sábado, 31 de agosto de 2013

Dedicatórias: Livros de Fernando Conceição, Davi Boaventura, Saulo Ribeiro, Georgio Rios e Eliakin Rufino

Livros de Fernando Conceição, Davi Boaventura, Saulo Ribeiro, Georgio Rios e Eliakin Rufino


2011 - "Haikai" (Editora Cromos/2010) de Eliakin Rufino


"Mirdad: minha arte amazônica e oriental. Eliakin. Jan/2011. BV RR*"
* Boa Vista, Roraima
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2011 - "Modus Operandi" (Via Litterarum/2010) de Georgio Rios


"Ao camarada Mirdad, o meu modo de operar a poesia e a vida. 
Um abraço! Georgio Rios"
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2012 - "Διασπορά" (Casarão do Verbo /2012) de Fernando Conceição


"Ao meu amigo Mirdad, ele que pulou de 'bung-jump' em Paulo Afonso, para que tenha uma boa leitura. Fernando Conceição. 14/05/2012"
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2013 - "Talvez Não Tenha Criança no Céu" (Virgiliae/2012) de Davi Boaventura


"Mirdad, este livro está recheado do espírito bundalelê, então posso dizer sem medo que você é um dos culpados para que esse livro exista. Um forte abraço, Davi B. 30.01.2012*"
* O ano na verdade foi 2013.
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2013 - "Corpo de Delito & Rip e Cal" (Editora Cousa/2013) de Saulo Ribeiro


"Ao amigo Mirdad, futuro guardião do Convento da Penha. 
Abraço. Saulo Ribeiro. Vix* 02/06/13"
* Vix é Vitória-ES
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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Vamos ouvir: Dubstereo

Dubstereo (2013) - Dubstereo




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Release disponível no site do coletivo:

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DUBSTEREO FAZ LANÇAMENTO VIRTUAL DO SEU PRIMEIRO ÁLBUM

Após 5 anos de trajetória, o Dubstereo apresenta seu primeiro álbum de estúdio, totalmente autoral, incluindo faixas instrumentais que terão diferentes versões em CD e compacto em vinil.

Na próxima quinta-feira, 29 de agosto, o Dubstereo fará lançamento virtual do seu primeiro álbum de estúdio, homônimo, no site oficial do grupo. Totalmente autoral, o álbum traz 12 faixas inéditas com produção do próprio coletivo. Além do formato digital, disponibilizado para download gratuito, o disco será lançado em formato físico na versão CD. Os interessados também terão oportunidade de adquirir um compacto em vinil com quatro versões especiais de dois instrumentais.

Por se tratar do primeiro registro em estúdio, o material vem sendo bastante aguardado. Apesar da cobrança por parte do público, o grupo fez questão de fazer tudo sem pressa, objetivando um bom resultado final. Todo o processo de produção do disco contou com colaboradores especiais, desde a gravação até a masterização. O registro em estúdio foi gravado em Salvador pelo experiente sound designer Buguinha Dub, que também mixou metade das faixas. Conhecido como “adubador de sons” pelas versões exclusivas que cria, Buguinha adotou nessas faixas técnicas de mixagem bastante peculiares, que incluíram o uso de aparelhos analógicos. A parceria entre o grupo e o produtor pernambucano surgiu pela identificação dos seus trabalhos, que buscam uma sonoridade perseguida por ambos. Outro colaborador do projeto foi o músico e produtor soteropolitano André T. Responsável pela mixagem de seis faixas e gravação de vozes, André colaborou ainda com arranjos de sintetizadores e efeitos.

A intensa convivência entre os músicos, no período que antecedeu a gravação, propiciou um intercâmbio de material que resultou na evolução do trabalho coletivo, mostrado nesse disco. O processo de gravação, com todos tocando juntos, durou apenas 48 horas. Gravado ao vivo, com o intuito de capturar o clima dos shows, mas com qualidade de estúdio, Dubstereo mescla faixas cantadas e instrumentais. O resultado traz uma atmosfera session, que denota afinidade entre os músicos e sugere toda a pesquisa que envolveu o processo de composição. A própria escolha do repertório, que inclui metade das faixas instrumentais, aponta uma pista para o caminho trilhado pelo grupo desde a sua formação. Tendo a música jamaicana como fio condutor, o Dubstereo nasceu experimentando. Suas primeiras apresentações tinham a mesma dinâmica de um sound system, com toasters improvisando enquanto a banda (apenas baixo, bateria, escaleta e efeitos) executava clássicos riddims. A evolução desse trabalho possibilitou a inclusão dos músicos, que desde 2008 integram a sua formação: Russo Passapusso (voz), Fael 1º (voz), Jorge Dubman (bateria), Alan Dugrave (baixo), Gabriel Simon (teclados) e Jardel Cruz (percussão). Em 2009 e 2011, respectivamente, foram agregados Tiago Tamango (teclados) e Prince Áddamo (guitarra).

A finalização e prensagem do álbum do Dubstereo contou com o patrocínio da Vivo, através do Fazcultura. Os processos de produção e gravação do disco, bem como a prensagem do compacto foram viabilizados com recursos próprios, adquiridos através da realização de eventos produzidos pelo coletivo. CD e vinil estarão à venda em shows e no novo site do grupo (www.dubstereo.com.br). O compacto traz 4 versões dos instrumentais “Babilônia Falida” e “Café do Quilombo”, com remixes de Buguinha Dub e Victor Rice, músico e produtor norte-americano. As artes do CD e do compacto foram criadas por Ricardo Fernandes, que assinou recentemente as capas dos discos de Criolo e do Los Sebosos Postizos, projeto formado por integrantes da Nação Zumbi. Além da democratização do acesso ao disco, o projeto de finalização do CD incluiu duas oficinas gratuitas de Art Graffiti, ministradas por Fael 1º, em Salvador e em Camaçari.

Sobre os colaboradores - Responsável pela gravação das 12 faixas que compõe o disco e pela mixagem de metade destas, incluindo todos os instrumentais, o pernambucano Buguinha Dub já assinou produções de discos como “O Palhaço do Circo sem Futuro”, do Cordel do Fogo Encantado e “Carnaval no Inferno”, da Eddie. Envolvido em projetos listados no topo da música brasileira, mixou discos de Lucas Santtana, Maquinado, 3 na Massa, Cidadão Instigado, dentre outros. Como engenheiro de som, contribuiu durante anos com trabalhos de bandas como a Nação Zumbi e Racionais MC’s. Pela intimidade que possui com os graves, ficou conhecido também como “treme-terra”. Além das faixas do CD, Buguinha colaborou com duas versões adubadas para o Lado B do compacto.

O tarimbado músico e produtor baiano André T mixou as seis faixas com letras do CD, além de ter contribuído com alguns arranjos. Reconhecido pelo seu desempenho como multi-instrumentista, André vem se firmando como produtor por ter colaborado decisivamente em discos de Pitty, Cascadura e Retrofoguetes.

Victor Rice, músico e produtor norte-americano, criou os remixes de duas faixas instrumentais que integram o Lado A do compacto do Dubstereo. Envolvido com projetos de ska desde os anos 80, tornou-se especialista em técnicas de mixagem voltadas para o dub. Baixista do Easy Stars All-Stars, banda que ganhou fama internacional ao criar releituras dub para clássicos da música pop mundial: “Dub Side of the Moon”, versão de “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd; “Radiodread”, baseado na obra da banda Radiohead e o álbum “Easy Star’s Lonely Hearts Dub Band”, com o repertório do clássico “Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Colaborou com trabalhos de artistas brasileiros como Mallu Magalhães e Marcelo Camelo, e dos grupos Café Preto (projeto de reggae de Cannibal do Devotos) e Bixiga 70.

O competente engenheiro de som Felipe Tichauer assina as masters do CD e do compacto. Entre os muitos nomes no seu currículo, ele aponta Arnaldo Antunes, CéU, Curumin, Rodrigo Campos e Mallu Magalhães. Recentemente colaborou com grupos como o Combo X (Gilmar Bola8 da Nação Zumbi) e Bixiga 70. Já participou de 19 projetos indicados ao Grammy e ao Grammy Latino. Atualmente, Felipe integra o comitê brasileiro do segundo, analisando e categorizando trabalhos inscritos.

As artes da capa do CD e do compacto foram criadas por Ricardo Fernandes. Figura conhecida que circula entre o meio musical e o das artes visuais, “Magrão” atua como DJ e diretor de arte, tendo participado de documentários como “Tropicália”, “Cidade Cinza” e “Eu, o Vinil e o Resto do Mundo”. Assinou recentemente as capas dos discos de Criolo e do Los Sebosos Postizos, projeto formado por integrantes da Nação Zumbi.
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Concluído o último trabalho com a Putzgrillo Cultura


Projeto "Os Encantos do Sol" de Mayrant Gallo, vencedor do Petrobras Cultural 2010


Um ano atrás, quando eu e Marcus Ferreira decidimos pela minha saída da Putzgrillo Cultura, estávamos conscientes de que o trabalho de nossa parceria só seria de fato concluído com o final do projeto de publicação do livro "Os Encantos do Sol", do escritor baiano Mayrant Gallo, o que só veio acontecer na terça 27/08/13, com a entrega da prestação de contas. Ele abriu a Agência Orixá com Vinicius Xavier, e eu abri a Mirdad - Gestão em Cultura com Edmilia Barros, e continuávamos ligados nesse projeto enquanto Putzgrillo (pois continuamos sócios na Flica). Ainda bem que todo o processo foi feito de maneira pacífica e amigável, e a prova está aí.

O projeto começou como "Polistória" em julho de 2010, inscrito no edital nacional da Petrobras Cultural. Fomos contemplados em dezembro. 2011 de tramitação, 2012 de criação do livro pelo autor e acertos com a editora, 2013 de produção e lançamento em maio. Agosto, encerro minha parceria com Marcus Ferreira na Putzgrillo Cultura com muito orgulho do que produzimos juntos. Obrigado, meu amigo, aláfia para os nossos caminhos! 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Dedicatórias: Livros de Mayrant Gallo

Livros de Mayrant Gallo


2007 - "Pés Quentes nas Noites Frias" (Egba-Funceb Selo Letras da Bahia/1999)


"Para Emmanuel, este livro, que também foi, para mim, um marco... Abraço. Mayrant Gallo. Salvador, 18/12*/2007"
* O mês na verdade foi 11.
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2007 - "O Inédito de Kafka" (Cosac Naify/2003)


"Para Emmanuel, este O Inédito de Kafka, este 'inseto atirador de facas'. Cordialmente, Mayrant Gallo. Salvador, 18/11/2007"
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2007 - "Dizer Adeus" (Edições K/2005)


"Para E. Mirdad estas "Kacetadas" de realidade... Abraço, Mayrant Gallo. Salvador, 18/11/2007"
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2007 - "Recordações de Andar Exausto" (Aboio Livre/2005)


"Para Emmanuel, estas Recordações de Andar Exausto, uma extensão poética dos meus contos. Abraço, Mayrant Gallo. 18/12*/2007"
* O mês na verdade foi 11.
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2007 - "Contramão" (A Gente Laranja Edições/2007) de Mayrant Gallo


"Para Emmanuel, por esta Contramão, que me impressionou muito, e pela qual só tenho a agradecer... Um forte abraço, Mayrant Gallo. Salvador, 18/11/2007"
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2010 - "Nem Mesmo os Passarinhos Tristes" (Três por Quatro/2010)


"Para Mirdad, contista, amigo, com um abraço do autor, ofereço este Nem Mesmo os Passarinhos Tristes. Mayrant Gallo. Salvador, 22/05/2010"
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2011 - "Três Infâncias" (Casarão do Verbo/2011)


"Para Mirdad, com a certeza de que, em favor destas Três Infâncias, vamos esquecer os dias difíceis. Abraço! Mayrant Gallo. SSA, 8/11/2011"
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2012 - "Brancos Reflexos ao Longe" (Livro.com/2011)


"Para Mirdad, estes Brancos Reflexos ao Longe de Salvador. Mayrant Gallo. Salvador, 19/03/2012"
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2013 - "Os Encantos do Sol" (Escrituras/2013)


"Para Mirdad, com gratidão, esta fantasia... Abraço! Mayrant Gallo. 23/05/2013"
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2013 - "Cidade Singular" (Editora Kalango/2013)


"Para Mirdad, estas histórias desta Cidade Singular que tão bem conhecemos. Abraço, Mayrant Gallo. 2/8/2013"
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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Ideal: Clint Eastwood como Batman de Frank Miller

Dark Knight - Clint Eastwood as Batman por Lee-Howard


Tá ecoando até agora a grande rejeição mundial à escolha do ator Ben Affleck para o papel do novo Batman. Acho uma merda porque não gosto do trabalho dele, mas pensando bem, ele é coxinha suficiente para o papel de Bruce Wayne, pra mim, o enorme problema de todos os Batmans anteriores.

Diante disso, fico com as palavras do jornalista Alexandre Matias, que no post do seu blog Trabalho Sujo resumiu muito bem: "o único nome que sempre me fez sentido seria Clint Eastwood, que quanto mais envelhece, mais fica parecido com o Batman do Cavaleiro das Trevas de Frank Miller". Aí sim!

Ilustração retirada daqui.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Dedicatórias: Livros de José Inácio Vieira de Melo



2003 - "Decifração de Abismos" (Aboio Livre/2002)


"Ao Emmanuel Mirdad, jovem e talentoso jornalista, o fogo sagrado da poesia. Abração. José Inácio Vieira de Melo. Salvador-BA, 14/10/2003"
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2005 - "A Terceira Romaria" (Aboio Livre/2005)


"Ao Emmanuel Mirdad, com carinho, estes cantares que dizem das minhas veredas poéticas. Abraço. José Inácio Vieira de Melo. Salvador-BA, 06/06/2005"
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2007 - "A Infância do Centauro" (Escrituras/2007)


"Ao poeta Emmanuel Mirdad, com apreço, esta paisagem poética. Abraço. José Inácio Vieira de Melo. Salvador-BA, 21/07/2007"
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2011 - "Roseiral" (Escrituras/2010)


"Ao escritor Emmanuel Mirdad, com amizade, as rosas do meu delírio. Abraços. José Inácio Vieira de Melo. Cachoeira-BA, 13/10/2011"
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2011 - "50 Poemas Escolhidos pelo Autor" (Edições Galo Branco/2011)


"Ao Mirdad, escritor talentoso e querido amigo, estes cantos de travessia. Abração. José Inácio Vieira de Melo. Cachoeira-BA, 13/10/2011"
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2012 - "Pedrá Só" (Escrituras/2012)


"Ao meu amigo Emmanuel Mirdad, escritor de boa lavra, os aboios e as parábolas de Pedra Só. Abraços. José Inácio Vieira de Melo. Salvador-BA, 26/09/2012"
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domingo, 25 de agosto de 2013

O Avô, poema de Ruy Espinheira Filho

Meu avô materno João Euzébio Alves de Oliveira (1900-1969)


O Avô
Ruy Espinheira Filho

1
O avô descansa
de quase um século.
O rosto é sereno
(não sei como pode
mostrar essa calma
após tanto tempo)
e as mãos despediram
todos os gestos.

O avô entre rosas
com seu terno escuro.
Pela primeira vez
indiferente.
Pela primeira vez
desatencioso
com mulher, filhos, netos,
conhecidos, o mundo.

Nem que implorássemos
nos recontaria
as tantas lembranças
entre farrapos de ópera.
Descansa tão fundo e
alto que é impossível
despertá-lo, saber
mesmo onde repousa.
No entanto está em nós
e nos impõe seus traços,
cor de olhos, jeito
de andar, sorrir, falar.

E o mais difícil de
cumprir:
                 a insuavizável
dignidade.

2
Avô, já nos retiramos.
Em silêncio vamos descendo
a ladeira. Pó do teu pó,
flutuaremos até
que o vento contenha o sopro.
E então te herdaremos
também essa paz final.
Absoluta. Tão perfeita
que nem a saberemos


Na foto, meu avô materno, João Euzébio Alves de Oliveira (1900-1969), homem empreendedor, comerciante e fazendeiro próspero, esteio da família. Não o conheci.

O poema de Ruy está no livro Julgado do Vento (Civilização Brasileira/1979) e no imperdível e necessário Estação Infinita, com sua obra poética reunida.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Crônicas: Maçalê e Farol, filhos queridos

Maçalê (Independente/2010), de Tiganá Santana, e Farol (Garimpo Música/2013), de Mou Brasil


Maçalê e Farol, filhos queridos
Crônica de Emmanuel Mirdad

A produção cultural é uma área árdua, geralmente de muito trabalho e pouca remuneração, que exige do profissional uma filosofia de vida “sangue no olho”, dedicação e foco total. Ano que vem completarei 10 anos na área, com muita ralação e perseverança, com algumas vitórias e feitos interessantes. Dois dos quais mais me orgulho são os álbuns “Maçalê” (2010), do cantor e compositor baiano Tiganá Santana, e “Farol” (2013), do guitarrista e compositor baiano Mou Brasil, dois amigos queridos, seres de luz.

Ambos moravam em Itapuã, profético bairro de Salvador-BA, quando os conheci, assim como o guitarrista e compositor Zanom, que tocou comigo na banda the orange poem (2001-2007), e o cantor e compositor Cal Ribeiro, todos baianos. Na época da laranja, sempre que podia Zanom puxava uma canção chamada “Overdose” e me recomendava: “Você precisa ouvir Cal Ribeiro!”. Quando a nossa banda terminou, fui trabalhar com produção na empresa Plataforma de Lançamento, do meu tutor Uzêda. Era janeiro de 2007. Tive acesso a um CD demo, voz e violão, com músicas de Cal [Tadeu Mascarenhas tinha tocado e dirigido um show do artista pro Troféu Caymmi em 2005 e ele sempre orbitou pela Plataforma]. Pirei no trabalho complexo do artista, que tinha uma voz incomum, timbre ácido e profético. Zanom tinha razão; eu precisava ouvir Cal Ribeiro.

Capa do CD demo voz e violão de Cal Ribeiro

Em outubro de 2007, procurei-o. Estava escrevendo um projeto de gravação de CD de minha carreira solo para o Fazcultura [que desisti no mês seguinte] e tinha selecionado a canção “Genealogia da Moral”, dele e do poeta Paulo César Vinhas – precisava então da anuência dos compositores. Finalmente conheci a figura na sede da Petrobras no Itaigara, em Salvador, um dia depois do meu aniversário, oito de outubro. Dias antes, quando o contatei pelo telefone, ele me pediu a indicação de um violonista para um show que faria, o lançamento do grupo “O Som Trino”. De pronto indiquei o amigo talentoso Thiago Kalu [outro artista que tentei produzir algumas vezes, mas não deram certo as minhas propostas], que topou a guiga. O show rolou no Teatro Sesi do Rio Vermelho, na quarta 17 de outubro. O que era pra ser a oportunidade de conhecer Cal Ribeiro ao vivo se tornou o encontro com a grande voz de um garoto reservado, tímido.

Quando ouvi pela primeira vez Tiganá Santana cantar, tive a certeza de que precisava ajudá-lo de alguma maneira. Terminou o show, subi no palco para conhecê-lo. “Você tem um disco para que eu possa comprar?”. Ele não tinha. Descobri como. Na semana seguinte, dia 23, reuni-me com Tiganá em minha casa. Dei-lhe CDs the orange poem e Ilusionador [CD-poema com poemas de meu pai], mostrei um pouco de meus livros, convidei-o para participar do projeto acústico Sad Child, sugeri uma parceria numa canção e conversamos sobre muitos assuntos. Fiz a proposta de produzir sua carreira e ele topou. Mas o projeto de gravação de CD teria de esperar, pois ele não tinha nenhuma gravação que prestasse para mostrar. Somente este ano, recentemente, fiquei sabendo que foi Cal Ribeiro quem ajudou a viabilizar as primeiras gravações feitas por Ataualba Meirelles, que serviram para inscrever o projeto “Maçalê” em 2008, essenciais para que fosse contemplado.

Cal Ribeiro, Tiganá Santana, Zanom e Carcará - show Organismo em 2008

No quarto mês de 2008, dei início a mais uma proposta de produção: o show “Organismo”, um encontro de quatro artistas com foco no cancioneiro autoral: Cal Ribeiro, Tiganá Santana, Zanom e eu. Já na reunião seguinte, fui vetado pelo próprio Cal, que colocou o cantor e compositor baiano Carcará no lugar. Aceitei de imediato, restando-me a produção, juntamente com Alan Lobo. Nos meses seguintes, foram várias reuniões e ensaios, e o show não ficou pronto. Hoje percebo que o encontro é o que valeu; as risadas a rodo, a troca de informações, de causos e histórias impagáveis, a celebração de lindas canções, o reconhecimento mútuo de quatro incríveis artistas baianos ainda desconhecidos do grande público, sem nenhum CD gravado – além dos músicos virtuosos que passaram no ensaio, como o violonista e diretor musical Gustavo Barros, o baterista/percussionista Edu Marquèz, e os baixistas Fabrício Mota e Artur Paranhos.

Naturalmente eu fiquei mais próximo de Tiganá nessa época, a amizade se fortaleceu e a produção começou a traçar um rumo. Ele gravou algumas músicas no estúdio de Ataualba, conseguiu uma temporada no Teatro Gamboa em junho. Então, tive a ideia de gravar um vídeo-release para apresentar o amigo mais facilmente. Gravei os shows do Gamboa, cenas externas e depoimentos com Tiganá em sua casa em Itapuã, e depoimentos de outros artistas, como a diva Virgínia Rodrigues [sua madrinha artística, quem primeiro o prestigiou e o divulgou para a cena cultural] e os irmãos Luiz Brasil [que viria a ser o produtor musical do álbum “Maçalê”, referência total pra mim de como um profissional deve agir em estúdio] e Mou Brasil, todos indicados por Tiga.

Frames do vídeo-release de Tiganá (2008), dirigido, filmado e editado por Mirdad

A manhã daquela sexta-feira, 20 de junho de 2008, foi belíssima, com sol e azul plenos. Na aconchegante casa de Luiz Brasil em Itapuã, gravei os depoimentos listados acima e conheci dois dos mais celebrados irmãos da talentosa família Brasil [o primeiro que conheci foi o baterista Victor Brasil, no ancestral 1999, e que veio a gravar no CD “Farol” do tio]. Ao gravar o curto e espiritual depoimento de Mou Brasil sobre Tiganá Santana, tive a certeza de que iríamos trabalhar juntos, mas não sabia quando. O percurso implícito é que importava: Cal Ribeiro [indicado por Zanom] me apresentou Tiganá Santana que me apresentou Mou Brasil [indicado via Luiz Brasil via Virgínia Rodrigues]. Maktub.

O projeto “Maçalê” foi escrito por mim, com ajuda de Alan Lobo, meu parceiro de produções na época [parceria desfeita em agosto de 2008 e retomada no ano seguinte, apenas na realização da Flica, desfeita novamente em janeiro de 2013], e inscrito no edital “Apoio à produção de conteúdo digital em música” da Fundação Cultural do Estado da Bahia – Funceb. Foi a primeira vez que a entidade lançou um edital de música sem contemplar a prensagem. No dia 17 de setembro de 2008, a Funceb divulgou os vencedores e o nosso projeto foi um dos contemplados, com louvor.

O orçamento era minúsculo e todos os profissionais que trabalharam nele fizeram um imenso esforço pra que tudo acontecesse da melhor forma, cobrando o mínimo do mínimo, sempre com muita boa vontade, como os músicos Antenor Cardoso e Alexandra Pessoa, entre outros. O maior exemplo disso foi Luiz Brasil, que além dos arranjos e direção, assumiu a parte técnica, sendo o técnico de gravação também. E o próprio Tiganá, que conseguiu recursos extra-projeto para prensar o álbum e finalizá-lo de uma maneira mais adequada, além de uma rede de colaboradores, como o amigo designer Bruno Senna [somado por mim ao projeto e que fez as fotos do encarte e de divulgação, além do site da época], o professor Jaime Sodré e os produtores Emílio Mwana e Marie Orfinger [que assumiram com louvor a produção de Tiganá quando eu saí e estão com ele até hoje].

Gravação do CD "Maçalê" em 2008/2009

Maçalê” começou a ser gravado na segunda-feira, 15 de dezembro de 2008, no estúdio Curva do Tempo, de Alex Mesquita, com patrocínio do Governo do Estado da Bahia. Verão adentro, teve a sua última sessão no dia 20 de janeiro de 2009. Ao todo foram gravadas doze canções autorais de Tiganá, com participação especial de Roberto Mendes e Virgínia Rodrigues, além de grandes músicos como o próprio Luiz Brasil, Gabi Guedes, Joatan Nascimento, Jelber Oliveira e Marcelo Galter [os dois últimos também participaram de “Farol”, de Mou Brasil], entre outros. Não me esqueço a sexta seis de fevereiro, quando rolou a audição das gravações do álbum na casa de Luzbra em Itapuã. A família de Tiga veio, amigos, músicos e participantes, todos satisfeitos, aplausos, uma confraternização que valeu muito o esforço coletivo para que “Maçalê” fosse realizado.

Devido aos atrasos rotineiros da burocracia, só conseguimos começar a pagar os profissionais de “Maçalê” no início de abril de 2009. Para os padrões do mercado baiano de cultura, até que não foi um grande atraso. Enquanto isso, Mou Brasil aparecia na Educadora FM às vezes para trocar umas ideias comigo, que tinha sido readmitido no cargo de Produtor Musical via REDA na rádio após o término da 1ª edição do Prêmio Bahia de Todos os Rocks. Começávamos a ficar próximos, a nos tornar amigos. No dia 13 de abril, fiz uma reunião com ele e o produtor Emílio Mwana [que já trabalhava com Tiganá] e pensamos dois projetos: turnê pelo interior da Bahia e o documentário “Caixinha de Fósforo”, uma criação de Mou BR: vinte e um músicos [referenciais para a música instrumental baiana] reunidos num mesmo espaço tocando um tema dele.

Os amigos Tiganá Santana, Cal Ribeiro e Mirdad em uma Jam no Mam de 2009

Assim como foi com Tiganá, convidei Mou para o projeto Sad Child e ele não topou. Gravei um dos programas “Podcast K7” com ele no dia nove de maio, lá da casa de Itapuã. Foi um dos melhores programas, com Mou descendo o sarrafo geral. Acidez reconhece acidez. Amigos enfim. E com Tiganá fui ver mais um trabalho de Cal Ribeiro: no mesmo teatro Sesi do Rio Vermelho, assistimos a banda Cais e Sais [que também não foi pra frente]. Antes do São João de 2009, uma reunião com Tiga, Emílio e Bruno Senna: “o que fazer depois de Maçalê?”. Agosto surgiu e trouxe o lindo show “Vozes no Espelho”, uma produção de Emílio, que reuniu, em voz e violão apenas, Tiganá Santana e Roberto Mendes. Até hoje lamento porque não levei à frente a gravação deste em DVD. No mesmo mês oito, o projeto “Maçalê” foi encerrado, com a entrega da prestação de contas final à Funceb.

Jera Cravo topou fazer o doc “Caixinha de Fósforo” de Mou Brasil. Na segunda reunião, desistimos; o estúdio dele não comportava a quantidade de músicos pretendida por Mou. Ficamos de achar outro que coubesse, mas a partir daí, o projeto esfriou e foi esquecido, preterido por um muito mais importante. Quando meu amigo me disse que em 30 anos de carreira só tinha um disco lançado, ainda por cima por um selo francês, eu fiquei chocado e achei um absurdo que um compositor daquele quilate ficasse tão engavetado assim. Um novo edital de gravação da Funceb foi lançado no final de agosto [intitulado “Apoio à Produção de Conteúdo em Música no Estado da Bahia”] e eu convenci o então sócio na Putzgrillo Cultura, Marcus Ferreira, a tocar o projeto de gravação de um novo álbum de Mou Brasil.

Os amigos Mirdad e Mou Brasil no estúdio Coaxo do Sapo em 2010

A primeira reunião do projeto aconteceu em 19 de setembro de 2009, um sábado de sol, na casa de Itapuã, quatro dias antes da reunião que pariu a Flica. Mou Brasil deu nome ao álbum: “Farol”, e apresentou as composições. Pegamos diversas informações, debatemos as estratégias, e eu consegui deixar Mou esperançoso, já que eram muitos indícios que seríamos contemplados. O maior deles: 30 anos de carreira e nenhum disco lançado no Brasil. Já no limite da inscrição do edital, eu e Marcus fizemos um plantão correria pra concluir. Chegamos até mesmo trabalhar na noite do meu aniversário, e inscrevemos no último dia, oito de outubro.

A pergunta feita por Tiganá continuava sem resposta. Surgiram outras possibilidades de projeto de gravação. Primeiro ele me veio com um álbum junto com Naná Vasconcelos. Depois, a trilogia cabeçuda “Lama Matriz”. Não vingaram. Por fim, na noite do evento de lançamento [não do show] do DVD Bogary, da banda Cascadura, em 15 de dezembro, Tiganá deu o toque para inscrever o lançamento do “Maçalê” na Demanda Espontânea do Fundo de Cultura da Secult. Antes de 2009 terminar, Marcus trouxe uma excelente notícia: tinha ouvido um boato de que o nosso projeto do CD “Farol”, de Mou Brasil, tinha sido contemplado. O resultado só foi sair de fato no dia 10 de abril de 2010, um sábado também. Fomos aprovados, de fato. E a estratégia de concorrer numa categoria mediana foi providencial: na mais alta, levaram o álbum duplo “Aleluia” da banda Cascadura e o novo CD da artista conceitual Nancyta, que acabou virando o novo álbum da Radiola, “ArRede”, porque ela entrou na banda. Por causa do prestígio e atuação presente no mercado da banda e da artista, poderíamos ter perdido caso arriscássemos a categoria mais alta.

Luiz Brasil, Tiganá Santana e Antenor Cardoso em show no Tom do Sabor em 2010

2010 surgiu com as cópias de “Maçalê” entregues por Tiganá. Marcus Ferreira topou a sugestão dele e elaborou o projeto de lançamento do CD. Na época, a Demanda Espontânea não era um edital, e era pouco requisitada pelos produtores. Fiz a edição do projeto e inscrevemos ainda em janeiro, quando rolou um excelente show de Luiz Brasil com Tiganá Santana no finado Tom do Sabor, Rio Vermelho. Emílio Mwana e a sua iniciante EMA Produções seria a co-realizadora do lançamento.

Como já dito, em abril de 2010 a Funceb divulgou os ganhadores do edital. Contemplados com “Farol”, nos reunimos com Mou Brasil em Itapuã num domingo de sol, 25 de abril. Decidimos gravar o álbum em Salvador mesmo, aumentamos o número de faixas, selecionamos os músicos e quem iria gravar o que no álbum. Por opção do autor, a produção/direção musical seria dele próprio, um risco grave que corremos, que foi sentido em alguns momentos, mas que foi melhor, no fim das contas, para o momento de Mou naqueles tempos. Nesse mesmo mês, fomos aprovados também pela Demanda Espontânea, e nos reunimos com Tiganá para as definições do show. Em uma reunião a sós com Tiga, o amigo me convidou para que eu produzisse o seu próximo CD, não o triplo “Lama Matriz” nem o suposto com Naná Vasconcelos. Intitulado “Diálogo”, teria uma proposta completamente distinta de “Maçalê”, com ele e um percussionista apenas, dialogando com o mundo em algumas participações especiais. Respondi que poderia ser, mas não me comprometi. O álbum “Diálogo” virou “The Invention of Colour”, foi de fato realizado, e mais à frente retomo brevemente sua história. Por fim, abril foi o mês que anunciei minha saída da Educadora FM para me dedicar 100% à Putzgrillo Cultura, o que aconteceu em junho.

Uma das salas de gravação do estúdio Coaxo do Sapo

No feriado de primeiro de maio de 2010, eu, Mou Brasil, Manuela Rodrigues e Jorge Solovera fomos ao estúdio Coaxo do Sapo, de Guilherme Arantes, em Jacuípe, distante cerca de 38 km de Itapuã. Com uma proposta de imersão bem interessante, com hospedagem e conforto diversos, e estrutura e espaço disponível para gravações “ao vivo” em estúdio, afinou-se com o que queríamos para o álbum e acertamos gravar por lá, após o aval técnico de Solovera, o responsável pela gravação e mixagem do projeto. Pedro Arantes e Gabriel Martini seriam os assistentes de gravação e Marietta Vital daria o suporte na coordenação da hospedagem e alimentação. Agora era só aguardar o desembolso da primeira parcela do edital. Assim como foi em “Maçalê”, o projeto “Farol” precisou de uma camaradagem dos músicos e equipe técnica, que cobraram um valor abaixo do praticado só para que ele pudesse ser realizado. Era uma questão de honra para o trabalho de um músico incrível.

Mirdad, Hermeto Pascoal e Mou Brasil na Pousada do Capão em 2010

Em junho, fiz a produção do show de Mou Brasil na primeira edição do sensacional Festival de Jazz do Capão. Foi um momento singular, pois pude conhecer Hermeto Pascoal e conviver com o mestre e suas incontáveis histórias, e presenciar a criação de uma composição inédita feita na parede da pousada [foto]. No mês seguinte, numa manobra ousada e arriscada, elaboramos o complexo projeto do CD triplo “Lama Matriz”, de Tiganá Santana, e o inscrevemos no edital nacional Petrobras Cultural 2010. Como era previsto no conceito genérico do perfil deste edital, meses depois fomos descartados. Acabamos ganhando com o outro inscrito, um desacreditado [por nós] projeto de literatura, de publicação do primeiro romance do escritor baiano Mayrant Gallo, que foi lançado em 2013 como “Os Encantos do Sol” pela editora Escrituras.

Capa do álbum "Maçalê" (2010), de Tiganá Santana

Agosto de 2010 surgiu e com ele os preparativos para o show de lançamento do CD “Maçalê”. A Comunika Press fez um bom trabalho que rendeu uma vasta matéria do jornalista Pedro Fernandes sobre Tiganá Santana no jornal A Tarde. Fizemos dois ensaios no estúdio de Duarte na Federação, arriscadamente dois dias antes do show. Na noite de 18 de agosto, no Cine-Teatro da Casa do Comércio, Tiganá fez um lindo show de lançamento do seu primeiro CD, patrocinado pelo Governo do Estado da Bahia, via Fundo de Cultura e suas secretarias da Fazenda e de Cultura, com realização da Putzgrillo Cultura e EMA Produções. Na direção musical do show, o produtor musical do álbum: Luiz Brasil. Antenor Cardoso na percussão junto ao sueco Sebastian Notini [que viria a estabelecer uma relação frutífera com Tiga, e a produzir o “The Invention of Colour” e ser o músico a acompanhá-lo constantemente]. Completando o timaço, o preciso Ldson Galter no contrabaixo. De participações especiais, Virgínia Rodrigues, Roberto Mendes e Mou Brasil. Uma noite pra ficar na memória com muito apreço, com todos reunidos no fim, cantando o samba-canção single “Dembwa (10 de Agosto)”.

Um dia antes do nono aniversário do “september eleven”, a banda base do álbum “Farol” se reuniu no café do ICBA. Mou e seu sobrinho baterista Victor Brasil, os irmãos Galter [Ldson baixo e Marcelo piano] e o percussionista Orlando Costa acertaram mais um novo cronograma para a gravação. O atraso no repasse era imenso, o cronograma foi refeito algumas vezes, e o acerto final só rolou mesmo aos vinte dias de outubro, quando a verba finalmente foi depositada, seis meses depois da divulgação da aprovação no edital. Um quebra-cabeça muito chato de ser montado, consegui no dia 28/10 acertar todas as agendas e os ensaios e as sessões de gravação foram confirmados para novembro e dezembro. Foram apenas cinco ensaios [18, 19, 23, 28 e 29 de novembro], porque Mou BR já vinha tocando há anos com essa formação. O único acréscimo foram os músicos Sebastian Notini [bateria] e Jélber Oliveira [acordeon/teclado], que acompanharam Mou no Festival de Jazz do Capão, e o excelente saxofonista/flautista Marcelo Martins, que por morar no Rio, só chegou para a gravação.

Recortes da gravação do CD "Farol", com destaque para a participação do 
saxofonista norte-americano Steve Coleman (foto à esquerda, embaixo)

A primeira sessão de gravação de “Farol” no Coaxo do Sapo foi uma loucura pra mim. Na noite anterior, tinha feito a direção geral da cerimônia de entrega da 2ª edição do Prêmio Bahia de Todos os Rocks, projeto que coordenei em 2010. Nem deu pra ter aquele dia de descanso e de gozo por um trabalho bem feito. Ao acordar, já foi pra coordenar a saída dos músicos rumo ao Litoral Norte. Doideira. Na quarta 24 de novembro, nos carros próprios dos músicos e no meu [verba quase inexistente para transporte], chegamos a Jacuípe. Mou BR, Ldson, Orladinho, Jélber, Sebastian e Solovera gravaram “Nem Choro, Nem Vela”. Na manhã do dia seguinte, fui buscar Manuela Rodrigues no aeroporto, que se juntou à guiga e gravou “Imaculado”. A tarde foi dedicada ao tema “O Fim da Espera”, que nem entrou no álbum no final das contas. Voltamos pra Salvador à noite.

Na terça 30 de novembro, recomeçamos no Coaxo do Sapo, agora com Victor Brasil e Marcelo Galter no lugar de Seba e Jélber. Seis horas de gravação depois, dois temas. Dezembro chegou e pela manhã fui buscar Marcelo Martins no aeroporto. Dois temas gravados antes do almoço. Com a ajuda providencial de Tiago Arantes como intérprete, fui buscar o saxofonista norte-americano Steve Coleman, grande participação especial para o álbum. A tarde do dia 1º foi dedicada a “Atraído”. 10 horas e meia depois, os músicos cumpriram o planejamento perfeitamente. Haja profissionalismo! Na manhã do dia dois, faltou luz; fomos então conhecer o rio, curtindo o descanso nas águas do Jacuípe. À tarde, gravaram o último tema e overdubs de Mou BR. Voltamos para Salvador à noite, celebrando o sucesso do planejamento em Itapuã no Creperê, a melhor creperia da cidade, com Mou, Marcelo Martins, Ldson, Marcelinho e um impagável Solovera, dizendo que ali já tinha sido a casa de um ícone da literatura baiana e ele ia lá: “pegar a filha dele”.

Ldson Galter, Pedro Arantes, Mirdad, Gabriel Martini, Orlando Costa, Marcelo Galter, Mou Brasil, 
Marcelo Martins, Victor Brasil e Jorge Solovera, ao final da gravação do CD "Farol" no Coaxo do Sapo

As sessões de gravação do “Farol” foram concluídas com mais duas sessões extras no estúdio Casa das Máquinas, de Tadeu Mascarenhas, nos dias 15 e 20 de dezembro. Na última, a presença especial de Tiganá Santana, para gravar a belíssima “Vencerá o Amor”, dele e de Mou Brasil, a única com letra [em inglês] e parceria do álbum autoral. Houve ainda uma sessão na casa de Solovera em fevereiro de 2011, com Manuela Rodrigues gravando voz em “O Fim da Espera”, a faixa que não entrou no álbum.

Capa do álbum "The Invention of Colour" (Ajabu! 2012) de Tiganá Santana

2011 chegou e em janeiro entregamos a prestação de contas parcial, essencial pra liberar a segunda parcela do patrocínio, que foi depositada em maio. Enquanto isso, o responsável ficou mixando o álbum, processo que durou até junho, um longo atraso. Ainda em janeiro, a Putzgrillo se reuniu com Tiganá Santana, Sebastian Notini e Emilio Mwana. Recebemos a proposta para captar para a gravação do CD “A Invenção da Cor” [Ex-Diálogo]. Mas como tivemos a grande redenção proporcionada pela Oi, através do resultado do edital Oi Futuro de 2011, em que fomos contemplados com o patrocínio de três projetos [Flica, Festival Brainstorm e Santo Antônio Jazz Festival], ficamos sem tempo para desenvolver projetos individuais. Mesmo assim, por amizade, respeito e consideração ao amigo Tiganá, topei trabalhar [e Marcus concordou plenamente] apenas na elaboração do projeto de gravação do “A Invenção da Cor”. Em julho, entreguei o projeto para Emílio tocar e inscrever no edital de Demanda Espontânea do Fundo de Cultura da Secult-BA [além de um projeto de circulação para o edital de “Mobilidade Artística”]. Em outubro, Tiga nos avisou que fomos contemplados. O recurso serviu para pagar e finalizar o álbum que foi gravado na Suécia, produzido musicalmente por Sebastian Notini e produzido executivamente pela EMA Produções de Emílio Mwana e Marie Orfinger [depois deste, não precisaram mais do nosso auxílio], lançado pelo selo sueco Ajabu! em outubro de 2012 com o nome de “The Invention of Colour”, até hoje [agosto/2013] não lançado no Brasil.

2011 foi um ano muito difícil para o projeto “Farol”. Primeiro, o responsável ficou seis meses com o disco mixando, refez o serviço três vezes e entregou um trabalho prontamente recusado por Mou Brasil. A frustração foi ainda maior porque o dinheiro tinha sido gasto, na confiança e amizade, e o trabalho foi recusado pelo artista. Ou seja, a mixagem teria de ser refeita mais uma vez, desta vez por outro profissional, e com verba do próprio bolso de Mou – quando é que iríamos recuperar essa grana caso processássemos o profissional? Depois, veio uma situação mais complicada ainda. Mesmo assim, prosseguimos na produção.


Em sete de junho de 2011, eu e Mou nos reunimos com Soraia Oliveira, Diretora Executiva e Artística do selo Garimpo Música, no café da Livraria Cultura em Salvador. Fizemos a proposta de lançar “Farol” por eles, que tinham um catálogo de qualidade, com álbuns de Manuela Rodrigues, Dois em Um, BaianaSystem, Mateus Aleluia, entre outros. Depois de semanas de avaliação, eles toparam. O único problema seria se adequar ao cronograma de lançamento deles, muito distinto do programado pelo projeto. Soraia assumiu a pós-produção e conduziu todo o processo da nova mixagem, feita por Duda Mello no estúdio Rockit! [RJ], e a masterização com Peter Doell, do estúdio Umusic, Los Angeles. O sempre solícito irmão de Mou, o Luiz, entrou no jogo e ajudou para que o álbum fosse terminado.

Capa do álbum Farol” (Garimpo Música/2013) de Mou Brasil

O projeto entrou na dinâmica do selo e do acerto com o artista 2012 adentro. Da minha parte e da Putzgrillo Cultura, pedi mais aditivos de prazo. Mou preferiu seguir pela opção da “Garimpo Música” e eu encerrei nosso trabalho entregando a prestação de contas com pendências, que foram cumpridas posteriormente pelo selo. Mantiveram a programação visual com Rex e o pessoal da Santo Design, como estava acordado desde o início, opção celebrada por Mou BR e que teve uma excelente execução: o encarte ficou lindão, ainda mais pelas fotos do japonês Hirosuke Kitamura, conhecido por Oske.

Farol”, o primeiro álbum de Mou Brasil lançado no seu país, que batiza o nome de sua rica e importante família musical, concluiu sua trajetória num tímido pocket-show de lançamento, realizado na noite de 04 de abril de 2013, na apertada livraria “Galeria do Livro”, dentro do Espaço Unibanco de Cinema em Salvador, Bahia.

Os amigos Mirdad e Cal Ribeiro em Itapuã consolidando o novo projeto

2013 também é o ano que o ciclo iniciado em 2007 terá o início do fundo do seu fim. Cal Ribeiro me apresentou Tiganá Santana que me apresentou Mou Brasil. Realizei [junto a diversos envolvidos, profissionais competentes, talentosos e engajados] os dois álbuns “Maçalê” e “Farol”, filhos queridos. Falta agora o cara do início, o profeta cantador, o ácido de timbre único e composições tronchas. Vem aí então um novo projeto com Cal Ribeiro. Aláfia para todos nós, luz de mil sóis, punhal dos meus sentidos, dizendo cedo que chegamos tarde ao cais!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

domingo, 18 de agosto de 2013

À Face do Livro

foto: Victor Jimmy


Na noite de 17 de agosto, esquentei o clima no meu Facebook:


Quero muito ouvir o último suspiro seu antes do paraíso, aquele que anuncia o mergulho no gozo e que suaviza o corpo no descanso dos bem afortunados por uma boa surra de sexo.

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Sou adepto da analogia imobiliária: o corpo é um apartamento/casa. Gosto de morar no corpo. Por isso vou verificando-o aos poucos, minunciosamente, detalhe por detalhe, até decidir pela compra, para mobiliá-lo e adorná-lo, torná-lo mimeticamente próximo, até sentir-me confortável e ele, transformado em lar, satisfatoriamente preenchido.


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Vamos ouvir: Abayomy Afrobeat Orquestra

Abayomy (2012) - Abayomy Afrobeat Orquestra




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Release escrito por Lucio Branco disponível no site da orquestra:

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A ABAYOMY AFROBEAT ORQUESTRA é a primeira orquestra de afrobeat do Brasil. Ao redor do mundo, o afrobeat tem ganho considerável atenção desde a morte de Fela, em 1997, com a formação de muitas outras orquestras e bandas fora do ambiente africano. Inclusive, a vida de Kuti se transformou em musical de sucesso na Broadway e, atualmente, um filme sobre a sua trajetória está em processo de produção na Inglaterra.

Especialmente arregimentada para a primeira edição carioca do FELA DAY, em outubro de 2009, a ABAYOMY AFROBEAT ORQUESTRA estabeleceu, desde então, uma carreira sólida, com shows cada vez mais requisitados. No roteiro noturno carioca, a orquestra já tocou em casas como Circo Voador, Teatro Rival, Fundição Progresso, Cordão do Bola Preta, Teatro Odisseia, Casa Rosa. Fora do Rio, em (nome da casa local), em Friburgo, e no SESC Pompéia, em São Paulo. Um dos momentos mais marcantes da sua carreira foi a participação, no Teatro Rival, no evento de lançamento da versão em português da primeira e única autorizada biografia de Fela Kuti (Fela: esta vida puta) com a presença de seu autor, o cubano Carlos Moore.

A ABAYOMY conta em sua formação com membros de bandas de artistas como Vanessa da Matta, Nina Becker, Do Amor, Sobrado 112, Orquestra Imperial, Canastra, Paraphernália, Binário, Letuce etc. Nos shows, o repertório da orquestra tem composições próprias, algumas versões de pontos de candomblé no compasso do afrobeat e, claro, alguns covers de Fela Kuti.

"Abayomy", o primeiro álbum da banda foi lançado em outubro de 2012. O disco de estreia da Abayomy Afrobeat Orquestra teve a produção de André Abujamra e reúne seis composições próprias: : “Eru” é a canção que abre o disco; “Malunguinho” e “Obatalá” vêm na sequência, ambas saídas dos terreiros e de origem popular. A primeira é um k´orin (canto) de tradição Yorubá e a segunda vem do culto à Jurema, do nordeste do Brasil. Apresentadas à banda por Garnizé, ganharam um nova leitura Afrobeateada feita por todos; a próxima é “Emi Yaba”, escrita em Yorubá por Alexandre Garnizé para sua mãe; depois desse passeio pelos terreiros vem a instrumental “Afrodisíaco” que prepara o fechamento do disco; “No shit” composta por Gustavo Benjão, fecha brilhantemente “Abayomy” (essa ganhou textos lidos por André e pelo seu pai, o diretor teatral Antônio Abujamra).

A ABAYOMY AFROBEAT ORQUESTRA é:

Claudio Fantinato – percussão / Donatinho – teclado/vocal / Fabio Lima – sax/vocal / Garnizé – percussão/vocal / Gustavo Benjão – guitarra/vocal / Leandro Joaquim – trompete / Marco Serra Grande – trombone / Monica Ávila – sax / Pedro Dantas – baixo / Rodrigo de la Rosa– percussão / Thomas Harres – bateria/vocal / Thiagô – sax barítono / Vitor Gottardi – guitarra/vocal
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segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Pílulas: Cidade singular, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Elieser Cesar - interferida por Mirdad)


"Quando a pedra de mármore fechou a sepultura, cimentada pela habilidade e rapidez de um dos coveiros do cemitério, e as pessoas começaram a se dispersar por entre os túmulos e pelo caminho de volta, Isaac compreendeu que era realmente depois da morte que o sujeito se transformava em ninguém, nada, algo nulo, um objeto de uso, o veículo do desejo alheio ou, talvez, o repositório de seus sonhos frustrados, de seus desejos adiados e suas escolhas malfeitas. Seu tio jamais fora religioso, e agora o era; jamais pensara em se salvar, e agora, morto, segundo o padre, entrava no Paraíso; jamais pensara em Deus senão com sarcasmo e desprezo, e agora era o próprio pensamento corporificado de Deus. Seus biógrafos, muito embora ninguém fosse se interessar por ele, poderiam dizer o que bem entendessem, atribuir-lhe frases, fatos, esticá-lo ou encolhê-lo. Poderiam até mesmo recriá-lo – e é o que em geral se faz" (pg. 49)

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"O corpo parecia um tronco fino de árvore abandonado à ação do sol e das intempéries. Pés e braços que de tão magros haviam se encarquilhado, como ferro batido na forja. Nu, à mostra para a identificação dos parentes e a conseguinte beatitude das roupas, evidenciava um peito fundo, um ventre intumescido, um pênis que despertava, a um só tempo, piedade e vergonha, encolhido em si mesmo e sem qualquer lembrança, nem dos amores nem dos períodos de solidão. O pesadelo insensato de grandeza humana enfim se esvaziara, e aquele corpo se pusera pronto a receber a terra" (pg. 45)

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"O Gordo tinha uma teoria: mulheres se deitam à noite com possibilidades e despertam pela manhã com frustrações.
Ele era uma possibilidade. E também, a qualquer hora, uma frustração" (pg. 71)

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"Sua fisionomia de surpresa se intensificou: 'Então a polícia sabe o que você faz, é isso, é?' Eu não podia negar, sua compreensão era exata, embora destituída de novidade, como o é, por exemplo, desde o início dos tempos, a morte. Eu matava, e a polícia sabia, assim como vivemos sabendo que vamos morrer. Continuei em silêncio. 'Deus, a polícia sabe!', ele deixou escapar, num tom mesclado de desespero e alívio. O gordo estava atônito e a meio caminho de se escandalizar. 'Sendo assim, qual é então o papel da polícia?', perguntou, num ímpeto de inocência e retórica. Não demorei a responder, pensando: 'Talvez fingir que tudo vai bem, sob controle'. Em geral guardo comigo minhas crenças e conclusões. Vive-se melhor assim, em silêncio, numa suposta e suportável ignorância, mas naquele momento não consegui me conter" (pg. 15)

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"Que era preciso fazer para publicar? Pagar do seu próprio bolso a edição? Promover-se pelos corredores sujos das instituições públicas? Prover-se de mulher de posses que o amasse, ou à sua juventude, e que fechasse os olhos ao seu estilo, que achasse tudo muito bom, bonito, magnífico? De repente, como se estacasse de uma longa, inconsciente e desenfreada corrida, Aldo Or compreendeu que, fosse qual fosse a alternativa eleita, era tudo inútil. Seu nome jamais estaria exposto à quietude das bibliotecas ou à poeira das livrarias. Jamais figuraria como destaque nas vitrines dos livros mais lidos nem dos mais vendidos. Jamais comporia – nem mesmo por adjunto – a sintaxe explicativa, e frustrante, dos títulos acadêmicos. Jamais seria rodapé de citação frisada ou o catalisador de alguma ideia original, como ocorrera a Scliar e seus felinos, sem os quais um romancista canadense e seu livro continuariam prisioneiros do inevitável naufrágio que constitui a vida comum, de dias monótonos de trabalho e tempo gasto a se entreter diante da tevê" (pg. 103)

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"Peguei sua foto e fiquei olhando. Bonita. O tipo de garota que leva um sujeito como o granjeiro, já decadente e gordo, a pensar em matar. Não cheguei a esperar muito, uns vinte minutos no máximo. Seu corpo esguio e sinuoso veio se aproximando sob a luminosidade amarelada dos postes. Aproveitei a rua quase deserta, só alguns vultos ao longe, saí da sombra e a cerquei. Ia gritar, mas, quando viu a arma em minha mão, congelou os lábios no arredondamento vazio do grito. 'Não tenha medo, foi o granjeiro quem me mandou. Vamos só dar um passeio e conversar. Só isso.' Seu rosto me pareceu atravessado por uma dor longínqua, de antes do mundo. Fiz que andasse até o carro e entrasse" (pg. 18)

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"Nem uma só linha da história era verdade. O fato, qualquer fato, passava a versão, tão logo fosse escrito ou transcrito. Para ser verdade, a história necessitava continuar acontecendo, ininterruptamente. O presente da história era ela própria; e seu amanhã, em palavras, a sua negação. Não havia passado. Para uma criança, não há passado, até que ela adoece, se recupera e lembra que adoeceu. Seu tio, por exemplo, era agora uma versão dele, Isaac – o que este pensasse e dissesse –, e de todos os seus parentes e amigos. A verdade havia morrido com ele; a verdade, os dias, os amores, os desejos, os segredos, os sonhos; os momentos vividos, irremediavelmente vividos, e que eram agora como bolas de espuma num balde: mortos, soavam impossíveis, indistintos, inimagináveis. Relembrados, eram vagos como o brado de um louco" (pg. 46)


Mayrant Gallo
(Kalango/2013)


"Ao tempo que me esqueço ali, a correr sobre a bicicleta, volto a pensar em Aline, que persiste em mim sem aparente razão, com um permanente signo do fracasso. Ao recordar seu rosto, ele me parece paradoxalmente hostil e necessário. Sem ele, aniquilo-me pouco a pouco, enquanto, ao resgatá-lo, descubro-me consciente, apesar da impotência diante do tempo, do visível esgotamento para a vida. Isso me obriga a concluir que Aline é um peso que me prolonga a trilha neste mundo, em vez de estacioná-la" (pg. 110)

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"A infância, que em geral é o motivo de todos os problemas adultos, pode ser também, em certa medida, a solução dos impasses existenciais, quando, na idade outonal, superados os exageros e as loucuras, o homem volta a pensar em si mesmo, mas sem egoísmo, sem vaidade" (pg. 65)

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"Ninguém expõe fracassos, senão em desespero, e ainda assim a esperança é a de que, transformado em linguagem, o insucesso mude, se atenue ou, por uma força quase mística, esboce um futuro melhor, de realizações. Mas não é o que acontece: a linguagem só piora as coisas, pois refaz o tedioso curso de uma infelicidade que antes de tudo deveria ser esquecida" (pg. 81)

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"(...) distante da superfície das relações, confinado à mudez imposta aos que, ansiosos de expressão mas incapazes de alcançá-la, esbarrem na indiferença do mundo ou fracassem diante de suas próprias limitações ou verdades, viu-se obrigado a mandar, a esmo, sinais de vida de em meio às trevas, incerto quanto aos resultados e sobretudo quanto à reputação positiva ou negativa que haveria de conquistar. O menos surpreendente é concluir que, não obstante a inventividade de sua pilhéria, e ainda que enganado, o mundo não se lhe tornou mais afeito, e ele – afora este momento, neste bar de segunda categoria, que não passa de uma fração mínima de um grão de poeira –, Aldo Or permaneceu anônimo, miragem de uma intenção" (pg. 104)

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"Um inimigo da poesia e, indiretamente, das mulheres, dos ocasos, do vento falando nas folhas das árvores. Cada frase sua era uma sentença, um pensamento cruel que lembrava a todos que a vida humana não passava do epílogo de um drama insólito num teatro em ruínas" (pg. 36)

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"– Você não é velho.
– Claro que sou.
(...)
Ele quis explicar que não dizia aquilo para chamar a atenção alheia. Não pretendia, em absoluto, despertar piedade nas pessoas, muito menos aquela reação, notória entre os otimistas, que se inclinaria a fazê-lo mudar de ideia. Simplesmente estava perdendo as forças, ficando frágil e vulnerável. Já não era mais o mesmo homem. As ideias espocavam como luzes e se desenvolviam, mas o corpo, seus membros e órgãos internos não as acompanhavam" (pg. 80)

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"– Poxa, Sam! Sei não. Trabalhar pra amigo nunca me ocorreu.
– Só quero saber se ela tá com outro cara...
Isaac guardou no bolso o revólver:
– Elas sempre estão, meu amigo. Sempre estão com um e com outro. Com um fazem doce; com o outro, trepam" (pg. 92)