segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Trechos dos contos

Emmanuel Mirdad (foto: Sarah Fernandes)


Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016) é o novo livro do escritor, compositor e produtor Emmanuel Mirdad, e traz 30 contos, que tiveram alguns trechos selecionados para que o público pudesse ter uma noção do conteúdo da obra. Confira abaixo:


Contos reflexivos e poéticos


Qualquer um volta pra casa, depois do trabalho, e percebe que é só mais um medíocre solitário na multidão de medíocres, que vai morrer só e o seu legado é tão pífio que rapidamente será esquecido, por qualquer um.

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Um astro da música brasileira rememora a sua importância para o público e imprensa, remexe as suas lembranças contraditórias e assume o fracasso de ser apenas uma caricatura "genial" que a sua carreira forjou no imaginário popular.

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Um solitário porteiro leva uma vida repetitiva e ordinária, até que um par de sapatos vermelhos importados provoca o fatal alumbramento repentino, forjando o mito do bacana em quem nunca deixou de ser medíocre — embora que ambos sejam ordinários, ao fim.

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Um profissional, por conta do acaso, se fascina pelo pôr do sol. Outro, caminha pela areia da praia, de terno, desolado. Encontram-se, desabados. O que há de comum além da dor e da redenção?

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O mendigo Maestro, bem-humorado e carismático pensador, morador da calçada do açougue, é assediado para disputar as eleições, candidato-fantoche da vez.

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As decepções do professor Belizário com a literatura e o encontro de um zumbi telepático, que oferece lições filosóficas a anjos e transeuntes carnais, com a empresária Aisha, cuja especialidade é faturar em cima de mitos burgueses.

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Para-raios de malucos brutalistas: Cristal, Thiago, Andrômeda, Tavinho, Moloko Veloz, Mestre Ganja, Fuça-fuça, Peripinho, Xica, Virussapiens, Fantasma Comparsa, Carrapatos Suspensos, Mendigos Cheirosos e I’m tired, todos girando no balão frágil.

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Um medíocre solitário ganha sozinho o prêmio de 47 milhões de reais. E, na noite da revelação, vai da euforia incontrolável à paranoia suprema. O que fazer? Quem procurar? Em quem confiar? Onde guardar o papelzinho de merda, única prova que dará acesso à vida de luxo e ostentação?

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Contos sobre relações afetivas



A assessora de imprensa Madá esbagaça a sua vida por conta de uma obsessão tresloucada pelo misterioso mímico de rua Absoluto, sem palavras, só gestos.

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Manuela, 15 anos, estudante. Davi, médico. Colegas de natação. Da sedução matreira da garota à proposta arriscada e cretina.

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O velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, nobre e ilustre, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, que está surpreendentemente frágil, à beira de um riacho, trágica.

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Mataram a Rita! E uma das peças, apaixonada pela bucha de sena, irrita-se com a jogada tonta que vitimou a sua musa, e escapole do tabuleiro de dominó, iniciando a saga surreal da alucinação.

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O romântico nunca deixou de amar as mulheres que um dia declarou o seu amor libertário. De encontro em desencontro, o encanto de uma nova tentativa a livrá-lo dos desencantos da ilusão faminta, da reles possessão desesperada.

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O marido descobre a traição da esposa e resume a sua mediocridade enquanto homem na obsessiva pergunta, a única que lhe interessa: "Vocês transaram?"

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Os seis dias de Carnaval de uma mãe solteira, duas filhas pequenas, entre a arrochada de camisola no corredor do hotel para um strip-tease via Skype a uma fossa regrada ao brilhante esmagamento do indivíduo pelo Estado no filme Leviatã.

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Ele é um grande canalha que finge estar só. Ela é uma atriz que pergunta o que nunca poderá compreender. Não existe “nós” no “eu te amo”.

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As peripécias de um ser que atende às necessidades sexuais de diversas mulheres, cada uma com um motivo distinto que justifica a traição.

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Contos policiais



O cadeirante espreita o gigante, munido de pólvora e chumbo, degustando pacientemente o prato cruel da vingança.

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O delegado Mauro caça o Monstro, um psicopata abominável, prolífico em sua matança desenfreada, e uma esfinge extremista: não deixa pistas, impressões digitais e o intento de exterminar a humanidade.

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Um policial corrupto e o seu rolezinho aditivado para vingar o cunhado Pedra 90 e salvar a deputada caô, sequestrada por quatro esfomeados canalhas.

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Contos longos / novelas



A empresária Marília, influente, estrategista, sagaz e bem-sucedida, dona da grife mais valorizada, enfrenta o inimigo implacável: uma doença terminal, repentina e voraz.

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O conquistador confronta um adversário mais viril e poderoso: os falos de pedra maciça da mãe Gaia. As "preda" encantadas do sertão-montanha do Reino!

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Contos curtos

Dois amigos conversam sobre a transitoriedade da vida — todos, sem exceção, passam. | O amigo sensato se encontra com o amigo de coração partido num bar de ponta de esquina. O acaso faz tocar a canção Por enquanto, na voz de Cássia Eller. | Moreno, armado com uma garrafa de água mineral, enfrenta uma barata cascuda na cozinha. Mas ela insiste em não morrer.
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Um pequenino exemplo da diferença no tratamento da opinião pública quando se trata de uma assassina negra e o desencanto do matador de aluguel Claudinho Tamagotchi. | A borboleta da carne e cor do sol é uma musa que flutua e embasbaca o pobre homem da carne e cor do sol.

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Uma mulher disposta ao matriarcado que não consegue arrumar um companheiro. | Uma patrulheira de redes sociais destila a sua inveja em posts corretinhos. | Um homem se torna extremamente sortudo no suposto dia do azar. Demais?

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Posfácio


O escritor e jornalista Carlos Barbosa, autor dos livros Obscenas e Beira de rio, correnteza, entre outros, escreveu o posfácio do livro.
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Orelha


O escritor e roteirista Victor Mascarenhas, autor dos livros Um certo mal-estar, A insuportável família feliz e Cafeína, escreveu a orelha do livro.
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Origem do título Olhos abertos no escuro

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Título extraído do conto Gravidade, página 23 do livro O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003), de Mayrant Gallo, escritor, mestre e exímio contista homenageado do livro Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016) de Emmanuel Mirdad, a ser lançado aqui.


Olhos abertos no escuro no traço do seu autor

Cinco passagens de Bruno Liberal no livro Olho morto amarelo

Bruno Liberal (foto daqui)


"Eles conversam animadamente entre si. Todos gesticulando, comendo, bebendo, rindo. E o velho na ponta da mesa observando a todos com seus olhos de panda, tentando reconhecer cada um daquela mesa. (...) A dificuldade de resgatar na memória os rostos deixa-o cansado. (...) Perde o interesse. (...) Fixa os olhos no prato vazio. (...) Havia uma consciência cega de fazer parte daquilo tudo e, ao mesmo tempo, não ser parte de coisa alguma. Um pedaço de osso arrancado da carne macia e suculenta e deixado de lado. Fazia parte geneticamente, mas não havia unidade. (...) Batucando com ossos na mesa de madeira maciça. Ossos que serão enterrados em pouco tempo. Ossos que servirão de alimento ao infinito. (...) Ossos de carbono. (...) E a mesa é barulhenta e farta no Natal. (...) Ele, o velho, poderia falar qualquer coisa. Gritar qualquer besteira. Mas a última coisa que disse foi há 40 minutos. (...) Batuca sua música antiga e sente a invisibilidade da velhice. É palpável e firme como a madeira da mesa. Sente no pescoço essa invisibilidade pesada tentando arrastá-lo para algum lugar sombrio, além de sua compreensão."


"Trinta e sete anos. Mãe solteira. O pai sumiu no carnaval depois de uma rapidinha em pé mesmo, ancorada naquele carro vermelho no estacionamento. Lembra da cor. E lembra que ele disse para ela não sair dali que ia pegar duas cervejas. Duas. E não voltou. Ficou nove meses ali parada, esperando, sem beber qualquer cerveja. Lembra que era vermelho, o carro. Lembra de ter chorado e voltado ao carnaval. (...) E o cara da varanda na varanda. (...) Ele olhando, ela nadando. (...) O dia se enchendo de noite, como lama na piscina transparente de produtos esquisitos: ácido hipocloroso. Ácido: derreteria imediatamente na piscina, sua pele desmanchando, olhos caindo, ela gritando."


"(Imagina a vida de um tênis. Um papel, um projeto, uma apresentação para o setor de desenvolvimento de novos produtos, batem o martelo, o marketing opina, faz a campanha e mandam materializar na fábrica. Provavelmente China. Muitas mulheres. Muitos pedaços de tecidos e partes vindas de outras fábricas também chinesas. Montam tudo com muita agilidade. Mãos de mulheres chinesas: preciosas, apressadas. Milhares de caixas dentro de um container num navio coreano atravessando o Atlântico infinito. Caminho das antigas caravelas. Imagina Colombo com seu tênis Asics azul manobrando a Nau Santa Maria e chegando a Cuba com um símbolo tão capitalista.)"


"O caminho de terra está cercado por imensas árvores que não consigo distinguir. Sinto-me realizado, correndo livremente. Começo a perceber nas árvores um aspecto, que a princípio achei interessante, mas depois pavoroso. Elas possuem olhos. Grandes olhos de árvores. Amarelos. Olhos que acompanham meus passos. (...) Acordo subitamente. Tudo escuro. Levanto, passo a mão no interruptor para ligá-lo, mas a luz não acende. (...) Começo a achar estranho tanta escuridão. (...) Levanto tateando a parede e chego até a janela. (...) Abro de uma vez para sentir a claridade. (...) O que sinto é o sol queimando minha face, mas tudo continua escuro. Apenas sinto na pele. Não vejo (...) Um desespero fulminante toma minha mente e começo a gritar. Estou cego. (...)"


"Fica espiando a vida dos amigos pelo Facebook enquanto a enfermeira veste sua filha com a roupinha cuidadosamente comprada para a ocasião. Espera sua esposa voltar para o quarto. Depois que postou a foto, perdeu, de certa forma, o interesse em ver a filha. Mas isso ele não pensa. (...) Compartilha duas bobagens. (...) Não demoram muito. (...) – Estou muito feia? – diz a esposa demonstrando a prioridade da preocupação. (...) – Você está linda! – diz o marido mentindo. – A enfermeira disse que já vão trazer nossa princesinha. Olha a foto que postei no Facebook. (...) – Oh, coisa linda... mostra as outras. (...) A criança chega nos braços de uma senhora gorda vestida de verde. A senhora pergunta se eles querem furar a orelha da menina. O pai negocia rapidamente. Consegue cinco reais de desconto e se orgulha. Pensa em dizer que o preço é um roubo. (...)"





Presentes no livro de contos Olho morto amarelo (Cepe/2013), páginas 14, 27-28, 47-48, 33-34 e 42, respectivamente.


domingo, 29 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Absoluto - Trechos do conto



A assessora de imprensa Madá esbagaça a sua vida por conta de uma obsessão tresloucada pelo misterioso mímico de rua Absoluto, sem palavras, só gestos.


“É impressionante a forma como o ser humano se desfigura, se degrada, se arrebenta por conta de uma possessão, erroneamente classificada como ‘amor possessivo’ — que, de amor, não há nada. Quando o outro determina o fim, a vítima de si mesma está presa a uma armadilha cruel, definitiva. Não há cura, só remendo, que pode ser de dois tipos: a) conseguir ser ‘amado’ de novo, sabe-se lá como, pela mesma criatura que a sua projeção construiu e se submeteu aos caprichos — uma opção quase impossível de ser realizada; b) assassinar o ‘amado’ e suicidar-se em seguida, para que a morte os una, ao menos, na mesma condição de defunto — a opção bastante provável, mais fácil e de rápido reenlace no cemitério. E foi pelas vias do impossível que Madá não se rachou por completo: graças ao acaso, que, supostamente, interfere no óbvio — sendo que, na tragédia da existência, não há o que não seja óbvio.” (p. 28)


“Durante o intervalo, sempre às quartas-feiras, havia uma apresentação artística, no centro da praça. Alunos de várias séries, idades, gostos e medos se revezavam no círculo central para assistir à encenação do mímico, acomodados pela sombra generosa da grande amendoeira. O artista transmutava os elementos do imaginário em gestos delicados, movimentos sutis, inspiradores, hipnotizantes. (...) O tamanho e a variedade de peças apresentadas faziam o pocket-show do mímico funcionar para os estudantes. Um dia, o mundo urgente, descartável e eletrônico irá catapultá-lo da praça. Tal sina não preocupa o artista. Sempre há espaço, em outras paragens, para quem é fluido e safo. E, mesmo na versão reduzida, da dose aos estudantes, para extrair o sumo da sua arte, era preciso a paciência da contemplação. Parar para ver. Parar para sentir. Parar para ser envolto pela aura do inefável. Parar. Foi isso que Madá fez.” (p. 19 e 20)


“O mímico usava um chapéu desbotado, portava uma velha mala marrom e se vestia com um macacão escuro, rajado por uma camisa amarela de listas, calça remendada e sapato gasto. Trapos, mas limpos, perfumados. Humildes, sim, molambos, não. E os seus olhos brilhavam. Muito. Eram castanhos, mais claros que os seus cabelos cacheados, e comportavam mundos estranhos e sonhos do além. Gostava de dançar. Ah, como bailava... Recriava os fatos em lendas, suaves, fluidas, impossíveis de se tornarem livros, por serem tão etéreas, brisas fugazes. Uma breve passagem, paisagem do que não se engarrafa, tragada pela respiração da cidade, quando desaparecia ao final das apresentações, deixando Madá a suspirar profundamente, apaixonada, feliz, uma bola de fogo, radiante, linda.” (p. 24 e 25)


“A praça de médio porte, em frente à entrada principal do colégio, foi reformada recentemente e ficou aconchegante, arborizada, com espaço infantil, bancos de madeira, equipamentos esportivos e banca de revista. Na hora do intervalo, os alunos têm permissão para frequentar o espaço. Para atender à demanda de segurança por parte dos pais, funcionários ficam de olho nos jovens, e uma empresa realiza a ronda, armada e motorizada. Entretanto, quem quisesse fumar um baseado, comprar entorpecentes e matar aula, conseguia. Afinal, é inerente aos jovens burlar qualquer geração supostamente preparada para contê-los.” (p. 19)


“O trânsito é ótimo para equilibrar as diferenças sociais: todos xingam e se agridem da mesma forma, furiosa e imbecil. Ontem, Madá levou uma tapa de uma senhora, na esquina da sorveteria elegante. Sonolenta pelo efeito do domingo à tarde, a assessora arranhou, com o seu carro de luxo, um nobre sedan estacionado. De que adiantou o sobrenome famoso? A senhora foi lá e estapeou. E ficou por isso mesmo. Sem a agressora saber, o revide não foi dado, porque a maldita era mãe do melhor cliente da cidade.” (p. 15 e 16)


“Ao surgir, o absoluto era um vulto surreal. Na praça, vestiu-se da personificação exímia de virtudes de um ídolo querido do passado — Bonorico — já enterrado, que veio à tona novamente, por capricho do acaso. Nos encontros casuais, atendeu às carências maternais por um ser a ser cuidado. Na rotina, tornou-se o exímio divã, silencioso, que só se manifestava em palhaçadas, combustível das risadas tão necessárias ao entorpecimento diário das dificuldades. Num ocasional arroubo incontido, correspondeu às súplicas carnais de uma mulher a redescobrir a sua força sexual, que estava amortecida pela repetição de um casamento de tarefas e acordos. Por fim, respirava apenas para se manter pulsante e gostoso, endurecido e predisposto, uma foda atrás da outra, o atraso de uma década inteira.” (p. 25)





Trechos do conto Absoluto, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Olhos abertos no escuro - Qualquer um - Trechos do conto



Qualquer um volta pra casa, depois do trabalho, e percebe que é só mais um medíocre solitário na multidão de medíocres, que vai morrer só e o seu legado é tão pífio que rapidamente será esquecido, por qualquer um.


“Qualquer um entrou no apartamento, após um dia de trabalho estafante e repetitivo, sem acesso à rede por sugestão do analista. Mal fechou a porta, sacou o celular do bolso. Acessou o Facebook e se excitou ao ver o anúncio vermelho de oito notificações. (...) eram convites para festas a que nunca iria, nem que fossem da sua prima desafinada e insistente; para shows com atrações que nunca ouviu e desprezava antes de um play sequer; para lançamentos de livros que não valiam o investimento absurdo de vinte reais numa ruma de papel encadernada que desencadearia mofo e infestação de traças.” (p. 36)


“Qualquer um (...) aplicou-se no WhatsApp. Excitou-se: várias mensagens não lidas. (...) Leu, uma por uma, de todos os grupos, as individuais também, e todas estavam direcionadas a outros membros, ou eram piadas machistas, homofóbicas, racistas, memes babacas e tacanhos, vídeos de putaria, fofoca, intriga política, e dezenas e dezenas de flyers e convites para shows e lançamentos de discos e de livros, num âmbito em que todo mundo produz e ninguém é plateia, exceto por escambo. (...)” (p. 37)


“(...) Ninguém ligava para qualquer um. Ninguém pensava em qualquer um pra chamar pra sair, dar uma volta, comprar um sorvete, jogar conversa fora, ver a rua e as pessoas, sorrir, sentir a brisa, fumar um, tomar uma. Qualquer coisa serviria para qualquer um, desde que, à noite, ou no final de semana, qualquer um pudesse existir além da estafante e repetitiva rotina de sua mísera existência banal.” (p. 37)





Trechos do conto Qualquer um, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Olhos abertos no escuro - Ela não quis - Trechos do conto



Manuela, 15 anos, estudante. Davi, médico. Colegas de natação. Da sedução matreira da garota à proposta arriscada e cretina. 


“— Não consigo nadar borboleta, cansa muito... — Manuela puxa conversa. (...) — Como? (...) Na raia entre os dois não há ninguém. Às seis de uma manhã chuvosa, apenas quatro alunos treinam na água fria da piscina. No professor, a vontade justificável de dispensá-los e voltar pra casa antes que a avenida alague. Manuela passa da terceira raia para a quarta, a fim de ser notada, como se fosse possível alguém estar num mesmo espaço que ela e não notar o espetáculo das suas formas e curvas desenvolvidas de uma mulher grande e precoce, num rosto simétrico e indeciso entre o infantil e o maduro, iluminado por um sorriso redemoinho que captura e naufraga o incauto admirador do seu percurso sublime. (...) — Borboleta... Não consigo... Cansa muito... Mas eu acho lindo... — para cada palavra, ela mordisca o polegar, uma malícia saborosa.” (p. 40)


“Davi tem uma barba elegante, bem aparada, que tonifica o queixo quadrado, marcado por uma pequena dobra ao meio, hipnose máscula que leva Manuela a fremir os ovários aptos e predispostos à estreia.” (p. 40 e 41)


“Manuela sorri, graciosa, e faz da respiração um ímã. Davi segura o seu braço pela primeira vez. Sente os pequenos pelos se arrepiarem, e os elementos do inefável compartilham as informações secretas que creditam ambos ao enlace, ao encaixe, à troca de fluidos e genes. O toque é uma foda. Ela vibra. Ele endurece. Uma mão no antebraço. Um feito para o outro.” (p. 42 e 43)


“(...) afobado por dar um bom dia significante de ‘estou aqui e te quero’, maquiava a cadência e o fôlego do treino para puxar assunto entre os descansos, mesmo com uma raia a separá-los, e não se concentrava na aula enquanto não falasse com ela, que rendia as conversas até que surgisse algum comentário preciso, bem arquitetado, engraçado, que a fazia rir e se sentir bem — um homem preparado, companhia agradável, muito além dos moleques pegajosos que conhecia e dava uns beijinhos na escola ou nas festinhas de aniversário das amigas. A virgindade? Só um homem feito, inteligente e responsável teria o dom para tanto — a senhora de dentro de si exigia essa qualificação à menina sapeca na linha de frente.” (p. 41)


“(...) Ao bater na borda ao mesmo tempo em que Manuela, ele revive uma sensação há muito adormecida, que ainda não foi maculada pelo acúmulo de experiências fadadas ao fracasso, traumas e frustrações da vida adulta. Os dois trocam sorrisos e olhares, harmônicos e compactuados, numa mesma vibração de afeto. Se Manuela o amar, será o seu primeiro amor, e por ela não ter nenhuma maldita referência anterior, Davi poderá aplicar o seu melhor na relação, pois já conhece bem qual de si deve ser ao amar, caso esse amor seja justo e merecedor de tanto empenho.” (p. 43)





Trechos do conto Ela não quis, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

sábado, 28 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Formigas - Trechos do conto



O velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, nobre e ilustre, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, que está surpreendentemente frágil, à beira de um riacho, trágica.


“O amor é tudo na vida, mas quase perfeito, eu cobri um lar que nunca revelei. Desde o início, enfurnei-me no banco, cursos, faculdade, viagens, negócios, acúmulo financeiro, extremos. O bate-estaca métrico e soturno: trabalho – trabalho – trabalho. Venci pelo esforço, construí um pequeno império de cifras, de gozos poucos. Nada faltou ao lar. Apenas eu. (...) De babá em babá, a minha filha aprendeu a ausência, a distância e os contornos superficiais das relações humanas. E venceu. Mas não teve filhos, não se floresceu enquanto mãe e não se apaixonou. Doce por fora, ventre seco por dentro. E o que eu quis dela, ficou em algum outro extremo, longínquo.” (p. 50)


“(...) São vinte e cinco anos de uma carreira invejável, sem filhos, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, maquete viva da glória acadêmica, nobre e ilustre. Começou cedo, aos dezesseis, na gaiola das loucas do curso de Psicologia. Hoje, é a senhora de duas teorias: superlativos de páginas duma célebre pesquisa, ao revés de um best-seller chinfrim de autoajuda. Contraditória senhora de si, é esperta e funcional, trapezista de tendências. Contudo, agachada desse jeito, como dói nos olhos meus, transmuta-se na Clarinha do picolé e boneca, dos ingênuos anos de nada fazer.” (p. 48)


“Ela está silenciosa, à beira do riacho. No passado, arremessava pedras, escutava o vento, mordia o braço; queria poder enxergar os seus ossos, entender das carnes. Agora, mantém-se imóvel, esquisita, inalcançável. Do fundo, um grito represa o menino que buscava. Sempre no fundo, um boto perdido e falante. Imagens, apenas. E eu estou descrente demais para concretizar até mesmo as fábulas redundantes; a velhice rende pílulas, a piada inesperada, a linha final. Desfechos que a mente constrói e assassina. Quem sabe um empurrão às mochilas e cajados, para salvar o corpo de ninguém? Apenas imagens.” (p. 48)


“O que será de mim, assim, sem a última compensação da velhice? Não posso me expirar do apodrecer progressivo sem a ilusão do continuísmo na prole. Minha filha, a única, tem que compensar o meu último suspiro, alívio do serviço bem feito. Teria, mas ela não pode.” (p. 50)


“(...) Minha filha, venerada por milhares de famintos, senhora de tantos poderes ilustrados, está prostrada em uma posição frágil, minúscula como as formigas que piso com o que resta do meu sadismo. Merda! Não é só a posição do seu corpo que insinua o suicídio. É o seu conteúdo, todo o recheio oco de uma vida de autômatos. Contraditória, vivera, até então, embebida de ‘faça o que eu mando, não faça o que eu faço’. Tanto esforço e tanto tempo empregados à cura dos pacientes transtornados, enquanto o transtorno de si mesma evoluía, sorrateiramente, incólume.” (p. 49 e 50)





Trechos do conto Formigas, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Olhos abertos no escuro - Ingênio - Trechos do conto



Um astro da música brasileira rememora a sua importância para o público e imprensa, remexe as suas lembranças contraditórias e assume o fracasso de ser apenas uma caricatura "genial" que a sua carreira forjou no imaginário popular.


“Essas canções que fiz propiciaram emprego a muita gente. Os jornalistas acostumaram-se ao assunto e venderam revistas, jornais, programas de rádio e tevê com as besteiras que me perguntavam, às quais eu sempre respondia com um sorriso largo, acolhedor e um monte de palavras floreadas e desconexas só para forjar um mito intelectual, mas próximo ao povo por eu ter origem pobre. (...) eu passei a ser necessário para elevar a audiência. Cumpri a função: sempre solícito, de programa em programa, matéria por matéria, parte fundamental no excesso de conteúdo produzido num país novo, carente de ídolos para referendar a sua trajetória, algo que aliviasse a condição de pasto do mundo.” (p. 56 e 57)


“(...) o povo, conservador por excelência e essência — condição imutável do nosso fracasso como revolução —, continua a cantar, dançar, chorar e a fazer filhos com toda essa baboseira de caça-palavras e ritmo que produzi enquanto ainda fumava maconha, à beira do mar, só pra comer os bichos-grilos de saias que trepavam ao primeiro acorde de um violão supostamente combatente ao sistema — eu toco, você dá, eu fabulo, você me segue. Tudo continua, mas eu não. Cansei.” (p. 57)


“Eu fiz canções que o povo cantou. Outras ajudaram a tevê a construir o seu império, cristalizaram os símbolos pretendidos da dramaturgia pasteurizada, exibida à noite — meu nome caiu na boca do povo. (...) também ajudaram a compor o interminável repertório de tantas bandas operárias do cachê, sem arte, somente a função: entreter a massa. (...)” (p. 56)





Trechos do conto Ingênio, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Olhos abertos no escuro - Sereno aceitar - Trechos do conto



Um solitário porteiro leva uma vida repetitiva e ordinária, até que um par de sapatos vermelhos importados provoca o fatal alumbramento repentino, forjando o mito do bacana em quem nunca deixou de ser medíocre  embora que ambos sejam ordinários, ao fim.


“Metralharam alguém. Como é estranho o silêncio que rege o fluir da pólvora pelo ar! O espanto zelou os suspiros atônitos da vizinhança. Mesmo a sentir o receio basilar dos mais previdentes, a curiosidade faminta por tragédias o impeliu a sair para averiguar, típica imprudência dos que são condicionados pela mídia policialesca. Ele pensou: ‘Quem sabe não sobra uma ponta pra mim?’ Sempre sobra. O defunto, um desconhecido de uns trinta e poucos anos, perfurado com tirambaços na fuça, peito e barriga, portava sapatos luxuosos e vermelhos, dignos de Bento XVI. Enquanto as tripas e fluidos internos borbulhavam pelos buracos para fora do corpo, ele vislumbrou o solado, novinho, ainda com uma marca italiana aparente. Deduziu ser grã-fina. Na carteira da vítima, à mostra pela queda, havia muita grana. Não deve ter sido levada por causa da pressa do serviço. E, em vez de pegar a dinheirama, ele preferiu os sapatos. A bufunfa, os comparsas investigariam. O calçado, ninguém cobraria.” (p. 61 e 62)


“A fome roncou em chiliques. Ir até o último andar custou um suor extra, escadas acima, ofegante. Durou pouco. A alma caridosa foi ágil: sem muito perrengue, a Temerária deu-lhe algumas bananas amassadas e só. Solidariedade. Estômago tapado, boa noite, boa sorte. De volta ao apê, os pelos fartos do corpo fediam mais ainda. Teve que improvisar a higiene. De balde e cara de pau armada, foi até o único ponto de água, fora dos apartamentos, do surrado edifício. À vista do espaço comum, sem cerimônia alguma — e nada disposto a subir um lance de escada com o balde cheio —, lavou apenas as axilas e o rosto e o pescoço. Era o necessário para um homem solitário.” (p. 60 e 61)


“Quando o ônibus conseguiu atravessar a marcha do MST, o ar voltou a circular. As pessoas deixaram de suar e se acalmaram; logo estariam imersas na rotina mecânica de sempre. Esqueceriam os protestos e rompantes pelo sereno aceitar da normalidade, sobrevivência. Quanto mais quieto, menos perigo, mais vida. Assim, o mundo gira e a máquina continua a produzir. Nessa equação, uma incógnita se deturpou: ele.” (p. 64)


“Raras vezes se permitia algum lazer. Costumava não sorrir nem alimentar esperanças. Rabugento, sobrevivia, como todos, sem perspectiva, só ação, repetida e exaustiva. Porém, o acaso do assassinato e o inesperado surrupio dos sapatos distorceram o rumo da programação. O que era apenas um objeto de calçar — mais vistoso que outros, é claro, mas servia apenas para pisar, como todos —, foi remodelado num ícone em combustão. Subitamente, na inevitável virada da noite para o dia, um porteiro obeso e bigodudo, solitário e fedorento, inchou-se progressivamente com o vírus da ostentação burguesa. Portando o tal objeto caro, de valor, belo, enobreceu-se pela frágil e farsante via da autoproclamação, sem uma cifra a mais na carteira.” (p. 64)


“Em vez de ônibus, seguiu a pé, na dilaceração final dos tornozelos. A cada passada, um passeio. Exibido. E bem que tentou atravessar a cidade de vales e contrastes. Velho e gordo, foi forçado a parar. Precisou descansar, mesmo alucinado; o mundo real o estapeou. Como tinha pouco para se bastar, estagnou-se em silêncio por duas horas, numa praça confortável, recém-inaugurada. Tempo bastante para sonhar, contemplado. Tomou, bem devagar, umas três cervejinhas, saboreando a espuma quente pelo atraso do gole como se fosse vinho. Imaginou o que faria com o salário do novo emprego, fantasiando que era uma dinheirama. Equipado por sapatos vermelhos e importados — caríssimos, na sua dedução ingênua —, curtiu a possibilidade de ser milionário. (...)” (p. 68)





Trechos do conto Sereno aceitar, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O grito do mar na noite - Não escaparás - Leitura de trechos pelo autor



Criança, jovem, velho. Todos estão se movendo
ao irremediável encontro com o gume do fim.





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Vídeo gravado em 20/11/2015 no estúdio Casa das Máquinas, de Tadeu Mascarenhas, no Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil.

Filmagem: Sarah Fernandes

Transposição de MOV pra MP4: Nalini Vasconcelos

Os trechos lidos foram esses aqui

Informações sobre o livro aqui

Olhos abertos no escuro - Alucinação - Trechos do conto



Mataram a Rita!
E uma das peças, apaixonada pela bucha de sena, irrita-se com a jogada tonta que vitimou a sua musa, e escapole do tabuleiro de dominó, iniciando a saga surreal da alucinação.


“O dominó proporcionava umas partidas bastante disputadas, com muito empate, um toma-lá-dá-cá danado, não havia favorito. Quem decidia, quase sempre, era a sorte mesmo. Com os jogadores safos, todos escolados, só o azar pra vencer os empates e os embates. E as apostas fervilhavam. Todo mundo fazia a sua fezinha. Mas a plateia era obrigada a ficar em silêncio, quase absoluto. Qualquer troço diferente, seja movimentação ou diálogo, era motivo para alguém acusar de trapaça. Dependendo do palavrão, saíam na mão, sempre respeitando o tabuleiro, sem bulir nas peças. Depois dos socos e apartações, a partida recomeçava. Ninguém comprometia o dinheiro dos apostadores por conta de tapas e murros. Que brigassem o quanto quisessem! Sangue e caras estapeadas depois, o jogo havia de recomeçar, de qualquer maneira. Eram nobres, os cavalheiros do ócio.” (p. 74)


“A vida me borbulha. Sobrevivo à vodca pirata e ao antidepressivo, e saio, compenetrada, rumo à orla. Andarilha e nostálgica, escolho morrer no mar, a promover uma batalha entre os meus germes e o sal flamejante, para desinfetar, do restritivo mundo padrão, a minha existência, à vista dos outros, monstruosa. Basta! Resignada, não choro e apenas vou, corajosa, em passos calmos. Chego bem perto da água salgada. Do calçadão, um berro agudo interrompe o vigor suicida; alguém grita o meu nome, com força e desespero. Uma mulher grande, galopante e pontilhada. Rita. (...)” (p. 72 e 73)


“Um crime terrível, hediondo, inafiançável. Um absurdo! Mataram a Rita! Irritada, clamei por justiça, mas o que os desgraçados fizeram, foi apenas virar os dados e embaralhar as peças, para o jogo recomeçar. Fiquei furiosa com tamanha impunidade. Aproveitei a mão mole do embaralhador e escapuli, tabuleiro abaixo. Deram conta da minha falta, imediatamente. Suspenderam o embate. Ninguém conseguiu me encontrar. Fugi para o mundo real. Sem mim, não houve mais partida. Dominó faltando peça é que nem infarto e derrame; fulminam, mesmo com o corpo inteiro.” (p. 75)


“Sempre fui esquisita, mas era decisiva nas vitórias. (...) não parei de pensar em minha Rita. Amor platônico. Nunca nos colaram, as malditas regras não permitiam. Nas vezes em que ficamos separadas apenas por uma peça — aproximadas pelas alcoviteiras, as minhas primas de 2º grau, com o número seis gravado em uma das pontas —, eu saboreava o cheiro dos buracos mil da minha paixão, pesada, de maior valor entre nós todas. Com sorte, durante os rodopios antes do recomeço das partidas, ocorria da gente se chocar, se bater, se roçar. Uau! Como isso me excitava! Muitos lasquinês que proporcionei, vieram depois desse rebuliço. Que saudade...” (p. 76)






Trechos do conto Alucinação, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

Seis passagens de Victor Mascarenhas no livro Um certo mal-estar

Victor Mascarenhas (foto: Vinícius Xavier)


"(...) Naquele momento, Geraldo percebeu que nem ele, nem sua ex-namorada ou qualquer um dos seus amigos de juventude, mesmo os mais brilhantes, bonitos ou talentosos, escaparam da vida real e da sua mediocridade opressiva. Geraldo viu os melhores da sua geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos e arrastando-se pelas ruas como um exército de contadores, advogados, funcionários públicos, bancários, donas de casa e outras ocupações opacas e bem diferentes do futuro luminoso que todos haviam sonhado. (...) Seus pensamentos foram interrompidos por um leve cutucão nas suas costas. Era um senhor mais interessado no arroz à grega do bandejão do que em devaneios sobre as ilusões perdidas da juventude de quem quer que seja. (...)"


"(...) Ninguém no grupo que ele e Bia integravam tinha lido o livro, mas alguém falou que conhecia uma pessoa que parece que tinha lido e dito que era racista, que o autor era um reacionário, de direita, conservador, coxinha, capitalista e fascista, como, aliás, eram todos os que pensavam diferente deles. O protesto consistia em invadir o local do debate, jogar uma cabeça de porco morto no sociólogo, impedir que ele falasse e expulsá-lo do evento, sem direito a dizer nada ou se defender daquilo que os que não o leram o acusavam (...) a maioria venceu e queria mesmo era cassar a palavra do sujeito, numa atitude que não era lá muito democrática e se assemelhava mais ao que fazia a juventude nazista de Hitler, o Comando de Caça aos Comunistas na ditadura militar ou os integralistas de Plínio Salgado no Estado Novo, do que com a ação de um grupo democrático e libertário que lutava pelo bem da sociedade, como eles afirmavam que eram (...) A verdade é que ali quase ninguém sabia nada sobre o tal escritor e sua obra, assim como não sabia quase nada sobre muitas das coisas sobre as quais protestavam veementemente, embora acreditassem veementemente que sabiam (...)"


"Na verdade, o supermercado era um recanto onde podia obter conforto para a sua eterna procura por um lugar onde o mundo fizesse algum sentido. Afinal, desde que se incutiu na cabeça das pessoas que o sentido da vida é consumir desesperadamente e sem maiores questionamentos, supermercados, shoppings e congêneres passaram a ser um dos poucos lugares onde a humanidade não tem dúvida sobre o seu papel no mundo, excetuando-se apenas o dilema que nos aflige quando, tal qual Hamlet segurando uma caveira e encarando seu momento 'Ser ou não ser?', temos que decidir, empunhando a máquina do cartão: 'Crédito ou débito?' Eis a questão."


"(...) Henrique não tinha cruzado a fronteira imaginária entre a vida adolescente e a vida adulta, aquele momento em que deixamos de ser jovens idealistas e começamos a nos transformar em velhos pragmáticos. Todos passam, ou deveriam passar, por esse momento. Até a geração de 68, que produziu uma revolução poética e política na França, lutou pela liberdade no Brasil e revolucionou a cultura e o comportamento no mundo todo, virou uma gente cínica, vazia e pragmática que assumiu o poder para repetir e aprofundar tudo o que eles mesmos combatiam no passado. (...)"


"O preparado era uma poderosa mistura de veneno de rato, arsênico e estricnina, guardado para ocasiões especiais como aquela. Tenório, braço direito e parceiro de longa data, já tinha ajudado seu chefe a dar cabo de alguns inconvenientes nesses anos que o Blue Moon está em funcionamento. Num rápido esforço de memória, enquanto localiza o bem guardado recipiente com o preparado, Tenório se lembra de um garçom ladrão, de um agiota que veio cobrar uma dívida impagável, de um cafetão que ameaçou quebrar o bar inteiro e de uma prostituta que chantageava seu chefe. Todos sorveram a mistura mortífera, uns na bebida e outros na comida. Atualmente alguns estão acondicionados, devidamente esquartejados e embalados, na pequena câmara frigorífica que fica nos fundos do estabelecimento, outros já foram consumidos em empadas e croquetes diversos."


"Não era a primeira vez que Mazinho cruzava com situações desse tipo. Viu muitos jogadores serem selecionados por olheiros, ganharem a posição no time titular, elogios de repórteres e comentaristas, subirem para o profissional ou renovarem contratos, mesmo sem apresentar um bom desempenho, apenas por aceitarem, alguns de bom grado e outros nem tanto, prestar serviços sexuais a treinadores, profissionais da imprensa esportiva, preparadores físicos e dirigentes pelo país afora. (...) Depois de algumas semanas resistindo às investidas de Machado, o empresário abriu o jogo e mostrou as travas da chuteira para o então jovem atleta: - Seguinte, meu filho. O mundo do futebol é assim. (...)"





Presentes no livro de contos Um certo mal-estar (Solisluna/2015), páginas 11, 32, 85-86, 94, 50 e 22, respectivamente.


Olhos abertos no escuro - Botox - Trechos do conto



A empresária Marília, influente, estrategista, sagaz e bem-sucedida, dona da grife mais valorizada, enfrenta o inimigo implacável: uma doença terminal, repentina e voraz.


“(...) Na ampla e climatizada loja que ergueu, a venda é camuflada. O que importa é a satisfação das consumidoras, que precisam se sentir confortáveis para que possam falar muito, desabafar as suas angústias e vontades, como se estivessem na casa da melhor amiga, a confidente secreta e leal. (...) Para cada cliente, uma vendedora específica, que possui um detalhado banco de dados sobre a sua intimidade e as suas necessidades, previamente analisado por um terapeuta — a bula é construída desde o primeiro encontro. Cada frase, gesto e postura são calculados antecipadamente, visando à sedução emblemática. (...) As clientes confiam de forma plena, entregue, total. Além das cartadas certeiras, Marília atende em sala reservada, a oferecer exclusividade, importância, simulando uma sessão de análise. Acomoda as clientes em um confortável e fashion sofá, e permite que elas despachem as mais variadas angústias e insatisfações: dúvidas existenciais, reclamações cotidianas, relatos de traição e impotência dos maridos, drogas e vagabundagem dos filhos, sessões secretas de sexo com amigas e empregados, entre outros segredinhos que precisam ser contados, mas nunca se sabe em quem confiar. Ela? ‘Sim, desabafe, eu garanto o sigilo...’ E a cliente aproveita para conferir as tendências da estação. (...) Ao final do processo, todas pagam o preço que for. (...)” (p. 83 e 84)


“(...) No material que expõe, com brilho e afetação, há o couro moldado por sertanejos, os panos costurados por candangos e muita mercadoria comprada em queima de estoque de depósitos no sul do País, e em outras liquidações baratas, nos confins das fronteiras e até em outras terras latinas. Então, o balaio de gato cai nas hábeis mãos de poucas funcionárias, de extrema confiança, que costuram, com muita delicadeza, a preciosidade da coleção: a etiqueta. (...) É a marca que faz o material chinfrim custar tanto. O que interessa à cliente é comprar, possuir e ostentar o ícone referendado que assina a coleção, do vestido de gala ao chaveiro personalizado. (...) A cliente paga, propaga e é certificada a transitar pela sociedade compartilhando o mesmo código de conduta e consumo que as demais mulheres ricas, as mesmas regras de etiqueta e comportamento do seu meio social, amparada e legitimada pelas peças que Marília vende (...)” (p. 80 e 81)


“Marília desliga o som do carro. Enxuga as maçãs do rosto e olha para a entrada da sua loja, de rua, uma maison. Bem vigiada, segurança privada armada e atenta, apoiada por viaturas da polícia militar a rondar pelo tradicional bairro nobre, permite-se ao luxo de estampar diversas ricaças na sua porta e nenhum assalto. Entretanto, há um burburinho maldoso. A empresária analisa que o deboche é sobre o seu sumiço. Mais: estavam a avacalhar a sua pessoa, algo impensável meses atrás. Só que as clientes têm razão. Afinal, faria o mesmo, caso fosse uma das fofoqueiras. A mulher, em equívoco ancestral e absurdo, é algoz da mulher.” (p. 85 e 86)


“Antes do envelope-tormenta, era cúmplice da cisão familiar. A regra da existência contemporânea é cada um por si, o meu primeiro. O egoísmo impera e regula, o recurso financeiro entra e a felicidade é ágil, fugidia. Não se engane: Marília vivia bem consigo mesma. Bastava-se. Da família, queria os garotos sadios e estudando. Do ex-marido, que continuasse a pagar em dia a pensão e demais despesas eventuais, requisitadas pelos filhos. Sexo? Trocou pelo glamour e chocolates. (...) Saudável engano; o corpo humano destroça as fantasias. E é cruel, revelando as mazelas de repente, num pedaço de papel com letrinhas impressas. Exame de rotina. Resultado incomum. Suspeita estranha, novo exame, específico. Marília abriu-o, assim que saiu do laboratório. Choque. Profundo. (...) desaba na cama king size. Quer romper o pacto, ligar para o ex-marido, que é médico. Não pode, mas precisa. Disputa difícil, entre o mito poderoso e a carne frágil. E se acionasse os filhos? Não dá; há muito o cordão foi podado pelo elo do comércio ‘notas altas = dinheiro extra vs. notas baixas = corte na mesada’. Pensa: ‘Quanto será que eles cobrariam por um apoio sempre ruim de dar?’ — para a empresária, não há quem segure a barra da doença alheia sem levar alguma vantagem com isso.” (p. 88 e 89)


“O poder está intrinsecamente ligado à quantidade de contatos e à qualidade das informações que o poderoso acumula e mantém. E a rede precisa ser vasta, abrangente, plural, corporativista. Faz parte do bom jogo colaborar, compartilhar, trocar, intercambiar os interesses constantemente. Além disso, para sobreviver às tempestades ocasionais que a frágil carne humana impõe, é fundamental estar no topo da hierarquia e ter um longo dossiê sobre os deslizes de cada peça dessa engrenagem corrupta e vital. Não importa o que aconteça, quando e quanto tempo irá passar até que se volte à ativa. Se ainda tiver as provas muito bem resguardadas, e se a habilidade de escapar das ameaças for maleável e sutil, nem precisará de dinheiro para se reerguer. Ofertarão.” (p. 106)


“(...) antes de apagar, pede para que a acompanhante se aproxime. Fala, bem baixo, ao ouvido: (...) — Vou colocar o seu nome no meu testamento. (...) — Qué isso! Vai ficar tudo bem... (...) É uma falha dos românticos cogitar a moral mesmo em momentos extremos. (...) — Não precisa me agradar, sei da lama em que habito.” (p. 92)


“Muitas vezes, quem se classifica como preparado, não está. É na dificuldade que surge a real competência do posto em xeque. E os novatos no comando costumam se estrepar com frequência, decaídos pela prepotência inflada do poder recém-adquirido, e se desesperam: tomam decisões desastrosas e se tornam acuados e imprudentes, a demitir o primeiro funcionário que questionar e expor os seus equívocos; a absorver para si toda a responsabilidade, afundando o grupo no confuso redemoinho das metas insanas, pretensiosas e mirabolantes, criadas no afã por soluções imediatistas. (...) Érica chorou, escandalosa, no banheiro. A polícia prendeu quatro grandes fornecedores, ferrando com o comércio de muita gente. A nova chefe foi cortar verbas justo da segurança... É a regra: deve-se pagar, com assiduidade, para os agentes da Lei permitirem o funcionamento da operação clandestina e ilegal. O sistema ficou comprometido, justo agora, quando as mulheres ricas estão mais arredias; o casamento está próximo.” (p. 96 e 97)





Trechos do conto Botox, presente no livro
Olhos abertos no escuro (Via Litterarum, 2016),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.