quarta-feira, 31 de julho de 2013

Pílulas: Parte 04 - Como Ficar Sozinho, de Jonathan Franzen

Jonathan Franzen (foto: Cia das Letras/Divulgação - interferida por Mirdad)


"Tudo o que quero de um passeio é que as pessoas me vejam e deixem ser vistas, mas mesmo esse modelo objetivo é ameaçado pelos usuários de celulares e o pouco-caso que fazem da sua privacidade. O isolamento é algo que se alcança sem esforço comparativamente. A privacidade é protegida como mercadoria e direito; os espaços públicos, não. Como as matas virgens, esses espaços são poucos e insubstituíveis e todos deveriam ser responsáveis por eles. O trabalho de mantê-los só aumenta, à medida que o setor privado se torna cada vez mais exigente, confuso e desanimador. Quem tem tempo e energia para defender a esfera pública? Que retórica pode competir com o amor americano pela 'privacidade'?"


"Em 1998, observava, sentado no metrô, as pessoas abrindo e fechando nervosamente seus celulares, mordiscando as anteninhas, que lembravam mamilos e que todos os aparelhos tinham. Ou apenas os segurando como se fossem a mão de uma mãe, e eu quase sentia pena delas. Nova York queria verdadeiramente se tornar uma cidade de viciados em celulares deslizando pelas calçadas sob desagradáveis nuvenzinhas de vida privada, ou de alguma maneira iria prevalecer a noção de que deveria haver um pouco de autocontrole em público?"


"O Homo Sapiens é o animal que quer acreditar, a despeito da severa lei natural, que outros animais fazem parte da sua família. Poderia dar um bom argumento ético para nossa responsabilidade em relação a outras espécies, mas me pergunto se, lá no fundo, minha preocupação com a biodiversidade e com a saúde dos animais não é um tipo de regressão ao meu quarto de infância, com sua comunidade de bichos de pelúcia: uma fantasia de aconchego e de harmonia entre espécies"


Jonathan Franzen
(2012/Cia das Letras)


"Como seu trabalho é repetitivo e paga mal, damos um desconto se ela nos tratar com enfado ou indiferença; no máximo registramos sua falta de profissionalismo. Mas isso não nos exime da obrigação moral de reconhecer sua existência como pessoa. Embora seja verdade que algumas atendentes não ligam para o fato de serem ignoradas, grande parte delas fica visivelmente irritada, brava ou chateada quando um cliente não é capaz de largar por dois segundos o celular para trocar umas palavras com quem o está servindo. Não precisa nem dizer que aquela jovem cliente não tem a menor consciência de que esteja desrespeitando alguém"


"Pessoas que enfrentam problemas para socializar não passam a se comportar repentinamente como adultos quando a pressão social de seus pares as constrange ao silêncio. Uma praga nacional que se alastra é o cliente que, no supermercado, não larga o celular nem na hora de pagar a conta"


"[1988] A entrevista na KMOX foi um indicativo. O apresentador evidentemente mal passara do capítulo dois. Embaixo do microfone pendurado, folheava as páginas do livro como se tivesse esperança de absorver epidermicamente o enredo. Perguntou-me o que todos me perguntavam: Como você se sentiu por receber uma crítica tão favorável? (Eu me senti muito bem, disse.) O romance é autobiográfico? (Não, disse.) Como se sentiu como um filho de St. Louis que volta à cidade para lançar um livro badalado? Sentia-me sombriamente desapontado. Mas não disse isso. Já havia percebido que o dinheiro, a publicidade, o passeio de limusine até o local onde seria fotografado pela Vogue não eram apenas benefícios complementares. Eram o prêmio principal, o consolo para quem não faz mais nenhuma diferença pra a cultura"

terça-feira, 30 de julho de 2013

Pílulas: Parte 03 - Espalitando, de Paulo Bono

Paulo Bono (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Como uma formiguinha que resiste à morte. Você dá uma chinelada, ela finge a própria morte, e quando você pensa que não, lá está ela, a formiguinha, andando outra vez. Você dá outra chinelada, e mais outra, ela sente o golpe, mas continua mexendo as perninhas. Então você dá mais outra chinelada, e mais outra, e mais outra, você espanca a formiga e pensa que venceu. Porque se você olhar de perto, bem de perto, ela está lá, mexendo nem que seja uma anteninha, arrastando seus últimos segundos de vida. Isso para mim é poesia"


"O que tem para falar de alguém que toca triângulo? Eu estava observando. Dinheiro fácil do caralho. Acho que a maior injustiça desse universo é um tocador de triângulo ganhar o mesmo que o resto do grupo. Aquele sacana bebia mais licor que tocava. Mas o que tinha para tocar? Era tinguinlinguinlim e licor para dentro, tinguinlinguinlim e licor para dentro. Enquanto o sanfoneiro e o zabumbeiro se fudiam com seus instrumentos infinitamente mais pesados. E volta e meia aquele filho da puta ainda olhava o repertório colado colado no chão, como se fizesse alguma diferença a música que viria a seguir. Aposto que ele dizia para as putinhas, 'Sou músico, toco numa banda'. Duvido que dissesse que tocava triângulo"


"O dominó tem disso. Mesmo quando você sabe que não joga porra nenhuma, em algum momento, ganhando alguma partida, mesmo por obra do acaso, você sai cantando vitória e contando sua estratégia lógica e matemática de imperador do dominó"


"Não entendo Brotas. O bairro é gigantesco e, ao mesmo tempo, contramão para todos os lados ... Às vezes o bairro de Brotas parece um cenário dessas séries de TV sem fim e cheias de enigmas"


Paulo Bono
(2013/Cousa)


"- Uma gelada, Edson - o caboclo pediu ao dono da barraca.
- A noite foi boa? - o tal do Edson perguntou.
- Sabe aquela sarará, caixa da padaria?
- Comeu?
- Emadeiramento.
- Ela é gostosa - Edson disse.
- Puta que pariu - o caboclo exclamou - a mulher chupou tanto minha pica que eu pensei que a cabeça do pau ia afinar.
Terminei minha Coca-cola e pedi um chiclete"


"Tudo que um adolescente quer por perto, por mais ridículo que ele seja, é encontrar outro adolescente mais ridículo do que ele. Então eu era o centro das piadas. Ganhei o apelido de Paulo Medonho. Era Paulo Medonho isso, Paulo Medonho aquilo, Paulo, corta essa juba, você tá medonho. Havia uma verdadeira campanha para eu cortar meu cabelo. Era incrivelmente feio, de verdade. Mas eu me recusava. E pagava por isso. É que os amigos da Lapinha estavam descobrindo novos amigos e já não faziam mais questão da minha presença. Certa vez ia ter uma viagem, uma viagem que fazíamos todos os anos. Mas naquele ano, justamente naquele ano, o dono do carro me disse que não havia mais vaga para mim, me substituindo por um novo amigo, alguém com um cabelo humano e corpo sarado, que lhe fosse mais útil, é claro, o ajudando a se aproximar das putinhas. E aos 18 anos eu aprendia o quanto a amizade pode ser prática"


"Desemprego é uma lástima. Já engordei quatro quilos. A gente levanta, come alguma coisa e volta. Levanta, come alguma coisa e volta. E assiste qualquer porcaria na TV. Passava aquele quadro no telejornal. Pretos e pobres numa praça pública erguendo certificados rotos de cursos técnicos e implorando por uma vaga. Quem assiste aquilo? Só os desempregados"

sábado, 27 de julho de 2013

Pílulas: Parte 03 - Como Ficar Sozinho, de Jonathan Franzen

Jonathan Franzen (foto: Cia das Letras/Divulgação - interferida por Mirdad)


"É longo o caso entre literatura e mercado. A economia de consumo adora um produto que vende com boa margem de lucro, fica logo obsoleto ou é suscetível de melhoras constantes, e oferece a cada melhora um ganho marginal em utilidade. Para uma economia assim, a novidade que permanece novidade não é apenas um produto inferior; é um produto antitético. Uma obra clássica de literatura é barata, infinitamente reutilizável e, o pior de tudo, não pode ser melhorada"


"Percebi que minha desesperança no romance era menos resultado da minha obsolescência que do meu isolamento. A depressão se apresenta como um realismo em relação à podridão do mundo em geral e à podridão da sua vida em particular. Mas o realismo é apenas máscara para a verdadeira essência da depressão, que é uma dolorosa alienação da humanidade. Quanto mais convencido estiver de que você é o único com acesso à podridão, mais medo terá de se relacionar com o mundo; e quanto menos se relacionar com o mundo, mais traiçoeiro parecerá o resto da humanidade sorridente, que continua a se relacionar com ele"


"O obsessivo interesse da mídia em minha juventude me surpreendeu. Da mesma maneira que o dinheiro. Ajudado pelo otimismo da editora, que imaginou que um livro essencialmente sombrio, o avesso do entretenimento, pudesse vender zilhões de exemplares, consegui recursos suficientes para financiar meu livro seguinte. Mas a maior surpresa foi que um livro culturalmente comprometido não teve impacto na cultura. Eu queria provocar; mas tudo o que consegui foram sessenta resenhas que caíram no vazio"


Jonathan Franzen
(2012/Cia das Letras)


"Quando um escritor diz publicamente que o romance está condenado, pode apostar que seu próximo livro terá problemas; em termos de reputação, é como sangrar em águas infestadas de tubarões"


"O simples fato de uma criança ser 'isolada socialmente', no entanto, não condena o adulto em que ela se transformará a ter mau hálito ou a não saber se comportar numa festa. Na realidade, isso pode torná-lo hipersocial. A única coisa é que em algum momento você começará a ser atormentado por uma espécie de remorso, uma necessidade de ficar sozinho para ler sossegado - e assim se reconectar àquela comunidade. De acordo com Heath (Shirley Brice), leitores do tipo socialmente isolado têm muito mais chance de se tornar escritores do que aqueles que assimilaram desde cedo o hábito da leitura. Se a escrita era o meio de comunicação na comunidade durante a infância, faz sentido que, ao crescer, os escritores continuem achando a escrita vital para que haja uma sensação de vínculo"


"A mentira necessária de todo regime bem-sucedido, inclusive o otimista tecnocorporativismo sob o qual vivemos hoje, é que o regime fez do mundo um lugar melhor. O realismo trágico preserva o reconhecimento de que essa melhora sempre tem um custo. O realismo trágico preserva o acesso à sujeira que não se vê no sonho dos Escolhidos - às dificuldades humanas sob a eficiência tecnológica, à aflição por trás do torpor pop-cultural: a todos esses presságios nas margens da nossa existência"

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Vamos ouvir: Qualquer Frágil Fio de Fantasia, do Lise

Qualquer Frágil Fio de Fantasia (2011) - Lise




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Release disponível no site do projeto:

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O Lise, projeto do multiistrumentista mineiro Daniel Nunes (também integrante da banda instrumental Constantina), lança em 2011 o CD “Qualquer Frágil Fio de Fantasia”, no qual consolida seus experimentos sonoros que absorvem elementos da música contemporânea aliados ao pós-rock, eletrônica de vanguarda, música ambiente e até hip hop.

No novo CD as composições do Lise absorvem a música contemporânea, eletrônica e ambiente, partindo de temas instrumentais e experimentação de novas sonoridades. Participam do álbum artistas da cena musical alternativa de BH como o multiinstrumentista Barulhista, Dedig e Matéria Prima (os dois últimos, integrantes da banda Zimun), cuja participação resulta em uma inusitada canção de rap experimental (na faixa "Cuando el tiempo es la poesia", também conhecida com o título alternativo de "Parece Constantina"). O CD "Qualquer Frágil Fio de Fantasia” está disponível para audição no site do artista (www.projetolise.com).


Através do projeto "Lise em Rotação" (viabilizado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte), o Lise também promove workshops gratuitos sobre produção musical em estúdios caseiros (home studios), tendo como exemplo o próprio processo de produção de seu CD, gravado em casa. O objetivo é apresentar ferramentas e técnicas de produção de áudio para artistas independentes, profissionais do mercado audiovisual e interessados em música. 


O projeto já se apresentou em capitais brasileiras como Rio de Janeiro e Maceió e integrou a programação dos festivais Conexão Vivo, Pequenas Sessões, Lab e Escambo. No exterior, realizou shows na Argentina. Daniel também é membro-fundador da banda Constantina, com a qual se apresentou no festival SXSW - South by Southwest (considerado o maior festival de música do mundo), no Texas/EUA, e em Nova York/EUA (na primeira edição norte-americana do festival Grito Rock), além de shows por diversas cidades brasileiras. Outro projeto do qual participa é o premiado Reações Visuais, experimentação audiovisual que trabalha a transformação de sons urbanos em imagens digitais através de software-arte ao lado do artista L_ar. Com este trabalho, venceu o Prêmio Interações Estéticas – Funarte 2008 e Rede Nacional Artes Visuais – Funarte 2009 e se apresentou em festivais e projetos como Circuito Sesc de Artes, Festival On_Off - Itaú Cultural (sendo os únicos artistas brasileiros na programação) e III Mostra Livre de Cinema (Rio de Janeiro).
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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Pílulas: Parte 02 - Espalitando, de Paulo Bono

Paulo Bono (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Quando se é gordo, negro, anão, albino, aleijado ou coisa assim, esperam que você conte piadas, seja legal, passe a cola da prova, dê passagem, dê o lugar, faça silêncio, receba o soco, diga obrigado, aguente firme, tenha fé, comporte-se e seja feliz simplesmente por sobreviver com a caridade de quem é gente-bonita e faz o favor de sorrir para você"


"Sempre admirei os derrotados, os feridos que não se entregam e resistem ao capricho da morte. Aqueles que, por questão de honra, princípio, raça ou pirraça, não dão o braço a torcer e estão cagando para os vencedores. O vencedor pode ter a medalha, mas ele não tem a menor graça. Sou mais o pugilista que foi à lona, que já não enxerga porra nenhuma e cospe sangue na cara do campeão mundial. Sou mais o samurai que não se entrega nem fudendo, o bêbado que resiste ao tombo, contrariando a vontade de todos, o cachorro sem perna que ainda luta por um pedaço de bife, o desempregado que pendura a conta, o time rebaixado que tenta um gol de honra nos acréscimos"


"Bem, estava de volta a Salvador. Como dizem por aí, terra de gente bonita e alegre. Imagine como eu me sentia à vontade. E logo estava ali, aflito na esteira das bagagens. Como sempre, achando que seria o último a encontrar a mala ou que minha mala tinha ido parar na puta que pariu. Mas minha mala apareceu. Com sua fitinha vermelha pendurada. E aquilo me fez ligeiramente feliz e aliviado. E quando aquela grande porta de vidro se abriu não vi nenhum rosto conhecido. Apenas rostos frustrados ao me ver, como se dissessem, sai da frente, gordo, não é você que estamos esperando"


"É melhor fazer o que tem de fazer o quanto antes. Caso contrário, corre-se o risco de acostumar-se à infelicidade"


Paulo Bono
(2013/Cousa)


"Já passam da meia noite. Desço a ladeira sem pressa, sem preocupações. Reconheço também que algo dessa baianidade toda que falam por aí é verdade. Falo desse ventinho gostoso que sinto agora, do menino que ajuda a baiana a desarmar o tabuleiro para ganhar um acarajé, da zoada ali no boteco, do cochilo do taxista, do casal de amantes debaixo do orelhão, da plenitude vivida nas ruas de Salvador"


"Estava gostoso. E tocava Numa Sala de Reboco. Ao invés de "gente bonita", como dizem que há nas grandes festas, havia gente de verdade, caipiras de verdade. Todo mundo arrastando o pé. Um roça-roça da porra. Havia um casal que não parava um minuto. Os dois baixinhos. Dançavam acelerados, muito à frente do ritmo da música. Dançavam encaixados. E de rostos colados. Acho que podiam soltar uma bomba de mil ali dentro, que eles não iriam se desgrudar. Com certeza, depois daquele forró, quando voltassem para a roça, iriam fazer outro filho"


" - Porra de Chapada.
- Man, tem cada trilha de fuder.
- Porra de trilha. Eu sou algum sacana?
- Não adianta, Man – disse Paty – Bono não gosta de nada.
- Mas vale à pena, man. A gente encontra cada cachoeira do caralho.
- Sim, e depois? – perguntei a Man.
- Depois o quê, man?
- Depois da cachoeira, cacete, faz o quê?
- Depois volta pra pousada, Bono! – disse Paty!
- Esse é o problema. Você anda, anda, anda, escala, desce, pula, se fode todo pra encontrar uma porra de uma cachoeira. Grandes merdas. Mas vamos dizer que é uma cachoeira fudendo, linda, essa porra toda. Aí você toma banho na sua cachoeira, beleza, aí depois tem que andar tudo de novo, voltar a porra toda, se fuder tudo de novo. O saldo é negativo. Se por acaso, depois da cachoeira, viesse uma porra de um helicóptero, me pegasse e me levasse de volta pra pousada, tudo bem. Mas não, tem que andar tudo de novo. Pra ficar a noite toda passando Hipoglós no rabo, com a perna pra cima (...)
Paty Guaraná e Man continuaram falando sobre as opções do feriadão na Bahia. Falaram mais da Chapada, da praia de Jauá, de uma Choppada em Sauípe. Nada me interessava. Exceto a preferência pelo acarajé e vatapá, acho que não tenho nada da Bahia. Não tenho essa alegria toda"

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Alumia, Dominguinhos!



Ontem morreu um homem bom. Não o conheci pessoalmente, mas bastava vê-lo cantar para que o seu semblante sorridente, de bem com a vida, sertanejo que flui pelas adversidades com a rara sabedoria do ser bom por espontaneidade, sem pretensão, irrigasse a árida seca das relações contemporâneas com um dilúvio de bondade. Sua contribuição para o cancioneiro do país é importantíssima, reconhecida, um músico virtuoso, uma grande voz, mas nenhum dos seus dons musicais espetaculares foram maiores que o legado de seu sorriso, de seu desprendimento, de sua humildade e competência afetiva em encantar a todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo ao menos uma vez. Muito obrigado, mestre, tua luz é imensa e o teu descanso é merecido. Deus te abençoe, filho do Nordeste, alumia a quem fica, estrela sertaneja! Deixo aqui uma linda canção:




Pra rever e se emocionar:



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Pílulas: Parte 02 - Como Ficar Sozinho, de Jonathan Franzen

Jonathan Franzen (foto: Cia das Letras/Divulgação - interferida por Mirdad)


"Grosseria, irresponsabilidade, má-fé e estupidez são marcas das relações humanas reais: o assunto de conversas, a causa de noites em branco. Mas, no mundo consumista da propaganda e das compras, nenhum mal é moral. Os males consistem em preços elevados, inconveniências, poucas opções, falta de privacidade, azia, queda de cabelo e estradas escorregadias. O que não é surpresa alguma, já que os únicos problemas para os quais vale a pena buscar uma saída são aqueles cuja resolução implica gasto de dinheiro. Mas o dinheiro não nos livra dos que não têm modos - a pessoa que conversa no escuro do cinema, a cunhada que nos trata com condescendência, a namorada que só pensa nela mesma - a não ser que nos ofereça refúgio numa privacidade atomizada. E o Século Americano se inclina exatamente a tal privacidade"


"Imagine que a existência humana seja definida por uma Dor: a Dor de não sermos, cada um de nós, o centro do universo; de nossos desejos serem mais numerosos que os meios de satisfazê-los. Se vemos a religião e a arte como meios historicamente eletivos de acertarmos as contas com essa Dor, então o que acontecerá com a arte quando nossos sistemas tecnológicos e econômicos, e mesmo nossas religiões comerciais, se tornarem suficientemente sofisticados para fazer de cada um de nós o centro do nosso próprio universo de escolhas e gratificações? A resposta da ficção para o suplício causado pelos maus costumes, por exemplo, é rir deles. O leitor ri com o escritor e sente menos sozinho diante de tal tormento. Essa é uma transação delicada e requer algum esforço. Como se pode competir com um sistema - converse na tela; saia de casa com um modem; obtenha o dinheiro para fazer negócios só com o mundo privatizado, em que trabalhadores devem ser gentis para não perder os empregos - um sistema que, para começar, nos poupa do suplício?"


"O silêncio é eficiente apenas se em algum lugar alguém esperar que sua voz seja alta"


Jonathan Franzen
(2012/Cia das Letras)


"Embora bons escritores não procurem deliberadamente seguir tendências, muitos deles acreditam ter a responsabilidade de tratar assuntos contemporâneos, e agora confrontam uma cultura na qual quase todos os temas são esgotados a quase todo instante. A escritora que quiser contar uma história que seja verdadeira não apenas em 1996, mas também em 1997, pode se sentir perdida, sem referências culturais sólidas. Tópicos relevantes enquanto ela planeja escrever o romance quase com certeza estarão ultrapassados quando o livro for escrito, reescrito, publicado, distribuído e lido"


"O pânico cresce no hiato entre a duração cada vez maior do projeto e o tempo cada vez menor da mudança cultural: como projetar uma embarcação que possa flutuar na história por tanto tempo quanto é necessário para construí-la? O escritor tem mais e mais coisas para dizer a leitores que têm menos e menos tempo para ler: onde encontrar energia para se comprometer com uma cultura em crise, quando a crise consiste na impossibilidade de comprometimento com essa cultura?"


"É difícil considerar a literatura um remédio, quando sua leitura serve sobretudo para aprofundar nossa alienação depressiva da cultura central; cedo ou tarde, o leitor que raciocina em termos terapêuticos acabará considerando a própria leitura uma doença"

sábado, 20 de julho de 2013

Pílulas: Parte 01 - Espalitando, de Paulo Bono

Paulo Bono (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Sempre odiei licitações. A raiva aumentava quando eu lembrava das palavras do diretor de criação 'Bono, tem uma licitação pra gente participar. Parece que é coisa séria. Sem carta marcada'. Em que mundo ele vive? Estamos no Brasil. Por que participar se não vai sequer competir? Não é como chegar em último na maratona. Não existem aplausos. Não existe medalha de honra. Não existe honra. Existe, no máximo, uma pizza na madrugada. Porque eu sabia que não ia receber nenhum extra por me fuder dia e noite nessa farsa. Mas o que vale minha opinião? Eu sou apenas o redator. Pior, sou um redator gordo. Pior ainda, em tempos de licitação, eu engordo muito mais"


"Uma roda de dominó é um verdadeiro fórum de economistas, sociólogos, políticos, técnicos de futebol e noveleiros. Já vi roda de dominó vir a baixo por causa da falta de ética de uma personagem da Renata Sorrah. Dominó na feira é um esporte pra machos. Falar demais a ponto de esquecer de quem é a vez de jogar é motivo de tapa na cara. Se o falatório for demasiado o bastante a ponto de provocar um gato, ou seja, de colar uma pedra errada e atrapalhar o jogo, é justa causa para espancamento a socos e pontapés"


"O cara hoje pode driblar o time todo, o goleiro, o juiz, a puta mãe do juiz, que mesmo assim vão dizer 'Ah, rapaz, é porque você não viu Garrincha jogar'. Pelé. Pelé. Pelé. Porra de Pelé. Sou mais o Zico" 


"Agregando uma aparência ridícula que mesclava uma cara medonha com um ar imbecil, uma personalidade insegura e o fato de ser o estereótipo do perdedor sem carro e sem grana, tudo isso em um corpo cada vez mais gordo, claro que eu estava fora da lista de desejos e fantasias, por mais absurdas que fossem, de qualquer mulher no cosmos, eu era praticamente um ser inanimado, assexuado, invisível. Cheguei a desistir por um tempo. Deixei de ir aos bares, às festas, a qualquer evento social. Evitava olhar para as mulheres nas ruas. Porque isso parecia ofendê-las. A verdade é que me acabei na punheta naquele ano"


Paulo Bono
(2013/Cousa)


"Quartos de hotel só servem para mostrar o quanto você é você só"


"Em cada cartão, há o nome de um carequinha. Não que eu seja insensível. Apenas sou como a grande maioria dos seres-humanos. Sou preguiçoso, não tenho dinheiro, não tenho tempo nem cabeça para esse papo de solidariedade. Mas dessa vez entrei no jogo e peguei um cartão. Escolhi um que estava no lado de trás da árvore. Aposto que eles colocam os carequinhas mais bonitinhos e amáveis na frente. Não, não venha me dizer que a discriminação tira férias no natal"


"A primeira pensão onde passei a noite em Feira de Santana parecia aconchegante. Tive certeza quando encontrei pela manhã um rato sambando à vontade sobre farelos de cream cracker pelo chão. Depois, encontrei um lugar mais familiar. Tinha um jardim, crianças correndo pela sala, porta-retratos coloridos e brigas como em qualquer família. Certa noite, o marido, também proprietário da pensão, espancou a socos e pontapés a esposa, na frente da filha de sete anos e de todos que assistiam ao Jornal Nacional. Deu polícia e tudo. Naquela noite, dormi no chão da agência"


"Não importa quanto você tenha na conta, que ano é seu carro, quantos prêmios já recebeu. Não importa quantos filhos você pôs no mundo, quantas árvores já plantou nem quantos livros tenha publicado. Não importa quantas entidades beneficentes você ajuda, nem quantos domingos você vá à missa conversar com o Nosso Senhor. Não importa quantas estrelas tem seu plano de saúde, quantos dentes você tem, nem se você é o presidente dos Estados Unidos ou o presidente da casa do caralho. Numa fria sala de cirurgia, com as pernas escancaradas e um bando de enfermeiras limpando e raspando seus ovos e seu rabo, sua dignidade vai ao ralo, você não passa de um pedaço de carne, você não é ninguém"

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Vamos ouvir: Unhas de Novembro, de Heitor Dantas

Unhas de Novembro (2013) - Heitor Dantas




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Experimente no bandcamp:

"
Novembro. Membro sem unha.
Contrapunha, mesmo sem punho, lúnula convexo.
Complexo.
Membrana, lâmina ungueal, sobrepunha á sobra, punha-se completo.
Compunha de queratina: aspargito, ácido glutâmico e aspártico. Explêndido!
Enquanto novembro expunha o trânsito. Testemunha em transe. Transpunha a réplica.
Paroníquia ímpar, impunha à aspargina, unha sem membro. Depunha sem medo, depois de Novembro.
Depois do eponíquio: polegar oposto, opunha ao médio. Médico sóbrio, sobra da alcunha, contrapunha ao mínimo à sombra da República.
Dia indicador, pressupunha opôr, onicofagia e pressa ao comparsa jus. Justapunha impressa, expunha o supérfluo.
Membro. Novembro sem unha. Novo computar.
Unhas de Novembro? Espinho Anelar.
"

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Pílulas: Parte 01 - Como Ficar Sozinho, de Jonathan Franzen

Jonathan Franzen (foto: Cia das Letras/Divulgação - interferida por Mirdad)


"Nossas vidas parecem muito mais interessantes quando filtradas pela interface sexy do Facebook. Estrelamos nossos próprios filmes, fotografamos incessantemente a nós mesmos, clicamos o mouse e uma máquina confirma a sensação de que estamos no comando. E, já que nossa tecnologia é apenas uma extensão de nós mesmos, não precisamos desprezar suas manipulações, como faríamos no caso de pessoas de verdade. É um movimento circular sem fim. Curtimos o espelho e o espelho nos curte. Ser amigo de uma pessoa significa apenas incluí-la em nossa lista particular de espelhos elogiosos"


"Posso imaginar as doentias veredas mentais pelas quais o suicídio surge como uma substância subjulgadora da consciência que ninguém pode nos tirar. A necessidade de ter algo só pra si, a necessidade de um segredo, a necessidade de uma derradeira validação narcísica da sua primazia, e então a volúpia da raiva de si mesmo provocada pela antecipação do último grande lance, e a interrupção final do contato com o mundo que lhe negaria a alegria do seu prazer egocêntrico"


"Privacidade, para mim, não significa manter minha vida pessoal longe dos outros. Significa me manter longe da vida pessoal dos outros"


Jonathan Franzen
(2012/Cia das Letras)


"Se uma pessoa dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é. E, se tiver êxito na tentativa de manipular os outros para que seja curtido, será difícil que, em algum nível, não sinta verdadeiro desprezo por aqueles que caíram em seu embuste"


"É assustador imaginar que o mistério de nossas identidades pode se reduzir a uma sequência finita de informações"


"Você se pergunta: por que me dou ao trabalho de escrever esses livros? Não posso fingir que o ambiente cultural dominante prestará atenção às novidades que abordo. Não preciso fingir que estou subvertendo algo, porque qualquer leitor capaz de decodificar minhas mensagens subversivas não teria necessidade de ouvi-las. Não engulo a noção de que ficção séria é boa para nós, porque não acredito que para tudo o que há de errado no mundo haja uma cura, e, mesmo que acreditasse, que cura eu, que me sinto o doente da história, poderia oferecer?"

terça-feira, 16 de julho de 2013

Pílulas: O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar

Julio Cortázar interferido por Mirdad


No final do mês passado, a obra-prima "Rayuela", publicada no Brasil como "O Jogo da Amarelinha", do mestre argentino Julio Cortázar, completou 50 anos de sua primeira publicação. O jornal Clarín criou uma página especial para as comemorações (veja aqui). A imprensa mundial fez diversas matérias destacando o livro com um dos mais importantes romances latino-americanos. Com 640 páginas, proporciona uma experiência maravilhosa seguir os passos indicados, pulando pra lá e cá no jogo do Cortázar. Como é que não adaptaram ainda pro cinema? Dois filmes, assim como suas duas partes. Mais completo destinar a uma trilogia. Aqui, seguem as pílulas da obra prima nos links abaixo.


Parte I
Leia aqui
"Os dois o sentiram no mesmo instante e escorregaram um pelo outro como para cair em si mesmos, na terra comum onde as palavras e as carícias e as bocas os envolviam como a circunferência envolve o círculo"



Parte II
Leia aqui

“As únicas coisas que terminam de verdade são aquelas que recomeçam todas as manhãs”





Parte III
Leia aqui
"Sendo imortal, o amor brinca de inventar-se, fugindo de si mesmo para regressar na sua espiral surpreendente, os seios cantam de outro modo, a boca beija mais profundamente ou como de longe e, num momento, onde antes havia algo como a cólera e angústia, é agora o jogo puro, a agitação incrível"


Parte IV
Leia aqui
“Esta realidade não é nenhuma garantia nem para você nem para ninguém, a não ser que a transforme em conceito, e depois em convenção, em esquema útil"

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Pílulas: Poemas, de Daniel Lima

Daniel Lima (foto: Cepe/Divulgação - interferidas por Mirdad)


Foi através de uma das melhores esquinas já publicadas na revista piauí (leia aqui), em maio de 2012, que eu conheci a figuraça do padre poeta pernambucano, que tinha falecido um mês antes dessa publicação. Corri atrás de sua obra e comprei a compilação de 400 páginas intitulada "Poemas", lançada em 2011 pela Cepe (Companhia Editora de Pernambuco), que foi premiado em sua categoria pela Fundação Biblioteca Nacional no mesmo ano do lançamento. Tem uma matéria breve da Bravo aqui. Não gostei da primeira parte, mas quando o poeta abandona a forma e os títulos, partindo pro verso livre, a poesia acontece. Aproveitei a leitura para pilular o livro, que você pode conferir nos links abaixo.


Parte I
Leia aqui
"Nada aprendi na vida senão esta lição: que sou provisório e de passagem"



Parte II
Leia aqui
"É na queda que se revela a escondida fraqueza do homem essencial. É no fundo do abismo que se descobre a força ausente. É na desnudez da morte que se sente o impasse da vida, a fugacidade do tempo e o mistério das horas transcorridas"


Parte III
Leia aqui
"Não é o mar que amo, é o infinito que ele sugere, são as paixões que lembra, é a força que suscita - é isto que amo no mar, não o mar, mas o que ele representa, a paisagem interior aonde ele aponta, o mar em mim, as águas reprimidas no coração"


Parte IV
Leia aqui
"A vida é mais pressentimento, antecipação, sonho de profeta alucinado e sonâmbulo, que acontecida visão de olhos reais e limpos. É ser navio ao mar, mas é antes ser mais em tempestade que aos rochedos atira o desamparado navio; mas é ser antes a própria tempestade que açoita o mar, jogando-o aos rochedos; mas é ser antes rochedo aonde se esbatem as agitadas ondas e os náufragos que sobram desse açoite e os restos do navio"

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Matéria sobre a Flisca no jornal Notícias do Dia de Floripa

ND Online - 10/07/2013

"Como alternativa e também como diferencial, a ideia é que a Flisca não tenha uma sede fixa, mas seja itinerante pelo Estado. Segundo Mirdad, o objetivo é aproveitar as diferentes regiões com potencial turístico no Estado e também lançar algo inédito e ousado, que vai atrair o público de outras regiões".

Matéria sobre a Festa Literária Internacional de Santa Catarina no ND Online de Floripa, com entrevista com o curador local Carlos Henrique Schroeder e o curador e coordenador geral Emmanuel Mirdad, reverberando o comecinho do evento, uma realização da Mirdad - Gestão em Cultura - clique aqui

Versão impressa da matéria no jornal Notícias do Dia:


terça-feira, 9 de julho de 2013

Entrevista sobre a Flisca



"Quando a Mirdad Cultura decidiu ampliar suas ações culturais pelo País, fizemos uma pesquisa e verificamos que Santa Catarina tinha um cenário muito interessante para o nosso ramo"

Confira a entrevista com Emmanuel Mirdad, diretor da Mirdad Cultura, coordenador geral e um dos curadores da Flisca (Festa Literária Internacional de Santa Catarina) para a coluna/blog Orelhada, de Rubens Herbst, do jornal A Notícia, de Joinville - clique aqui

Versão impressa da coluna:


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Pílulas: Parte 04 - Padre poeta Daniel Lima

Daniel Lima (foto: Cepe/Divulgação - interferido por Mirdad)


"A vida é mais pressentimento, antecipação,
sonho de profeta alucinado e sonâmbulo,
que acontecida visão de olhos reais e limpos.
É ser navio ao mar,
mas é antes ser mais em tempestade
que aos rochedos atira o desamparado navio;
mas é ser antes a própria tempestade
que açoita o mar, jogando-o aos rochedos;
mas é ser antes rochedo aonde se esbatem
as agitadas ondas
e os náufragos que sobram desse açoite
e os restos do navio"


"As casas correram loucas pela rua afora
derretidas de luz e de perfumes
e o sol se liquefez em leite e som.
Do céu caiu um jarro de agonias
e do dedo um anjo distraído
dois pedaços de anéis caíram ao chão.
Realidade, filho meu, é isto.
O resto é ilusão"


"A noite é tão escura, tão escura
que eu quase escuto o tempo
pingando a minha vida gota a gota.
E não posso dormir.
Sinto a minha vida saqueada
pelo som ritmado do relógio.
Acendo a luz,
fecho o relógio no armário,
apago o tempo.
E durmo"


"O intelectual é um urubu
que se julga vestido,
mas que está nu,
com uma pena de pavão
enfiada
no cu"


"Sei que o que sei de mim
é quase o avesso
do que penso que sou.

E isto me dói
e isto me acusa,
mas isto me sustenta"


"Procuro com obstinação
a curva que se esconde
dentro da reta
e o infinito que há
nos teus limites"


Daniel Lima 
(2011/Cepe)

"Ontem de tarde
senti que dentro de mim
carrego um esqueleto.

Arrepiei-me todo.
E não pude dormir.

Mas hoje dormirei.
Aceitei o esqueleto.
Sei que não veio a mim como um visitante ou um hóspede.

O esqueleto sou eu"


"Sou dois.
Sou muitos.
De repente, sou nenhum.

Às vezes sinto uma vontade enorme
de um dia ser um"


"Quero ser protegido,
sinto-me estrangulado.

A indesejada proteção sufocante.
O amor que ama, que perturba
e impede o voo e mata

As portas da casa me defendem
das invasões do mundo.
As invasões que me faço são piores.

As fantasias, os sonhos bloqueados entre
paredes.

Em casa não vejo o sol,
em casa adoeço
de tanto estar em casa, só comigo.
(Um dia a gente se cansa
de tanto se parecer consigo mesmo
todo dia)

Sei que em casa estou morrendo.
O ar de casa é puro, mas é morno,
é puro demais para a alma impura
da gente (falo de mim)

Estou farto de tanta segurança.
Para isto nasci: encontrar-me nos outros"


"Amo a minha pátria.
Mas que pátria é minha?
Esta que agora sofro é dos ladrões,
e não dos pequenos ladrões
que apenas recuperam
o que lhes foi furtado
pelos grandes ladrões
de brancos colarinhos
e cívicos discurosos de mau gosto.

Este é o triste País dos Gatunos Oficiais.

Enquanto isto,
almoço fartamente todos os dias.
Sinto-me comodista.
E vou dormir.

Sou gatuno menor.
Vivo das sobras dos banquetes
dos grandes gatunos nacionais"

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pílulas: Parte 03 - Padre poeta Daniel Lima

Daniel Lima (foto: Cepe/Divulgação - interferido por Mirdad)


"Não é o mar que amo,
é o infinito que ele sugere,
são as paixões que lembra
é a força que suscita
- é isto que amo no mar,
não o mar, mas o que ele representa,
a paisagem interior aonde ele aponta,
o mar em mim, as águas reprimidas
no coração mais dentro"


"O morto está só.
Está sozinho o morto.

Os que o cercam
sentem essa distância intransponível.
O morto não sente nada,
já não lhe dói a vida.
E essa carência de toda dor possível
é a solidão maior.

Os vivos que o velam
olham com disfarçado temor
seus olhos de pálpebras cerradas,
suas cruzadas mãos, seu rosto pálido,
sua gelada ausência tão bem posta,
sua solidão.
E é disto que eles têm medo"


"Não sei se poderemos suportar a visão da
verdade e a face das coisas
quando cair o último véu que lhes oculta o
segredo.

Pelo menos se as palavras envolvessem a nudez
dessas realidades tão duras,
poderíamos dormir ainda à chegada da noite.

Mas ninguém fechará os olhos à misericórdia
do sono
na hora da revelação definitiva.

Ninguém poderá suportar o próprio rosto
agora visto sozinho e nu, um rosto único e
implacável
sem mais olhos e risos a escondê-lo.

Apenas resistirá o rosto verdadeiro
que se cobriu para sempre
das obscuras lágrimas"


"Minha alma é periódica
funciona algumas vezes na semana
e é palúdica, tem febre às quintas-feiras.

Tenho também um corpo que, coitado,
a hospeda por dever, mas constrangido.

Alma de fluido feita e de bagaço
e doses de paixões malresolvidas
e orgulho e frustrações,
o diabo a quatro.

Com cuidado mandei analisá-la
e descobriram, encantados, que era feita
de santidade e feijão, música e merda"


Daniel Lima 
(2011/Cepe)

"Como suportaria os rudes golpes da vida,
se em mim a cicatriz não precedesse a ferida?
Se as águas dos meus mares
não fechassem em instantes
o corte que lhe fazem
os navios que as singram noite e dia?

Às vezes antes, outras vezes
no instante do sofrer
a vida em mim responde
e faz-se cicatriz antecipada
ou água revolta a se fechar no instante
ou apenas também
a submersa dor, tornada espuma"


"Não sei se me pertenço.
Talvez seja antes pertencido
pelas coisas que tenho ou que conheço,
ou mais ainda pelas que ignoro,
ou as que sofro, ou as que amo,
o meu mundo, o meu ser.
Talvez que a minha liberdade
não passe de um destino disfarçado"


"E de olhos fechados
vejo que brilha em mim
entre clarões metálicos
o mistério maior de minha noite"


"Meus olhos
desesperadamente pessoais
puxam de longe no tempo
o menino que fui
e se perdeu na festa,
vendo os palhaços do circo
e os cantadores de feira
e os mágicos mestres de ilusões.

E o menino retorna envelhecido
e traz consigo
os palhaços do circo
e os cantadores de feira
e os mágicos mestres de ilusões
para seus olhos de agora
desesperadamente pessoais"