sexta-feira, 31 de julho de 2015

O grito do mar na noite - Onde comprar em Ilhéus e Itabuna


O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), o novo livro de contos de Emmanuel Mirdad, está disponível para compra nas seguintes livrarias do sul da Bahia:

- Papirus, em Ilhéus

- Mondrongo, em Itabuna

- Nobel, em Itabuna

Vendas online para todo o Brasil aqui

Saiba mais sobre o livro aqui

Dedicatórias: Coletânea Outro livro na estante



2015 - Outro livro na estante (Mondrongo/2015), vários autores


"Para Mirdad, que também tira onda de herói escrevendo livros. Vita"
-----------



"Mirdad, obrigado por tudo: sonho que se sonha junto é realidade. Leia no volume máximo! Herculano Neto. 03 jul 15"
-----------



"Ao comparsa Mirdad. Os elos dessa torta história. Abraços, Georgio Rios"

"Mirdad, sejamos, todos, moscas na sopa! Ricardo Thadeu. 2015"
-----------



"Para Mirdad, artista múltiplo, de vozes múltiplas. Grande abraço! Tom (Correia)"
-----------



"Mirdad, (...), estes contos sobre a vida, a velhice, a resistência... Kátia Borges. 03/07/2015"
-----------



"Grande parça Mirdad, um pouco de literatura e rock para ajudar a suportar o tédio. Espero que goste. Forte abraço! Márcio Matos. 03.07.15"
-----------



"Mirdad, meu abraço! Espero que se inquiete! Dênisson Padilha Filho. Julho/2015"
-----------

domingo, 26 de julho de 2015

Escrevo os meus livros neste lugar

Pituba, Salvador-BA, julho de 2015


Quando escrevo é assim: sozinho, no menor cômodo do apartamento, PC com o som ligado à frente, e, atrás, a estante. Escrevo por parágrafos, pauso, viro a cadeira e toco nos meus livros, de Nelson Rodrigues, Hélio Pólvora, Pepetela, Mayrant GalloTchekhov, entre outros, e o tato me faz refletir, o que devo cortar ou acrescentar. Volto-me ao monitor.


Pituba, Salvador-BA, julho de 2015


Viro a cabeça à esquerda, vejo o Shopping Itaigara pela janela, mas os olhos seguem pelo horizonte, até avistar, bem longe, o que acredito ser as majestosas palmeiras da Fazenda Grande do Retiro. Daí, o som do Hammock, ou do Sigur Rós, ou Pink Floyd, ou Radiohead, me vibram de volta ao texto.


Pituba, Salvador-BA, julho de 2015


quinta-feira, 23 de julho de 2015

Crítica do livro O grito do mar na noite na revista Trupe


O grito do mar na noite na revista Trupe de 23/07/2015


O meu novo livro de contos, O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015) em destaque no portal da Revista Trupe de hoje, 23/07/2015, em uma crítica massa do jornalista Daniel Mendes.

Salve a imagem acima e amplie para ler.

Ou então, leia no site da revista aqui

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O grito do mar na noite - Onde comprar em Salvador

Locais onde o livro está disponível para compra em Salvador/BA


O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015) é o novo livro de contos de Emmanuel Mirdad, lançado no final de junho passado. Veja abaixo os locais onde a obra está disponível para compra. PS: Clique aqui para vendas para fora de Salvador.



Saraiva
Salvador Shopping




LDM
Cine Glauber Rocha




Leitura
Shopping Bela Vista
Salvador Norte Shoppíng




Midialouca
Rio Vermelho




Livraria Monteiro
Nazaré




Nova Cultura
Pituba


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Escrever é doloroso demais

Foto daqui


Escrever é doloroso demais, putz... Exausto define. Três horas para duas páginas. Agora compreendo o motivo do mestre Mayrant Gallo ressaltar o mérito do escritor tartaruga. Desacelerar é preciso. Envelhecer a trama em barris de carvalho. Lapidar até a última aresta das palavras. Encontrar, sem acaso, o fio de ouro da concisão ante o caos do palheiro das ideias possíveis. Respeitar a tradição e se curvar, consciente da mediocridade evidente e de que nunca poderá ser comparado a um gigante - nem é preciso, pois o que interessa é tentar não falhar, seguindo o rumo que foi traçado pelos cânones (agora é a sua vez de continuar a estrada, de terra, no ermo, sozinho).

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Onze trechos da coletânea Outro livro na estante

Autores da coletânea: Victor Mascarenhas, Herculano Neto, Georgio Rios, Ricardo Thadeu, 
Rodrigo Melo, Ediney Santana, Tom Correia, Kátia Borges, Márcio Matos, 
Davi Boaventura, Dênisson Padilha Filho e Rita Santana. Fotos: Internet.


"(...) Ninguém no grupo que ele e Bia integravam tinha lido o livro, mas alguém falou que conhecia uma pessoa que parece que tinha lido e comentado que era racista, mas o autor era um reacionário, de direita, conservador, coxinha, capitalista e fascista, como, aliás, eram todos os que pensavam diferente deles. O protesto consistia em invadir o local do debate, jogar uma cabeça de porco morto no sociólogo, impedir que ele falasse e expulsá-lo do evento sem direito a dizer nada ou se defender do que os que não o leram o acusavam (...) a maioria venceu e queria mesmo era cassar a palavra do sujeito, numa atitude que não era lá muito democrática e se assemelhava mais ao que fazia a juventude nazista de Hitler, o Comando de Caça aos Comunistas na ditadura militar ou os integralistas de Plínio Salgado no Estado Novo, do que com a ação de um grupo democrático e libertário que lutava pelo bem da sociedade, como eles afirmavam que eram (...) A verdade é que quase ninguém ali sabia nada sobre o tal escritor e sua obra, assim como não sabia quase nada sobre muitas das coisas sobre as quais protestavam veementemente, embora acreditassem veementemente que sabiam (...)"

Victor Mascarenhas no conto Bomba de efeito moral, p. 22 e 23.

▪ ▪ ▪

"Ângela apareceu pela primeira vez logo após o incidente. Ela observou, aparentemente resignada, o próprio corpo ensanguentado na beira do cais antigo e em seguida perguntou para mim: 'por quê?'. Não havia ódio, revolta ou dor em seu curto questionamento, apenas um porquê gélido, tão seco que nem sequer parecia uma interrogação, um porquê de quem não espera resposta, um porquê ferino, pontiagudo, acusador como uma afirmação. Não respondi naquela noite, não respondi dia nenhum. Apenas voltei para casa e me banhei sem pressa, curiosamente não existia nenhum vestígio do ocorrido em meu corpo ou em minhas roupas. Fiquei algum tempo na cama, fumando cigarros sem filtro, com a lâmpada apagada, descartando as cinzas no carpete (...) Na manhã seguinte Ângela estava imóvel, junto à porta (...) mal abri os olhos e o seu 'por quê?' me atingiu de frente, mas ela não iria tirar minha paciência tão cedo, ela que fosse procurar outro desafeto para obsidiar, eu tinha mais a fazer."

Herculano Neto no conto Respostas não vão lhe mostrar, p. 48 e 49.

▪ ▪ ▪

"Maravilha! Hoje, teremos sopa, prato ideal para meu propósito. Tivesse ele pedido escargot, por exemplo, bastaria abanar para que eu alçasse voo e fugisse para a mesa mais próxima. Não antes de insistir dez ou trinta vezes, o que, aliás, faz parte da natureza de minha espécie. Nós sobrevivemos. Mas, um caldo de frango é o artifício perfeito para o meu abuso: um pouso suave no canto da louça, um mergulho raso na superfície do caldo ralo e pronto: está feito o protesto! (...) Que ultraje! Uma mosca na sopa. Deve ser o calor que faz no estabelecimento. Já está na hora de instalarem alguns ventiladores a mais nesta joça, a quentura infernal da Capital anula o sabor de interior da galinha da terra. É impossível degustar alguma coisa com parcimônia nesta espelunca, o ventilador de teto parece mais o relógio da morte (...) Todo este clima de epidemia... E ainda temos que aturar, nas rádios, um maluco bradar uma tal de sociedade alternativa (...)"

Georgio Rios e Ricardo Thadeu no conto O dia da caça, p. 77, 78 e 79.

▪ ▪ ▪

"(...) viu o rosto do pai, destroçado, e nele viu refletido o rosto do namorado, dois covardes que abriam mão de si por medo do mundo. Não teria festa de aniversário na semana seguinte, quando completaria treze anos, tampouco viajaria com a família. Ficaria com a governanta, uma velha frustrada que a olhava de uma forma diferente agora, como se Ginger tivesse perdido a razão (...) E os dias lentamente se arrastam quando não se tem para onde ir, e assim eles se arrastaram naquela casa grande e de paredes brancas, a casa em que nascera, tão distante de tudo, a casa em que continuava a crescer. Através do espelho no quarto o mundo se descortinava e ganhava sentido, os seios maiores do que há pouco tempo atrás, os lábios, suas mãos a desvendar lugares outrora proibidos, agora essenciais: suas mãos como as de Téo ou as de outro homem, alguém que a abraçasse com força e jeito, sem medos, e a fizesse mulher. Suas mãos como um homem qualquer."

Rodrigo Melo no conto Ninguém a olhar lá do céu, p. 71 e 72.

▪ ▪ ▪

"Quando não se deseja não se sente mais medo, a vida passa ser um 'tanto faz'. Aos poucos fui renunciando às batalhas, aos poucos fui concordando com tudo, até que esquecido tanto pelo amor quanto pelo ódio eu entendi a importância de ter nesse momento sobre a mesa uma coleção de sabores que nos livra da trágica aventura de viver."

Ediney Santana no conto Sete canções do inverno, p. 86 e 87.

▪ ▪ ▪

"Durante o recesso junino, perdemos contato. Ainda tentei ligar várias vezes de um orelhão defeituoso perto de casa, que funcionava sem engolir as unidades do cartão. Ela nunca estava. No retorno, na primeira manhã, nos reencontramos na cantina. O rabo de cavalo e a pele bronzeada de Glorinha eram um atentado, marcas da alcinha do biquíni destacando os ombros luzidios. Sorrindo, veio ao meu encontro, saturando as cores do ambiente, única fotofobia que alegremente me cegava (...) Começou a mostrar as fotos da sua viagem a Itacaré com o professor (...) Pediu conselhos sobre suas atitudes com o namorado, a coisa mais insuportável que uma garota pode fazer, mas dissimulei. Ainda me mostrou um cartão apaixonado escrito por ele, cheio de pontos de exclamação. O papel me despertou um secreto sentimento de vingança: somente um cretino inábil com as palavras poderia usar tantas exclamações numa frase tão curta. Ela guardou as fotos e saiu. Fiquei lá, sentado. Depois fui caminhando mecanicamente pra sala de aula. As imagens dos triângulos rabiscados no quadro me trouxeram o teorema de Pitágoras à lembrança. Era completamente irracional enfrentar o poder de um cateto maior na disputa pela hipotenusa mais desejada."

Tom Correia no conto Pirro, p. 36, 37 e 38.

▪ ▪ ▪

"(...) Salvador ao Sol é uma Aldeia Potemkin. Engana britânicos, franceses e prussianos. Sob a chuva, no entanto, todas as suas estruturas parecem se desfazer em papelão. Saltando poças de lama, pulando entre as marquises dos prédios de outro século, eu caçava abrigo da água, movendo com desajeito o corpo magro (...) eu, o nobre, o filho generoso, o herói do velho, hoje frágil, incapaz de limpar os próprios dentes. Pouco restara do homem que conheci forte e macho a me ensinar a ser. A encher de sabão a minha boca para lavar com violência palavrões, nicotina e esperma. A vida nos moldou, os dois, a foice, como sói acontecer a toda gente. Se há um consolo, este é ser como todos (...) Maldita seja a diferença, dizia meu pai em seus ensinamentos sem o dizer (...)"

Kátia Borges no conto O céu da boca, p. 42 e 43.

▪ ▪ ▪

"Cláudio Capita chega em casa usando um boné de aba reta que ganhou no bingo do futebol. É muito tarde, mas Núbia ainda está acordada. Ela ri com discrição, acha o marido ridículo, mas Cláudio está exultante com o brinde.
– De pé a essa hora, amor?
– Esperando você.
– Vou tomar um banho pra te dar um cheiro, tá?
Núbia nem responde. Enquanto Cláudio Capita é arrebatado pelo chuveiro, ela pega o boné e passa a examiná-lo. Acha o objeto horroroso e pensa em dizer ao marido que ele não deveria usar aquilo. Cláudio sai do banheiro cantarolando um dos cânticos da torcida corintiana.
– Gostou, hein amor?
– Bacanérrimo."

Márcio Matos no conto Gols e pizzas napolitanas, p. 18 e 19.

▪ ▪ ▪

"(...) seu cansaço é tal que o cérebro parece um cérebro servido à vinagrete – ele de fato desenhou, para a edição de domingo, miolos em uma bandeja de banquete, quase que descrevendo um sonho no qual os convidados devoram sua cabeça, esse sonho se passava em uma sala de jantar babilônica, no centro uma mesa redonda (...) ao redor estão os pais e a irmã e o ex-namorado, o amigo também está, as paredes são chamuscadas, apesar de serem claras, são cheias de candelabros (...) as garçonetes todas vestidas de fraque servindo vinho tinto, comem-se os nacos de seu cérebro em tigelas de porcelana chinesa e ele mesmo se mastiga até sentir enjoado e se perceber decapitado (...)"

Davi Boaventura no conto Nem sei mesmo qual foi aquele mês, p. 59.

▪ ▪ ▪

"– Não sei o que você quer com essa decisão, mas volte.
– Voltar? Voltar pra onde e para o quê?
– Veja, não sei pra onde quer ir nem onde vai chegar, mas...
– Eu sei sua opinião, e estou sendo educado em ouvir.
– Essa sua saída assim...
– Que é que tem?
– Parece que você tá entrando numa caverna.
– É, talvez.
– Por que você não volta? Você só rodou 500 Km.
– Você acha que a dificuldade de voltar se mede em quilômetros?
– E você não acha que entrar numa caverna é também um retorno?
– É, talvez."

Dênisson Padilha Filho no conto Continue na linha, p. 92.

▪ ▪ ▪

"(...) Sinto que embruteço e essa é a forma de lidar com o mundo. Tenho que ser aquela que resolve tudo, que faz e conversa, negocia, escolhe e decide. Aquela que atravessa a cidade e se multiplica para resolver todos os problemas da ida e da permanência. Que entra em cada vagão dessa vida, buscando um espaço, um refúgio e saídas. Estou virando uma mulher de pedra, rígida, um homem. E hoje sei um pouco o peso que sobrecarrega os ombros de um homem, entendo melhor a sina (...)"

Rita Santana no conto Ondas, trânsitos e trilhos, p. 104.





Trechos retirados da coletânea de contos Outro livro na estante (Mondrongo/2015), com vários autores, organizado por Herculano Neto e Gustavo Felicíssimo, livremente inspirada em canções de Raul Seixas.



terça-feira, 7 de julho de 2015

Oito passagens de Dino Buzzati na obra-prima O deserto dos tártaros

Dino Buzzati (foto daqui)


"Seu quarto permanecera idêntico, assim como o deixara, nem um livro fora deslocado. Porém, pareceu-lhe alheio. Sentou-se na poltrona, escutou os rumores dos carros na rua, o intermitente vozerio que vinha da cozinha. Deixou-se ficar só no quarto, a mãe rezava na igreja, os irmãos estavam longe, todo mundo vivia então sem ter necessidade nenhuma de Giovanni Drogo. Abriu uma janela, viu as casas cinzentas, telhado atrás de telhado, o céu caliginoso. Procurou numa gaveta os velhos cadernos de escola, um diário que mantivera por anos, algumas cartas; espantou-se por ter escrito aquelas coisas, nem se lembrava delas, tudo se referia a fatos estranhos e esquecidos. Sentou-se ao piano, ensaiou um acorde, tornou a baixar a tampa do teclado. 'E agora?', perguntava-se."


"Aos poucos a fé se enfraquecia. É difícil acreditar numa coisa quando se está sozinho e não se pode falar com ninguém. Justamente naquela época Drogo deu-se conta de que os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes; que, se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte dela; que, se alguém sofre, os outros não vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso o que causa a solidão da vida."


"Estrangeiro, perambulou pela cidade, à procura dos velhos amigos, soube que estavam ocupadíssimos com seus negócios, em grandes empresas, na carreira política. Falaram-lhe de coisas sérias e importantes, fábricas, estradas de ferro, hospitais. Um deles convidou-o para almoçar, outro tinha se casado, todos haviam tomado caminhos diferentes e, em quatro anos, já se haviam distanciado. Por mais que tentasse (mas também ele talvez não fosse mais capaz), não conseguia fazer renascer as conversas de antigamente, as brincadeiras, os modos de falar. Perambulava pela cidade à procura dos velhos amigos - e tinham sido muitos -, mas acabava por achar-se sozinho numa calçada, com muitas horas vazias antes de a noite chegar."


"Foi aí então que dos fundos recessos saiu, límpido e tremulante, um novo pensamento: a morte (...) Pareceu-lhe que a fuga do tempo havia parado, como se o encanto tivesse rompido. O vórtice tornara-se cada vez mais intenso nos últimos tempos, em seguida, repentinamente, mais nada, o mundo pairava estagnado numa apatia horizontal e os relógios andavam inutilmente. A estrada de Drogo estava terminada; lá está ele agora sobre a solitária orla de um mar cinzento e uniforme, e ao redor nem uma casa, nem uma árvore, nem um homem, tudo assim, desde tempo imemoriais."


Dino Buzzati (foto daqui)


"Finalmente Drogo entendeu, e um lento arrepio percorreu-lhe a espinha. Era a água, era uma longínqua cascata rumorejante, a pique nos despenhadeiros próximos. O vento que fazia oscilar o longo jorro, o misterioso jogo dos ecos, o diferente som das pedras em percussão, formavam uma voz humana, que falava, falava: palavras de nossa vida, que se estava sempre prestes a entender, mas que na verdade nunca se entendia (...) Não era então o soldado que cantarolava, não era um homem sensível ao frio, às punições e ao amor, mas a montanha hostil. 'Que triste engano', pensou Drogo, 'talvez tudo seja assim; acreditamos que ao redor haja criaturas semelhantes a nós e, ao contrário, só há gelo, pedras que falam uma língua estrangeira; preparamo-nos para cumprimentar o amigo, mas o braço cai inerte, o sorriso se apaga, porque percebemos que estamos completamente sós.'"


"(...) A enigmática mancha parecia imóvel, como se estivesse dormindo, e pouco a pouco Giovanni recomeçava a pensar que na verdade não havia nada ali, apenas um rochedo escuro, semelhante a uma freira, e que seus olhos tinham se enganado, um pouco de cansaço, nada mais, uma tola alucinação. Agora sentia até uma sombra de opaca amargura, como quando as graves horas do destino passam ao nosso lado sem nos tocar e seu ruído se perde ao longe, enquanto continuamos solitários, entre redemoinhos de folhas secas, a sentir saudade da terrível mas grande ocasião perdida."


"Hábitos, as desenfreadas corridas a cavalo, de ponta a ponta através da esplanada atrás do forte, em competição de bravura com os companheiros, nas tardes de folga, e as pacientes partidas de xadrez, à noite, que terminavam em voz alta, frequentemente ganhas por Drogo (o capitão Ortiz lhe dissera: 'É sempre assim, os recém-chegados no começo ganham sempre. Com todos acontece o mesmo, iludimo-nos de sermos realmente valentes, só que, ao contrário, é apenas questão da novidade, os outros também acabam por aprender o nosso sistema, e um belo dia não se consegue mais nada.')."


"Angustina estava pálido, agora não alisava mais o bigodinho, mas fitava diante de si a penumbra. Já pairava na sala o sentimento da noite, quando os medos saem das decrépitas paredes e a infelicidade se torna suave, quando a alma bate, orgulhosa, as asas sobre a humanidade adormecida."






Presente no livro O deserto dos tártaros (Nova Fronteira/2011), páginas 133, 171, 133-134, 200, 71-72, 82, 67 e 58, respectivamente, na tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Livro O grito do mar na noite (2015), de Emmanuel Mirdad



O grito do mar na noite
(Via Litterarum, 2015)
ISBN: 978-85-81510-97-2
10 contos | 172 pg
Posfácio de Mayrant Gallo
Orelha de Márcio Matos
Foto da capa: Theu Cerqueira


O grito do mar na noite apresenta “um agudo painel das relações humanas, sobretudo afetivas, nas quais homens e mulheres expõem suas fraquezas ante a banalidade da vida e do tempo”, segundo o escritor Márcio Matos, que assina a orelha. Para o escritor Mayrant Gallo, que assina o posfácio, Emmanuel Mirdad realiza, em seus 10 contos, “um feito altamente elogiável: trabalhar com tipos, sem meramente repeti-los, revitalizando-os, inclusive. Acompanhamos, com igual interesse, tanto o infortúnio do homem de terceira idade, do menino doente, do sujeito infeliz em seus relacionamentos amorosos, da mulher assexuada, quanto o dos mulherengos contemporâneos”.

O conto que abre o livro é Chá de boldo, sobre o abandono do idoso pela própria família. Sol de abril apresenta a bela e triste história de Lourdes, a sanfoneira caolha, uma homenagem à canção Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Assexuada traz o dilema de Monique, a mulher que nunca gozou e não se importa, mas quer vivenciar o amor – sem sexo, é possível? Em O banquete, “racismo, imigração ilegal, preconceito social e racial, além de heroísmo efêmero, tão a gosto do jornalismo televisivo, funcionam como uma espécie de painel difuso do nosso mundo cotidiano, tão caótico”, revela Mayrant Gallo, que se divertiu com as desventuras amorosas do “autodestrutível Casanova às avessas” Pedro Henrique, no conto Receba, em que o protagonista, “muito embora consciente de seus quase êxitos, e especialmente de seus fracassos, mantém a linha, segue em frente e volta a se aventurar, como o boxeador tonto de Chaplin”.

O título da obra é um anagrama para os livros O grito da perdiz (1983), Mar de Azov (1986) e Noites Vivas (1972), de Hélio Pólvora, uma das principais referências literárias de Mirdad, que é fã do estilo primoroso do escritor baiano, morto aos 86 anos em março passado, e selecionou dez trechos da obra do mestre para abrir os contos de O grito do mar na noite, dedicando-o a obra. Na capa, a bela fotografia de uma embarcação à noite de Theu Cerqueira.


Compre aqui

Trechos selecionados dos contos aqui

Vídeos com o autor lendo trechos dos contos aqui

Trinta e nove passagens dos contos aqui

Crítica no jornal Rascunho aqui

Matéria no jornal Correio aqui

Matéria no jornal A Tarde aqui

Entrevista na rádio CBN Salvador aqui

Matéria no site G1 Bahia aqui

Release aqui

Fotos do lançamento em Salvador/BA aqui

Crítica de Silvério Duque aqui

Crítica da revista Trupe aqui

Comentário de Carlos Barbosa aqui


Contos


Chá de boldo
Um bisavô é abandonado pela filha e tem de viver em um asilo contra sua vontade, até que ele tem a chance de retribuir a covardia.


Sol de abril
A história da cabocla Lourdes, a sanfoneira caolha, uma homenagem para a canção Assum preto, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga.


O banquete
O opressor que é oprimido e o oprimido que pratica a opressão, que devoram e são devorados num ritmo cinematográfico de um farto banquete.


Receba
A saga de Pedro Henrique, um autodestrutível Casanova às avessas, que recebe uma série tragicômica de foras de mulheres.


Aqui se paga
Um menino sofre de câncer e é maltratado pela babá. Porém, se aqui, em vida, você faz, às vezes, com a vida, você paga.


No palheiro
A descartabilidade das relações afetivas e seus inúmeros desencontros.


Não escaparás
Criança, jovem, velho. Todos estão se movendo ao irremediável encontro com o gume do fim.


Assexuada
Monique, a mulher que nunca gozou e não se importa.


Bonecas
A transformação de um putão bombado, que se encanta e deseja um travesti.


Quase onze dias
O livro de alguns dias escorrendo a vida formada por efemérides inúteis e a rotina ordinária.