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Cinco poemas e três passagens de Rodrigo Melo no livro Enquanto o mundo dorme

Rodrigo Melo (foto daqui)


Elevação
Rodrigo Melo

quando um caça é abatido
lá no oriente médio
vira estrela cadente
e leva paz para alguém


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Visita
Rodrigo Melo

solidão,
sua rameira impiedosa,
nunca apareça
sem avisar.


--------


A verdade
Rodrigo Melo

um homem de fibra
tem arrependimentos
e acorda suado
no meio da noite
e olha para a janela
em busca de alguém
porque a verdade
ele descobriu
quase nunca faz bem
porque a verdade
descobriu também
tem que ser repartida
um homem de colhões
luta para esquecer
as agruras do caminho
o egoísmo e a maldade
dos vencedores
porque a verdade
ele descobriu
é uma sentença
a verdade
também descobriu
depois de descoberta
te acompanha para
todo lugar.


--------


Imagem dois
Rodrigo Melo

a vida é um homem traído
voltando para casa mais cedo
com uma arma na mão.


--------


Prescrição para alcançar a paz original
Rodrigo Melo

não siga todo conselho que receber,
uns poucos,
como não manter a cabeça baixa ao caminhar por aí
feito um desses homens que receiam o que vão encontrar,
também não discuta,
não bajule,
não agrade demais,
tampouco pule de ponte alguma,
mesmo que as mulheres peçam,
mesmo que os chefes ordenem,
mesmo que a cidade inteira se reúna para tentar te convencer.
não guarde todo conselho que receber,
uns poucos,
como não criar expectativas a respeito da alma e da sua evolução,
nem tente entender a mesquinharia,
feito um desses homens que ainda acreditam no amor,
e esqueça as surras,
os tombos
e todas as patifarias que te fizeram
ou tentaram fazer.
um dia,
quando menos esperar,
nada disso fará
diferença.


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"outro dia um moleque perguntou à mãe
se havia casa lotérica lá no céu,
e a mãe respondeu que se ele não ficasse quieto
não ia haver céu algum."


"o mundo,
essa fera orgulhosa,
é feito um padrasto bêbado que abre
a porta sem avisar,
com suas mãos duras,
com seus dedos frios,
com seu hálito de umbral,
a dizer que é a vida e que
não faz mal."


"a morte é esse cupido maldoso,
que só atira flechas
quando a festa já está para acabar."





Presentes no livro de poemas Enquanto o mundo dorme (Penalux, 2016), páginas 28, 86, 46-47, 31 e 32-33, respectivamente, além dos trechos dos poemas Talvez não (p. 60), Maldito de nós, tão sós (p. 83) e Cupido (p. 55), presentes na mesma obra.



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Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


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Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


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A pressa
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e buscássemos um lugar
afastado
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secretamente
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a salvo
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Mas esse
lugar
não há.


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Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


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Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


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Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…