segunda-feira, 27 de junho de 2016

Cinco poemas e três passagens de Rodrigo Melo no livro Enquanto o mundo dorme

Rodrigo Melo (foto daqui)


Elevação
Rodrigo Melo

quando um caça é abatido
lá no oriente médio
vira estrela cadente
e leva paz para alguém


--------


Visita
Rodrigo Melo

solidão,
sua rameira impiedosa,
nunca apareça
sem avisar.


--------


A verdade
Rodrigo Melo

um homem de fibra
tem arrependimentos
e acorda suado
no meio da noite
e olha para a janela
em busca de alguém
porque a verdade
ele descobriu
quase nunca faz bem
porque a verdade
descobriu também
tem que ser repartida
um homem de colhões
luta para esquecer
as agruras do caminho
o egoísmo e a maldade
dos vencedores
porque a verdade
ele descobriu
é uma sentença
a verdade
também descobriu
depois de descoberta
te acompanha para
todo lugar.


--------


Imagem dois
Rodrigo Melo

a vida é um homem traído
voltando para casa mais cedo
com uma arma na mão.


--------


Prescrição para alcançar a paz original
Rodrigo Melo

não siga todo conselho que receber,
uns poucos,
como não manter a cabeça baixa ao caminhar por aí
feito um desses homens que receiam o que vão encontrar,
também não discuta,
não bajule,
não agrade demais,
tampouco pule de ponte alguma,
mesmo que as mulheres peçam,
mesmo que os chefes ordenem,
mesmo que a cidade inteira se reúna para tentar te convencer.
não guarde todo conselho que receber,
uns poucos,
como não criar expectativas a respeito da alma e da sua evolução,
nem tente entender a mesquinharia,
feito um desses homens que ainda acreditam no amor,
e esqueça as surras,
os tombos
e todas as patifarias que te fizeram
ou tentaram fazer.
um dia,
quando menos esperar,
nada disso fará
diferença.


--------


"outro dia um moleque perguntou à mãe
se havia casa lotérica lá no céu,
e a mãe respondeu que se ele não ficasse quieto
não ia haver céu algum."


"o mundo,
essa fera orgulhosa,
é feito um padrasto bêbado que abre
a porta sem avisar,
com suas mãos duras,
com seus dedos frios,
com seu hálito de umbral,
a dizer que é a vida e que
não faz mal."


"a morte é esse cupido maldoso,
que só atira flechas
quando a festa já está para acabar."





Presentes no livro de poemas Enquanto o mundo dorme (Penalux, 2016), páginas 28, 86, 46-47, 31 e 32-33, respectivamente, além dos trechos dos poemas Talvez não (p. 60), Maldito de nós, tão sós (p. 83) e Cupido (p. 55), presentes na mesma obra.



domingo, 26 de junho de 2016

Sete passagens de Rodrigo Melo no livro de crônicas Jogando dardos sem mirar o alvo

Rodrigo Melo (foto daqui)


"(...) um paciente de uma clínica psiquiátrica caíra ontem, acidentalmente, do sétimo andar. E eu então fiquei a pensar nele. Não no homem destroçado que encontrara da última vez, mas no Roberto de antes, uma espécie de Torquato Neto sem talento, mas endinheirado, a caminhar sobre uma mesa com uma garrafa de uísque na mão: um guia de cegos, perdido, sobre uma corda mais que bamba. Acho que eu gostava dele. Uma hora dessas, pensei, ainda sem compreender porra nenhuma, talvez ele esteja vagando pelo espaço, a decidir pra onde ir, porque talvez sejam muitas as direções. Talvez exista uma porção de caminhos, alguns dando no mesmo lugar. Ou talvez não exista merda nenhuma e, como disse um inglês, a luz no fim do túnel é apenas o trem que vem te atropelar. Mas então um moleque aparece e o segura pela mão. Um moleque gentil e paciente que o norteia e o livra de mais uma estrada cheia de buracos e despenhadeiros, uma estrada que no fim das contas não o levaria a canto algum. E o meu amigo aparenta estar sereno e feliz como se finalmente tivesse entendido a coisa toda, como se não precisasse mais se preocupar, sentir raiva, medo ou qualquer outro troço assim. (...)"


"Tem esse cara que já foi um tipo de ídolo na adolescência, mas que hoje vive pedindo grana lá no centro. Basta me ver e logo vem correndo, a sonhar com cinquinho ou até mais, e eu às vezes dou, sem pensar muito no destino daquilo, embora nunca tenha sido um sujeito abonado. Talvez por isso o dinheiro vá embora mais facilmente. (...) De todo modo, hoje, ao passar pela Praça Cairú, ele me viu, gritou e em seguida, numa velocidade incrível, disparou em minha direção. Estacou na minha frente, apertou a minha mão e, quando ia falar algo, eu mandei: – Velhão, me empreste dez reais. (...) Ele ficou parado, sem entender. Alguns segundos se passaram, até que apertou a minha mão mais forte e respondeu, sem jeito: – Agora eu não tenho, mas pode me procurar depois."


"Foi nessa hora que senti pena. Não apenas dele, mas também de mim. Passáramos tempo demais acreditando em letras de músicas, na mágica da vida, na grandeza de existir. Colecionamos histórias que com o passar dos anos perderam a força e o sentido. O mundo mudou, ou pior, continua a mesma merda que sempre foi, nós é que despertamos. Nunca houve mágica, Roberto. A vida é apenas realidade. E os vencedores não somos nós, que miramos o vácuo. Os vencedores seguiram os conselhos dos tios e dos pais. Eles são sócios do iate clube, membros do Rotary e tem conta ativa no Instagram. Os vencedores, meu velho, são os caras que a gente nunca quis ser."


"– Nem um livro de Paulo Coelho custa isso – ele reclamou.
– Quem? – eu perguntei.
– Paulo Coelho – ele repetiu.
– Bem, se você me pagar uma cerveja, o livro é seu. Duvido que o Paulo Coelho faça uma proposta melhor. (...)
Ele sorriu.
Pedi a cerveja à balconista, uma especial, e disse que anotasse também a outra, a que eu bebera antes, na conta daquele sujeito que levantava o braço, todo feliz, lá na mesa do canto (...) Ele, ao pagar a conta, teria a triste surpresa, o baque de cinquenta e poucos reais, e provavelmente faria a maior confusão, quem sabe até rasgasse o meu livro ou qualquer troço assim.
Antes que isso acontecesse, todavia, escrevi-lhe uma dedicatória, apertei a sua mão e, bebericando a cerveja da cor de sangue, parti: intacto, meio bêbado e com os dez reais no bolso. Mais caro que Paulo Coelho. (...)"


"Há uma porção de chineses por aí e parece que quase todos têm uma pastelaria. E há cada vez menos cachorros pelas ruas. (...) Por detrás do balcão, com seus olhos de horizonte, suas peles oleosas, seus cabelos negros, cheios e por vezes arrepiados, suas roupas um bocado sujas e ensebadas, eles conversam em seu dialeto e olham para mim, a sorrir. Penso em quantas vezes nos mandam tomar no cu com aquele mesmo sorriso. (...)"


"Encenar popularidade nunca fez muito a minha, é bom dizer. Depois da leitura, conversei, misturei-me, abracei, beijei rostos e apertei algumas mãos, mas há tempos descobrira que eu era um homem de duas horas, no máximo duas horas e meia. Depois disso, olhava para os lados, a procurar a melhor saída. (...)"


"Ele me disse: – Deus não existe! (...) E me falou sobre os símbolos, as imagens e todo o ópio que o povo escolheu. (...) Na sala da sua casa, no entanto, a fotografia de um ex-presidente e o escudo do time do coração."






Presentes no livro de crônicas Jogando dardos sem mirar o alvo (Mondrongo, 2016), páginas 24-25, 15,
23-24, 64, 31, 62 e 75, respectivamente.





Seleta das crônicas

01) Jogando dardos sem mirar o alvo
02) Os meus heróis não tiveram grana para morrer de overdose
03) Leitura pública
04) Um encontro fortuito
05) Short cuts 4
06) Não existe amor por aqui
07) A dose a vinte e cinco reais
08) Short cuts
09) Tiny shit!
10) A gente nunca se acostumou a essa loucura que é a vida

sábado, 25 de junho de 2016

Cinco passagens de Marcus Borgón no livro O pênalti perdido

Marcus Borgón (Foto: Fernando Lopes)


"Nome: Beleléu
Posição: Lateral-direito
Altura / Peso: 1,59m / 55kg
Ponto forte: Muito feio, assusta os adversários
Ponto fraco: Sensível, se abala quando é chamado de feio"


"– Qual é o nome dele mesmo, Luizinho?
Luizinho deu uma risada sarcástica. Eu fiquei sem entender.
– Geflalisco.
(...)
Vai saber o que passa na cabeça de um pai na hora de registrar o filho com um nome desses. (...) Luizinho me explicou que o nome dele foi construído para homenagear os avós: Geraldino e Flaviana, por parte de pai; Lindalvo e Francisca, pelo lado materno. É o tipo de nome que deveria vir com uma nota explicativa. O indivíduo que carrega uma homenagem dessas deve ter vontade de amaldiçoar toda a sua árvore genealógica. Luizinho me disse que a vergonha era tanta que ele se recusava a falar o próprio nome. Na casa dele, deram um jeito de abreviar e amenizar o estrago, chamando-o de Lisco. Só que o irmão caçula, quando começou a falar, não conseguindo pronunciar corretamente o apelido, chamava-o de 'Lixo'. Em vez de corrigirem o pirralho, todos passaram a imitá-lo. 'Lixo' foi oficializado. E o pior é que ele preferia ser chamado assim. Julgava menos constrangedor do que aquele ajuntamento de avós em forma de nome / palavrão."


"A minha mudança para o Conjunto Deodoro da Fonseca significou não só uma alteração de endereço e status social, mas, principalmente, uma mudança de comportamento. Tive que aprender a lidar com o contato mais direto, frequente e invasivo dos meus novos vizinhos. No conjunto, como existem apartamentos térreos, as pessoas chegam sem a menor cerimônia na janela alheia. Olham para dentro da casa e se convidam para entrar. Eu não era acostumado a receber amigos em casa. Nem ter meu nome gritado lá de baixo. Quando menos percebi, eu não só tinha absorvido, como reproduzia naturalmente aquele tipo de comportamento. Zeladores, porteiros e interfone são elementos dispensáveis. Só servem como obstáculo nas relações pessoais, concluí. (...)"


"No primeiro treino, um menino que eu não conhecia apareceu e se dispôs a ficar como goleiro do time reserva, já que só contávamos com Lixo para a posição. Luizinho brincou, dizendo que eu e esse goleiro reserva tínhamos sido separados no berçário. Então me dei conta que era o tal Calango, de quem tanto falavam. (...) Eu olhei bem para ele, buscando encontrar a propalada semelhança entre nós. Ele tinha uma cabeça desproporcional ao resto do corpo. Olhos esbugalhados, que pareciam prestes a saltar do rosto. O pescoço emergia do meio do peito. O nariz era semelhante ao de um papagaio. E as pernas, absurdamente arqueadas. Naquele instante compreendi que toda comparação é injusta. Uma das partes sempre sairá insultada."


"Apesar de tudo, eu acusava sua ausência. Com ele por perto, me sentia mais protegido. Estranho pensar assim, uma vez que era justamente ele quem mais me amedrontava. Sua impaciência frequentemente se transformava em gritos e agressões. (...)"





Presentes na novela O pênalti perdido (P55, 2016),
páginas 32, 25-26, 18, 35 e 27, respectivamente.


Endereços do Pink Floyd

Nos bastidores do Pink Floyd
(Generale, 2012)
Mark Blake


Ao ler a biografia Nos bastidores do Pink Floyd (Generale, 2012), de Mark Blake, aproveitei para saciar a minha curiosidade ao navegar no fantástico Google Maps e Google Street View e encontrar os endereços dos locais mencionados pelo jornalista. Abaixo, alguns dos endereços da banda que sou mais fã, Pink Floyd.

Uma amostra do livro está disponível no Google Books aqui


Foto: Google

Grantchester Meadows, nº 109, distrito de Newnham, Cambridge, Inglaterra

Nessa casa em destaque, cresceu David Gilmour

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google

Rock Road, Cambridge, Inglaterra

Nessa rua, cresceu Roger Waters

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google

Downshire Hill, Hampstead, Londres, Inglaterra

Nessa rua, cresceu Nick Mason

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google

Hatch End, Londres, Inglaterra

Na área de Hatch End, cresceu Richard Wright

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


 Foto: Google

Glisson Road, nº 60, Cherry Hinton, Cambridge, Inglaterra

Na primeira casa à esquerda, nasceu Syd Barrett

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google


Hills Road, nº 183, Cambridge, Inglaterra

Nessa casa em destaque, cresceu Syd Barrett

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google

St. Margaret's Square, nº 6, Cambridge, Inglaterra

Nessa casa de porta verde, viveu Syd Barrett, até morrer em 2006

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google

Hills Road, CB2 8PE, Cambridge, Inglaterra

Nesse prédio da Hills Road Sixth Form College, funcionou, de 1900 a 1974, a Cambridge and County School for Boys, a escola onde Roger Waters estudou, e que o inspirou a criar parte importante da magnífica obra The Wall.

Além de Waters, também estudaram nessa escola Syd Barrett, além do artista Storm Thorgerson, amigo e contemporâneo de ambos, e co-foundador do Hipgnosis, responsável pelas capas dos discos do Pink Floyd, além de Led Zeppelin, Yes e outros.

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google

4-12 Little Titchfield Street, Londres, Inglaterra

Nesse prédio em destaque, funcionava a faculdade de Arquitetura da Regent Street Polytechnic, onde o embrião do Pink Floyd foi formado: em setembro de 1963, os estudantes de arquitetura Roger Waters (começou tocando guitarra), Nick Mason e Richard Wright (este entrou por último no grupo, e depois trocaria a faculdade de arquitetura por música) aceitaram o convite dos estudantes Keith Noble e Clive Metcalfe (os dois colocaram uma nota no quadro da faculdade: "Alguém quer começar uma banda?") e formaram a banda The Sigma 6 (completando, a irmã de Keith, Sheilagh, que fazia os vocais com o irmão - depois ela saiu e a namorada de Wright assumiu: Juliette Gale). No verão londrino de 1964, os dois que fizeram o convite original saíram, e os guitarristas Bob Klose e Syd Barrett entraram na banda.

Atualmente, no prédio funciona a escola de Direito da University of Westminster (no que a Regent Street Polytechnic se tornou, a partir de 1992).

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google

Edbrooke Road, nº 4, em Londres, Inglaterra

50 anos atrás, em um dos apartamentos desse pequeno prédio, com a entrada pela porta preta da imagem, funcionou a primeira sede da empresa Blackhill Enterprises, formada pelos membros do Pink Floyd (Syd Barrett, Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason) e os seus primeiros empresários, Andrew King e Peter Jenner (o dono do apartamento).

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Foto: Google

Palace Gate, Kensington, Londres, Inglaterra

Nessa rua, num tal Countdown Club, Roger Waters, Nick Mason, Richard Wright e Syd Barrett se apresentaram, pela primeira vez, com o nome Pink Floyd a batizar a banda, em fevereiro de 1965.

Google Maps aqui

Trecho do livro aqui


Fotos: Internet

Pinkney "Pink" Anderson (1900-1974), bluesman da Carolina do Sul, e Floyd Council (1911-1976), bluesman da Carolina do Norte, inspiraram Syd Barrett a dar o nome definitivo da banda: Pink Floyd, que, entre 1965 e 1966, teve as variações The Pink Floyd Blues Band, The Pink Floyd Sound e The Pink Floyd.

Nomes anteriores da banda: The Sigma 6, The Megadeaths, The Screaming Abdabs, The Abdabs e The Spectrum Five, The Tea Set e T-Set.

Uma amostra de Pink Anderson aqui

Uma amostra de Floyd Council aqui

Trecho do livro aqui

Mais informações sobre a escolha do nome aqui


Fotos: Internet | Montagem: Mirdad

Tá explicado!

Primeira rodada de leituras em 2016

Primeira rodada de leituras em 2016 (faltam dois livros na foto)


1) Melhores contos, de Aníbal Machado

2) Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

3) Melhores contos, de Domingos Pellegrini

4) Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo (comprei depois de postar essa foto)

5) O leopardo é um animal delicado, de Marina Colasanti

6) As pompas do mundo, de Otto Lara Resende

7) Diana caçadora & Tango fantasma, de Márcia Denser

8) Tempo de espalhar pedras, de Estevão Azevedo (esqueci de colocar na foto)

9) Os dragões não conhecem o paraíso, de Caio Fernando Abreu

10) Nos bastidores do Pink Floyd, de Mark Blake

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Mirdad citado por Herculano Neto na orelha do livro de Rodrigo Melo

Amplie a imagem para ler


O escritor Herculano Neto gentilmente me citou na orelha do novo livro de Rodrigo Melo, Enquanto o mundo dorme (Penalux, 2016), de poesia. Melhor ainda: ao lado do meu amigo e mestre escritor Mayrant Gallo. Olha o trecho:

"(...) Sem compromisso com formas ou lirismo, são imagens contundentes, recortes do cotidiano, expostos em carne viva. Mirdad e Mayrant, certamente, manteriam os olhos abertos no escuro para apreciar cada mofo das noites que não acabarem bem. (...)"

Valeu, demais!

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Vinte passagens de Machado de Assis no romance Memórias póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis (foto daqui)


"Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele e não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados."


"(...) A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim — flagelos e delícias —, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura — nada menos que a quimera da felicidade —, ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão."


"(...) No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que meteu medo a toda a gente, menos ao doido; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, numa berlinda; a morte de uma filha fora a causa da loucura. Não, nunca me há de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pálido, cabelo arrepiado e longo. Às vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar dele; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu. Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma diversão excelente à tempestade do meu coração. Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo."


"Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível, aprende o impalpável, desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito, e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos."


"(...) o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de Dona Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. É de crer que Dona Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Para que me chamastes? — E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia."


"(...) Meu pai abraçou-me com lágrimas. — Tua mãe não pode viver — disse-me. Com efeito, não era já o reumatismo que a matava, era um cancro no estômago. A infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício. (...) — Meu filho! (...) A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara, como um dia brilhante; restavam os ossos, que não emagrecem nunca. Mal poderia conhecê-la; havia oito ou nove anos que nos não víamos. Ajoelhado, ao pé da cama, com as mãos dela entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar falar, porque cada palavra seria um soluço, e nós temíamos avisá-la do fim. Vão temor! Ela sabia que estava prestes a acabar; disse-mo; verificamo-lo na seguinte manhã. (...) Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa, fria, repisada, que me encheu de dor e estupefação. Era a primeira vez que eu via morrer alguém."


"(...) Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: 'Este é provavelmente o inventor das borboletas'. A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia. (...) Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas!"


"(...) Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
— Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre."


"E, alçando a mão direita e os ombros, com um ar de indiferença, parecia resignado aos golpes da fortuna, e não sei até se contente. Talvez contente. Com certeza, impassível. Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica. Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensação de lama. (...) — Procure-me — disse eu —, poderei arranjar-lhe alguma coisa. (...) Um sorriso magnífico lhe abriu os lábios. — Não é o primeiro que me promete alguma coisa — replicou —, e não sei se será o último que não me fará nada. E para quê? Eu nada peço, a não ser dinheiro; dinheiro sim, porque é necessário comer e as casas de pasto não fiam. (...) Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis — a menos limpa — e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado. (...) E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre, que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-réis. (...) — Pois está em suas mãos ver outras muitas — disse eu. (...) — Sim? — acudiu ele, dando um bote para mim. (...) — Trabalhando — concluí eu. (...) Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar.(...)"


"(...) Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas — transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. (...)"


"(...) a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião."


"(...) Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando, é como a arraia-miúda, que se acolhia à sombra do castelo feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castelã... (...)"


"(...) Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."


"Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro."


"(...) gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou."


"(...) Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."


"(...) Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. (...)"


"Vê agora a neutralidade deste globo, que nos leva, através dos espaços, como uma lancha de náufragos, que vai dar à costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados. Amanhã pode lá dormir um eclesiástico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de Terra, que lhes deu algumas ilusões."


"(...) isto de método, sendo, como é, uma coisa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteirão. (...)"


"(...) O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora (...)"





Presentes no romance Memórias póstumas de Brás Cubas (L&PM Pocket, 2014), páginas 103-104, 69-70, 95, 132, 163-164, 101-102, 113, 138, 144-145, 157, 53, 61-62, 109, 209, 236, 243, 140, 158, 73 e 115, respectivamente.