domingo, 16 de fevereiro de 2014

Pílulas: Parte 02 - Noites Vivas, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Nesse instante, ouvindo essas vozes, ouvindo a voz da noiva, fina e musical, senti na garganta formar-se o bolo de mal digerida emoção, uma coisa que subia, lenta e inexorável, do fundo da minha pessoa, do lodo das minhas entranhas, como um balde que traz do fundo de um poço abandonado a água esverdeada pelo limo e o sapo verde que nela quase se disfarça. Larguei o rebenque, entrei às pressas no corredor, corri para o fundo, girei a taramela da porta e recebi na cara, no peito, nas virilhas o bafo morno da noite. O bolo que me esmagava, sufocava, oprimia, desaguou nos olhos em fios grossos de lágrimas reprimidas e tão repentinas, na sua imprevista acidez, quanto uma chuva de verão. Encostado à parede, chorei aos arrancos numa fúria de estremecimentos e inutilidade. E só algum tempo depois, quanto senti que minha presença era reclamada, sentida e estranhada, banhei os olhos em água fria, forcei uma naturalidade, um dar de ombros, uma esquivança que tinham no sorriso calmo um ponto de convergência. Assim distanciado, lavado e purificado, entrei no alpendre, cumprimentei a noiva e o pai da noiva que, sentados no banco comprido, divagavam sobre o tempo, a viagem, o casamento, detalhes da festa que só acabara alta madrugada. Conversamos provavelmente mais uma hora, descansados, até que a friagem da noite insinuasse seus primeiros toques fortuitos, e ao longo desta conversa, que não teve uma linha definida, mas foi marcada por interrupções, pigarros, pausas, olhares desencontrados, eu tentava esfarinhar um novo bolo que se formava, na indefinível fronteira onde termina a carne, o sangue e o nervo, e onde começa a alma"


"Sentia próxima a morte — e no arrependimento da morte, uma lágrima assomou à superfície do olho e despencou, em sulco tremido, pela cara enfezada. O pai surpreendeu-a naquele inútil martelar, e depois de uma rápida reflexão, em que a cólera substituiu o pasmo e o riso, desequilibrou a filha com um tapa. “Quer se desgraçar, infeliz?”. “Sou uma desgraçada”, gritou a filha, espremendo a cara contra o chão"


"A conversa entre os dois, meu pai e o visitante, pendia num silêncio prolongado de propósito para acentuar o peso da última observação proferida não se sabe por quem"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"Pensava viver muito tempo ainda, mas quem esconde com fome o rato vem e come"


"Ajoelhada em frente, a moça começou a esfregar-lhe os pés, que estavam tisnados, sentindo a grossura das veias, a aspereza da pele. “Mais força”, pediu o pai. Era o seu momento predileto: uma gostosura morna espalhava-se pelo corpo, quebrantava o ímpeto de um dia árduo, levantava das entranhas a paz que prenuncia noite calma de sono de chumbo. Para a moça, um vexame: tinha diante de si a imagem grosseiramente esculpida de um homem enorme, caprichoso, pronto a desancar com a mão e ferir fundo com a palavra, senhor de uma risada que se desatava frouxa, em ocasiões indicativas de cólera certa, e gestos de amuo em instantes onde cabia o riso fácil. Ajoelhada à sua frente, sentindo nas rótulas a irregularidade do chão, ela temia que o movimento das mãos no escalda-pés abrisse a gola do vestido, revelasse o começo dos peitos"


"... invocado o espírito adivinhador e formado o círculo de assistentes, o homem entrou em convulsões, e nestas, braços, pernas e ventre tiveram muito trabalho. Temi que ele fosse se desconjuntar; sem dúvida aquilo exigia muito preparo físico, que eu jamais poderia associar à carne seca com farinha e rapadura, prato quase único no cardápio dos pobres. Recebido o espírito, que se ajustou no seu corpo com uns espasmos derradeiros e umas torções de quem forceja para encaixar névoas espectrais em corpo alheio, Tomé de Arapiraca, sujeito ainda moço, denunciou quem desencaminhara certa moça ultimamente muito falada no Vale. E antes de responder à primeira consulta transmitida em voz baixa por Joãozinho Feitosa (o furto do cacau tinha prioridade), deu três voltas completas pelo círculo de assistentes, com a garrafa de aguardente destampada sobre a cabeça e a dançar. Não caiu uma só gota"


"O barbeiro que atende o pessoal do colégio, único nas redondezas, pouco sabe de música. Tem dentes podres e trabalha com a tesoura rente à cara do freguês, assobiando coisas sem nexo e sem modulação. O corte de cabelo demora, o barbeiro é metódico, esmera-se no trabalho, não tanto por amor à arte, mas talvez porque lhe sobre tempo e ele pretenda se divertir na sua tosquia. O pescoço coça, o suor aflora em gotas na pele do rosto, a toalha está suja e esfiapada nos cantos, e vem do barbeiro, de toda a pessoa do barbeiro, um cheiro de latrina, um cheiro sutil de merda ressequida"

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