terça-feira, 30 de setembro de 2014

Pílulas: Cavalo selvagem, de Eliakin Rufino

Eliakin Rufino (foto: divulgação - interferida por Mirdad)


"toda carta
de amor
é película"


"nosso destino é ser índio
embora todos digam
que nós não somos mais índios
eles pensam que nos educaram
eles acham que nos civilizaram
mas é o contrário

eles nos ensinaram com suas atitudes
que se nós não existíssemos
jamais eles teriam exercitado tanto
seu desejo de matar"


"porque da arte de cantar fiz meu ofício
e me despi das ambições cotidianas
fui posto à parte
na escuridão da margem
...
porque marchei de pé esquerdo
no pelotão dos destros
denunciei a farsa dos fiéis
e a falsidade dos honestos
fui posto à parte
na escuridão da margem
porque povoei de canto
a tecnológica mudez da paisagem"


"de tanto puxarem meu tapete
aprendi a pilotar
tapetes voadores"


"a certeza da morte não assusta
o que virá depois não me faz medo
quero a vida na medida justa
do tamanho do mistério e do segredo
...
a certeza de saber que morrerei
faz a minha vida mais feliz"


"O que é perfeito está morto
Eu quero o falho
O feio
O torto

Quero os pecados da alma
E as imperfeições
Do corpo

Se a pressa
É inimiga da perfeição
É amiga da mudança"


"escasseia a caça
índios morrem
a estrada passa"


Eliakin Rufino
(Valer/2011)


"mostrou o livro pro índio e disse:
eu sou o emissário
o enviado divino

é neste livro que está
teu plano de salvação
a porta do céu é estreita
mas para o inferno há muitas portas

o índio após meditar
disse por fim sabiamente:
aqui não cremos no inferno
e nosso céu não tem portas
essas letrinhas miúdas
pra nós são formigas mortas"


"minha vó me chamou
curumim venha cá
...
não vá esquecer
essa tribo é um rio
o destino é correr

curumim essa terra
nunca nos pertenceu
não é de ninguém
não tem dono nem deus"


"embora polua
a chaminé
tem o seu encanto"


"se não fosse esse mosquito
a floresta virava palha
...
o maior ecologista da amazônia
é o mosquito da malária"


"Depois de percorrer o mapa-múndi
Depois de viver os anos do desbunde
Depois do amor livre e da política das rosas
Depois das vertigens e das rebordosas

Mel agora só se for de abelha
Amor agora só se der prazer
Cobertor só se for de orelha
Pó - só mesmo o pode crer"


"repouso no travesseiro
a cabeça erguida
pelos projetos da vida"


"não aprendi a prudência
que a fábula ensinava
não queria ser formiga
eu queria ser cigarra"

Vamos ouvir: Nuvens, de Fábio Haendel

Nuvens (2014) - Fábio Haendel




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Release no facebook do artista:

"
Fábio Haendel é um artista múltiplo, originalmente das artes plásticas, formado pela escola de Belas Artes da UFBA, com experiência nas áreas de ilustração, design, animação e arte-educação. Filho do músico instrumentista Willy Haendel, tem em suas raízes o gosto pela música e, movido pelas criações de Bob Dylan, também se tornou cantor e compositor, participando de diversos festivais e eventos universitários. Possui mais de 70 composições e um Cd gravado, "O Dono do Tempo", de 2008. Em 2012, junto com Kátia Borges, Mariana Paiva, Nilson Galvão e Lígia Benigno criou o Sarau “Prosa e Poesia” e desde então vem aprofundando-se na pesquisa literária.

Fábio Haendel toca acompanhado da sua banda, formada pelos músicos Henrique Duarte (baixo), Estevam Dantas (piano e acordeon) e Saulo Tacio (percuteria), ao longo da carreira apresentaram-se em importantes casas como o 30 Segundos Bar (BA), Bar Balcão (BA), Café e Cognac (BA), Odeon Sabor e Arte (MA), Portela Café (BA), Sagarana Café-Teatro(MG), Palacete das Artes (BA), Casa de Tereza Arte, Gastronomia e Cultura (BA), Amsterdam music pub (MA), Barulhinho Bom (MA), Visca Sabor e Arte (BA), entre outros. Como resultado da pesquisa sobre a relação da poesia com música durante esses quase dois anos de Sarau “Prosa e Poesia” criou o show poético “Astronauta Andarilho”, com poesias musicadas de grandes poetas: Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Guimarães Rosa, Vinícius de Moraes, Paulo Leminski, Ana Cristina César, Capinan, Kátia Borges e Damário da Cruz.

Foi selecionado esse ano para participar de duas antologias poéticas: editora Cogito e Sarau da Onça. Atualmente está finalizando o livro de poesias e ilustrações “Antes das Nuvens” e gravando o CD “Nuvens”. Realiza atividades e projetos com poetas/escritores baianos e com o grupo Teatro Griô.

CD Nuvens

1-Nuvens (Fábio Haendel)
2-Cada Cabeça (Fábio Haendel)
3-Curta Metragem (Nílson Galvão e Fábio Haendel)
4-Vestir despir (Fábio Haendel)
5- Sábios Blues (Nílson Galvão e Fábio Haendel)
6- Poemas Sonhados (Mariana Paiva e Fábio Haendel) – participação de Illy Gouveia
7- Beleza moça (Kátia Borges e Fábio Haendel)
8- Morro do submundo (Fábio Haendel)
Composições, voz, violão e gaita: Fábio Haendel
Cantora convidada: Illy Gouveia
Músicos:
Baixo- Henrique Duarte
Baixo acústico- Gil Meireles
Guitarra e violão- João Trevisani
Bandolim- Willy Haendel
Piano- Estevam Dantas
Bateria- Pedro Dantas
Percussão- Saulo Tácio
Trombone - Fabrício Dalla Vecchia
Trompete - Gil Mário Santos
Violino- Mário Soares
Produção Musical: Bráulio Passos
Assistente de Gravação : Dante Alighieri
Produção: Lígia Benigno
Capa:
foto- Andréa Magnoni
arte- Thiago Romero
contatos- (71)3018-6062/ 9272-0745
producao.fabiohaendel@gmail.com
"

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Orange Poem - Letras traduzidas para o português

Orange Poem (imagem: Glauber Guimarães)


Segue abaixo a tradução para português das letras das músicas do álbum virtual duplo “Hybrid” (2014), da banda baiana The Orange Poem. Os poemas são quase todos de autoria de Emmanuel Mirdad, exceto um, que é a reunião de catorze fragmentos de poemas de Ildegardo Rosa, morto em 2011, pai de Mirdad, que foi gravado em português mesmo e não precisou de tradução. Mirdad agradece à cantora e professora de inglês Ana Gilli, que corrigiu as imperfeições existentes.




Cortes
Tradução para Cuts
(Emmanuel Mirdad)

Nós precisamos tanto de carinho, tão importante como oxigênio, tão raro como um abraço sincero, tão caro nestes dias de egoísmo.

Nós afastamos as pessoas ignorando a amizade, atraímos somente por negócio, criamos condições absurdas para o desejo, enquanto tentamos felicidade com coisas de plástico.

O lar se tornou refúgio, cela, e a privacidade é exposta como prêmio. Dia após dia nos restringimos a criar ídolos, o destino que foi lentamente confundido.

Acuado, angustiado, inseguro, inseguro. Ser humano perdido, é tão fácil o suicídio. Mas o medo ainda sobrevive e traz a vida ao encontrar o corte.




Último Voo 
Tradução para Last Fly
(Emmanuel Mirdad)

Eu conheci o chão perdido; conversei à noite com a pequena triste criança.

Eu conheci o caminho 69; caminhei no céu com os olhos brilhantes, meu voo secreto.

Triste criança. Último voo. Choro perdido. Último voo.

Eu conheci os irmãos e almas; chorei por nós, por minha entorpecida, entorpecida mente.

Eu conheci o amor submundo; menti para mim mesmo quando quis escapar em um último voo.

Triste criança. Último voo. Choro perdido. Último voo.




Vastidão
Tradução para Wideness
(Emmanuel Mirdad)

Nesta vastidão de elementos, sou cirurgião em chamas, reivindicado a materializar seu corpo em nome sagrado da terra, água e ar.

Nesta vastidão de marionetes, sou cirurgião com notícias, reivindicado a libertar sua alma em um louco assassinato de seus desejos.

E agora há apenas buracos negros na sua mente.

Nesta vastidão de firmamentos, sou cirurgião em tirania, reivindicado a purificar seu corpo em nome sagrado do Messias ou glória.

Nesta vastidão de palavras, sou cirurgião em um poema laranja, reivindicado a imortalizar nossa humanidade na música e ilusão.

E agora há apenas buracos brancos na sua mente.




Melissa
Tradução para Melissa
(Emmanuel Mirdad)

Noite. Ela não está dormindo, porque sente o silêncio gritando sonhos ruins; e suas drogas não mentem como seus amigos. Ao menos aquelas mentiras ajudam a dormir como uma idiota, já que as suas drogas sempre trazem velhas memórias de fracasso.

Melissa chorou. Era tão muda a sua vida. Ela não tinha orgulho. Ficava triste toda noite.

Dia. Ela observa sua vizinha e se curva à sua magnífica felicidade. Tão ingênua, deixou que aquela cena fosse tudo o que nunca compreendeu. Agora ela era um pedaço de um complicado quebra-cabeça; ou seria destruída, já que a esquizofrenia é letal, ou sua vida tornar-se-ia uma desconhecida gravidez de si mesma.

Melissa tentou modificar sua vida. Sentiu que havia uma criança. Ela estava grávida de si mesma. Grávida de si mesma.

Ela está grávida, grávida. Sem leite, sem uma criança, sem pai, sem família. Ela só quer nascer de novo. Através de outra chance, ela será mais feliz. Mais feliz.




A Inquietude
Tradução para The Unquietness
(Emmanuel Mirdad)

Um vasto campo acolhe meus sonhos. Acordei muito cedo e estou impressionado com a manhã tranquila que diverte os pássaros, com tanta beleza que aprisionou meus demônios. Estou adormecido sem ter sequer fechado os olhos.

Um vasto campo amplia meus sonhos. Esqueci-me de dar adeus e fiquei mais feliz com isso. Fechei as portas para pular pelas janelas. Como criança percebo e como jovem confundo, e o bom senso conforta como se fosse mãe.

Onde estão os desafios senão em nós mesmos? Onde está a liberdade senão no segredo de dentro? Quando foi a última vez que estive em paz?




Chuva
Tradução para Rain
(Emmanuel Mirdad)

Eu sempre amei quem nunca me amou. Eles/elas sempre foram embora.

Eu nunca confiei em alguém e em minha própria família. Eu sou tão estranho.

Sou sozinho neste mundo, sozinho sem tristeza. Aqui eu posso ser um homem verdadeiro.

Meu Deus sempre foi um lugar sagrado e perdido. Eu odeio quem explica o paraíso.

Minha diversão é ouvir as sombras. O cachorro invisível brinca com meus sonhos.
“Eu não tenho um telefone...”.

Sou sozinho neste mundo, sozinho sem tristeza. Aqui eu posso ser um homem verdadeiro.

Comida e dinheiro são inúteis. Minha música alimenta a minha solidão.
Em breve eu desapareço.
Desapareço.




8/8/88
Tradução para 8/8/88
(Emmanuel Mirdad)

Faça todo sexo que teu fôlego aguentar. Não é permitido ser imoral, mas é bom destruir o proibido. Ser perigoso é divertido e ferir a ética é fama. As pessoas debaixo de suas máscaras realmente gostam disso; todos queriam entupir suas veias ao menos num dia de fúria.

A morte é a próxima porta ao lado do quarto e você se afoga em demandas, acha-se imperfeito. Que se danem os comentários, a moral e a lógica! O medo é ser fantoche da satisfação de tolos. Quem neste mundo de erros está livre de aceitar defeitos?

Como eu queria ser o senhor dos relógios, controlar o tempo e fazer dele vida, não morte. Felicidade sem consequência, sexo e vinho, um envelhecer de descobertas mundanas sem punição, transformando a vida em sopro e a morte em silêncio, apenas. Oh, a canção do jovem poeta!




Correspondências Perdidas
Tradução para Lost Mails
(Emmanuel Mirdad)

Acordar e pensar em nada, há muito que perder o dia todo, agradecer como um robô, concordar com o programa dominante. Reconheço a fragilidade, meus automáticos de sempre.

A melhor criação do seu domínio. Todo o ar que me habita e foge cheira a náusea; são as flores no caminho a dissolver pedaços da prisão. Um furacão vasculha as opções e me traz o sono em forma de neve. Lamento apenas pelo cinza acima de minha fuga partida

Poesias rondam a atmosfera; é Dali a torcer os ponteiros. Correspondências perdidas retornam da Espanha a modelar os sonhos. Na minha loucura eu beijei uns sapos, calei os críticos com conto de fadas. Clarice tossiu e eu vi o mar: o suicídio abstrato.

Enlouqueço a bomba-relógio e o insensato é a fantasia do herói. Tudo o que é escondido tem um triste fim. A águia sobrevoa as ruínas e a areia lhe traz sede. Só há lama no oásis da liberdade.




Nuvens, Sonhos
Tradução para Clouds, Dreams
(Emmanuel Mirdad)

Eu preciso de muitas nuvens, não quero interpretar mal o meu horizonte, penso que a monotonia me deixa doente; as nuvens sempre me trazem paz e paraíso.

Oh meu bom pai, poesia, talvez em silêncio, razão dos temores. Piedade, curvarei meu ego. Preciso tentar, não há mais dúvidas. Socorro, estou enlouquecendo!

Ou o pai é o dono dos sonhos, ou o mal é a real vida material. Ou o pai é uma criança brincalhona, velha criança, ou o mal é um grande fracasso.

As nuvens trazem o céu para mim. Eu olho e adivinho as bênçãos dos antigos. Todos estão na borda da nuvem mais frondosa; pedem para que eu guarde as asas em palavras.

Oh meu bom pai, poesia, talvez em silêncio, razão dos temores. Piedade, curvarei meu ego. Preciso tentar, não há mais dúvidas. Socorro, estou enlouquecendo!

Ou o pai é o dono dos sonhos, ou o mal é a real vida material. Ou o pai é uma criança brincalhona, velha criança, ou o mal é um grande fracasso.




Homenagem
Tradução para Homage
(Emmanuel Mirdad)

Estrelas caem pelos latidos covardes de cachorros. A noite cai ao meio-dia para quem flutua no céu. O nível cai quando sobe o preço da dignidade. Cinzas caem sobre cabeças de baixo nível.

As razões caem da fumaça dos discos de Marley. Dentes caem ao escalar a torre das amputações. O preço da salvação cai ao se proliferarem caricaturas de Cristo. Petecas caem do alto da fogueira das vaidades.

Cachorros sobem à fama para derrubarem estrelas. O céu sobe às veias pelas agulhas de quem só conhece a noite. Preços sobem quando o nível de competência está alto. O nível sobe quando o cabelo se torna cinza.

Discos sobem na Billboard devastando o juízo musical. A torre sobe enquanto dentes destroçam lixo na esquina. Jesus Cristo subiu e sumiu; o preço da Matrix de Deus. A fogueira sobe, incendiando-nos, petecas da existência, homenagem.




O Andarilho da Ilusão
Tradução para Illusion’s Wanderer
(Ildegardo Rosa)

Para que direção corre o curso da vida? Para cima, para baixo, para um lado, para o outro, para frente ou para trás? Ou corre para lugar nenhum? Então, observe apenas, não interrompa e nem interfira. Deixe-o simplesmente correr, não importa para onde. O que importa é estar nele, é ser ele mesmo, pois esse é o nosso destino, a nossa eterna condição. Não te arremesses no amanhã, no que desejas vir a ser, nem te agarres no passado, no que já foi e não voltará; são meras fugas e ilusões. O que tu tens de concreto e não importa o que te aconteças é este instante; não tentes escapar dele, viva-o com plenitude e coragem. Esgote-o! Ele é a tua única realidade, mesmo que nada seja real.

Por que se agarrar à vida? Agarrar-se à vida é perdê-la. A vida é um processo. É um fluxo eterno. É um estar indo, não importa para onde, mesmo se for para lugar nenhum. Vá com a vida. Deixa de olhar para o teu umbigo como se fosse o centro do mundo. O teu destino pessoal não tens a mínima importância, pois tu és apenas um fenômeno passageiro e ilusório, uma emanação do que és, sempre foste, e sempre serás: a eterna existência. Desperta, homem! Aí então saberás que esta eternidade és tu mesmo e tudo mais que existe. Não penses que o mundo gira em torno de ti! Quão pequenina e fugaz é a tua megalomania dentro da Natureza. Enquanto estiveres cheio das tuas coisas, tesouros, paixões, posses, desejos, sofrimentos, deuses e ilusões, enfim, do teu próprio ego que carregas em vão, tu estarás no NADA, no sem sentido, na ilusão.

Corri como um louco em busca da felicidade e trouxe apenas as mãos vazias pendentes de ilusões. Caminhei então, devagar, em busca do meu próprio destino e hoje trago as mãos cheias carregadas de vida. Me aconteci, me manifestei, me existi. Sou um ser que está fora. Para fora estão os meus olhos que percebem as ilusões do mundo. De fora entra o ar que respiro e mantém o meu alento. Lá fora é que estão o céu e o inferno, os santos e os demônios, os que me envolvem de amor e os que me sufocam de tanto ódio. Como então posso retornar para dentro? Desde o princípio que nunca principiou, pois sempre foi, é e será, eu sou. Não há caminho a se percorrer, algum Deus a se buscar ou iluminação a se alcançar. Tudo já está pronto como sempre esteve. Apenas abra os olhos porque então o desmistério acontece, se revela o que era irrevelado, face à minha ignorância, minhas perdições, meus pecados, minhas ilusões! Desde o princípio eu sou.

Porque não existe nem o dentro, nem o fora, apenas o ser aqui e agora. De que estão se busca sentido? Eu venho de lugar nenhum e vou para nenhum lugar.

Agora deixarei o mistério acontecer por si mesmo e se auto desvelar a cada instante por toda a eternidade. Agora relaxarei profundamente e cessarei essa tentativa ansiosa, desesperada e sofrida de querer desvelar o mistério e tudo ser em vão. Agora viverei a vida que está presente e que a cada instante acontece e desacontece, não importando seu destino e sua razão de ser.

Não olhes para o alto em busca de soluções porque o alto é apenas uma distância vazia e inexpressiva. Não olhes para a esquerda ou para a direita porque são apenas posições relativas. Não olhes para trás, pois apenas entortarás a cabeça em busca de um passado que não retorna jamais. Não olhes para frente, pois seguirás em vão tua estrada sem rumo e sem destino que te conduzirás à morte. Olhe então para dentro de ti, pois ai estará a solução. De que? Só tu saberás!

Eu sei (ou quase sei) que estou lá ou aqui – pouco importa. O mundo é uma ilusão.

Música de Emmanuel Mirdad




Faca da Criança
Tradução para Child’s Knife
(Emmanuel Mirdad)

Meu sol é laranja, duas faces similares, o nascer e o pôr-do-sol, a vida e a morte...

A criança modifica o sol, o céu de muitos lados; em cada raio existe um amigo, espíritos confusos, necessidades perdidas...

Uma faca em sua mão, talvez queira cortar seu elo e espírito incerto. Eu me vejo em seus olhos, vejo que a morte manipula a vida e eles querem conversar com a criança, é uma conversa animada entre velhos amigos. A criança nunca mentiu, o elo é muito frágil. Seus amigos querem viver através da inocente criança. Estranho mistério, estranho mistério aquela faca da criança...

Meu poema é laranja, não posso terminá-lo, não posso morrer hoje, eu verei tudo para sempre. As brincadeiras são as questões, a criança responde com sonhos, alguns mundos são tão desconhecidos, quem entenderá a dança de Deus?

O sol ilumina todos os lados, a luz laranja é o único caminho, à noite a conversa é perigosa, sombria. De qualquer forma a criança está armada...

Talvez queira cortar o elo, talvez queira cortar sua própria garganta, mistério estranho, mistério estranho, aquela faca da criança...




Nem Deuses, Nem Demônios
Tradução para Neither Gods, Nor Devils
(Emmanuel Mirdad)

Eu peço canções em vez de discursos, irmãos sem inimigos, sexo com devoção. Vamos matar todos os ícones e soterrar seu legado, as máscaras para as festas, as faces para os espelhos.

Eu peço orgulho a qualquer verso escrito, extermine a influência, seja você mesmo. Não há evolução, não acredite em prêmios. O gigante é o silencioso ser para si

Eu peço que a ilusão seja tão fatal. Qualquer mundo existe, o problema é liberdade. Retalhos de tecido surrado, é impossível costurá-los, mas não é preciso esmagar ninguém que esteja tão distante do credo que é cego e seu.




Canção Adeus
Tradução para Farewell Song
(Emmanuel Mirdad)

Olhe para os lados, todos estão chorando, há tanta dor. Todos estão dizendo adeus, partindo para longe de seus pais, amigos, queridos e crianças.

A terra ou o fogo querem as lembranças da carne. E se você chora e abandona a rotina é porque não respeita a vontade dos mortos em querer que viva os segundos como anos, já que tudo que pulsa é tesouro e os restos dos mortos estão cheios de adeus.

Seu pai lhe quer erguido e sábio. Sua mãe pede amor aos que repousam. Seus amigos sorriem nos retratos felizes das lembranças que não passam, mas se tornam uma nova chance nesta vida.




Um e Três
Tradução para One and Three
(Emmanuel Mirdad)

Hoje eu vi um retrato nos olhos do universo, era púrpuro, vermelho, cores assim, parecia com os rabiscos do meu caderno de versos...

Algo como uma dança indiana, fumaça da Jamaica, pedaços do passado, um e três pensamentos, escultura em adeus... Adeus... Adeus...

Uma colherada de espinhos, melodia esquisita num cristal, paranoia sem sexo. Eu não posso explicar, eu não posso explicar, eu não posso explicar. Um e três perdidos, um e três perdidos, um e três perdidos...

Hoje eu vi um verso nos dedos do universo, era árabe, chinês, palavras assim, parecia com as manchas do meu álbum de notas...
Algo como uma canção celta, demônios da Tasmânia, uma chuva de Baltimore...
Poesias em conflito nas orações dos retratos, teus sussurros cantando a partitura de renda...
Um e três argumentos, sinfonia numa tempestade, cantada por almas de três pequenos abrigos...
Um só, um, apenas... Um só, um, apenas... Um e três, um e três e eu, uísque e um amor furtivo...

Música de Fábio Vilas-Boas e Emmanuel Mirdad




Brilhante
Tradução para Shining
(Emmanuel Mirdad)

Às vezes eu me sinto tão mudo, um silêncio que arrisca um sentido ao nada. Torno-me só para não respirar. O que enlouquece é a necessidade de estar. Brilhante Relâmpago, vá explodir longe daqui.

Às vezes eu me sinto tão entorpecido, o sistema selvagem, o ser, a vida vasta. Há muito que fazer, mas eu não quero. O problema é que tenho dívidas. Brilhante Relâmpago, é preciso sorrir

Onde está minha mão amputada, a violar misericórdia em páginas?
Onde está o sentido de existir a suicidar os presentes?
Quem irá me trazer as crenças para que então eu as esqueça?
Quem é o ser que apodrece o ser criado por mim?

Às vezes estou negro, as cores que perfuram as mentes, a minha galáxia que perturba meus grilhões; uma pena que seja tão rápido. Brilhante Relâmpago, me faça mentir.

Música de Emmanuel Mirdad, Artur Paranhos, Marcus Zanom, 
Hosano Lima Jr. e Fábio Vilas-Boas




A Abelha Verde
Tradução para The Green Bee
(Emmanuel Mirdad)

Não importa se a dúvida me persegue desde que aprendi o significado de minha existência. Não interessa justificar meus atos, resgatar opções descartadas sobre desejos frustrados. Pro inferno com o arrependimento, estou pronto para desafiar minha prudência e firmeza. A abelha verde.

A armadilha me espera na próxima rua.

Anseio por equilíbrio, mas o caminho está acenando, ainda há espaço, na minha decisão, o covarde. É muito difícil acreditar na segurança do impulso, mas a fé existe para “doutrinizar” o medo. Deus me protege do sangue frio, meus braços já pedem um apoio em vez do avanço. A abelha verde.

A armadilha me espera na próxima rua.




Questão Dúbia
Tradução para Dubious Question
(Emmanuel Mirdad)

O que seria do diamante sem o Syd e os cães sem o estranho em casa?
O que seria do paranoico sem a multidão e o medo sem a vida moderna?

Hey! Dúbias papoulas entrelaçadas.
Hey! Dúbio olhar permanente.

O que seria do mal-assombrado sem o céu de chumbo e a fome sem o desejo e a ambição?
O que seria da escadaria sem as águas geladas subterrâneas e o observador sem a escuridão?

Hey! Dúbia manhã nublada.
Hey! Dúbio verão sem fim.

O que seria do lunático sem o coelho e o preço sem a consciência dos homens orgulhosos?
O que seriam dos labirintos sem os ecos e a noite morna sem os sinos distantes?

Hey! Dúbio Dr. Estranho.
Hey! Dúbio olho da brisa.

O que seria concluído sem a falta e quem seria salvo sem alguém para amá-lo?
Talvez ninguém viria sem alguém ir e às ilusões dúbias o tolo emergir...

Hey! Dúbia questão psicodélica.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Orange Poem lança o álbum duplo virtual Hybrid na quinta 02/10



Pense que num mesmo disco você pode encontrar as vozes de Glauber Guimarães (ex-Dead Billies), Teago Oliveira (Maglore), Nancy Viégas (Radiola) e Mauro Pithon (ex-Úteros em Fúria), e que apresenta a sensível voz folk de Rodrigo Pinheiro. E que, por mais inacreditável que pareça, tem a ilustre presença da voz de floresta, ancestral, do mestre septuagenário Mateus Aleluia (ex-Os Tincoãs), um dos mais importantes e referenciais artistas da música afro-baiana. Que disco é esse?

Trata-se de Hybrid, álbum duplo da banda de blues psicodélico & rock progressivo Orange Poem, de Salvador, Bahia, que será lançado na internet na próxima quinta, 02 de outubro. Produzido pelo multifuncional Emmanuel Mirdad, curador e coordenador da festa literária Flica, o álbum foi gravado pelo experiente e talentoso Tadeu Mascarenhas, do estúdio Casa das Máquinas, responsável pela gravação de vários discos da nova música baiana, como “Vamos Pra Rua”, da Maglore, e “Chega de chorar de amor!”, de Marcela Bellas.

As dezoito canções foram lançadas digitalmente no Soundcloud da banda durante o ano, divididas em seis EPs, com uma bela arte gráfica assinada pelo também designer Glauber Guimarães, responsável pelo visual do poema laranja. As músicas são quase todas de Emmanuel Mirdad, exceto por três parcerias com a banda, seu pai e o guitarrista laranja Saint. Como o próprio nome sugere, as letras são poemas em inglês, que tratam da condição humana, indagações, conflitos do íntimo, transcendências, angústias, revelações e relações espirituais, com algumas homenagens a ícones como Raul Seixas, Pink Floyd, Clarice Lispector e Salvador Dalí.


Nancy Viégas, Glauber Guimarães e Maurão Pithon gravam no Orange Poem


VOCALISTAS

O cantor e compositor Glauber Guimarães (ex-Dead Billies e atual Teclas Pretas e Glauberovsky Orchestra), com sua voz de facão e timbre peculiar, gravou o blues “Rain”, a estradeira “Farewell Song” e a mãe da Orange Poem, a psicodélica “Last Fly”. A cantora, compositora, produtora e múltipla artista Nancy Viégas (atual Radiola e ex-Crac! e Nancyta e os Grazzers), considerada uma das divas do rock baiano (ao lado de Pitty e Rebeca Matta), topou o desafio de gravar num tom bem mais grave que o seu e mandou ver na interpretação do blues “Wideness” e da psicodélica “Lost Mails”, e da única música composta até então pela Orange Poem, o groove rock progressivo “Shining”. Completando a tríade sagrada do rock baiano, o cantor Mauro Pithon (Úteros em Fúria e Bestiário), dono de uma voz furiosa, potente e rasgada, gravou as músicas da face pesada do poema laranja: o hino de taverna alemã “Child’s Knife”, a metaleira “The Green Bee” e a parceria entre Mirdad e Saint, o hard rock estradeiro “One and Three”.


Teago Oliveira e Rodrigo Pinheiro gravam no Orange Poem


Da nova geração do rock e música alternativa da Bahia, o cantor e compositor Teago Oliveira, da banda Maglore, atualmente radicada em São Paulo e um dos principais nomes em atividade no país, gravou de maneira totalmente inusitada a piano progressiva “8/8/88”, a psicodélica épica “Melissa” e a experimental progressiva-psicodélica nervosa “Dubious Question”, uma homenagem a músicas do Pink Floyd com vocal de motosserra. Além de Teago, também gravou na Orange Poem o cantor Rodrigo Pinheiro (ex-Besouros do Sertão), que interpretou com sua voz folk a bela canção psicodélica “The Unquietness”, a estradeira progressiva “Neither Gods, Nor Devils” e “Homage”, que traz uma homenagem ao grande Raul Seixas.


Mateus Aleluia grava no Orange Poem


Completando os convidados especiais do álbum Hybrid, a honra da presença da voz aveludada, forte, de floresta e ancestral do cantor e compositor baiano Mateus Aleluia (ex-Os Tincoãs), 70 anos, um dos mais importantes e referenciais artistas da música afro-baiana, que encontrou o som progressivo e psicodélico do Orange Poem e inaugurou, de primeira mão, o som “ancestrodélico”.

"Encontrei Seu Mateus gravando umas músicas no estúdio de Tadeu e depois de uma boa conversa, sugeri que gravasse umas canções laranjas, pois a psicodelia é transcendental, assim como a voz do mestre cachoeirano. Para minha surpresa, ele topou, depois de ouvir o som e achar interessante, gostar das letras. Foi inacreditável ele aceitar assim tão de boa, na maior humildade. Fiquei impressionado, é uma honra imensa pra mim e para o poema laranja", ressalta Emmanuel Mirdad, produtor.


The Orange Poem
Em cima: Marcus Zanom, Emmanuel Mirdad e Hosano Lima Jr.
Embaixo: Saint, Artur Paranhos e Tadeu Mascarenhas


A BANDA

De 2001 a 2007, a Orange Poem apresentou sua singular sonoridade baseada no psicodélico rock progressivo em inglês, com pitadas de blues, folk, groove e hard rock setentista. Formada por desconhecidos do cenário do rock baiano (e até entre si mesmos), conduzida pelo multifacetado Emmanuel Mirdad (escritor, compositor e produtor da Flica), foi uma banda guitarreira de canções autorais do seu produtor e então cantor. Marcus Zanom e Saint, guitarristas tão antagônicos de estilo, combinaram como yin-yang seus timbres em solos de puro feeling ou velocidade intensa. Na gruvada cozinha laranja, a segurança e técnica dos músicos Hosano Lima Jr. (baterista) e Artur Paranhos (baixista).

Pertencente à geração 00 do rock baiano, de bandas cantando em inglês como The Honkers e Plane of Mine, a Orange Poem gravou dois discos no estúdio Casa das Máquinas, de Tadeu Mascarenhas. “Shining Life, Confuse World”, o primeiro, chegou a ser prensado e lançado no extinto World Bar em 2005, de forma totalmente independente, sem gravadora nem selo. A banda optou por não trabalhar a divulgação dele e partiram pra gravar o seguinte, “Sleep in Snow Shape”, que foi concluído no final de 2006, poucos meses antes da banda acabar em março de 2007. Não chegou a ser lançado, e os membros se mudaram pra estados distintos.


Orange Poem por Glauber Guimarães


A NOVA FASE

Depois de sete anos cabalísticos, Mirdad retomou o som laranja com a inusitada proposta de várias vozes distintas. “Pra que ter um vocalista fixo? O original, por exemplo, comprometeu as músicas e merecia ter sido demitido”, comenta ironicamente, pois era ele mesmo o tal vocalista ruim. Devido à velocidade da contemplação moderna, que não tem mais o tempo para apreciar os álbuns com dez, doze músicas, o produtor decidiu investir no lançamento de EPs com três músicas cada, com a novidade de uma nova voz a cada lançamento.

As músicas foram gravadas entre 2005 e 2006 e estavam engavetadas desde o fim da banda. Com a volta da Orange Poem, as músicas ganharam uma nova mixagem e a presença do novo membro da banda: o tecladista Tadeu Mascarenhas, responsável pelos sintetizadores, piano e outros instrumentos que temperaram mais ainda a psicodelia do som laranja. Engenheiro de som das gravações e co-produtor das músicas, Tadeu sempre orbitou pela banda e topou fazer parte do grupo. “Somos amigos há 10 anos, curtimos as sequelas criativas proporcionadas pelo poema, e como a Orange é uma banda de estúdio, não interfere em sua agenda concorrida”, informa Mirdad.

Foram seis EPs lançados em 2014, com as vozes de três cânones do rock baiano (Glauber Guimarães, Nancy Viégas e Mauro Pithon), dois cantores da nova geração (Teago Oliveira e Rodrigo Pinheiro) e do septuagenário mestre afro Mateus Aleluia, dos Tincoãs. “Como produtor, estou realizado!”, celebra Mirdad, que antecipa os próximos passos: “Tínhamos projetado compilar os EPs num CD duplo físico e fazer um show de lançamento no final do ano, mas analisei melhor a proposta e decidi que, ao invés de ter uma carreira normal de banda com uma banda que não é normal seria desperdiçar dinheiro. Melhor é transformar os EPs em um filme musical, muito mais a ver com o som laranja, que é totalmente cinematográfico”. Ou seja, para ver ao vivo o Orange Poem só na telona. Mas quando será isso? “Mais à frente, pois todos nós sabemos que fazer cinema de arte no Brasil é trabalhar com o prazo bem longo”.

O álbum duplo Hybrid, que reúne os seis EPs da Orange Poem, estará disponível para audição e download a partir da quinta 02/10 no Soundcloud da banda: www.soundcloud.com/theorangepoem

|||||

AS CANÇÕES

CD 01

Cuts
(Emmanuel Mirdad)

Blues épico de mais de 10 minutos que traz no poema a constatação dos cortes que a humanidade faz em sua própria carne frágil. O nobre Mateus Aleluia interpreta a canção com o pesar grave do blues, filho do banzo e da diáspora forçada dos africanos durante a abominável escravidão. Na maior parte da canção, os ricos arranjos do baixista Artur Paranhos, a segurança do baterista Hosano Lima Jr. e a linda performance sentimental dos solos do guitarrista Zanom (acrescidos da cama harmônica do piano de Tadeu Mascarenhas na 2ª parte). No refrão psicodélico e mântrico, o clímax do coro de sete vozes e o slide etéreo do guitarrista Saint.

Last Fly 
(Emmanuel Mirdad)

Feita em agosto do ano 2000, é a mãe do poema laranja, a composição que originou a proposta de montar uma banda psicodélica progressiva em inglês. Traz uma jornada introspectiva de um ser angustiado, que se depara com a infância problemática. Tem a participação psicodélica em risadas do primeiro baixista da banda, Rajasí Vasconcelos, irmão de Larriri Vasconcelos, baixista da Radiola.

Wideness
(Emmanuel Mirdad)

Blues progressivo, com tempero psicodélico, espaço democrático de improvisação dos músicos laranjas e uma diva bluesy na voz. Foi a primeira composição de Mirdad, iniciada em julho de 1997, e só concluída agora, após diversas versões e mudanças de melodia (a 1ª estrofe é a única que se mantém idêntica à versão original). O poema fantasia um diálogo entre um psicólogo e seu paciente, que introspectivamente é ele mesmo, o reflexo de um espelho quebrado e agonizante.

Melissa
(Emmanuel Mirdad)

Representante fiel da psicodelia progressiva laranja, é minimalista nos detalhes e efeitos de guitarra de Zanom e Saint e nas interpretações vocais a la Seattle de Teago Oliveira. É um blues avançado, com refrão clássico e posfácio pesado, considerada uma das cinco melhores músicas da Orange Poem. O poema é uma homenagem à Clarice Lispector; Melissa é uma Macabéa alaranjada.

The Unquietness
(Emmanuel Mirdad)

Uma das mais belas do repertório, com destaque para os belos arranjos dos guitarristas Zanom e Saint, essa progressiva balada é o pilar mais forte da face “Floyd” da banda - nos ensaios, a Orange Poem desligava todas as luzes do estúdio e decolava para uma outra galáxia. Inquieto ser que abre a janela e se questiona: devo atirar-me à busca no mundo ou aprofundar-me no casulo de minhas dúvidas surdas?

Rain
(Emmanuel Mirdad)

Blues depressivo, de cadência progressiva e angustiante. O poema é um retrato da solidão de um ser por escolha, por exclusão, que não significa sofrimento, e sim a sobrevivência de sua integridade e caráter. O destaque fica para os excelentes solos bluesy de Zanom. Tem a participação de Tadeu Mascarenhas no sintetizador e no piano, e do músico Gabriel Franco nos berros finais da canção.

8/8/88
(Emmanuel Mirdad)

Primeira faixa que destaca o piano na Orange Poem, representa bem sua face progressiva, em três atos: revelação (psicodelia com piano, guitarras e baixo), introspecção (piano e voz em tom menor) e elevação (piano, voz, sanfona e guitarra portuguesa em tom maior, alegre). Destaque para o sentimento do piano de Tadeu Mascarenhas e a bela interpretação do cantor Teago Oliveira. Os versos trazem a urgência da juventude em viver o máximo que puder, enquanto o tempo não traz o envelhecimento inevitável.

Lost Mails
(Emmanuel Mirdad)

Psicodelia progressiva, bem ambientada por belos efeitos de guitarra (lembram desde arranjo oriental a um cello suave e harmônico) e uma interpretação fluida nos momentos suaves e forte/rasgada nos momentos altos. Os versos tratam de algumas automações de uma vida moderna, de correspondências perdidas, poesias ao redor e referências artísticas como Salvador Dalí e Clarice Lispector.

Clouds, Dreams
(Emmanuel Mirdad)

Etérea progressão de tom menor para maior construída pela combinação de vários vocais entoados como um cântico espiritualista, violão 12 cordas, riffs e slides psicodélicos e a potente voz de floresta de Mateus Aleluia, com o seu grave de chão, terra, e o seu agudo de folhas e vento. O poema é de devoção, um ser que ajoelha o ego e confunde-se entre o bem e o mal, guiado por uma fé enigmática.

Homage
(Emmanuel Mirdad)

O poema traz uma homenagem a uma foto de Raul Seixas, que profetizava o que iria cair e o que iria subir; Mirdad pegou as palavras e desenvolveu as relações e causas das quedas/subidas. Nos arranjos, destaque para o sintetizador de Tadeu Mascarenhas e um jeito peculiar de tocar guitarra, com a ‘marimba’ de Zanom e os ‘teclados’ de Saint.

Illusion's Wanderer
(Ildegardo Rosa / Emmanuel Mirdad)

Uma ode ao despertar do homem, com a voz do poeta e filósofo Ildegardo Rosa (1931-2011), o Mestre Dedé, recitando em português uma compilação de catorze poemas seus elaborada pelo filho Emmanuel Mirdad, compositor da harmonia. Pela primeira vez na Orange Poem, além da língua pátria ao invés do inglês, a faixa apresenta Zanom na sanfona psicodélica ao invés da guitarra. O cantor e compositor Mateus Aleluia apresenta o poeta Mestre Dedé e faz vários vocalizes na parte épica-progressiva da música.

CD 02

Child’s Knife
(Emmanuel Mirdad)

Batizado de “hino de taverna alemã”, traz uma sonoridade festiva com nuances harmônicos, marcada pelo riff adesivo criado por Zanom. Em contrapartida à celebração da melodia e do ritmo, o poema traz a profundidade de um duelo espiritual: a criança, armada com uma faca, está dividida entre a sedução de continuar viva (cortar o elo) e o desejo do reencontro pós-morte (cortar sua garganta). No final experimental, a música traz o poema “Les Autres”, do santamarense Herculano Neto, recitada na fusão de vozes humana e robótica (o vocalista Mauro Pithon e a voz do Google Translate).

Neither Gods, Nor Devils
(Emmanuel Mirdad)

Flertando com os anos 80, traz uma sonoridade diferente da obra laranja: um progressivo que mistura U2 com The Cure, além de uma homenagem à surf music de Dick Dale. O poema é um relato de um inconformado, disparando contra a reprodução a esmo ao invés da própria criação, que pede canções ao invés de discursos, propõe matar todos os ícones e soterrar seu legado, e sentencia: não há evolução.

Farewell Song 
(Emmanuel Mirdad)

Blues estradeiro, com passagens psicodélicas e teatrais. Os versos são locados em um funeral, e o personagem da canção ouve a voz que guia a narrativa, passando por três momentos: morte, purgatório e redenção. Mais uma participação de Tadeu Mascarenhas no sintetizador.

One and Three
(Emmanuel Mirdad / Saint)

Hard rock estradeiro, é construída em cima de um riff setentista, com o peso firme de uma cadência excitante. É a única parceria musical entre Mirdad (poema e melodia) e o guitarrista laranja Saint (riff e harmonia). Destaque para os seus solos velozes e flutuantes e a voz de motosserra de motor cabra macho de Mauro Pithon. O poema é uma desvairada retratação de um pôr-do-sol, o indivíduo e a tríade divina.

Shining
(The Orange Poem)

Primeira composição em conjunto do poema laranja, traz uma sonoridade diferente, um groove rock com solos diversos, do nervoso ao suingue, do blues-rock ao sintetizador psicodélico, intercalando com o groove pesado do baixo e muita plasticidade e rítmica nas interpretações vocais.. O poema traz aquele ocasional “às vezes eu me sinto” que sempre nos interfere e provoca sérias reflexões internas.

The Green Bee
(Emmanuel Mirdad)

A marca desta composição, considerada a mais elaborada de Emmanuel Mirdad no repertório laranja, é a sua harmonia baseada em riffs, com pegada de heavy metal, que traz o primeiro contato do Orange Poem com o jazz, de forma breve e experimental. Destaque para a velocidade e força dos solos de Saint e a voz brutal e furiosa de Mauro Pithon. O poema fala de um ser que ousa encontrar o sentido da vida e simplesmente não dá a mínima às ameaças do mundo que insiste em aprisioná-lo. Na parte jazz, a música traz a voz do filósofo e poeta Ildegardo Rosa, gravada em 2009, recitando o melhor pedaço do seu poema “A Tirania das Formas” (pai de Mirdad, faleceu no final de 2011).

Dubious Question
(Emmanuel Mirdad)

A função da canção era permitir que a improvisação e a experimentação da Orange Poem corressem soltas; a banda nunca a tocou de uma mesma forma. Destaque para o solo de bateria de Hosano Lima Jr., a cama múltipla de efeitos dos guitarristas Saint e Zanom, o solo de violão reverso do convidado Rajasí Vasconcelos, primeiro baixista laranja, e a interpretação nervosa a la Motörhead de Teago Oliveira. O poema é uma homenagem a dezessete músicas do Pink Floyd; a cada verso, uma lembrança de canções como "Dogs" e "Brain Damage", "Grantchester Meadows" e "Cymbaline", entre outras.

|||||

HYBRID (2014)

Produzido por Emmanuel Mirdad

CD 01
Psychedelic

01. Cuts (BR-N1I-14-00014)
02. Last Fly (BR-N1I-14-00002)
03. Wideness (BR-N1I-14-00008)
04. Melissa (BR-N1I-14-00018)
05. The Unquietness (BR-N1I-14-00005)
06. Rain (BR-N1I-14-00003)
07. 8/8/88 (BR-N1I-14-00017)
08. Lost Mails (BR-N1I-14-00009)
09. Clouds, Dreams (BR-N1I-14-00015)
10. Homage (BR-N1I-14-00007)
11. Illusion's Wanderer (BR-N1I-14-00016)

Todas as composições de Emmanuel Mirdad, exceto "Illusion's Wanderer", de Ildegardo Rosa e Emmanuel Mirdad

CD 02
Rock

01. Child's Knife (BR-N1I-14-00011)
02. Neither Gods, Nor Devils (BR-N1I-14-00006)
03. Farewell Song (BR-N1I-14-00004)
04. One and Three (BR-N1I-14-00013)
05. Shining (BR-N1I-14-00010)
06. The Green Bee (BR-N1I-14-00012)
07. Dubious Question (BR-N1I-14-00019)

Todas as composições de Emmanuel Mirdad, exceto "One and Three", de Emmanuel Mirdad e Saint, e "Shining", de Emmanuel Mirdad, Artur Paranhos, Marcus Zanom, Hosano Lima Jr. e Fábio Vilas-Boas.

The Orange Poem

Mirdad - violão 12 cordas, gritos e backing vocal
Marcus Zanom - guitarra e sanfona
Hosano Lima Jr. - bateria
Saint - guitarra
Artur Paranhos - baixo
Tadeu Mascarenhas - piano, sintetizador, órgão, guitarra portuguesa, sanfona e guitarra

Convidados especiais

Mateus Aleluia - voz em "Cuts" e "Clouds, Dreams", backing vocal em "Illusion's Wanderer"

Glauber Guimarães - voz em "Last Fly", "Rain" e "Farewell Song"

Nancy Viégas - voz em "Wideness", "Lost Mails" e "Shining"

Teago Oliveira - voz em "Melissa", "8/8/88" e "Dubious Question"

Rodrigo Pinheiro - voz em "The Unquietness", "Homage" e "Neither Gods, Nor Devils"

Mauro Pithon - voz em "Child's Knife", "One and Three" e "The Green Bee"

Ildegardo Rosa (in memoriam) - voz em português em "Illusion's Wanderer" e "The Green Bee"

Rajasí Vasconcelos - backing vocal e violão reverse em "Dubious Question", risadas em "Last Fly"

Gabriel Franco - grito em "Rain"

"Illusion's Wanderer" contém fragmentos de 14 poemas de Ildegardo Rosa, montados por Emmanuel Mirdad

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Pílulas: Opinião, de Mãe Stella de Oxóssi

Mãe Stella de Oxóssi (foto: Iraildes Mascarenhas - interferida por Mirdad)


Mãe Stella, quinta Iyalorixá do tradicional terreiro/templo Ilê Axé Opô Afonjá – Bahia, reúne neste livro seus artigos publicados no Jornal A Tarde, na página Opinião. Sem nenhum desejo de doutrinar os leitores, uma vez que este não é o objetivo da religião em que foi iniciada aos catorze anos e da qual é sacerdotisa desde mil novecentos e setenta e seis, ela apenas pretende cumprir uma Lei Universal que, de maneiras diversas, é pregada por todas as religiões: a Lei da Troca. Assim, Mãe Stella de Oxóssi transmite o que aprendeu e continua aprendendo, com os deuses, com os homens, enfim, com a vida. Mais info aqui.




Parte I
Leia aqui

"Quando aponto um dedo para o outro, eu tenho quatro apontados para mim"






Parte II
Leia aqui

"Por mais idade que se tenha, ninguém é sábio suficiente para que não continue sendo um permanente aprendiz"





Mãe Stella de Oxóssi
(2012)
124 pg
Preço: consulte no opoafonja@gmail.com


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Pílulas: Òṣóṣi - o caçador de alegrias, de Mãe Stella de Oxóssi

Mãe Stella de Oxóssi (foto: Iraildes Mascarenhas - interferida por Mirdad)


"Os africanos não concebiam a existência de uma maldade genuína e nem tão pouco de uma bondade absoluta. Na sua visão, o dualismo é inerente a todo e qualquer ser, sagrado ou profano. Desse modo, não existia a mínima possibilidade de um africano conceber o oríṣa Èṣu da mesma forma que um cristão concebe Satanás. Enquanto este último é a expressão da maldade genuína que se opõe à infinita bondade de Javé - o Deus Supremo na teologia judaico-cristã, Èṣu tanto atua beneficamente, favorecendo àquele que não negligencia com as divindades, quanto atua maleficamente, punindo os negligentes que põem em risco o equilíbrio da harmonia no universo"


"Tudo o que a nossa religião professa advém da natureza. Os nossos dogmas não foram ditados por um Deus distante, eles são aprendidos na interação homem/divindade através da natureza, pois os nossos deuses sempre usaram essa interação como forma de expressão"


"Colonizadores, através da catequese, adulteraram a concepção original acerca dos oríṣa, deturparam os conceitos quanto aos cultos, corromperam o que havia de mais sublime na religião e cultura de toda uma nação. Os oríṣa deixaram de ser divindades e foram relegados à posição de demônios nefastos. À força, outros deuses foram sendo impostos como salvadores de alma, ao tempo em que o africano era condenado, quando não à barbárie, à degradante condição de animais escravos, sem sequer lhe ser dado o direito de possuir alma"


"Graças ao sincretismo com o cristianismo, as degradações dos nossos conceitos mais puros se expandiram, nossos preceitos tornaram-se depreciativos e com isto arraigou-se um preconceito pejorativo capaz de fazer com que, ainda hoje, muitos afro-descendentes neguem a sua ancestralidade e tantos outros conduzam de forma desprezível o legado dos nossos ancestrais. Contudo, o àṣẹ - a pedra fundamental da religião dos oríṣa - resistiu através da convicção religiosa de grande parte desse povo e, persistindo até hoje em nós, seus descendentes, me permite, nesse momento, mostrar com seriedade, dedicação e o devido respeito à autêntica tradição, um pouco da realidade desse nosso universo"


"A morte realmente não é um fim e sim uma travessia para uma nova etapa que se impõe como a única certeza dos que estão vivos e para a qual é preciso se preparar, a cada dia, aprimorando o caráter, conduzindo a vida com dignidade, observando os preceitos sociais e religiosos para honrarmos os compromissos assumidos"


Mãe Stella de Oxóssi
(Fundação Pedro Calmon/2011)


"Tanto os oríṣa do povo de língua yorubá quanto os voduns do povo de língua fon ou jêje, assim como os inkisses do povo de língua bantu são concebidos como seres primordiais, expressões divinas das forças da natureza, um poder imaterial que só se torna perceptível aos seres humanos através do fenômeno da incorporação. A todos são feitas oferendas e sacrifícios, são endereçados cânticos de louvor; todos possuem saudações ritualísticas específicas e seus mitos apresentam praticamente os mesmos motivos"


"Se considerarmos o fato o caçador ser o dono da terra, o fundador da tribo, o provedor de alimentos, defensor, legislador, médico, feiticeiro e tudo o mais que ele exprime, compreenderemos a associação existente entre o oríṣa Òṣóṣi e a abelha ... Assim como o caçador, a abelha é o símbolo da interação entre os reinos animal e vegetal, sendo o mel o mais puro produto de natureza orgânica oriundo da interação entre esses dois reinos. A colmeia é, a um só tempo, uma aldeia e uma comunidade secreta"


"A flecha, pela função que exerce, tornou-se um símbolo do intercâmbio entre o céu e a terra, da ultrapassagem de condições normais. O fato de atingir um alvo evoca o alcance de um objetivo, uma realização rápida, quase instantânea, o que a torna um símbolo do pensamento que conduz à luz e ao órgão criador. A flecha deve a segurança da sua trajetória e a força do seu impacto à coragem daquele que a lança e isto quer dizer que a interação entre flecha e arqueiro deve ser plena, pois através dela é ele próprio quem se projeta e se lança sobre a presa. Desse modo, acertar o alvo é a perfeição espiritual, a união ao divino, e supõe a trajetória da flecha através das trevas que são os defeitos e as imperfeições do indivíduo"


"Todos os fundamentos da nossa religião, os nossos dogmas, manifestam-se através do símbolo, pois é a partir deste que os mitos justificam os ritos nos transmitindo a concepção dos nossos ancestrais acerca dos nossos oríṣa"


"Um símbolo detém o poder de indicar, sugerir e estimular. Isto intensifica a afirmativa de que o mito, o rito, o culto, a religião, a arte e os costumes, assim como a consciência e os conceitos referentes à sua compreensão filosófica do mundo, encontram seus fundamentos no símbolo. Daí a máxima de que uma experiência simbólica jamais pode ser criada por nós, ela simplesmente ocorre"

Vamos ouvir: Surf Budismo, de André L. R. Mendes

Surf Budismo (2014) - André L. R. Mendes




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Todas as informações e download em MP3,WAV e FLAC aqui

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Pílulas: Provérbios, de Mãe Stella de Oxóssi

Mãe Stella de Oxóssi (foto: Iraildes Mascarenhas - interferida por Mirdad)


"Criar desculpas para os próprios atos é a melhor maneira de permanecer no erro"


"Quem está vinculado ao sagrado, não deve mentir em seu nome"


"Fé não se impõe"


"Quem desdenha dos defeitos alheios está exibindo os seus"


"Às vezes se precisa perder pouco, para não perder tudo"


"O caminho espiritual pode ser comunitário, porém é sempre solitário"


Mãe Stella de Oxóssi
(2007)


"O que o destino disser que é, ninguém terá força para dizer que não é"


"Saber morrer faz parte do saber viver"


"Não é sábio aquele que se acha sabido"


"A presença do 'se' mostra a impossibilidade de realização dos desejos"


O provérbio diz: "Não há Orixá como o estômago, pois recebe sacrifícios diariamente". Mãe Stella de Oxóssi interpreta: "O estômago é como uma divindade, precisa ser respeitado e cuidado"

Vamos ouvir: Sobre Noites e Dias, de Lucas Santtana

Sobre Noites e Dias (2014) - Lucas Santtana




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Release disponível no soundcloud do artista:

"
As cordas do quarteto Oslo Strings repetem-se lentamente sobre uma sequência de acordes, como um tear mecânico que programa uma matriz sonora hipnótica. Lucas Santtana canta desde o primeiro segundo, sua voz manhosa e quieta de bom baiano contrapondo-se ao tom épico criado pelas cordas. Canta em inglês, conversa com computadores, tablets e smartphones - “máquinas complexas, seres complexos”. Sobre as cordas surgem outros instrumentos - a linha de baixo de Caetano Malta, beats e efeitos sonoros disparados pelo produtor Bruno Buarque, synths conduzidos por Lucas, ruídos de Zé Nigro, o piano de Zé Godoy e o clarone de Juliana Perdigão vão se envolvendo à textura do quarteto até que a exatos dois minutos após o início da música Lucas pergunta-se sobre as dúvidas destes seres, que nos escravizam através do tempo. “Onde está o tempo humano?”, cobra o compositor sem afobação no momento em que “Human Time” se revela em toda sua grandiosidade.

Estamos entrando em um território de ficção científica, mas não há alienígenas, robôs ou dimensões paralelas. A jornada proposta por Lucas no início de sua conversa é estranhamente familiar, mesmo quando a atriz Fanny Ardant sussurra a letra em francês.. Ao nosso redor o brilho de telas que respiram como plantas cria uma redoma de futurismo tecnológico que parece dar o tom do disco, mas os beats vão se reduzindo a uma batida que nos remete a uma máquina de escrever e a música some de repente, ao contrário da forma que começou.

“Human Time”, no entanto, nos engana. Lucas Santtana não está falando do futuro, não está projetando nada para depois de amanhã. Não é ficção, nem científico. Ele está falando de hoje - e a segunda faixa de seu Sobre Noites e Dias, o “Funk dos Bromânticos” nos leva para o extremo oposto da canção anterior. Cantada em português, é um funk carioca como seu título entrega. Mas que cordas são essas arranjadas pelo próprio Lucas? E esses timbres de guitarra do Junix 11, de onde vêm? E esses tambores digitais tocados por Omulu e Daniel Haaksman? E a linha de baixo de Seco Bass, que soa como um sapo? E a Camila Pitanga fazendo beatbox? Até os “bromânticos” do título - casal que transcende os gêneros no início do século 21, “ela não é gay, ele não é viado e não são mais classificados” - é tão alienígena quanto corriqueiro. Lucas está enfatizando as mudanças de nosso tempo e mostrando que por mais que os conceitos do mundo atual pareçam estranhos, eles são bem mundanos e conhecidos. Descemos da transcendência tecnológica para uma festa de beijos sem culpa.

E o disco segue apontando novos rumos. “Let the Night Get High”, apesar de seu título-refrão em inglês, é cantada em espanhol. Aqui sua banda básica - sua guitarra africana, o baixo firme de Caetano Malta e os efeitos rítmicos de Bruno Buarque - se junta ao sax endiabrado e ao EWI eletrônico de Thiago França, numa jam session que desbrava a noite. O clima é tenso e audaz, marginal e íntimo. “Por que el drama?”, pergunta-nos com um sorriso malandro.

Lucas diz que Sobre Noites e Dias reúne crônicas do dia a dia, mas ele não está apenas contando pequenas histórias - ele vem flagrando as mudanças e transformações deste início de século, os paradoxos e contradições da vida pós-moderna e a forma como superamos estes dramas, assimilando-os à nossa rotina com a maior naturalidade.
É no miolo romântico de Sobre Noites e Dias, sobre paixões e relações, que ele se mostra mais cronista, mas nem por isso menos extravagante. A divertida “Montanha Russa Sentimental” é quase uma comédia romântica ou um seriado brasileiro em forma de canção - Lucas toca quase todos os instrumentos (deixa uma guitarra com Malta e chama o Do Amor Ricardo Dias Gomes para conduzir o baixo marcante) e fala de burilar smartphones, comprimidos ansiolíticos, romance de cinema - vida real, doce ilusão, pressão e solitude numa canção que começa com o soar do sino pavloviano do Whatsapp.

Na linda “Alguém Assopra Ela” - clarinete, oboé, flauta e fagote arranjados e regidos pelo maestro Letieres Leite, da Orquestra Rumpilezz) - ele canta um presente futurista de “disco(rígido) que vai virar memória(flash)”, “camisetas que mudam de cor” e “asfalto que absorve CO2” que não descarta “onda, barco, vento, vela”, ressaltando a introspecção. Oposta à ela vem a apaixonada “Partículas de Amor”, hit composto com Gui Amabis, que transforma o sentimento em um saboroso laboratório de transformações, conduzidas pela conversa do cavaquinho de Lucas com o violão de sete cordas de Luis Felipe de Lima e o baixo do paralama Bi Ribeiro.

“Diário de uma Bicicleta” encerra o miolo apaixonado do disco e o traz de volta para a rua, em um rolê de camelim de Lucas com o rapper De Leve pelas ruas do Rio. Lucas canta um refrão em inglês e deixa o MC de Niterói conduzir sua bicicleta em seu caricterístico flow da zoeira. A marchinha “Mariazinha Morena Clara” chama novamente o sax de Thiago França e o clarone de Juliana Perdigão para juntar-se ao baixo de Marcelo Dworeki, a guitarra de Kiko Dinucci e o cello de Vincent Segal para um desfile jocoso que implora à sua musa para parar no Rio de Janeiro e deixar para lá a os camarões da Holanda de Van Persie ou a beleza da Tailândia.

Vincent, Juliana, Kiko e Thiago seguem acompanhando Lucas na faixa seguinte, a estranha e desconfiada “Blind Date”, cantada em inglês, em que os instrumentos comportam-se de forma mais climática que melódica ou percussiva, sublinhando a tensão de que “o amor pode ser uma armadilha”. O disco termina com uma balada clássica e pensativa: “Velhinho” foi composta com Rica Amabis e o produtor do Instituto que toca piano ao lado da guitarra de Maurício Tagliari e do baixo de Klaus Senna. Juntos parecem desfiar a textura musical à base da repetição, fazendo o movimento contrário das cordas de Oslo no início do disco.

Sobre Noites e Dias se desfaz ao mesmo tempo em que conclui suas elocubrações sobre as transições e contradições de nossa era - homem x mulher, natureza x tecnologia, realidade x ilusão, sentimento x ciência, rua x apartamento, carro x bicicleta. Até a forma como o disco muda de clima entre uma canção e outra é próprio desse nosso cotidiano shuffle, mas aprendemos a conviver com isso. E é isso que Lucas comemora ao saudar a fase de transição da noite para o dia ao final do álbum: “Madrugada, vem caminhar fria e calma, traz o destino”, pedindo, finalmente para, brindar “a alma desse teu velho"

“Agora jovem consigo” não é apenas uma conclusão, mas um convite para todos nós.

Alexandre Matias
www.oesquema.com.br/trabalhosujo
"

domingo, 21 de setembro de 2014

Pílulas: Parte 02 - Opinião, de Mãe Stella de Oxóssi

Mãe Stella de Oxóssi (foto: Iraildes Mascarenhas - interferida por Mirdad)


"Por mais idade que se tenha, ninguém é sábio suficiente para que não continue sendo um permanente aprendiz"


"Se não queremos que nossa prática religiosa seja condenada sem que se tenha conhecimento da causa, devemos ter cuidado para não condenar, nem mesmo criticar, a dos outros"


"A terra nos alimenta, mas pede em troca os nossos corpos como alimento"


"A pergunta correta não é qual o orixá que rege o ano e, sim, qual o orixá que rege o ano para aquelas pessoas que cultuam essas divindades e estão vinculadas à comunidade em que o jogo de búzios foi utilizado ... 'E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?' A resposta é: 'Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita' ... 'E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão à toa?'. Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato. Seus instintos, protegidos por suas cabeças e corações, conduzirão suas vidas de modo que seus passos sigam sempre na direção correta"


"Eu nunca me canso de buscar o conhecimento em todas as áreas da vida, mas principalmente sobre a religião que pratico, pois temos obrigação de conhecermos, o mais profundamente possível, as bases que sustentam a crença que praticamos. A busca de conhecimento gera um maior entendimento, o que ajuda na diminuição do preconceito e no aumento do respeito"


Mãe Stella de Oxóssi
(2012)


"É frustrante e tedioso perceber que uma característica inerente ao ser humano teima em não se purificar: a permanente atitude de não assumir suas falhas"


"Nem o grande e importante avanço da ciência, para quem a comprovação de dados é fundamental, impediu ou diminuiu a necessidade que tem o homem de conexão com o misterioso mundo divino, que se costumou denominar de processo religioso. Muito se discute se uma corrente religiosa é seita ou religião, como se um simples termo pudesse definir um estado de ser. Isso só ocorre porque a humanidade ainda opta pela rivalidade, concorrendo com pessoas que pretendem a mesma coisa: comungar com o divino"


"O mito é uma das partes integrantes de nossa cultura religiosa, fazendo parte do cotidiano de um terreiro de candomblé ... O mito, entre outras coisas, tem a função de chamar atenção para um erro ... sem que para isto seja necessário usar de grosseria. O relato de um mito, por ser uma forma lúdica de se transmitir um ensinamento, faz com que a pessoa receba a reclamação de maneira tão suave que ela não se preocupa em colocar barreiras"


"Magia: são saberes, crenças e práticas reveladas, através das quais determinadas forças da natureza são manipuladas, visando diminuir a distância entre Deus, deuses e homens. Quando os saberes e práticas reveladas se institucionalizam em um determinado grupo social, uma religião é constituída, como é o caso do candomblé"


"Por ser uma religião surgida no Brasil através de um povo escravizado, não letrado, que não fazia parte nem da considerada mais baixa classe social, que não era visto nem como humano e sim como objeto de trabalho e lucro, o candomblé sofre ainda hoje preconceito, até por parte de seus iniciados. Tanto que muitos 'filhos-de-santo' se consideram e afirmam para a sociedade que eles são católicos. Isso acontece por medo de descriminação, por hábito herdado da família e da sociedade. Mas o pior é quando isso acontece por falta de reflexão"

O amor abençoa o casamento de Nancy Viégas e Tadeu Mascarenhas

Cenas do casamento de Tadeu & Nancy (fotos: Mirdad)

Casaram no quintal de casa, celebrado pelo profeta sertanejo Zezão Castro e sua viola & repente, ao som da delicada sanfona de Cicinho de Assis, rodeados e protegidos pelo carinho e ternura de seus familiares e amigos mais próximos, abençoados pelos guias do bem e do bom, essencialmente na luz verde de Oxóssi e da esperança, de que dias melhores prosperem ainda mais e a compreensão, paciência e cuidado que nunca lhes faltaram, reunidos em quatro dimensões: do agora, na comunhão do amor terno que lhes desejaram, de coração e espontâneos, todos, a felicidade; do ontem, no abraço de um mundo e segredo só deles, vivências e delicadezas e experiências compartilhadas de uma relação que começou há tempos; do amanhã, no desejo de perpetuar o que é belo, o que vale a pena, o que interessa, o que flui e permanece; do sempre, pois tudo que é ontem e amanhã é hoje e continua, além dessa breve passagem, pois a sincronia continua a operar suas traquinagens a favor do sentido de tudo: o amor. Viva! Viva o amor de Nancy Viégas e Tadeu Mascarenhas!!!

Rio Vermelho, Salvador/BA, 19 de setembro de 2014
por Emmanuel Mirdad

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Vamos ouvir: EP Azul Profundo, do Reverendo T e os Discípulos Descrentes

Azul Profundo (2014) - Reverendo T e os Discípulos Descrentes


Para ouvir, clique no player laranja abaixo, à esquerda do nome do artista.



Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Release disponível no soundcloud do artista:

"Azul Profundo é o nome do novo Ep do Reverendo T e os Discípulos Descrentes, nome que faz menção clara à linguagem blueseira que permeia todas as suas canções, mas não pense em blues como algo reducionista e sim como porta de entrada para um mundo experimental, extravagante e amplo de influencias e citações.

Pra começo de conversa a forma particular que o Reverendo tem ao interpretar suas canções só encontra referência em gênios do quilate de Tom Waits e Lou Reed, no Brasil cito o underground Luís Capucho, ou seja, ouvidos destreinados vão estranhar, e muito, o canto falado, declamado e sussurrado que assombra as melodias melancólicas do álbum.

Musicalmente esse álbum difere dos outros por ser calcado nas guitarras, se em outros se deu destaque aos pianos ou bases eletrônicas, nesse a pegada tanto minimalista quanto exuberante das guitarras trazem o clima perfeito (com solos, dedilhados, arpejos e tudo mais que um guitarrista de bom gosto pode oferecer) pra esse que periga ser o melhor sermão do Reverendo T.

Os Discípulos Descrentes estão aqui muito bem representados por Felipe Britto nas guitarras, Jorge Afonso no violão e guitarra e na bateria de Wilson PDM.

Além de composições próprias e parcerias com Felipe Britto, temos uma velha parceria de Jorge Afonso e André Luyz (seu irmão que faleceu em 1983) e uma canção que se tornou hit nacional na voz de Fagner que é da autoria de Clodô e Clésio, e de quebra, como bônus, uma brincadeira com as sonoridades que dominaram os outros lançamentos do Reverendo T e os Discípulos Descrentes, mostrando que não sabemos o que esperar desse visionário e o testemunho que nos será servido em suas próximas aventuras musicais.

Creia sem moderação!"