segunda-feira, 27 de junho de 2016

Cinco poemas e três passagens de Rodrigo Melo no livro Enquanto o mundo dorme

Rodrigo Melo (foto daqui)


Elevação
Rodrigo Melo

quando um caça é abatido
lá no oriente médio
vira estrela cadente
e leva paz para alguém


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Visita
Rodrigo Melo

solidão,
sua rameira impiedosa,
nunca apareça
sem avisar.


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A verdade
Rodrigo Melo

um homem de fibra
tem arrependimentos
e acorda suado
no meio da noite
e olha para a janela
em busca de alguém
porque a verdade
ele descobriu
quase nunca faz bem
porque a verdade
descobriu também
tem que ser repartida
um homem de colhões
luta para esquecer
as agruras do caminho
o egoísmo e a maldade
dos vencedores
porque a verdade
ele descobriu
é uma sentença
a verdade
também descobriu
depois de descoberta
te acompanha para
todo lugar.


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Imagem dois
Rodrigo Melo

a vida é um homem traído
voltando para casa mais cedo
com uma arma na mão.


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Prescrição para alcançar a paz original
Rodrigo Melo

não siga todo conselho que receber,
uns poucos,
como não manter a cabeça baixa ao caminhar por aí
feito um desses homens que receiam o que vão encontrar,
também não discuta,
não bajule,
não agrade demais,
tampouco pule de ponte alguma,
mesmo que as mulheres peçam,
mesmo que os chefes ordenem,
mesmo que a cidade inteira se reúna para tentar te convencer.
não guarde todo conselho que receber,
uns poucos,
como não criar expectativas a respeito da alma e da sua evolução,
nem tente entender a mesquinharia,
feito um desses homens que ainda acreditam no amor,
e esqueça as surras,
os tombos
e todas as patifarias que te fizeram
ou tentaram fazer.
um dia,
quando menos esperar,
nada disso fará
diferença.


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"outro dia um moleque perguntou à mãe
se havia casa lotérica lá no céu,
e a mãe respondeu que se ele não ficasse quieto
não ia haver céu algum."


"o mundo,
essa fera orgulhosa,
é feito um padrasto bêbado que abre
a porta sem avisar,
com suas mãos duras,
com seus dedos frios,
com seu hálito de umbral,
a dizer que é a vida e que
não faz mal."


"a morte é esse cupido maldoso,
que só atira flechas
quando a festa já está para acabar."





Presentes no livro de poemas Enquanto o mundo dorme (Penalux, 2016), páginas 28, 86, 46-47, 31 e 32-33, respectivamente, além dos trechos dos poemas Talvez não (p. 60), Maldito de nós, tão sós (p. 83) e Cupido (p. 55), presentes na mesma obra.



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