sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Meu Oscar 2014



Ano passado resolvi oficializar meus palpites e escolhas baseados nas indicações do Oscar (veja o post aqui). Das oito categorias que palpito (Filme, Diretor, Ator, Atriz, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante, Roteiro Original e Roteiro Adaptado), acertei apenas 37,5% dos palpites (Daniel Day-Lewis por Lincoln [ator], Tommy Lee Jones por Lincoln [ator coadjuvante] e Chris Terrio por Argo [roteiro adaptado]).

Mais discrepante ainda foi que das oito opções de "Meu Oscar", nenhuma levou de fato (presença maciça da obra prima Amor). Neste ano, o filme que me encantou foi Ela (Her), de Spike Jonze, com destaque para os excelentes 12 anos de escravidão (12 years a slave), de Steve McQueen e Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club), de Jean-Marc Vallée. Dos indicados a melhor filme, saiu a grande injustiça: Joaquin Phoenix deveria ter sido indicado como Melhor Ator por Ela (Her).



Meu Oscar 2014 - Melhor Filme

Ela (Her), de Spike Jonze


Provável vencedor: 12 anos de escravidão (12 years a slave), de Steve McQueen

PS: Não vi Nebraska e Philomena

Indicados:
- Ela
- 12 anos de escravidão
- Clube de Compras Dallas
- Nebraska
- Gravidade
- Capitão Phillips
- Philomena
- O Lobo de Wall Street
- Trapaça



Meu Oscar 2014 - Melhor Diretor

Steve McQueen por 12 anos de escravidão (12 years a slave)

Provável vencedor: Alfonso Cuarón por Gravidade

PS: Não vi Nebraska

Indicados:
- Steve McQueen, por 12 anos de escravidão
- Alfonso Cuarón, por Gravidade
- Alexander Payne, por Nebraska
- Martin Scorsese, por O lobo de Wall Street
- David O. Russell, por Trapaça



Meu Oscar 2014 - Melhor Ator


Provável vencedor: Matthew McConaughey

PS: Não vi Nebraska

Indicados:

- Matthew McConaughey, por Clube de Compras Dallas
- Bruce Dern, por Nebraska
- Leonardo DiCaprio, por O lobo de Wall Street
- Chiwetel Ejiofor, por 12 anos de escravidão
- Christian Bale, por Trapaça



Meu Oscar 2014 - Melhor Atriz

Meryl Streep por Álbum de família (August: Osange County)

Provável vencedora: Cate Blanchett por Blue Jasmine

PS: Não vi Philomena

Indicadas:
- Meryl Streep, por Álbum de família
- Cate Blanchett, por Blue Jasmine
- Judy Dench, por Philomena
- Sandra Bullock, por Gravidade
- Amy Adams, por Trapaça



Meu Oscar 2014 - Melhor Ator Coadjuvante

Barkhad Abdi por Capitão Phillips (Captain Phillips)

Provável vencedor: Jared Letto por Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club)

Indicados:
- Barkhad Abdi, por Capitão Phillips
- Jared Letto, por Clube de Compras Dallas
- Michael Fassbender, por 12 anos de escravidão
- Jonah Hill, por O lobo de Wall Street
- Bradley Cooper, por Trapaça



Meu Oscar 2014 - Melhor Atriz Coadjuvante

Julia Roberts por Álbum de família (August: Osange County)

Provável vencedora: Lupita Nyong'O por 12 anos de escravidão (12 years a slave)

PS: Não vi Nebraska

Indicadas:
- Julia Roberts, por Álbum de família
- Lupita Nyong'O, por 12 anos de escravidão
- Sally Hawkins, por Blue Jasmine
- June Squibb, por Nebraska
- Jennifer Lawrence, por Trapaça



Meu Oscar 2014 - Melhor Roteiro Original

Spike Jonze por Ela (Her)

Provável vencedor: Spike Jonze

PS: Não vi Nebraska

Indicados:
- Spike Jonze por Ela
- Woody Allen por Blue Jasmine
- Craig Borten & Melisa Wallack por Clube de Compras Dallas
- Bob Nelson por Nebraska
- Eric Warren Singer e David O. Russell por Trapaça



Meu Oscar 2014 - Melhor Roteiro Adaptado

John Ridley por 12 anos de escravidão (12 years a slave)

Provável vencedor: John Ridley

PS: Não vi Philomena e Antes da Meia-Noite

Indicados:
- John Ridley por 12 anos de escravidão
- Billy Ray por Capitão Phillips
- Terence Winter por O lobo de Wall Street
- Steve Coogan e Jeff Pope por Philomena
- Julie Delpy, Richard Linklater, Ethan Hawke por Antes da meia-noite

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Vamos ouvir: Bora Bora Bora, do Bailinho de Quinta

Bora Bora Bora (2014) - Bailinho de Quinta




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Release disponível no site da banda:

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A alegria dos antigos carnavais está de volta!

As Marchinhas Carnavalescas povoaram as rádios, as ruas e os Bailes de carnaval entre as décadas de 30 e 60. Na Bahia, o carnaval ganhou novos contornos, modernizou-se, mas algo parece ter ficado de lado com tanta inovação.

A partir de uma pesquisa musical e histórica o projeto Bailinho de Quinta promove em Salvador, desde 2009, bailes carnavalescos que rememoram as eternas marchinhas, acompanhando o movimento de releitura do antigos carnavais que vem acontecendo em cidades como Recife e Rio de Janeiro.

Em um curto período de tempo, o Bailinho de Quinta foi acolhido pela critica e ganhou notoriedade levando a alegria de suas marchinhas aos Largos do Pelourinho, camarotes, praças, palcos e trios elétricos. Sucessos que marcaram a história da Música Brasileira, como “Aurora”, “Bandeira Branca”, “Ta-Hi”, “Turma do funil”, “A filha da chiquita bacana”, “Colombina” e “Mascara negra” compõem o repertório dos shows, alem de versões dos Rolling Stones, White Stripes e Roberto Carlos.

A banda é composta por músicos atuantes no cenário musical de Salvador, como o guitarrista e cantor Graco (Scambo), o baterista Thiago Trad (Cascadura) e a cantora Juliana Leite (Orquestra do Maestro Zeca Freitas).

Em janeiro de 2014 o Bailinho de Quinta lançou seu primeiro disco autoral, “Bora Bora Bora”, que traz em suas 12 faixas, Marchinhas Carnavalescas, Frevos Trieletrizados e até um Ska, belas canções de compositores contemporâneos baianos, cariocas e pernambucanos. A diversão garantida!
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pílulas: Coleção Hélio Pólvora

Hélio Pólvora - fotos de Vinícius Xavier interferidas por Mirdad


A Coleção Hélio Pólvora, uma realização da editora baiana Casarão do Verbo lançada em outubro de 2013, surgiu da sede de um leitor fã. Tinha lido a seleção de André Seffrin que saiu pela Global em 2011, e ansiava por conhecer os livros de contos de onde o crítico selecionou os quinze dessa edição, só que eles estavam fora de catálogo. Como assim? Hélio Pólvora, o melhor escritor baiano vivo, com livros indisponíveis (só em sebos ou emprestados ou os mais novos)? Idealizei então o projeto da coleção, com cinco livros sensacionais de contos: "Estranhos e Assustados" (1966), "Noites Vivas" (1972), "Massacre no Km 13" (1980), "O Grito da Perdiz" (1983) e "Mar de Azov" (1986).


O mestre Hélio topou e revisou os cinco em tempo recorde, numa grande dedicação, em meados de 2012. E a produtora Edmilia Barros formatou o projeto e a editora inscreveu no edital. Ganharam com louvor. Ganhamos todos. E neste post, você confere as pílulas dessa preciosa, referencial, indispensável coleção de 39 contos do grande Hélio Pólvora, imortal.


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 3ª Edição/2013)

"No mundo de Estranhos e Assustados convivem o real e o fantástico, a transcrição do espaço regional e a sua transfiguração no plano do mito que justifica e ilumina a humana existência" - Flávio Loureiro Chaves

Contos: Adamastor | Durango Kid* | Memorial da débil tropa | O suplício de Papa-Mel | Ninguém está inteiro | Composição sobre a ilha | Os visitantes | O homem e o gato | Miss Baby | No mar da Bahia | Meus coelhos selvagens*

* Títulos originais: No peito o motor | História em que entra coelho



Parte I
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"Distâncias significam chamados. E ai de quem não os atender: ficará sob forma de pendência, pelo resto da vida, o caminho que não foi trilhado, a chegada que não se consumou"




Parte II
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"Ele trazia a cara de cavalo esticada e impassível, com o jeito orgulhoso de quem decidira voltar — e soubera voltar. Não desviava a cabeça para os lados; olhava à frente, como se no seu entender o mundo se resumisse a uma estrada"



Parte III
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"O imaginário se robustece em ilhas paradisíacas. O Mal é o contrapeso de que se precisa para medir uma felicidade insuspeitada"




Parte IV
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"O demônio da solidão, porque até nas maiores calmarias ele reina, senhor absoluto da terra, atingia-o em cheio"



Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 3ª Edição/2013)

"Sem alarde e sem cornetas, vai esse mestre do conto brasileiro cultivando, com mão paciente e perita, sua bem cuidada lavoura. Noites Vivas, uma inventoria inigualável de 176 páginas, não será apenas um grande livro deste tempo ou de determinado momento. Será de todos os tempos e de todos os momentos, pois veio com a marca da longa vida. Ou melhor, com passaporte visado para a eternidade" - José Cândido de Carvalho

Contos: Noivado | Casamento | Filho | Romão e seus irmãos | O busto do fantasma | Justino de Palestina | Turco | Moldávia | Rumba Dancing Days | A visita do barão



Parte I
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"Que é, afinal, um filho?, pergunto à minha braguilha, à cinza do meu cigarro. Um filho, me responde o remoto suco que percorre minhas glândulas, é apenas uma manifestação de orgulho"




Parte II
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"Sentia próxima a morte — e no arrependimento da morte, uma lágrima assomou à superfície do olho e despencou, em sulco tremido, pela cara enfezada"





Parte III
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"Certas mulheres, quanto mais finas de casta, mais parecem moles na hora da agonia"




Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2ª Edição/2013)

"Sendo marcadamente um intelectual, Hélio Pólvora não esfria o texto com sua experiência de leitor e pensador requintado, como sucede com tantos intelectuais que se atiram à ficção. Sua narrativa é fluente, solta. Entregando-se à linguagem da paixão, cultiva ainda a paixão da linguagem, na expressão de Octávio Paz. E não será esse o alvo do escritor no seu duro ofício?" - Lygia Fagundes Telles

Contos: Morcegos | Namoro no sofá da sala* | Massacre no Km 13 | O vampiro de Salvador* | Menina sentada no meio-fio | Almoço no "Paglia e Fieno" | O outono do nosso verão | A velha Joana | Três da manhã | O regresso

* Títulos originais: Moça namorando no sofá | O homem do canivete



Parte I
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"O diabo é que estou sempre querendo a mulher que não tenho, a mulher que não vejo — ou a outra, a que perdi"




Parte II
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"Prefiro a lucidez que me corrói e me dilacera e me engrandece"




Parte III
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"Não quero ver ele na cama com a outra, o seu jeito de se atirar sobre a fêmea sem preparativo, cego e certeiro, abrindo o ventre a coices para depois largar no fundo uma multidão de germes"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2ª Edição/2013)

"São quatro histórias poderosas em que se mesclam a força telúrica, o misticismo agreste, o erotismo e a violência, numa linguagem de impressionante beleza ( ...) É uma obra-prima universal" - Fausto Cunha

Contos: Além do mundo azul | O Demônio no Vale* | Bicuíba: uma biografia | O grito da perdiz

* Título original: O arrenegado


Parte I
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"... o azul estava em tudo, cercando a gente como água. Apenas a gente, por estar dentro, como num aquário, nao percebia o azul. Esse azul somente se adensava e se condensava a distância"



Parte II
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"A cidade cria ao seu redor anéis de carentes e necessitados que passa a ignorar no justo instante em que confina os humildes fora do seu núcleo"



Parte III
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"... ele fora escolhido para viver e sobreviver, brigar e amar e odiar e perdoar conforme a circunstância de seus orgasmos interiores"



Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2ª Edição/2013)

"Mar de Azov é constituído de quatro narrativas, que se desenvolvem no Sul da Bahia ... Hélio Pólvora nos dá mais uma vez, nestes contos, uma amostragem do contista moderno dotado de amplos recursos narrativos, sensibilidade apurada e imaginação privilegiada ... De seu estilo impressionista escorrem as verdades essenciais do ser, filtradas das correntes subterrâneas, solidões e desencontros, por vias e arredios das perplexidades" - Cyro de Mattos

Contos: Mar de Azov | Zepelins | Começo de vida | Ninfas, ou a idade da água*

* Título original: As dríades



Parte I
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"— O que é ser homem, pai?
O pai pensa.
— Ser homem é assumir a realidade"






Parte II
Leia aqui

"O brasileiro cresce nervoso, apático, sem tomar consciência do corpo, salvo para a função sexual, que ele confunde com safadeza. Dorme muito, desfibra-se na inação e na vadiagem. Falta-lhe ordem, disciplina, motivação"

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Composições de Mirdad: Last Fly - The Orange Poem



Mãe da Orange Poem, foi a primeira composição laranja, que originou o retorno de Mirdad às composições e à aventura de formar banda e tentar seguir carreira musical. Representa a jornada introspectiva de um ser angustiado, que se depara com a infância problemática. Foi a música mais conhecida da primeira fase The Orange Poem, com destaque para o climão e os solos criados pelo guitarrista Fábio Vilas-Boas. A simplória passagem do acorde de F#m para F# é a grande onda da harmonia. Rajasí Vasconcelos, o primeiro baixista efetivo, criou uma linha de baixo tão íntima à canção que todos os baixistas que vieram depois tiveram de reproduzi-la – e fizeram com satisfação. O grande Raja participa da gravação com risadas psicodélicas floydianas. E as vozes fluidas do cantor e compositor Glauber Guimarães, esbarrando como ondas nas pedras dos tímpanos, vieram no EP Ground (lançado em janeiro de 2014) pra eternizar a mais laranja canção do poema. Para ouvir, basta clicar no botão laranja de "play" abaixo. Acompanhe The Orange Poem aqui.




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Last Fly 
(Emmanuel Mirdad)
BR-N1I-14-00002

I knew
The lost ground
I talked at night
With the little sad child

I knew
The Way-69
I walked in the sky
With bright eyes, my secret fly

Sad child, last fly, lost cry, last fly

I knew
Brothers and souls
I cried for us
For my numb, numb mind

I knew
The love-underground
I lied to myself
When I wanted to escape in the last fly

Sad child, last fly, lost cry, last fly

Fly


Faixa 01 - EP Ground (2014) | Composta e produzida por Emmanuel Mirdad | Glauber Guimarães - voz | Mirdad - violão 12 cordas | Zanom - guitarra | Fábio Vilas-Boas - guitarra | Hosano Lima Jr. - bateria | Artur Paranhos - baixo | Participação especial: Rajasí Vasconcelos - risadas | Gravado, mixado e masterizado por Tadeu Mascarenhas no Casa das Máquinas, Salvador-BA | Arte encarte: Glauber Guimarães | Foto: Rafael Rodrigues


Cifra digitalizada da canção "Last Fly"


CONTEXTO

Na metade do mês de julho do ano 2000, começaram as aulas do curso vespertino de pré-vestibular do hoje extinto PhD (fiz o 2º grau neste colégio em Salvador de 1996 a 1998), um reloaded pra mim. Tinha abandonado Psicologia na UFBA no meio do ano anterior, sem nem completar o primeiro semestre do curso, por uma aventura musical chamada Pássaros de Libra que, por uma grande desorganização, fracassou em abril de 2000. Ou seja, larguei a universidade por uma banda de rock (que nem era uma banda mesmo, apenas um disco gravado com minhas músicas com um parceiro cantando: o músico Juracy do Amor, conhecido na época como Beef) que não deu em nada. 19 anos, sem estudo, sem emprego. Minha mãe quase enfartou.

Foi sincronicamente imprescindível voltar ao PhD para fazer um novo vestibular. Graças ao professor de espanhol Rodolfo Ramirez, que tinha uma banda chamada Mamutes (insisti para apresentar minhas músicas, já que eles só tocavam covers), conheci o baterista Hosano Lima Jr. Graças à insistência das indicações do colega de sala Maurício Borges, conheci o guitarrista Jesus (apelido de Marcus Vinícius Borges, o Zanom), que também estudava no cursinho PhD, só que pela manhã. Graças ao papo fortuito numa das incontáveis mesas de dominó no intervalo, que um solidário desconhecido de nome Tiago anotou o telefone do guitarrista Fábio Vilas-Boas em um papelzinho (e às diversas esnobadas de Jesus [Zanom] na época, focado no vestibular, que me fizeram procurar outro guitarrista). Graças a uma breve visita ao irmão Chicão, meu colega de mesma sala de cursinho, reencontrei o baixista Álvaro Maia Valle após várias tentativas frustradas de conseguir seu telefone.

Formei o embrião do Orange Poem com as sincronias do PhD. Fábio só veio no início do ano seguinte e se tornou o fiel escudeiro, sonhando o mesmo delírio FloydZeppelinMaideano. Mas foi Hosano e principalmente Álvaro que participaram dos primeiros meses da saga pra montar a laranja, a partir de outubro, quando conclui a composição do 1º repertório. Jesus (Zanom) só fez me esnobar, diversas vezes, pois seu foco era passar no vestibular de Medicina na UFBA (perdeu e no ano seguinte destrancou o curso de Fonoaudiologia/UFBA, onde se formou). Mas o TOP começou mesmo com "Last Fly", a mãe.


Papel original digitalizado da letra escrita na contracapa do módulo do PhD, 
mas com as correções da última versão


ORIGEM

Compus "Last Fly" na quinta 24 de agosto de 2000. Era manhã, estava ensaiando para a gravação de um demo com canções de amor dedicadas à namorada da época. Entre uma música e outra, fiquei tocando notas a esmo no violão "Alhambra" de minha mãe (o mesmo em que ela tocava Bossa Nova comigo na barriga pra espantar o tédio da gravidez em casa). Por um acaso (ou uma quase psicografia), passei do meu acorde preferido menor para o maior (de F#m para F#) e segui pela harmonia A, E, F#m e G#m duas vezes. Simples e triste. Lento e fluido. Um voo. Segui cantando palavras em inglês a esmo. Coincidentemente (ou sincronia?) o módulo de estudos do cursinho PhD estava aberto na disciplina de inglês (que nem era a minha, pois fiz espanhol), lição de verbos. O primeiro que meu olho bateu: to know. Cantei a lição: "I knew...".

Empolgado com a melodia, parei para escrever a letra, diretamente em inglês com alguns erros gramaticais. "Last Fly" ficou pronta, um presente do inconsciente que provocou uma bagunça no desejo. Mostrei primeiro ao colega de PhD Maurício Borges (o que insistiu por Zanom). Opinião: "Tá bem Pink Floyd". Orgulho bateu. Resolvi gravá-la então no demo de canções para a amada da época. Muito nervoso, só consegui relaxar ao gravar primeiro "Last Fly", que me tranquilizou o suficiente pra concluir as outras (sessão única no esquema ao vivo voz e violão no estúdio do amigo André Magalhães, que tinha gravado "O Primeiro Equilíbrio", o disco encalhado do Pássaros de Libra).


Os amigos Daniel Andrade (à esquerda), Mirdad e Zanom – com o violão "Alhambra" 
de Dona Martha – em outubro de 2001.


Mostrei então para o amigo Daniel Andrade, "baterista" do meu 1º projeto de banda, que nunca chegou a tocar de verdade e só fazia escrachar as minhas composições. Surpresa: Daniel deu parabéns por "Last Fly". Foi muito importante pra mim, pois com a aprovação do principal crítico, motivei-me a seguir compondo em inglês. Quando compus "Flowers in My Way" semanas depois e fiquei satisfeito também, à beira dos 20 anos, retomei o sonho de viver de música, amortecido depois do fracasso do início do ano. Dessa vez, não mais pop rock na língua nativa e sim uma banda de rock inglês depressivo, no estilo da banda predileta Radiohead (a proposta sonora inspirada na psicodelia do Pink Floyd só foi efetivada a partir da entrada do guitarrista Fábio Vilas-Boas). Montei o projeto mentalmente: gravar um CD e criar um site para divulgar o trabalho no mundo. Simples, não? Insistir no mesmo erro: registrar antes de tocar (continuo cometendo a sina, depois de 1 CD com Pássaros de Libra, 2 com Orange Poem e 1 com Pedradura). Começava aí a obsessão de sair do país e fazer carreira lá fora, o que nunca aconteceu.


O POEMA... LARANJA!

"Last Fly" não foi a primeira música que compus em inglês. No final de 1999, produzi a doidona "Spiral", que brotou um surto provisório de canções britânicas. Envolvido com a gravação do CD "O Primeiro Equilíbrio", apenas registrei uma demo voz e violão no gravadorzinho caseiro de fita K7, com 11 músicas de melodias sofríveis. Pra não ficar sem nome, batizei a K7 de "the poem – Flower of Cross" e engavetei. Essa leva serviu de matéria prima para cinco músicas que foram registradas no "Shining Life, Confuse World" (2005), primeiro álbum da Orange Poem – dentre elas, o blues "Wideness". Além disso, "Flower of Cross" virou Flor da Cruz (assinatura do realizador do 1º Prêmio Bahia de Todos os Rocks em 2008 e nome da empresa com Marcus Ferreira em 2012 que virou depois a Mirdad Cultura com Edmilia Barros em 2013), e the poem batizou a nova futucação musical provocada por "Last Fly" (quando decidi montar a nova banda, primeiro ato foi fuçar a fita pra ver se aproveitava algo – como sempre, reciclando).


Encarte e fita K7 "the poem - Flower of Cross" digitalizadas


Mas como o poema se tornou laranja? O acaso. Em pleno ano 2000, ainda não tinha um PC (que só chegou em agosto de 2001), e precisava mendigar ajuda alheia para digitar a produção. Na casa da namorada da época, depois de passar pro Word o novo repertório, resolvi brincar com o design do nome the poem, tentando criar uma logomarca pitoresca no primal "Paint". Por coincidência (ou sincronia?), coloquei um fundo laranja e escrevi the poem em azul. Achei o nome pequeno (ah? como assim?) e decidi aumentá-lo. Só por isso. Como o fundo laranja me pareceu bonito (freak), digitei: the orange poem – de novo em caixa baixa, como manteria pelos próximos sete anos. Verbalizei: Dê orãnji pô~em. A harmonia da pronúncia me encantou. Perfeito. O rock já tinha vingado o sabá negro, o roxo profundo, o fluido rosa, a pimenta malagueta vermelha. Era a vez do poema laranja. Quando a namorada apareceu, protestou bastante. Achou a mudança ridícula e infantil. Enquanto ela esbravejava, eu fiquei olhando para o monitor e a onda bateu: uma energia muito forte emanava daquelas palavras juntas. Foi a eletricidade? Foi o desprendimento de uma reclamação feminina? Não. Estava sagrado o nome do meu primogênito: the orange poem, filho de "Last Fly". O namoro acabou meses depois e o garoto se aproxima dos seus 14 anos.


CONSTRUÇÃO

2001, o ano 1 do Orange Poem. "Last Fly" esteve presente em todos os ensaios preliminares com os músicos laranjas (eu a considerava o 1º single do TOP, o que de fato sempre foi): primeiro com o guitarrista Fábio Vilas-Boas em janeiro, que assumiu o posto de braço-direito a partir do mesmo dia em que o baixista Álvaro M. Valle pulou fora, e afiou toda sua psicodelia de delays, camas etéreas, palhetadas simulando o voo de pássaros e solos viajandões desde os primeiros arranjos da canção; depois em fevereiro com o baixista Rajasí Vasconcelos (indicado pelo jazzista Maurício Uzêda), que criticou e dispensou várias músicas do repertório inicial menos "Last Fly" (que lhe arrancou aplausos quando a ouviu pela primeira vez), criando uma linha sentimentalmente precisa, uma prova de amor à mãe laranja que, quando compreendi, fiz questão de incorporá-la definitivamente à canção; por fim, em março, com o guitarrista Zanom (reincorporado ao poema para ser base apenas, graças à insistência mais uma vez de Maurício Borges) e o baterista Hosano Lima Jr. (por vergonha de não dar certo de novo, tentei outros bateristas, como Alan Abreu, mas a vaga sempre foi do bom amigo).

Sábado, 31 de março de 2001, 1º ensaio do Orange Poem. No post em comemoração aos 10 anos da banda, relembro como foi esse dia. "Last Fly" teve a pior execução, o TOP demorou pra compreendê-la, e só a partir do 8º ensaio que ela foi acontecer satisfatoriamente.


Hosano, Rajasí, Mirdad, Zanom e Fábio no 1º ensaio TOP em 31/03/2001


A versão com os arranjos concluídos 100% só rolou a partir de 27 de outubro de 2001, durante a gravação do 1º demo, em que sugeri e Fábio começou a música com o seu voo nos delays e Zanom surpreendeu com o slide. A partir daí, a mãe atravessou prontinha os três anos de amadorismo, em que tentamos por seis vezes gravar o álbum "Shining Life, Confuse World" e todas deram merda. Só em 2004, treinados após uma temporada de sete shows, que entramos num esquema profissional no estúdio de Tadeu Mascarenhas.


GRAVAÇÃO

Final de novembro de 2004. O baterista Hosano Lima Jr. gravou "Last Fly" em sua primeira sessão (27/11). O guitarrista Fábio Vilas-Boas, que sempre teve uma grande dedicação pela mãe laranja, também gravou seus solos, pontas e voo na sua 1ª sessão (30/11), com muita atenção e carinho, já que era uma das músicas em que era o "ator principal" do 1º repertório TOP. Veio dezembro. O guitarrista Zanom gravou rapidamente sua participação de coadjuvante com a base pesada na 2ª sessão (14/12) e o slide na 3ª (28/12). O baixista Artur Paranhos ralou pra gravar "Last Fly" em sua 1ª sessão (18/12), porque meu perfeccionismo chato de produtor musical do disco queria que o arranjo de Rajasí Vasconcelos fosse registrado 100% igual – não ficou com a sonoridade que eu pretendia, mas ficou eficiente. Ironicamente deixei a faixa 1 do álbum por último, e gravei o violão 12 cordas na minha 2ª sessão, pouco antes do ano acabar (30/12).


Rajasí e Zanom gravam em "Shining Life, Confuse World" no início de 2005, 
no primeiro estúdio "Casa das Máquinas"


Não tinha como "Shining Life, Confuse World" ser gravado sem a presença de Rajasí Vasconcelos. Pois na terça 11 de janeiro de 2005, o amigo gravou suas participações na canção "Dubious Question" (foto) e depois da gravação de minha voz em "Last Fly" (em que inovei e registrei uma versão com voz completamente rasgada, diferente do jeito que sempre cantava – foi o timbre mais estranho do álbum), tive um insight. Pedi pra Raja gravar sua risada no intervalo entre a volta do refrão e o recomeço da 2ª parte (essa ideia do riso do baixista foi de Zanom, presente também nessa sessão de gravação, que tinha sugerido isso anteriormente quando gravavam "Dubious Question"). Um pouco tímido, Rajasí aceitou o convite, mas não sabia como rir, assim, de forma programada. Aí entrou em cena o comediante Zanom, que ficou do aquário fazendo palhaçada. Raja riu e então registramos eternamente sua risada ingênua, singular e melancólica, que ajuda a evidenciar a estética floydiana em "Last Fly".


Glauber Guimarães grava "Last Fly" em dezembro de 2013, 
no segundo estúdio "Casa das Máquinas"


VERSÃO FINAL

Depois de ser lançado em setembro de 2005, "Shining Life, Confuse World" pouco circulou e foi pra gaveta. Mesmo assim, "Last Fly" foi a mais executada, inclusive por programas de rádio e TV, a mais conhecida pelo pequeno público do TOP e até entrou na coletânea Canções do Leste, uma compilação do rock baiano produzido entre 2000 e 2012. Depois de uma pausa de sete anos, The Orange Poem voltou com o EP Ground (2014) e a proposta de novos vocalistas. O amigo Glauber Guimarães (ex-Dead Billies e atual Teclas Pretas e Glauberovsky Orchestra) realizou um sonho antigo meu e topou gravar três músicas laranjas com a sua voz. A versão final de "Last Fly" foi eternizada em dezembro de 2013, com uma pequena mudança sugerida por mim: uma pausa na banda antes do solo final, para que as diversas vozes de Glauberovsky pudessem preparar o voo com mais calma. Vamos decolar? Em um último voo?



domingo, 23 de fevereiro de 2014

Pílulas: Parte 04 - Estranhos e Assustados, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Às vezes o homem obstinado aparecia de calção à porta da rua — e quando os olhares convergiam para si, quando homens e mulheres cessavam os afazeres em suas casas e se punham a olhá-lo em muda indolência, ele entrava no rio, nadava até o meio da correnteza e ali opunha o peito, como um dique, ao ímpeto da enchente; e, meia-hora depois, retrocedia à ribanceira, encarava homens e mulheres e lhes dizia, apontando o rio: — Nem ele nem eu"


"O demônio da solidão, porque até nas maiores calmarias ele reina, senhor absoluto da terra, atingia-o em cheio. Ai, ai, ai, queria gemer e sentia vergonha do vexame. Era mesmo o pior dos homens, a quem faltava companhia subserviente de cães, mas detestava bichos e gentes que a ele se apegassem, dispostos ao naufrágio conjunto. Ai, me larguem, costumava pensar, e ria da bravata. Me deixem afundar sozinho, que me recuso a levar mais remorsos"


"Viu que o rosto dele enrijecia, os lábios se contraíam, de súbito lívidos pelo assomo da angústia. Insistiu: “Temos visitas”. A mão esquerda sobre o peito sugeria penitência, embora já no desempenho da parte mais pesada da recepção: oferecer o melhor cômodo e as melhores camas, os mais alvos lençóis, cozinhar e servir pratos de resistência, bem temperados, bem apresentados. Um longo aborrecimento"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"Distâncias. Aqui no sul da Bahia as distâncias se desdobram, parecem virgens, escondem segredos a descobrir sob os panos das névoas ou sob o brilho ofuscante do sol — ou ainda sob o crepe da noite baixa"


"Partiu com o ar de quem concentrara o orgulho na fuga longamente premeditada ... Adamastor não voltou nem mesmo quando lhe mandaram dizer que o pai, lavrando um tronco de vinhático na mata, enterrara o fio do machado no pé, cortara uma das veias inchadas e azuis. E não demonstrara maior emoção, a não ser por uma fugidia palidez que lhe banhou o rosto, ao lhe dizerem que o pai perdera muito sangue e conseguira chegar por um milagre de força e obstinação à casa mais próxima, onde lhe apertaram um pano sobre a veia e lhe estancaram o líquido quase negro e grosso que borbulhava no seu corpo pequeno e enrugado, querendo sair todo pela ferida aberta a fim de empapar a terra e se pacificar; via-se a cicatriz no pé que ele fazia girar à volta do tamborete. Uniu os beiços como se fosse soltar um assovio, mas não emitiu som algum. Por fim, fixando o olhar nos punhos da rede que se esticavam nas argolas, comentou: — Adamastor está ganhando bem"


"De onde estava, da janela em que me havia debruçado para saudar o dia, eu avistava Aparecida. Diante dela e à minha frente o mar parecia remansoso, exausto, como se acabasse de parir com dores: o suor lhe vinha sob forma de espuma escura que ele depositava, fervente, na areia. Parada, mão na boca, Aparecida era um instantâneo fotográfico de alguém colhido à beira do pânico ou do pântano"

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Pílulas: Parte 03 - Estranhos e Assustados, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Aparecida era do mar. Gostava de olhar o mar, horas seguidas, sentada num rochedo ou na areia, joelhos dobrados, a cabeça pousada nos joelhos. Suponho que tirava sabedoria de seus mudos diálogos com o mar – mas o que esperava, afinal, que o mar lhe segredasse? Se nos escuta, coisa de que duvido, o mar nada responde, porque simplesmente existe, e sua existência tem provavelmente a idade da Terra e enche uma eternidade de monólogos. Quanto muito o mar lhe dirá: “Não me pergunte, que de nada sei. Apenas sei que sou imemorial”. Aparecida voltava sempre com um doce sorriso de seus enlevos marinhos. Ou o mar lhe segredara algo em língua inaudível, ou a sabedoria estava apenas nela, e precisava apenas que uma onda a lambesse, para vir à tona"


"A noite é uma tela negra, sem bordas nem fundo, e que de súbito se enche de movimento: imagens lentas, arrastadas, inaudíveis — um cinema sem som. Cenas em vagarosa sucessão que o idealizador do tempo e o arquiteto da memória se esqueceram de animar"


"Pelo repinicar das sinetas se conhece a tropa ... na sua débil marcha, parece flutuar, assume formas esgarçadas de assombração. Elas são dez, quarenta, noventa. Cruzam e recruzam a região cacaueira da Bahia, desde o século passado, e não param de entregar cacau seco. Ainda não pararam, condenadas estão às estradas firmes e aos atoleiros e mata-burros da nossa lembrança ... na ausência dos vultos de mais de cem anos, dos burros que viajam noite e dia sem parar, com as seis arrobas nas cangalhas, em marchas que duram cinquenta, cem, cento e vinte anos, ouvimos então os gritos: estalos de relhos, roçar de cordas e cilhões apertados, o alarido jubiloso das sinetas, o trovão dos cascos em solo duro, os gritos dos tropeiros. É a débil tropa que, agora desencarnada, persegue a sua sina de carregar cacau na trevosa memória grapiúna"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"O imaginário se robustece em ilhas paradisíacas. O Mal é o contrapeso de que se precisa para medir uma felicidade insuspeitada"


"Voltou à poltrona, sepultou-se outra vez e pensou nos livros que tinha comprado a crédito. Gostava de abri-los com a espátula e então cheirar as páginas onde se uniam à lombada, em ângulo e vórtice idênticos ao supremo sacrário que as mulheres guardam na junção das coxas e ventre. — Sabes abrir? Desperto, tentou apegar-se a resíduos de sua realidade. — Perdão?"


"A procissão expulsava do rosto dos enfermos a sombra sinistra da morte ... viam Papa-Mel, o emissário da Morte, passar atado a um pau. E pensavam, esses enfermos crônicos, em restos de vida, na velhice chegando tranquila sem a presença de Papa-Mel sentado na calçada à espera de que a morte empunhasse a foice para então entrar na casa do defunto, banhar e vestir o defunto e carpir. Chorava mais e talvez com maior sentimento do que a família inteira"

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Pílulas: Parte 02 - Estranhos e Assustados, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Ele trazia a cara de cavalo esticada e impassível, com o jeito orgulhoso de quem decidira voltar — e soubera voltar. Não desviava a cabeça para os lados; olhava à frente, como se no seu entender o mundo se resumisse a uma estrada, uma linha reta traçada para que ele a percorresse com os pés descalços e as botinas penduradas na mão, até que a morte surgisse e o fizesse tombar com o baque pesado de um cavalo — ou de um cedro"


"Ideias tolas previnem emboscadas, muita gente dá cabo de si própria por preguiça ou esquecimento de encompridar e afundar o olhar ... se bem regulado e prestativo, com aquela penetração aguda e instantânea de binóculo, aciona o sobreaviso, prolonga a vida"


"Farejava a morte com o focinho longo, as ventas amplas recolhendo odores de carne deteriorada, nos olhos antes faiscantes um brilho mortiço de velas. Não se enganava; mal a família vertia as primeiras lágrimas, Papa-Mel aparecia na casa. Entrava sem pedir licença, descobria o rosto do morto, com uma satisfação pasmosa, depois fechava-lhe os olhos, sereno e grave, com a ponta do indicado ossudo em que se agigantava a recurva unha negra. Banhava o morto, vestia-o para o sepultamento. Demorava-se o mais possível, um brilho místico nos olhos e um tremor nas mãos, a boca aberta mostrando dentes amarelos e afiados. Acompanhava o enterro de cabeça caída no peito e mãos cruzadas no ventre. As lágrimas, grossas como pingos de chuva, desciam à barba ruiva; entrelaçadas nos fios da baba, teciam cristalina teia. Tornou-se logo sinal de mau augúrio. Quando parava, ou simplesmente rondava a porta de um enfermo, a família benzia-se ... maldições choviam sobre ele, às vezes súplicas ... mas Papa-Mel não saía de perto. Sentado no meio-fio ou numa pedra, esperava o doente morrer. O diagnóstico não falhava nunca"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"A maldade se nutre de paciência"


"Porque havia adquirido um miado fino, longo, penetrante como uma punhalada ... Aquele miado sobressaltava, mesmo quando esperado, e feria, juntamente com os tímpanos do homem, os labirintos mais acústicos da noite em que ambos, homem e gato, encalhavam"


"A silenciosa e débil tropa está a caminho, carregada, e no seu desfilar lento, enfumaçado, parece fragmentos de névoa, espectros de almas penadas. Nos traiçoeiros caminhos reais cheios de pontilhões, muito burro despenca na água enlodaçada e tenta sair aos arrancos, aos coices, aos corcoveios. Mas a carga os empurra para baixo. Nesses casos, o tropeiro desce e retira a carga para salvar o animal. Ou em último remédio larga o animal no viscoso aperto da lama"

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Composições de Mirdad: Rain - The Orange Poem



Fiel representante do melhor lado laranja, o psicodélico progressivo, é o principal blues em F#m da obra de Mirdad, sua canção predileta do repertório The Orange Poem. O poema é um retrato da solidão de um ser por escolha, por exclusão, que não significa sofrimento e sim a sobrevivência de sua integridade e caráter – uma homenagem aos seres que não devem nada a ninguém. A composição foi gravada pela banda The Orange Poem em 2004/2005, com destaque para os solos de Zanom e a voz regravada pelo cantor e compositor Glauber Guimarães em dezembro de 2013, para ser lançada virtualmente no EP Ground em janeiro de 2014. Para ouvir, basta clicar no botão laranja de "play" abaixo. Acompanhe The Orange Poem aqui.




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui


Rain
(Emmanuel Mirdad)
BR-N1I-14-00003

I always loved
Someone who never loved me
They always were gone...
Gone

I never trust
Anyone not even my own family
I’m so strange...

I’m alone in this world
I’m alone with no sorrow
Here I can be a true man

My God always was
A lost holy place,
I hate who explains heaven...
Heaven

My fun is to listen to shadows
The invisible dog plays with my dreams
“I don’t have a phone...”

I’m alone in this world
I’m alone with no sorrow
Here I can be a true man

Food and money are useless
My music feeds my loneliness
Shortly I disappear
Disappear


Faixa 02 - EP Ground (2014) | Composta e produzida por Emmanuel Mirdad | Glauber Guimarães - voz | Mirdad - violão 12 cordas | Zanom - guitarra | Fábio Vilas-Boas - guitarra | Hosano Lima Jr. - bateria | Artur Paranhos - baixo | Participações especiais: Tadeu Mascarenhas - sintetizador e piano / Gabriel Franco - grito final | Gravado, mixado e masterizado por Tadeu Mascarenhas no Casa das Máquinas, Salvador-BA | Arte encarte: Glauber Guimarães | Foto: Rafael Rodrigues


Cifra digitalizada da canção "Rain"


CONTEXTO

No final de maio de 2001, eu não tinha nada além dos ensaios laranjas. 20 anos nas costas, um vagabundo sem emprego e sem estudo (aguardava ser chamado na 2ª lista para a Facom-Ufba) desde o início do ano. A situação ficou insustentável e eu decidi sair da banda que montei (e dirigia) para ir morar em Ilhéus, Sul da Bahia, onde havia uma suposta vaga de emprego. Voltaria pra Salvador só quando fosse chamado pra estudar. Na terça 29, desfiz a banda The Orange Poem e fui embora pra minha querida cidade onde passei a infância.

A família ficou feliz e mais tranquila – afinal, decidi-me por algo concreto e finalmente poderia estudar e trabalhar (em hipótese). Hospedado como sempre na casa de minha irmã Tita, trouxe uma mala cheia e a afirmação de que se a UFBA não me chamasse, prestaria novo vestibular na Uesc e ficaria morando na cidade de vez. Mas tudo mudou na sexta 1º de junho.

Muita chuva, uma crise alérgica braba, ansioso pela resposta do tal emprego, fui tocar violão. O banzo chegou com força e a vontade de retomar a banda foi inevitável. Ilhéus reloaded foi implodida de vez quando meu cunhado Luiz avisou que o tal emprego já estava ocupado há muito tempo, ou seja, na "Terra do Cacau", eu era mais um desempregado sem estudo; ralar atrás de um emprego no interior era incomparavelmente muito mais difícil do que na capital. Na hora do almoço, surpreendi a família: vou voltar pra Salvador na segunda. Como assim, se tinha acabado de chegar? Novamente meu pai mestre, o grande Ildegardo Rosa (1931-2011), segurou a barra e me apoiou. Voltei, continuei sem emprego, retomei Orange Poem em junho ainda e só fui entrar na Facom em janeiro de 2002 por causa de uma maldita greve enorme. Quem financiou o "vasp" artista? Mestre Dedé.


ORIGEM

Quarta, 6 de junho de 2001. Acordei triste com os foras da ex-namorada da época. "Pensei que você indo para Ilhéus iniciaria uma nova vida, mas agora que voltou, sem nada, continua o mesmo de antes" define bem os cortes. Toma Mirdad. Além disso, o fracasso reloaded do contexto, melancolia, solidão. Ótimo clima para compor. Fui tocar violão – só tinha isso mesmo para fazer – e a angústia temperando. E a frase "I’m alone" martelando na cabeça desde que acordei.

Relembrando músicas antigas, toquei por acaso a primeira versão de "One and Three" (canção do repertório TOP), só que em ritmo mais lento, de balada depressiva.  F#m, E e A: a harmonia pariu uma nova melodia, embrião. Do meio dia até às duas da tarde, sem parar para almoçar, escrevi o poema direto no inglês, derivado da frase matinal que me encheu o saco, e estruturei a melodia baseada numa reciclagem de harmonias (base da versão abandonada de "One and Three" e o refrão de "Capricorniana", registrada no álbum "O Primeiro Equilíbrio" [2000], do projeto Pássaros de Libra). Maravilhado com o resultado, toquei a recém-nascida "Rain" repetidamente por mais de duas horas. Sem parar. Expurguei os demônios e espantei a sedução do suicídio.


Papel original digitalizado de onde escrevi a letra, mas com as correções da última versão


CONSTRUÇÃO

"Shining Life, Confuse World" foi o primeiro CD da Orange Poem, lançado em setembro de 2005 com 12 músicas. Um parto que começou na quinta 13 de setembro de 2001, quando eu defini as faixas do repertório. Ou seja, a banda passou 4 anos ensaiando as mesmas músicas, com diversas tentativas amadoras de registrá-las – obviamente fracassamos – até resolver com a gravação profissional no Casa das Máquinas de Tadeu Mascarenhas. E a maluquice de se investir tanta grana e tempo para registrar exatamente as 12 músicas do 1º repertório.

Pois assim que aprontei "Rain", ela entrou de cara no repertório, sendo a última canção eleita para fazer parte do debut "Shining Life, Confuse World". Porém, somente depois de sete ensaios (e de dois baixistas fora da banda), finalmente a laranja trabalhou a canção pela primeira vez. Sábado, 15 de setembro de 2001, a 40 minutos do fim do 15º ensaio TOP, a banda surpreendeu e assimilou a música rapidamente, mas ela ganhou outra forma, diferente da balada tristonha a la Radiohead que compus, tornando-se um blues, com arranjos precisos de Álvaro M. Valle (o 2º baixista fixo, substituto de Rajasí Vasconcelos) e do baterista Hosano Lima Jr. Foi um grande resultado, que empolgou a todos, muito mais Fábio Vilas-Boas, que passou a gostar de "Rain" (quando apresentei-o à versão original muito depressiva e lenta, o guitarrista condenou: "essas coisas com ‘love’ eu não gosto").

Confesso que me senti um pouco lesado com a mudança; percebi que o blues suavizou o precipício em que "Rain" foi composta, mas terminei aceitando ao compreender que essa versão era mais palatável ao público. A canção foi importante para democratizar os espaços de solos dos guitarristas laranjas. Inicialmente escalado para ser o guitarrista base, Zanom foi conquistando seu brilhante lugar de solista aos poucos, como em "Diet of Dust" e "The Unquietness", e em "Rain" ele pode confirmar 100% que na Orange Poem, blues tinha que ser com ele.


Registro do show no Havana Bar


QUASE MOSH

Em 2002 e 2003, a Orange Poem só fez três shows. "Rain" esteve presente, sempre arrancando aplausos e uma eficiente performance da banda. Já com Artur Paranhos no baixo (no lugar de Álvaro M. Valle), fizemos um show no saudoso Havana Music Bar na Dinha, ponto mais boêmio do mais boêmio bairro de Salvador: Rio Vermelho. Noite de uma quarta, véspera de feriado, 30 de abril.

Ofereci "Rain" em homenagem à banda Soma (pra mim, a melhor da geração 00 do rock baiano), do amigo Rogério Alvarenga, produtor da noite (que também produziu o nosso 1º show em janeiro de 2002). A solidão do blues combinava com o single e aura "Eu, o Alien" da banda triste soteropolitana.

Enlouqueci. A execução brutal da laranja me fez surtar, pulando e balançando o corpo e violão pra tudo que é lado. Até o famigerado grito gutural "lasca garganta" do final eu fiz – era feito até então pelo ex-baixista Álvaro. A plateia foi ao delírio e eu quase me joguei Dinha abaixo. Parei no limite da janela (o palco improvisado era colado nas janelas que davam no largo), e perdi a oportunidade de ter sido o primeiro a dar um mosh mortal na Dinha. Talvez não estivesse aqui hoje, mais de dez anos depois. O jornalista Luciano Matos, presente no show, resenhou depois em seu blog: "The Orange Poem, instrumental lá nos anos 70, meio Pink Floyd com um vocalista afetado". Afetado? Pode isso, Arnaldo?


Gabriel Franco grita no final de "Rain" em julho de 2004

O GRITO

"I disappear" termina o poema de "Rain". É aí que o berro dissolve o ser dentro do blues. Nos ensaios quase nunca eu fazia. Ficou ao encargo de Álvaro. Depois, dos convidados dos ensaios. No 3º show o berro quase me impulsionou Dinha abaixo. Mas foi na festança do 50º ensaio TOP, sábado 17 de janeiro de 2004, que o amigo e músico participante do furdunço comemorativo Gabriel Franco apresentou a sua potente versão para o grito gutural. E que berro, meu amigo! Abalou tudo. Não me esqueci.

Domingo, 18 de julho de 2004. Na estreia do projeto "Agente Laranja Gueto Cultural", uma série dominical de sete shows da Orange Poem e convidados no saudoso Tangolomango Bar (minha estreia como produtor cultural), fiz questão de convidar Gabriel para gritar no final de "Rain". Pois foi um grito tão primal, tão espetacularmente angustiante, rasgado, visceral, potente, que impressionou o público presente e me fez definir ali mesmo que teríamos a obrigação de registrá-lo na gravação profissional de "Rain". Arrematei: "é uma homenagem aos seres que não devem nada a ninguém".

Na quinta 6 de janeiro de 2005, 12ª sessão de gravação no estúdio "Casa das Máquinas", o amigo Gabriel Franco eternizou o seu feroz berro gutural no final de "Rain" (eu ainda usaria este arquivo em 2006 numa das faixas do CD-poema "Ilusionador", meu TCC na Facom/Ufba).


Hosano Lima Jr. por Alexandre Strube

GRAVAÇÃO

Sábado, 27 de novembro de 2004, primeira sessão de gravação do CD "Shining Life, Confuse World", estúdio "Casa das Máquinas", de Tadeu Mascarenhas. Hosano Lima Jr. veio inspirado e gravou todas as 12 músicas, de acordo com o planejado. Correto, criativo, seguro e perfeccionista, foi muito reverenciado por todos, mesmo sem o metrônomo – que ele tanto pediu e foi sumariamente cortado por mim (em nome de uma suposta "naturalidade", cometi o maior erro de minha carreira como produtor musical),resumido nas palavras de Zanom: "Há muito tempo que não vejo você tocar assim, nos ensaios você não faz isso!".

O guitarrista Fábio Vilas-Boas gravou suas pontas psicodélicas em "Rain" na terça 30. Encerrou com o seu único solo na música (depois do 2º refrão), insano e visceral, arrancando muitas risadas de Tadeu, que repetia sempre: "que figura, muito doido". Artur Paranhos gravou bem a sua eficiente adaptação do arranjo de baixo de Álvaro M.Valle no sábado 18 de dezembro.


Fábio Vilas-Boas e Artur Paranhos por Alexandre Strube


Depois do Natal, perto do fim de 2004, Zanom pediu pra gravar "Rain". Era uma terça do verão, tarde do dia 28. Eu (produtor do álbum) e Tadeu insistimos para ele terminar "Wideness", mas ele queria deixar pra depois. Concordei e pedi para que ele aproveitasse a então equalização "seca" pra gravar o solinho ambientador depois do solo insano de Fábio. Zanom cumpriu bem. E continuou a solar, agora com mais efeito, evidenciando a pegada blues tão característica do seu melhor som. O engraçado foi que todo solo que ele gravou nessa temporada do 1º CD, o definitivo foi o primeiro. Nenhum "tente de novo" ou "deixa eu tentar de novo" deu certo. Cadenciado, Tadeu já repetia antes da próxima: "eu gostei mais do primeiro" ou "o primeiro tá melhor". O problema foi gravar a base pesada. O guitarrista de Itapuã teve dificuldade de encontrar o tempo; reclamou vários "tá pra frente", sem metrônomo era foda. Mas o melhor ficou para o final. Ao invés de "descer a mão" a la Hendrix, Zanom preferiu seguir com a sua linhagem Gilmour e gravou um solo de slide que não tinha apresentado antes nos ensaios da pré. Fiquei muito surpreso, e deixei acontecer a linda inovação do amigo libriano. Bravo, Zanom!


Zanom por Alexandre Strube


Antes de 2004 acabar, na quinta 30, gravei o violão 12 cordas em "Rain" (emprestado por Alex Pochat, porque o meu deu problema com a afinação). Consumi um bom tempo de estúdio, porque o dedilhado tinha que ser limpo e preciso, e meus dedos estavam um bagaço – um mês sem tocar nas 12 cordas de aço. Assim, com muita raça e paciência, consegui finalizar a canção. Gravei a voz no quarto dia de 2005, inspirado em Roger Waters – em todas suas músicas, principalmente dos discos "Obscured by Clouds", "Ummagumma" e "The Wall Live", de onde tirei o clima para interpretar com sutileza e berros.


Emmanuel Mirdad por Alexandre Strube


Na segunda 14 de fevereiro, penúltima sessão de finalização do álbum "Shining Life, Confuse World". Para o guitarrista Fábio, a 7ª faixa do disco não estava completa. Sentia a falta de um barulho de chuva na volta do seu solo, quando a música fica clean – bem no solo clean de Zanom. Eu decidi pagar pra ver e Fábio gravou a chuva de "Rain" com um saco plástico amarelo de um restaurante chinês – primeiro vazio, mas depois, por minha sequela, cheio com as coisas que o guitarrista tinha trazido ao estúdio: chave, carteira, plástico já vazio dos biscoitos comidos, etc. O amigo amassou um pouco a textura, com a paciência necessária pra se fazer chover. Gostei tanto do efeito inusitado que além do lugar pretendido pelo criador, decidi começar "Rain" com a chuva de Fábio (harmonizava melhor a passagem da faixa anterior "Wideness" para ela). Na versão final de 2013/2014, Glauber Guimarães sugeriu e eu acatei o corte da chuva (não havia mais a necessidade da passagem), começando a música já à vera com a banda completa, como originalmente Zanom preferia. A chuva de Fábio acabou ficando apenas onde o seu criador queria.


GAVETA

"Shining Life, Confuse World" foi lançado na sexta 23 de setembro de 2005, no saudoso World Bar, na Barra – Salvador/BA. com o baixista Fabrício Mota no lugar de Artur Paranhos. Lembro que no show fiz o grito gutural de "Rain", uma raridade de acontecer. No dia anterior, tinha saído uma matéria de página inteira do jornalista (e colega faconiano) Pedro Fernandes no saudoso Caderno Dez, do jornal A Tarde, sobre o lançamento e resenhando o disco. O blues apareceu bem: "Mas é no rock progressivo que o álbum melhor se realiza. Então, quando "Rain" chega, a certeza de que a alma da banda está em um som mais viajante se confirma".

No cafofo do World Bar, a Orange Poem fez mais três shows da temporada do Laranjada Rock, a produção minha de maior fracasso de público. Ao menos no sábado 15 assisti ao vivo a minha primeira aparição na TV (primeira e única do TOP), no programa "Soterópolis" da TVE. "Rain" foi a canção mais utilizada e a que fecha a matéria. Mas o álbum foi pra gaveta, pois 2006 foi investido na gravação de um novo CD.

Capa de Shining Life, Confuse World (2005)


Enquanto o lançamento de um álbum é o primeiro passo profissional da carreira, de onde as bandas/artistas começam de fato a divulgar seu trabalho, lançando singles, produzindo clipes, acertando shows, negociando com produtores de festivais, divulgando na imprensa, etc., o 1º CD da Orange Poem significou o fechamento de um ciclo de 4 anos. Ninguém aguentava tocar mais as mesmas músicas. E os discos encalharam (tenho três caixas intactas entulhadas em casa, num total de 450 discos). Ainda mais quando descobri diversos erros e desconsiderei quase metade das músicas do álbum. Era como se "Shining Life, Confuse World" fosse um demo, e o próximo de fato seria o primeiro da discografia. Gravamos e a banda acabou. Nem um, nem outro.


Glauber Guimarães grava a voz e Tadeu Mascarenhas observa (dezembro 2013)


VERSÃO FINAL

The Orange Poem voltou em 2014 com o EP Ground e a proposta de novos vocalistas. Meu amigo, o cantor e compositor baiano Glauber Guimarães, realizou um sonho antigo e topou gravar três músicas laranjas com a sua voz. A versão final de "Rain" foi eternizada em dezembro de 2013, com três sugestões de Glauber: manteve meu berro em "man" e o grito gutural de Gabriel Franco; o novo início com a banda completa e sem a chuva; uma nova gravação de um cravo para o refrão. Tadeu Mascarenhas topou o convite e gravou o piano e o sintetizador no timbre de cravo. Os laranjas aprovaram as mudanças, e eu também criei, interrompendo a bateria na voz gravona e potente do trecho "Food and money...". Com o timbre ácido-singular de Glauberovsky e os solos de puro feeling de Zanom, a minha música predileta (a que mais me emociona e a que sempre escuto primeiro quando relembro a banda) da The Orange Poem (embora que a melhor canção seja "Melissa") ficou finalmente pronta para fazer a cabeça psicodélica dos ouvintes.