terça-feira, 31 de maio de 2016

Dez passagens de Clarice Lispector no romance A paixão segundo G.H.

Clarice Lispector (foto daqui)


"Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."


"Porque o tédio é insosso e se parece com a coisa mesmo. E eu não fora grande bastante: só os grandes amam a monotonia. O contato com supersom do atonal tem uma alegria inexpressiva que só a carne, no amor, tolera. Os grandes têm a qualidade vital da carne, e, não só toleram o atonal, como a ele aspiram. (...) Minhas antigas construções haviam consistido em continuamente tentar transformar o atonal em tonal, em dividir o infinito numa série de finitos, e sem perceber que finito não é quantidade, é qualidade. E meu grande desconforto nisso tudo tinha sido o de sentir que, por mais longa que fosse a série de finitos, ela não esgotava a qualidade residual do infinito."


"A despersonalização como a destituição do individual inútil – a perda de tudo o que se possa perder e, ainda assim, ser. Pouco a pouco tirar de si, com um esforço tão atento que não se sente a dor, tirar de si, como quem se livra da própria pele, as características. Tudo o que me caracteriza é apenas o modo como sou mais facilmente visível aos outros e como termino sendo superficialmente reconhecível por mim. Assim como houve o momento em que vi que a barata é a barata de todas as baratas, assim quero de mim mesma encontrar em mim a mulher de todas as mulheres. (...) Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair – só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Minhas civilizações eram necessárias para que eu subisse a ponto de ter de onde descer. É exatamente através do malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas, e aceitá-la como a possível linguagem. (...)"


"– Aguenta eu te dizer que Deus não é bonito. E isto porque Ele não é nem um resultado nem uma conclusão, e tudo o que a gente acha bonito é às vezes apenas porque já está concluído. Mas o que hoje é feio será daqui a séculos visto como beleza, porque terá completado um de seus movimentos. (...) O divino para mim é o real."


"(...) Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante."


"(...) Tudo ali havia secado – mas restava uma barata. Uma barata tão velha que era imemorial. O que sempre me repugnara em baratas é que elas eram obsoletas e no entanto atuais. Saber que elas já estavam na Terra, e iguais a hoje, antes mesmo que tivessem aparecido os primeiros dinossauros, saber que o primeiro homem surgido já as havia encontrado proliferadas e se arrastando vivas, saber que elas haviam testemunhado a formação das grandes jazidas de petróleo e carvão do mundo, e lá estavam durante o grande avanço e depois durante o grande recuo das geleiras – a resistência pacífica. Eu sabia que baratas resistiam a mais de um mês sem alimento ou água. E que até de madeira faziam substância nutritiva aproveitável. E que, mesmo depois de pisadas, descomprimiam-se lentamente e continuavam a andar. Mesmo congeladas, ao degelarem, prosseguiam na marcha... Há trezentos e cinquenta milhões de anos elas se repetiam sem se transformarem. Quando o mundo era quase nu elas já o cobriam vagarosas."


"Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque não saberei onde engastar meu novo modo de ser – se eu for adiante nas minhas visões fragmentárias, o mundo inteiro terá que se transformar para eu caber nele."


"(...) Talvez tenha sido esse tom de pré-clímax o que eu via na sorridente fotografia mal-assombrada de um rosto cuja palavra é um silêncio inexpressivo, todos os retratos de pessoas são um retrato de Mona Lisa."


"(...) Todo caso de loucura é que alguma coisa voltou. Os possessos, eles não são possuídos pelo que vem, mas pelo que volta. (...) Se em mim tudo se quebrava à passagem da força, não é porque a função desta era a de quebrar: ela só precisava enfim passar pois já se tornara caudalosa demais para poder se conter ou contornar – ao passar ela cobria tudo. (...)"


"(...) Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade."






Presentes no romance A paixão segundo G.H. (Rocco, 2014), edição comemorativa de cinquenta anos, páginas 103, 151, 185 a 187, 169 e 177, 61-62, 45-46,
09, 25, 70 e 11, respectivamente.



sábado, 28 de maio de 2016

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho



Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Oito passagens de Domingos Pellegrini no livro Melhores contos

Domingos Pellegrini (foto daqui)


"Quando acordei, perguntei cadê o povo da gravadora, o dono do bar disse que tinham almoçado fazia tempo, mas apontou: ainda tinha um ali palitando dente. Perguntei: moço, você trabalha ali na gravadora? Ele balançou a cabeça, trabalhava sim. Então espere um pouco, pedi. Peguei a viola no quartinho, afinei, respirei fundo e voltei. Agora escute um pouco, moço. E comecei a cantar. (...)  Juntou gente para ouvir. O dono do bar até me deu um guaraná. Mas o moço da gravadora ouviu como quem não ouvia, devia ouvir música o dia inteiro todo santo dia, devia ser isso, pensei, só podia ser isso. E cantei mais. Ele terminou de palitar os dentes, pagou o que tinha de pagar, contando um dinheiro mais amassado que de mendigo, atravessou a rua, entrou na gravadora e fui atrás. Ele subiu uma escada, passou por uma sala forrada de cartaz de artista em toda parede, pegou outro corredor e, lá no fim, entrou numa salinha cheia de tranqueira, pegou uma vassoura e começou a varrer o corredor."


"Pai falou que o mar tem todos os cheiros do mundo, e ondas rebentando mais altas que a gente: – Mas você mergulha furando onda depois de onda, e sempre tem outra onda vindo. Alice perguntou de onde vinham as ondas e, como sempre acontecia com as melhores perguntas, ninguém respondeu. (...)"


"Entre um e outro ela se lavava agachada no corredor sobre a bacia, tirando dos galões água numa caneca; enchia a mão em concha e dava tapas entre as coxas abertas, aos poucos enchendo a bacia; até que – bacia cheia – uma janela se abria e um jorro de água varria a noite. Quando o último galão secou, ela avisou – Não tem mais água – mas o homem que entrava até riu: estava coberto de lama seca esfarinhando como escamas falou ora, mais sujo do que estou, dona, só se comesse barro. Ela riu, mas o seguinte não perdoou; ela avisou – Não tem mais água para me lavar – com a mesma voz e o mesmo coração, mas era outro homem e a resposta foi você tem mais de um buraco, não tem? Ele avançou e ela deixou de usar a navalha, simplesmente deixou; e depois outro, e outro, assim até se sentir um brejo vazando por todos os buracos; e afinal ela ainda tinha as mãos; até que acabou também o papel e mesmo as mãos se melecaram tanto que, parecendo por piedade, amanheceu."


"(...) criei coragem e falei: eu queria cantar sempre no seu programa, e também queria gravar um disco. E ele: pode vir de vez em quando, uma vez por mês (...), mas gravar disco não é comigo. Só que tem uma coisa, falei, cantar eu canto sempre que o senhor quiser, mas vim da roça de vez e não tenho onde ficar nem jeito de viver. (...) Aí o homem cresceu, virou para mim com outra cara e disse que cantar ele deixava, mas resolver minha vida só quem podia era eu, e me deu mais um pacote de macarrão, esse não peguei. Dei muito obrigado e saí, eu tinha um sonho e sabia que não ia acontecer nem com todo macarrão do mundo, sabia que era um sonho que da barriga não dependia, mas da cabeça e do coração. (...) Então, conforme desci a escada fui chegando numa decisão: não ia voltar pra roça nem que perdesse as mãos, que até pra mendigar na cidade era melhor que na roça – e prometi: só voltava a viver na enxada se um dia perdesse a voz. No mesmo momento, peguei um vento, de noite já tinha um resfriado no nariz, de manhã uma gripe já bem aninhada no peito."


"Aquilo é uma ponte que você, na cabeça dela, não enxerga o rabo. Me disseram depois que é a maior ponte do mundo, mas eu adivinhei na hora que vi (...) Faltava um mês pra inauguração e aquilo fervia de peão pra cima e pra baixo, você andava esbarrando em engenheiro, serralheiro, peão bate-estaca, peão especializado, (...) volta e meia aparecia algum visitante de terno e gravata, capacete novinho na cabeça, tropeçando em tudo e perguntando bobagem. Um chegou pra mim um dia e perguntou se eu não estava orgulhoso de trabalhar na maior ponte do mundo. Respondi olha, nem sabia que é a maior ponte do mundo, pra mim é só uma ponte. Mas ele insistiu. Pois saiba que é a maior ponte do mundo, e trabalhar nela é um privilégio pra todos nós. Aí eu perguntei nós quem? O senhor trabalha no que aqui?"


"Na esquina, ouvimos Vó chamando e viramos pra trás; lá vinha ela correndo com o vestido até os pés, mancando como se as pernas fossem de madeira, trazia um embrulho. Agachou gemendo na nossa frente: – Batata-doce que assei no forno. (...) Aí pegou nossas cabeças e juntou com a dela, falou baixinho pra gente obedecer o Pai e tomar muito cuidado com a Mãe – Por quê? – porque ela podia perder a cabeça. (...) – Se ela encontrar vocês sozinhos e oferecer algum doce, não comam não. (...) Pai também agachou. (...) – A senhora acha que ela tem coragem? (...) Vó olhou pra ele com uma dó muito funda. (...) – Não é coragem, meu filho, é desatino."


"Então tentaram de tudo novamente, tudo e mais alguma coisa, que aqueles homens não eram de desistir ou não estariam naquela terra naquele tempo; e de novo esquentaram os cabos dos enxadões e as camisas molhavam tanto de chuvisco quanto de suor; e, quando depois de tudo só restava xingar, acabaram quase engolindo os palavrões, xingando baixo, porque se palavrão desencalhasse caminhão, já não estavam mais ali. Enquanto isso, a chuva engrossou de novo, cada um se enfiou na cabine e, meio-dia em ponto, ainda estavam cozinhando raiva com paciência, as mãos nos câmbios metendo marchas paradas e as filas aumentando nas duas pontas do encalhe estrada afora. Se os barrancos não fossem tão altos, os jipes poderiam abrir desvios; mas, mesmo se os barrancos não existissem, existia a mata dos dois lados, alta de doer o pescoço e fechada de cipós. Sabiam bem que o atoleiro era filho das sombras daquela mata; como sabiam que, se não estivesse mais ali a mata, não seria uma terra tão boa de se plantar e nem eles estariam ali, então tornavam a temperar a raiva com paciência e continuava chovendo."


"É um restaurante triste de tão sujo, ao lado de um velho posto de gasolina; uma dona gorda atende no balcão, um moleque espera na caixa registradora. (...) O motorista e o cobrador se lavam e sentam, vem feijão com arroz frio, macarrão quase sem molho, uma bisteca fina e gordurosa, salada de tomate verde com alface murcha. Quase todos os passageiros pedem café com leite e compram pacotes de bolachas. Só o homem de paletó pede almoço. (...) Quando o motorista liga o motor lá fora, o de paletó resolve imitar o cobrador, enfia o bife no pão, deixa dinheiro na mesa e sai, vai até a janela do motorista: – Espera eu comer isto aqui fora, que aí dentro... (...) O motorista ri, desliga o motor. Os passageiros vão voltando para o ônibus, os últimos são o casalzinho; ele entra falando que calor, e ela fala alto que gente, nunca vi gente tão grossa. O motorista ri: – Ainda não viu nada..."





Presentes no livro Melhores contos (Global, 2005), páginas 59-60, 126, 40, 49-50, 112, 160, 27-28 e 80 a 82, respectivamente.



Seleta dos contos

01) Última viagem
02) Patê da paixão
03) O encalhe dos trezentos
04) A maior ponte do mundo
05) O último porco
06) Gente-grande
07) Minha estação de mar
08) Carlitos perdeu a graça
09) Volta ao mar
10) Guerra civil

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Orange Roots finaliza o álbum Fluid

Primeira aparição do Orange Roots na mídia
Jornal Correio - 05/05/2016
Nota de Verena Paranhos


Emmanuel Mirdad (compositor e produtor), Fabrício Mota (baixista),
Átila Santtana (guitarrista e produtor) e Iuri Carvalho (baterista) na
pré-produção final do álbum Fluid, no estúdio de Átila,
Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil, em 03/05/2016.


Fabrício Mota (baixista), Átila Santtana (guitarrista e produtor) e
Iuri Carvalho (baterista) na pré-produção final do álbum Fluid,
no estúdio de Átila, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil, em 03/05/2016.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Oito passagens de Aníbal Machado no livro Melhores contos

Aníbal Machado (foto daqui)


"Monjolo se anunciava por um som de sanfona que parecia o gemido constante do fundo do Brasil."


"Com os trinta e seis anos perdidos na Repartição, teria perdido também o dom de viver? (...) Muito próximo se achava ainda desse passado para não lhe receber a influência. A manifestação de despedida fora ontem mesmo. Cobriram-lhe a mesa de flores; saudou-o em nome dos chefes de serviço o diretor mais antigo, seu ex-adversário; falou depois um dos subordinados, estudante de Medicina; por último, uma funcionária, a Adélia, que usava decote largo, se referiu ‘à competência e exemplar austeridade do querido chefe de quem todos se lembrarão com saudade’. Uma menina, filha do arquivista, fez-lhe entrega de uma bengala de castão de ouro, com a data e o nome. E o Ministro mandou um telegrama. (...) Foi só. Estava encerrada a etapa principal e maior de sua vida. (...) Os decênios de trabalho monótono, de ‘austeridade exemplar’ como dizia Adélia, forjaram-lhe uma máscara fria. Atrás dela se escondeu e de si mesmo se perdera. Como fazer desaparecer-lhe os vestígios? Como se reencontrar? (...) Adélia não podia imaginar o que para ele representava a ‘exemplar austeridade’. Adélia jamais saberá o que ocorria na alma do antigo chefe quando os olhos deste passavam como um relâmpago pelo colo branco de sua subordinada; talvez nem ela pressentisse. Austero coisa nenhuma: desajeitado apenas, tímido: gostaria de poder fazer o que censurava nos outros."


"Senhor Juiz, sou engenheiro construtor de pontes. Procuro viver de coisas positivas e, tanto quanto possível, explicáveis. Não cultivo a atração do abismo. E o absurdo me aborrece. Se de meus pais herdei certa tendência para o sonho, eles próprios me preveniam contra as ciladas da imaginação. Também não sou amador de fatos estranhos da vida, posto que sempre aconteçam. Já disse que sou engenheiro e construtor de pontes. Sr. Juiz, há cerca de três meses desembarquei nesta cidade em busca de repouso. Estava esgotado, precisava refazer as forças. Desde criança, ouvira dizer que aqui ventava muito. E o nome deste lugar ficara-me na memória ligado à ideia de vento, como o de outros lugares à ideia de crime ou de tranquilidade colonial."


"Mais do que nunca, sentiu José Maria naquela noite a solidão da casa. Não tinha amigos, não tinha mulher nem amante. E já lera todos os jornais. Havia o telefone, é verdade. Mas ninguém chamava. Lembrava-se que certa vez, há uns quinze anos, aquela fria coisa, pendurada e morta, se aquecera à voz de uma mulher desconhecida. A máquina que apenas servia para recados ao armazém e informações do Ministério, transformara-se então em instrumento de música: adquirira alma, cantava quase. De repente, sem motivo, a voz emudecera. E o aparelho voltou a ser na parede do corredor a aranha de metal, sempre calada. O sussurro da vida, o sangue de suas paixões passavam longe do telefone de Zé Maria... (...) Como vencer a noite que mal começava? (...) Fechou o rádio com desespero, virou dois tragos de vinho do Porto, deitou-se. (...) O telefone toca. Quem será? Quem se lembraria dele? Algum convite? Trote? (...) – Alô, meu bem! (...) – Alô! Aqui fala José Maria. (...) – É engano, proferiu secamente a interlocutora. (...) Era engano! Antes não o fosse. A quem estaria destinada aquela voz carregada de ternura? Preferia que dissesse desaforos, que o xingasse."


"Lá fora o vento guaiava. Era agora um vento de tipo retórico e banal, o que ocorre em toda parte sem a menor afinidade com o outro, que era todo malícia, mocidade, fecundação. A discriminação gratuita entre as duas famílias de vento prendia-se no espírito do engenheiro às impressões deprimentes da chegada. Vestido como estava, dormiu. (...) Acordou antes da cidade. Abriu a janela. No lusco-fusco da madrugada, a cidadezinha era um amontoado triste de casas. Despertada dentro de algumas horas, ela começaria a desprender seus venenos, faria andar seu aparelho de compressão."


"Embora sede de comarca, era tão pequena a cidade que um grito ou gargalhada forte a atravessavam de ponta a ponta. Assim, não seria exagero supor que toda a população se achava reunida ali, àquela hora. (...) Os moleques tinham combinado uma vaia com busca-pés que o perseguisse durante o trajeto até o Hotel. Maltrapilhos e abandonados, brigavam sempre entre si, mas o fato de ter sido um deles a vítima, unia-os agora no ódio comum ao engenheiro. Disso tirou partido o próprio escrivão do crime com uma parcialidade que a população aplaudia, e que o juiz da Comarca, severo, mas sempre alto e distante no desempenho de suas funções, ignorava. (...) De tal juiz se dizia que era bom demais para aquele burgo. Seu vulto, seu saber e dignidade moral, suas nobres maneiras estavam a indicar-lhe o aproveitamento nalgum Tribunal superior, a que presidisse com beca romana e frases latinas. Nunca porém o quiseram elevar àquelas cumeadas. Sempre elogios, jamais a promoção. A política negava justiça a quem melhor a distribuía. Era voz geral que, desgostoso, pedira contagem de tempo para aposentadoria."


"O que mais o espantara no gesto de Duília – recordava-se José Maria durante a insônia, agarrando-se ao travesseiro – foi a gratuidade inexplicável e a absurda pureza. Ela era moça recatada, ele um rapazinho tímido; apenas se namoravam de longe. Mal se conheciam. A procissão subia à ladeira, o canto místico perdia-se no céu de estrelas. De repente, o séquito parou para que as virgens avançassem, e na penumbra de uma árvore, ela dá com o olhar dele fixo em seu colo, parece que teve pena e com simplicidade, abrindo a blusa, lhe disse: – Quer ver? – Ele quase morre de êxtase. Pálidos, ambos, ela ainda repete: – Quer ver mais? – E mostra-lhe o outro seio branco, branco... E fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando... (...) Só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade. Apenas uma vez, depois do acontecimento, avistara Duília. A moça se esquivara. Mas o que ela havia feito estava feito, e era um alumbramento."


"(...) Não pode ser crime dividir com quem quer que seja um entusiasmo maior pela chuva, pelo fogo ou pelas plantas..."






Presentes no livro Melhores contos (Global, 2001), páginas 66, 50-51, 28, 52-53, 22-23, 16 a 18, 62 e 44, respectivamente.




Seleta dos contos

01) Viagem aos seios de Duília
02) O telegrama de Ataxerxes
03) O iniciado do vento
04) Acontecimento em Vila Feliz
05) O defunto inaugural
06) O piano