Pular para o conteúdo principal

Pílulas: Brancos reflexos ao longe, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Gal Meirelles - interferida por Mirdad)


"– Muito prazer, eu sou a morte.
A mulher não lhe estendeu a mão, nem disse nada, nem sequer lhe voltou o rosto. Por um instante a mão da jovem, dispersa no ar, tremeu misteriosamente para, em seguida, recolher-se ao trabalho de afastar do rosto os fios de cabelo rebeldes, assanhados pelo vento.
– E se eu for mesmo a morte? – disse, o rosto a gozar do frescor úmido que subia dos arrecifes golpeados pelo mar.
(...)
– Mas você não é – a mulher respondeu, um sorriso enigmático a distender-lhe os lábios finos, sem cor.
– Sim, não sou. Mas, e se eu fosse?
A mulher enfim a encarou:
– Eu a aceitaria. Que mais poderia fazer?" (pg. 29)

----------

"(...) seu destino mudara, embora continuasse o mesmo" (pg. 27)

----------

"Perceba: no seu livro tudo é tão real, tão demasiadamente real, que soa falso, ou, melhor dizendo, fantástico. Espécie de simulação do real. A representação exagerada não passa de uma simulação. Qualquer um nota, sem esforço, que o invólucro do livro é uma encomenda. É disso que o passarinho reclamou, desse exagero que transforma o real em fantástico, pois este quase se funde ao ideal. Não um ideal impossível, distante, utópico, do qual mal nos aproximamos, mas um ideal realista, forjado no detalhe e legitimado pelas minúcias. Inverteram-se os papéis: o real pobre, infiel às idealizações, hoje é fantástico, e o fantástico, com todo seu requinte, transformou-se no real" (pgs. 81 e 82)

----------

"Se o útero é um enigma, essa primeira fase da vida é como um vácuo. Você mal se recorda de si. Guarda, porém, a imagem de um quintal, com antigos objetos de casa espalhados pela terra e já vítimas do impiedoso desfolhar das intempéries (...) Uma súbita e glacial escuridão, seguida de um peso agudo, devastador, à altura do peito, e que hoje você compreende que era, talvez, certa intuição acerca da angústia de viver" (pg. 93)

----------

"Com o passar dos dias, a moça se convenceu de que não havia mais esperança, e que o cisne se achava realmente sozinho e por isso vagava ao longe, em meio às luzes. A última compreensão que tiveram deixou-os perturbados. Foi a moça que a sacramentou, com um doloroso comentário:
– Como eu, ele também pensa que as luzes são sua companheira. E passa as noites a nadar, enganado pelas aparências" (pg. 22)

----------

"Um dia, ao passarmos com as maletas abarrotadas de dinheiro, reconheci entre os peões o cara cujo nariz eu havia quebrado, naquele distante dia de minha juventude (...) Fomos chamando os homens e lhes passando o pagamento. Por coincidência, o cara foi um dos últimos, e isso me causou uma terrível agonia. A cada novo nome, imaginava que fosse o dele e me preparava para encará-lo, frente a frente. Não lembrava seu nome; aliás, jamais o soubera. Era o que podia haver de mais sórdido e covarde, bater num homem cujo nome ignora-se" (pg. 09)

----------

"(...) o fantasioso, o quimérico, o onírico não mais surpreendem, ao passo que o real, na sua forma mais crua e impiedosa, não consegue mais chocar nem a uma criança (...) Uma questão de valores, ou de ausência de valores, num tempo de incertezas" (pg. 83) 

----------

"Há um abismo entre as pessoas, em especial entre o poeta e o homem comum, que já não se respeitam, nem se admiram. Nosso silêncio, como se diz nas salas de aula, era sintomático. O ponto nevrálgico de um problema insolúvel" (pg. 88)


Mayrant Gallo
(Livro.com/2011)


"É uma ilusão achar que as outras pessoas são mais felizes. Ninguém é mais feliz que outro: só possui mais dinheiro, mais amor ou mais paz, mais saúde ou mais poder" (pg. 24)

----------

"A praia estava deserta e escura, já que a lua se fora, alheia às necessidades humanas de luz e calor. Mas o céu estrelado iluminava, martelava-lhe o cérebro com sedutoras ideias de outros mundos habitados, cheios de vida, uma vida talvez imortal. Victor se deitou, de costas, pernas e braços abertos, a receber no peito o que o céu deixava cair" (pg. 25)

----------

"A chuva o acordara – um barulho forte nas telhas de alumínio da varanda dos fundos –, e de pronto se lembrou das nuvens de ontem, em formação, em marcha, como um exército a se reunir na planície. Moviam-se – agora sabia – para acabar com o resto do verão, fazer valer o outono, como um marido que chama a esposa às obrigações dos lençóis" (pg. 43)

----------

"A evidência do desconhecido e do improvável feria mais que o frio cortante daquela manhã de outono. Se o homenzinho não estivesse ali, Júlia não se importaria com sua própria nudez, mas, uma vez que estava, pediu quase aos gritos a coberta e, agasalhada, protegida, sentou-se à beira do fogão de lenha, os lábios ainda trêmulos, olhos fitos, de um verde sem mistério.
(...)
A moça também os examinava; e igualmente a criatura, que, do fundo da gaiola, não os perdia de vista. Contudo, seu rosto, plácido e inescrutável – e era isso que conferia à cena uma sutileza maligna – não demonstrava qualquer emoção" (pg. 48)

----------

"(...) tomou o rumo da casa onde ia trabalhar durante as próximas seis semanas. Assim tinha sido no verão passado, e assim seria agora. Ele não compreendia aquelas pessoas, mas não fazia disso um problema. Se queriam alguma coisa, por mais difícil que fosse, ele a providenciaria. Se lhe pediam esse ou aquele objeto, ele os colocava em suas mãos, sem hesitar, nem demonstrar surpresa. Era o empregado. No último verão, surpreenderam-no muitas vezes, sem dúvida, tanto que, no fim, nos derradeiros dias, já não se espantava. E se lhe pedissem que ficasse nu, talvez só hesitasse porque sempre teve dificuldade em se despir diante de outras pessoas, homem ou mulher. Jamais porque achasse estranho tal pedido. Era o empregado" (pg. 31)

----------

"(...) além de Victor, só havia um jovem casal. O rapaz se apoderava do corpo da garota, com estertor, frenesi. Encolhida, ela mal podia se proteger e, portanto, deixava-se recolher ao musculoso e tórrido convés que a envolvia. Os beijos se prolongavam por minutos, ambos numa imobilidade quase marmórea" (pg. 80)

----------

"Você cresce. É um ato que (...) não há como evitá-lo, nem tampouco como conferir-lhe aceleração. Ato letal, como o destino de uma estrela, que se distende, expande e afinal explode. Naturalmente, você não se lembra de muita coisa: os dias existem para uma irremediável perda. São apenas um ponto, um algarismo em negro num dado mês, num exato ano. Como ilhas num mapa. Manchas na pele. Fissuras numa cara. Não excitam, nem param" (pg. 95)

----------

"Juan era do tipo que repetia as piadas para renovar o prazer de ser divertido, fazer rir, e não apenas uma vez, mas duas, três, até que ele próprio se transformasse num eco no vazio. Desta vez o fez mediante uma variação, que, entretanto, não surtiu efeito. Nem a esposa o censurou, nem a pequena plateia sorriu. Vislumbrou-se apenas o malogro de uma lâmpada que, ante a promessa de luz, oferecesse fagulhas" (pg. 56)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…