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Mostrando postagens de Novembro, 2015

Olhos abertos no escuro - Trechos dos contos

Emmanuel Mirdad (foto: Sarah Fernandes)

Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016) é o novo livro do escritor, compositor e produtor Emmanuel Mirdad, e traz 30 contos, que tiveram alguns trechos selecionados para que o público pudesse ter uma noção do conteúdo da obra. Confira abaixo:


Contos reflexivos e poéticos


Qualquer um volta pra casa, depois do trabalho, e percebe que é só mais um medíocre solitário na multidão de medíocres, que vai morrer só e o seu legado é tão pífio que rapidamente será esquecido, por qualquer um.

Leia aqui



Um astro da música brasileira rememora a sua importância para o público e imprensa, remexe as suas lembranças contraditórias e assume o fracasso de ser apenas uma caricatura "genial" que a sua carreira forjou no imaginário popular.

Leia aqui



Um solitário porteiro leva uma vida repetitiva e ordinária, até que um par de sapatos vermelhos importados provoca o fatal alumbramento repentino, forjando o mito do bacana em quem nunca deixou de ser medío…

Origem do título Olhos abertos no escuro

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Título extraído do conto Gravidade, página 23 do livro O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003), de Mayrant Gallo, escritor, mestre e exímio contista homenageado do livro Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016) de Emmanuel Mirdad, a ser lançado aqui.


Olhos abertos no escuro no traço do seu autor

Cinco passagens de Bruno Liberal no livro Olho morto amarelo

Bruno Liberal (foto daqui)

"Eles conversam animadamente entre si. Todos gesticulando, comendo, bebendo, rindo. E o velho na ponta da mesa observando a todos com seus olhos de panda, tentando reconhecer cada um daquela mesa. (...) A dificuldade de resgatar na memória os rostos deixa-o cansado. (...) Perde o interesse. (...) Fixa os olhos no prato vazio. (...) Havia uma consciência cega de fazer parte daquilo tudo e, ao mesmo tempo, não ser parte de coisa alguma. Um pedaço de osso arrancado da carne macia e suculenta e deixado de lado. Fazia parte geneticamente, mas não havia unidade. (...) Batucando com ossos na mesa de madeira maciça. Ossos que serão enterrados em pouco tempo. Ossos que servirão de alimento ao infinito. (...) Ossos de carbono. (...) E a mesa é barulhenta e farta no Natal. (...) Ele, o velho, poderia falar qualquer coisa. Gritar qualquer besteira. Mas a última coisa que disse foi há 40 minutos. (...) Batuca sua música antiga e sente a invisibilidade da velhice. É …

Olhos abertos no escuro - Absoluto - Trechos do conto

A assessora de imprensa Madá esbagaça a sua vida por conta de uma obsessão tresloucada pelo misterioso mímico de rua Absoluto, sem palavras, só gestos.

“É impressionante a forma como o ser humano se desfigura, se degrada, se arrebenta por conta de uma possessão, erroneamente classificada como ‘amor possessivo’ — que, de amor, não há nada. Quando o outro determina o fim, a vítima de si mesma está presa a uma armadilha cruel, definitiva. Não há cura, só remendo, que pode ser de dois tipos: a) conseguir ser ‘amado’ de novo, sabe-se lá como, pela mesma criatura que a sua projeção construiu e se submeteu aos caprichos — uma opção quase impossível de ser realizada; b) assassinar o ‘amado’ e suicidar-se em seguida, para que a morte os una, ao menos, na mesma condição de defunto — a opção bastante provável, mais fácil e de rápido reenlace no cemitério. E foi pelas vias do impossível que Madá não se rachou por completo: graças ao acaso, que, supostamente, interfere no óbvio — sendo que, na tra…

Olhos abertos no escuro - Qualquer um - Trechos do conto

Qualquer um volta pra casa, depois do trabalho, e percebe que é só mais um medíocre solitário na multidão de medíocres, que vai morrer só e o seu legado é tão pífio que rapidamente será esquecido, por qualquer um.

“Qualquer um entrou no apartamento, após um dia de trabalho estafante e repetitivo, sem acesso à rede por sugestão do analista. Mal fechou a porta, sacou o celular do bolso. Acessou o Facebook e se excitou ao ver o anúncio vermelho de oito notificações. (...) eram convites para festas a que nunca iria, nem que fossem da sua prima desafinada e insistente; para shows com atrações que nunca ouviu e desprezava antes de um play sequer; para lançamentos de livros que não valiam o investimento absurdo de vinte reais numa ruma de papel encadernada que desencadearia mofo e infestação de traças.” (p. 36)


“Qualquer um (...) aplicou-se no WhatsApp. Excitou-se: várias mensagens não lidas. (...) Leu, uma por uma, de todos os grupos, as individuais também, e todas estavam direcionadas a ou…

Olhos abertos no escuro - Ela não quis - Trechos do conto

Manuela, 15 anos, estudante. Davi, médico. Colegas de natação. Da sedução matreira da garota à proposta arriscada e cretina. 

“— Não consigo nadar borboleta, cansa muito... — Manuela puxa conversa. (...) — Como? (...) Na raia entre os dois não há ninguém. Às seis de uma manhã chuvosa, apenas quatro alunos treinam na água fria da piscina. No professor, a vontade justificável de dispensá-los e voltar pra casa antes que a avenida alague. Manuela passa da terceira raia para a quarta, a fim de ser notada, como se fosse possível alguém estar num mesmo espaço que ela e não notar o espetáculo das suas formas e curvas desenvolvidas de uma mulher grande e precoce, num rosto simétrico e indeciso entre o infantil e o maduro, iluminado por um sorriso redemoinho que captura e naufraga o incauto admirador do seu percurso sublime. (...) — Borboleta... Não consigo... Cansa muito... Mas eu acho lindo... — para cada palavra, ela mordisca o polegar, uma malícia saborosa.” (p. 40)


“Davi tem uma barba eleg…

Olhos abertos no escuro - Formigas - Trechos do conto

O velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, nobre e ilustre, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, que está surpreendentemente frágil, à beira de um riacho, trágica.

“O amor é tudo na vida, mas quase perfeito, eu cobri um lar que nunca revelei. Desde o início, enfurnei-me no banco, cursos, faculdade, viagens, negócios, acúmulo financeiro, extremos. O bate-estaca métrico e soturno: trabalho – trabalho – trabalho. Venci pelo esforço, construí um pequeno império de cifras, de gozos poucos. Nada faltou ao lar. Apenas eu. (...) De babá em babá, a minha filha aprendeu a ausência, a distância e os contornos superficiais das relações humanas. E venceu. Mas não teve filhos, não se floresceu enquanto mãe e não se apaixonou. Doce por fora, ventre seco por dentro. E o que eu quis dela, ficou em algum outro extremo, longínquo.” (p. 50)


“(...) São vinte e cinco anos de uma carreira invejável, sem filhos, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, maquete viva da glória acadêmica, nobre e…

Olhos abertos no escuro - Ingênio - Trechos do conto

Um astro da música brasileira rememora a sua importância para o público e imprensa, remexe as suas lembranças contraditórias e assume o fracasso de ser apenas uma caricatura "genial" que a sua carreira forjou no imaginário popular.

“Essas canções que fiz propiciaram emprego a muita gente. Os jornalistas acostumaram-se ao assunto e venderam revistas, jornais, programas de rádio e tevê com as besteiras que me perguntavam, às quais eu sempre respondia com um sorriso largo, acolhedor e um monte de palavras floreadas e desconexas só para forjar um mito intelectual, mas próximo ao povo por eu ter origem pobre. (...) eu passei a ser necessário para elevar a audiência. Cumpri a função: sempre solícito, de programa em programa, matéria por matéria, parte fundamental no excesso de conteúdo produzido num país novo, carente de ídolos para referendar a sua trajetória, algo que aliviasse a condição de pasto do mundo.” (p. 56 e 57)


“(...) o povo, conservador por excelência e essência — con…

Olhos abertos no escuro - Sereno aceitar - Trechos do conto

Um solitário porteiro leva uma vida repetitiva e ordinária, até que um par de sapatos vermelhos importados provoca o fatal alumbramento repentino, forjando o mito do bacana em quem nunca deixou de ser medíocre  embora que ambos sejam ordinários, ao fim.

“Metralharam alguém. Como é estranho o silêncio que rege o fluir da pólvora pelo ar! O espanto zelou os suspiros atônitos da vizinhança. Mesmo a sentir o receio basilar dos mais previdentes, a curiosidade faminta por tragédias o impeliu a sair para averiguar, típica imprudência dos que são condicionados pela mídia policialesca. Ele pensou: ‘Quem sabe não sobra uma ponta pra mim?’ Sempre sobra. O defunto, um desconhecido de uns trinta e poucos anos, perfurado com tirambaços na fuça, peito e barriga, portava sapatos luxuosos e vermelhos, dignos de Bento XVI. Enquanto as tripas e fluidos internos borbulhavam pelos buracos para fora do corpo, ele vislumbrou o solado, novinho, ainda com uma marca italiana aparente. Deduziu ser grã-fina. Na…

O grito do mar na noite - Não escaparás - Leitura de trechos pelo autor

Criança, jovem, velho. Todos estão se movendo ao irremediável encontro com o gume do fim.




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Vídeo gravado em 20/11/2015 no estúdio Casa das Máquinas, de Tadeu Mascarenhas, no Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil.

Filmagem: Sarah Fernandes

Transposição de MOV pra MP4: Nalini Vasconcelos

Os trechos lidos foram esses aqui

Informações sobre o livro aqui

Olhos abertos no escuro - Alucinação - Trechos do conto

Mataram a Rita! E uma das peças, apaixonada pela bucha de sena, irrita-se com a jogada tonta que vitimou a sua musa, e escapole do tabuleiro de dominó, iniciando a saga surreal da alucinação.

“O dominó proporcionava umas partidas bastante disputadas, com muito empate, um toma-lá-dá-cá danado, não havia favorito. Quem decidia, quase sempre, era a sorte mesmo. Com os jogadores safos, todos escolados, só o azar pra vencer os empates e os embates. E as apostas fervilhavam. Todo mundo fazia a sua fezinha. Mas a plateia era obrigada a ficar em silêncio, quase absoluto. Qualquer troço diferente, seja movimentação ou diálogo, era motivo para alguém acusar de trapaça. Dependendo do palavrão, saíam na mão, sempre respeitando o tabuleiro, sem bulir nas peças. Depois dos socos e apartações, a partida recomeçava. Ninguém comprometia o dinheiro dos apostadores por conta de tapas e murros. Que brigassem o quanto quisessem! Sangue e caras estapeadas depois, o jogo havia de recomeçar, de qualquer manei…

Seis passagens de Victor Mascarenhas no livro Um certo mal-estar

Victor Mascarenhas (foto: Vinícius Xavier)

"(...) Naquele momento, Geraldo percebeu que nem ele, nem sua ex-namorada ou qualquer um dos seus amigos de juventude, mesmo os mais brilhantes, bonitos ou talentosos, escaparam da vida real e da sua mediocridade opressiva. Geraldo viu os melhores da sua geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos e arrastando-se pelas ruas como um exército de contadores, advogados, funcionários públicos, bancários, donas de casa e outras ocupações opacas e bem diferentes do futuro luminoso que todos haviam sonhado. (...) Seus pensamentos foram interrompidos por um leve cutucão nas suas costas. Era um senhor mais interessado no arroz à grega do bandejão do que em devaneios sobre as ilusões perdidas da juventude de quem quer que seja. (...)"


"(...) Ninguém no grupo que ele e Bia integravam tinha lido o livro, mas alguém falou que conhecia uma pessoa que parece que tinha lido e dito que era racista, que o autor era um reacionári…

Olhos abertos no escuro - Botox - Trechos do conto

A empresária Marília, influente, estrategista, sagaz e bem-sucedida, dona da grife mais valorizada, enfrenta o inimigo implacável: uma doença terminal, repentina e voraz.

“(...) Na ampla e climatizada loja que ergueu, a venda é camuflada. O que importa é a satisfação das consumidoras, que precisam se sentir confortáveis para que possam falar muito, desabafar as suas angústias e vontades, como se estivessem na casa da melhor amiga, a confidente secreta e leal. (...) Para cada cliente, uma vendedora específica, que possui um detalhado banco de dados sobre a sua intimidade e as suas necessidades, previamente analisado por um terapeuta — a bula é construída desde o primeiro encontro. Cada frase, gesto e postura são calculados antecipadamente, visando à sedução emblemática. (...) As clientes confiam de forma plena, entregue, total. Além das cartadas certeiras, Marília atende em sala reservada, a oferecer exclusividade, importância, simulando uma sessão de análise. Acomoda as clientes em um…