segunda-feira, 22 de outubro de 2012

80 anos de Ildegardo Rosa: a despedida e o poema

Ildegardo Rosa, meu pai, o Mestre Dedé


Vinte e dois de outubro, 1 ano atrás. Minha família pode ter a benção de estar presente no dia mais feliz da vida de meu pai, Ildegardo Rosa, o Mestre Dedé, no Rio de Janeiro.

Nesta data, 1 ano atrás, ele fez 80 anos portando uma coroa de pelúcia que eu mesmo coroei em sua vasta cabeça de sergipano. E, no melhor estilo desprendido, quase livre da Matrix e da pedra que nos prega ao chão, vivenciou o "que  rei sou eu?" e fez diversas palhaçadas, contando piadas e causos, dançando, vibrando, e recitando o poema "80 anos" que lhe pedi que fizesse (na sua obra, ele fez o poema dos 30 e dos 60, e concordou que chegar aos 90 seria quase impossível - premonição) semanas antes da comemoração maravilhosa.

Menos de dois meses depois, a pedra virou vento e ele partiu da matéria. Seus 80 anos, na verdade, foi uma inesquecível despedida.

Parabéns, meu pai, felicidades e muito amor! - porque é difícil perder um hábito tão delicioso quanto este de emitir tal frase carinhosa.




Vinte e dois de outubro, 1 ano atrás. Meu pai, o Mestre Dedé, no dia mais feliz de sua vida, lê para a sua família um dos seus últimos poemas. Transcrevo abaixo:


80 Anos
Ildegardo Rosa


Segundo
o calendário dos homens
hoje faço 80 anos.

Catingueiro/ sergipano
dos Campos do Rei Real
que na barriga da mãe
se escondeu na igreja matriz
pra meu avô- cabra macho
escorraçar os cangaceiros de Lampião.

Assim contou minha bisavó.

Esses 80 anos
no acontecer de minha vida
onde o tempo nunca existiu
mas apenas a duração
sempre presente no eterno agora
onde fui uma célula
um feto
uma criança
um jovem
um adulto
agora sou um idoso
e que apenas será
uma lembrança esfumaçada
onde aconteceram
alegrias e brincadeiras
dores e sofrimentos
angústias e prazeres
quedas e subidas
solidariedade e decepção
loucuras e mirações
persistência e barreiras
buscando uma saída, um caminho
nessa ilusão ou talvez um absurdo
que chamamos de vida.

Aqui estou neste agora
neste presente sem tempo
onde ao menos
pude descortinar o Véu de Maya
pelo acontecer do AMOR
que muito dei e muito recebi
O amor dos meus antepassados
O amor dos meus pais
O amor dos meus irmãos
O amor dos meus sobrinhos
O amor da minha amada
O amor dos meus filhos
O amor dos meus netos
O amor daqueles que me amaram
e que ainda muito me amam
e eu a todos amo também

Hoje faço 80 anos
onde eu sou uma ilusão
ou um quase nada
diante da imensidão
do Universo manifesto
emanado da Força Suprema
da qual sou partícipe
na minha existência mutante
nesse enigmático cotidiano
peregrino destemido
em cumprir sua misteriosa missão!

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domingo, 7 de outubro de 2012

32

Tony Stark, o Homem de Ferro, por Paolo Rivera

Em 2011, publiquei uma foto em que me simulava como um T-100, com a seguinte descrição: "Cada vez mais máquina". Era o "ano 1" da Putzgrillo Cultura, em que estávamos colocando o portfólio no mercado pra valer, e o volume de trabalho com a Flica estava enorme, quase beirando o insuportável. Não tinha tempo pra me dedicar a nada que não fosse ao trabalho. Além disso, estava mais ateu que nunca, e o amor inclusive tinha sido relegado às vagas confortáveis do descartável. Vivenciava o "Octopus Way of Life", mas o norte era o extermínio das tarefas, implacável. Máquina, mesmo.

O final da jornada de 2011 levou-me a pessoa mais importante da minha vida, um dos preciosos que me gerou, e que foi responsável também pela minha inclusão na matéria após uma eternidade de incompreensão. E, devido a esse fato irremediável, implodiu a pane no HD da "Máquina Mirdad". Meu pai, sábio, elevado, já na fase "vento pós-pedra", ensinou-me então a última lição, moldado ao meu método "São Tomé" de aprendizado: retome a sua fé, porque o amor existe e tudo tem o seu tempo, independente das nossas suposições (= brincadeiras) filosóficas sobre a Matrix.

Já no primeiro dia de 2012, o ano fantástico, começou a renovação. E foi assim durante 10 meses. Compreendi o Maktub, e deixei a renovação fluir, no amor, no trabalho e na fé. E hoje, dia em que celebro o ano novo que, pra mim, sempre começa três meses antes (precisamente 86 dias antes), compreendo que não é o "Cada vez mais máquina" que rege o "Octopus Way of Life", uma máquina em simulacro de humano, e sim o óbvio ululante de seu contrário - a carne frágil de homem envolvida pela armadura impenetrável. Abandono a existência máquina, automática, para vivenciar a trégua entre razão e sentimento, numa plenitude inédita, suficiente.

Sagaz como Tony Stark, esse é o meu lema em 2013. Aláfia!

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