domingo, 29 de abril de 2012

Merci, de Alpha Blondy - 10 anos

 

Merci” é o 16º álbum da carreira do cantor Alpha Blondy, e foi lançado em 2002, 20 anos depois do seu álbum de estreia, “Jah Glory” (1982). Assim como o hoje cultuado Tiken Jah Fakoly, Alpha é natural do país africano Costa do Marfim, e é um dos principais ícones do reggae mundial em atividade, como o jamaicano Burning Spear.

Habitué dos festivais de reggae em Salvador (tanto que compôs uma música chamada “Bahia” para homenagear os fãs baianos, lançada no ótimo álbum “Jah Victory” de 2007), Alpha Blondy, segundo o site Surforeggae, é “saudado como verdadeiro sucessor de Bob Marley tanto quanto pela sua música e suas mensagens de paz e unidade”. Com uma pegada rocker peculiar, Alpha canta em francês, inglês, hebreu, árabe e dioula, seu idioma nativo. Suas músicas são sempre mensagens políticas e de paz, saudando os preceitos do rastafarianismo.

Em “Merci”, que relembro aqui 10 anos após seu lançamento, Alpha Blondy acerta a mão após dois álbuns muito fracos (“Elohim” de 1999 e “Yitzhak Rabim” de 1998) e um ao vivo (“Blondy Paris Bercy” de 2001) que não chegou, nem de longe, aos pés do clássico “Live au Zenith” de 1993. Alpha tornou-se ícone do reggae com os referenciais álbuns “Masada” (1992) e “Jerusalem” (1986) - este, gravado com a maior banda de reggae de todos os tempos, The Wailers, do rei Bob Marley, além do incrível “Apartheid is Nazism” (1985) e o roqueiro “Grand Bassam Zion Rock” (1996).

De “Merci”, destaco as músicas “Souroukou Logo”, “Ato Afri Loué”, “Si On M'avait Dit”, “Quitte Dans Ça” e “Zoukéfiez-Moi Ça”, e principalmente “God Bless Africa” que, pra mim, entra fácil no top 10 do grande Alpha Blondy. Abaixo, seguem as canções citadas, para apreciação do bom reggae.

No primeiro dia de janeiro de 2013, Alpha Blondy fará 60 anos. Eu, que considero o reggae o estilo musical que mais apreço, tenho o cantor marfinense no meu panteão sagrado, ao lado de Bob Marley & The Wailers, Peter Tosh, Burning Spear e Gregory Isaacs. Além disso, para torná-lo mais caro ainda, era o cantor de reggae preferido de meu saudoso pai (da minha mãe também), e sempre quando colocava suas músicas pra tocar em casa, os velhinhos paravam tudo pra dançar em alta, celebrando a positividade da vibração rasta. Jah!

God Bless Africa



Souroukou Logo 




Ato Afri Loué





Si on M'avait Dit





Quitte Dans Ça





Zoukéfiez-Moi Ça





Politruc


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sábado, 28 de abril de 2012

Genial Hélio Pólvora

Hélio Pólvora por Ramon Muniz


"A emoção é má conselheira"

"A escrita, como a urina, não deve sair em condições de sumário satisfatório ao primeiro jorro. Há que decantá-la"

"Ler e escrever dá sentido à minha existência. Eu escrevo para um leitor sem rosto, para um interlocutor que procurei a vida toda - e estava dentro de mim, à espreita. Escrevemos basicamente para nos encontrar, contradizer, condenar e executar, sentenciados e carrascos a um só tempo. Não há heroísmo nisso. Há desespero. E não adianta ninguém se fazer de vítima"

"A literatura, em especial a outrora chamada prosa de ficção, está em retirada. Não sei se ainda haverá tempo de nós, escritores, marcarmos encontro nas catacumbas, ao redor de fogueiras, e lermos nossos textos uns para os outros, enquanto devoramos nacos de carne crua"

"É lendo que se aprende a escrever, se há vocação. Caso contrário, seria melhor ficar nas leituras, ou vender melancia nas feiras. Um escritor de raça pode deflagrar outro"

"O escritor sabe-se vencido de antemão, inclusive pela linguagem incapaz de acompanhar-lhe o pensamento, por mais que ele a deforme ou apure. Isso explicaria a inquietação permanente"


Hélio Pólvora por Ramon Muniz


"Não há mais romance. Não há mais conto. Ambos os gêneros se dessangraram, tomados pela afasia, corroídos pela anorexia que tirou do romance à feição de Tolstói aquele estridor, aquele timbre épico. Eu era do conto, como certas pessoas são do mar e outras se agarram ao pó da terra"

"A literatura de criação está aberta a todas as expressões possíveis, sem posicionamentos radicais, sejam ideológicos ou estilísticos. Uma coisa, porém, é certa: deve-se evitar o supérfluo, o detalhe inútil. O mais correto seria reconhecer que o empenho verbal e o empenho visual andam juntos, e em dosagens diferentes. São indissociáveis. Poucos “ficcionistas” de hoje se preocupam em abrir espaços ao ficcionismo; ficam no exercício inócuo de palavras vazias, preferem atirar regras fundamentais pela janela e escrever textos anódinos. Ocorre, então, o nivelamento por baixo, com a consequente fuga do leitor"

"Não inventamos; recriamos, reescrevemos. Ultimamente a vida tem sido de uma criatividade espantosa: seus enredos ultrapassam a ficção mais descabelada. Resta-nos, então, a capacidade de resistir e alinhavar esperanças. Nunca os ficcionistas se viram tão acuados, pressionados, apostrofados"


"Fui punido pelo contágio da tragicidade. A reserva de livre arbítrio é pequena para o descampado de circunstâncias tecidas sem o conhecimento pleno do indivíduo. Como qualquer mortal, o escritor é produto do meio: origem, renda, formação intelectual"

"O que é a verdade? Interrogado a respeito por Pilatos, que desejou salvá-lo do martírio, Jesus Cristo calou-se. Talvez não soubesse. Talvez apenas intuísse a verdade. Ou pressentisse a inutilidade do esforço de buscar a verdade"


Todos esses trechos foram retirados da excelente entrevista de Gerana Damulakis com Hélio Pólvora para o jornal Rascunho: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/contos-frequentemente/

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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Genial Armando Oliveira

Armando Oliveira, interferido por Mirdad


"Nós, brasileiros, somos “anarco-conservadores”. Sonhamos com radicais mudanças na estrutura socioeconômica do país, mas, individualmente, tudo fazemos para impedi-las. E essa resistência individual multiplicada aos milhões redunda no “deixar como está pra ver como é que fica”. O tesão reformista, exercitado na vida universitária, brocha ao contato com o poder. Anarquistas no atacado, e conservadores no varejo, somos um povo estranho, complicado e desmemoriado. Por essas e outras, não acredito em nenhuma fórmula econômica que dependa da ampla mobilização popular. Queremos levar vantagem em tudo, certo, e ai de quem nos atravessar o caminho. Essa é a nossa “natureza”, infelizmente"

Genial e saudoso cronista baiano Armando Oliveira, em uma síntese incrível de nossa paralisia endêmica, retirada de sua crônica "A Nossa Natureza", deste livro abaixo:

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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Glauberovsky Orchestra - 10 EPs, 64 músicas lançadas

Glauber Guimarães

10 EPs lançados na internet, 64 músicas gravadas, sendo 31 autorais (quase todas inéditas) em 7 meses de trabalho. Eis que o cantor e compositor baiano Glauber Guimarães ressurge em intensa produtividade, com a low profile Glauberovsky Orchestra, de um homem só - ele mesmo, no melhor esquema low-fi em casa.

Das covers gringas, versões para The Beatles, Pink Floyd, Tom Waits, Bob Dylan, John Lennon, George Harrison, David Bowie, Beck, Deep Purple, Beach Boys, Björk, Ella Fitzgerald, Neil Young, The Kinks, David Crosby, Blind Faith, Adam Green, Superfine Dandelion e Slim Rhodes and His Mountaineers. Das nacionais, reformatações para Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Zé, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Barão Vermelho, MPB-4, Nelson Cavaquinho, Celly Campello, Walter Franco, Alvarenga e Ranchinho, Lula Carvalho e Teixeirinha.

Essencialmente folk experimental, com melodias pop e lugar não-comum, Glauber toca violões, banjo, viola caipira, cavakelele, percussão, caixa de fósforo, trombone de boca, samplers e efeitos diversos, além de dar vazão criativa à sua voz inconfundível, ácida, sinuosa, dilacerante, uma atriz em diversas interpretações distintas, ao molde de experimentações intrigantes, transmutando o timbre em distorções e freqüências estranhas que não incomodam, mas atraem.

É necessário ouvir Glauber Guimarães, a orquestra de uma palha de aço só. Conheça a Glauberovsky Orchestra aqui: http://glauberovskyorchestra.blogspot.com.br/

PS - Escrevi sobre os EPs aqui.

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