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Pílulas: Parte 03 - O inédito de Kafka, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: CosacNaify - interferida por Mirdad)


"O cheiro do combustível queimado enchia o ar. Todos por ali, os moradores, deveriam trazê-lo entranhado no corpo. Não havia perfume que o apagasse, nem banho, nem sopro de amor, suor, esperma. Já era parte. Algo que os marcava e sem o que não pareceriam autênticos, pessoas" (pg. 89)

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"A torre da estação da Lapa se erguia contra o céu, riscava nele sua forma rígida. Tentava escapar, furá-lo, cheia de ódio de estar presa há tanto tempo assim pelos cabos que mais pareciam tentáculos. O arquiteto que a projetou não imaginou que um dia até mesmo o concreto sem consciência se revolta contra a imobilidade e a desilusão, e naturalmente se fende. Caso contrário, teria proposto sua construção em material mais flexível, macio e mutável, para que sob o sol adotasse novas formas, se expandisse, se encolhe, se dobrasse" (pg. 89)

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"Com os movimentos que fazia ao se barbear, se perfumar e abrir a porta do armário, numa curiosidade incansável, o pênis ia e vinha na borda esmaltada do lavatório. Deu vontade de urinar, e ele o fez ali mesmo, na pia. Na glande ainda restou uma gota, que o homem enxugou com a toalha de rosto, pendurada ali perto, ao alcance da mão, no fixador de metal. Esse gesto foi tão natural, tão vivo e autêntico, que era como se ele tivesse vivido ali naquela casa toda a sua vida. Como se ali tivesse nascido e visto seu pai morrer" (pg. 36)

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"(...) talvez contrariado com a atitude do cachorro, o homem se levantou e o chutou de encontro à parede, violentamente. O pobre animal ganiu e se escondeu onde antes estivera preso, debaixo da mesa. Fez como um passarinho que, ao fugir e conhecer a vida livre, o real de risco, volta para a gaiola vazia, já sem os recipientes de água e comida, e é surpreendido pelos olhos do menino da casa, que jamais perdera a esperança. Nos olhos do passarinho alguma coisa se apagou. Nos olhos do cachorro também. O homem se vestiu, desligou a tevê, o vídeo, foi ao banheiro e derramou sua urina ruidosa no vaso" (pg. 35)


Mayrant Gallo
(Cosac Naify/2003)


"Um sorriso de dentes sujos e gastos se abriu por trás dos lábios finos do português. Ele acertou o boné sobre a calvície e continuou a sorrir. Assim sorriram seus compatriotas quinhentos anos antes, ao verem as primeiras índias, as primeiras frutas, as árvores imensas, de grossos troncos e copas que eclipsavam o sol. Com uma diferença: neles gritava em grupo o desejo de matar, e a este homem solitário, que dói todas as noites por vários motivos, desde a saudade da pátria até a certeza de que já não pode mais amar, basta a vida, que ela pulse e lhe traga a surpresa miúda dos minutos" (pg. 21)

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"O menino se debruçou na janela e ficou olhando. A tampinha permanecia imóvel e acuada pelos pés que passavam em volta, sem chutá-la, sem pisá-la, nem mesmo roçando-a. Pareciam destroços que contornam uma ilha desprovida de praias, só pedras lisas que nada seguram, nada atraem, tudo escorregam para longe de si, por efeito de seu limo repulsivo. Seria inútil dizer que no centro de tanto movimento, e sons, e cores que se misturavam como roupas dobradas numa prateleira, a tampinha era uma coisa tão ínfima e sem importância, e talvez sem sentido, marca de uma vida alheia e estranha, quanto um mosquito em torno de uma lâmpada se exaurindo até a morte, alucinado e cego, em voltas e voltas" (pg. 25)

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"O menino acariciava com os dedos a tampinha, que ficava mais viva a cada nova carícia. Por fim, sua mão se fechou em torno da tampinha como uma ostra esconde do mundo por décadas um grão de areia e o transforma em pérola" (pg. 24)

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"Seus pés, dentro dos sapatos, reconheciam o chão de um modo agora menos óbvio. E com mais calor, mais afeição, compreensão, súplica. A tolerância de um doente que, cansado do frio da branca enfermaria, sai ao sol e fica alguns minutos de pé, no meio do pátio, sentindo o vazio tépido que salta dentro de seu corpo, o milagre que lhe sobe" (pg. 87)

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