quarta-feira, 29 de maio de 2013

Vamos ouvir: Agora, do Dois em Um

Agora (2013) - Dois em Um





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Matéria do jornal Correio sobre o lançamento do CD aqui

terça-feira, 28 de maio de 2013

Pílulas: Parte 03 - Julio Cortázar - O Jogo da Amarelinha

Interferência: Mirdad


“A verdadeira condenação é aquilo que já está começando: o esquecimento do Éden, ou seja, a conformidade bovina, a alegria barata e suja no trabalho e o suor na testa e as férias pagas”


“Agora se dava conta de que, nos momentos mais altos do desejo, não soubera meter a cabeça na crista da onda e passar através do fragor fabuloso do sangue. Amar a Maga fora como um rito do qual já não se esperava a iluminação; as palavras e os atos tinham se sucedido com uma inventiva monótona, uma dança de tarântulas sobre o chão em forma de lua, uma viscosa e prolongada manipulação de ecos. E, durante todo o tempo, esperara dessa alegre embriaguez algo como um despertar, um ver melhor aquilo que o rodeava, fossem os papeis pintados dos hotéis ou as razões de qualquer um dos seus atos, sem querer compreender que se limitar a espera, abolia toda e qualquer possibilidade real, como se, adiantadamente, se condenasse a um presente estreito e mesquinho”


“Os três gostavam, cada um à sua maneira, da leitura comentada, das polêmicas, pelo gosto hispano-argentino de querer convencer e jamais aceitar a opinião contrária. Adoravam, ainda, as possibilidades inegáveis de rir como loucos e se sentir acima da humanidade lastimosa, sob pretexto de ajudá-la a sair da sua fedorenta situação contemporânea”


Julio Cortázar e o amor novo (foto da esquerda: Suzanne Bouron)


“Durante toda essa tarde, Oliveira assistiu, outra vez, uma vez mais, uma de tantas vezes mais, testemunho irônico e comovido do seu próprio corpo, às surpresas, aos encantos e às decepções da cerimônia. Habituado, sem saber, aos ritmos da Maga, de repente um novo mar, uma agitação diferente o arrancava aos automatismos, confrontava-o, parecia denunciar obscuramente a sua solidão, enredada de simulacros.


Encanto e desencanto de passar de uma boca para outra, de procurar com os olhos fechados um pescoço onde a mão dormiu, recolhida, e sentir que a curva é diferente, uma base espessa, um tendão que se crispa rapidamente com o esforço de incorporar-se para beijar ou morder. Cada momento do seu corpo, diante de um desencontro delicioso, ter de estender-se um pouco mais, ou baixar a cabeça para encontrar a boca que, antes, estava ali perto, acariciar umas ancas mais estreitas, provocar uma réplica e não a encontrar, insistir, distraído, até se dar conta de que era preciso inventar tudo outra vez, que o código não fora seguido, que as chaves e as cifras terão de nascer de novo, ser diferentes, responderem a outra coisa. O peso, o cheiro, o tom de uma risada ou uma súplica, os tempos e as precipitações, nada coincidia, embora fosse igual, tudo nascia de novo. 


Sendo imortal, o amor brinca de inventar-se, fugindo de si mesmo para regressar na sua espiral surpreendente, os seios cantam de outro modo, a boca beija mais profundamente ou como de longe e, num momento, onde antes havia algo como a cólera e angústia, é agora o jogo puro, a agitação incrível, ou, ao contrário, na hora em que, antes, caía no sono, no murmúrio de coisas doces e ridículas, agora existe uma tensão, algo incomunicado, mas presente, que exige incorporar-se, algo como uma raiva insaciável. Apenas o prazer em seu último esvoaçar é igual; antes e depois, o mundo se fez em pedaços e é preciso criá-lo de novo, dedo por dedo, lábio por lábio, sombra por sombra”


Trechos extraídos do livro "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Pílulas: Herculano Neto - Salvador Abaixo de Zero

Herculano Neto interferido por Mirdad


“Nasci com defeito de fábrica, defeito na alma. Minha mãe não notou, meu pai não notou, ninguém notou. Só perceberam quando inventei de me remendar, de me colar, de me parafusar. Mas aí já era tarde: não era mais possível a devolução”


“Após a quimioterapia, não havia quem conseguisse comunicar à Cecília que seu braço seria amputado. Indiferente àquele dilema, Cecília brincava no quarto com suas bonecas: todas carecas e com os braços cortados”


“Acho que a injeção letal não será problema. O pior é a espera”


“Quando vi aqueles seios, emudeci assustado, logo eu, tão acostumado a malta infinda de donas de casa desnudas me deparei com o mais belo e perfeito par que já encontrei. Antes, acreditava que peitos bonitos só frequentassem clínicas particulares. Dispensei-a sem realizar seu exame. Alguns meses depois, Dona Filipa retornou. E novamente não realizei seu exame. Se aqueles seios tinham algum vestígio de câncer eu preferia não saber”.


“Eu costumava ter uma veia cômica, mas, agora, não apenas me falta humor: me falta plateia”


“Quando abri a porta, descobri que ele carregava o irmão, que não possuía nem braços nem pernas. O homem disse que era aniversário do irmão e pretendiam comemorar. As outras meninas, assustadas, baixaram a cabeça com receio de serem contempladas; eu não – talvez por isso ele tenha me escolhido. Dentro do quarto, tentei puxar conversa, descontrair um pouco, mas ele não dizia nada. Tirei sua roupa cuidadosamente, segurei seu torso como se fosse uma boneca (ele era mais pesado do que aparentava) e o coloquei numa posição que eu imaginava ser a mais apropriada para o ato. Foi a primeira vez que gozei no trabalho”


Trechos extraídos do livro Salvador Abaixo de Zero, de Herculano Neto.

domingo, 26 de maio de 2013

Pílulas: Parte 02 - Julio Cortázar - O Jogo da Amarelinha

Interferência: Mirdad


“Dobrou-a e usou-a como a uma adolescente, conheceu-a e exigiu-lhe as servidões da mais triste puta, magnificou-a em constelação, teve-a entre os braços cheirando a sangue, fez com que bebesse o sêmen que corre pela boca como um desafio ao Logos, chupou-lhe a sombra do ventre e do sexo, erguendo-a depois até o seu rosto, para untá-la de si mesma, numa última operação de conhecimento que só o homem pode dar à mulher, exasperou-se com pele e pelo e baba e queixumes, esvaziou-a até o máximo da sua magnífica força, lançou-a contra um travesseiro e um lençol e a sentiu chorar de felicidade contra o seu rosto que um novo cigarro devolvia à noite do quarto e do hotel”


“A única possibilidade de encontro estava em que Horacio a matasse no amor, no qual ela conseguia encontrar-se como ele, no céu dos quartos de hotel, onde se enfrentavam iguais e despidos, onde se podia consolar a ressurreição de fênix, depois de ele a ter estrangulado deliciosamente, deixando-lhe cair um fio de baba da boca aberta, olhando-a, extático, como se começasse a reconhecê-la, a fazê-la sua de verdade, a trazê-la para seu lado”


“Se alguém não tem domínio sobre si, jamais poderia ter alcançado a singularidade. E, afinal, quem é que se dominava de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou, ainda, no matrimônio para estar, pelo menos, só entre os demais? Assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e dos ecos. A verdadeira singularidade feita de delicados contatos, de maravilhosos ajustes com o mundo, não podia ser cumprida por um só lado: a mão estendida deveria receber outra mão, vinda de fora, vinda do outro”


“As únicas coisas que terminam de verdade são aquelas que recomeçam todas as manhãs”


“A invenção da alma pelo homem se insinua toda vez que o sentimento surge do corpo como um parasita, como um verme aderido ao eu. É suficiente uma pessoa sentir-se viver para que mesmo o mais próximo e querido do corpo, por exemplo, a mão direita, se torne imediatamente um objeto que participa repugnantemente da dupla condição de não ser eu e de estar aderido a mim”


Julio Cortázar e o jazz

“O jazz é como um pássaro que migra ou emigra, que imigra ou transmigra, saltador de barreiras, contrabandista, algo que corre, que se difunde por todos os lugares, com o dom da ubiquidade que o Senhor lhe deu, no mundo inteiro, é inevitável, é a chuva e o pão e o sal, algo absolutamente indiferente aos ritos nacionais, às tradições invioláveis, ao idioma e ao folclore: uma nuvem sem fronteiras, um espião do ar e da água, uma forma arquetípica, algo de antigamente, de baixo, que reconcilia mexicanos e noruegueses e russos e espanhóis, que os reincorpora ao obscuro fogo central já esquecido, que os devolve mal e precariamente a uma origem atraiçoada, indicando-lhes que talvez houvesse outros caminhos e que aquele que escolheram não era o único e não era o melhor, e que um homem é sempre mais do que um homem por encerrar em si aquilo que o jazz faz sentir e até antecipa, e menos do que um homem em virtude de ter feito dessa liberdade um jogo estético ou moral, um tabuleiro de xadrez”


“Nascera a única música universal do século, algo que aproximava mais os homens, mais e melhor do que o esperanto, a Unesco ou as companhias de aviação, uma música bastante primitiva para alcançar a universalidade e bastante boa para poder fazer a sua própria história com cisões, renúncias e heresias, com o seu charleston, o seu black bottom, o seu shimmy, o seu foxtrot, o seu stomp, o seu blues, para admitir as classificações e etiquetas, o estilo isso ou aquilo, o swing, o bebop, o cool, ir e vir do romantismo e do classicismo, hot e jazz cerebral, uma música-homem, uma música com história, diferentemente da estúpida música animal de baile; uma música que permitia ser reconhecida e admirada em Copenhague, em Mendoza ou na Cidade do Cabo, uma música que aproximava os adolescentes, com os seus discos debaixo dos braços, que lhes dava nomes de melodias como cifras para se reconhecerem, se familiarizarem e se sentirem menos sós, rodeados por chefes de escritório, famílias e amores, infinitamente amargos, uma música que permitia todas as imaginações e gostos”


“Quase não se dança, apenas se fica de pé, balançando-se, e tudo é turvo e sujo e canalha e cada homem gostaria de arrancar aqueles pequenos corpetes, enquanto as mãos acariciam um ombro e as moças entreabrem a boca e se vão entregando ao medo delicioso e à noite; então, eleva-se um trompete possuindo-as em nome de todos os homens, tomando-as para si com uma só frase quente que as deixa cair como uma planta cortada entre os braços dos companheiros; e segue-se uma corrida imóvel, um pulo no ar da noite, sobre a cidade, até que um piano minucioso as devolve a si mesmas, exaustas e reconciliadas, ainda virgens até o próximo sábado, tudo isso numa música que espanta os conquistadores da plateia, aqueles que acreditam que nada é verdade se não houver programas impressos e acomodadores, e assim vai o mundo”


Trechos extraídos do livro "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar. 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Vamos ouvir: Afrika Bahia, de Rafael Pondé

Afrika Bahia (2013) - Rafael Pondé



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Release do CD escrito pelo próprio artista, disponível no seu Soundcloud:

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Rafael Pondé lança seu novo disco “Afrika Bahia”

O Cd “Afrika Bahia” é um renascimento, um reencontro, um recomeço...Explico...Depois de seis anos de uma peregrinação, que me auto-impus, por diversas cidades do Brasil e do mundo, pra onde fui em busca de amadurecimento, crescimento, aprendizagem e em busca da cura pra um mal de amor, finalmente retorno e recomeço tudo do meu porto de partida, a Bahia. Estou mais uma vez em seus braços macios...

Essa experiência “cigana” me ajudou muito, pois pude conhecer os modos e culturas de muitos lugares desse nosso “Brasil brasileiro” e também de cidades da Europa que me encantaram muito, como Barcelona e Berlim...O final desse percurso de vagância pelo mundo, levou esse “nobre vagabundo” em 2009 ao Rio de Janeiro, onde vivi por dois anos e onde ocorreu o “reconhecimento”...Naquela boa vida carioca, começaram a aparecer os primeiros sintomas desse renascimento...O banzo estava sempre presente comigo naquela cidade realmente inebriante e bela...Um sentimento, que imagino, habitou também os corações de Dorival Caymmi, Assis Valente e Humberto Porto (meu tio avô, que criou a “Jardineira” e foi um dos primeiros a tematizar a cultura afrobaiana nas letras dos seus lamentos).

Esse banzo, como vim a descobrir depois, é a força e a autoridade que a Bahia exerce sobre seus filhos, quando eles se jogam pro mundo... É um chamamento de sereia constante...Foi lá no Rio em fins de 2011, que começaram a surgir os primeiros sinais de Afrika Bahia...As andanças com o percussionista baiano Marcos Odara, os papos com o genial cineasta Hélio Rodrigues na gravação do seu documentário “O novíssimo baiano”, tratando da obra desse operário musical que vos fala, o centenário de Jorge Amado, o show que fiz no teatro Solar de Botafogo, que contou com a presença e participação dos queridos Letieres Leite, Mariella Santiago, Gabi Guedes, Maurício Braga, entre outros baianos, onde toquei canções antigas do meu repertório, como “Revolta dos Malês,” tudo isso já fazia parte desse chamado que culminou nesse novo trabalho.

No final de 2011 veio a bomba, minha mãe tinha câncer, e esse foi o golpe fatal ou seria o plano divino pra me trazer de volta a minha Salvador? Não sei...Só sei que encarei isso com resignação e vim embora do Rio...Mas nessa volta tive uma certeza, faria uma obra coletiva e marcante pra minha família, pra minha cidade, para o meu povo... Por isso, esse “Afrika Bahia” me é tão precioso... Foi um lindo reencontro com nossos fundamentos, nossa ancestralidade, nossos ritmos, nossa mamãe Afrika... Isso tudo após haver peregrinado por esse mundo de cidades tão lindas quanto dispares...Eu, que nas minhas idas e vindas pra representar nossa cultura na Europa, não contenho as lágrimas a rolar no meu rosto, quando avisto da janela do avião o contorno daquela que é a Baía mais linda de todo o mundo...A Baía de todos os Santos...Esse sentimento nunca me abandonou, em nenhum dos lugares por onde andei e foi exatamente ele que motivou esse novo trabalho...

No começo de 2012 estava de volta a Bahia e caí de cabeça numa pesquisa rigorosa indo atrás de tudo que é novidade no quesito musical e nesse caminho fui me reencontrando com minha essência, meus lugares, minhas alegrias, minhas inspirações, minhas melodias e harmonias...Esse disco é feito de um profundo sentimento de reencontro e pertencimento...Fui deglutindo e rearranjando as informações de casa e as colocando num caldeirão “tropifágico” junto com temperos recolhidos nas várias cidades que passei...

Em meio a isso tudo, o encontro com a Afrika foi exatamente o querer entender a nossa idiossincrasia não mais pelo prisma europeu ou americano, mas sim pelo prisma da nossa mãe de fato, que é a Afrika. Aqui na Bahia “somos todos pretos”, sem dúvida, não podemos fugir da nossa matriz tão preciosa que nos legou o que temos de mais valioso e diferenciador. Com isso, eu quero dizer também, que a informação cultural contemporânea da África propõe novos modelos de identificação e referência, uma ressignificação e novos simbolismos para o ser baiano, pois o estudo da cultura da Afrika nos leva a realmente mudar o conceito do que achamos ser Afrika e com isso somos obrigados a rever os conceitos de baianidade e de afro descendência também... Afinal não podemos parar no tempo, temos que olhar pra frente visando nos reinventar, pois é isso que temos feito desde Caymmi até hoje...A Bahia está sempre se reinventando e por isso sempre esteve na vanguarda cultural brasileira, continuemos isso, vamos acreditar!!!

Gostaria de finalizar desejando uma boa audição do disco e agradecendo a todos os músicos técnicos e artistas participantes, pois sem eles eu não teria sido capaz dessa empreitada. A ficha técnica está disponível no encarte do disco e nas informações nas tracks nos sites onde ele se encontra. O disco está disponível também no www.rafaelponde.com

Um abraço e até sempre!
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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Porta dos Fundos - Top 10 + 1

Seleção do Top 10 +1 do Porta dos Fundos


A websérie Porta dos Fundos reúne o melhor do humor brasileiro em atividade. Com mais de 3 milhões de inscritos no seu canal no Youtube, e com um total de visualizações que está na casa dos 280 milhões, está fazendo a alegria da geral na internet. Neste post, fiz uma seleta dos 10 melhores vídeos + 1, por ordem de minha preferência. Divirta-se e acompanhe os cabras, que tão arrebentando:



1º) LOG OUT




2º) PARABÉNS




3º) CICLO DA VIDA




4º) PREVISÃO DO TEMPO




5º) AMANTE




6º) SOBRE A MESA




7º) A VIDA COMO ELA É




8º) CORTE DE GASTOS




9º) VOYEUR




10º) PREPARADORA DE ELENCO




Extra: CANCELAMENTO




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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pílulas: Parte 01 - Julio Cortázar - O Jogo da Amarelinha

Interferência: Mirdad

Parte 01

"Não estávamos apaixonados, fazíamos amor com um virtuosismo desligado e crítico, mas sempre caíamos, depois, em terríveis silêncios. A espuma dos corpos de cerveja ia ficando como estopa, amornando e contraindo-se, enquanto nos olhávamos e sentíamos que chegara o momento. A Maga acabava por se levantar e dava voltas inúteis pelo quarto. Mais de uma vez, eu a vi admirar seu corpo no espelho, segurar os seios com as mãos, como nas estatuetas sírias, e passar os olhos pela sua pele numa lenta carícia. Nunca consegui resistir ao desejo de pedir que se aproximasse, sentindo-a curvar-se pouco a pouco sobre mim, desdobrar-se outra vez, depois de ter estado por um momento tão só e tão apaixonada diante da eternidade do seu corpo"


"Você sempre foi um espelho terrível, uma espantosa máquina de reprodução, e aquilo a que chamávamos o nosso amor era talvez eu estar de pé diante de você, com uma flor amarela na mão e você com duas velas verdes, enquanto o tempo soprava contra os nossos rostos uma lenta chuva de renúncias e de despedidas e passagens de metrô"


"Talita se estendeu um pouco mais na cama e apoiou-se em Traveler. Sabia que estava de novo a seu lado, que não tinha se afogado, que ele a estava segurando na superfície e que no fundo era uma lástima, uma maravilhosa lástima. Os dois o sentiram no mesmo instante e escorregaram um pelo outro como para cair em si mesmos, na terra comum onde as palavras e as carícias e as bocas os envolviam como a circunferência envolve o círculo, essas metáforas tranquilizadoras, essa velha tristeza satisfeita de voltar a ser o de sempre, de continuar, de se manter flutuando contra o vento e a maré, contra o chamado e a queda"


Julio Cortázar

"Como era possível iniciar essa vida, assim tranquilamente, sem estranhar muito? Sem experiência, sem verdadeiro interesse, sem nada: o homem era realmente o animal que se habitua mesmo a não estar habituado"


"Naquela época, o mundo continuava sendo algo petrificado e estabelecido, um jogo de elementos girando nos seus gonzos, uma madeixa de ruas e árvores e nomes e meses. Não havia uma desordem que abrisse portas ao resgate; havia apenas sujeira e miséria, copos com restos de cerveja, meias num canto do quarto, uma cama que cheirava a sexo e a cabelo, uma mulher que me passava a sua fina e transparente mão pelas pernas, retardando a carícia que me arrancaria, por um momento, a essa vigilância em pleno vazio. Sempre demasiado tarde, já que, ainda que fizéssemos amor muitas vezes, a felicidade tinha de ser outra coisa, algo talvez mais triste do que essa paz e esse prazer, um ar como de unicórnio ou ilha, uma queda interminável na imobilidade. A Maga não sabia que meus beijos eram como olhos que começavam a se abrir mais para além dela e que eu andava como alheado, derramado sobre outra figura no mundo, piloto vertiginoso numa proa negra que cortava a água do tempo e a negava"


"Era como se a Maga esperasse a morte dele, algo nela que não era o seu eu desperto, uma forma obscura reclamando uma destruição, a lenta facada de baixo para cima que rasga as estrelas da noite e devolve o espaço às perguntas e aos terrores"

Trechos extraídos do livro "O Jogo da Amarelinha", de Julio Cortázar.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Vamos ouvir: Amaralina, de Kalu

Amaralina (2013) - Kalu





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Release do álbum por Rodrigo Rangel:

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Nas águas de Amaralina

Amaralina marca o primeiro trabalho solo de Kalu, que, depois de passar por alguns grupos, resolveu investir em um projeto autoral e na construção de uma sonoridade própria. Para isso, convidou o produtor musical Andre T, que tem no currículo trabalhos com Lucas Santtana, Pitty, Carlinhos Brown, Retrofoguetes e Cascadura. Depois de seis meses de ensaios, entraram em estúdio para registrar um repertório formado por 10 músicas compostas, entre 2008 e 2012, por Kalu e seus parceiros.

O resultado é um disco que reúne influências diversas para construir um som contemporâneo, mas que, ao mesmo tempo, presta homenagem a referências tradicionais da música popular brasileira e internacional. Nele estão, lado a lado, ijexá, rock, samba e reggae, muito do som marcante da Bahia e referências claras à world music.

Todas essas influências são costuradas com sensibilidade e bom humor. Kalu fala do que vê e do que sente, construindo um retrato lírico e inteligente dos tempos em que vivemos. Há ainda espaço para a poesia propriamente dita, com duas faixas onde o cantor declama textos próprios.

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Vamos ouvir: Condição Humana, de Guilherme Arantes

Condição Humana (2013) - Guilherme Arantes





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Release do CD, disponível no site oficial do artista:

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Resolvi mostrar nesse disco, logo de cara, que existe uma “pegada” no piano, (já que o segredo está mesmo nas mãos) “pegada” essa que ninguém jamais vai me copiar. Cada um tem a sua “pegada” no instrumento, eu tenho a minha, e as pessoas gostam de mim por isso, acima de qualquer outra coisa. Isso é claro.

Então este é um disco de “pegada”.O som do Guilherme, com a sonoridade única da virada dos 70 para os 80, está de volta.

Desta vez foi mandatório não fazer nenhuma concessão e não ficar ouvindo abobrinha de nenhum produtor que tenha caído “de para-quedas” no meu trabalho…

Me juntei com a minha banda – Luiz Sergio Carlini ( guitarras, violões ) , Willy Verdaguer ( baixo ), Alexandre Blanc ( guitarras e violões ), Gabriel “Frejat” Martini ( baterias, percussões) e com minha equipe, pra fazer um disco que fosse seminal, no mínimo.

Um disco que passasse a minha visão de estranhamento num mundo que até às vezes parece perfeito…O meu incômodo numa sociedade que até às vezes parece evoluir para a felicidade geral… O meu desconforto num “sistema” que tenta passar a imagem de que a tudo engole, a todas as diferenças se adapta, a todas as minorias contempla, um “sistema” a cada dia mais justo, porém amorfo e chocho, sem arestas nem contestações.

Um “sistema” que transforma todas as inquietações em mercadoria. Uma absoluta “ordem social” politicamente correta, com todos os perigos que essas “perfeições de ordem social” nos remetem. Eu precisava vomitar um disco que viesse sanguinolento, com “guts”, com “culhões” de quem tem o que dizer e está pouco se lixando se o mundo vai aceitar ou não…

Os festivais de música são um desfile bem-comportado de artistas competentes em sua função utilitária de servir à massa, que é uma imensa e generalizada “balada”. Tudo é uma confortável “balada”. Nunca houve um tempo tão ridículo em maneirismos e hábitos, quanto este atual. Essa é a minha sensação e das pessoas da minha geração. Não temos nada mais a perder, estamos na virada dos 60, vovôs, e podemos ser ranzinzas à vontade – aliás, é o melhor que podemos fazer . Um dia, lá na frente, as pessoas vão rir das galeras postando seus vazios nas redes no celular, assim como hoje parecem ridículas nossas roupas e cabelos dos anos 80… Pra minha geração, que viu e viveu os anos 60, Woodstock, Luther King, Godard e a convulsão no cinema, barricadas nas ruas de Paris, o sangue nos porões de uma latino-america lancinante, o mundo em 2013, que não acabou em 2012, é de uma acomodação geral, hilariantemente inaceitável. O “sistema” já equacionou e sabe lidar com as contraposições e propostas alternativas, e a tudo rapidamente amolda em “boxes” de mercado…

As letras deste disco, deste ano, não podiam excluir essa sensação de náusea. Náusea com a corrupção mundial, os ratos dos governos invariavelmente por trás de toda a perversidade e sacanagem do mundo. Náusea com o mercadejar da fé, nesse tempo de tantos apelos ao plano “sobrenatural”, tão ridículo e podre quanto os poderes terrenos. Náusea porque o “politicamente correto” inclui um “respeito” à mentira e à empulhação. Indignação porque todo dia o noticiário traz novas desilusões, o dinheiro correndo solto na impunidade geral. Náusea porque o mundo caminha claramente para o colapso, porque as corporações não estão nem aí e vão até o fim, até a curva populacional explodir, já que nem curva é mais, e sim um elevador vertical rumo a um formigueiro boçal onde a ignorância e a grosseria são parte da “atitude”. O importante é ter “atitude”. O importante não é o que somos, mas o que está na rede. O que não está na Rede, não está no mundo…
Claro que eu fiz algumas canções de amor, já que nem só de indignação e inconformidade se transforma o mundo…

Tem até o resgate de uma “canção de gesta”, que fiz aos 16 anos de idade.

Todas as canções falam do tempo.

Daí o sub-título “Sobre o Tempo”. É esse tempo que passou, e que ainda nos resta, que interessa. É a urgência do grito,e o olhar panorâmico sobre o acervo do que vivi.

Uma conclusão eu tirei da minha crise :

Jovem é quem corre para a morte. Velho é quem foge dela. Se estou correndo para a morte, ansiando pelo tempo que me resta correr veloz, então ainda sou jovem. Se estou tentando evitar a morte, se procuro qualquer atalho ou ponte para atravessar o destino inevitável, então estou velho. Não à toa, com este disco eu me sinto de novo com 20 anos.

Guilherme Arantes

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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mirdad - Gestão em Cultura

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Mirdad - Gestão em Cultura
Criatividade | Coerência | Inovação

A Mirdad – Gestão em Cultura é uma empresa de produção cultural sediada na Bahia, com atuação em todo Brasil. Voltada à criação e realização de produtos culturais nas áreas da Literatura e Música, é especializada na gestão de eventos patrocinados pela parceria entre a iniciativa privada e pública, através de Leis de Incentivo, e também pelo patrocínio direto.

Criatividade | Coerência | Inovação é o slogan da Mirdad - Gestão em Cultura, que sintetiza o estilo de trabalho da empresa: praticar a criação com responsabilidade, profissionalismo e inovação para agitar e renovar as ações culturais. A criatividade como impulso matriz, lapidada e gerida pela coerência que transforma as ideias originais em produtos de credibilidade, diferenciados, rentáveis e inovadores.

Os sócios da Mirdad Cultura, aptos na criação, coordenação geral, gestão administrativo-financeira, direção artística e curadoria da programação de eventos, são: Emmanuel Mirdad, Diretor Geral e de Criação, empresário cultural, escritor, curador e sócio da Flica; Edmilia Barros, Diretora Executiva e de Conteúdo, empresária cultural, produtora executiva e sócia do grupo Sertanília. Ambos têm experiência no mercado baiano, realizando eventos como a Flica, Festival Brainstorm, Santo Antônio Jazz Festival e Música no Cinema, entre outros, viabilizados sempre pelo patrocínio de empresas privadas via incentivos fiscais do Governo do Estado. 

A partir de 2013, a Mirdad Cultura pretende ampliar seus negócios culturais pelo Brasil, replicando o case de sucesso da Flica. Para tanto, firmou parceria com o escritor e pesquisador gaúcho Aurélio Schommer, atual Vice-Presidente do Conselho de Cultura da Bahia, que tem diversos livros lançados e vasta experiência no mercado literário, atuando como curador na Flica desde o início e em outras iniciativas em prol da literatura no país.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Vamos ouvir: Ancestral, do Sertanília

Ancestral (2012) - Sertanília





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Release do grupo e CD, disponível no site oficial do Sertanília:

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Sertanília é um grupo de Salvador (BA) que resgata a tradição sertaneza¹ na produção de uma música universal, inspirada nas diversas manifestações culturais do sertão. Surgido em 2010 é composto por Aiace (vocais), Anderson Cunha (violão e viola) e Diogo Flórez (percussão), que hoje são acompanhados pelos músicos Mariana Marin e Raul Pitanga na percussão, João Almy no violão e Massumi no violoncelo.

O primeiro disco, intitulado "Ancestral" foi lançado em 2012 e teve apoio do Conexão Vivo e Governo do Estado da Bahia através do FazCultura. Buscando resgatar as origens musicais, o cd foi gravado em Salvador no Attitude Audio Criação e no Fábrica Studios em Pernambuco, e conta com participações ilustres de Xangai, Bule-Bule, Terno de Reis do Riacho da Vaca (Caetité) da Bahia, além dos percussionistas pernambucanos Emerson Calado, Nego Henrique e Gilú Amaral. Possui 18 faixas, com 12 músicas autorais e seis regravações, Sertanília mostra uma construção musical rica em elementos da Cultura Popular Brasileira. 

Em dois anos de trabalho, o Sertanília já possui participações em eventos de grande importância no cenário musical nacional, como o Conexão Vivo Salvador, Lauro de Freitas e Praia do Forte, Festival Baianada, Grito Rock Salvador (BA) e Olinda (PE), Feira Noise Festical em Feira de Santana (BA), Encontro de Cantadores (BA), além de shows internacionais em Lisboa e Coimbra (Portugal) e no Festival Tensamba em Madrid (Espanha).

Durante esse período o grupo venceu um concurso on-line para se apresentar no LYCRA Future Designers em São Paulo, onde concorreu com 11 bandas selecionados pelo curador de Fabio Trummer (Eddie); criou a música-tema do desfile de Cris Melo, estilista baiana finalista do concurso Brasil Fashion Designers; teve a música “Nobre Folia”, selecionada entre as 15 finalistas no IX Festival da Educadora FM e compondo o CD do festival; realizou a sua primeira Turnê Nordeste passando pelas cidades de Cajazeiras e Sousa na Paraíba, e Juazeiro do Norte, Fortaleza e Itapipoca no Ceará que contou com o apoio do Governo do Estado através do Fundo de Cultura e foi indicado ao Prêmio Dynamite de Música Independente 2012 na categoria “Melhor Álbum Regional” com o cd promocional.


¹ Feminino de sertanês, imortalizado nas obras de Elomar Figueira Mello. Faz referência a tudo que é inerente ao sertão. O neologismo foi criado para se diferenciar de "sertanejo", palavra que foi perdendo o real significado e se distanciando do universo do sertão à proporção em que foi empregada pelo mercado musical das grandes gravadoras.

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Baixe o disco aqui