Pular para o conteúdo principal

Espalitando, de Paulo Bono — Parte 01

Paulo Bono
Foto: Divulgação | Arte: Mirdad


"Sempre odiei licitações. A raiva aumentava quando eu lembrava das palavras do diretor de criação 'Bono, tem uma licitação pra gente participar. Parece que é coisa séria. Sem carta marcada'. Em que mundo ele vive? Estamos no Brasil. Por que participar se não vai sequer competir? Não é como chegar em último na maratona. Não existem aplausos. Não existe medalha de honra. Não existe honra. Existe, no máximo, uma pizza na madrugada. Porque eu sabia que não ia receber nenhum extra por me fuder dia e noite nessa farsa. Mas o que vale minha opinião? Eu sou apenas o redator. Pior, sou um redator gordo. Pior ainda, em tempos de licitação, eu engordo muito mais"


"Uma roda de dominó é um verdadeiro fórum de economistas, sociólogos, políticos, técnicos de futebol e noveleiros. Já vi roda de dominó vir a baixo por causa da falta de ética de uma personagem da Renata Sorrah. Dominó na feira é um esporte pra machos. Falar demais a ponto de esquecer de quem é a vez de jogar é motivo de tapa na cara. Se o falatório for demasiado o bastante a ponto de provocar um gato, ou seja, de colar uma pedra errada e atrapalhar o jogo, é justa causa para espancamento a socos e pontapés"


"O cara hoje pode driblar o time todo, o goleiro, o juiz, a puta mãe do juiz, que mesmo assim vão dizer 'Ah, rapaz, é porque você não viu Garrincha jogar'. Pelé. Pelé. Pelé. Porra de Pelé. Sou mais o Zico" 


"Agregando uma aparência ridícula que mesclava uma cara medonha com um ar imbecil, uma personalidade insegura e o fato de ser o estereótipo do perdedor sem carro e sem grana, tudo isso em um corpo cada vez mais gordo, claro que eu estava fora da lista de desejos e fantasias, por mais absurdas que fossem, de qualquer mulher no cosmos, eu era praticamente um ser inanimado, assexuado, invisível. Cheguei a desistir por um tempo. Deixei de ir aos bares, às festas, a qualquer evento social. Evitava olhar para as mulheres nas ruas. Porque isso parecia ofendê-las. A verdade é que me acabei na punheta naquele ano"


"Quartos de hotel só servem para mostrar o quanto você é você só"


"Em cada cartão, há o nome de um carequinha. Não que eu seja insensível. Apenas sou como a grande maioria dos seres-humanos. Sou preguiçoso, não tenho dinheiro, não tenho tempo nem cabeça para esse papo de solidariedade. Mas dessa vez entrei no jogo e peguei um cartão. Escolhi um que estava no lado de trás da árvore. Aposto que eles colocam os carequinhas mais bonitinhos e amáveis na frente. Não, não venha me dizer que a discriminação tira férias no natal"


"A primeira pensão onde passei a noite em Feira de Santana parecia aconchegante. Tive certeza quando encontrei pela manhã um rato sambando à vontade sobre farelos de cream cracker pelo chão. Depois, encontrei um lugar mais familiar. Tinha um jardim, crianças correndo pela sala, porta-retratos coloridos e brigas como em qualquer família. Certa noite, o marido, também proprietário da pensão, espancou a socos e pontapés a esposa, na frente da filha de sete anos e de todos que assistiam ao Jornal Nacional. Deu polícia e tudo. Naquela noite, dormi no chão da agência"


"Não importa quanto você tenha na conta, que ano é seu carro, quantos prêmios já recebeu. Não importa quantos filhos você pôs no mundo, quantas árvores já plantou nem quantos livros tenha publicado. Não importa quantas entidades beneficentes você ajuda, nem quantos domingos você vá à missa conversar com o Nosso Senhor. Não importa quantas estrelas tem seu plano de saúde, quantos dentes você tem, nem se você é o presidente dos Estados Unidos ou o presidente da casa do caralho. Numa fria sala de cirurgia, com as pernas escancaradas e um bando de enfermeiras limpando e raspando seus ovos e seu rabo, sua dignidade vai ao ralo, você não passa de um pedaço de carne, você não é ninguém"




Trechos extraídos do livro de crônicas "Espalitando" (Cousa, 2013), de Paulo Bono.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dez passagens de Jorge Amado no romance Capitães da Areia

Jorge Amado “[Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava ‘meu padrinho’ e que o surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os seus olhos e faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A...

Dez passagens de Clarice Lispector nas cartas dos anos 1950 (parte 1)

Clarice Lispector (foto daqui ) “O outono aqui está muito bonito e o frio já está chegando. Parei uns tempos de trabalhar no livro [‘A maçã no escuro’] mas um dia desses recomeçarei. Tenho a impressão penosa de que me repito em cada livro com a obstinação de quem bate na mesma porta que não quer se abrir. Aliás minha impressão é mais geral ainda: tenho a impressão de que falo muito e que digo sempre as mesmas coisas, com o que eu devo chatear muito os ouvintes que por gentileza e carinho aguentam...” “Alô Fernando [Sabino], estou escrevendo pra você mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada. Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que dizer, dá uma vontade enorme de dizer. O quê? (...) E assim é que, por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também. Até que a dignidade do silêncio venha, o que é frase muito bonitinha e me emociona civicamente.”  “(...) O dinhei...

Oito poemas de Ana Martins Marques no livro Risque esta palavra

Ana Martins Marques (foto daqui ) História Ana Martins Marques Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem uma história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma calça jeans de 4 anos e uma camiseta de não mais do que 3, troco com meu vizinho palavras de cerca de 800 anos e piso sem querer numa poça com 2 horas de história desfazendo uma imagem que viveu alguns segundos. Belo Horizonte, 7 de novembro de 2016. -------- Parte alguma Ana Martins Marques Não te enganes: viajar é aborrecido. Num ponto, ao menos, todos os lugares  se parecem: neles já se passou  algo terrível.  As viagens cansam e são tristes.  Viajando apenas constatamos  a repetição tediosa do que existe. Pois para onde quer que compremos passagem levamos a nós mesmos na bagagem. Viajar é conduzir o corpo — esse comboio imundo — a...