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Pílulas: Parte 02 - O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)


"O homem não pode sobreviver além do limite imposto pelo tempo, pela dor. Não pode suplantar a morte, se manter jovem e viril. Tudo o que o homem faz é porque já o traz embutido; tudo, toda ação é, portanto, uma peça a mais montando o emblema turvo do fim" (pg. 59)

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"Sem dúvida que ainda se encontrava longe de ser reduzido a ruínas, mas já possuía muitas fendas, como uma parede de compleição débil que a duras penas suportasse excessivo peso, e das quais a pior era aquela, ser só, de virar o rosto pela manhã na cama e não ver nenhum outro o olhando, ou então de apenas se prolongar a dormir, alheio ao tempo e à força da vida" (pgs. 47 e 48)

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"Não, ele não tinha visto. Pouco olhava a cidade. Passava reto por ela, como a maioria das pessoas. Por isso é que quando enriquecem viram turistas. Vão olhar no exterior ou em outras cidades do próprio país o que nunca viram em sua própria cidade por causa da sofreguidão que os consome, no correr dos dias, na sucessão de eventos muitas vezes vazios, só aparência" (pg. 100)

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"A cidade é a mesma, clara, suja e desarrumada. Quando Gregório de Matos andou por aqui também notou isso. Um homem não pode ser limpo por aqui. Um homem tem que feder, suar e emitir gritos. Só assim será visto e talvez amado" (pg. 58)


Mayrant Gallo
(Cosac Naify/2003)


"Foi uma surpresa para Mauro, uma surpresa boa, como o beijo repentino de alguém a quem se preza ou um abraço de um amigo de fato, desses que não nos invejam e que, abnegados, querem para nós o que tanto desejam apenas para si mesmos" (pg. 55)

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"Tudo nela, sobretudo seus gestos passivos diante da dor e do infortúnio, apontava para um fim árido, um curso doente, um sentido reto demais, uma perda. Nem o suicídio a colocaria em sensata evidência. Sua vida tinha mesmo o gosto medicamentos da vacina" (pg. 91)

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"Com trabalho e mais dinheiro no bolso, os chifres não pesam. Pelo contrário, são motivo de riso entre amigos" (pg. 100)

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"Quando a gente se impõe um longo intervalo em alguma atividade até então intensa, o corpo se acostuma à preguiça, ao livre descanso no trânsito das horas, e ao menor esforço reclama, descamba na dor" (pg. 96)

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