sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Quinze passagens de Márcia Denser nos livros de contos Diana caçadora & Tango fantasma

Márcia Denser (foto daqui)


"Da penumbra asséptica do corredor, penetramos no quarto imerso numa tépida luz conhaque, invólucro perfeito para receber um universo recém-formado, ainda que para imobilizá-lo, universo sem curso de galáxias, esfera de cristal dourado aquecida na palma da mão dos deuses que, sorrindo, observavam nossas grotescas tentativas de imitá-los, mesmo sabendo ser mentira, da nossa condição de fantoches, todavia insistindo, inclusive por nos saber observados, antecipadamente amargando esse átimo divino que pelas leis humanas teríamos de pagar, esse delicioso equívoco de estarmos frente a frente como em frente a espelhos, iludidos e ludibriados e sentido que riam de nós, sombras tentando ocultar-se no lusco-fusco do planalto, antes que o sol apontasse, nus e atônitos, sua luz inânime, e nos lançasse com a porta da realidade na cara, interditando-nos. No umbral do paraíso sempre haverá uma espada de fogo na mão do arcanjo que já não sorri, porque o universo moveu-se, recomeçou o tempo e os deuses se retiraram, entediados e bocejando."


"Aquela noite está impressa em minha memória como esses absurdos filmes tchecos, em preto e branco (porra, o que é que esses caras tinham contra o cinemascope?) onde sempre se tem a impressão que estão faltando fotogramas, que apagaram trechos da banda magnética, mas em compensação abundam fade-outs e fade-ins quando bem mais lógico seria passar a tesoura. Uma mesma tomada estúpida se repetindo umas vinte e oito vezes (e chamam os comerciais de redundantes!) e lá pelo 75º bocejo, inesperadamente as luzes acendem, pegando a turma de surpresa ainda meio aturdida, mas já afivelando aquele ar blasé, a cara de entendido, acendendo cigarros e falando numa espécie de transe cinéfilo-colonial do profundo sincretismo do cineasta (segue-se uma série impronunciável de consoantes, como Kwczjtz ou Zwhjctxl) claro que pra disfarçar que não entenderam porra nenhuma, quem é louco de dizer, mesmo se tivesse entendido, que aquilo não passa duma droga? Estão mais é querendo: 1º. Não passar por burros; 2º. Loucos pra comer uma pizza com vinho tinto da casa; 3º. Depois foder a namorada no banco traseiro."


"Tenho de reconhecer que esses nortistas são muito vivos. É tudo quanto esperam e precisam. Ironias à parte, a diferença entre uma lâmina afiada e uma faca cega não está apenas na profundidade do corte, aquilo que julgam a essência e a extensão do seu engodo magistral é somente uma questão de centímetros, uma metonímia que se esquece da mão que a empunha, do alvo que espera atingir, do cérebro que a comanda, do nosso coração tolo e de algo além e à espreita, indecifrável e esponjoso, inapreensível, que mija em facas, corações e alvos, ri na nossa cara e nos manda à merda, sugerindo que fiquemos por lá algum tempo."


"Quanto a Silas, havia: 1º. A literatura. Estranho, sempre que esta palavra surgia nas suas cartas, ele parecia estar se referindo a alguma entidade ou instituição representada por uma venerada anciã vestida de negro com golinha de folhos engomados, bengala de castão, bandós prateados, olhar severo, uma xícara de chá entre os dedos trêmulos que sorve aos golinhos ritmados pelo ir e vir da cadeira de balanço, do pêndulo do velho relógio cujos ponteiros não avançam na tarde imóvel, os últimos raios de sol filtrando a poeira fina, secular, os tons sépia duma velha fotografia; 2º. A música erudita, sobre a qual divagou ao longo das referidas cartas, uma prolixa digressão sobre suas preferências acústicas, a pretexto de coincidirem com as minhas, unicamente pelo fato de eu ter mencionado Bach num dos meus contos, logo eu, Diana Gardel, Diana Jobim, Diana Piazzolla, e por que não Diana Brubeck, Diana Jarret (Keith), que nunca tive saco para os clássicos. Vivaldi, puxa vida. As Quatro Estações. Na metade da Primavera eu já hibernava profundamente, para escândalo dos meus amigos mais eruditos."


"(...) Parece que eu tenho o dom lamentável de despertar nos homens o irresistível desejo de se exporem (pois quem mais indefesa, irresistível e exposta do que eu mesma?), deixando sem saber entre meus dedos (e em seus espíritos) a sensação de quem foi colhido por um espelho ao dobrar a esquina. Encurralados no presente de um fim de semana sem nada a perder ou a ganhar, são capturados em sua verdadeira nudez sem passado e sem futuro, um inventário de pequenas misérias, vaidade, confidências e cicatrizes, o crucificado espantalho de tanta vida deixada para trás, de modo que eu fico filosofando, me sentindo como uma espécie de lata de lixo da humanidade, de onde eu poderia sacar certas coisinhas que algumas dezenas de seres humanos odiariam se lembrar, mas isso não me consola (...)"


"Fiquei de bruços, fechei os olhos, pensando: o prazer puro, o prazer puro. Não poderia ver aquele rosto agora, seria insuportável, seria inconcebível, e eu acho que ele me ficou agradecido. Mesmo assim não conseguia. Estava submerso em coca e álcool, uma chaga viva de excitação que pulsava e gemia, rilhando os dentes, animal sonâmbulo se esvaindo entre minhas nádegas numa tortura aplicada de movimentos ineficientes; uma vez que ele não conseguia, o animal depositava-se como um pedaço de carne fria junto ao meu corpo. Vamos liquidar isso, pensei. Sentia-me cansada, nauseada. A excitação estirava-se como um cordão frouxo. Vi pela janela a manhã alta, cor de magnésia, e disse chega, vamos dormir. Então ele desabou, barraquinha de campanha, como se o tempo todo estivesse aguardando a ordem que o libertasse da prontidão, segundos depois ressonava ruidosamente."


"A cidade, a partir desse momento, desapareceu, ao mesmo tempo que foi subindo pelos meus pés, meus joelhos, agarrando-me pelos cabelos e me afogando numa torturante ejaculação monstruosa, um ruído de motor a óleo diesel permanente na minha cabeça, mas eu não cedia, não desacordava, não morria de uma vez, vivendo debaixo de seu cheiro de merda seca fermentada, abstrata casa de máquinas ininterruptas a fabricar eternamente merda, merda e merda, a cidade turbulava em meu peito e seu coração batia junto ao meu podre descompassado implorando perdão, por favor perdão, quando então acordei ao lado de alguém que curiosamente prosseguia sem rosto como a cidade. Eu era mulher transportada ao acaso por um homem encontrado vagamente e nos despimos como para morrer ou nadar ou envelhecer, e é possível que o amor tenha caído no pó de tanta merda e não haja senão carne e ossos velozmente adorados, enquanto o fogo se consome e nossos cavalos vestidos de vermelho galopam para o inferno? (...)"


"Os olhos têm aquela expressão vazada de perversa inocência, de suprema condescendência de ídolos talhados em ouro e prata à luz das tochas, indiferentes às cerimônias e ao borbulhar das paixões e sacrifícios humanos; a macia pele do rosto de 19 anos incompletos transparece e crepita mas não se deixa tocar e se o faz, o seu tato parece borracha ou vinil, porque os jovens de 19 anos incompletos são pequenas monstruosidades portadoras do aleijão psíquico, faltando pedaços como um ombro para se chorar, um olhar atento, o gesto brusco no vácuo do antebraço consolador; os lábios congelados na frase de Peter Pan 'eu sou a juventude eterna!', a mão perpetuamente brandindo a estocada final na passagem do tempo. Um adolescente é sempre monstruoso porque desumano (...)"


"(...) Fisgava-me frequentemente refletindo sobre a minha transitoriedade e a imutabilidade da natureza. Esse mesmo céu, esse mesmo crepúsculo, essa mesma intensidade de tons avermelhados que contemplei aos 15 anos estão agora testemunhando meus trinta, inalterados, imperturbáveis, odiosamente imutáveis, mas se ter consciência disso é o preço da mortalidade, eu prefiro pagá-lo a permanecer nesse estado bestialício de eternidade inanimada, como as areias, os corvos, o crepúsculo e o mais."


"(...) A paixão é como uma lindíssima putinha de dezessete anos, coberta de trapos e lama, exalando miasmas de pétalas esmagadas da rosa fétida do desejo. Em cada trecho de pele morna, gosmenta, salgada, percutem risinhos convulsos que assanham gatos e bueiros, e seus cegos olhos verdes apunhalam as trevas. A paixão não tem memória."


"O tal filme japonês fora realmente bom, um monumento poético, um estudo profundo sobre as paixões humanas etc. e assim eu poderia falar sobre ele ad nauseam, mas o Poeta apenas emitiu suas impressões assim: 'É barra! Que barra! É uma barra!' dizendo-as de maneiras diferentes e impostando a voz num diapasão enfático que partia da traqueia, explodindo num ruído seco e rouco, feito um peido bucal, e como se a palavra 'barra' contivesse, não digo o significado de todo o universo, mas pelo menos de todo o filme. Isso no fim da fita. Durante esteve todo o tempo tentando pegar no meu braço. Um verdadeiro saco."


"(...) não havia nada e ninguém que me preenchesse, que me fodesse satisfatoriamente com a tua amplidão, teu empenho, tua paixão e ardor boboca, mas, enfim, irracionalmente, eu ficava tão molhada, tão doída e tão derretida ao simples roçar da tua boca na minha, que só podia pensar que o amor é uma merda mesmo. A tua tensão dolorosa se distendia como um balão de fim de festa, mas antes era preciso que você gritasse, que você gemesse, se debatesse e me cavalgasse quase com ódio, e isso tudo não podia ser deixado impune, eu não podia sentir meu coração bater na vagina impunemente, com um vivo e quente sangue vermelho, pois meus órgãos trocaram de lugar e o juízo realmente eu não sabia onde andava, se nos cotovelos, se nos calcanhares, mas eu acho que tinha ido parar no coração e, como este, por sua vez, descera lá para baixo, escaparam-me todas as últimas esperanças de sair disso tudo com alguma dignidade."


"(...) enquanto há um Fausto impotente e bêbado adormecido nessa cama, enquanto confusamente eu me lembro dos abraços cegos no escuro, de mãos desesperadas como morcegos esgotados apalpando áreas que fugiam e se encolhiam ou derretiam ou não existiam, e dedos que tocavam meu ventre como se cavassem na areia sem querer sujar-se, procurassem com nojo diligente alguma pulga ou percevejo na crina de um cavalo, dedos impotentes, desconhecidos, aterrorizados pelo grande abismo que havia além, depois da escuridão, depois de mais nada, quando seus bagos, cumprida a penosa tarefa, murchassem como frutas secas, e de tudo isso nada restasse, nem palavras, nem sons, nem balbucios, além de dois macacos fumando, olhando o tempo e bebericando um estranho líquido vermelho."


"(...) muito mais fácil e cruel seria tatear metáforas, abrir-lhes as coxas e paradoxalmente descobrir que as desejo e sinto um terror ancestral por elas e todas as vezes que eu estiver mentindo botarei a cabeça no meio delas e dormirei profundamente."


"Os espanhóis (e vocês sabem como são os espanhóis. Alho, sangue quente e chifradas, puxa vida) têm um ditado que elucidaria o meu atônito Silas: mulher bonita, limpa e inteligente, só louca. Mas, como Silas não leva a sério os espanhóis (por motivos vários), bem como a maioria das pessoas de bom senso que acreditam na tecnologia, na democracia e na futurologia, na ciência, na evidência e na Providência, na prática, na didática e na Informática, a exemplo de Silas com sua vida sólida e estruturada, sua vida cômoda: uma gaveta para a família, outra para o trabalho, outra para o lazer, naturalmente este cara já me reservara o escaninho das amantes, uma gavetinha com a etiqueta 'diversos', desbaratinada nos confins da estante, um disfarce desastroso, se fosse um disfarce, se não fosse a pura verdade, porque ninguém ignora que o item 1 das faxinas é a caixinha das bugigangas."





Presentes nos livros de contos Diana caçadora & Tango fantasma (Ateliê Editorial, 2003), páginas 48-49, 28-29, 18-19, 17-18, 33-34, 86, 185-186, 93, 94, 42, 76, 137-138, 142-143, 183 e 22-23, respectivamente.






Seleta dos contos

01) O vampiro da Alameda Casabranca*
02) Um pingo de sensibilidade**
03) Alexandrinos**
04) Hell's Angels*
05) Welcome to Diana*
06) Frutas secas*
07) O homem de cascavel**
08) Bonecas**
09) Ladies first*
10) O animal dos motéis*

* Do livro Diana caçadora (1986)
** Do livro Tango fantasma (1976)

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