quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Até breve, meu pai.

Ildegardo Rosa

13 de dezembro de 2011, às 8h40, meu pai, mestre, amigo-irmão Ildegardo Rosa, 80 anos, poeta, filósofo, advogado e mestre do Cooperativismo, finalmente conseguiu se esvaziar da matéria e partiu ao encontro de si mesmo, do divino e da eternidade. Foram 40 dias no deserto do hospital, e ontem, no dia de Santa Luzia e de Luiz Gonzaga, esse bravo sertanejo, o homem mais generoso, honesto, honrado, íntegro, solidário e de coração imenso que já presenciei nessa existência, pode descansar da matéria e vislumbrar o mistério que tanto ele filopoetou. Obrigado, Mestre Dedé, descanse em paz. Vou seguir teus ensinamentos com a graça suprema de ter sido seu filho-discípulo-irmão. Meu pai, até breve.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Intervalo: Dire Straits (show completo)



Esse show no programa Rockpalast em 1979 é um dos melhores do Dire Straits. Pra mim, essa 1ª formação era imbatível, com irmãos Knopfler nas guitarras, John Illsley no baixo e Pick Withers na bateria.

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sábado, 3 de dezembro de 2011

A Não Solução

LÄZRE - Ambiência 04 by blogelmirdad

Aperte o play e escute o poeta Ildegardo Rosa recitando o seu poema "A Não Solução", com as guitarras e melodia de José Enrique Iglesias (demo do projeto LÄZRE).


A Não Solução
Ildegardo Rosa

Não olhes para o alto
em busca de soluções
porque o alto é apenas
uma distância vazia
e inexpressiva...

Não olhes para a esquerda
ou para a direita
porque são apenas
posições relativas

Não olhes para trás
pois apenas
entortarás a cabeça
em busca de um passado
que não retorna jamais

Não olhes para frente
pois seguirás em vão
tua estrada
sem rumo e sem destino
que te conduzirás à morte

Olhe então
para dentro de ti
pois ai estará a solução
De que?
Só tu saberás!

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Bloguijabá: Festival Brainstorm 2011



Pra quem quiser ficar em casa, basta acessar o site e conferir ao vivo a transmissão do show de todas as 15 bandas do festival na íntegra e de graça.

Agora, pra quem estiver em Salvador, por apenas R$ 30,00 (vendas nas casas e na Ticketmix) você vai vivenciar uma experiência única de música, circulação e interatividade.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Recanto

ilustração: Mirdad


Recanto
Emmanuel Mirdad

serena
após tempestade
descansa os olhos em mim
e permite

"posso?"

deve
ser assim
que os gigantes
adormecem

de todos os bicos e brabos
sorrisos contidos, espertos, safos
murada e armada contra o previsível
mesmo com tamanha couraça
aqui você permitiu:

"essa serei eu"

é você
e eu vi.

quero ver ao vivo
se é tudo isso mesmo;
da enorme e mulher forte
há o querer de um colo

te dou,
sim.

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

FLICA 2011 foi um sucesso!

Mirdad, Aurélio Schommer, Marcus Ferreira e Alan Lobo,
os idealizadores e realizadores da Flica 2011 // foto: Vinícius Xavier


Caros leitores e passantes, justifico minha ausência por aqui por conta do intenso trabalho de produção da FLICA (Festa Literária Internacional de Cachoeira) 2011, a 1ª festa literária da Bahia, que foi um sucesso enorme! Confira aqui o comunicado oficial da Coordenação Geral e a cobertura oficial do evento pelo blog Flica.

Em breve, retorno às atividades por aqui.

E que venha logo a Flica 2012!!!

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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Bloguijabá: Putzgrillo! Cultura



A empresa baiana Putzgrillo! é formada por dois jovens comunicólogos formados pela Universidade Federal da Bahia (UFBA): o produtor Marcus Ferreira e o jornalista e produtor Emmanuel Mirdad, ambos com experiências diversas em atuações independentes no mercado cultural baiano desde 2003, que os impulsionaram a fundar uma empresa no ramo.

No mercado desde 2008, a Putzgrillo! é especializada na concepção e elaboração de projetos culturais, formatação e captação via leis de incentivo e editais, experiência e know-how de tramitação junto aos órgãos públicos de Cultura, contratação de serviços, atrações e equipe profissional para a realização de todas as etapas dos projetos em execução.

O ramo cultural da música é a área de atuação da Putzgrillo!, que tem experiência em realização de shows, festivais e premiações, agenciamento de artistas, gravações e lançamentos de obras. Entretanto, a partir de 2011, a empresa expandiu suas ações para o meio literário, e em breve promoverá ações na área do pensamento científico também.

A partir de 2011, a Putzgrillo! assumiu a postura de trabalhar essencialmente com os projetos criados exclusivamente por sua equipe, ou em sociedade/parceria com outras jovens empresas (ex: Ginga P., Multi e VDM Entretenimento) e produtores/empresários do mercado cultural baiano.

Seguindo esta orientação, a Putzgrillo! assumiu a meta de ser uma produtora de festivais, aproveitando a experiência de execução de projetos patrocinados pela iniciativa pública e privada, concentrando seus esforços na consagração de seu portfólio, sempre com criatividade e inovação na concepção, profissionalismo e responsabilidade na execução, e coerência e transparência na prestação de contas, garantindo assim a credibilidade da empresa ao honrar seus compromissos com os patrocinadores, terceirizados, público e atrações envolvidas.






No último trimestre de 2011, a Putzgrillo! vai realizar a 1ª edição dos projetos “FLICA - Festa Literária Internacional de Cachoeira” (de 11 a 16 de outubro, 1ª festa literária da Bahia), “Festival Brainstorm - Música, Circulação e Interatividade” (no início de novembro) e “Santo Antônio Jazz Festival” (na primeira quinzena de dezembro), todos com patrocínio da empresa Oi e Governo da Bahia, além do projeto “Música no Cinema” (novembro a janeiro), com patrocínio da Vivo e Governo da Bahia.

Os principais projetos já concebidos e realizados foram: II Semana Cultural de Uauá (2008), Prêmio Bahia de Todos os Rocks - 1ª e 2ª Edição (2008/2010), Cerimônia de premiação do VII e VIII Festival de Música Educadora FM (2009/2010), as exposições “Minêu - Humor Gráfico e Cotidiano” e “Eles Estão Entre Nós - Artefatos e Evidências do Rock Baiano” (2009), Lançamento do DVD Bogary - banda Cascadura (2009) e Festival de Reggae do Pelô (2010), entre outros.

A Putzgrillo! desempenha as funções de coordenação geral, coordenação de produção, direção artística, produção executiva, assistência de produção, chefia de palco, criação, logística, planejamento, elaboração, formatação, captação e administração de projetos, edição, roteiro, coordenação e produção de conteúdo, produção de releases e locução.

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sábado, 20 de agosto de 2011

The Moon




The Moon
Emmanuel Mirdad

A lua nasce dentro de mim
Luz pálida, fluorescente, de farol distante
Gude carambola solitária
Recheada de fábulas que desprezo
Mas que orbitam em minhas paranoias presentes
A mirar a mente ao rumo para fora do túnel

Lua,
Aqui dentro é escuridão
Lá fora o caos das cores e pulso
Sugestão e vida, moeda de tostão
É preciso furar e linkar os hipertextos
Em um elo uno - não farei

Estradar será o eclipse
Não serve a lua caso a mistura se cumpra
Prefiro claro-fora, escuro-dentro
E a bola de gude carambola a pairar como um símbolo
Fogo fátuo elevador saída do poço
Ilustração

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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mil Pedaços Giz (Mirdad - Banzo)




Mil Pedaços Giz

Emmanuel Mirdad

Esperando por mim, quase sem querer,
vinte e nove índios, há tempos!

Por enquanto, eu sei:
Tempo perdido o teatro dos vampiros
- Baader-Meinhof blues

Natália vai
Clarisse trai
Andrea sai
E a Leila? Não.

Quando você voltar (uma outra estação),
Depois do começo, mais do mesmo!

Vento no litoral, la maison dieu:
A tempestade sereníssima
Ainda é cedo

Natália vai
Clarisse trai
Andrea sai
E a Leila? Não.

Será a montanha mágica?
Quando o sol bater na janela
Do teu quarto o mundo anda tão complicado!

Só por hoje marcianos invadem a Terra;
As flores do mal, o livro dos dias, a via láctea
- "Feedback Song for a Dying Friend"

Perfeição: acrilic on canvas!
Antes das seis, vamos fazer um filme?

Perdidos no espaço, l'avventura do espírito
Metal contra as nuvens, que país é este?

Natália vai
Clarisse trai
Andrea sai
E a Leila? Não.

(28/06/2011)

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A letra (+ o título) desta canção é uma edição que traz o título de 44 músicas da Legião Urbana, consideradas fundamentais pelo legionário Mirdad.

Em 2011, serão 15 anos sem o referencial líder da Legião Urbana, Renato Russo, morto em 1996 por complicações da AIDS.

As 44 canções foram:

01) Mil Pedaços (A Tempestade, 1996)

02) Giz (O Descobrimento do Brasil, 1993)

03) Esperando por Mim (A Tempestade, 1996)

04) Quase sem Querer (Dois, 1986)

05) Vinte e Nove (O Descobrimento do Brasil, 1993)

06) Índios (Dois, 1986)

07) Há Tempos (As Quatro Estações, 1989)

08) Por Enquanto (Legião Urbana, 1985)

09) Eu Sei (Que País é Este, 1987)

10) Tempo Perdido (Dois, 1986)

11) O Teatro dos Vampiros (V, 1991)

12) Baader-Meinhof Blues (Legião Urbana, 1985)

13) Natália (A Tempestade, 1996)

14) Clarisse (Uma Outra Estação, 1997)

15) Andrea Doria (Dois, 1986)

16) Leila (A Tempestade, 1996)

17) Quando Você Voltar (A Tempestade, 1996)

18) Uma Outra Estação (Uma Outra Estação, 1997)

19) Depois do Começo (Que País é Este, 1987)

20) Mais do Mesmo (Que País é Este, 1987)

21) Vento no Litoral (V, 1991)

22) La Maison Dieu (Uma Outra Estação, 1997)

23) A Tempestade (Uma Outra Estação, 1997)

24) Sereníssima (V, 1991)

25) Ainda é Cedo (Legião Urbana, 1985)

26) Será (Legião Urbana, 1985)

27) A Montanha Mágica (V, 1991)

28) Quando o Sol Bater na Janela do teu Quarto (Que País é Este, 1987)

29) O Mundo Anda tão Complicado (V, 1991)

30) Só por Hoje (O Descobrimento do Brasil, 1993)

31) Marcianos Invadem a Terra (Uma Outra Estação, 1997)

32) As Flores do Mal (Uma Outra Estação, 1997)

33) O Livro dos Dias (A Tempestade, 1996)

34) A Via Láctea (A Tempestade, 1996)

35) Feedback Song for a Dying Friend (As Quatro Estações, 1989)

36) Perfeição (O Descobrimento do Brasil, 1993)

37) Acrilic on Canvas (Dois, 1986)

38) Antes das Seis (Uma Outra Estação, 1997)

39) Vamos Fazer um Filme (O Descobrimento do Brasil, 1993)

40) Perdidos no Espaço (Legião Urbana, 1985)

41) L'avventura (A Tempestade, 1996)

42) Do Espírito (O Descobrimento do Brasil, 1993)

43) Metal Contra as Nuvens (V, 1991)

44) Que País é Este? (Que País é Este, 1987)

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Dormingo (Mirdad - Banzo)




Dormingo
Emmanuel Mirdad

Ei você que tanto me disse
“Eu te amo, minha vida, meu amor”
E agora nem me atende mais
Não há o que fazer, apenas ter que aceitar

Como faz?
Como faz pra te esquecer?

Hoje é domingo, chove lá fora
E você deve estar com um novo amor, as mesmas palavras
Já a minha vida ficou paranoica
Uma fissura interminável a projetar frustrações

Tanto faz
Tanto faz s’eu desaparecer

Ei você que tanto me amou
E agora finge não me ver só pra não ter que dar um bom dia
Não consigo entender como alguém pode apagar tão facilmente
Se nós juramos um amor pra além da vida

Ainda te amo, ainda te quero, ainda sonho
Viver com você, por você

(05/06/2011)

domingo, 5 de junho de 2011

É Grave

Palmeira, de Suzanne Bouron


É Grave
Emmanuel Mirdad

Circulamos juntos em uma mesma órbita
Mas a força que nos prega ao solo
Impossibilita a ampliação dos horizontes
E nos restringe a um lidar horizontal

Enquanto as dimensões são conectadas em um tecido fluido
De milhões de elos multidirecionais de possibilidades
Pobre de nós, retilíneos de vai e vem
Em uma ilusão pouca de que circulamos numa gangorra
- o mundo é que gira, lé com cré.

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terça-feira, 31 de maio de 2011

Ressaca (Mirdad - Banzo)




Ressaca
Emmanuel Mirdad

Busquei essa música porque eu tô na merda, eu sei
Mais uma vez, o amor é reles tralha, meu bem
E você categoricamente me descarta como se tudo fosse substituível
Como peças de uma lógica mesquinha
Tão simplista que eu...

Nunca mais!

Destacou-me de sua coleção de crias
Mais um verme a mendigar idolatria
E você inexoravelmente me despacha como se desse uma descarga
No mais sujismundo e inútil sentimento incompatível à razão
Não! Eu...

Nunca mais!

A dor que eu sinto é só minha
Não vou dividir porque só ela me alimenta
Sofrer por amor é tão digno quanto kitsch

Nunca mais!

(30/05/2011)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Intervalo: Foo Fighters



Não, eu não comprei um Claro.

É que voltei à questão de 2009:

"...Do I stay or run away and leave it all behind?
It's times like these you learn to live again..."

Quem dera fosse uma reta, mas é uma maldita montanha-russa. Vai subir, ah, se vai!
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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Forever Alone

tirei daqui


Forever Alone
Emmanuel Mirdad

Eu curto só;
Ninguém pode tuitar minhas visualizações
Esse orkuticídio de toda uma geração
Trollada num TT de mimimi's

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Fotocronicando

foto: Mirdad


Encerro agora a série "Fotocronicando" que, em 50 posts, retratou minhas asneiras em instantâneos noiados.

Saravá!

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Fotocronicando #50

foto: Mirdad


Enxergo mais o outro lado que os tijolos.

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Fotocronicando #49

foto: Mirdad


O mais difícil é lavar roupa suja consigo mesmo.

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Fotocronicando #48

foto: Mirdad


Farelo pouco meu bico primeiro.

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Fotocronicando #47

foto: Mirdad


Galinhas no varal.

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Fotocronicando #46

foto: Mirdad


Quase "sem legenda" por um mero detalhe. Qual?


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Fotocronicando #45

foto: Mirdad


A estrela tem que me elevar mais que a cruz.

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Fotocronicando #44

foto: Mirdad


O soberano do porto é o dinossauro que estátua.

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Fotocronicando #43

foto: Mirdad


Pra me convencer que é arte basta argumentar.

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Fotocronicando #42

foto: Mirdad


Vou zigazear meus passos na direção do infinito.

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Fotocronicando #41

foto: Mirdad


Minha cabeça guarda esta pilha
melhor que num pendrive.


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Fotocronicando #40

foto: Mirdad


E a sereia pediu 2 altos e voltou pra casa.

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terça-feira, 10 de maio de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

Repreensão, Amor e Outros Bregueços

Ilustração de Marceleza de Castilho


Repreensão, Amor e Outros Bregueços
Emmanuel Mirdad

Não fique em casa enquanto a vida passa e não volta
Não reclame da vida enquanto tantos doentes sofrem
Não curta a fossa enquanto muitos sentem fome
Não gaste o seu o tempo à toa porque eu ainda estou aqui
E quero o seu bem porque te amo

Eu fico em casa pra esperar o boomerangue e embarcar
Reclamo porque é minha e não há processo que me pague os abusos
Da fossa onde às vezes habito, descanso confortável e chapado daqui
Se alguém sente fome e não vejo, logo não existe e prossigo infeliz
Você logo passará, e depois eu e todos os outros e seus bregueços
Ainda bem que eu também te amo.

Este tempo é sempre à toa.

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sábado, 23 de abril de 2011

Pílulas: Ferreira Gullar

interferência: Mirdad


Vejo Ferreira Gullar e me lembro de meu pai; cara de carranca e cabelos grandes, magro, filopoeta e contestador. São contemporâneos de nascimento, dos longínquos anos 30; nos 80 anos do poeta maranhense, estive presente na inesquecível mesa festa dedicada a ele na Flip 2010, e a poucos metros do futucador José Ribamar, só pude lembrar-me do sergipano Ildegardo, que fará 80 logo mais em outubro.

Dentro da Noite Veloz, sabiamente recomendado ainda no colégio, apresentou-me o trabalho de Gullar, mas foi Poema Sujo que me chocou e formou meu gosto por poemas para muito além da forma e prepotência; é o jorro que importa, os enquadros que fotografam o que todo mundo vê, mas quase ninguém eterniza.

Recentemente fiz um teste; na prateleira de “poesia” da Livraria Cultura, pus-me a ler diversos poetas, e o único livro que comprei, satisfeito com o que rapidamente li, foi Em Alguma Parte Alguma, o mais recente do ilustre José Ribamar, o Ferreira Gullar. Abaixo, seguem pílulas que captei na primeira leitura desta bela obra.

"...

O poema antes de escrito não é em mim mais que um aflito silêncio ante a página em branco.

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O poeta que grita, erra, e como se sabe, bom poeta (ou cabrito) não berra.

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O poeta não revela o oculto: inventa, cria o que é dito (o poema que por um triz não nasceria)

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O poeta inventa o que dizer e que só ao dizê-lo vai saber o que precisava dizer ou poderia, pelo que o acaso dite e a vida provisoriamente permite.

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Meu assunto por enquanto é a desordem, o que se nega à fala, o que escapa ao acurado apuro do dizer; a borra, a sobra, a escória, a incúria, o não caber.

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Por mais que diga e porque disse, sempre restará no dito o mudo, o por dizer, já que não é da linguagem dizer tudo.


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A fala é só rumor e ideia; não exala odor (como a pera) pela casa inteira. A fala, meu amor, não fede, nem cheira.

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A mais dura parte de mim dura mais do que tudo o que ouço e penso, mais do que tudo o que invento e minto; este osso, dito perônio, é, sim, a parte mais mineral e obscura de mim, já que à pele e à carne irrigam-se o sonho e a loucura.

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Que a sorte me livre do mercado e que me deixe continuar fazendo (sem o saber) fora de esquema meu poema inesperado.

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A parte mais efêmera de mim é esta consciência de que existo... e mais estranho ainda me é saber que esta consciência dura menos que um fio de meu cabelo.

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A poesia é, de fato, o fruto de um silêncio que sou eu, sois vós, por isso tenho que baixar a voz porque, se falo alto, não me escuto.

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Bananas azedam em suas roupas negras e ali na polpa, o açúcar acelera a vertigem em direção ao caos, ou seja, a uma aurora outra, sem luz, quando a forma se desfaz em água chilra.

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Indiferente ao suposto prestígio literário e ao trabalho do poeta à difícil faina a que se entrega para inventar o dizível, sobe à mesa o gatinho; se espreguiça e deita-se e adormece em cima do poema.

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Do fundo das gavetas, de dentro de pastas e envelopes, do fundo do silêncio encardido em folhas de jornal de um tempo ido, ali regressa à luz, puído, o murmúrio inaudível das vozes no mofo impressas mudas ainda que plenas de retórica.

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O homem é uma aflição que repousa num corpo que ele de certo modo nega, pois que esse corpo morre e se apaga.

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Assustado e mudo, bem menor que um ínfimo grão de poeira, contudo, sou capaz de apreender, no meu íntimo, essas incontáveis galáxias, esses espaços sem fim, essa treva e explosões de lava. Como tudo isso cabe em mim?

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E então me digo: se o mundo dura tanto e eu tão pouco, importa pouco se ele não for eterno.

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Onde o morto deitou-se quando vivo, na cama de hospital, não resta rastro, nem resta mesmo a cama, os lençóis que o leito foi desfeito e refeito para outros que ali morreram sem deixar marca.

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O futuro não está fora de nós, mas dentro, como a morte que só nos vem ao encontro depois de amadurecida em nosso coração. E no entanto, ainda que unicamente nossa, assusta-nos.


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Verdade é que cada um morre sua própria morte, que é única porque feita do que cada um viveu.

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Infinita é a mistura de carne e delírio que somos e, por isso, ao morrermos, não perdemos todos as mesmas coisas, já que não possuímos todos a mesma quantidade de sol na pele, a mesma vertigem na alma, a mesma necessidade de amor e permanência.

..."

Íntegra do poema Nem Aí..., e fragmentos dos poemas Fica o Não Dito por Dito, Desordem, Reflexão Sobre o Osso da Minha Perna, Off Price, Perplexidades, Falar, Bananas Podres 5, Falas do Mofo, Uma Pedra é Uma Pedra, Universo, A Relativa Eternidade, Vestígios e Rainer Maria Rilke e a Morte, todos integrantes do livro Em Alguma Parte Alguma (2010), de Ferreira Gullar, editora José Olympio. Compre o seu aqui.


Em Alguma Parte Alguma


Release

Após dez anos da publicação de seu último livro de poemas, Muitas vozes, Ferreira Gullar entrega ao público, agora, este Em alguma parte alguma, em que dá prosseguimento à reflexão poética sobre a existência. Este difere dos livros anteriores, no desenvolvimento de novos temas e, sobretudo, pelas questões que suscita na realização do poema.

É ele mesmo, o autor, quem costuma assinalar, como característica de sua produção poética o fato de que, sem que o busque deliberadamente, cada um de seus livros de poemas difere do outro, bem mais do que costuma ocorrer num mesmo autor. Faz questão de assinalar que não planeja seus livros de poemas, sendo eles, portanto, resultado da própria indagação poética e da reflexão sobre a vida e sobre seu trabalho de poeta.

Ferreira Gullar afirma que o seu poema nasce do “espanto”, quando inesperadamente depara-se com um aspecto inesperado do real e, a partir daí, vão se sucedendo os poemas, até que a motivação se esgote. Isso explica a recorrência de determinados temas, que, tempos depois, voltam a ganhar atualidade.

Nestes últimos anos, a obra de Ferreira Gullar, já consagrada pela crítica e pelos leitores, foi distinguida com prêmios de alta significação na vida cultural, como o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e, este ano, com o Prêmio Camões, a mais alta distinção que se concede a escritores de língua portuguesa. Gullar foi também indicado para o Prêmio Nobel de Literatura, em 2002 e 2004.


O livro pelo próprio autor
(retirado daqui)

"["Em Alguma Parte Alguma"] predomina uma certa relação entre ordem e desordem. Eu escrevi no limite da ordem, ou seja, no limite da desordem. A maneira de fazer os poemas foi diferente, mais desordenada.

Comecei a escrever sem saber o que iria acontecer, sem planejar nada, sem preconceber. A poesia foi para mim uma grande aventura. Ao contrário dos outros livros, em que os poemas já nasciam quase prontos, já que ficava sempre refletindo e elaborando antes de escrever. Já hoje começo sem saber o que vai acontecer. Tanto que o primeiro poema, que abre o livro, tem o nome "Fica o Não Dito por Dito". Eu tô dizendo que, já que não posso dizer o que quero dizer, faz de conta que eu disse"

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terça-feira, 12 de abril de 2011

Chora Guitarra

David Gilmour, o único guitarrista que me faz chorar


Chora Guitarra
Emmanuel Mirdad

O fluido rosa escorre tímpanos adentro
Dissoluto em vibrações hipnóticas
Derrete a matéria compactada pela equação
E frita as conexões, confortavelmente enigmático

Eu vou
E choro ao me desprender
Ali, do lado de fora
Há alguém que só sou quando chapo
De som e olhos cerrados

Gilmour finaliza o solo
Mas cadê o solo?
Não autorize meu pouso
Estou às avessas
De volta da volta à vida
Repleto de esperanças contra o muro

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segunda-feira, 4 de abril de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

The Orange Poem, 10 anos do primeiro ensaio

Hosano, Rajasí, Mirdad, Zanom e Fábio;
a estreia da banda the orange poem em 31/03/2001
foto: Gutemberg


Bahia-Salvador-Pituba, tarde de sábado ensolarado, 31 de março, 10 anos atrás. Em frente ao matagal que muitos anos após se tornaria a Praça Ana Lúcia Magalhães, nos fundos de um pequeno condomínio comercial, havia um mofado e micro estúdio de ensaio, chamado então de JAM Studio, de posse de um cara carrancudo chamado Júnior. Ao custo de R$ 25,00, o período de ensaio seria de 3 horas, das 15h às 18h, mas devido a uma série de atrasos e arrumações dos músicos, só começou mesmo 45 minutos depois do programado.

Marcus (nome real de Zanom, na época apelidado de Jesus - menos por Fábio, que sempre se recusou de chamar alguém pelo nome do seu Senhor), Hosano, Fábio e Rajasí; quatro pessoas completamente distintas, que mal se conheciam e não tinham amigos ou objetivos em comum, reunidas quase à força da persuasão insuportável do sonhador alucinado Mirdad - eu mesmo. Era a estreia, o primeiro ensaio da finalmente banda the orange poem (desde o final de agosto do ano 2000 qu’eu tentava montá-la).


O 1º encontro pra valer de Zanom e Fábio, os guitarristas TOP


Jesus (aka Zanom) chegou de busú, vindo de Itapuã, vestido com uma camisa com estampa do xará famoso, e um short desses “de dormir” + sandália - visual mendigo nem aí. Fábio levou um amigo, Gutemberg, que além de motorista de todos até o estúdio, fez a única foto da banda completa, na máquina analógica emprestada pela minha namorada da época. Hosano chegou ao estúdio com sua Pampa velha, que tanto deu carona para os músicos laranjas no início, vindo do trampo na loja de fogões do pai. E o tímido Rajasí Vasconcelos, primeiro baixista do TOP, veio da Federação de carona com o baterista, após dar um chá de cadeira considerável que quase fez Hosano largá-lo por lá mesmo (a estreia perigou de ser sem baixista, esse eterno calo laranja).


O baterista TOP Hosano Jr.


Os amigos Mirdad e Rajasí V., 1º baixista TOP


O ensaio aconteceu sem o meu violão 12 cordas, que ninguém conseguiu afinar a tempo, mesmo com o afinador eletrônico disponível. Ensaiamos 7 músicas, na seguinte ordem: “Wideness”, “Last Fly”, “A Song to You, My Home”, “Diet of Dust”, “Dubious Question”, “New Help” e “What Would Be Tears Without Lies?” (canção punk-reggae, a única desta lista que não foi gravada no 1º CD do TOP). E o meu onipresente gravador AIWA de fita K7 registrou todo o ensaio, iniciando sua longa jornada de acúmulos fortuitos e quase inaudíveis do arquivo laranja.

Com a falta do violão (“Last Fly” teve a pior execução; inclusive o TOP demorou a compreendê-la - apenas a partir do 8º ensaio que ela foi acontecer), as músicas mais pesadas salvaram a harmonia entre os músicos, que surgiu logo de cara, principalmente entre Hosano e Fábio, que era o único a solar, por enquanto. Conforme escrevi no diário TOP em 2001, “todos estavam felizes e radiantes, tocando bem até nos erros; um ótimo começo e entrosamento entre tantos estranhos” e “final de ensaio, menos R$ 5,00 no bolso de cada um, mas com as almas preenchidas de um valor incalculável de emoção, o baterista encerrou o 1o encontro do poema laranja dando carona para todo mundo; Raj ficou no Shopping Itaigara esperando o pai, Jesus no ponto de ônibus (deixando sua guitarra na mão de Mirdad, já que voltaria pra Itapuã, fato que se repetiu muitas vezes), e tanto o poeta quanto o pastor Fábio em casa”.


the orange poem em 2001,
com Álvaro Maia no lugar de Rajasí V.


Resguardadas as devidas proporções, eu montei o TOP com a mesma intenção que Jimmy Page montou o Led Zeppelin. O problema foi que eu nunca tive um Peter Grant, além de que a origem nossa era baiana, e os anos 70 já tinham passado há 30 anos. Simples, não?

Meu portal indicava a wonderland britânica para migrar, e pra isso se concretizar, precisava estruturar o som laranja por aqui mesmo; mesmo se nenhum dos meus companheiros de banda fosse comigo, ao menos levaria o trabalho pronto pra arrumar uns gringos por lá e continuar o sonho. Isto porque, para Zanom e Hosano, tocar no TOP sempre foi diversão, e Fábio vivia em uma Neverland tão longínqua, que era difícil maturar o que de real ele buscava; sonhava muito mais que eu, e não sabia como buscar.

A Orange Poem foi na contramão do que as bandas normalmente realizam. Formada por desconhecidos do cenário e entre si mesmos, partiu para a construção de um repertório autoral, voltado à gravação de um CD, para então forçar a migração para Londres e, sabe-se lá como, fazer carreira e ter sucesso internacional. Ou seja, éramos os autistas do cenário rock dos anos 2000. Fato: eu era MUITO ingênuo.

Assim, passamos o ano de 2001 inteiro ensaiando o mesmo repertório. Rajasí saiu por motivos pessoais, e o amigo de colégio PhD, Álvaro Maia, assumiu o lugar (baixista com histórico de várias bandas). Gravamos uma demo horrorosa no finado estúdio Aquarius (Rua Umbaranas - Rio Vermelho), do camarada Herbert, e no início de 2002, por intermédio do recém-amigo faconiano Rogério Alvarenga, o então Brit Producer, fizemos o 1º show TOP, no também finado Café Cultura, Rio Vermelho. Dividimos o palco com outras bandas, entre as quais, a Starla, que ainda resiste, sazonalmente.

O diferencial desse show foi a noite “Syd Barrett” total de Álvaro, que inacreditavelmente se esqueceu de todas as músicas. Natural que depois disso, ele não quisesse ficar mais na banda. Para o seu lugar, eu encontrei por acaso e apostei todas as fichas em um menino promissor. Pois não é que Artur Paranhos estabilizou nosso eterno problema com baixistas, tocando por três anos seguidos na banda, gravando nos dois discos, e profissionalizando sua vida no meio musical por estímulo indireto da laranja? Ele, que entrou “piscando” num ninho de sagazes, pouco tempo e muito estudo depois, passou a ser o músico mais monstro do TOP.


the orange poem antes de tocar na Facom (2002),
com Artur Paranhos no lugar de Álvaro M.


Continuamos então ensaiando o mesmo repertório pelo ano de 2002 inteiro, até que um novo show aconteceu, apenas em outubro, por pura vaidade minha. Era um festival promovido pela nova gestão do centro acadêmico da Facom, com “grandes” nomes do cenário alternativo, como Karuara, The Honkers e Radiola, e expectativa de grande público. Exibicionista, quis mostrar ao mundinho alterna que eu tinha uma banda de rock “foda”. E fizemos um bom show, “filmado” numa incrível e contemporânea linguagem cinematográfica de vanguarda pelo amigo irmão Rodrigo Minêu - a banda é apenas um borrão longínquo a metros de distância, por trás de diversas cabeças da plateia (a partir desta, meu caro amigo prestou inúmeros favores de registro audiovisual para o TOP).


the orange poem em 2003
ensaio fotográfico de Mark Dayves


2003 chegou e passou e o repertório continuou o mesmo. A única novidade foi mais um show TOP produzido pelo amigo Rogério Alvarenga; desta vez, no badalado Havana Bar, Rio Vermelho. Era a festa de lançamento do site Music Box, e a hypada Soma iria tocar, e a ‘Titãs’ (pela quantidade de componentes) de Salvador também: A Grande Abóbora, da musa dos indies Nanda, e do amigo de todos, Borrão. De boa, foi a resenha pós-show de Luciano Matos, que tachou a TOP de “instrumental bacana, com vocalista afetado”. Não fui tirar satisfação pessoalmente com ele nos corredores da Facom? Isso depois virou uma piada interna. Também pudera, né? Cheguei ao ponto de quase (quase MESMO) me atirar janela pra Dinha abaixo. Arrependo-me; deveria ter feito!

Ainda em 2003, cheguei a produzir um DVD demo, com uma bisonha entrevista com os laranjas. Aliás, este trabalho é a síntese de nosso autismo em relação a qualquer coisa do meio musical, amador ou profissional. Ao menos em 2004 a ficha caiu; chega de demos, vamos juntar grana pra gravar profissionalmente o nosso 1º CD - inacreditavelmente com o mesmo repertório since 2001. Como fazer isso? Vamos tocar - ô, ilusão!


the orange poem em 2004
temporada de shows no Tangolomango Bar
foto: Rui Rezende


Não seria mais um show produzido por outros; na megalomania de sempre, a produção seria minha, shows da TOP com convidados e mais uma parafernália de cultura, exposição, vídeos, literatura, artes em geral, transformando o micro Tangolomango Bar, na Pituba, em um “gueto cultural”, fervendo e bombando de gente hypada. AHAHAH. Tá, sei. Ao menos quando saí da casca, vislumbrei uma ação coletiva, explorando a interação entre as artes. O mais engraçado foi que convenci Bruno, o então dono do bar, a investir (leia-se fazendo os cartazes e abrindo o bar no domingo à tardinha) nessa doideira de um produtor com experiência ZERO na área - muito pior: em multi-áreas.

Aos trancos e improvisos e quebra-galhos depois, consegui produzir sete edições do projeto “Agente Laranja Gueto Cultural”, e nenhuma delas deixou de ter ao menos uns quadros ou ilustrações expostas nas paredes do bar (o primeiro show rolou até presença de Wladimir Cazé e suas Edições K). Em ordem, tocaram A Dama e os Vira-Latas, Besouros do Sertão, Indústria Cultural, Jimmy Six, Zero Kelvin, Pangenianos, Soma e Paladinos. E o TOP? Mais uma vez, apenas tocou, mesmo a contragosto de Fábio, que sonhava em palcos gigantescos de estádios, e acordava no chão do Tangolomango, já que o palco triangular e micro só cabia Hosano, Artur e Zanom espremidos.

O tal projeto ALGC foi o maternal das produções para mim; foi a primeira vez que conheci outras bandas do cenário, e passei a compreender o be-a-bá do modus operandi do mercado musical, trabalhando como agente de shows para bandas alternativas, principalmente no Tangolomango e World Bar.


Capa do 1º álbum TOP
Shining Life, Confuse World (2005)


Shining Life, Confuse World foi gravado no verão 2004-2005, com o psicodélico (então barbudaço like Osama) Tadeu Mascarenhas, do estúdio Casa das Máquinas. Tomei a decisão de gravar com ele no dia em que o conheci. Quando entrei no seu micro cafofo (o estúdio funcionava nos fundos de sua casa, e era muito pequeno), e vi aquele cara barbudo-cabeludo, magricela figura made anos 70, com o poster do Ummagumma pregado na parede com os quatro magos do Pink Floyd olhando pra mim, não quis nem saber: “não preciso ouvir nada, vou gravar aqui”. Disse e agendei a gravação, sem mais.

Com dinheiro emprestado de meu pai, mais o que tinha juntado com MEU trabalho (os 7 shows do “Gueto Cultural” não renderam nada, e os músicos laranjas não botaram dinheiro algum na gravação), paguei inteiramente o álbum, que registrou o mesmo repertório de 2001 - maior erro de minha vida como produtor. E, para concretizá-lo como álbum, encomendei a prensagem de 1.000 cópias, com arte do encarte idealizada por mim e feita por Minêu (a foto da capa é da amiga de infância Ananda Marson), e patrocínio de empréstimo maternal + as últimas economias que tinha.


the orange poem em 2005,
com Fabrício Mota no lugar de Artur Paranhos
foto: Rui Rezende


A baixa de 2005 foi a saída de Artur Paranhos. Como tinha se profissionalizado, estava tocando em várias bandas (forró, axé, pagode, samba, etc.) como freela, e o tempo tinha ficado muito escasso. Isso me irritou na época; afinal, iríamos finalmente lançar um CD profissional, iniciando assim o ciclo mais próximo do real desse caminho das pedras da música. Anyway, obrigado e valeu. Quem substituiu o baixista mais laranja de todos foi o groove man rasta Fabrício Mota, o Big, amigo de Zanom da banda Solo Pedregoso, que topou fazer o som num esquema “só parece músico contratado” - não botaria dinheiro algum e nem teria custo, mas também só receberia se os shows dessem grana, entrando na divisão com os demais.

Para marcar o lançamento do Shining Life, Confuse World, montei uma “temporada” de quatro shows TOP no World Bar, que ficava na Barra, e foi tranquilo em conseguir porque já trabalhava como produtor das noites de lá em 2005. O evento se chamou Laranjada Rock, e mais uma vez era show da laranja e outras bandas. Em ordem, tocaram Vinil 69, Sétimo Sentido, Instinto Coletivo (de Maragogipe, banda do amigo Daniel S.A.), Pangenianos, Besouros do Sertão, Paladinos e Sócrates. Sobre o evento, segue o que escrevi no diário TOP em 2005:

Depois do fracasso do Laranjada Rock, Mirdad não queria mais produzir nenhum show TOP em Salvador. Tinham chegado ao limite. Em tantos anos de existência, e depois da interação do poeta ao cenário rock baiano e às produções musicais, ainda assim, nenhuma banda de Salvador chamava o poema para fazer show, até mesmo como um convidado sem ganhar nada. Era como se o TOP não existisse. Ninguém convidava pra nada ... Com o passar dos dias e o fracasso de público do Laranjada Rock e quase nenhum respaldo ganho na cena rock de Salvador com o lançamento do CD, o poeta preferiu rever o impulso e retirar das lojas os CDs, para não ter que passar pela humilhação de ouvir, via telefone quando ligasse pra saber das vendagens, algo do tipo: ‘vendeu nada’”.

As caixas do Shining Life, Confuse World até hoje entulham o quarto dos fundos. Foram pouquíssimos CDs vendidos, alguns divulgados, e nenhum distribuído. Dei uma caixa (com 150 cópias) para Fábio, outra para Zanom, e o resto foi arquivado. E, no final de 2005, a única certeza que tinha era fazer o êxodo para Londres de qualquer maneira em 2006, que era chamado por mim de “o ano redentor”. No último ensaio do ano, Artur Paranhos reassumiu o baixo como convidado (em 2005, a Orange Poem passou a ser um quarteto), gravando no 2º CD.

Hosano confirmou que iria se mudar para São Paulo no segundo semestre de 2006. Como seria o semestre de minha conclusão de curso na Facom-UFBA, percebi que teria de adiantar a gravação do 2º CD, Sleep in Snow Shape, ainda no 1º semestre. Analisando com calma, avaliei que o 1º CD era fraco (salvo canções como Last Fly, Rain e Wideness), e não representava a cara do som da laranja q’eu queria divulgar pelo mundo. O resumo desse pensamento foi que gravamos as mesmas 12 músicas do repertório montado em 2001; erro grave e crasso. Então, para poder realizar o êxodo, me esmerei na produção e voltei em abril ao Casa das Máquinas, de Tadeu Mascarenhas, para gravar um álbum que retratasse qual é a cara do Orange Poem.




Artur, Tadeu, Fábio, Mirdad, Hosano, Fabrício, Zanom e Rajasí
gravação Sleep in Snow Shape em 2006


Considero que, como produtor musical do álbum (auxiliado de forma precisa e engajada por Tadeu), tive sucesso; Sleep in Snow Shape contém a essência do TOP, com participações especiais de músicos envolvidos com a história laranja, como Rajasí, Fabrício, Gabriel Franco e o próprio Tadeu. Mas o tempo gasto para finalizá-lo foi enorme para o que estava inicialmente pretendido; começou em abril e terminou no início de outubro, um dia antes do meu aniversário.

Nesse ínterim, Hosano se casou com Manoela e se mudou para São Paulo; a sua despedida foi num show no dia 15 de julho no Tangolomango Bar, com as bandas que tocava: Mamutes e Besouros do Sertão. Aproveitando o momento, tentei fazer um show do TOP também, mas Fábio furou e Zanom não pode. Ao menos Artur apareceu, e na formação de power trio, o TOP fez seu último “show”, com o amigo Júnior Capitão Parafina improvisado na guitarra emprestada do amigo da Besouros Enzo Richards. Olha só o que escrevi no diário TOP:

A partir daí, esculhambações mil. Mirdad perguntou se mais alguém no bar sabia tocar. Um guri bêbo subiu, e se embolou todo. Júnior (Capitão Parafina) até que tentou ensinar, mas não adiantou. O poeta, encarnando um showman de auditório, teve que se virar pro clima não cair. Capitão Parafina de volta na guitarra, puxaram “Born to be Wild”, clássica música da amizade de ambos - Mirdad já deu canja nela algumas vezes em shows da banda do figuraça, com o vocal sempre dividido, loucura total. O poeta se jogou no chão, fez presepada com o público, subiu na bateria e quase perdeu a cabeça no ventilador. Aí, viu que não dava mais para laranjar nada, e puxou mais um cover. Qual? A clássica “Confortably Numb”, com um outro bebo na guitarra, no lugar de Júnior, que arriscou cantar também. Mas quem solou no final? Artur, improvisando tudo, mostrando que tava tocando pra caralho. A partir daí, só sequelas. Virou um enorme karaokê, com Júnior no comando da guitarra, voz e vários clássicos do rock’n’roll. Artur e Hosano se virando, Mirdad na perturbação junto com Enzo, simulando um backing vocal. Por fim, a última esculhambação da noite foi o clássico do grupo Forró di K, o megahit “Fordi K”, cantado em coro por todo mundo, com vários casais dançando aquele xote improvisadérrimo!”.


Capa do 2º álbum TOP
Sleep in Snow Shape (2006)


Pois a gravação e finalização do Sleep in Snow Shape gastou todo o ano de 2006, dando tempo pra muita coisa se modificar em minha cabeça. Com a ida de Hosano pra Jundiaí, passei a cogitar o êxodo laranja pra São Paulo ao invés de Londres. Tentei por contatos esparsos e sem peso divulgar o trabalho da banda, mas houve um distanciamento de Fábio, o que enfraqueceu ainda mais o projeto Europa. E como a minha relação com a namorada da época tinha engrenado, a ponto d’eu cogitar casar e constituir família, decidi:

10 de novembro, à tarde. O poeta, que vinha em profunda reflexão por esses tempos, tomou uma radical decisão: iria encerrar o TOP. Quase seis anos depois, era muito claro que não apareceria nenhum salvador da pátria para investir na banda. E Mirdad estava muito estafado da profissão forçada de produtor TOP; há tempos que não sabia o que era tocar violão! Além de que era fato que nenhum laranja iria se aventurar em São Paulo, muito menos na Europa. Mas a diferença era que agora o poeta também não queria aventurar mais nada. Depois de anos sonhando em ser um rock star e morar em Londres, a casa na Grécia, entre outros, com a chegada da responsabilidade da idade e do amor concretizado, o lugar dele era o Brasil mesmo. Ainda mais depois de se assumir como escritor, e estar tão envolvido em seus livros. E o TOP, sem retorno financeiro algum, não daria futuro. Ou seja, Mirdad transferiu o caminho profissional de sua música para hobby. Então, após se formar, a batalha seria por dinheiro, pra concretizar os planos com sua amada”.

Ou seja, assim que Sleep in Snow Shape ficou pronto, foi direto para a gaveta. E, em vez de encerrar a banda, passei o posto de produtor TOP para Fábio que, obviamente, não soube o que fazer. E 2006 terminou com o CD poema Ilusionador, meu projeto experimental de ambientação sonora para filopoemas de Ildegardo Rosa, meu pai, que me rendeu o diploma de Jornalismo na Ufba.


104º ensaio TOP, o derradeiro, em janeiro de 2007


2007 começou com o site do projeto solo de Fábio entrando no ar. Era um trabalho baseado no instrumental de guitarra e efeitos, com passagens bíblicas recitadas, chamado de O Criador do Universo. A partir daí, o guitarrista se distanciou definitivamente do TOP, e muito pouco eu soube do que fez de sua vida - só recentemente soube que está morando em Belo Horizonte e mantém este site.

Ainda no começo de 2007, precisamente no dia 05, the orange poem se reuniu pela última vez, no micro estúdio de Rafael (atrás do ponto 5, no Parque Júlio César). Hosano estava de passagem por Salvador e eu aproveitei pra produzir esse encontro, que Artur e Zanom não faltaram e ficou registrado no álbum pirata “104” (eu criei uma coleção fictícia, com encarte e nomes, de 9 álbuns piratas do TOP, garimpando o vasto acervo de ensaios gravados de nossa carreira).

Empolgado por esse encontro especial, em que a banda tocou muito (mesmo sem Fábio, o maior ‘Romário’ do TOP), e uma proximidade recente com Zanom (registrei suas excelentes músicas em vídeo e comecei a cogitar produzi-lo), montei novas estratégias para o poema laranja. Veja o que escrevi nas últimas linhas do diário TOP, em 2007, extraído de um email para Hosano:

O Orange Poem acabou, no sentido que o levei desde o início. Agora é oficial. Não irei viajar mais na aventura. Correr atrás do TOP como objetivo de vida já era. Pra não perder esse trabalho de 6 anos e dois discos, sugerimos continuar, como hobby. Vamos criar um site profissional e disponibilizar os dois CDs de graça, pra qualquer um baixar. A cada dois anos, compomos juntos e gravamos um novo álbum, sempre disponibilizando no site, de graça, com encarte e tudo. Estou trabalhando pesado com produção agora; portanto, a cada lançamento nosso, irei divulgar pra todos os meus contatos. Com isso, não faremos mais show (o que não é nenhuma novidade). Então, podemos mexer na formação também. Quarta-feira iremos saber se Tadeu entrará no TOP ou não. Queremos convidar Rajasí também. Ampliar o som. Músicas em português, experimentando tudo, com percussão, teclado, piano, sintetizador, o escambal. Só quero que seja mantido o caráter psicodélico e o blues. O nome The Orange Poem será mantido. Não dá pra jogar fora essa marca que já tem 6 anos, muita gente que conhece, e dois álbuns profissionais já gravados (o segundo será lançado no site). Concorda? Mesmo fazendo som em português, manteremos o nome em inglês. Já com uma sugestão para o próximo álbum: ‘Dê Orãjhi Póema’. É uma sátira com o nome da banda. A grande dúvida é se Fábio irá continuar ou não. Agora, tem uma condição clara e inequívoca. Iremos todos gastar $$ com isso. Não banco mais nada sozinho. Se você topar continuar, e é o que eu espero e torço pra que aconteça, você vai ter que pagar a sua parte no que você for gravar, e pagar também a manutenção do site e a mixagem/masterização do álbum junto com todo mundo. Acho que não é muita grana não, e que pela satisfação que nos dá, vale a pena gastar grana com essa “cachaça” que é o Orange Poem. Não acha?”.

Também acho. Mas os demais não acharam. E, no dia 07 de março, na varanda da Facom (não me lembro porque estávamos aí), encontrei com Zanom e anunciei o fim do TOP. Nas derradeiras palavras do diário, “nada de reformular pra português, investir grana na construção de um site, divulgar o segundo CD. Nada de gastar dinheiro mais. O TOP na geladeira. De vez”. Aproveitei pra convidar Zanom pra formar um duo, chamado pedradura. Meses depois, ele se mudou para o Rio de Janeiro e a pedradura virou uma banda relâmpago, formada com o laranja Artur Paranhos, e os amigos Eric Gomes e Edu Marquez. Mas isso é outra história.


Mirdad psicodélico


Faríamos 10 anos hoje, caso tivéssemos continuado. Como sou ligado a datas, cheguei a montar o roteiro de um show especial do TOP que aconteceria no Groove Bar, com diversos convidados e vídeos passando em telões em sincronia com o show, que seria até registrado em DVD. Em janeiro último, contatei os músicos laranjas, que curtiram a ideia, mas infelizmente não consegui harmonizar a data para todos (Fábio em Belo Horizonte, Zanom no Rio de Janeiro, Hosano em Itabuna).
Quero finalizar essa série afirmando: vivi the orange poem intensamente; é uma das melhores partes de mim e tenho muito orgulho do aprendizado que me rendeu e as lembranças excelentes de um tempo que não volta mais. Obrigado!
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