terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O angolano e o pós-guerra em Os transparentes, de Ondjaki

Ondjaki na Flica 2014 - foto: Egi Santana


"(...) todos os angolanos tinham alguma paranoia com armas ou armamentos, todos tinham um estória para contar que envolvia uma arma, uma pistola, uma granada ou pelo menos uma boa estória que envolvesse um tiro, ou uma rajada de tiros, alguns tinham cicatrizes no corpo, outros atribuíam a cicatrizes várias os impressionantes episódios que efabulavam por força de necessitarem deles,


um modo, digamos assim, coletivo de vivenciar a guerra e os seus episódios, os combates e as suas consequências, mesmo que fosse de ter ouvido falar, ou de se ter escutado na rádio, antigamente, nos dias em que a guerra de facto havia sido um elemento cruel mas banal da realidade e, ainda hoje, dissociar a guerra do quotidiano era quase um pecado


e de arma em arma, de tiro em tiro, de conversa violenta em brutal descrição, o fantasma da guerra circulava livre - em cada canto de Angola, nalgum momento, ainda que fosse nos primeiros instantes das manhãs mais limpas, alguém estaria disposto a sacrificar o seu silêncio para falar, mesmo que implicitamente, de uma qualquer guerra, a sua ou a do vizinho, da sua família ou do enteado que viera de uma província mais sofrida, injetando nos casamentos, nos funerais, nas horas de trabalho, nas danças, nas artes e até no amor, uma quase inata perícia de falar sobre esse monstruoso assunto como quem, suavemente, e sem medo, afagasse o dorso de um monstro raivoso e atormentado por uma falsa paz em aparência de exaustão


assim, no modo de agir, de reagir, de receber os outros e de ir lá fora contar em muitos termos a ferida nacional, o angolano investia grande parte de sua imaginação em lembranças que o mais das vezes não eram suas, ou projetando no passado o que poderia ter acontecido, ou fazendo claríssimas alusões a um futuro que por sorte não aconteceria e, bem revistas as coisas, afinal, em se tratando de tamanha cicatriz social, a verdade é que qualquer um, sem pedir autorização aos demais, podia de facto recorrer à chave mágica da palavra para abrir o gigantesco cofre onde o monstro decidira viver"


Os transparentes (Companhia das Letras/2013), de Ondjaki, páginas 193 a 195.

domingo, 25 de janeiro de 2015

O amor incondicional de Monique e Leandro, casados

Casamento de Monique e Leandro (foto: Mirdad)


O amor é raro. Acontece, e não dá pra medir, comparar ou quantificar. Quem ama, não ama mais que o outro. Os dois amam, na mesma sintonia, que traz paz ao abraço de lar, aconchego ao segurar as mãos em conforto pelo encontro, afeto ao expôr a gratidão evidente por estar junto, sem condicionantes. Os dois amam, na mesma vibração, gozando o sublime pelo encaixe harmônico e feroz dos corpos - sem o erro infantil de provar uma perfomance -, beijando com o querer ampliado pela profundidade dos lábios a degustar o sabor da pele que nos complementa e amplia, bailando os passos que nos combina como um só ingênuo a fluir a dança de Maya, todos os divinos seres que transcendem ao sorrir, deslizar, fruir e intuir.

O amor, raro, é o incondicional. É o mais próximo que podemos materializar do que é divino, astral, positivo, do bem. E, entre tantas figurações nocivas do que é o afeto, ser um casal, amar, nesses dias tão difíceis de egoísmo e ostentação, tive a honra e o prazer incrível de vivenciar a bela cerimônia (que evidenciou o amor, o raro, ao nosso pequeno universo de seres) do casamento de Leandro Pessoa e Monique Meirelles, duas pessoas do bem e do bom, que se amam, incondicionalmente. Viva o amor! Longa vida ao casal! E que seja nosso farol a iluminar a esperança de ter a sorte de um encontro com o amor. O raro. Incondicional.

Casamento de Monique & Leandro
25 de janeiro de 2015
Texto e foto: Emmanuel Mirdad

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Seleta: Peter Tosh

Álbuns de Peter Tosh participantes desta Seleta


Peter Tosh (1944–1987) sempre foi um dos Wailers prediletos. Seu tom de voz, mais grave, mais rock'n'roll, cheio de atitude; sua postura de combatente, alto e de cara fechada, contestador, de composições sobre a sua fé e questões sociais, e o seu destino trágico (assassinado por um zé ninguém), sempre me fascinaram. Após formar os Wailers originais com o rei Bob Marley e Bunny Wailer, jamais poderia ficar à sombra do mestre maior e foi seguir a tua breve, mas interessante carreira solo, com músicas sensacionais como Bush Doctor, Mystic Man, Pick Myself Up, Crystal Ball e Legalize It, entre outras. Na Seleta de hoje, as 37 melhores faixas da obra de Peter Tosh, do período de 1976 a 1987, na opinião do fã Emmanuel Mirdad, presentes em 8 álbuns disponíveis na página do artista no site Grooveshark. Para escutar, baixa clicar no player abaixo.



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Repertório da Seleta Peter Tosh, de 1976 a 1987:

01) Bush Doctor - Bush Doctor (1978)

02) Mystic Man - Mystic Man (1979)

03) Pick Myself Up - Bush Doctor (1978)

04) Crystal Ball - Mystic Man (1979)

05) Legalize It - Legalize It (1976)

06) Lessons in My Life - No Nuclear War (1987)

07) Igziabeher (Let Jah Be Praised) - Legalize It (1976)

08) Equal Rights / Downpressor Man - Complete Captured Live (1984)

09) Jah Say No - Mystic Man (1979)

10) 'Moses' The Prophet - Bush Doctor (1978)

11) In My Song - No Nuclear War (1987)

12) No Nuclear War - No Nuclear War (1987)

13) Bush Doctor - Complete Captured Live (1984)

14) Pick Myself Up - Complete Captured Live (1984)

15) Vampire - No Nuclear War (1987)


Peter Tosh - Foto: Getty GAB Archive 


16) Why Must I Cry - Legalize It (1976)

17) I Am That I Am - Equal Rights (1977)

18) Nah Goa Jail - No Nuclear War (1987)

19) Recruiting Soldiers - Mystic Man (1979)

20) Jah Guide - Equal Rights (1977)

21) Coming in Hot - Wanted Dread and Alive (1981)

22) The Day the Dollar Die - Mystic Man (1979)

23) Reggaemylitis - Wanted Dread and Alive (1981)

24) Soon Come - Bush Doctor (1978)

25) Johnny B. Goode - Mama Africa (1983)

26) Come Together - No Nuclear War (1987)

27) Maga Dog - Mama Africa (1983)

28) Oh Bumbo Klaat - Wanted Dread and Alive (1981)

29) Brand New Second Hand - Legalize It (1976)

30) Feel No Way - Mama Africa (1983)


Peter Tosh - foto: Divulgação


31) Rumors of War - Mystic Man (1979)

32) Peace Treaty - Mama Africa (1983)

33) Stand Firm - Bush Doctor (1978)

34) (You Gotta Walk) Don’t Look Back - Complete Captured Live (1984)

35) African - Complete Captured Live (1984)

36) Not Gonna Give It Up - Mama Africa (1983)

37) Rastafari Is - Wanted Dread and Alive (1981)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Pílulas dos livros de Mayrant Gallo (1999 a 2014)

Mayrant Gallo (fotos de Cosac & Naify, Ricardo Prado, Vinicius Xavier, Lima Trindade, 
Elieser Cesar, Gal Meirelles e divulgação - interferidas por Mirdad)


A seção Pílulas se despede do Blog do Ël Mirdad apresentando fragmentos de 11 livros do escritor baiano Mayrant Gallo, que tanto admiro. Em 2002, graças ao livro Pés quentes nas noites frias, decidi escrever ficção - até então, só produzia poemas. Entre 2011 e 2013, na Putzgrillo Cultura, produzi o projeto que culminou no lançamento do romance Os encantos do sol, patrocinado pela Petrobras e Minc/Governo Federal. Em 2014, Mayrant revisou meu livro de contos O grito do mar na noite, e ampliamos a parceria; ele continuará revisando meus livros, além de editá-los - detalhes em breve. E em 2015, montei uma antologia de contos de Mayrant Gallo intitulada de O abismo cor de chumbo, e participarei do projeto para publicá-la, visando uma grande editora nacional - considero o autor o melhor em atividade na Bahia.

Entre o final do ano passado e o início desse 2015 reli dez dos onze livros que tenho (dos lançados, só faltou Dia sim e sempre, de poemas), e resolvi terminar a seção Pílulas com essa pequena degustação que ofereço aos frequentadores do blog. Considero, dentre as obras lançadas (ele continuará a lançar livros, muitos!), O inédito de Kafka o melhor livro de Mayrant Gallo até então, e o seu melhor texto a premiada novela Moinhos, presente no livro Três infâncias. Boa leitura!




O inédito de Kafka
Contos | Cosac&Naify 2003
Pílulas aqui

"(...) sempre tem alguém que faz antes de nós o que pensamos fazer"






Brancos reflexos ao longe
Contos | Livro.com 2011
Pílulas aqui

"(...) seu destino mudara, embora continuasse o mesmo"







Três infâncias
Novela, Conto e Miniconto | Casarão do Verbo 2011
Pílulas aqui

"(...) meu mundo era o eco dos meus passos sobre caminhos novos"






Pés quentes nas noites frias
Contos | Funceb-EGBA 1999
Pílulas aqui

"A nudez esclarece as pessoas"







Cidade singular
Contos | Kalango 2013
Pílulas aqui

"O Gordo tinha uma teoria: mulheres se deitam à noite com possibilidades e despertam pela manhã com frustrações"






Nem mesmo os passarinhos tristes
Minicontos | Multifoco 2010
Pílulas aqui

"Disse que ia sair para comprar cigarros... E o fez mesmo. Voltou para casa e está dormindo"





O gol esquecido
Contos | A Girafa 2014
Pílulas aqui

"Assombrava-me a afirmação de que o que acontece já aconteceu. De que o presente foi, o futuro é, e o passado será. De que o que se diz já foi dito"






As aventuras de Nicolau & Ricardo
Minicontos | Penalux 2014
Pílulas aqui

"Não há sentido no espaço, nem no tempo, pois não há pessoas à vista"





Recordações de andar exausto
Poesia | Aboio Livre 2005
Pílulas aqui

"O lado vazio da cama
É a presença humana
Que mais atemoriza"





Os encantos do sol
Romance | Escrituras 2013
Pílulas aqui

"É preciso compreender que o culto ao passado muitas vezes não constitui um sintoma de fraqueza, nem de loucura, nem de tédio, mas a única opção que nos resta"





Dizer adeus
Contos | Edições K 2005
Pílulas aqui

"Sempre preferi as mulheres às expressões de virilidade em meio aos homens ... Ainda hoje não troco um corpo de mulher por uma partida de futebol"



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Possíveis títulos retirados da obra de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo na Flica 2011 - Foto: Vinicius Xavier


"O emblema turvo do fim"
 O inédito de Kafka - pg. 59

"O abismo cor de chumbo"
 Brancos reflexos ao longe - pg. 28

"O apagamento irremediável das cicatrizes"
 Pés quentes nas noites frias - pg. 40

"A nudez esclarece as pessoas"
 Pés quentes nas noites frias - pg. 31

"Uma sensação de inútil suficiência"
 O inédito de Kafka - pg. 50

"Uma escada rumo ao cinismo"
 Pés quentes nas noites frias - pg. 116

"O arredondamento vazio do grito"
 Cidade singular - pg. 18

"Gestos passivos diante da dor e do infortúnio"
  O inédito de Kafka - pg. 91

"Uma passagem firme e sem incidentes aos corredores do insondável"
  Cidade singular - pg. 47

"O impulsivo desejo de ridicularizar tanto o indivíduo quanto a espécie"
 Brancos reflexos ao longe - pg. 80

"Os dias existem para uma irremediável perda"
 Brancos reflexos ao longe - pg. 95

"Uma quase instantânea compreensão do acaso"
  O inédito de Kafka - pg. 178

"A evidência do desconhecido e do improvável"
  Brancos reflexos ao longe - pg. 48

"O súbito roçar da morte"
  Brancos reflexos ao longe - pg. 75

"Ontem nada, amanhã silêncio"
  Pés quentes nas noites frias - pg. 18

"Apenas mais um entre muitos"
  O inédito de Kafka - pg. 95

"Toda poça de sangue é irrecusável"
  O inédito de Kafka - pg. 48

"Um indisfarçável olhar de repreensão"
  Dizer adeus - pg. 54

"Olhos abertos no escuro"
  O inédito de Kafka - pg. 23

"A surpresa miúda dos minutos"
  O inédito de Kafka - pg. 21

"Morre-se, e é tudo"
  Recordações de andar exausto - pg. 60

"Agora nem o espelho me devolve"
  Recordações de andar exausto - pg. 39

"As pedras incendiadas de sol e água"
  Brancos reflexos ao longe - pg. 27

"O repentino desaparecimento da luz"
  Dizer adeus - pg. 37

"Um azul ainda mais sólido"
  Brancos reflexos ao longe - pg. 23

"No céu de um azul irreal"
  Brancos reflexos ao longe - pg. 51

"O eco dos passos sobre caminhos novos"
  Três infâncias - pg. 27

"Não há sentido no espaço, nem no tempo, pois não há pessoas à vista"
  As aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives - pg. 64

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Seleta: Israel Vibration

Álbuns do Israel Vibration participantes desta Seleta


Originalmente um trio jamaicano formado nos anos 1970, o Israel Vibration continua na ativa e promete um novo álbum para 2015. Apple Gabriel, meu vocalista predileto, saiu em 1997 para seguir em carreira solo, irregular, mas, pra mim, é uma das vozes mais peculiares do reggae de todos os tempos, um timbre impressionante, eternizado em clássicos do Israel Vibration como Ambush, Why You So Craven e Real and Right, entre outros. Na Seleta de hoje, as 55 melhores faixas da obra do Israel Vibration, do período de 1978 a 2010, na opinião do fã Emmanuel Mirdad, presentes em 13 álbuns disponíveis na página do trio no site Grooveshark. Para escutar, baixa clicar no player abaixo.



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Repertório da Seleta Israel Vibration, de 1978 a 2010:

01) Ambush - On the Rock (1995)

02) Why You So Craven - Why You So Craven (1981)

03) Real and Right - Praises (1990)

04) Jah is the Way - Why You So Craven (1981)

05) There is no End - Praises (1990)

06) Natty Dread - Stamina (2007)

07) False Pretense - Forever (1991)

08) Herb is the Healing - Stamina (2007)

09) Top Control - Unconquered People (1980)

10) Lift up Your Conscience - The Same Song (1978)

11) Stamina - Stamina (2007)

12) Get Up And Go - Pay the Piper (1999)

13) Back Staba - Stamina (2007)

14) Walk the Streets of Glory - The Same Song (1978)

15) We A de Rasta - Unconquered People (1980)

16) Licks and Kicks - The Same Song (1978)

17) African Unification - Jericho (2000)

18) Mud Up - Free to Move (1996)

19) Lost Souls - Jericho (2000)

20) My Master's Will - Reggae Knights (2010)


Israel Vibration - foto: Amélie Didelot


21) Jammin - Jericho (2000)

22) Life is Real - Free to Move (1996)

23) Don't Want Apartheid - Strength of My Life (1988)

24) Racial Discrimination - Forever (1991)

25) Solomon Bloodline - Free to Move (1996)

26) Rudeboy Shuffle - On the Rock (1995)

27) Give I Grace - Unconquered People (1980)

28) Universal Father - Why You So Craven (1981)

29) Friday Evening - Unconquered People (1980)

30) Sautez Reggae - Stamina (2007)

31) Rip and Run Off - Reggae Knights (2010)

32) Flood Water - Stamina (2007)

33) Reggae on the River - Forever (1991)

34) The Same Song - The Same Song (1978)

35) Mr. Taxman - Unconquered People (1980)

36) Poor Man Dub - Forever (1991)

37) Livity in the Hood - Free to Move (1996)

38) On the Rock - On the Rock (1995)

39) On Borrowed Time - Jericho (2000)

40) System Not Working - Free to Move (1996)

41) Falling Angels - IV (1993)



Apple Gabriel, membro até 1997, minha voz predileta do ex-trio - foto: Yaniv Nadav


42) Rebel for Real - On the Rock (1995)

43) Traveling Man - Free to Move (1996)

44) Rumours of War - Praises (1990)

45) Love Makes a Good Man - On the Rock (1995)

46) Middle East - Strength of My Life (1988)

47) Original Soljahs - Pay the Piper (1999)

48) Jericho - Jericho (2000)

49) Racial Injustice - IV (1993)

50) Nuttin' Nah Bruk - Pay the Piper (1999)

51) Feelin' Irie - Free to Move (1996)

52) Cool and Calm - Strength of My Life (1988)

53) Jailhouse Rocking - Praises (1990)

54) New York City - Reggae Knights (2010)

55) Mighty Negus - Free to Move (1996)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Pílulas: O gol esquecido, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Vinicius Xavier - interferida por Mirdad)


"Ademir era negro. Feito da dor e do cheiro das senzalas multiplicadas em favelas e bairros erguidos sobre paus finos em alagados fétidos. Atrevido, ria branco dos defeitos dos outros. Dos seus também. Controlava a bola do mesmo modo que alguém movimenta os olhos, sem se dar conta, por um sutil e incompreensível comando que remonta aos primórdios da vida, no borbulhar dos primeiros pântanos. E havia momentos em que a bola e seus olhos, na vastidão verde, assemelhavam-se a um solitário planeta com seus dois satélites. A estranha órbita compunha-se da leitosa parábola rumo ao gol e do percurso de volta, ao meio de campo, por entre corpos adversários batidos e faces cabisbaixas, humilhadas.
– Ninguém para esse cara!
– Admirável Ademir! – teria dito Armando Nogueira, se o visse jogar" (pg. 37)

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"Assombrava-me a afirmação de que o que acontece já aconteceu. De que o presente foi, o futuro é, e o passado será. De que o que se diz já foi dito. Em suma: o que se afirma que vai ocorrer já ocorreu; apenas estamos nos lembrando do fato, que não passa de um porvir reincidente" (pg. 90)

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"– Um momento inesquecível? Não, nenhum no futebol, que, a rigor, é um esporte de canalhas, com traições, falcatruas, velhacarias, roubos.
– Nenhum, portanto? – insisti.
– O nascimento de minha filha – respondeu, de forma seca, liberto de qualquer emoção. E depois de uma pausa acrescentou:
– E, claro, a morte de minha esposa, oito anos mais tarde.
Ficamos quietos, constrangidos, estupefatos.
(...)
– E o gol inesquecível?
Sua resposta foi breve e áspera:
– Nenhum.
Mas logo em seguida se corrigiu:
– Talvez aquele de mão" (pgs. 14 e 15)

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"(...) cor em demasia, movimento em excesso acabam por levar ao tédio, à vontade de variação, a noites em que se pede sono apenas, ou abandono (...) Esse era o seu temor: que ela se ligasse permanentemente a um sonho ou desejo logo satisfeitos, no curto tempo de um returno, quando o líder do certame, cinco ou seis pontos à frente, não chega a ser alcançado, e os condenados ao rebaixamento não conseguem escapar" (pg. 24)

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"Eu só tinha dezessete anos, fazia o segundo grau e praticamente me contentava em sonhar com as mulheres. Aquela havia sido a minha experiência mais profunda, literalmente. E eu não queria que fosse a última. Mas como dizer não à mulher que pela primeira vez nos levou para a cama?" (pg. 40)

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"Eles ficavam a manhã toda na esquina, falando de garotas e de futebol. O mais velho ainda não tinha dezenove anos, e o mais novo acabara de fazer dezesseis. Jogavam num time que se reunia todos os sábados à tarde e, esporadicamente, domingo de manhã. Nenhum dos rapazes trabalhava, e só dois estudavam. Uma vida repetitiva e circular, sem nenhuma perspectiva de mudança, tanto que um deles seria encontrado boiando no rio Guandu, e os pais nem foram reclamar o corpo, deixando que o Estado arcasse com aquele último conjunto de deveres. Foi um tio que, piedosamente, se encarregou de tudo, e o time inteiro compareceu ao funeral, a camisa oito sobre o caixão" (pg. 46)


Mayrant Gallo
(A Girafa/2014)


"O que o goleiro pensou naquele instante seria sempre um mistério, um enigma, como o era ainda para ele o branco daquele transatlântico a invadir a praia azul e iluminada de sua infância. Ele fixou a bola, atento ao movimento de pernas do atacante. Tentou adivinhar o momento do chute, a direção que a bola tomaria. Como no pênalti, o canto que o jogador escolhesse. Em vão. Foram segundos preciosos, nos quais o goleiro desceu ao inferno, e o jogador subiu ao céu. Raros eram os gols que em momentos como aquele podiam ser evitados. Só havia uma solução: o goleiro rogou a Deus que aquela bola beijasse a trave. E fechou os olhos.
Com isso, ele não viu a bola nem o gol: bastou-lhe ouvir que a torcida, extasiada, sem pensar noutra coisa, os transformou numa página de suas vidas" (pg. 64)

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"E então aconteceu: a bola viajou, desviou em sua cabeça e morreu nas redes. Quem o xingava um segundo antes foi abraçá-lo; quem ficara de boca aberta sorriu. Tinham dito que perderíamos em casa, e que isso sempre acontecia... Mas o que aconteceu mesmo foi o que jamais acontecia: gol de goleiro, e de cabeça! Foi a maior lição que aprendi em toda a vida: que a realidade, como uma moeda, tem dois lados, e que é nas coisas estranhas que está o sentido, talvez o segredo" (pg. 55)

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"(...) não é que o goleiro seja um cara estranho; o que ele faz é que é estranho. São dez no time fazendo quase a mesma coisa, e aquele outro, o goleiro, que faz exatamente o que é proibido a todos os demais" (pg. 52)

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"A guerra chegara a uma trégua, O front, quieto e em silêncio, convidava os passarinhos a voltar aos voos e as borboletas a ensaiar novas cores. Dois coelhos brancos, saídos talvez de um tempo remoto, sem desavenças nem disputa pela vida, deixaram a toca e percorreram por um momento toda a faixa de terra que separava um exército do outro. Lá longe, depois de uma pausa, continuaram a correr e a pular, até que desapareceram. Mesmo as guerras precisam de um repouso" (pgs. 82 e 83)

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"Saiu sem se importar com o que fez, sem esperar apupos nem cartão vermelho, sem sequer cogitar que outros corajosos talvez viessem sobre ele. Quem teria sido? Dos três, qual se arriscaria? Ou fora um outro qualquer, saído de alguma daquelas mesas cheias de hipocrisia e escárnio? Logo era só um vulto – longe. Era a vantagem da noite: fazia-se qualquer coisa e nem mesmo se corria; a própria noite se encarregava de esconder quem chegava mais forte" (pg. 22)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pílulas: As aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Vinicius Xavier - interferida por Mirdad)


"Nicolau e Ricardo foram chamados para resolver um caso numa cidade do interior – Póci. A cidade era tão pequena que não havia delegacia. Quer dizer, a delegacia funcionava num anexo da prefeitura, também residência do prefeito.
'E onde está o delegado?', perguntou Nicolau.
'Sou eu mesmo', respondeu o prefeito.
Nicolau e Ricardo se entreolharam.
'E o corpo policial? O senhor tem um corpo policial, não tem?', perguntou Ricardo.
'Tenho sim, minha guarda pessoal, formada pelos meus três filhos.'
Novamente os olhares dos detetives se encontram.
'E, afinal, quem morreu?', suspirou Nicolau.
'Minha mulher.'" (pg. 22)

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"Culto o bastante para se exibir sem se fazer notar, mas insensato ao ponto de prescindir de alimentar relações que sabia consistentes e desinteressadas, mergulhava em livros e filmes por um motivo bem simples e nada sutil: para se afastar das pessoas.
Por traição, ressentimento ou despeito, esperava ser posto para fora de suas vidas, mais dia menos dia. E era por isso, aliás, que sempre perpetrava uma citação de efeito, a cada fala de sua autoria ou alheia: para despertar em volta, a um só tempo, ódio e inveja.
Assim, não era raro que, por este ou aquele motivo, fosse o centro das atenções, mesmo em ausência. Também o vetor das críticas, que ele próprio fazia questão de provocar, e o sangue da chacota, a correr forte e abundante" (pg. 49)

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"Nicolau e Ricardo querem férias, mas o crime não para. Nicolau e Ricardo estão cansados, mas os criminosos tiram energia do sol e se renovam como insetos. Nicolau e Ricardo gostariam de passar três semanas na praia vivendo só de vento e espuma, mas os criminosos preferem prensar cédulas e contar papelotes. Nicolau e Ricardo gostariam de ir para a cama todas as noites à mesma hora e amar suas mulheres, mas os criminosos passam as noites em claro e, firmes como rochas, volúveis como água, só raramente cedem aos encantos de um ventre. Nicolau e Ricardo acham que, no fim das contas, pesados os extremos, os criminosos levam vantagem" (pg. 25)

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"Um domingo vazio, sem movimento. O sol, por entre os edifícios, projeta sombras contra ruas e becos. Não há sentido no espaço, nem no tempo, pois não há pessoas à vista; só artérias de sombras e luz, reflexos que, partindo das janelas, cortam o vazio, cruzam o ar e repousam no vácuo daquela tarde sem propósito" (pg. 64)


Mayrant Gallo
(Penalux/2014) 


" – Estou piorando, me tornando um homem pior...E pensava que seria o contrário.
– Não, não é. A vida é um escultor grotesco, cujo único talento é fazer chocar" (pgs. 97 e 98)

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"Nicolau e Ricardo entram num boteco da Barra, pedem uma bebida e tentam relaxar. Não estão para muita conversa. Tiveram um dia difícil, cheio de interrogatórios inúteis, de pistas falsas, de testemunhas dissimuladas, de suspeitos sarcásticos. Meio chutado, embora o tom grave, quase filosófico, Nicolau diz:
'Há no fundo de toda mulher o desejo repulsivo de bancar a prostituta'.
'Mesmo sua mãe, sua mulher, suas filhas?', Ricardo brinca.
Nicolau se levanta bruscamente, não diz uma palavra sequer e, sem olhar o amigo, sai. São os nervos. Os nervos" (pg. 37)

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"– É, um método. Um método que os permitia trepar sem compromisso, sem nem mesmo namorar, que os coloque livremente uns nos braços dos outros e ainda chame a atenção de seus pais, que obviamente não os condenam.
– Claro que você não tem filhos - Nicolau retrucou.
– Falo sério. Eles estão enganando a todos nós. Não há estuprador. Não há estupro. Não há vítimas. Só desejos saciados, sem compromissos, nem discórdias familiares, nem troca de sentimentos" (pg. 84)

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"Caídos e impotentes na rua escura e deserta – e Ricardo fora particularmente azarado, pois na queda perdera a pistola –, esperaram pelo vulto e pelo tiro de misericórdia... Uma cusparada no rosto foi tudo o que receberam. E as palavras, que o pistoleiro expeliu como se também cuspisse:
'Minha filha merecia mais respeito!'
E se foi.
Semanas depois, já restabelecidos e de volta ao trabalho, Nicolau e Ricardo se perguntavam a quem o atirador se referia: se às 87 mulheres assassinadas no Estado ao longo de um ano ou às 413 estupradas que tiveram a coragem de procurar a polícia.
'Qual seria a sua filha?'" (pgs. 45 e 46)

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"Na BR 324, Nicolau e Ricardo seguem a pista de um escroque. Param num restaurante à beira da estrada e bebem, enquanto o observam. Mas não observam o suficiente, pois não veem quando o bandido foge no carro deles" (pg. 53)

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"É a polícia que estabelece se é assassinato ou suicídio, e para ele, naquele domingo, foi um suicídio.
Já não se veem os assassinatos, que fugiram correndo" (pg. 65)

domingo, 11 de janeiro de 2015

Pílulas: Três infâncias, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Eu olhava os garotos com curiosidade. Já eles, não me olhavam. Por que olhariam? Estavam tão acostumados a si mesmos que não perceberiam nem sequer um aleijado. Por eles, o mundo bem que poderia ser só aquilo, um prédio murado com um portão de ferro que raramente transpunham (...) Mas, entre as diferenças que se nos interpunham, uma ao menos soava a meu favor, sim, e era a única, e foi com ela que eu cresci: meu mundo era o eco dos meus passos sobre caminhos novos" (pg. 27)

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"Tinha uma voz que jamais perdia de todo o poder de arrebatar. Nem mesmo, talvez, quando enfraquecida pela rouquidão de um resfriado ou pelo incômodo de um choro que se prolongou para além do normal (...) Tinha o atributo ilimitado de sempre estar presente, e reservavam-lhe vida eterna, para além da matéria e da morte, todos os homens que a viram por um só instante, num relance. Fui um desses seus adoradores de primeira ordem. Não consegui permanecer invulnerável às desordens de amor que ela provocava, nem às convulsões de ódio que não a amar nos imprimia. Cresci uma década, e sepultei outra, só por observá-la um minuto e ouvir-lhe a voz a um só tempo aveludada e áspera" (pgs 39 e 40)

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"Como acreditar num homem para quem palavras não passavam de meios de desculpas? Mas meu pai acreditou, ainda assim. Acreditaria sempre, confiava nos homens, em todos os homens, até nos mais baixos, sem caráter, sem escrúpulos, aqueles que gritavam quando por direito só lhes cabia o silêncio" (pg. 18)

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"Eu ainda não havia descoberto, ou talvez não tivesse compreendido muito bem, naquela época, o sentido do dinheiro. Sem ele, a mente não somava: subtraía palavras, silenciava, encolhia. E logo a pessoa se reduzia a um ombro que somente vagava e espreitava os desastres" (pg. 32)

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"É estranho como durante tanto tempo acreditei que faria isso, que furaria os garotos, e que furar alguém não implica coisa alguma. Hoje sei que não é bem assim, por mais ambíguo que seja o nosso país, a moral do nosso país. Você tem uma faca, faz com ela o que quer, mas sobre aquilo que farão com você depois não há controle... A mão que arrebata você é tão grande, e forte e cerrada, e você se sente tão oprimido e abandonado, que cedo lhe vem a compreensão, irrevogável, de que todas as pessoas têm direito natural à vida, não importa o que façam com ela. Você revê – ou relê – a vida e a compreende a partir do seu destino infame" (pgs. 36 e 37)

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"Naquela época, e especialmente naquele dia, eu faria de tudo por meu pai, até sangrar se fosse o caso. E pelo mais sórdido motivo. Por ele daria meu braço às agulhas, me exporia às navalhas.
Largou os olhos de sobre mim e os lançou contra o edifício do engenheiro. Um prédio alto, luxuoso, com interfone, portão automático e porteiro uniformizado de azul, num tom suave que não magoasse os olhos dos moradores. Seus vidros subiam contra o céu impotente, violando as nuvens. Olhá-lo nos dava vertigem. Admirá-lo nos fazia sofrer" (pg. 19)


Mayrant Gallo
(Casarão do Verbo/2011)


"Não era bonita, a mulher; nem mesmo sem roupa. Era incrível como algumas mulheres pareciam nascidas com a marca da feiura e da apatia, que, mesmo quando nuas, nada conseguiam despertar em quem as contemplasse. Aquela era assim. Vestida lembrava uma flor murcha; despida, uma sepultura" (pg. 46)

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"Ele dormira mal de noite. Vinha dormindo mal havia tempos. Preocupação em excesso, dor, indignação, repúdio, desânimo, ultraje. Não saber se hoje ou amanhã teríamos o que comer, se haveria trabalho, se receberia o dinheiro que tinha na rua, nas mãos de ricaços escrotos. Sim, pois todos aqueles que deviam algum dinheiro a meu pai moravam em luxuosos edifícios ou em mansões de um quarteirão inteiro, cercadas de muros altos com ferros pontiagudos, e carros importados tinindo de novo nas garagens de portas inexpugnáveis" (pg. 31)

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"Dona Matilde e Tia Elba foram à igreja pedir pela saúde de Vovô. Mas Deus já não ouve. Diariamente crucificado pelos homens, renega a face criadora e fenece sangrando eternas chagas" (pg. 80)

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"Tia Elba voltou ontem da Bélgica. Voltou contando vantagens. Na Bélgica tem isso, tem aquilo, aquilo outro... Por fim, Vovô perguntou:
– Na Bélgica tem banheiro?
– Claro que tem! – respondeu Tia Elba, horrorizada.
– Ah, sim! Pensei que fosse diferente" (pg. 74)

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"Em seu 79º aniversário, depois do jantar, Vovô sentou-se à varanda e chorou longamente – e em silêncio de gare. Não pela vida, que expirava, não pela idade, que, apressada, dava saltos enormes, não pelo corpo, já fraco e senil, em desespero... Chorava pelas crianças, que também envelheciam" (pg. 83)

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"Dudu sempre conversa sozinho, com seu amiguinho imaginário. Vovô também fala sozinho, com seus mortos, seus fantasmas. O companheiro que não se tem, o ente querido que se perdeu... Falar sozinho, estranha aptidão nesse e em qualquer outro mundo... E que só crianças e velhos e loucos podem e praticam, para além de qualquer estranheza, na luz" (pg. 85)

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"Nasce o sol sobre o dia, emprestando-lhe sentido. Na manhã, na praça vazia, silenciar de passos, os amantes tentam desesperadamente ter-se em vida, pois que estão morrendo a cada ato" (pg. 84)

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"Um homem e uma mulher têm mais a se oferecer que o frágil e frio ato de troca. Nem cães se amam desprovidos de voz" (pg. 75)

sábado, 10 de janeiro de 2015

Pílulas: Brancos reflexos ao longe, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Gal Meirelles - interferida por Mirdad)


"– Muito prazer, eu sou a morte.
A mulher não lhe estendeu a mão, nem disse nada, nem sequer lhe voltou o rosto. Por um instante a mão da jovem, dispersa no ar, tremeu misteriosamente para, em seguida, recolher-se ao trabalho de afastar do rosto os fios de cabelo rebeldes, assanhados pelo vento.
– E se eu for mesmo a morte? – disse, o rosto a gozar do frescor úmido que subia dos arrecifes golpeados pelo mar.
(...)
– Mas você não é – a mulher respondeu, um sorriso enigmático a distender-lhe os lábios finos, sem cor.
– Sim, não sou. Mas, e se eu fosse?
A mulher enfim a encarou:
– Eu a aceitaria. Que mais poderia fazer?" (pg. 29)

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"(...) seu destino mudara, embora continuasse o mesmo" (pg. 27)

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"Perceba: no seu livro tudo é tão real, tão demasiadamente real, que soa falso, ou, melhor dizendo, fantástico. Espécie de simulação do real. A representação exagerada não passa de uma simulação. Qualquer um nota, sem esforço, que o invólucro do livro é uma encomenda. É disso que o passarinho reclamou, desse exagero que transforma o real em fantástico, pois este quase se funde ao ideal. Não um ideal impossível, distante, utópico, do qual mal nos aproximamos, mas um ideal realista, forjado no detalhe e legitimado pelas minúcias. Inverteram-se os papéis: o real pobre, infiel às idealizações, hoje é fantástico, e o fantástico, com todo seu requinte, transformou-se no real" (pgs. 81 e 82)

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"Se o útero é um enigma, essa primeira fase da vida é como um vácuo. Você mal se recorda de si. Guarda, porém, a imagem de um quintal, com antigos objetos de casa espalhados pela terra e já vítimas do impiedoso desfolhar das intempéries (...) Uma súbita e glacial escuridão, seguida de um peso agudo, devastador, à altura do peito, e que hoje você compreende que era, talvez, certa intuição acerca da angústia de viver" (pg. 93)

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"Com o passar dos dias, a moça se convenceu de que não havia mais esperança, e que o cisne se achava realmente sozinho e por isso vagava ao longe, em meio às luzes. A última compreensão que tiveram deixou-os perturbados. Foi a moça que a sacramentou, com um doloroso comentário:
– Como eu, ele também pensa que as luzes são sua companheira. E passa as noites a nadar, enganado pelas aparências" (pg. 22)

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"Um dia, ao passarmos com as maletas abarrotadas de dinheiro, reconheci entre os peões o cara cujo nariz eu havia quebrado, naquele distante dia de minha juventude (...) Fomos chamando os homens e lhes passando o pagamento. Por coincidência, o cara foi um dos últimos, e isso me causou uma terrível agonia. A cada novo nome, imaginava que fosse o dele e me preparava para encará-lo, frente a frente. Não lembrava seu nome; aliás, jamais o soubera. Era o que podia haver de mais sórdido e covarde, bater num homem cujo nome ignora-se" (pg. 09)

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"(...) o fantasioso, o quimérico, o onírico não mais surpreendem, ao passo que o real, na sua forma mais crua e impiedosa, não consegue mais chocar nem a uma criança (...) Uma questão de valores, ou de ausência de valores, num tempo de incertezas" (pg. 83) 

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"Há um abismo entre as pessoas, em especial entre o poeta e o homem comum, que já não se respeitam, nem se admiram. Nosso silêncio, como se diz nas salas de aula, era sintomático. O ponto nevrálgico de um problema insolúvel" (pg. 88)


Mayrant Gallo
(Livro.com/2011)


"É uma ilusão achar que as outras pessoas são mais felizes. Ninguém é mais feliz que outro: só possui mais dinheiro, mais amor ou mais paz, mais saúde ou mais poder" (pg. 24)

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"A praia estava deserta e escura, já que a lua se fora, alheia às necessidades humanas de luz e calor. Mas o céu estrelado iluminava, martelava-lhe o cérebro com sedutoras ideias de outros mundos habitados, cheios de vida, uma vida talvez imortal. Victor se deitou, de costas, pernas e braços abertos, a receber no peito o que o céu deixava cair" (pg. 25)

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"A chuva o acordara – um barulho forte nas telhas de alumínio da varanda dos fundos –, e de pronto se lembrou das nuvens de ontem, em formação, em marcha, como um exército a se reunir na planície. Moviam-se – agora sabia – para acabar com o resto do verão, fazer valer o outono, como um marido que chama a esposa às obrigações dos lençóis" (pg. 43)

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"A evidência do desconhecido e do improvável feria mais que o frio cortante daquela manhã de outono. Se o homenzinho não estivesse ali, Júlia não se importaria com sua própria nudez, mas, uma vez que estava, pediu quase aos gritos a coberta e, agasalhada, protegida, sentou-se à beira do fogão de lenha, os lábios ainda trêmulos, olhos fitos, de um verde sem mistério.
(...)
A moça também os examinava; e igualmente a criatura, que, do fundo da gaiola, não os perdia de vista. Contudo, seu rosto, plácido e inescrutável – e era isso que conferia à cena uma sutileza maligna – não demonstrava qualquer emoção" (pg. 48)

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"(...) tomou o rumo da casa onde ia trabalhar durante as próximas seis semanas. Assim tinha sido no verão passado, e assim seria agora. Ele não compreendia aquelas pessoas, mas não fazia disso um problema. Se queriam alguma coisa, por mais difícil que fosse, ele a providenciaria. Se lhe pediam esse ou aquele objeto, ele os colocava em suas mãos, sem hesitar, nem demonstrar surpresa. Era o empregado. No último verão, surpreenderam-no muitas vezes, sem dúvida, tanto que, no fim, nos derradeiros dias, já não se espantava. E se lhe pedissem que ficasse nu, talvez só hesitasse porque sempre teve dificuldade em se despir diante de outras pessoas, homem ou mulher. Jamais porque achasse estranho tal pedido. Era o empregado" (pg. 31)

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"(...) além de Victor, só havia um jovem casal. O rapaz se apoderava do corpo da garota, com estertor, frenesi. Encolhida, ela mal podia se proteger e, portanto, deixava-se recolher ao musculoso e tórrido convés que a envolvia. Os beijos se prolongavam por minutos, ambos numa imobilidade quase marmórea" (pg. 80)

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"Você cresce. É um ato que (...) não há como evitá-lo, nem tampouco como conferir-lhe aceleração. Ato letal, como o destino de uma estrela, que se distende, expande e afinal explode. Naturalmente, você não se lembra de muita coisa: os dias existem para uma irremediável perda. São apenas um ponto, um algarismo em negro num dado mês, num exato ano. Como ilhas num mapa. Manchas na pele. Fissuras numa cara. Não excitam, nem param" (pg. 95)

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"Juan era do tipo que repetia as piadas para renovar o prazer de ser divertido, fazer rir, e não apenas uma vez, mas duas, três, até que ele próprio se transformasse num eco no vazio. Desta vez o fez mediante uma variação, que, entretanto, não surtiu efeito. Nem a esposa o censurou, nem a pequena plateia sorriu. Vislumbrou-se apenas o malogro de uma lâmpada que, ante a promessa de luz, oferecesse fagulhas" (pg. 56)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Pílulas: O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)


Descrição extraída do site da CosacNaify:

"O livro de estreia do autor soteropolitano Mayrant Gallo compõe-se de quinze narrativas ambientadas em uma Salvador sombria e suja. Os contos foram iniciados em 1997 e depurados continuamente em sua coloquialidade paradoxalmente mesclada à densidade de seus personagens, sendo finalizados em 2003. A história que dá título ao volume aborda o tema clássico do Döppelganger, a duplicação: o narrador anônimo prepara-se para um encontro com seu duplo - que, como ele, está à procura de um livro inédito de Franz Kafka"




Parte I
Leia aqui

"(...) sempre tem alguém que faz antes de nós o que pensamos fazer"






Parte II
Leia aqui

"O homem não pode sobreviver além do limite imposto pelo tempo, pela dor ... tudo, toda ação é, portanto, uma peça a mais montando o emblema turvo do fim" 




Parte III
Leia aqui

"O cheiro do combustível queimado enchia o ar. Todos por ali, os moradores, deveriam trazê-lo entranhado no corpo. Não havia perfume que o apagasse, nem banho, nem sopro de amor, suor, esperma. Já era parte. Algo que os marcava e sem o que não pareceriam autênticos, pessoas"







Mayrant Gallo
(CosacNaify/2003)
200 pg
Preço médio: R$ 54,00



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Pílulas: Dizer adeus, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Sempre preferi as mulheres às expressões de virilidade em meio aos homens ... Ainda hoje não troco um corpo de mulher por uma partida de futebol" (pg. 26)

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"Estávamos na idade do amor ao estranho, da curiosidade pelo mórbido, do prazer pelo insólito. Descortinávamos o mundo e seus segredos. O meio das pernas de Mônica, há pouco, não era mais belo que aquele corpo em agonia. E que de súbito se imobilizou. E a nós três, simultaneamente, à sua volta. Mônica começou a chorar, vítima de uma inesperada compreensão ... De minha parte, tentei demonstrar calma, controle, uma austeridade que sempre me faltou. Tentei sobretudo aceitar o fato de que nossas vidas nunca mais seriam as mesmas. Foi então que vi a pá ao lado do corpo e compreendi seu uso" (pg. 28)

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"Sempre é tarde demais na vida para alguma coisa" (pg. 95)

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"Ela adorou o esqueleto do gato. Ficou ajoelhada diante da arca, os olhos rentes ao tampo escuro, arranhado pelo tempo. Entre os ossos, vermes ainda trafegavam, como numa cidade em miniatura. Consumiam suas últimas porções de carniça, que demoravam a extrair de dobras e curvas brancas, de fendas estreitas, de grutas:
'Gosto disso!', ela disse" (pg. 13)

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"Só quem escreve, ficção ou crítica, lê Kafka" (pg. 10)

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"Há uma velha lata de pastilhas, que seu pai manipula enquanto trabalha. Parafusos, porcas, arruelas e pinos a enchem inteira. O oito do trenzinho cria forma. E o menino pergunta: 'O que era esta lata?' 'Pastilhas', o pai responde. 'Que o senhor comprava pra mim?', seus olhos brilham. 'Não, não! Para mim.' O pai se torna outro ao olhar admirado do menino, que, no entanto, só tinha quatro anos. E ele, infeliz, descobre que acabou de nascer, e que o mundo o precede em muito tempo, em atos, objetos, cores e ocasos. Que o mundo vem de muito fundo, de um longínquo quando" (pgs. 117 e 118)


Mayrant Gallo
(Edições K/2005)


"– O crime é hoje solução para tudo" (pg. 84)

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"Na sala, a tevê estava ligada, e à sua frente, estirado na poltrona, o homem dormia. Com a mão esquerda, o arrebatei pelo queixo e suspendi sua cabeça, com a direita abri sua garganta. A navalha ficou gotejando, pendente de minha mão. Procurei a mulher. Estava no quarto. Dormia com o corpo descoberto, quase nua, indiferente aos olhares. A mortiça luz do abajur acariciava sua pele. Evitei me demorar sobre sua nudez. Tampei-lhe a boca com força e enfiei o punhal abaixo de seu seio esquerdo. Ela mal abriu os olhos. Mesmo assim julguei ter visto neles certo brilho de compreensão" (pg. 69)

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"O homem perdeu o emprego no dia anterior e não sabe como dizer isso à mulher. Preferiu sair cedo, como se nada tivesse acontecido. Mas teme, agora, que mais tarde ela telefone para a empresa e descubra tudo. Na verdade, ele sabe que ela vai descobrir, se não hoje, amanhã, se não amanhã, um dia... Os despojos sempre chegam à praia, por mais longe que tenha sido o naufrágio" (pgs. 96 e 97)

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"O crime jamais foi esclarecido. Aliás, nada poderia ser afirmado com segurança. Não havia suspeitos, nenhuma pista clara, nenhuma evidência de luta. Nem tampouco qualquer arma foi encontrada. A mata, por sua vez, esquadrinhada de uma ponta a outra, nada confessou. Sobrara o lago, plácido e indiferente como uma vitrine tombada" (pgs. 58 e 59)

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"– Ei, você me leva?
O motorista ergueu o rosto e a fitou. Estava quase deitado no banco, com só metade da janela aberta. Aquele era o único veículo no ponto, e ele não estava nem um pouco disposto a se pôr em movimento, mãos no volante, pés em ação, olhar atento na noite. Só não tinha ido embora ainda por preguiça, certo enfado, displicência, apatia, um pouco também de desgosto. Às vezes, voltar para casa é como morrer" (pg. 60)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Pílulas: Pés quentes nas noites frias, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Ricardo Prado - interferida por Mirdad)


"Ninguém foge da morte, do tempo, da velhice, tríade de canalhas numa trama que quer, a qualquer custo, o homem ... Impossível fugir deles. São implacáveis e estão em todas as épocas e todos os lugares. A morte reina absoluta, livre de rivais; o tempo é paciente e pouco se importa se é hoje ou amanhã; e a velhice, velha e exigente costureira, não tem pressa nenhuma de acabar sua rede de rugas. E assim vão vivendo, devastando o homem, que quanto mais foge mais se entrega" (pg. 12)

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"– Ontem nada, amanhã silêncio" (pg. 18)

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"A nudez esclarece as pessoas" (pg. 31)

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"Os fracos pulam de mulher em mulher e acabam exaustos, amargos, cínicos. O sexo é no fundo uma escada rumo ao cinismo" (pg. 116)

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"O corte no dedo, por sua vez, não deixara marca alguma. Quando o marido, no auge do desejo, o beijava, não percebia nada, nenhuma protuberância que o fizesse parar a carícia e perguntar qual a origem daquela cicatriz. Não, não havia cicatriz. E talvez seja esse o mal do mundo, o apagamento irremediável das cicatrizes" (pg. 40)

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"Afastada, com a calcinha na mão, Fátima esperava. Seu rosto estava sereno, entorpecido, quase diáfano, como o de um condenado que sabe que já não há mais esperança, que a bala vai entrar em sua cabeça logo, e num segundo a luz de seus olhos vai ser substituída pela escuridão plena, impenetrável" (pg. 103)

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"Presenciar a miséria humana definitivamente já não sensibiliza mais o homem. Se é que algum dia sensibilizou, de alguma forma. Pelas marcas úmidas da história, é mais racional dizer que presenciar a miséria humana inspirou o homem. Fabricou outras guerras, promoveu outros massacres" (pg. 118 e 119)


Mayrant Gallo
(Funceb-EGBA/1999)


"Jamais se esquece um amor que findou na morte" (pg. 133)

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"E o amigo sempre acrescentava: 'É o que pode haver de melhor na vida, passear as mãos pelo corpo de uma adolescente que ainda não perdeu dos olhos o mistério que os olhos querem perder a todo custo, na nudez coberta ou na dor sentida''' (pg. 116)

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"Quando afinal concordou em dormir com ele, não foi na verdade porque o desejasse ou o desejasse apenas aquela noite, mas sim porque dentro de si um incômodo a roía, espécie de fome, de sede, de calor. Estava triste, desanimada, pessimista. Olhava pela janela a cadeia de edifícios e pressentia nas vidraças apagadas o fim melancólico de uma vida de privações e fracassos" (pg. 70)

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"Assim ele sempre viveu, desde pequeno: entre o amor da mãe e a intolerância do pai, entre a escola e a rua, a bondade e a esperteza. Quantas vezes optou, quantas vezes sofreu, o pensamento colado ao caminho preterido. Agora lhe volta de novo esta dor, de não poder partir e ao mesmo tempo ficar" (pg. 30)

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"(...) saiu hesitante, fraco e assustado, do abismo de duas bocas que não tinham vontade de falar, muito menos de sorrir no andamento de nenhum tipo de jogo, por mais divertido que fosse. Do abismo de duas bocas que se calavam enfraquecidas, como dois brinquedos quebrados ou sem pilhas nas mãos de crianças incansáveis" (pg. 34)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Pílulas: Parte 03 - O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)


"O cheiro do combustível queimado enchia o ar. Todos por ali, os moradores, deveriam trazê-lo entranhado no corpo. Não havia perfume que o apagasse, nem banho, nem sopro de amor, suor, esperma. Já era parte. Algo que os marcava e sem o que não pareceriam autênticos, pessoas" (pg. 89)

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"A torre da estação da Lapa se erguia contra o céu, riscava nele sua forma rígida. Tentava escapar, furá-lo, cheia de ódio de estar presa há tanto tempo assim pelos cabos que mais pareciam tentáculos. O arquiteto que a projetou não imaginou que um dia até mesmo o concreto sem consciência se revolta contra a imobilidade e a desilusão, e naturalmente se fende. Caso contrário, teria proposto sua construção em material mais flexível, macio e mutável, para que sob o sol adotasse novas formas, se expandisse, se encolhe, se dobrasse" (pg. 89)

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"Com os movimentos que fazia ao se barbear, se perfumar e abrir a porta do armário, numa curiosidade incansável, o pênis ia e vinha na borda esmaltada do lavatório. Deu vontade de urinar, e ele o fez ali mesmo, na pia. Na glande ainda restou uma gota, que o homem enxugou com a toalha de rosto, pendurada ali perto, ao alcance da mão, no fixador de metal. Esse gesto foi tão natural, tão vivo e autêntico, que era como se ele tivesse vivido ali naquela casa toda a sua vida. Como se ali tivesse nascido e visto seu pai morrer" (pg. 36)

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"(...) talvez contrariado com a atitude do cachorro, o homem se levantou e o chutou de encontro à parede, violentamente. O pobre animal ganiu e se escondeu onde antes estivera preso, debaixo da mesa. Fez como um passarinho que, ao fugir e conhecer a vida livre, o real de risco, volta para a gaiola vazia, já sem os recipientes de água e comida, e é surpreendido pelos olhos do menino da casa, que jamais perdera a esperança. Nos olhos do passarinho alguma coisa se apagou. Nos olhos do cachorro também. O homem se vestiu, desligou a tevê, o vídeo, foi ao banheiro e derramou sua urina ruidosa no vaso" (pg. 35)


Mayrant Gallo
(Cosac Naify/2003)


"Um sorriso de dentes sujos e gastos se abriu por trás dos lábios finos do português. Ele acertou o boné sobre a calvície e continuou a sorrir. Assim sorriram seus compatriotas quinhentos anos antes, ao verem as primeiras índias, as primeiras frutas, as árvores imensas, de grossos troncos e copas que eclipsavam o sol. Com uma diferença: neles gritava em grupo o desejo de matar, e a este homem solitário, que dói todas as noites por vários motivos, desde a saudade da pátria até a certeza de que já não pode mais amar, basta a vida, que ela pulse e lhe traga a surpresa miúda dos minutos" (pg. 21)

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"O menino se debruçou na janela e ficou olhando. A tampinha permanecia imóvel e acuada pelos pés que passavam em volta, sem chutá-la, sem pisá-la, nem mesmo roçando-a. Pareciam destroços que contornam uma ilha desprovida de praias, só pedras lisas que nada seguram, nada atraem, tudo escorregam para longe de si, por efeito de seu limo repulsivo. Seria inútil dizer que no centro de tanto movimento, e sons, e cores que se misturavam como roupas dobradas numa prateleira, a tampinha era uma coisa tão ínfima e sem importância, e talvez sem sentido, marca de uma vida alheia e estranha, quanto um mosquito em torno de uma lâmpada se exaurindo até a morte, alucinado e cego, em voltas e voltas" (pg. 25)

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"O menino acariciava com os dedos a tampinha, que ficava mais viva a cada nova carícia. Por fim, sua mão se fechou em torno da tampinha como uma ostra esconde do mundo por décadas um grão de areia e o transforma em pérola" (pg. 24)

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"Seus pés, dentro dos sapatos, reconheciam o chão de um modo agora menos óbvio. E com mais calor, mais afeição, compreensão, súplica. A tolerância de um doente que, cansado do frio da branca enfermaria, sai ao sol e fica alguns minutos de pé, no meio do pátio, sentindo o vazio tépido que salta dentro de seu corpo, o milagre que lhe sobe" (pg. 87)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pílulas: Parte 02 - O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)


"O homem não pode sobreviver além do limite imposto pelo tempo, pela dor. Não pode suplantar a morte, se manter jovem e viril. Tudo o que o homem faz é porque já o traz embutido; tudo, toda ação é, portanto, uma peça a mais montando o emblema turvo do fim" (pg. 59)

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"Sem dúvida que ainda se encontrava longe de ser reduzido a ruínas, mas já possuía muitas fendas, como uma parede de compleição débil que a duras penas suportasse excessivo peso, e das quais a pior era aquela, ser só, de virar o rosto pela manhã na cama e não ver nenhum outro o olhando, ou então de apenas se prolongar a dormir, alheio ao tempo e à força da vida" (pgs. 47 e 48)

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"Não, ele não tinha visto. Pouco olhava a cidade. Passava reto por ela, como a maioria das pessoas. Por isso é que quando enriquecem viram turistas. Vão olhar no exterior ou em outras cidades do próprio país o que nunca viram em sua própria cidade por causa da sofreguidão que os consome, no correr dos dias, na sucessão de eventos muitas vezes vazios, só aparência" (pg. 100)

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"A cidade é a mesma, clara, suja e desarrumada. Quando Gregório de Matos andou por aqui também notou isso. Um homem não pode ser limpo por aqui. Um homem tem que feder, suar e emitir gritos. Só assim será visto e talvez amado" (pg. 58)


Mayrant Gallo
(Cosac Naify/2003)


"Foi uma surpresa para Mauro, uma surpresa boa, como o beijo repentino de alguém a quem se preza ou um abraço de um amigo de fato, desses que não nos invejam e que, abnegados, querem para nós o que tanto desejam apenas para si mesmos" (pg. 55)

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"Tudo nela, sobretudo seus gestos passivos diante da dor e do infortúnio, apontava para um fim árido, um curso doente, um sentido reto demais, uma perda. Nem o suicídio a colocaria em sensata evidência. Sua vida tinha mesmo o gosto medicamentos da vacina" (pg. 91)

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"Com trabalho e mais dinheiro no bolso, os chifres não pesam. Pelo contrário, são motivo de riso entre amigos" (pg. 100)

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"Quando a gente se impõe um longo intervalo em alguma atividade até então intensa, o corpo se acostuma à preguiça, ao livre descanso no trânsito das horas, e ao menor esforço reclama, descamba na dor" (pg. 96)