte II
Leia aqui
Capítulo Enfrascafatos
"Pó e Sra.", "Palmada Palerma", "Maria Cegueta", "Saidinha" e "Acordado"






Parte III
Leia aqui
Capítulo Micropatetice
"Chaveiro", "(In)ferir", "Superlotação", "Catedrático" e "Formatado após ctrl + alt + del"






Parte IV
Leia aqui
Capítulo Superficiacidez
"Possuído", "Pertença", "Fora da bolha: Crise!", "Conforto?" e "Passeio"






Parte V
Leia aqui
Capítulos (P)arte, Ferinar e (Mo)rte
"À vista", "Método infalível de brochar", "Memórias dos pedaços", "Erupção" e "Construção"

Nostalgia da Lama no Jornal Correio

Nostalgia da Lama no jornal Correio de 27/05/2014 


O lançamento do livro de poemas Nostalgia da Lama (Cousa/2014) em destaque no jornal Correio de hoje, 27/05/2014, em uma matéria massa do jornalista Roberto Midlej. Sábado 31/05 a partir das 16h na RV Cultura e Arte, info aqui.

Aproveite e veja a matéria no programa de TV Mosaico Baiano aqui.


Jornal Correio de 27/05/2014 - uma honra pra Mirdad estar ao lado de Graciliano Ramos

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Composições de Mirdad: Neither Gods, Nor Devils - The Orange Poem


Flertando com os anos 80, traz uma sonoridade diferente da obra da Orange Poem: um progressivo que mistura U2 com The Cure, além de uma homenagem à surf music de Dick Dale. O poema é um relato de um inconformado, disparando contra a reprodução a esmo ao invés da própria criação, que pede canções ao invés de discursos, propõe matar todos os ícones e soterrar seu legado, e sentencia: não há evolução. Segunda canção do EP Unquiet (lançado em abril de 2014), traz a voz folk do cantor Rodrigo Pinheiro (ex-Besouros do Sertão e atual Mulher Barbada) e uma parede de sintetizadores por Tadeu Mascarenhas. Para ouvir, basta clicar no botão laranja de "play" abaixo. Acompanhe The Orange Poem aqui.




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui


Neither Gods, Nor Devils
(Emmanuel Mirdad)
BR-N1I-14-00006

I ask for songs, instead of speeches
Brothers with no enemies, sex with devotion
Let’s kill all the icons and bury their legacy
Masks for the parties, faces for the mirrors

I ask for pride to any written verse
Kill the influence, be yourself
There’s no evolution, don’t believe in prizes
The giant is the silent being to itself

I request that the illusion is so fatal
Any world exists, the problem is freedom
Shreds of shabby tissue, it’s impossible to sew them
But there is no need to smash anyone
That is so far from his blind belief


Faixa 02 - EP Unquiet (2014) | Composta e produzida por Emmanuel Mirdad | Rodrigo Pinheiro - voz | Zanom - guitarra | Fábio Vilas-Bôas - guitarra | Hosano Lima Jr. - bateria | Artur Paranhos - baixo | Tadeu Mascarenhas - sintetizador | Gravado, mixado e masterizado por Tadeu Mascarenhas no Casa das Máquinas, Salvador-BA | Encarte: Glauber Guimarães


Cifra digitalizada da canção "Neither Gods, Nor Devils"


CONTEXTO

Descobri-me compositor em 1997 e fiz 12 músicas em seis meses, uma boa média para um completo autodidata (rejeitei qualquer forma de estudo) – claro que todas eram belas porcarias. Conheci vários cânones do rock, muitos de forma rasa, mas que serviram muito bem ao subconsciente.  E ainda fui pela primeira vez em um estúdio (não me lembro precisamente se foi em 97 ou 98), para assistir o ensaio de uma banda chamada Raska, de Álvaro M. Valle (que seria baixista do Orange Poem anos depois) – a convite de Alan Freitas, o vizinho que me educou no rock.

Era uma dia chuvoso e fomos caminhando até a Rua das Hortências, na Pituba, Mutti Estúdio (a laranja ensaiou em 2001 por lá uma única vez). Ao contemplar as arrumações, as tocadas, o mero estar no espaço estúdio, tudo isso mexeu definitivamente comigo: "Eu preciso fazer isso, eu quero fazer isso, eu tenho que ter isso pra mim". Não invejei a banda de meu amigo, apenas decidi que precisava ter uma banda também.


Álvaro e Mirdad na gravação do 1º demo da Orange Poem em 2001. 
Foto do amigo em comum Mark Dayves, da turma excelente do Colégio PhD


1998, último ano escolar, continuei no Colégio PhD, só que desta vez a sede era no Itaigara (mesmo local em que, no ano 2000, já no cursinho pré-vestibular, aconteceram as sincronias para conhecer Marcus Zanom, Hosano Lima Jr. e Fábio Vilas-Boas, da Orange Poem), próximo ao edifício onde moro, e todo santo dia que eu passava por uma árvore no caminho (a que sombreava o ponto de ônibus do outro lado do PhD), repetia: "vou passar árvore".

Só me inscrevi em um vestibular, Psicologia na UFBA. Todos os colegas tiravam um sarro danado de mim, dizendo que eu era um potencial aluno de cursinho por ter me inscrito em apenas um vestibular (meu pai não tinha dinheiro pra pagar faculdade particular e eu não queria fazer outro curso). Ou seja, era tudo ou nada. Passei, na concorrência de 21 pra 1. Engraçado que fiz o teste de aptidão e deu Jornalismo (em que me formei em 2006.2 também na UFBA), mas no dia da inscrição mudei por conta de uma ingênua sensação de "adoro ajudar pessoas, devo dar um bom psicólogo" (abandonei no ano seguinte por uma banda de rock).


Capa do álbum Delicate Sound of Thunder (1988), do Pink Floyd


Mas antes de ser aprovado, encarava o stress de um 3º ano puxado. Nas preferências sonoras, estava finalmente fascinado pelo som do Pink Floyd, após catequizações seguras do professor Alan Freitas – gravei uma fita K7 de "Delicate Sound of Thunder", o álbum que me pegou para o fluido, que não parava de tocar no walkman (iPod da minha geração anos 80), e a preferida foi "Confortably Numb". Na cabeça, a vontade urgente de montar uma banda de qualquer jeito.

Continuava compondo num ritmo crescente de empolgação. Fantasias foram projetadas; sonhos de estar na MTV, em palcos do Brasil afora embebiam meus desejos juvenis. E como tudo deveria surgir de mim, antes de ter os companheiros, batizei a banda que ainda não existia com o estranho nome umbilical de Dlumaid – escrevi meu nome, Emmanuel Mirdad, cortei as letras ímpares, restando maul idd, concluindo num anagrama maul idddlu maid. Ou seja, Dlumaid, uma porcaria nonsense pra nome de banda, gerado por um egocentrismo tantã.

Pra piorar, eu ainda acrescentei o Mr. (do Mr. Funny Shoes, o nome que batizava até então a minha banda virtual, uma alusão ao filme "Mutação" (Mimic/1997), em que o personagem menino repetia constantemente esse nome de forma sombria), a estrela que sempre me acompanhou e o D fazendo a figura do símbolo do Om. Sequela total, sem maconha, álcool ou lisérgicos melhores.




E a banda? Como não conhecia músicos e nem acompanhava a cena local de rock e o underground (meu mundo era muito, muito, muito pequeno nessa época), o jeito foi convidar os amigos da turma do Edf. Palm Spring, Renato Vilela e Berthier Alves, destinados às cordas. E por falar em guitarra, na terça 12 de maio de 1998, meu pai me deu a minha primeira (e única) Les Paul. Sempre amei esse modelo de guitarra, pra mim nunca existiu mais bela. Só que o dinheiro era bem curto nessa época e, por menos que pareça, foi um sacrifício financeiro comprar uma Les Paul, não Gibson, e sim um genérico Epiphone.

Consegui esse presentão após uma intensa insistência recheada de chantagens emocionais do tipo: "pô, meu pai, tenho várias músicas e ‘montei’ uma banda, mas eu vou tocar o quê, se não tenho nenhum instrumento?". O detalhe é que a guitarra, batizada de Lílian (homenagem a uma namoradinha do 3º ano, que era de todos, menos minha), ficou vários anos encostada, sem uso (continua assim, enfeite) – bandas que não deram certo e eu nunca quis estudar guitarra, preferindo compor e tocar no violão Alhambra de minha mãe. De qualquer forma, a compra do meu primeiro instrumento (depois viriam o violão 12 cordas Strinberg que usei na Orange Poem e o baixo que vendi pra Artur Paranhos) deu um gás danado na vontade de fazer a Dlumaid acontecer.


Nota fiscal da compra da guitarra Lilian, minha Les Paul


Corri atrás, sozinho, dos integrantes que faltavam (baterista e baixista, sempre atrás de indicações que aconteciam a partir de "você conhece um?" aplicado à revelia), mas nenhum aceitou e não consegui montar a Dlumaid. A minha quase inexistente lista de contatos de músicos, aliada à falta de interesse de Renato (queria tocar covers e não as minhas músicas) e Berthier (indiferente), mais o aperto dos estudos pro vestibular me forçaram a adiar o sonho – esse negócio de banda ficou pra 1999.

Continuei compondo, treinando em casa ao violão e delirando com fama e sucesso. O repertório da Dlumaid tinha entre 14 e 20 canções (dentre elas, músicas que originaram as laranjas "Wideness", "Young Poet’s Song" [atual "8/8/88"], "Dubious Question" e quatro músicas que o Pássaros de Libra gravou, incluindo "A Seta"), e uma delas se chamava "Voto", então faixa 06, composta entre maio e setembro.


Cifra original digitalizada de "Voto"


ORIGEM

Eu tinha dezessete anos, era ingênuo e vinha de uma formação humanista, solidária. Foi uma época em que fiz canções metafísicas, como "Deus em Segundos", e sociais, como "Pátria", "Caminhamos para o Cinza" e "Voto", em que alertava contra as mazelas da sociedade e ressaltava a importância de um mundo melhor, mais justo, fraternal, próximo à natureza, etc. Enfim, um jovem esquerdista e idealista, bobo e cheio de boas intenções. E canções muito ruins, é claro.

Não tenho a data precisa, mas acredito que em maio de 1998 escrevi o poema "Voto", que deve ter sido modelado durante os meses até se firmar como canção. Mas esses versos cheios de bondade vazia como "pureza aos abrigos de alma, família e coração", "união às mãos negras, amputadas e enfermas" e "a paz que se aprisionou no orgulho, ódio e indiferença" são hoje insuportáveis.

Um poema "autoajuda", repleto de pedidos humildes, cristãos, um cunho social pessimamente explorado. Na versão final de sua letra, eternizada em "Neither Gods, Nor Devils", além do trecho que originou o nome da canção (o melhor e único que se salva: "Eu peço aos homens que não sejam deuses, nem demônios"), estão os seguintes únicos trechos do original "Voto" (com pequenas mudanças): "eu peço canções às declarações" e "irmãos a inimigos".


Sessão de fotos em cima do prédio de Mirdad com a guitarra Lílian


Por causa de uma dor de cotovelo com a ex-namorada Lílian (a que a guitarra leva o nome), em junho de 98 compus uma nova melodia, parecida com "Fácil", o hit da época do Jota Quest, só que com umas passagens harmônicas maiores. Não me lembro a causa, mas não quis utilizá-la no poema fruto dessa mesma fossa (que depois originou a canção "Um Sábado, dia 13", parceria com Juracy do Amor, do Pássaros de Libra), e preferi criar a canção "Voto".

Tempos depois, criei um novo fragmento melódico, inspirado por um acorde (Eb) que estava na capa de uma dessas revistinhas de cifras, e acrescentei em "Voto", como se fosse um posfácio (olha o embrião do rock progressivo me futucando) – essa harmonia "Eb-Cm-Gm" me perseguiu por anos, até se cristalizar em novembro de 2001 no blues psicodélico "Cuts", da Orange Poem. Na pixotagem dos meus 17 anos, fiquei fascinado, achando "Voto" complexa e a canção logo se tornou uma das principais do repertório dessa época – lembro que tinha um orgulho danado.


Sessão de fotos para o Poema de Pássaros com a guitarra Lílian


VOTO NULO

Passei grande parte de 1999 tentando formar uma banda e "Voto" sempre no repertório. Depois de muita labuta, diversos furos e desarranjos, só consegui fazer um ensaio com o então Pássaros Urbanos (o bizarro nome Dlumaid foi descartado no início do ano). Na manhã de um sábado, 07 de agosto de 1999, eu, o baixista Itã Teodoro, o baterista Rafael Fraga e o guitarrista Juracy do Amor ensaiamos duas músicas e só ("A Seta", gravada tempos depois pelo Pássaros de Libra, foi uma delas). "Voto" não foi ensaiada. E depois os músicos desistiram do projeto de banda.

Cansado de tocos, aceitei a sugestão do colega de curso em Psicologia-Ufba, Síbel Alex, na manhã de uma segunda, 13 de setembro. Segundo ele, era muito mais fácil e barato gravar no formato MIDI (programações de baixo, bateria e outros instrumentos criadas por um músico apenas). Assim, acertei com o músico e dono do Submarinos Studios, o genial André Magalhães, para começar a gravação do meu primeiro álbum enquanto produtor, "O Primeiro Equilíbrio". Mas antes disso, a banda de um homem só passou de Pássaros Urbanos para Poema de Pássaros e o álbum ainda se chamava de "O Primeiro Voo dos Poetas" – a gravação começou numa quinta, 23 de setembro de 1999.


Ideia de capa demo para o Poema de Pássaros


Coincidentemente no período de 24/09 a 20/10, época de libra, o trabalho com os MIDs e arranjos de André Magalhães rendeu bastante. A fórmula: eu chegava com a cifra e executava no violão ou mostrava em fita K7; o arranjador vibrava seu gênio, compreendia a forma que era preciso moldar, discutia as ideias e já saía gravando. Na época, não percebi como sua influência modificou bastante a ideia original do que eu queria das canções; não percebi que o rock não era a dele.

André modificou a linhagem do trabalho para uma pegada mais pop possível. Assimilou por completo o que eu queria: fazer sucesso. Mas eu não tinha ideia do que era preciso para isso; tinha apenas canções malfeitas, compostas ao acaso, sem influências, soltas no espaço – não sabia arranjar, nem produzir, ler partitura, tocar descente e nem cantar. Um pixote.

Quando eu fui produzir "Voto", André me convenceu que a canção era uma bela merda. Foi um choque, já que ela era um xodó desde 98. Como estava no auge de minha admiração pelo trabalho do pianista arranjador, fascinado pelos MIDIs gravados, nem pestanejei: concordo! Para não deletar "Voto" de vez, reaproveitei trechos melódicos em "Song for Patrícia Hou", dedicada à ex-namorada Thania Patrícia (que acabou saindo do repertório do CD também mais à frente e abandonada para sempre). No fim, Poema de Pássaros virou Pássaros de Libra, parceria com o guitarrista Juracy do Amor (o mesmo do 1º ensaio de minha vida em agosto de 99), e as melhores músicas gravadas nessa época você ouve aqui.


Mirdad na gravação do 1º demo TOP (outubro de 2001) com o seu violão 12 cordas. 
Foto: Mark Dayves


RECICLAGEM

Dois mil e um, vida nova, nova banda: The Orange Poem. Em maio, engatinhavam por volta do quarto ensaio. Com a cabeça sempre à frente, às vezes excessivamente à frente, já projetava o repertório do 3º CD. Em dois dias, 6 e 7 de maio, ao invés de escrever novos poemas (a matéria prima das canções), reciclei sete antigos. Dentre eles, "Homenagem" (que gerou "Homage"), "A Canção do Poeta Adolescente" (que gerou "8/8/88") e "Nem Deuses, Nem Demônios", derivada de "Voto" – não me lembro do quanto que mexi na letra original, só que em novembro a tal harmonia em Eb da canção de 1998 gerou o blues "Cuts". Só que esse movimento dos poemas reciclados foi pra gaveta, arquivado.

No 1º semestre do curso de Jornalismo na UFBA, entreguei a prova de Teoria de Jornalismo em branco na segunda, 25 de março de 2002, e me afundei numa crise existencial profunda – pensei inclusive em suicídio, racionalmente descartado na sequência: ficaria preso da mesma maneira do que em vida. Após desabafar na presença silenciosa de Mestre Dedé, meu pai, resolvi recolocar a máscara e continuar – ninguém consegue se libertar do jogo apenas desistindo de jogá-lo; é preciso continuar, apenas.

Para tentar levantar a estima, mesma que fictícia, fui tocar violão. Não quis o repertório rotineiro e fui fuçar canções antigas. Encontrei os poemas reescritos em 2001 e resolvi mexer de novo. Já no final da noite, pronto para dormir, reescrevei a carente "Nem Deuses, Nem Demônios":  " sexo com devoção" no lugar de "sexo com amor" e "as máscaras para as festas, as faces para os espelhos" no lugar de "temos pobres e ateus, crianças e guerras...quando a Terra será paraíso?".


O violão folk de 12 cordas de aço de Mirdad, chamado de craviola


COMPUS NEM DEUSES, NEM DEMÔNIOS

Quinta, 28 de março, início do feriado da Semana Santa de 2002. Por dois anos seguidos, fiquei em casa, sem nenhum esquema de diversão marcado, nem namorada, nem amigos. Restou-me viajar na obra, terminando de reescrever os poemas do 3º repertório (o original de "Homage" foi nessa leva). Dia inteiro ao violão e uma passada incomum no 12 cordas, chamado por mim de craviola. Fiquei fazendo uns estudos em linhas de baixo, tocando nas cordas mais graves, quando, pra marcar um ritmo, bati com o polegar direito causando um efeito percussivo. Êpa! Isso é bom! Continuei, harmonizando uma melodia circular, mântrica, em C#m. Gostei mais ainda e escolhi, por causa de sua estrutura de versos, o poema "Nem Deuses, Nem Demônios". Nasceu a canção, filha do tédio, clamando uma transcendência.

Gostei tanto da novata que no mês seguinte subi-a de repertório (mesmo ainda sem versão em inglês). Na terça, 30 de abril, ao estudar o estilo do 2º CD, notei que faltavam músicas rápidas e havia um excesso de lentas, o que com certeza seria reprovado pelo guitarrista Fábio Vilas-Boas. Assim, preferi retirá-las do repertório – acabaram sendo arquivadas para o Sad Child (nessa leva tinham "Someday I’ll Escape", "Mirror" e "My Agony", entre outras).

Mesmo assim, as novas músicas classificadas como rápidas estavam muito distantes das grandes pesadas do 1º CD, como "The Green Bee" e "Child’s Knife". Com uma pegada muito mais pop, fatalmente gerariam protestos de Fábio (e de Zanom principalmente). Engraçado que em 2002 já antecipava as reclamações dessa pegada mais pop que rolaram em 2006. Mesmo assim, "Nem Deuses, Nem Demônios" entrou forte no repertório, saindo dele (já como "Neither Gods, Nor Devils") apenas no final de 2005, para voltar em março de 2006 e ser registrada no 2º CD TOP, "Sleep in Snow Shape".


Letra original digitalizada de "Nem Deuses, Nem Demônios"


REESCRITA

No final de julho de 2002, criei uma melodia nova bem pop em fá e, ao invés de criar uma nova música, resolvi incorporá-la à "Nem Deuses, Nem Demônios". Engraçado a sincronia, pois "Voto" também tinha um posfácio nada a ver com o tom e a harmonia do grosso da música (o final que gerou "Cuts"). E durante os meses de maio a outubro, "Nem Deuses, Nem Demônios" foi traduzida em "Neither Gods, Nor Devils", sendo quase totalmente reescrita, ganhando a forma mais próxima a que foi eternizada em 2014 (imagem acima).

A letra foi refeita em uma manhã qualquer na Facom, em que finalmente resolvi encarar que desde "Voto" os versos eram uma porcaria e precisavam ter mais qualidade irônica, saindo do lugar cristão pedinte, devocional, para um punk faça-você-mesmo, querendo imprimir sua marca (bem a minha cara em 2002, em que ingenuamente não queria ler nada para não ser influenciado – perdi muitos anos nessa babaquice, e foi um livro de Mayrant Gallo que começou a quebrar essa resistência juvenil inútil), em versos como "Vamos matar todos os ícones e soterrar seu legado" e "Extermine a influência, enobreça o indivíduo". A grande ironia, porém, foi o giramundo da vida que satirizou: nesse rearranjo de 2002, escrevi "não acredite em prêmios", e em 2008, entrei no mercado cultural ao coordenar e realizar o Prêmio Bahia de Todos os Rocks.


Mirdad e Hosano no show da Orange Poem na Facom/Ufba em 2002. Foto: Mark Dayves


Na quinta, 3 de outubro de 2002, rolou o 37º ensaio TOP. Estávamos próximos do segundo show nosso, que rolou na Facom/Ufba, festa da posse do novo Centro Acadêmico – consegui a vaga com muita insistência, usando recursos apelativos ao extremo do tipo "Porra, faz isso pelo seu amigo", e foi o amigo Will Brandão, hoje ator, então membro do C.A., que concordou em colocar o poema "estranho no ninho" no esquema (éramos completos desconhecidos do cenário, com um show só em nove meses, sem nenhum QI ou público, e não tocávamos covers, ou seja, prestava pra nada).

Antes do baterista Hosano terminar de se arrumar, aproveitei o espaço e ensinei o baixo de "Neither Gods, Nor Devils" para Artur Paranhos, que descartou sumaria-mente o posfácio de mudança de tom. Utilizando-se de argumentos certeiros, conseguiu mudar a minha quase inflexível opinião (fruto dos umbilicais vinte anos) e a canção voltou só pro mantra. Hosano e Fábio captaram a atmosfera pop/new age da música e 10 minutos depois, estava quase pronto o embrião, faltando desenvolver novos arranjos e fixar a melodia.

Sempre que a banda pegava uma música nova, ela passava por vários testes, reinventávamos solos e arranjos e nenhuma música estava totalmente pronta. Artur, juntamente com Zanom (que não foi a este ensaio), eram os que mais faziam modificações, descartáveis ou geniais, não havendo meio termo, sempre oito ou oitenta.


Cifra original digitalizada de "Neither Gods, Nor Devils", 
com o posfácio em jazz e a parte pop do final, descartada em 2006


Na sexta, 8 de novembro de 2002, resolvi retomar o posfácio de "Neither Gods, Nor Devils". Para tanto, mudei definitivamente o tom da parte principal (a mântrica) de C#m para B e criei arranjos de baixo (pontes) para a mudança ao tom de F, para o posfácio refrão pop. Testei as mudanças com a banda no começo de 2003, no 41º ensaio. Dessa vez, quem faltou foi Fábio, mas Zanom entupiu tudo e, surpreenden-temente, os músicos toparam a canção frankstein. Os arranjos da ponte quebravam a bateria em contratempo e combinar isso entre os músicos, após um dia inteiro puxado de estudo e trabalho, no final do ensaio, era exigir demais. Mesmo assim, o Orange Poem trabalhou "Neither Gods, Nor Devils" até o último minuto disponível. E só veio a ensaiá-la novamente três anos depois, em 2006.

Dois mil e três passou e não trabalhamos o repertório do 2º CD, então chamado de "Innocent Child in a Dangerous Quest" (só umas tocadas esporádicas de uma música e outra). Minha mãe, a professora Martha Anísia, transcreveu a canção para a partitura (foi a última que faltava para o caderno, encerrando uma labuta desde 2001 com ela, que detestava tirar minhas músicas, pois eram "rock e em inglês ainda por cima" – mas, por amor, fez) e eu a registrei na Biblioteca Nacional junto a mais 17 músicas ("Shining", "Melissa", "Cuts" e "One and Three", entre outras, foram nessa leva) no caderno "Innocent Child in a Dangerous Quest", no final de agosto.


Trecho inicial da partitura de "Neither Gods, Nor Devils", de Emmanuel Mirdad, 
transcrita de punho por sua mãe Martha Anísia, registrada na Biblioteca Nacional 
no caderno "Innocent Child in a Dangerous Quest "


DESCARTADA

2004 passou e nada da canção. O nosso foco foi tentar gravar um CD demo, depois veio a temporada de shows no Agente Laranja Gueto Cultural e o começo da gravação do nosso 1º CD no estúdio Casa das Máquinas, de Tadeu Mascarenhas. 2005 chegou, metade de fevereiro, mostrei meu baú de músicas para as cordas laranjas no apartamento do baixista Artur.

Logo de cara, ficamos assistindo os monstros virtuoses do G3. Bateu uma vergonha da porra de mostrar minhas músicas, pois não causariam impacto algum nos amigos depois de tanto virtuosismo de Steve Vai e companhia, mas tive de tocar, apresen-tando dez ao todo. Dentre elas, "Neither Gods, Nor Devils", que foi tachada por Zanom de muito pop a la U2 – os guitarristas resmungaram a tarde inteira que iria ser muito difícil superar o que tinham acabado de gravar. Por fim, "Sleep in Snow Shape" foi aprovado como nome do que viria a ser o nosso 2º CD.

Final de outubro de 2005. Tínhamos finalizado a gravação do 1º CD e o lançado na série (fracassada) de shows Laranjada Rock, mas não aprofundamos a pré-produção do 2º CD. Então, revi toda a proposta planejada para o Orange Poem e rearrumei meu repertório de canções, degolando "Neither Gods, Nor Devils", a canção "a la U2", do repertório TOP e a incorporando no repertório do projeto paralelo Sad Child (nesse mesmo dia, retirei do TOP canções como "Flowers to the Sun", "My Agony", "My Impossible Wife" e "Warmth of an Iceberg"). Ela perdeu a vaga no álbum para uma cota e não uma música específica – opções: uma música de Fábio Vilas-Boas, ou do professor Monclar Valverde, ou da minha mãe + irmã, ou "Peach", feita em parceria com Eva Cavalcante.


Rajasí Vasconcelos, Gabriel Franco e Mirdad, a 1ª formação do Sad Child que não vingou,
reunidos para a gravação do 2º CD TOP em 2006


SAD CHILD NEGOU, VOLTA PRO TOP

À tarde da terça 31 de janeiro de 2006, eu estava no apartamento do amigo Gabriel Franco para conferir as suas análises sobre minha sugestão de repertório para o Sad Child – os primeiros convidados foram ele e Rajasí Vasconcelos. Em uma conversa franca e analítica, Gabriel mostrou quais músicas lhe agradaram e quais teriam que sair por conta da linhagem sonora proposta por mim: folk voz e violão. Óbvio que uma das eliminadas foi justamente a canção "a la U2" – que só estava ali porque eu não queria jogá-la fora. Foi pro limbo.

Durou quase três meses. Na manhã da quinta 16 de março, ainda pela Facom/Ufba (penúltimo semestre), organizei o repertório do segundo álbum e pela primeira vez, excluí a metaleira "Excited Happiness" dos planos TOP. Há tempos que andava descontente com ela e sua sobrevivência era apenas por representar a face metal do som laranja, algo que não cabia mais na banda. Como aos poucos tinha conseguido impor ao novo repertório a face psicodélica progressiva que me interessava e Fábio, a principal preocupação em reclamar da falta de peso, não se mostrou contrário a isso, cortei com prazer a felicidade excitada da história laranja. Para preencher a vaga, resgatei do limbo o meu xodó "Neither Gods, Nor Devils", mesmo sem saber se Zanom iria reprovar – o guitarrista já tinha demonstrado total falta de apreço por ela.


Cifra original digitalizada de "Neither Gods, Nor Devils", 
com a parte literalmente cortada da música


CONSTRUÇÃO

"Sleep in Snow Shape" começou mesmo nas segundas 20 e 27 de março de 2006. Nas duas noites, rolaram os ensaios comigo e o baterista Hosano Lima Jr. dentro do cafofo em seu apartamento. Dentre as músicas ensaiadas, "Neither Gods, Nor Devils" não era tão desconhecida assim, mas trabalhamos bastante nela, com novos arranjos criados, principalmente para a parte troncha da música (o posfácio) – ganhou uma pegada jazzy, inspirada por Hosano. Minha xodó foi formatada pelo batera com tambores rufantes pro início, progressão pra caixa quebrada e depois batida normal pesada; e no fim, muito ensaio pro jazz e para as pontes.

A primeira vez que ensaiamos a canção foi no 37º ensaio. Pois somente no 94º ela voltou para o estúdio. Sábado, quatro de abril, banda completa e "Neither Gods, Nor Devils" sofreu uma revolução. Hosano reclamou da passagem estranha depois do jazz (as pontes para mudar de tom), Mirdad não soube o que fazer, a parte pop rock do final (o posfácio em F) ficou muito babaca, hit padrão simplista, e o clima ruim sem definição foi eliminado por um sugestão eficiente de Fábio: eliminar o final em F e voltar à parte U2 da música (a mântrica), que era o seu verdadeiro brilho.

Pensei um pouco e concordei em cortar a parte que começava em "I ask men neither to be gods, nor devils... ". Voltamos a ensaiá-la e a nova versão lapidada ficou bem melhor. Foi a primeira vez que uma interferência dos laranjas resultava em corte de versos meus. Por incrível que pareça, Zanom foi o único a questionar isso (oxe, mas não era ele que reclamava do pop?), mas eu preferi eliminar mesmo e os demais concordaram. PS – no dia seguinte, subi o xodó de posto, passando ser a faixa 04 definitiva do "Sleep in Snow Shape", logo após a brutal "Melissa".


Hosano e Artur na gravação do "Sleep in Snow Shape" em 2006


GRAVAÇÃO

"Neither Gods, Nor Devils" começou a ser gravada pelo baterista Hosano Lima Jr. na quarta, 26 de abril. Foi a segunda de sua sessão, pedida por mim, orientado pela seguinte lógica: "como hoje é sessão noturna, com o músico cansado pelo dia a dia, e com menos tempo disponível, é melhor gravar as menores e com as menores exigências e dúvidas". Mesmo com as capengadas minhas e de Artur no metrônomo (violão e baixo guias) e de alguns erros de Hosano (apressou algumas vezes o tempo quando da passagem das evoluções tambor-condução-peso-jazz, consertados rapidamente), a primeira canção anos 80 do TOP ficou com a bateria pronta.

A encrenca mesmo foi na quarta, 3 de maio, primeira sessão do baixista Artur Paranhos. Fui bastante cri-cri com o amigo, porque tinha um som cristalizado na cabeça e a sua execução teria que alcançá-lo. Como tinha composto "Neither Gods, Nor Devils" a partir do baixo de meu violão 12 cordas, queria que o músico tirasse aquele som mântrico, vibratório, da nota. E Artur tocou de várias maneiras diferentes e sempre as notas trastejavam, escapavam algum tipo de ruído que desqualificava o que eu queria na linha do riff. Foram muitas, mas muitas tentativas mesmo, inclusive até ressuscitamos o baixo fretless que tinha sido condenado. Nada adiantou. Até Tadeu tentou gravar, também em várias maneiras de tocar e fui inflexível: não tá rolando. O clima ficou bem ruim.

Artur gravou o arranjo restante da música (partes fortes e jazz) sem brilho algum, chateado. Tentei tranquilizar o ambiente com uma conversa de putaria. Não adiantou. O que eu queria para o começo de "Neither Gods, Nor Devils" era um preciosismo implacável, que só existia em minha cabeça. Foi aí que tive a ideia: Artur gravaria as primeiras notas do riff sem tirar os dedos da corda; depois, gravaria as outras notas, no mesmo esquema; assim, não produziria o efeito de trastejamento quando passasse de uma corda pra outra; depois, era só Tadeu montar. Assim, com a artimanha e remendos, conseguimos montar um loop. Finalmente fiquei satisfeito – parece um excesso, mas tinha um significado que foi atingido.


Zanom grava "Neither Gods, Nor Devils" em 11/05/2006


O guitarrista Zanom, algoz de "Neither Gods, Nor Devils" (única vez que a retirei do repertório foi por causa de seus comentários ácidos), arrematou seus brilhantes arranjos da canção na terça, 9 de maio, no 98º ensaio TOP (sem Artur e Fábio). Antecipando o CD, a então chamada "a la U2" veio após "Melissa" e fluiu fácil, com a competente fórmula de paletadas velozes "a la Dick Dale" e arranjos fininhos "a la The Edge" e mais o jeito "conheço esse estilo muito bem" de tocar na parte jazz.

Na quinta seguinte, 11 de maio, foi a primeira pedida por Zanom para estrear na gravação. O que parecia fácil virou problema. Mas como? Logo ela, tão pop? Pois é. Assim como Artur, que consumiu nela o maior tempo de todas as suas sessões, o guitarrista se embananou todo pra gravá-la, só conseguiu terminar às 11h, depois de uma interminável luta pra acertar a execução do seu arranjo surf music. A explicação: nervosismo pela presença da namorada da época. Bastou ela ir embora para que o itapuãzeiro engrenasse, criando, inclusive, o arranjo que faltava para a 1ª parte da canção, com uma precisa direção de Tadeu Mascarenhas.


Fábio Vilas-Boas grava "Neither Gods, Nor Devils" em 02/06/2006


O guitarrista Fábio Vilas-Boas gravou "Neither Gods, Nor Devils" na sexta, 02 de junho. Demoramos 40 minutos para arrumar o set e a primeira que pedi para o pastor gravar foi o xodó. Ele gravou com guitarra seca, sem a sua pedaleira clássica – o efeito delay foi programado pelo computador. Foi a primeira vez que a guitarra psicodélica de Fábio foi gravada com um delay virtual. Ainda assim, ficou ótimo. Mas como a música se tratava daquela, a sorrateira que parecia fácil e lenhou com as cordas laranjas até então (Artur, Zanom e até eu, que desisti de gravar meu violão por não conseguir o efeito ideal para o riff), com Fábio não seria diferente. Muitas cirurgias bem feitas pelo preciso Tadeu Mascarenhas, o arranjo ficou pronto.

Pus a voz em "Neither Gods, Nor Devils" no dia dos namorados, uma segunda-feira. Gravação super tranquila, só teve uma única modificação, motivada por conserto gramatical sugerido pela amiga canadense Rachelle Dubé. E, depois do São João, Zanom concluiu a gravação dela na quarta 28 de junho, dobrando sua guitarra distorcida na parte de peso da canção.


O engenheiro de som Tadeu Mascarenhas e o produtor Emmanuel Mirdad
durante a gravação de Sleep in Snow Shape em 2006


Tadeu Mascarenhas e eu começamos a mixar "Neither Gods, Nor Devils" na segunda, 21 de agosto. Quilos de efeitos, surdo estilo tribal, efeito meio flanger eletrônico "aquático" no baixo da introdução, efeito louco "rasga tudo" no final do jazz. Ou seja, timbres descobertos durante o processo de registro, doideira de quem não teve tempo para pré-produzir – "Sleep in Snow Shape" foi um álbum completamente gestado em estúdio.

No dia seguinte, Tadeu aprontou um bom som pra voz e gravou um solo doidão de escaleta a la Hermeto Pascoal – ele bem que se divertiu e eu bem resumi: "tem que ser assim, pop, mas com alguma loucura". Concluímos na quarta 23/8, em que eu trouxe diversas anotações de casa e Tadeu ouviu atentamente, corrigindo os defeitos (auxiliado por mim), numa produtiva parceria de muita concentração.

Durante o processo de construção da canção, vetei solos de Zanom e Fábio, querendo que a música fosse diretaça, diferente de todas as outras: seria a primeira música TOP sem solos. Mas não consegui sustentar muito tempo nessa – para o nosso estilo progressivo psicodélico, os solos eram vitais. Então, Tadeu gravou a escaleta sequelada. Uma pena que a tronchura da parte jazz incomodou Fábio por demais; comentou que o arranjo de Zanom era muito "de quem é esse jegue?" e essa parte diferente estava quebrando a qualidade principal da música, que era o seu lado comercial.


The Orange Poem em 2006. Foto: Vanessa Caldeira


"Neither Gods, Nor Devils" sofreu mais uma amputação no domingo 17 de setembro de 2006. Final de tarde, reunião TOP com Fábio e Zanom (Hosano só fez mandar um email e Artur, na condição de músico não-integrante da banda na época, tava vetado de opinar) para avaliar o 2º CD, e a grande polêmica era com a parte jazz do meu xodó.

Em cerca de duas horas e meia, debatemos calmamente todas as sugestões, analisando música por música. Muito detalhe de volume, lugar, brilho. Chegou a polêmica do "de quem é esse jegue?". Fábio foi firme em sua posição e decidimos acatá-la para formatar a canção como hit, comercial. Assim, "Neither Gods, Nor Devils" perdeu toda a parte jazz, inclusive o solo doidão de Tadeu na escaleta e ocasionou um problema: o que fazer depois de "...his blind belief"?

Quebra-cabeça e uma única solução sugerida por mim: terminar a canção ali mesmo, abruptamente. Assim, além de voltar a ser a primeira canção laranja sem solo, ainda seria a única com menos de 3 minutos de duração, uma exceção estranhíssima no Orange Poem. Tudo em nome da vontade de explodir – que deixássemos então os experimentalismos, quebras e tronchadas para as outras canções. O pensamento foi: que os singles possam sobreviver para vender e estourar o verdadeiro som psicodélico do TOP – "Homage" incluído aí como single.

O álbum "Sleep in Snow Shape" foi concluído na véspera do meu aniversário de 26 anos, numa sexta, 06 de outubro. Tadeu lamentou ter de descartar o solo doidão de escaleta (ficou bom mesmo!), mas passou a faca em "Neither Gods, Nor Devils", que foi engavetada como a menor música TOP, junto às demais dez músicas do 2º CD, porque a banda acabou em março de 2007.


DUAS VEZES EM PORTUGUÊS

O percurso da ancestral "Voto", composta em maio de 1998, não terminou na gaveta como "Neither Gods, Nor Devils". No começo de agosto de 2006, num rompante de palha que me fez aportuguesar algumas músicas laranjas, transformei a letra do meu xodó em "Anti-Plástico". Em 18 de abril de 2007, já montando o repertório para a Pedradura, minha nova empreitada musical pós-término do poema laranja, compus a canção "Anti-Plástico", fazendo uma fusão dos versos reescritos de "Neither Gods, Nor Devils" (melhorei-os ainda mais, com destaque para o sagaz "Não dá pra acreditar sem ter que pagar um preço por isso – tudo é relativo nesse mundo de interesses" e o irônico "Desconfie dos elogios, há muita porcaria alimentando o burburinho") com a melodia de "Dubious Question" e mais um refrão novo, criado neste dia.

"Anti-Plástico" se tornou o primeiro single da Pedradura, a faixa de abertura do álbum "Universo Telecoteco" – ouça a canção aqui.  Mas não foi só essa faixa essencial para a Pedradura que "Neither Gods, Nor Devils" gerou. A melodia mântrica, somada a todas as pontes e arranjos criados em 2003, e mais o final pop com refrão fácil, existentes antes das duas tesouradas de 2006, foram ressuscitadas como um samba + pop rock em 19 de abril de 2007 na canção "Ela Gosta, Mas Não Assume".

Uma letra escrota, machista e sexista, feita de propósito para incomodar e futucar as minhas amigas feministas – a Pedradura sempre quis polemizar, chatear, interferir, tudo que possa provocar um efeito de reflexão e deboche. Assim como "Petecas", originada por "Homage", o samba + pop rock "Ela Gosta, Mas Não Assume" entrou no repertório, foi ensaiada algumas vezes, mas acabou não sendo gravada no álbum por falta de tempo (surreais um mês e pouco para aprontar as canções para o registro) e quando a piada da letra passou, perdeu a graça e foi descartada. E, assim como o TOP, a Pedradura acabou logo depois do disco ficar pronto em 2008 – o baterista Edu Marques se mudou para a França.


Mirdad, Rodrigo e Tadeu na gravação da voz do EP Unquiet. Foto: Ana Gilli


VERSÃO FINAL

Passei uns bons anos trabalhando com a produção de eventos e projetos, relegando totalmente a carreira autoral. Pois no final de 2013 decidi retomar a Orange Poem regravando as melhores músicas com a voz do amigo Glauber Guimarães, grande cantor que fez história no rock anos atrás à frente da mitológica banda The Dead Billies. Gravamos três canções, lançamos o EP Ground em janeiro de 2014 e ele não topou gravar mais.

Compreendi a mensagem implícita de que a volta deveria ser mais inusitada: nenhum vocalista fixo e o foco no lançamento de EPs. Na sequência então, pra firmar a presença do grupo folk Sad Child (que Gaubito também fez parte em 2006) no Orange Poem, convidei o amigo Rodrigo Pinheiro, médico de profissão e músico por hobby, para gravar no EP Unquiet. Ele nunca tinha gravado em um esquema 100% profissional e topou com bom gosto, tanto pela oportunidade de ter sua voz gravada nesse esquema, quanto pelo prazer em cantar mais uma vez num projeto meu.

Rodrigo, conhecido por John (apelido da época em que cantava na banda Besouros do Sertão, cover de Beatles e Raul Seixas cujo baterista era o laranja Hosano), estava morando em Barreiras, distante mais de 800 km (há várias versões dessa distância) de Salvador, lá nos cafundós do oeste baiano. Para gravar o EP, aproveitamos então uma vinda sua para a nossa capital; iria cantar no Groove Bar mais um tributo aos Los Hermanos, foco de sua atual banda, a Mulher Barbada.

Sexta-feira, 28 de março de 2014, tarde. Estúdio Casa das Máquinas, na Travessa Lydio de Mesquita, Rio Vermelho. Rodrigo enfrentou uma pedreira gravando a linda "The Unquietness", consumindo quase toda a sessão nela. Confessou que foi a única das três do EP que de fato ensaiou plenamente, e ainda tinha dúvidas no que fazer em "Neither Gods, Nor Devils", a próxima a ser gravada. Foi sincero ainda mais: não conseguiu criar nada e disse que teria seguir o que eu tinha feito na gravação original. Topei imediatamente, pois a interpretação minha não era o problema, e sim o timbre e a pronúncia horrível, o que John tinha de mais belo, a sua voz folk indie rock e uma fluidez impressionante no inglês.


Mirdad, Tadeu e Rodrigo na gravação da voz do EP Unquiet. Foto: Ana Gilli


Como não tinha quase domínio algum da letra, por não ter ensaiado o suficiente, Rodrigo gravou muito fixo na letra disponível no tablet. Acabou se passando no verso que abre a 3ª estrofe, que dizia: "I request that the illusion isn’t so fatal", ou seja, "Peço para que a ilusão NÃO seja tão fatal". Na pouca luz e no pouco domínio, acabou gravando "I request that the illusion is so fatal", ou seja, esquecendo um detalhe tão pequenino na fonética (n’t), que mudou o sentido totalmente, pedindo que a ilusão fosse tão fatal. O estranho foi que eu não notei e só fui identificar o erro na mixagem. E agora?

Se eu fosse apenas o produtor do EP, marcaria outra sessão para Rodrigo gravar só esse pequeno detalhe. Mas como eu era também o compositor, que conhecia a longuíssima história de refazenda da canção desde 1998, compreendi que era a sincronia operando para que, na versão final de sua confirmação enquanto matéria, a canção "Neither Gods, Nor Devils" tivesse esse sentido no verso.

Aquele pedinte misericordioso original não cabia mais; portanto, nada de pedir para que a ilusão não fosse tão fatal. Era o contrário. A ilusão precisa ser mais fatal ainda, pois qualquer mundo existe e o problema é a compreensão da liberdade. Quanto mais disfarce enfrentamos, mais sacro e funcional é a percepção de que, ainda assim, qualquer mundo existe e a compreensão da liberdade não pode ser motivada pelo medo de não ser livre.


Tadeu Mascarenhas grava a parede de sintetizadores em 09/04/2014


Além de "Homage", escalei "Neither Gods, Nor Devils" para receber os arranjos do "novo" laranja Tadeu Mascarenhas. Na tarde da quarta, 9 de abril, 3ª sessão do EP Unquiet, Tadeu gravou a eficiente "parede de sintetizadores" (descrição do amigo baixista Álvaro M. Valle, o mesmo do início dessa história, quando ouviu a canção pronta), inclusive um solo disfarçado para o novo final da canção.

A parada brusca depois de "...his blind belief" criada em 2006 sempre me incomodou, pois a função primordial da melodia mântrica é a repetição eterna em círculos, ou seja, o final teria de ser em fade out; fizemos uma pequena cirurgia e a música ganhou uma retomada do mantra de acordo com minhas sugestões. Engraçado que Tadeu não soube que se fez justiça; perdemos o solo troncho da escaleta gravado em 2006, mas oito anos depois, o único solo de "Neither Gods, Nor Devils" continuou sendo dele.

Depois de ser analisada pelos músicos laranjas, a versão estendida do final da canção foi vetada pelo baterista Hosano Lima Jr., que não suportou a sua execução neste trecho. Compreendi o pedido do amigo e encurtei o final na última sessão do EP em 14/04, colocando o excelente arranjo de saída do synth de Tadeu para o início, resolvendo outro problema – desde a 1ª mix que tinha vetado o início em fade in com o baixo sozinho no riff, partindo para uma entrada seca na música, que também não estava bom até essa solução. "Neither Gods, Nor Devils" finalmente foi eternizada, e lançada no EP Unquiet na terça, 22 de abril de 2014, após um percurso de quase 16 anos.




sábado, 24 de maio de 2014

Nostalgia da Lama no Mosaico Baiano



Panorama da poesia baiana contemporânea pelo programa Mosaico Baiano (24/05/2014), com a presença do poeta Emmanuel Mirdad apresentando o seu 1º livro de poemas, Nostalgia da Lama (Cousa/2014). Filmado pelo celular diretamente da TV. Presença da poetisa Mariana Paiva, do editor Dhan Ribeiro da Kalango, e do presidente da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa.

Assista em melhor qualidade aqui, diretamente do site do programa.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Portal iBahia destaca o lançamento do Nostalgia da Lama



O lançamento do livro de poemas Nostalgia da Lama (Editora Cousa/2014) em destaque no portal iBahia.com - veja aqui


Destaque no Face do iBahia - 22/05/2014 - veja aqui


Destaque no Twitter do iBahia - 22/05/2014


Destaque no Twitter do iBahia - 22/05/2014 - veja aqui

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Vamos ouvir: Axé, de Enio

Axé (2014) - Enio

Para ouvir, clique no player laranja abaixo, à esquerda do nome do álbum.



Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Release disponível no site do artista:

"
Enio lança “Axé”

O segundo álbum do artista conta com participações de Saulo, Seu Jorge, Mateus Aleluia, Letieres Leite e Sanbone Pagode Orquestra


Axé, nome do mais novo CD do músico e compositor Enio que será lançado no dia 21 de março, às 19h, no Teatro Eva Herz – Livraria Cultura Salvador Shopping, dialoga com a ancestralidade por sua letra e ritmo, onde representa a essência da Música Popular Brasileira. Para esse trabalho, o artista também faz uso de elementos eletrônicos, rock, soul e referências do pop. Com a influência de gêneros musicais fortes e a experiência de mais de 10 anos de carreira, o cantor foi construindo o repertório do CD que conta com uma lista de participações especiais.

Gravado nos estúdios Ministereo (Rio de Janeiro) e Estúdio T (Salvador), “Axé”, foi produzido por feras, como Jr Tostoi, André T e Paulinho Rocha, além do próprio Enio. “Estou em uma fase que começo tomar as redéas de maneira total do meu trabalho. Pois antes era Enio e a Maloca, apesar de eu estar na frente, era um grupo e respeitava todos que estavam ali junto comigo. Agora tenho autonomia total do meu trabalho e vivo um momento de realizações. Axé é um CD que respira a diversidade, um retrato de um momento lindo da minha vida, onde convidei amigos queridos e artistas que admiro muito. Já me sinto realizado por ter tanta gente competente compartilhando o seu talento comigo e feliz por que sei que tem um monte de gente esperando esse CD.”, revela.

A produção desse segundo álbum vem acompanhada de um projeto que inclui 3 videoclipes, já em produção e a preparação de uma turnê nacional, que passa por cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, Natal e Brasília. No segundo semestre, o músico inicia a turnê internacional, pela Flórida (USA), Toronto (Canadá), Barcelona (Espanha) e Paris (França).

Paulistano de nascimento e criado na Bahia, o músico e compositor Enio faz parte da nova geração da música popular brasileira produzida na Bahia. Com direção musical de Enio (voz, guitarra, baixo e cavaquinho) em parceria dos músicos e produtores Paulinho Rocha (bateria, voz, pads e samplers), Bruno Aranha (teclado e samplers) e o DJ Mangaio (samplers e efeitos), o show traz um repertório com canções dos seus dois CDs, além de versões de autores que fazem parte das influências do artista. Quem assina a direção de arte é o artista plástico, Duardo Costa. O show tem o propósito de levar novas paisagens sonoras, bons encontros, plantando o bem e colhendo felicidades com o maior número de pessoas. #Axé.

O CD Axé foi selecionado pelo edital Setorial de Música 2012, da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB - e será lançado pela Guaxe Produções.

Trajetória:

Começou aos 12 anos tocando em bandas covers do Iron Maiden e, ao mesmo tempo, tocava com o cantor do Olodum. Desenvolveu uma visão híbrida da música e hoje transita livremente, sem barreiras, nem preconceitos, numa fusão de diversas referências, timbres e conceitos, que encanta desde os fãs do rock até aqueles que preferem MPB, Africanbeats e Pop.  Como Compositor já teve suas músicas gravadas por Davi Moraes, Jau, Magary Lord, entre outros. Já integrou bandas como: Dois Sapos e Meio, Netinho, Funk Machine, Jau e Vendo 147 entre outras , e agora apresenta o seu som Alternativo Popular. Depois de seis anos do primeiro e bem recebido CD, intitulado  “Unidade Móvel”, segundo o Jornal Correio*, foi considerado um dos melhores álbuns lançados em 2007 no cenário baiano. Enio já se apresentou nos mais diversos palcos como: Festival de Verão Salvador, Sesc Pelourinho, Sesc Casa do Comércio, Vaquejada de Serrinha, Festival Big Bands, Concha Acústica do Teatro Castro Alves, Festival Cordel Rock, Festival Grito Rock (Vitória da Conquista), Mostra + Contemporânea Funarte (BH), Carnaval de Salvador, Coliseu de Lisboa (Portugal), Festival Origem da Terra, Festival Arena 1, entre outros.

Sobre Axé:

Axé, a primeira faixa do álbum, começa com a voz do maestro Letieres Leite narrando o que é “axé” para ele. A música conta com arranjo de sopro de Hugo Sanbone executado pela Sanbone Pagode Orquestra e a mistura da percussão de Gustavo Di Dalva (percussionista de Gilberto Gil). A canção apresenta uma clara fusão da MPB, funck-rock e afro.  A segunda, Akerê, é uma parceria com o artista Munir Hossn, onde Enio toca todos os instrumentos e acrescenta o beatbox (sons percussivos feitos com a boca), batidas eletrônicas, violões sintetizados e cavaquinho, tudo para dar leveza a letra que exalta a paz de espírito. A terceira faixa - C’est La Vie, é uma música que retrata o cotidiano de um soteropaulistano, com influência forte da Black music, ela traz elementos de sopros da Sanbone Pagode Orquestra mesclando com a bateria enfurecida do músico Emanuel Venâncio.

Primeiro encontro musical com o produtor Jr. Tostoi (um dos produtores mais celebrados da nova geração), a quarta canção - Meu Bloco - apresenta a raiz do novo CD, o diálogo com os tambores do Olodum, guitarras distorcidas e muito balanço. Para Enio, a música Batida Nacional, tem a cara do autêntico Pop brasileiro. Influenciada pelos mestres do samba-rock Jorge Ben e Tim Maia, com o toque da música eletrônica, ela ganha arranjo de sopro de Marcelus Leone. Santo Forte, nome da sexta canção, foi composta em parceria com o mestre Mateus Aleluia, trata-se de um afropop com uma mistura de guitarras a la Pepeu Gomes e Nile Rodgers, com o auxílio luxuoso de Peu Meurray tocando percussão.

Na sétima faixa, Deixa o Sol Brilhar, é um eletrosamba em homenagem ao pai do cantor que apresentou ao filho as lindas canções de Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Clara Nunes. Em Ao Meu Redor - oitava música do CD - tem a participação do cantor Saulo. Um som voz e violão na companhia do instrumento indiano chamado Harmonio, que sensibiliza a canção. Fora do Lugar, parceria com o amigo e produtor Paulinho Rocha, traz o griô senegalês Doudou Rose Thioune, introduzindo a música com um chamado no dialeto de sua terra natal que diz “povo que fora pode chegar”. A canção conta também com percussão de extrema sensibilidade do griô brasileiro Marcus Musk.

A décima faixa, Os Lados, apresenta um lado mais reggae ou ska e algumas melodias que leva ao som de Luiz Gonzaga. Nessa faixa Enio conta com a cozinha de uma banda incrível, a I.F.Á Afrobeat com Fabrício Mota (baixo) e Jorge Dubman (bateria), arranjos de sopro de Hugo Sanbone e a produção do André T como diz o refrão “um lado meu necessita muito de um lado seu”. Iluminado, talvez a música mais pop do disco produzida por André T que trabalhou como um artesão na busca de cada timbre e nos tambores adequados pra canção. Em Uma Parte do Todo, a voz marcante de Seu Jorge narra trechos da canção que fala de mudança: “pois estamos de passagem e o agora é só uma parte do todo, a cada passo tudo muda…”. Perto de Mim, a décima terceira faixa, é a música melancólica do álbum, que fala de saudade. Por Um Triz, vem pra fechar o disco com toda alegria que ele foi feito. Mostra essa linha tênue que vivemos pra buscar a tal felicidade “Cansei de ser assim, me joguei por aí e nosso amor sem fim, por um triz!”. A canção ganhou uma mistura de ritmos como, blackmusic, rock, vocoder esquema daft punk e a bateria vigorosa de Victor Brasil.