sexta-feira, 28 de junho de 2013

Vamos ouvir: Vol II - O Baile Continua, da Orquestra Brasileira de Música Jamaicana

Volume II - O Baile Continua (2013) - OBMJ





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Release do CD, disponível no site oficial da banda:

"
Se “o som não pode parar”, o baile tem que continua! Esse é o nosso ofício!

Criada originalmente por  Sergio Soffiatti e Felippe Pipeta, a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, carinhosamente apelidada de OBMJ, apresenta seu novo álbum, Volume II – O Baile Continua e segue mais do que nunca com sua missão: fazer dançar, divertir e trazer ao publico a música brasileira, tão rica e plural, embalada pelos ritmos jamaicanos.

Por falar em baile, que no dicionário aparece como sinônimo de festa e dança, no Volume II a OBMJ está acompanhada dos compositores mais festeiros do Brasil: Luiz Gonzaga, Tim Maia, Jorge Ben e Wilson Simonal esses são só alguns nomes que compõe a nossa lista para o disco.

Outra novidade é a participação do músico e produtor musical Gustavo Ruiz, com sua guitarra pontual na música Sitio do Pica Pau Amarelo, do mestre Gilberto Gil.  E a nossa homenagem a Jai Mahal e China Kane, duas figuras importantes do cenário do reggae nacional. Ambos são conhecidos por apresentarem o programa de rádio “Reggae Raiz” por mais de 18 anos e pela divulgação e pesquisa da música jamaicana.

“Volume II” é a sequencia da nossa pesquisa entre a música brasileira e  a jamaicana e faz  parte  de uma trilogia que deve se concluir com a gravação de um DVD ao vivo.

A produção, arranjos e engenharia de som são assinados por Sergio Soffiatti. Desde o primeiro disco, ele e Pipeta buscam a sonoridade da Jamaica dos anos 60, tanto nos arranjos, como na sonoridade que é caracteristica da época.

Nesse novo álbum, nos aprofundamos na pesquisa da música brasileira e, além de contar com os clássicos que estão no inconsciente de todos, também trouxemos  músicas pouco conhecidas do grande público, que fazem parte da cultura regional do país e que dentro da nossa visão e conceito se encaixaram perfeitamente; onde a música prova a sua universalidade e a proximidade do Brasil com o Caribe e com a mãe Africa – enfim, com a Jamaica.

A OBMJ completa em 2013 cinco anos de existência e após shows, gravações, experiências e viagens por esse Brasil ganhamos maturidade, nosso objetivo fica cada vez mais claro e podemos dizer bem alto e em bom tom:  “O BAILE CONTINUA!
"

terça-feira, 25 de junho de 2013

Pílulas: Parte 02 - Padre poeta Daniel Lima

Daniel Lima (foto: Cepe/Divulgação - interferido por Mirdad)


"O profeta vê o futuro mas não sabe dizê-lo.
O poeta vem e diz.
E o profeta se cala"


"É na queda que se revela
a escondida fraqueza
do homem essencial

É no fundo do abismo que se descobre
a força ausente

É na desnudez da morte que se sente
o impasse da vida
a fugacidade do tempo
e o mistério das horas transcorridas

No voo o pássaro é domínio do espaço
orgulho de asas que o libertam
sem perceberem que hão de cair um dia
porque são asas"


"Envia tua morte aos pedaços, pelo correio,
aos amigos: eles se divertirão.
Toda morte é tediosa ou cômica,
menos a tua, pra ti.

Não te espantes se a receberes de volta:
não que te queiram vivo propriamente,
mas distante"


"Sozinho em minha ilha,
vejo de longe o mundo
como algo distante e diferente.

Mas esse que vejo assim distante
é a própria ilha em que estou"


"Levo-os sempre comigo, os mortos
que em vida conheci.
Amigos, inimigos,
os que amei ou me amaram
os que vi de passagem, ou (quem sabe?) odiei.

Todos estão aqui, simples e amáveis
todos falam por mim
todos sentem comigo.

Todos os que por mim passaram
todos eles sou eu"


Daniel Lima
(2011/Cepe)

"Se a realidade te dói,
se ela te insulta,
rasga-a em pedaços
e salta
no centro de teu sonho
(Ele se tornará real
se o assumires)"


"Sobre os livros me curvo noite adentro
na ansiosa procura
de algo que me leve ao esquecimento
das coisas.

Mas cada esforço que faço de evadi-las
mais fundamente grava-as
no meu coração tornado coisa"


"O mundo observa a vida
e passa indiferente.
Talvez nem mesmo observe
apenas passe.

Uma criança morre
e a vida inteira estremece
e sente-se em outras vidas
uma comoção misteriosa.

Mas o mundo continua o seu giro impessoal,
como se nada houvesse acontecido.
As manhãs nascem de novo lindas
como ontem.

Flores desabrocham, indiferentes e belas,
na sepultura da criança morta.

Nem mesmo se imobilizaram seus brinquedos
que passaram às mãos de outras crianças.
A boneca ainda ri do mesmo jeito
e dorme como se nada houvesse acontecido.

E nada aconteceu.
O mundo apenas passa"


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Pílulas: Parte 01 - Padre poeta Daniel Lima

Daniel Lima (foto: Cepe/Divulgação - interferido por Mirdad)


"Nada aprendi na vida
senão esta lição:
que sou provisório e de passagem"


"Muitas vezes só alcanço a alma
da verdade dando-lhe o corpo e
a forma do absurdo"


"Porque tudo compreende,
o amor tudo aceita.

E, por tudo aceitar, o amor encontra,
naquilo que o define,
a sua perdição.

Porque compreende, aceita.
Por aceitar, destrói-se.

Como te salvarei, amor,
dessa contradição?"


"A recordação de tudo o que foi antes.
A ansiosa certeza do que virá depois.

E, no meio, estrangulado,
o impercebido agora,
o único que é vida.

Esta, a essência do ser, do tempo feito,
tempo que o torna êxtase e agonia"


"Para amar o Brasil
é preciso paciência,
aquela doce e amável,
aquela burra paciência
que nos faz suportar o patriotismo idiota
dos que amam a bandeira e o hino
mais que o povo,
dos que adoram os símbolos e traem a realidade

Para amar o Brasil
só com muita paciência.
E muita imaginação"


Daniel Lima
(2011/Cepe)

"Metida nesta espelunca
de um corpo errado e malfeito
que a mágoa pisa e trunca
minha alma é toda sem jeito
alma só de raro em nunca"


"A vida nunca é inteira,
só se dá aos pedaços.
Nunca se vive tudo.
Nunca se vive todo.

A vida é sempre quase"


"Toda viagem que faço,
longe embora, é sempre assim:
se me afasto, em cada passo
mais me vejo e me embaraço,
vou sempre esbarrar em mim"


"Não desejo que ninguém se lembre de mim
como de um indivíduo cheio de utilidade
como de uma chave de fenda
um abridor de garrafas, um desentupidor de pias,
uma panela de pressão ou um rolo de papel higiênico

Quero ir adiante, na inutilidade do amor de que sou feito,
fiel à substância da vida, que é dom de todo gratuito,
que vale unicamente pelo que é,
na singeleza de sua realidade nua"


"D.Quixote era louco.
Foi à luta e perdeu.

Se houvesse ganho,
os poetas do mundo inteiro
estariam perdidos"

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Vamos ouvir: o CD solo de estreia de Jair Naves


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Release por Rodrigo Carneiro, disponível no facebook oficial do artista:

"
Acompanhar, relativamente de perto, o aperfeiçoamento de um artista é uma dádiva. Digo, artista à vera. Daqueles que tangenciam o perigo, caminham beirando o abismo, estão à frente, como batedores, iluminando, às vezes, turvando, o caminho. O cantor e compositor Jair Naves faz parte desta categoria. Sua figura grave surgiu, ao menos pra mim, em 2000, numa das últimas formações do finado Okotô, meus parceiros de geração. Em paralelo à atividade de baixista caçula na banda, Naves dava os primeiros passos do que seria o Ludovic. Deu no que deu. Uma respeitabilidade conquistada rapidamente no grito, em shows arrasadores – em algum deles, detalhe, temi pela integridade física daquele garoto. Logo, as narrativas desconcertantes, tramadas por Naves e defendidas com veemência, seriam registradas em dois discos cultuados: “Servil” (2004) e “Idioma Morto” (2006). Até que, depois de oito intensos anos no front de batalha, o final chegou ao Ludovic (2000 – 2009).

Isso posto, com seu nome de batismo e foto estampados na capa de um belo EP, “Araguari” (2010), Naves anunciou um novo ciclo criativo que culmina agora em “E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas”, disco solo de estreia, que ganha as ruas via Travolta Discos e Popfuzz Records. Gravado, mixado e masterizado por Fernando Sanches, no Estúdio El Rocha, em julho de 2012, o álbum tem a produção assinada por Naves, que divide-se entre a feitura das letras, a emissão da voz e os acordes de guitarra e violão de cordas de aço. No estúdio da zona oeste paulistana, o autor foi ladeado por Alexandre Molinari e Adriano Parussulo, baixistas; Alexandre Xavier, piano; Cimara Fróis, sanfona; Renato Ribeiro, guitarra, violão de cordas de nylon e vibrafone; e Thiago Babalu, bateria. O pianista Xavier, o baixista Molinari, o baterista Babalu, trio presente às gravações, e o guitarrista Renato Ribeiro o acompanham shows noite adentro.

“E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas” começa com “Pronto para morrer (o poder de uma mentira dita mil vezes)”, de versos como “Minha baixa escolaridade/ é um espetáculo à parte/ eu sei que pode te entreter/ já que você vê comicidade/ em tanta desigualdade/ o que, pra mim, é novidade/ mas eu evito esse debate/ pois seguiremos nesse impasse/ mesmo depois que eu morrer/...”. Da urgência tensa e pós-punk da faixa de abertura, Naves vai à balada cadenciada "Poucas palavras bastam”, aliás, notícia velha, trata-se de um sujeito que, além do desenho harmônico das canções, tem especial apreço pelo discurso. Um estilista da palavra. A sonoridade tristonha da sanfona nos momentos iniciais é um dos destaques de “No fim da ladeira, entre vielas tortuosas”, onde, segundo o personagem, “acontece que eu ainda enxergo em ti/ tudo de que eu mais me orgulho em mim/ Como um pássaro ruidoso ao ver a luz do amanhecer/ eu não pude me conter/...”

Em andamento mais, digamos, festivo, “Maria Lúcia, Santa Cecília e eu” reverencia – e preocupa-se com - a mãe, Maria Lúcia, e a padroeira dos músicos, segundo a mitologia cristã, Cecília, a santa, num dos outros momentos de rara inspiração do registro. De acento sessentista, “Carmem, todos falam por você” também convida sutilmente a dançar e explode em um (não)refrão gritado. “Guilhotinesco” fala de Deus, solidão e ilusões perdidas. Isso, ao modo guilhotinesco e fatal. Que faixa, que faixa. “Vida com V maiúsculo, vida com v minúsculo” é outro achado. “Quando eu era menor,/ eu me perguntava como deveria ser/ a vida em uma dessas casas à beira da estrada/ tristes e isoladas/ Acho que agora eu sei/ pelo vazio com que eu convivo há tanto tempo”.

“Covil de cobras” produz watts de potência ao tratar da inexorabilidade do tempo. Dedilhada ao violão e amparada pela banda no final, “A meu ver” é de uma delicadeza irresistível. Tal qual “Eu sonho acordado”, que dá cabo do álbum em alto estilo (“Me assegura que você jamais vai maldizer/ o instante em que você se deu pra mim,/ em que se anulou por mim/... / eu sonho acordado/ com a vingança dos torturados,/ com a mulher que vai envelhecer ao meu lado,/ com o meu pai ressuscitado/...”). Que o amor, esse tsunami, esse cão danado dos infernos, seja louvado. E o artista à vera, que nos inquieta e deleita com “E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas”, também.
"

terça-feira, 11 de junho de 2013

Pílulas: Toda Poesia, de Paulo Leminski

Paulo Leminski interferido por Mirdad

"o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol

apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo"


"Eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois"


"isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além"


"um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer vai ser minha última obra"


"o barro
toma a forma
que você quiser

você nem sabe
está fazendo apenas
o que o barro quer"


(2013 / Companhia das Letras)
Paulo Leminski

"Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima"


"anos ímpares
são anos vítimas
anos sedentos
de sangue e vingança
todo gozo será punido
e o deserto será nossa herança

anos ímpares
são sarampo ínguas cataporas
bocas que praticam
tacos e cacos de línguas
lixos onde mora a memória

muda a regra, muda o mapa,
muda toda a trajetória
num ano ímpar,
só não muda a nossa história"


"Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas"


"eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus"


Cinco haicais de Paulo Leminski:

"esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem"

"a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome"

"nu como um grego
ouço um músico negro
e me desagrego"

"longo caminho até o céu
essa minha alma vagabunda
com gosto de quarto de hotel"

"- que tudo se foda,
disse ela,
e se fodeu toda"


Trechos extraídos do livro "Toda Poesia", de Paulo Leminski.

sábado, 8 de junho de 2013

Pílulas: Meses do ano por Daniel Lima

Daniel Lima interferido por Mirdad


Seguem abaixo trechos do poema "Zodíaco", presente no livro "Poemas", do padre poeta Daniel Lima, um passeio pelos meses do ano:


"
Janeiro vê dezembro
não como um vizinho às suas costas,
já passado e vivido:
Janeiro vê dezembro no futuro.
Depois dos onze meses que ainda faltam
"



"
A alegria que levas de reserva
colheste-a por certo em fevereiro
para queimá-la talvez a vida inteira
"


"
Março vem
quando menos se espera

Março é essa perpétua interrogação
suspensa no ar

Março é a véspera
o dia seguinte
o intervalo
a pausa
a ansiosa espera

Março é o travo
que dá sabor à vida
e elimina
a nauseante doçura original

É preciso traduzir março
para entendê-lo

Ele é o gesto
o código
o enigma
"


                                                         foto: Vasco Cardoso
"
Abril é um modo de sentir
histriônico e vadio

Abril é um palhaço trágico
(como uma tragédia grega
ou um tango argentino)

Abril não dorme hoje nem nunca
porque a vida é urgente
e o sono não compensa
a vida que se perde.

Abril de olhos abertos sempre
"


"
Há lama nas ruas
mas a lama antes foi água
e a água é o princípio

Maio é úmido, é água
Maio é água, será lama
Maio é lama, foi água
A vida, o tempo, as horas
"


"
As lembranças de junho doem em todos
Os amigos, as fogueiras, o fogo, os fogos,
a infância de junho
A clareza de junho
Junho é claro
mesmo quando chove
"

Daniel Lima
(2011/Cepe)


"
Julho tem gosto de vinho
seco rascante e tinto

É o mês da lua
e dos lunáticos

A loucura mora na vizinhança
(todos somos vizinhos
de todos
cada um é louco
e seu vizinho)

E perto da loucura
mora o amor, irmão gêmeo
da loucura
e os mares
e as marés
e os caranguejos

O vinho se derrama da garrafa

A lua é julho

Daí, essa saudade, essa tristeza
sem ter de quê
Juliana tristeza, Juliana saudade,
tênue e fina
mas áspera e rascante
como o vinho de julho
"


"
Agosto é esse leão de olhos abertos
que dorme mas espreita
e destroça e devora
os pedaços de sonhos

Agosto fere
machuca e fere
e a ferida sangra
como o vinho de julho

Agosto é desafio

Mês do cachorro doido
todos temos um cachorro doido
no sangue
todos temos um pouco de agosto
nos desejos

Todos nós somos loucos
a vida toda
ou um dia
"


"
Setembro é frágil como porcelana

Sua fragilidade é sua força
sua secreta força
sua ostensiva beleza

Setembro não desafia: espera
espera e depois sai caminhando
num aparente sossego
(como Inês de Castro)
Setembro é primavera

Setembro é frágil
é cristal, mas é diamante
é resistente pedra
o diamante setembro tudo corta

Não desdenhes jamais da frágil força
dos frágeis

O verdadeiro peso
pesa leve
flutua

E os fortes morrem antes

Setembro é mês da vida
do ar livre
das motocicletas
dos mutucas e macacos babuínos
da doce pátria amada, salve, salve!
Salve a doce pátria amada
dos generais
Salve-a sempre e para
sempre
Deles
Salve-se quem puder
Amém
"


"
Outubro é sagaz e se equilibra
entre uma nuvem e uma estrela
Outubro não cai
desce devagarinho
como quem desce uma escarpa
com cuidado e prudência
mas outubro não cai
desce

Outubro se equilibra
entre os extremos
e se desequilibra
entre as estrelas

Outubro não decide 
faz calor
"


                                                                              foto: Cláudio Rebello
"
Silêncio e paz
a paz de novembro
a paz dos cemitérios

Os mortos de novembro
são mais vivos
que os vivos de janeiro

Mas novembro é uma seta
a seta
o arco
o sagitário

O sagitário aponta
para o futuro
o tempo, a vida
o mistério do tempo
a dança das horas

Novembro é um alquimista
que faz transformações quase impossíveis
"


"
Dezembro é o cântico contido
a vontade de ser que se recolhe
e aguarda o seu momento

Em dezembro os poetas hibernam
como ursos polares
e os filósofos nascem
e tentam dar ordem ao mundo
ah! coitados!

Dezembro é o último
mas haverá o primeiro
outra vez o primeiro
è isto a história

Deus nasceu em dezembro
então dezembro é tudo
Dezembro é festa silenciosa
festa na estrebaria
os teólogos não são convidados
ficam de fora no sereno
dando palpites inúteis

É tempo de esperança
tudo acaba, tudo recomeça
Deus nasce, Deus morre, Deus ressuscita
o tempo continua
a vida é isto

Os homens morrem no mundo todo
E Deus nasce em Belém
isto é dezembro
"

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Vamos ouvir: Vamos pra Rua, da Maglore

Vamos pra Rua (2013) - Maglore




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Release do CD, disponível no site oficial da banda:

"
A nova estrada de Maglore

Em “Vamos pra Rua”, o quarteto baiano mantém a levada pop e mostra amadurecimento. Novo trabalho tem participações de Carlinhos Brown e Wado Música popular brasileira, rock e psicodelia formam as bases dessa banda que é essencialmente pop. Formada em meados de 2009, o quarteto baiano Maglore não se prende aos rótulos das prateleiras das lojas. No balaio de Teago Oliveira (voz e guitarras), Leo Brandão (teclado e guitarras), Nery Leal (contrabaixo) e Felipe Dieder (bateria) encontram-se referências que vão dos tropicalistas dos Mutantes à MPB de João Gilberto, passando pela psicodelia de Pink Floyd.

Com um EP (“Cores do Vento”, 2009) e um CD na bagagem (“Veroz”, 2011), a banda conquistou um público cativo por todo o país, foi listado pelo jornal O Globo como uma das maiores revelações de 2011 e amadureceu nos palcos em dois anos de estrada, mais de 300 shows pelo país e a mudança para São Paulo. O resultado desse processo se observa no segundo (e novo) CD, “Vamos pra Rua” (independente).

Com participações de Carlinhos Brown e Wado, o trabalho reúne onze faixas que passam por temas do cotidiano, o amor e a Salvador, cidade natal, embaladas pela levada do pop e da música brasileira. “O convívio e os shows dos últimos dois anos nos deram outra visão do que e de como queríamos fazer um disco. Amadurecemos ao pensar os próprios arranjos de forma mais homogênea. As músicas estão mais enxutas, menos precipitadas. Faz parte do caminho natural de qualquer grupo, se entender mais”, conta o vocalista Teago Oliveira.

Carlinhos Brown, que faz participação na suingada “Quero Agora”, enaltece a banda “jazz-rock-MPB” e aponta Teago Oliveira como um novo Raul Seixas. “Raul Seixas, além de dono das bases mais bem arranjadas da MPB, poeta e cantor, deixou um estilo a seguir. Encontro isso claramente no canto de Teago [Oliveira]. Maglore é jazz-rock-MPB. Junto com os ‘caçulas’ da música da Bahia, como a banda Memorize, BaianaSystem e outros, nos propõem uma nova glória”, afirma Brown.

Desde sua fundação, a Maglore tem participado de alguns dos principais festivais do circuito nacional – o Festival de Verão Salvador; Melody Box Ao Vivo e Festival Fora do Eixo; Conexão Vivo, entre outros. E agora se prepara para ganhar as ruas de todo o país. Afinal, “Vamos pra Rua” nasceu para tocar. Sem qualquer medo de virar mainstream. Em partes: “Mentira, sentimos sim, mas a gente encara. Não foge disso não. É bom saber que um montão de gente gosta e se identifica com o seu trabalho”.

Informações para a imprensa: Pedro Henrique França: 21 7366 6137 / pedrohenrique.jornal@gmail.com
"

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Pílulas: Os encantos do sol - Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Lima Trindade - interferida por Mirdad)


"Nada é mesmo nosso nessa vida, se vamos morrer. Nem mesmo nos pertencemos. Estamos por enquanto. Por enquanto vivos, por enquanto amados, por enquanto juntos. Amanhã, quem sabe?"


"O que muitas mulheres não conseguem entender é que os homens não envelhecem. Continuam jovens, seu corpo é que fica pra trás. Mas, mentalmente, a cada novo corpo feminino que contemplam, renascem. Daí para a paixão só precisam de uma noite. Isso se a parceira cumprir sua parte. Deixar o pudor lá fora, sob a chuva, e a falta de coragem para seus pais, que mal a geraram ou o fizeram por descuido"


"É melhor que nossa mulher, ao ir para a cama com outro homem, aja como prostituta e não como amante. A prostituição tem um término marcado, a paixão nem sempre. A primeira nos devolve a mulher quase a mesma; a segunda, transformada, ferida, agastada, infeliz"


"É preciso compreender que o culto ao passado muitas vezes não constitui um sintoma de fraqueza, nem de loucura, nem de tédio, mas a única opção que nos resta"


"Polly riu, constrangida, o rosto levemente ruborizado. Decidira por mim e agora se envergonhava. Uma normalidade nas mulheres que se casam. Nada de estranho, portanto. O fato de que elas se deitem conosco já é suficiente para que decidam também por nossas vidas. Na verdade, decidir deitar-se já é uma decisão dupla, por elas e por nós, que sempre ficamos à espera de sua paixão ou compaixão. Não há outra alternativa para a conquista da alma feminina e, consequentemente, de seu corpo. Sem uma nem outra, só nos resta a força"


"Decidi dar uma volta e, quando retornei, ela tinha limpado o apartamento de todo vestígio de sua presença. Apagara até a marca de suor do seu ombro, quando, na cama, de bruços, encostava-se à parede. Ficara uma mossa branca na camada de massa da pintura, efeito de sua mão trabalhando violentamente a esponja molhada"


"Sob a chuva, os trens exalavam melancolia, um ar de exílio, de derrota. A insensibilidade dos homens, aferrados somente àquilo que oferece lucro, que os faz mais ricos ainda que piores, reduzira os trens àquele nível. Um dia, não houve mais pontos a ligar ou nenhum motivo rentável para fazer isso, e um magnata qualquer, aos brados ou arrotos, proferiu a setença. E ali estavam eles, toneladas de ferro e aço, condenados, esquecidos, imóveis como túmulos"


"Não há felicidade sobre a Terra senão por um tempo, uns míseros segundos... Aliás, o estar feliz já é um desespero. Não se prolonga, não se perpetua. Estará sempre por um triz. E é isso que nos faz procurar, atentar para as outras vidas à nossa volta. Uma busca que é tão utópica quanto insensata. E não poderia ser de outra forma"


Contemplado com recursos da Petrobras e do Ministério da Cultura
Único vencedor do edital Petrobras Cultural 2010 fora do eixo Sul-Sudeste


"Foi a trégua. A mais sofrida de todas. Não voltamos a ser o casal de antes, afinal de contas o tempo não apaga tudo, como habitualmente se diz. A memória permanece, e nela os momentos mais tristes: traições, preterições, abandonos, desprezos, ultrajes. Estas são feridas que não cicatrizam. Integram o rol das humilhações, e uma humilhação nunca se esquece. Supera-se a morte, a dor, um amor que se acaba, mas nunca uma vergonha. No instante último ainda a estaremos remoendo"


"Uma fatia de sol derramava-se sobre a fórmica, como a lâmina branca de uma cicatriz a separar nossos sonhos matrimoniais: de um lado o meu embaraço, do outro a sua indiferença. O marido fracassado, a esposa evasiva. Quando eu a abraçava de madrugada, ainda que em meio ao sono, motivado por algum sonho impreciso, e meu ventre colava em sua bunda ou avançava contra seu útero, Virgínia ou se virava para o outro lado ou escapava da cama para ir ao banheiro urinar, mais dissimulada que um outdoor. De início achei que era natural, depois tentei me convencer de que era uma coincidência, mas logo, estabelecida a repetição, compreendi que sua atitude não passava de estratégia, uma fuga gradativa aos seus compromissos de esposa"


"- É, de fato, Victória é sua filha.
Encarei-o quase com fúria, ódio.
- Mães não privam os filhos de seus falsos pais. Não teria efeito - concluiu"


"Foram as melhores núpcias de minha vida. Foi como se meu desejo encontrasse seu espelho no vigor e na volúpia que a alimentavam. Se ela me queria, eu estava pronto. Se eu me aprontava, ela logo se deixava animar, naturalmente, numa simetria até então impossível"


"Continuavam humanas e, apesar disso, profissionais: se por um lado pareciam mortas, num embotamento que sugeria desespero, anulação, por outro cumpriam muito bem seu papel de nos fornecer prazer, um prazer vivaz e autêntico, como procurávamos. Sob nossos corpos, eram como máquinas a promover ritmo ou seres vivos a improvisar. Que jamais se falassem, não importava; que jamais sorrissem, melhor ainda. Sua função nesta vida era outra, muito mais difícil: fazer da solidão humana, cujo ápice é o inevitável peso entre as virilhas, um breve instante de alívio"


"Dias depois, fomos à cidade comprar roupas. Esta é uma das maiores realizações para os homens: vestir com o conteúdo de seu bolso o corpo das mulheres que amam. Eu não tinha coragem de lhe dizer que a amava. E provavelmente o motivo era porque talvez não a amasse. Não a ponto de confessar tal sentimento e não me sentir um idiota.

– Na verdade, acho que quero estar com você, na cama e em qualquer outro lugar, tanto que estou aqui. Admirar seu corpo, acariciar sua pele. Depois relaxar, dormir, passar o resto da noite ao seu lado. Ver também você gozar e sofrer com minhas exigências... É isso. Mas será amor? Não sei. Acho que não.

Polly parou e me olhou firme.

– Porra! – disse, afinal, em tom choroso e inesperado.

E saiu correndo pela rua apinhada de homens, que a olhavam com o mesmo desejo que eu.

Aquela foi a melhor declaração de amor que já fiz a uma garota e, como quase tudo que falamos na vida, foi mal interpretada"


Trechos extraídos do livro "Os Encantos do Sol", de Mayrant Gallo.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Pílulas: Parte 04 - Julio Cortázar - O Jogo da Amarelinha

Interferência: Mirdad


“A ponte só desapareceria com a luz da manhã, como o reaparecimento do café com leite, que tudo devolve às construções sólidas e destrói a teia de aranha das altas horas da noite, a golpes de boletins radiofônicos e de banhos frios”


“E enquanto alguém, como sempre, explica alguma coisa, eu não sei por que estou no café, em todos os cafés... Mas não são mais do que isso, são o território neutro para os apátridas da alma, o centro imóvel da roda a partir da qual um homem pode alcançar a si mesmo em plena corrida, ver-se entrar e sair com um maníaco, envolto em mulheres ou promissórias ou teses epistemológicas; e, enquanto mexe o cafezinho na xícara que vai de boca em boca com o decorrer dos dias, pode desapegadamente tentar a revisão e o balanço, igualmente afastado do eu que entrou há uma hora no café e do eu que sairá dentro de mais uma hora. Autojuiz e autotestemunha, autobiógrafo irônico entre dois cigarros”


“Para que serve um escritor senão para destruir a literatura?”


“Talita voltou-lhe as costas e encaminhou-se para a porta. Quando parou, para esperá-lo, desconcertada e, ao mesmo tempo, precisando esperá-lo porque afastar-se dele neste instante era como deixá-lo cair num poço (com baratas, com trapos coloridos), notou que ele sorria e que tampouco o sorriso era para ela. Jamais o vira sorrir assim, tristemente e com tanta franqueza, de frente, sem a ironia habitual, aceitando alguma coisa que lhe estaria vindo do centro da vida, daquele outro poço (com baratas, com trampos coloridos, com um rosto flutuando em água suja?), aproximando-se dela no ato de aceitar essa coisa sem nome que o fazia sorrir. E tampouco seu beijo era para ela, não ocorria ai, grotescamente, ao lado de um congelador cheio de mortos, a tão pouca distância de Manú dormindo. Era como se se alcançassem a partir de outro lugar, com uma outra parte de si mesmos; e não era deles que se tratava, era como se estivessem pagando ou cobrando algo em nome de outros, como se fossem as marionetes de um encontro impossível entre seus donos”


Julio Cortázar e a realidade


“Esta realidade não é nenhuma garantia nem para você nem para ninguém, a não ser que a transforme em conceito, e depois em convenção, em esquema útil. O simples fato de você estar à minha esquerda e eu à sua direita já faz da realidade pelo menos duas realidades; e note que não quero ir ao fundo e lembrar que você e eu somos dois entes absolutamente sem comunicação entre si, a não ser por meio dos sentidos e da palavra, coisas de que devemos desconfiar se formos gente séria”


“Que parâmetro tem você para pensar que fomos bem? Por que tivemos de inventar o Éden, viver sob a nostalgia do paraíso perdido, fabricar utopias, engendrar um futuro? Se uma lombriga pudesse pensar, pensaria que a sua vida não tinha andado assim tão mal. O homem agarra-se à ciência como se fosse aquilo a que chamam uma tábua de salvação, e que eu jamais soube bem o que era. A razão segrega através da linguagem uma arquitetura satisfatória, como a precisa e rítmica composição dos quadros renascentistas, e nos põe no centro. Apesar de toda a sua curiosidade e da sua insatisfação, a ciência, ou seja, a razão, começa por nos tranquilizar. ‘Você está aqui, neste quarto, com seus amigos, diante desse abajur. Não se assuste, tudo está indo bem. Agora, vejamos: qual será a natureza desse fenômeno luminoso?”. Tudo muito instigador, muito vertiginoso, mas sempre do ângulo da cadeira sobre a qual estamos comodamente sentados”


“A única coisa que conta é isso de a entendermos à nossa maneira – retorquiu Oliveira. – Você pensa que existe uma realidade postulável pelo fato de você e eu estarmos falando neste quarto e nesta noite, e também porque você e eu sabemos que dentro de mais ou menos uma hora vai acontecer aqui determinada coisa. Isso tudo dá a você uma grande segurança ontológica, acredito; você se sente muito seguro de si, bem plantado em si mesmo e em tudo o que rodeia. Todavia, se ao mesmo tempo você pudesse assistir a essa realidade do meu ponto de vista, ou do de Babs, se você ganhasse uma ubiquidade, entende, e pudesse estar neste mesmo instante, neste mesmo quarto, na posição em que eu me encontro e com tudo o que sou e o que eu tenho sido, e também com tudo o que é e o que tem sido Babs, talvez acabasse por entender que seu egocentrismo barato não lhe fornece qualquer realidade válida. Só lhe dá uma crença fundada no terror, uma necessidade de afirmar aquilo que o rodeia para não cair dentro do funil e sair pelo outro lado, ninguém sabe onde”


“A impressão que se tem – disse Oliveira – é que se está caminhando sobre velhas pegadas. Estudantes aplicados, estamos usando argumentos já repetidos mil vezes e nada interessantes. E tudo isso, Ronald querido, porque falamos dialeticamente. Dizemos: você, eu, o abajur, a realidade. Dê um passo atrás, por favor. Anime-se. Não custa muito. As palavras desaparecem. Este abajur é um estímulo sensorial, nada mais. Agora, dê outro passo atrás. Aquilo a que você chama de vista e esse estímulo sensorial passam a ser uma relação inexplicável, visto que, para explicá-la, você teria de dar de novo um passo à frente e tudo iria para o diabo”


Trechos extraídos do livro "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar.