segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Meu Oscar



O escritor, compositor e produtor Emmanuel Mirdad é cinéfilo, e, desde 2013, passou a organizar os seus palpites dos vencedores da principal premiação cinematográfica do mundo, o Oscar. As categorias são as que mais o interessam, como as de roteiro e direção, e, além dos pitacos, expõe também as suas preferências. Confira abaixo a série Meu Oscar.




2016
Spotlight, Mark Rylance, Emmanuel Lubezki, Brie Larson, entre outros.
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2015
Leviatã, Boyhood, Birdman, Graham Moore, Patricia Arquette, entre outros.
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2014
Ela, 12 anos de escravidão, Spike Jonze, Matthew McConaughey, John Ridley, Álbum de família, entre outros.
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2013
Amor, O mestre, Django livre, Lincoln, As aventuras de Pi, Michael Haneke, Joaquin Phoenix, entre outros.
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Os vencedores prediletos do Oscar 2016

Meus vencedores prediletos do Oscar 2016: Ennio Morricone, Mark Rylance, Spotlight,
Emmanuel Lubezki, Tom McCarthy & Josh Singer (Spotlight) e Brie Larson (Fotos: Internet)


No Oscar 2016, das dez categorias que opinei esse ano (veja a lista aqui), só errei o pitaco de uma, a de Atriz Coadjuvante (pitaquei em Kate Winslet [Steve Jobs], preferi Jennifer Jason Leigh [Os oito odiados], mas ganhou a meeira Alicia Vikander [A garota dinamarquesa] que, pra mim, está melhor em Ex Machina).


Fiquei muito feliz por Mark Rylance ganhar como melhor Ator Coadjuvante por Ponte de espiões, e pelo melhor filme ter sido eleito Spotlight – Segredos revelados, meus prediletos em suas categorias (embora que, o melhor filme que eu vi, entre os indicados das dez categorias que opinei esse ano, foi o colombiano O abraço da serpente – não vi o vencedor de Melhor Filme Estrangeiro, o húngaro Filho de Saul).


2016 também foi o ano em que mais prediletos ganharam Oscars, como o genial Emmanuel Lubezki por O regresso, o roteiro original de Tom McCarthy e Josh Singer para Spotlight, e Brie Larson como melhor atriz por O quarto de Jack, além dos dois citados acima.


Pelo terceiro ano consecutivo, acertei os vencedores das duas categorias de roteiro (embora que o Adaptado preferi Emma Donoghue por O quarto de Jack – ganhou a bosta do filme A grande aposta), o que me deixa bastante satisfeito – quem sabe um dia?


O momento incrível da 88ª edição do Oscar foi, finalmente, o Oscar de Melhor Trilha Sonora para o grande mestre italiano Ennio Morricone (por Os oito odiados – a abertura é esplêndida!), aos 87 anos, que deu um sincero (e muito emocionante!) abraço no amigo e concorrente (e também grande mestre) John Williams (que concorria com o novo e fraco Star Wars), e agradeceu em ITALIANO! Vi o primeiro Oscar para o Chile, vi um mexicano ganhar por duas vezes consecutivas o prêmio de Melhor Diretor, e nenhum deles agradeceu na sua língua pátria. O mestre Morricone mandou ver, com muita simplicidade e sapiência, o seu grazie!


Veja a lista completa dos vencedores do Oscar 2016 aqui.


Os meus pitacos certos:


Melhor filme estrangeiro: Filho de Saul (Hungria), de László Nemes (O meu predileto foi O abraço da serpente, de Ciro Guerra)


Melhor filme: Spotlight – Segredos revelados, de Tom McCarthy (O meu predileto)


Melhor diretor: Alejandro G. Iñárritu por O regresso (O meu predileto foi Tom McCarthy por Spotlight – Segredos revelados)


Melhor roteiro original: Tom McCarthy & Josh Singer por Spotlight – Segredos revelados (O meu predileto)


Melhor roteiro adaptado: Adam McKay & Charles Randolph por A grande aposta (O meu predileto foi Emma Donoghue por O quarto de Jack)


Melhor ator: Leonardo DiCaprio por O regresso (O meu predileto foi Bryan Cranston por Trumbo – Lista negra)


Melhor atriz: Brie Larson por O quarto de Jack (A minha predileta)


Melhor ator coadjuvante: Mark Rylance por Ponte dos espiões (O meu predileto)


Melhor fotografia: Emmanuel Lubezki por O regresso (O meu predileto)


O meu pitaco errado:


Melhor atriz coadjuvante: Alicia Vikander por A garota dinamarquesa (Pitaquei em Kate Winslet por Steve Jobs e preferi Jennifer Jason Leigh por Os oito odiados)


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Meu Oscar 2016



Neste ano, além das tradicionais nove categorias que me interessam do Oscar, acrescentei mais uma, a de Fotografia. Apresento, a seguir, as minhas preferências entre os indicados, além de pitacos sobre quem eu acho que a Academia irá premiar. No Oscar #88, o único filme que me impressionou foi o colombiano El abrazo de la serpiente, de Ciro Guerra. Não aceito as indicações de porcarias como o novo Mad Max, Carol, Brooklyn, Sicario, entre outros filmes a serem esquecidos amanhã. Há tantos filmes, diretores, atores e atrizes bons fora das indicações, como O fim da turnê, que a irritação foi grande. Dos filmes indicados nas 10 categorias que comento, só levarei comigo o colombiano, Spotlight, Trumbo, Steve Jobs e Inside out.



Meu Oscar 2016 - Melhor filme estrangeiro

O abraço da serpente (El abrazo de la serpiente), de Ciro Guerra

Provável vencedor: Filho de Saul (Hungria), de László Nemes

PS: Não vi O lobo do deserto (Jordânia) e Filho de Saul (Hungria)

Indicados:

- O abraço da serpente (Colômbia)
- Uma guerra (Dinamarca)
- Cinco graças (França)
- Filho de Saul (Hungria)
- O lobo do deserto (Jordânia)



Meu Oscar 2016 - Melhor filme


Provável vencedor: Spotlight

Indicados:

- Spotlight – Segredos revelados
- O quarto de Jack
- O regresso
- Ponte dos espiões
- A grande aposta
- Perdido em Marte
- Brooklyn
- Mad Max: Estrada da fúria



Meu Oscar 2016 - Melhor diretor


Provável vencedor: Alejandro G. Iñárritu por O regresso

Indicados:

- Tom McCarthy (Spotlight – Segredos revelados)
- Lenny Abrahamson (O quarto de Jack)
- Alejandro G. Iñárritu (O regresso)
- Adam McKay (A grande aposta)
- George Miller (Mad Max: A estrada da fúria)



Meu Oscar 2016 - Melhor roteiro original


Provável vencedor: Tom McCarthy & Josh Singer

PS: Não vi Straight Outta Compton

Indicados:

- Tom McCarthy & Josh Singer (Spotlight – Segredos revelados)
- Josh Cooley, Pete Docter & Meg LeFavue (Divertida mente)
- Alex Garland (Ex Machina)
- Matt Charman, Joel Coen & Ethan Coen (Ponte dos espiões)
- Andrea Berloff, Jonathan Herman, S. Leigh Savidge & Alan Wenkus (Straight Outta Compton)



Meu Oscar 2016 - Melhor roteiro adaptado


Provável vencedor: Adam McKay & Charles Randolph por A grande aposta

Indicados:

- Emma Donoghue (O quarto de Jack)
- Adam McKay & Charles Randolph (A grande aposta)
- Drew Goddard (Perdido em Marte)
- Nick Hornby (Brooklyn)
- Phylis Nagy (Carol)



Meu Oscar 2016 - Melhor ator


Provável vencedor: Leonardo DiCaprio por O regresso

Indicados:

- Bryan Cranston (Trumbo)
- Michael Fassbender (Steve Jobs)
- Leonardo DiCaprio (O regresso)
- Matt Damon (Perdido em marte)
- Eddie Redmayne (A garota dinamarquesa)



Meu Oscar 2016 - Melhor atriz


Provável vencedora: Brie Larson

Indicadas:

- Brie Larson (O quarto de Jack)
- Charlotte Rampling (45 anos)
- Saoirse Ronan (Brooklyn)
- Cate Blanchett (Carol)
- Jennifer Lawrence (Joy)



Meu Oscar 2016 - Melhor ator coadjuvante

Mark Rylance por Ponte dos espiões (Bridge of spies)

Provável vencedor: Mark Rylance

Indicados:

- Mark Rylance (Ponte dos espiões)
- Tom Hardy (O regresso)
- Mark Ruffalo (Spotlight – Segredos revelados)
- Christian Bale (A grande aposta)
- Sylvester Stallone (Creed: Nascido para lutar)



Meu Oscar 2016 - Melhor atriz coadjuvante

Jennifer Jason Leigh por Os oito odiados (The hateful eight)

Provável vencedora: Kate Winslet por Steve Jobs

Indicadas:

- Jennifer Jason Leigh (Os oito odiados)
- Kate Winslet (Steve Jobs)
- Rachel McAdams (Spotlight – Segredos revelados)
- Alicia Vikander (A garota dinamarquesa)
- Rooney Mara (Carol)



Meu Oscar 2016 - Melhor fotografia

Emmanuel Lubezki por O regresso (The Revenant)

Provável vencedor: Emmanuel Lubezki

Indicados:

- Emmanuel Lubezki (O regresso)
- Robert Richardson (Os oito odiados)
- John Seale (Mad Max: A estrada da fúria)
- Ed Lachman (Carol)
- Roger Deakins (Sicario)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Quinze passagens de Márcia Denser nos livros de contos Diana caçadora & Tango fantasma

Márcia Denser (foto daqui)


"Da penumbra asséptica do corredor, penetramos no quarto imerso numa tépida luz conhaque, invólucro perfeito para receber um universo recém-formado, ainda que para imobilizá-lo, universo sem curso de galáxias, esfera de cristal dourado aquecida na palma da mão dos deuses que, sorrindo, observavam nossas grotescas tentativas de imitá-los, mesmo sabendo ser mentira, da nossa condição de fantoches, todavia insistindo, inclusive por nos saber observados, antecipadamente amargando esse átimo divino que pelas leis humanas teríamos de pagar, esse delicioso equívoco de estarmos frente a frente como em frente a espelhos, iludidos e ludibriados e sentido que riam de nós, sombras tentando ocultar-se no lusco-fusco do planalto, antes que o sol apontasse, nus e atônitos, sua luz inânime, e nos lançasse com a porta da realidade na cara, interditando-nos. No umbral do paraíso sempre haverá uma espada de fogo na mão do arcanjo que já não sorri, porque o universo moveu-se, recomeçou o tempo e os deuses se retiraram, entediados e bocejando."


"Aquela noite está impressa em minha memória como esses absurdos filmes tchecos, em preto e branco (porra, o que é que esses caras tinham contra o cinemascope?) onde sempre se tem a impressão que estão faltando fotogramas, que apagaram trechos da banda magnética, mas em compensação abundam fade-outs e fade-ins quando bem mais lógico seria passar a tesoura. Uma mesma tomada estúpida se repetindo umas vinte e oito vezes (e chamam os comerciais de redundantes!) e lá pelo 75º bocejo, inesperadamente as luzes acendem, pegando a turma de surpresa ainda meio aturdida, mas já afivelando aquele ar blasé, a cara de entendido, acendendo cigarros e falando numa espécie de transe cinéfilo-colonial do profundo sincretismo do cineasta (segue-se uma série impronunciável de consoantes, como Kwczjtz ou Zwhjctxl) claro que pra disfarçar que não entenderam porra nenhuma, quem é louco de dizer, mesmo se tivesse entendido, que aquilo não passa duma droga? Estão mais é querendo: 1º. Não passar por burros; 2º. Loucos pra comer uma pizza com vinho tinto da casa; 3º. Depois foder a namorada no banco traseiro."


"Tenho de reconhecer que esses nortistas são muito vivos. É tudo quanto esperam e precisam. Ironias à parte, a diferença entre uma lâmina afiada e uma faca cega não está apenas na profundidade do corte, aquilo que julgam a essência e a extensão do seu engodo magistral é somente uma questão de centímetros, uma metonímia que se esquece da mão que a empunha, do alvo que espera atingir, do cérebro que a comanda, do nosso coração tolo e de algo além e à espreita, indecifrável e esponjoso, inapreensível, que mija em facas, corações e alvos, ri na nossa cara e nos manda à merda, sugerindo que fiquemos por lá algum tempo."


"Quanto a Silas, havia: 1º. A literatura. Estranho, sempre que esta palavra surgia nas suas cartas, ele parecia estar se referindo a alguma entidade ou instituição representada por uma venerada anciã vestida de negro com golinha de folhos engomados, bengala de castão, bandós prateados, olhar severo, uma xícara de chá entre os dedos trêmulos que sorve aos golinhos ritmados pelo ir e vir da cadeira de balanço, do pêndulo do velho relógio cujos ponteiros não avançam na tarde imóvel, os últimos raios de sol filtrando a poeira fina, secular, os tons sépia duma velha fotografia; 2º. A música erudita, sobre a qual divagou ao longo das referidas cartas, uma prolixa digressão sobre suas preferências acústicas, a pretexto de coincidirem com as minhas, unicamente pelo fato de eu ter mencionado Bach num dos meus contos, logo eu, Diana Gardel, Diana Jobim, Diana Piazzolla, e por que não Diana Brubeck, Diana Jarret (Keith), que nunca tive saco para os clássicos. Vivaldi, puxa vida. As Quatro Estações. Na metade da Primavera eu já hibernava profundamente, para escândalo dos meus amigos mais eruditos."


"(...) Parece que eu tenho o dom lamentável de despertar nos homens o irresistível desejo de se exporem (pois quem mais indefesa, irresistível e exposta do que eu mesma?), deixando sem saber entre meus dedos (e em seus espíritos) a sensação de quem foi colhido por um espelho ao dobrar a esquina. Encurralados no presente de um fim de semana sem nada a perder ou a ganhar, são capturados em sua verdadeira nudez sem passado e sem futuro, um inventário de pequenas misérias, vaidade, confidências e cicatrizes, o crucificado espantalho de tanta vida deixada para trás, de modo que eu fico filosofando, me sentindo como uma espécie de lata de lixo da humanidade, de onde eu poderia sacar certas coisinhas que algumas dezenas de seres humanos odiariam se lembrar, mas isso não me consola (...)"


"Fiquei de bruços, fechei os olhos, pensando: o prazer puro, o prazer puro. Não poderia ver aquele rosto agora, seria insuportável, seria inconcebível, e eu acho que ele me ficou agradecido. Mesmo assim não conseguia. Estava submerso em coca e álcool, uma chaga viva de excitação que pulsava e gemia, rilhando os dentes, animal sonâmbulo se esvaindo entre minhas nádegas numa tortura aplicada de movimentos ineficientes; uma vez que ele não conseguia, o animal depositava-se como um pedaço de carne fria junto ao meu corpo. Vamos liquidar isso, pensei. Sentia-me cansada, nauseada. A excitação estirava-se como um cordão frouxo. Vi pela janela a manhã alta, cor de magnésia, e disse chega, vamos dormir. Então ele desabou, barraquinha de campanha, como se o tempo todo estivesse aguardando a ordem que o libertasse da prontidão, segundos depois ressonava ruidosamente."


"A cidade, a partir desse momento, desapareceu, ao mesmo tempo que foi subindo pelos meus pés, meus joelhos, agarrando-me pelos cabelos e me afogando numa torturante ejaculação monstruosa, um ruído de motor a óleo diesel permanente na minha cabeça, mas eu não cedia, não desacordava, não morria de uma vez, vivendo debaixo de seu cheiro de merda seca fermentada, abstrata casa de máquinas ininterruptas a fabricar eternamente merda, merda e merda, a cidade turbulava em meu peito e seu coração batia junto ao meu podre descompassado implorando perdão, por favor perdão, quando então acordei ao lado de alguém que curiosamente prosseguia sem rosto como a cidade. Eu era mulher transportada ao acaso por um homem encontrado vagamente e nos despimos como para morrer ou nadar ou envelhecer, e é possível que o amor tenha caído no pó de tanta merda e não haja senão carne e ossos velozmente adorados, enquanto o fogo se consome e nossos cavalos vestidos de vermelho galopam para o inferno? (...)"


"Os olhos têm aquela expressão vazada de perversa inocência, de suprema condescendência de ídolos talhados em ouro e prata à luz das tochas, indiferentes às cerimônias e ao borbulhar das paixões e sacrifícios humanos; a macia pele do rosto de 19 anos incompletos transparece e crepita mas não se deixa tocar e se o faz, o seu tato parece borracha ou vinil, porque os jovens de 19 anos incompletos são pequenas monstruosidades portadoras do aleijão psíquico, faltando pedaços como um ombro para se chorar, um olhar atento, o gesto brusco no vácuo do antebraço consolador; os lábios congelados na frase de Peter Pan 'eu sou a juventude eterna!', a mão perpetuamente brandindo a estocada final na passagem do tempo. Um adolescente é sempre monstruoso porque desumano (...)"


"(...) Fisgava-me frequentemente refletindo sobre a minha transitoriedade e a imutabilidade da natureza. Esse mesmo céu, esse mesmo crepúsculo, essa mesma intensidade de tons avermelhados que contemplei aos 15 anos estão agora testemunhando meus trinta, inalterados, imperturbáveis, odiosamente imutáveis, mas se ter consciência disso é o preço da mortalidade, eu prefiro pagá-lo a permanecer nesse estado bestialício de eternidade inanimada, como as areias, os corvos, o crepúsculo e o mais."


"(...) A paixão é como uma lindíssima putinha de dezessete anos, coberta de trapos e lama, exalando miasmas de pétalas esmagadas da rosa fétida do desejo. Em cada trecho de pele morna, gosmenta, salgada, percutem risinhos convulsos que assanham gatos e bueiros, e seus cegos olhos verdes apunhalam as trevas. A paixão não tem memória."


"O tal filme japonês fora realmente bom, um monumento poético, um estudo profundo sobre as paixões humanas etc. e assim eu poderia falar sobre ele ad nauseam, mas o Poeta apenas emitiu suas impressões assim: 'É barra! Que barra! É uma barra!' dizendo-as de maneiras diferentes e impostando a voz num diapasão enfático que partia da traqueia, explodindo num ruído seco e rouco, feito um peido bucal, e como se a palavra 'barra' contivesse, não digo o significado de todo o universo, mas pelo menos de todo o filme. Isso no fim da fita. Durante esteve todo o tempo tentando pegar no meu braço. Um verdadeiro saco."


"(...) não havia nada e ninguém que me preenchesse, que me fodesse satisfatoriamente com a tua amplidão, teu empenho, tua paixão e ardor boboca, mas, enfim, irracionalmente, eu ficava tão molhada, tão doída e tão derretida ao simples roçar da tua boca na minha, que só podia pensar que o amor é uma merda mesmo. A tua tensão dolorosa se distendia como um balão de fim de festa, mas antes era preciso que você gritasse, que você gemesse, se debatesse e me cavalgasse quase com ódio, e isso tudo não podia ser deixado impune, eu não podia sentir meu coração bater na vagina impunemente, com um vivo e quente sangue vermelho, pois meus órgãos trocaram de lugar e o juízo realmente eu não sabia onde andava, se nos cotovelos, se nos calcanhares, mas eu acho que tinha ido parar no coração e, como este, por sua vez, descera lá para baixo, escaparam-me todas as últimas esperanças de sair disso tudo com alguma dignidade."


"(...) enquanto há um Fausto impotente e bêbado adormecido nessa cama, enquanto confusamente eu me lembro dos abraços cegos no escuro, de mãos desesperadas como morcegos esgotados apalpando áreas que fugiam e se encolhiam ou derretiam ou não existiam, e dedos que tocavam meu ventre como se cavassem na areia sem querer sujar-se, procurassem com nojo diligente alguma pulga ou percevejo na crina de um cavalo, dedos impotentes, desconhecidos, aterrorizados pelo grande abismo que havia além, depois da escuridão, depois de mais nada, quando seus bagos, cumprida a penosa tarefa, murchassem como frutas secas, e de tudo isso nada restasse, nem palavras, nem sons, nem balbucios, além de dois macacos fumando, olhando o tempo e bebericando um estranho líquido vermelho."


"(...) muito mais fácil e cruel seria tatear metáforas, abrir-lhes as coxas e paradoxalmente descobrir que as desejo e sinto um terror ancestral por elas e todas as vezes que eu estiver mentindo botarei a cabeça no meio delas e dormirei profundamente."


"Os espanhóis (e vocês sabem como são os espanhóis. Alho, sangue quente e chifradas, puxa vida) têm um ditado que elucidaria o meu atônito Silas: mulher bonita, limpa e inteligente, só louca. Mas, como Silas não leva a sério os espanhóis (por motivos vários), bem como a maioria das pessoas de bom senso que acreditam na tecnologia, na democracia e na futurologia, na ciência, na evidência e na Providência, na prática, na didática e na Informática, a exemplo de Silas com sua vida sólida e estruturada, sua vida cômoda: uma gaveta para a família, outra para o trabalho, outra para o lazer, naturalmente este cara já me reservara o escaninho das amantes, uma gavetinha com a etiqueta 'diversos', desbaratinada nos confins da estante, um disfarce desastroso, se fosse um disfarce, se não fosse a pura verdade, porque ninguém ignora que o item 1 das faxinas é a caixinha das bugigangas."





Presentes nos livros de contos Diana caçadora & Tango fantasma (Ateliê Editorial, 2003), páginas 48-49, 28-29, 18-19, 17-18, 33-34, 86, 185-186, 93, 94, 42, 76, 137-138, 142-143, 183 e 22-23, respectivamente.






Seleta dos contos

01) O vampiro da Alameda Casabranca*
02) Um pingo de sensibilidade**
03) Alexandrinos**
04) Hell's Angels*
05) Welcome to Diana*
06) Frutas secas*
07) O homem de cascavel**
08) Bonecas**
09) Ladies first*
10) O animal dos motéis*

* Do livro Diana caçadora (1986)
** Do livro Tango fantasma (1976)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Dez passagens de Ronaldo Correia de Brito no livro de contos O amor das sombras

Ronaldo Correia de Brito (foto daqui


"Em meio à bagunça da enfermaria, uma foto presa com esparadrapo na parede chama a atenção do médico. O único espólio do ex-jogador, o que restara de seus desacertos, a lembrança feliz. No primeiro plano da imagem, costelas, lombos e vísceras em cima de um balcão gasto. E um garoto risonho sob a placa 'Açougue Sol Nascente'. Os megarefes o acolheram quando tinha catorze anos, depois que perdera o pai, a mãe e duas irmãs, todos com histórias trágicas. Num quartinho de porta única ao lado do açougue, onde fazia um calor dos infernos, estabeleceu seu mundo cheirando a sangue e a carne, povoado de cepos, facas, ganchos, cutelos e muita sujeira. A foto resistiu às viagens, mudanças de domicílio e desgraças. Amassada entre os dedos como as contas de um rosário, exposta ao suor e ao tempo, mesmo assim sobreviveu e ainda fala. Diz que o homem pode dar voltas sem sair do lugar. O 'Sol Nascente', na tosca pintura sobre uma placa de zinco, lembra um sistema planetário. Em torno dele, a vida do jogador nunca parou o seu giro."


"Diante dessas evidências, achando que não encontraria uma única de minhas cantadeiras viva, decidi não retornar ao sertão. Um amigo sugeriu o coro de carmelitas descalças. (...) Fui visitá-las na companhia do sonoplasta. Uma das irmãs tornara-se conhecida pela voz. Conversamos através de uma porta com treliças, deixamos um gravador de boa qualidade e uma cópia da fita original. Indiquei três benditos no cassete, selecionados para o filme, e sugeri que procurassem alcançar a mesma intensidade dramática. Voltei após quinze dias, recebi o gravador de volta, as fitas e um pedido de desculpas. (...) - É impossível a uma irmã reclusa cantar dessa maneira. Deixamos de sentir essas emoções. (...) As vozes arfavam, como se todas as mulheres sofressem falta de ar. O jogo de seduzir a morte tira o fôlego. Sabendo que também iriam morrer, elas cantavam aos berros, porém mesmo assim não ganhavam um minuto a mais de existência. As carmelitas negociavam diretamente com Deus, aboliam das vidas a paixão, nada de manga com farinha em casa de taipa, nem danças em terreiro de chão batido. (...) - Não podemos cantar igual. Não sentimos o que essas mulheres sentem. São dores irreconhecíveis. Dores de parto, de fome, de desamparo. Elas cantam para um Deus que nunca escuta. (...) Cada um por si e Deus contra todos."


"Mariana já não escuta uma única palavra da sobrinha. Lembra que, numa das secas no Ceará, criaram campos de concentração para isolar os retirantes, homens, mulheres e crianças famintos, as cabeças raspadas contra os piolhos, alguns vestidos em sacos de farinha com buracos para enfiar o pescoço. A ordem do governo e dos cidadãos ricos era segregar os miseráveis em currais cercados de varas e arame farpado, próximos às estradas de ferro. Havia sete campos no Ceará. O do Crato fora programado para receber cinco mil pessoas, mas chegou a isolar cerca de vinte mil. Quase todos morriam de fome ou doenças e eram enterrados em covas rasas, até quarenta corpos no mesmo valado, sobrepostos de quatro em quatro. Os cachorros e os urubus revolviam a terra e devoravam a carniça. Os agricultores e pecuaristas percorriam os isolamentos e contratavam os homens mais fortes a troco de uma refeição por dia. Os de sorte levavam a mulher e os filhos junto. Chegaram a ser três vezes mais numerosos que o restante da população do estado. Encurralavam sete mil retirantes em quadriláteros de quinhentos metros e davam a eles um pequeno farnel de rapadura, charque, farinha e café, quase sempre estragado."


"(...) Elvira caminhava para trás, retornava ao breu do útero e perdia até mesmo o arcabouço ancestral de suas imagens, aquilo que trouxera nos genes herdados dos pais mortos e de gerações de humanos e primatas. (...) Consultas, exames e testes cognitivos lembravam os solstícios de verão, quando o dia promete que não haverá noite, mas ao final sempre nos espera o escuro, a fuligem preta das minas. Entrara na ordem de um plano invisível sustentando o visível. A cegueira do esquecimento era o invisível. O que não sabia sustentava o que sabia, por isso tateava em meio às sombras, não como a criança que engatinha para aprender a caminhar, mas como o velho que desaprende levar a colher à boca. (...)"


"(...) Tornou-se cada dia mais silencioso, praticando jejum, penitências e rezando sem parar. O pai temeu pelo seu juízo, eram comuns os casos de loucura na família, por conta de casamentos consanguíneos. (...) Num meio-dia de sol forte, quando os pássaros não cantam e o gado busca a sombra das árvores, Jaime pegou uma garrafa de querosene, o mesmo que usava para acender o candeeiro em suas leituras noturnas, e se dirigiu a um riacho seco. Preparou um leito de areia, a mesma usada para levantar a casa dos pais e dar os acabamentos, molhou o corpo com o querosene, deitou na cama improvisada e ateou-se fogo. As pessoas que o encontraram carbonizado disseram que sua determinação em morrer era tamanha que seu corpo nem revolvera a areia em torno dele, permanecendo firme no suicídio martirizado."


"O pasto se acabou, as águas diminuíram, os bois e as vacas morreram, os vaqueiros perderam o trabalho, os aboiadores deixaram de cantar para os rebanhos, os mascates sírios e libaneses não tinham mais a quem vender suas quinquilharias. Os coronéis já não brigavam pela posse da terra infértil, as onças, os veados e as caças maiores foram mortas a tiro, centenas de milhares de aves grandes e pequenas tiveram o mesmo fim. Os ricos empobrecidos migraram, os impérios sertanejos se desfizeram, as casas ruíram. Primeiro migraram os soldados da borracha, em busca de tesouros na longínqua Amazônia. Os agricultores e pecuaristas largaram as esposas e os filhos e saíram atrás de emprego nas cidades grandes, foram edificar Brasília e morrer acidentados na construção civil. Os maridos ausentes mandaram buscar as famílias para viver na periferia das cidades, em bairros mais miseráveis e violentos do que o sertão abandonado por causa da fome. O rádio, a televisão e a internet ocuparam o tempo e a vida dos poucos que ficaram. Os costumes antigos tornaram-se estranhos, a memória se perdeu, a épica sertaneja virou folheto de cordel. Restaram fantasmas, mortos assombrando os vivos."


"Toda noite, quando transponho a porta desse mundo fora de órbita, sinto uma lufada de ar frio no rosto. De início, penso: não vou sobreviver. Mamãe olha para mim e fala que eu devo à morte continuar vivo. Desconheço a promessa feita por ela, me oferecendo em pagamento. Não saldou a dívida, e minhas pernas ficaram inseguras. (...)"


"Retilíneo e uniforme ele se moveria eternamente, se nada obstasse seus passos. Mas deixa-se cair nas armadilhas das cidades, onde prefere esconder-se a desfilar por avenidas. Clandestino, investiga móveis empoeirados, reentrâncias de cupins e aranhas, frestas suspeitas. Porém, mesmo seduzido pelas objetivas fechadas, nunca aceitou o anteparo de muros. Ama as aldeias do deserto, as que desmanchando no sopro contínuo das virações. Do topo de um edifício alto, as cidades grandes parecem o brinquedo de uma criança, olhado de cima pelo Pai. As mãos que se ocupam edificando castelos, casas, pontes e torres de relógios, num único movimento de ciclone, desfazem tudo. Uma bomba arremessada sobre Nagasaki e a explosão de fúria, sob o olhar complacente e superior do Pai."


"A chuva ensopou a Zona da Mata e o massapê transformou-se num atoleiro. Há quinhentos anos os canaviais engolem a floresta atlântica, os animais, os pássaros e os homens. Quase nada restou. As folhas verdes compridas, parecendo lâminas cortantes, não se mexem nos dias úmidos sem vento. Não existe aconchego ou sombra nos canaviais, ninguém sente alegria em percorrer as linhas traçadas do plantio, nem mesmo os tratores e as colheitadeiras. Muito menos os homens, as mulheres e as crianças cortadores e arrumadores, que executam no braço o trabalho da lavoura mecanizada. A cana lembra aspereza, coceira e talhos finos na pele. Os usineiros queimam as folhas para diminuir os incômodos. Avistamos o fogo de longe e imaginamos Nero incendiando Roma. A terra esquenta, sobem nuvens escuras ao céu, cai fuligem sobre ruas, jardins e casas. Em Pernambuco, chamam a nuvem preta de malunguinho, nome pelo qual os escravos que vinham da África na mesma embarcação se tratavam. Malungo. Igual a amigo. Amigo? O pó preto das queimadas é amigo? Crianças e velhos sufocam, tossem, são socorridos com asma nas emergências dos hospitais públicos."


"Qualquer paisagem vista através da janela de um carro em movimento parece mais bela do que é na verdade, pois os defeitos se escondem na sucessão de quadros. E se possui águas como o Recife submerso nos rios Capibaribe e Beberibe, que desembocam no Atlântico, a paisagem se umedece, ganha o brilho oleoso das pinturas de Eckhout, trazido à cidade pelo conde Maurício de Nassau para registrar o que poderia desaparecer ou perder a cor. O índio e o negro despidos transformaram-se, ganharam poses e gordura barroca. Até a selvageria perderam. Não são apenas índios e negros brasileiros, mas a criação de um pintor flamengo, que os apresenta à Europa civilizada em retratos carregados nos detalhes exóticos. O pé dentro de um cesto sugere que será comido pela índia. Ela exibe outro repasto, a mão decepada de um inimigo. Ah, esses pintores e seus olhares! Tudo arrumado numa ordem estética que está longe de corresponder ao real, parecendo mais aquilo que o artista deseja que pareça ao europeu. A arte brasileira seria consumida como prato extravagante, desde a carta de Pero Vaz de Caminha até os romances de Jorge Amado. O exocanibalismo. Querem nos comer, mas só depois de nos abaterem com borduna e nos enfeitarem de penas multicoloridas. (...)"





Presentes no livro de contos O amor das sombras (Alfaguara, 2015), páginas 85, 207 a 209, 25, 70-71, 19-20, 215,
56, 89, 121 e 111, respectivamente.