sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Psicodelia de hoje: Unquiet, da Orange Poem & Rodrigo Pìnheiro







Nove passagens de Rubem Fonseca no livro Feliz ano novo

Rubem Fonseca (foto daqui)


"(...) Sabe o que é duas pessoas se gostarem? Éramos nós dois, eu e Maria. Sabe o que é duas pessoas perfeitamente sintonizadas? Éramos nós, eu e Maria. (...) Minha pedra preciosa preferida é o Rubi. O de Maria, estás a ver, era também o Rubi. Número da sorte o 7, cor o Azul, dia Segunda-feira, filme, de Faroeste (...) música o Samba, passatempo o Amor, tudo igualzinho entre eu e ela, uma maravilha. O que nós fazíamos na cama, rapaz, não é para me gabar, mas se fosse no circo e a gente cobrasse entrada nós ficávamos ricos. Na cama nenhum casal jamais foi tomado de tamanha loucura resplandecente, foi capaz de performance tão hábil, imaginativa, original, pertinaz, esplendorosa e gratificante quanto a nossa. (...) Se você fosse toda marcada de varíola eu não deixaria de te amar, eu respondia. Se você fosse velho e impotente eu continuaria te amando, ela dizia. E nós estávamos trocando essas juras quando uma vontade de ser verdadeiro bateu em mim, funda como uma punhalada, e eu perguntei a ela, e se eu não tivesse dentes, você me amaria?, e ela respondeu, se você não tivesse dentes eu continuaria te amando. Então eu tirei a minha dentadura e botei em cima da cama, num gesto grave, religioso e metafísico. Ficamos os dois olhando para a dentadura em cima do lençol, até que Maria se levantou, colocou um vestido e disse, vou comprar cigarros. Até hoje não voltou. (...)"


"(...) Além de fodida, mal paga. Limpei as joias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o Ano-novo (...) Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci."


"Todos nós, animais de sangue quente, sabemos que tudo vai acabar."


"Prezado Dr. Nathanael Lessa. Tenho vinte e cinco anos, sou datilógrafa e virgem. Encontrei esse rapaz que disse que me ama muito. Ele trabalha no Ministério dos Transportes e disse que quer casar comigo, mas que primeiro quer experimentar. O que achas? Virgem Louca. Parada de Lucas. (...) Olha aqui, Virgem Louca, pergunta pra cara o que ele vai fazer se não gostar da experiência. Se ele disser que te chuta, dá pra ele, pois é um homem sincero. Tu não és groselha nem ensopadinho de jiló para ser provada, mas homens sinceros existem poucos, vale a pena tentar. (...)"


"(...) chega de pensamento polifásico, pensei, e saí e fui até o bar e estava na terceira caipirinha quando sentaram numa mesa ao lado duas garotas e uma foi logo me dizendo, oi. Oi, eu, e peguei meu copo e mudei de mesa; uma era modelo de anúncio de televisão e a outra não fazia nada. E você? Sou assassino de mulheres – podia ter dito, sou escritor, mas isso é pior do que ser assassino, escritores são amantes maravilhosos por alguns meses apenas e maridos nojentos pela vida afora – e como é que você mata elas? – veneno, o lento veneno da indiferença – uma se chamava Íris, a que não fazia nada, e a outra Suzana, me chama de Suzie. Não me lembro de mais nada, fiquei bêbado e acordei no dia seguinte com ressaca – com menos de trinta anos e já sofrendo dos lapsos de memória dos alcoólatras, além de ver duplo o meu palimpsesto depois da quarta caipirinha."


"(...) o destino do campeão é ser desafiado sem trégua. (...)"


"Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não para de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar? (...) A copeira serviu à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta."


"(...) quando os defensores da decência acusam alguma coisa de pornográfica é porque ela descreve ou representa funções sexuais ou funções excretoras, com ou sem o uso de nomes vulgares comumente referidos como palavrões. O ser humano, alguém já disse, ainda é afetado por tudo aquilo que o relembra inequivocamente é o único animal cuja nudez ofende os que estão em sua companhia e o único que em seus atos naturais se esconde dos seus semelhantes (...)"


"(...) Ela quer comparar cavalo com cachorro, mas cavalo não lambe a mão de ninguém. Existem cachorros sem a menor compostura, como esses lulus de madame. Não é à toa que, quando uma pessoa não presta, chamam ela de cachorro. O pior pangaré, esses de estações de água, é mais digno do que qualquer cachorro. São todos uns parasitas esses cachorros. Alguém já ganhou uma guerra com cachorro? (...) Perguntei a ele se são Jorge era o santo dos cavalos e Pedro me disse irritado que cavalo não precisava de santo, santo é que precisa de cavalo."





Presentes no livro Feliz ano novo (Saraiva de bolso, 2012), página 30-31, 16, 82, 22-23, 74-75, 84, 47, 121-122 e 111, respectivamente.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Fotos oficiais do lançamento da Flica 2015 na Caixa Cultural

Foto: Egi Santana



Coletiva de imprensa
Sexta 18/09 - 10h
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A tradução da dor e do imaginário
Cristovão Tezza | Ronaldo Correia de Brito
Sexta 18/09 - 18h
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Ana Mametto & Yacoce Simões
Pocket-show 01
Sexta 18/09 - 20h
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Fliquinha
Programação infantil
Sábado 19/09 - Manhã e tarde
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Gentes como elas são
Sonia Rodrigues | Victor Mascarenhas
Sábado 19/09 - 09h
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O bem e o mal que saem da boca
Fabrício Carpinejar | Miriam de Sales
Sábado 19/09 - 11h
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Muitas andanças, um só rumo
Ana Maria Gonçalves | Daniel Thame
Sábado 19/09 - 15h
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Os fatos e as impressões
Laurentino Gomes
Sábado 19/09 - 18h
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Alexandre Leão
Pocket-show 02
Sábado 19/09 - 20h
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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Lançamento da Flica 2015 - BATV (TV Bahia)



Matéria do jornal BATV (TV Bahia) em 18/09/2015 sobre o lançamento da Flica 2015 na Caixa Cultural em Salvador/BA.

O Governador da Bahia, Rui Costa, o prefeito de Cachoeira, Carlos Pereira, o presidente da Rede Bahia, Antônio Carlos Magalhães Jr., o autor homenageado do ano, Antônio Torres, e o curador da Flica, Aurélio Schommer, falaram na abertura da coletiva. Depois, o Coordenador Geral da Flica, Emmanuel Mirdad, apresentou a programação da 5ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira, e os representantes da Oi e Coelba, além do Secretário de Cultura, prof. Jorge Portugal, falaram em nome dos patrocinadores da Flica 2015.



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Lançamento da Flica 2015 - Cobertura Secom-BA

Coordenador Geral da Flica


Confira abaixo a cobertura da Secom/BA da coletiva de imprensa do lançamento da Flica 2015, que aconteceu na manhã da sexta 18/09, na Caixa Cultural, em Salvador/BA.

O Governador da Bahia, Rui Costa, o prefeito de Cachoeira, Carlos Pereira, o presidente da Rede Bahia, Antônio Carlos Magalhães Jr., o autor homenageado do ano, Antônio Torres, e o curador da Flica, Aurélio Schommer, falaram na abertura da coletiva. Depois, o Coordenador Geral da Flica, Emmanuel Mirdad, apresentou a programação da 5ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira, e os representantes da Oi e Coelba, além do Secretário de Cultura, prof. Jorge Portugal, falaram em nome dos patrocinadores da Flica 2015.



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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Oito passagens de J. J. Veiga no livro Melhores contos

J. J. Veiga (foto daqui)


"(...) Quem diz que tudo o que vai acontecendo na vida das pessoas não já aconteceu para elas muito tempo antes, e elas só têm que ir cumprindo as passagens marcadas, sem poderem desobedecer? Pode ser que seja como no cinema: a fita já foi feita, não adianta torcer por um lado nem por outro; a torcida não altera o fim. (...)"


"(...) O louvadeus estava no meio de uma tempestade de vento, dessas que derrubam árvores e arrancam telhados e podem até levantar uma pessoa do chão. Doril era a força que mandava a tempestade e que podia pará-la quando quisesse. Então ele era Deus? Será que as nossas tempestades também são brincadeira? (...) Será que somos pequenos para ele como um gafanhoto é pequeno para nós, ou menores ainda? (...) Qual será o nosso tamanho mesmo, verdadeiro? Doril pensou, comparando as coisas em volta. Seria engraçado se as pessoas fossem criaturinhas miudinhas, vivendo num mundo miudinho, alumiado por um sol do tamanho de uma rodela de confete..."


"– Se eu fosse você não chorava – disse Belmiro alisando Mangarito, Tubi caiu no choro.
– Eu gostava dele.
– Eu sei. Por isso mesmo é que você não deve chorar.
– Eu choro porque sinto falta dele. Nunca mais vou ver ele.
– Aí é que está. Você chora porque está pensando mais é em você. Ele também não vai ver você, e aposto que não está chorando.
– Mas ele morreu. Como é que ia chorar?
– Você tem certeza de que ele morreu? Quem é que garante?
– Então não morreu? Não foi enterrado? – disse Tubi quase indignado.
– Aí é que está. Pare de chorar e enxugue esses olhos que eu vou explicar como é que eu entendo a situação. Para todo mundo ele morreu. Parou de respirar, de mexer, foi enterrado. Isso é o que todo mundo diz. Mas eu acho é que ninguém morre. (...) quem é que sabe qual é o lado dos vivos e qual o dos mortos? Para nós, que estamos do lado de cá, é o lado de lá; mas para eles deve ser o lado de cá. (...)"


"Com o banho ele começou a levantar o rabo, primeiro por ter recuperado um pouco da dignidade, segundo por suspeitar que dentro de pouco haveria mais comida. Quando um cachorro errante é levado para dentro de uma casa e recebe o luxo de um banho, a sequência lógica é um prato de comida. (...) Mas aí começa também a fase difícil das relações entre cão e gente. Como esperava, ele recebeu o seu almoço; e não tendo sido enxotado, interpretou a situação como significando que seria tolerado. Mas pode um cão contentar-se com a simples tolerância? Quando se sente apenas tolerado, um cão de respeito tem dois caminhos a seguir: ou exige atenção, ou vai embora para outro lugar onde possa se impor. A retirada é sempre humilhante, ele sabe que no momento em que vira as costas começou o esquecimento – isso se não acontece o pior: nem percebem que ele se foi; muito tempo depois é que alguém indaga distraidamente, 'é verdade, que fim levou aquele cachorro que andava por aí?' Farejando o ambiente ele percebeu que podia escolher o primeiro caminho com grande possibilidade de êxito."


"– O senhor me desculpe – completou ele – mas eu estou aqui para ajudar, não para distrair. (...) Achei a observação meio fora de propósito, mas pensando na idade do homem resolvi deixá-la passar. Também para ser justo eu devia admitir que ele tinha razão: imagine-se o pobre homem talvez reumático, talvez cardíaco, com a vista falhando, preso atrás do balcão da loja escura, explicando tudo direitinho a cada curioso que entrasse – e sem o direito de irritar-se uma vez ou outra! Tive pena dele por ter escolhido um ramo tão excêntrico, se é que não se viu metido nele contra a vontade. Senti uma necessidade urgente de ser gentil com ele, de não lhe agravar as atribulações. Disse-lhe que embora fosse verdade que eu havia entrado ali por simples curiosidade, isso não queria dizer que eu não pudesse ser cliente um dia, qualidade que ele mesmo me atribuíra momentos antes."


"De calça caseira, paletó de pijama e chinelos, os braços apoiados na mesa ou na poltrona, ele fica olhando para um ponto vago no chão, ou para os pés cruzados sobre os chinelos, uma ameaça de sorriso nos cantos da boca; outras vezes se distrai com um cordão apanhado na loja, enrola-o apertado num dedo para sentir o latejar do sangue represado, desenrola-o, dá-lhe nós pelo prazer de desatá-los, quanto mais apertados melhor; mas nunca esquece o sorriso. Ninguém saberia se o sorriso é indício de algum pensamento maroto ou defesa permanente contra possíveis interpelações da noiva, caso ela o julgasse preocupado, ou aborrecido. (...) Ela já está habituada com o temperamento calado do noivo, mas de vez em quando ainda reclama. (...) – Muda de assunto, Vicente."


"Diante da imponência da estrada, com suas pontes, túneis e trevos, o povo esqueceu a longa espera, herança de pais a filhos, esqueceu os parentes e amigos que haviam morrido sem ver aquele dia, esqueceu as voltas que teve de dar, e agora só cuidava de elogiar o trabalho dos engenheiros, o escrúpulo de não entregarem uma obra feita a três pancadas. Alguém sugeriu a colocação de uma placa na estrada, com os nomes de todos os que haviam trabalhado nela, mas quando se descobriu que não havia oficina capaz de fazer uma placa do tamanho necessário, não se falando na massa de pesquisa que seria preciso para um levantamento completo, as buscas em documentos antigos, a ideia foi abandonada por inviável."


"As visitas achavam aquilo extraordinário, imaginem, o cachorro sente que o dono morreu, está procurando; depois dizem que bicho não tem alma. (...) Seu Belarmino e Balisco. Descobriram que no dia e na hora provável da morte o cachorro acordou de repente e começou a uivar, depois deitou-se debaixo da cama de Seu Belarmino e ficou gemendo baixinho. Não adiantou chamarem, ele não saía. Quiseram tocar com um pau, ele ameaçou morder. Faculdades fantásticas eram atribuídas aos cachorros, aos bichos em geral, e ouvindo todos aqueles depoimentos Tubi lamentava ser apenas gente, uma espécie aparentemente inferior. Cachorro, por exemplo, vê o que gente não vê, ouve o que gente não ouve. (...)"





Presentes no livro Melhores contos (Global, 2000), páginas 137, 96-97, 155-156, 128, 118, 109-110, 124 e 167-168, respectivamente.

sábado, 12 de setembro de 2015

Sete passagens de J. J. Veiga no livro Os cavalinhos de Platiplanto

J. J. Veiga (foto daqui)


"O menino sentado à minha frente é meu irmão, assim me disseram (...) A princípio quero tratá-lo como intruso, mostrar-lhe a minha hostilidade, não abertamente para não chocá-lo, mas de maneira a não lhe deixar dúvida, como se lhe perguntasse com todas as letras: que direito tem você de estar aqui na intimidade de minha família, entrando nos nossos segredos mais íntimos, dormindo na cama onde eu dormi, lendo meus velhos livros, talvez sorrindo das minhas anotações à margem, tratando meu pai com intimidade, talvez discutindo a minha conduta, talvez até criticando-a? Mas depois vou notando que ele não é totalmente estranho, as orelhas muito afastadas da cabeça não são diferentes das minhas, o seu sorriso tem um traço de sarcasmo que eu conheço muito bem de olhar-me no espelho, o seu jeito de sentar-se de lado e cruzar as pernas tem impressionante semelhança com o do meu pai. De repente fere-me a ideia de que o intruso talvez seja eu, que ele tenha mais direito de hostilizar-me do que eu a ele, que vive nesta casa há dezessete anos, sem a ter pedido ele a aceitou e fez dela o seu lar, estabeleceu intimidade com o espaço e com os objetos, amansou o ambiente a seu modo, criou as suas preferências e as suas antipatias, e agora eu caio aí de repente desarticulando tudo com minhas vibrações de onda diferente. O intruso sou eu, não ele."


"Quando eu chegava em casa à noite, cansado de correr, lutar ou simplesmente ficar sentado no patamar da igreja ouvindo histórias, encontrava a porta encostada, com uma pedra pesada escorando. Minha mãe estava ou no quarto rezando ou na varanda remendando minhas roupas, e o máximo que dizia é que eu não devia abusar da ausência de meu pai, porque se eu acostumasse ficaria difícil desacostumar quando ele voltasse. E acho que para não parecer que estivesse implicando mudava logo de assunto, dizia que tinha leite morno para mim na pedra do fogão, mas que não esquecesse de lavar os pés primeiro. (...) Deitado na cama, ouvindo minha mãe fazendo ainda uma coisa ou outra pela casa, catando feijão, moendo café para de manhã, eu achava que não estava ajudando muito, como meu pai recomendara, e prometia a mim mesmo mudar de vida. Mas resolver uma coisa deitado é fácil, não dá nenhum trabalho, praticar depois é que é difícil, a gente vai deixando para depois e nunca resolve começar."


"E o manso velhinho continuava esperando, talvez já só pelo hábito, ou pela falta de ânimo de levantar-se para cuidar de outra coisa. Observei-lhe que muito ele devia ter perdido enquanto esteve sentado naquele banco esperando, aliás já bastante puído pelo roçar de seus braços e de suas costas; ele respondeu que exatamente por isso não tinha mais interesse em sair. (...) – Perdi a promessa e perdi a festa – disse suspirando. (...) O que isso queria dizer não fiquei sabendo, mas aquelas palavras, ditas com grande desconsolo, ficaram em meus ouvidos como expressão de total desilusionamento. (...) Pensando em dar-lhe uma compensação tardia, convidei-o a acompanhar-me numa visita à casa (...) Ele olhou-me com total indiferença e disse: – É melhor não. O ouro tem muita tara."


"Mas o delegado já tinha o seu plano e não precisava de sugestão de ninguém; ele apenas esperava que o prazo se esgotasse para tomar suas providências – e talvez até desejasse no íntimo que a ordem fosse desobedecida para ter uma ocasião de impor dramaticamente a sua autoridade. Quando ele consultou o relógio e disse que os sessenta minutos já haviam passado, a multidão automaticamente abriu um corredor entre ele e o poço, com certeza esperando que ele fosse descer pela corda e trazer o professor nas costas. Mas em vez de caminhar na direção do poço ele caminhou na direção da casa! Ninguém entendia mais nada. Então ele estava apenas brincando quando fez a intimação? É claro que o desapontamento do povo não vinha de nenhum desejo de preservar a autoridade, mas do receio de perder algum espetáculo, sensacional ou engraçado. (...) Quando o delegado voltou da sua caleche trazendo uma enorme casa de marimbondos na ponta de um galho de abacateiro, o povo criou alma nova. Era a prova de que uma autoridade experiente pensa melhor do que cem curiosos. Andando devagarinho para não balançar o galho, o delegado chegou à beira do poço e sem mais nenhum aviso soltou lá dentro o galho com os marimbondos."


"(...) descobri que, quando se derruba uma moeda em água corrente, não se deve pensar em recuperá-la. Quem tentar fazê-lo poderá ficar o resto da vida à beira da água retirando moedas. É como se a pessoa 'sangrasse' a areia do fundo da água e depois não conseguisse estancar o jorro de moedas. (...) Talvez eu não devesse ter contado isso a meu pai, pois não era difícil prever o que aconteceria. Ele riu em minha cara, e chamou-me fantasista. Como eu insistisse, ofendido, ele reptou-me a prová-lo. (...) aceitei o desafio, como se tratasse de um ponto de honra. Levei-o à beira de um córrego, mandei-o soltar uma moeda na água – e só à força conseguimos tirá-lo de lá dias depois; e para impedi-lo de voltar, tivemos de interná-lo. Disseram que a culpa foi minha, mas não consigo sentir-me culpado."


"(...) quando a gente é menino parece que as coisas nunca saem como a gente quer. Por isso é que eu acho que a gente nunca devia querer as coisas de frente por mais que quisesse, e fazer de conta que só queria mais ou menos. Foi de tanto querer o cavalinho, e querer com força, que eu nunca cheguei a tê-lo."


"- Bem, esta história do cano anula a minha pergunta a respeito do arpão. Eu vou riscá-la aqui do meu questionário e o senhor me faz o favor de esquecê-la. E acho que não preciso mais do senhor, pelo menos por enquanto. (...) Com isso ele levantou-se e espreguiçou-se sem nenhuma cerimônia, estalando várias juntas do corpo, o que era bem compreensível considerando-se a posição forçada em que ele estivera sentado. Eu quis levantar-me também, mas ele prendeu-me na cama com a mão no peito, e com tanta força que nem pude erguer a cabeça. (...) - Não se incomode por minha causa - disse. - Eu sei voltar por onde vim - e num instante desapareceu na sombra da porta entreaberta. (...) Depois que ele se foi eu refleti na maneira pouco civil do seu aparecimento, na sua insolência em submeter-me a interrogatório, como se eu fosse um réu de algum crime, e fiquei tão furioso com ele, e mais ainda com a minha passividade, que pensei em alcançá-lo na rua, tomar-lhe o papel e rasgá-lo; mas pensei no escândalo, e achei melhor não dizer nada a ninguém. (...)"





Presentes no livro Os cavalinhos de Platiplanto (Bertrand Brasil, 19ª edição, 1995), páginas 107-108, 97, 56,
84, 63, 29 e 44-45, respectivamente.





quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Mesas literárias na Pré-Flica 2015


O lançamento da Flica 2015 tem na sua programação autores que já participaram do evento ao longo dos seus quatro anos.

| Programação das mesas literárias

• 18 DE SETEMBRO
18h | Mesa: “A TRADUÇÃO DA DOR E DO IMAGINÁRIO”
Cristóvão Tezza e Ronaldo Correia de Brito
Mediador: Cristiano Ramos

• 19 DE SETEMBRO
09h | Mesa: “GENTES COMO ELAS SÃO”
Sonia Rodrigues e Victor Mascarenhas
Mediador: Aurélio Schommer

11h | Mesa: “O BEM E O MAL QUE SAEM DA BOCA”
Fabrício Carpinejar e Miriam de Sales
Mediador: Jackson Costa

15h | Mesa: “MUITAS ANDANÇAS, UM SÓ RUMO”
Daniel Thame e Ana Maria Gonçalves
Mediador: Zulu Araújo

18h | Mesa: “OS FATOS E AS IMPRESSÕES”
Laurentino Gomes
Mediador: Fernando Vita

O lançamento da Flica 2015 ocorrerá na Caixa Cultural Salvador (Rua Carlos Gomes, 57, Centro), nos dias 18 e 19 de setembro.

Estacionamento gratuito ao lado a partir das 18h no dia 18/09 e das 14h no dia 19/09.

Haverá Fliquinha também. Veja programação completa aqui.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Lançamento da Flica 2015 na Caixa Cultural

Clique na imagem para ampliar.

Esse ano o lançamento da Flica será um evento na Caixa Cultural, nos dias 18 e 19 de setembro, com autores que participaram das últimas edições (destaque para Laurentino Gomes, Carpinejar e a super mesa de abertura com Cristovão Tezza e Ronaldo Correia de Brito) e ainda a programação infantil da Fliquinha. Apareça!

domingo, 6 de setembro de 2015

Oito passagens de Orígenes Lessa no livro Melhores contos

Orígenes Lessa (foto daqui)


"(...) Por que fora tão covarde naquela hora e meia em que os dois corpos, lado a lado, se tinham sentido, chamado, afinal se confundindo no mesmo desejo, na mesma procura, no mesmo encontro? Por que não pronunciara palavra, apenas os corpos se descobrindo, se aconchegando, se contagiando? Por que, depois da longa agitação, o coração aos pulos, têmporas batendo, após o primeiro contato das costas da mão, os braços cruzados, com a pele nua do braço no escuro não fugindo, ao sentir a maciez da carne se entregando aos primeiros movimentos de fingindo não querer, quando os dedos trêmulos foram se atrevendo, não lhe disse uma palavra qualquer, que ela parecia esperar? (...) Os mistérios de um corpo como por milagre ao seu alcance, no incrível encontro inesperado. Um filme, a tela, a treva, música. Medo, sim. Mas gosto maior. E comunhão, entrega, posse... O nome? O rosto? A idade? Não sabia. Um sexo. Ele também, apenas sexo. Os corpos se fundindo, menos os corpos que o desejo comum. Desejo, que seria nela anterior, talvez. Nele nascido sem saber por quem, à eletricidade do primeiro encostar sem pensamento. Desejo sem palavras, afogado no desnorteio, rompendo barreira (...)"


"(...) Vidal sabia, no fundo, que as admirações literárias e artísticas, como as glórias mais incondicionais, são efeito simplesmente da sugestão e do esnobismo. Ele mesmo admirara assim muita gente, forçado a pagar centenas de milhares de francos por obras de arte em que francamente nada via senão a obrigação de ser esnobe, de concordar. Era coisa assinada por Fulano, por Sicrano. Paris dizia que Fulano era gênio. Beltrano clamara, em Roma, que Sicrano compendiava e superava a história da arte. E ele, e os outros conhecedores profissionais se viam forçados ao 'colosso', 'extraordinário', 'genial' e ao desembolso dos pacotes de liras ou de francos. (...)"


"O caboclo, o menino, o seu doutor se entreolharam, como dentro de um pesadelo. Paulo Dinarte, sentado num caixão de querosene, coberto com um cochonilho velho, assento de visita importante, contemplava agora na parede de barro socado, com o esqueleto de varas irregulares todo à mostra, uma Nossa Senhora Aparecida, suja de moscas, brinde de um Elixir Depurativo. Miséria das populações sertanejas! Miséria daquela gente abandonada! Deputado da oposição, trinta passagens por cadeias e presídios, via ali a confirmação viva ou moribunda dos quadros que, na sua exaltação revoltada de moço, descrevia na tribuna aos nobres colegas desinteressados, o pensamento voltado para concessões e negociatas a aderir e louvar, recitar necrológios e votar leis a favor dos amigos."


"(...) Vocês pensam que trabalho é castigo. É por isso que o Brasil não vai adiante."


"(...) Esmagava-o, de novo, insistente e feroz, aquela impressão de solitude. Nunca se sentira tão só, tão à margem da vida. Os homens passavam, as mulheres passavam, os carros passavam. (...) Ele, isolado. Ah! se encontrasse uma voz amiga, um companheiro! Alguém com quem desabafar, com quem gastar as últimas centenas de mil-réis. Nem sabia compreender como gastara tanto, como pusera tanto dinheiro fora. (...) Notava que até aquele momento não tivera com quem falar, não trocara ideias, fechado no seu egoísmo, na febre de gozar, de possuir, no temor de ser roubado. Compreendeu que errara, que fora mau. Só pensara em si. Para a própria família, dera apenas, sem querer, uma pequena parte. (...) Precisava tanto de um companheiro, de um confidente, não conseguia. Pensou, como um refúgio, na outra classe. Ah! se encontrasse algum freguês! Alguém que o acompanhasse, que lhe contasse coisas, que o levasse a lugares desconhecidos, a algum cabaré onde não se atrevia a entrar sozinho. (...)"


"– Tem uma senhora à sua procura.
– Quem é?
– Não disse o nome. Diz que é assunto particular.
– Bonita?
– Não.
– Agora não posso atender. (...)"


"Para o grande público o fato pouco significava. Qualquer indústria de descascador de batatas ou qualquer fábrica de aparelhos para descaroçar azeitonas teria mais interesse que o negócio fúnebre de tratar com os mortos. Quem inventasse um processo para domesticar e ensinar os feijões saltadores mexicanos seria, positivamente, maior que a figura pouco fascinante de um milionário enriquecido pela indústria do enterro. E pouca gente havia lido o pequeno anúncio em que Gladliver procurava desembaraçar-se de suas empresas, obra-prima da discrição e bom gosto. (...) E foi sem dificuldade que conseguiu interessar um grupo de capitalistas - fabricantes de remédios, de automóveis, de bebidas - para fechar a transação rapidamente, complemento natural de seus próprios negócios."


"A cabeça dela pendeu num gesto brusco, seu corpo se movimentou e, de novo, inesperado e macio, seu joelho se aproximou do meu. (...) Como um criminoso, baixei os olhos. Foi quase com remorso que senti, mesmo prejudicada pelo hábito pesado, a beleza redonda do joelho e a linha suave da coxa daquela mulher roubada ao mundo. E como um ladrão noturno - foi o pensamento acusador que tive - dessa vez não retirei o joelho. Estava cometendo um verdadeiro sacrilégio. Abusava do sono inocente de uma pobre irmã de caridade. (...)"





Presentes no livro Melhores contos (Global/2003), páginas 157-158, 106-107, 84, 95, 132-133,
140, 194-195 e 44, respectivamente.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Original do livro de contos Olhos abertos no escuro

Original de Olhos abertos no escuro


Ontem, 31 de agosto de 2015, concluí o original de Olhos abertos no escuro, o meu próximo lançamento (a produção literária foi finalizada no último dia 10/08, e a revisão foi feita por Acácia Magalhães e por mim). O livro é composto por 18 contos curtos do inédito Paisagem da insônia e mais os 12 melhores contos do Abrupta sede, lançado em 2010, que foram revisados e reescritos (atualmente desconsidero esse meu primeiro livro, que foi feito numa época não profissional).

O título Olhos abertos no escuro foi retirado de uma passagem do conto Gravidade, do escritor e mestre Mayrant Gallo, presente no livro O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003). Assim como fiz no livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), em que prestei uma homenagem ao escritor e mestre Hélio Pólvora, agora homenageio o amigo Mayrant, e trago uma epígrafe dele abrindo cada um dos meus 30 contos em Olhos abertos no escuro.

Formando o meu contexto para a criação do livro, li Mayrant Gallo, Hélio Pólvora, Nelson Rodrigues, Anton Tchekhov, Dino Buzzati, Guy de Maupassant e Gonçalo M. Tavares. E o escrevi ao som do Hammock, duo norte-americano de ambient e post-rock.

A previsão de lançamento do livro é para o começo de 2016.

O posfácio do livro foi feito pelo escritor e jornalista Carlos Barbosa, autor de Obscenas e Beira de rio, correnteza, entre outros. Já a orelha é do escritor e roteirista Victor Mascarenhas, autor de A insuportável família feliz e Cafeína, entre outros.

Eu investi 263h e 01min em 100 dias, um trabalho que começou em agosto de 2006, e percorreu os anos de 2007 a 2010, 2012, 2014 e 2015.

Contabilidade:

Produção literária: 171h | 60 dias

1ª fase – 2006 (agosto, setembro e novembro) – 23h e 25min | 06 dias
2ª fase – 2007 (janeiro e maio) – 40h e 05min | 12 dias
3ª fase – 2008 (abril) – 05h | 03 dias
4ª fase – 2012 (novembro e dezembro) – 01h e 15min | 03 dias
5ª fase – 2014 (novembro) – 04h e 30min | 02 dias
6ª fase – 2015 (janeiro a abril + julho) – 96h e 45min | 34 dias

Revisão: 80h e 56min | 38 dias

1ª fase – 2008 (outubro) – 10h e 30min | 06 dias
2ª fase – 2009 e 2010 (dezembro e janeiro) – 17h | 11 dias
3ª fase – 2010 (abril) – 09h e 30min | 02 dias
4ª fase – 2015 (janeiro, maio, junho e agosto) – 43h e 56min | 19 dias

Pesquisa, edição e outros: 11h e 05min | 02 dias em 2015

Olhos abertos no escuro é a minha despedida dos contos, pois só me dedicarei aos romances a partir de agora.