quarta-feira, 30 de março de 2016

Seis passagens de Marina Colasanti no livro de contos O leopardo é um animal delicado

Marina Colasanti (foto daqui)


"Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira ao tempo, sem que pérola rolasse. (...) Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando, enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava. Vinda dos pés – ou seria da nuca? – a paralisia que já lhe havia tomado os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração. (...) Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto. (...) E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além do hábito."


"Aquela tinha sido a primeira traição, pelo menos que ela soubesse. E talvez por isso a mais dolorosa. Houve outras depois. Que ela soube ou não soube e sempre suspeitou. Nunca mais depois da primeira achou que o tinha só para si. Também, para quê?, dizia-se às vezes dando de ombros como coisa que isso, que ele, não tivesse a menor importância. Tinha. Um marido é um marido, mesmo quando não é só da gente. E ele era um bom marido. (...) Agora ela se perguntava se deveria ir espiar também nas casas das outras. Mas quais haviam sido essas outras, e onde ficavam suas casas não sabia mais dizer. Tudo se confundia numa massa sem rostos, uma pasta de suspeitas que na sua memória não guardava nomes, mas amargura apenas e ainda, sempre, humilhação. Era essa a herança que ele havia lhe deixado ao partir, pensou ressentida."


"Primeiro os bares e os restaurantes perto do escritório dele, os que ele havia frequentado, os que talvez frequentasse. Percorreu todos. Entrava na hora de maior movimento, andava nos espaços estreitos entre as mesas, olhando, desculpando-se, debruçando-se para certificar-se. E voltava a entrar nas horas mortas, sentava, pedia um refresco, uma sobremesa, e demorava demorava diante do copo suado, do pratinho cheio de migalhas, à espera de vê-lo entrar de repente mas tão presa em seus próprios pensamentos que, se de fato ele entrasse, era capaz de nem percebê-lo. Onde teria ido parar seu marido? Que fim tinha levado o homem que lhe havia feito um filho, aquele que ela havia acreditado conhecer melhor do que ninguém, melhor do que ele mesmo, e que no entanto, como um desconhecido, havia desaparecido da sua vida deixando-a só, deixando-a tão só?"


"Um tiro que assalta nosso sono sempre atinge o alvo, ainda que o alvo não sejamos nós, pensou surpreendendo-se com a nitidez do pensamento. Sentia-se atingido, a sensação tão mais importante do que a ordem das palavras. (...) Esperou um instante para ver se a mulher a seu lado na cama se mexia. Mas o colchão continuou imóvel como se vazio. Melhor assim, ela era muito impressionável, se acordasse o assunto acabaria se estendendo no dia seguinte tornando-se difícil de pagar. Ele próprio continuou na mesma posição. Tentou ouvir a respiração dela. Antes que o conseguisse, adormeceu. (...) Talvez tivesse apenas cochilado, questão de minutos, porque logo estava novamente acordado, olhos bem abertos, nenhum descompasso, e a certeza de saber que lhe entrava quarto adentro. Dessa vez não era um tiro. Rajadas de metralhadora pareciam ricochetear entre os prédios estremecendo os vidros da janela. Um corte no ar, picotes abrindo superfícies que ele não via, não imaginava, recusando-se ainda a pensar carne e sangue. As rajadas seguiam-se a intervalos pequenos. E a cada brecha de silêncio ele desejava que fosse a última, fechando a noite onde ela havia sido rasgada, restaurando a integridade da escuridão como o lago restaura sua superfície encobrindo o corpo que caiu."


"O homem atendeu. Alô, disse, e era o mesmo homem de sempre, aquele que os vizinhos conheciam, seu Jonas da casa três, um pouco rude mas respeitador, marido da dona Selena. Atendeu com a voz de dono com que um homem atende o telefone da própria casa. (...) Bastou porém ouvir a resposta do lado de lá, para que a ameaça o alcançasse como um dardo. Delegacia? Não era um presságio, era a realidade do medo que lhe tomava os joelhos, o peito. E à medida que o outro falava, conciso, indo logo ao essencial, Jonas sentiu que deixava de ser o Jonas que sempre havia acreditado ser, tornando-se alguém que ainda não conhecia. Sem que o interlocutor pudesse perceber, uma metamorfose se operava do lado de cá da linha, e esse homem, Jonas, de fone na mão, via-se despido da sua segurança como a serpente é despida da pele, e nu, com sua branca carne viva, já não era o marido respeitado e invejado pela vizinhança mas alguém de quem se ri pelas costas (...) Expulso da serenidade, Jonas encontrou-se ao desabrigo. Sei, respondeu depois de um longo silêncio que o outro, de lá, tentava quebrar para ter certeza de ter sido entendido. Sei, repetiu. E, pela primeira vez, sabia."


"Do outro lado da rua, o homem ouve, ouve claramente o som daquela cabeça batendo na quina da calçada. O som de um coco partindo-se, dirá depois muitas vezes, todas as vezes que repetir a história na tentativa inútil de livrar-se dela. De um coco partindo, dirá juntando as mãos e abrindo-as lentamente. De um coco. (...) O homem afasta-se apressado ao longo da calçada, sem nem cruzar para ver o jovem de perto, sem ver o sangue que, ele sabe, se alastra por baixo da cabeça morena. Não quer complicações, polícia, depoimentos, é turista, não reconhecerá ninguém, não testemunhará, nem estava ali. Levará uma história consigo na viagem de volta. Só isso. História não é crime."





Presentes no livro de contos O leopardo é um animal delicado (Rocco, 1998), páginas 38-39, 67, 64,
90-91, 144-145 e 27, respectivamente.






Seleta dos contos

01) A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain
02) Um dia, afinal
03) O leopardo é um animal delicado
04) A segurança mantida
05) As regras do jogo
06) É bela à noite
07) Na funda escuridão
08) Começou, ele disse
09) Além do muro, os coiotes
10) Lacoonte em negra água
11) Como é mesmo o nome?
12) Amor e morte na página dezessete


PS: Esta é a milésima postagem
do Blog do Ël Mirdad

sexta-feira, 25 de março de 2016

Oito passagens de João Silvério Trevisan no livro Troços & destroços

João Silvério Trevisan (foto daqui)


"(...) Duvidoso como é, o amor me provocou dores horríveis. Nunca se sabe se o que chamamos amor é desamparo, solidão doentia ou desejo incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância da ordem. Não, o amor não é a solução para a vida. Mas é culminância. Morrer por ele me trouxe paz."


"(...) havia as brincadeiras bem mais concretas. De encoxar, por exemplo. Ou meter. A mãe lavava roupa pra fora. Não sobrava dinheiro para as figurinhas. Quando então ele ganhou o álbum na escola, pra encher. Combinou com a molecada da vizinhança, porque gostava. Iam pro mato depois das aulas, ele curvado, a bunda de fora. Uma figurinha, só encoxar. Três figurinhas, põe a cabeça. Seis figurinhas, então podia pôr tudo. Mas olhava as figurinhas, antes de deixar. Pra ver se não tinha repetida ou fácil demais. Senão, não aceitava. A molecada formava fila detrás dele, figurinhas numa mão, pinto na outra, se esfregando para estar bem durinho quando a vez chegasse. As mães um belo dia descobriram, quer dizer, era exagerado aquele ajuntamento de moleque. Uma delas pegou o filho pelas orelhas, batendo com corda. Arrastou até a privada, baixou-lhe as calças, olhou a bunda. E depois, gritando por cima do muro: – Ô Clotilde, já olhei o meu e graças a Deus tudo certo. Agora vê se espia o cu do teu. Se tiver algum rasguinho, então toma cuidado. É viado na família."


"Foi um lento despertar, saído da caverna para a luz, ao som de uma quena indígena às cinco da manhã. Aquele dulcíssimo sopro despertava-o de um sonho de morte do qual se lembrava apenas que era preciso recomeçar. Mas também lhe soava vazia, essa peregrinação em busca do eterno começo. Como se houvesse sentido em principiar outra e outra vez, nascer do fundo da terra, de suas raízes e intestinos, para o mundo. Lembrava-se que tinha atravessado infernos no âmago da terra, para chegar à beira do precipício, bem no coração do perigo e do forno. Voltara a milhares de anos atrás, onde todos tinham começado, fazendo talvez a primeira grave pergunta: tudo isto para quê? (...)"


"(...) o morto ficava para sempre condenado. À solidão, pensou ele. Para sempre desamparado. Vagando por entre uivos de dor e saudade, na escuridão da ausência do tempo, levado talvez pelo vento (que os mortos são leves) ou empurrado pela poeira do cosmos. Carregado para mundos estranhos, distante de tudo o que lhe fosse familiar. Sem poder protestar, sem poder se vingar da ingratidão dos vivos. Para sempre estranho movimentando-se no infinito obscuro."


"(...) O que leva um ser humano a se engalfinhar com outro ser humano? – pensou. Por que se torturam até a morte? Pensou na primeira pessoa: Por que me torturo até... Talvez não fossem demônios possuindo nós humanos mas tão-somente o tédio humano. Tudo se torna tedioso depois de se transformar em realidade quotidiana – inclua-se aí o desejo de matar. A pele se rasga, os ossos se quebram. Mas o que torna esse gesto corriqueiro é que não sou eu e sim um outro quem o sofre. A destruição não me atinge. Ao contrário, eu a imponho, eu sou dono dela. Talvez por isso os homens amem se massacrar entre si: para se sentirem vivos, matando."


"Era mesmo um espaço pequeno demais, pensou Lúcio. Muito reduzido para dois. Dois exatos homens, mais do que suficientes para compor certa unidade de sofreguidão com a qual só às vezes – bem poucas vezes – a vida se depara, em seu curso cego: o amor. (...) Não sabia por onde começar. Limpou a garganta. (...) Era preciso aceitar. Mas onde encontrar forças para engolir o inevitável horror de encerrar o curso de algo tão deslumbrante? Pensou o que estava prestes a ser decretado: o amor, a partir de agora, iria pertencer ao passado. Acabou. Isso era mesmo insuportável. Dilacerante. Não havia faz-de-conta. Ali na cama, a medida exata do dilaceramento podia ser apreendida pelos vários tons da sonora dor. Olhou mais. Saulo parecia uma estátua soluçante, movida pela incongruência da dor."


"(...) Por que seria revolucionário esse gesto naturalmente arbitrário de querer impor sua marca ao real? Fazer uma revolução para deixar rastros de nossa passagem? Marcas e rastros: onde, em quem? Seria então revolucionário cada um desses milhares de momentos de força em que lutamos uns contra os outros – para desse caldo de infinitas misturas e violências nascer a História? Revolução: sobrevivência. Revolução: continuidade da História. Às custas da morte. Devoração. O rastro revolucionário da História deixando marcas de sangue. Cadáveres nos caminhos da revolução. Não haveria revolução possível para os cadáveres, porque minha revolução é sua condição de ser cadáver. Minha vontade (continuidade) é a sua morte. E como crer em revolucionários? Revolucionário: assassino. Um novo bando de assassinos toma o poder: revolução. (...)"


"(...) Fazia frio, aquele frio necessário para que eu me aconchegasse a mim mesmo, a ninguém. Não queria senão o ato do aconchego – não ideia fixa, não amargura – apenas para dizer uma prece à minha maneira, em lugares onde a prece não podia existir. Era isso, quem sabe. Eu vivia um momento interior, por entre os prédios da cidade. Numa catacumba cheia de luz poluída, que não me interessava nem me dizia nada além do fato de encontrar-me numa catacumba, em ato de prece, com reverência, outra vez aquele mesmo sentimento infantil de estar metido numa coisa que de tão imensa perdia o significado de sua grandeza. Eu queria o improvável da minha vida vertido no dia-a-dia tão preciso dos barulhos, das mecanicidades, da irreverência, da planura absoluta. (...)"






Presentes nos livros de contos Troços & destroços
(Record, 1997), páginas 114, 20-21, 95-96, 98, 104,
132, 109-110 e 33-34, respectivamente.





Seleta dos contos

01) Dois corpos que caem
02) Variações sobre um tema de Mozart
03) Crianças
04) No princípio, Cuzco
05) Altar de oferendas
06) Judite, Judite
07) Sobreviventes

quarta-feira, 23 de março de 2016

Sete passagens de Sérgio Sant'Anna no livro A senhorita Simpson

Sérgio Sant'Anna (foto daqui)


"(...) desconfio que não apenas eu, mas todos nós, nos sentimos inexistentes. Por isso é que é paradoxal o egocentrismo, no que Galileu estava certo, se é que entendem a relação. Então fabricamos acontecimentos e histórias para podermos narrá-los, uns aos outros, convencendo-nos reciprocamente de que existimos. E é assim que produzimos cada vez mais carma e acontecimentos, fazendo rolar a história maior da espécie, que talvez já devesse estar extinta, sem nenhum prejuízo para todas as outras espécies, diga-se de passagem."


"– Como fazer literatura aqui? – ele disse, com um gesto largo e bonachão para a praça cheia de vadios, largando-me o braço. – Aqui, nesta paisagem sórdida. A não ser uma literatura também sórdida, nem mesmo proletária, com essa multidão de lumpens e pequenos criminosos. Falta o mistério (...) Aqui o sexo e a nudez são por demais escancarados, algo bruto, e a corrupção está no rosto das pessoas, os homens com seus bigodes, e sempre bicheiros nas histórias, nos filmes, vulgaridade. (...) Eu também não possuía pruridos ufanistas, neste ponto estávamos de acordo. Como orgulhar-me de alguma coisa lá de cima daquele viaduto, testemunhando a forma boçal como os motoristas dirigiam, como se ainda não houvéssemos superado o estágio da tração animal? (...) – Falta-nos uma civilização – eu disse isso pra ele –, e talvez já seja tarde demais para isso. (...) – Em algum ponto do caminho, talvez uma revolução houvesse resolvido. Não se constrói uma civilização sem guerras e revoluções; não se faz isso sem sangue. (...)"


"– Sabe o que eu acho idealista e furado na nossa posição? É que o mundo tem gente demais e as relações socioeconômicas se tornaram muito mais complexas para que ainda possamos aspirar a um doce, utópico e ingênuo anarquismo tribal. O máximo que vocês artistas podem fazer é colocar um pouco de farinha no discurso deles, para fazê-los engasgar. (...) – Tome cuidado, companheiro – retrucou um dos participantes daquele bucólico Conselho ao redor de uma fogueira. – Tome cuidado com a coerência do seu próprio discurso, que está sintático e sentencioso demais, para não dizer aristotélico. Daí para a lógica é um pequeno passo. (...) Piotr reagiu, ofendido: – A lógica que eu sempre usei era escorregadia como uma casca de banana colocada no caminho deles. (...) – Mas tome cuidado, companheiro, para você mesmo não escorregar nela."


"O homem ali sentado no banco, a maleta no colo, apoiando nas mãos o rosto com uma expressão fatigada. Uma das probabilidades é que haja perdido o trem e terá de aguardar outro por muitas horas ou mesmo todo um dia, pois percebe-se, pela modéstia da estação, que este é um ramal de província e secundário. E talvez existam poucas coisas que tornam um ser humano mais impotente e derrotado que a simples e longa espera. Pois nada se realiza que possa fazer existir o tempo e fluí-lo. E qualquer um que ali esteja, sozinho num banco de estação ferroviária, parecerá um retirante, ainda que sua aparência denote cuidados até um tempo recente."


"De volta à vida interior no meu cubículo. Existe algo de grandioso, solene e até belo na solidão, quando um homem, depois de ter tido o seu quinhão satisfatório de vida, resolve recolher-se a uma casa modesta e afastada, na montanha, para aí desfrutar da memória dos seus amores, seus sucessos e fracassos, os livros que ele não julga mais imperioso escrever, deixando as comportas abertas para uma vida mais contemplativa. Mas e a miserável solidão numa tarde de calor ali em frente ao viaduto, depois de um encontro de negócios fracassado? Os carros continuavam a passar com seu ruído infernal, literalmente, e eu não podia fechar as janelas ou as cortinas, porque não possuía um aparelho de ar-condicionado (...)"


"Os guarda-costas revistaram a prostituta com evidente prazer. Ao chegarem na parte de baixo tiveram uma surpresa. (...) – É um travesti – disse um deles, reaproximando-se do carro. – Quer que o fuzilemos? (...) O presidente refletiu gravemente e disse: – Não, deixe-o entrar. Vocês vão no banco da frente. Quem sobrar pega um ônibus. (...) Quem sobrou foi o assessor de imprensa. O presidente deu-lhe um bolo de notas para pagar o ônibus. Ou um táxi, se ele tivesse sorte. (...) Quando o carro arrancou, o assessor de imprensa encostava-se ao poste onde antes estacionara o travesti. A luz néon dava-lhe um ar pálido, quase cadavérico. Mariposas esvoaçavam mais acima, como pássaros da noite. Era bonito."


"Ele meditara também sobre as condições meteorológicas, olhando para o céu e concluindo que o tempo continuaria firme, o que significava que ele poderia passar a noite num dos bancos ou gramados do centro da cidade. Costumavam causar-lhe tédio, quando dormia na rua, as manhãs sem destino até a hora de pegar o serviço, procurando distrair-se olhando o mar e os aviões na ponta do Aterro, perto do aeroporto, ou frangos giratórios nos fornos envidraçados ou, nos cartazes de cinema, mulheres nuas e homens de ação. Mas este era um problema para amanhã e depois de amanhã, no máximo, porque no terceiro dia sairia o pagamento. Ele era um homem que vivia nas imediações do presente, pois o passado não lhe trazia nenhuma recordação agradável, em especial, e o futuro era melhor não prevê-lo, de tão previsível. A data de pagamento, porém, era um marco cronológico ao qual ele se apegava."





Presentes no livro de contos A senhorita Simpson
(Companhia das Letras, 1989), páginas 86, 26-27, 18-19,
33, 53-54, 37, 14, 159 e 43, respectivamente.






Seleta dos contos

01) Um discurso sobre o método
02) A mulher cobra
03) O homem sozinho numa estação ferroviária
04) Historieta numa República


segunda-feira, 14 de março de 2016

Nove passagens de Ana Cássia Rebelo no livro Ana de Amsterdam

Ana Cássia Rebelo (foto daqui)


"Aparece aos domingos para visitar os filhos. Volta e meia, tenta beijar-me. Diz ainda que me ama. Toca-me como se eu fosse uma prostituta. Roça as mãos no meu peito e no meu rabo. Aproveita os momentos em que a Dá está presente, mas distraída a olhar para a televisão ou entretida a alimentar o peixinho encarnado. Sabe que não gritarei para não a assustar. Quero poupá-la ao sofrimento e à minha miséria. São gestos que mal se notam, não deixam marcas visíveis, mas que ele executa com a intenção de me humilhar, de me paralisar, para mostrar que continua a ser meu dono. Peço-lhe para parar. 'Sei que queres...', diz-me com despeito. Eu nunca quis. À despedida, volta a olhar-me como que a avisar que sou um corpo que lhe pertence. Quando a porta se fecha e voltamos a ser só nós quatro, arregaço as mangas e mordo os braços até magoar. Tenho nojo do que fomos. Mas também tenho medo. Não é fácil a gente livrar-se do medo."


"Pesa-me a rotina dos dias iguais. É como se os dias da minha vida tivessem sido produzidos em massa. Em fábricas assépticas, reluzentes. Todos com o mesmo peso, a mesma forma, o mesmo rótulo, as mesmas cores pardacentas. Inodoros, com um sabor indefinido, aguado. Pouco apetecíveis. Dias iguais. Sempre iguais. Iguais como os pacotes de leite, de farinha, de açúcar, que se enfileiram, aprumados, nas prateleiras dos supermercados. Pesam-me os silêncios, as ausências. Às vezes, tenho a sensação de que dentro do meu corpo habita um bicho voraz que se alimenta da minha tristeza. Uma espécie de tumor que cresce à medida que os dias passam iguais. E se um dia o bicho-tumor tomar conta de mim? E se um dia ele rebentar dentro de mim, espalhando, pelos meus órgãos, tecidos, artérias, pedaços putrefactos dos meus dias?"


"Branca não sentia prazer. Nunca sentira. Durante muito tempo achara-se diferente das outras mulheres. A idade, porém, trouxera-lhe serenidade. Apaziguara-lhe a frustração. Não só aprendera a aceitar a morte do seu corpo, como fazia questão de a usar em seu proveito. Cada vez que se envolvia com um homem, apressava-se a contar-lhe o seu segredo. Depois de um estremecimento inicial, os homens compadeciam-se da sua sorte. Olhavam-na com pena. Branca revirava os olhos, batia as pestanas, alargava disfarçadamente o decote, pousava as mãos de cera no regaço, suspirava com brandura. Parecia uma santa. Sabia que a frigidez do seu corpo acicatava o desejo dos homens. Mesmo aqueles que a princípio pareciam não se interessar por ela, quando sabiam do seu padecimento, encontravam-lhe predicados e atributos. (...) Todos queriam salvar Branca daquele destino trágico e cada um deles, no seu íntimo, achava-se capaz de o fazer, cumprindo a sua vocação natural, usando de uma virilidade que julgavam eficaz e irresistível. (...) Falhavam sempre. Quando davam conta da sua derrota, ficavam inertes. Olhavam o vazio. Para muitos, era a primeira vez que o fracasso lhes aparecia tão nítido pela frente. O estremecimento inicial voltava. Sofriam. Não por Branca, mas por si próprios. No fim da noite, era sempre ela que os consolava."


"Foi assim durante muito tempo. O meu despertar era sempre igual. Acordava triste e desesperada. Procurava o corpo na penumbra do quarto, desejando não o encontrar. Talvez alguém, durante o sono, compadecendo-se da minha dor, o tivesse levado para longe. Quando o encontrava, ao meu corpo, adormecido a um canto qualquer, pontapeava-o com violência para que se erguesse. Como se fosse um vagabundo que se despreza. Erguia-se o meu corpo, tão estiolado, tão frágil, entrava dentro dele e corria à cozinha a arranjar os pequenos-almoços dos meus filhos. Habituei-me à tristeza, que é como a solidão, fere, mas deixa em nós qualquer coisa, bela e única, que não se sabe explicar. Quem não tem dentro de si alguma tristeza e solidão não é gente. É personagem de anúncio de televisão. (...)"


"Tinha vindo da Índia com um homem mais velho que abandonara a mulher e dois filhos pequenos em Margão. Custou-me acreditar quando a minha mãe me contou, em surdina, com a gravidade que o assunto lhe merecia, que a Maria de Lurdes era amante de um homem casado. (...) Fiquei no carro à espera enquanto o meu pai subiu para falar com os amantes. Imaginei-os, sem falar português, vindos da pacatez de uma aldeia goesa para o turbilhão de uma cidade que não compreendiam. Imaginei-os transidos de frio, deitados numa cama de pensão, a escuridão úmida do quarto cobrindo-lhes o corpo. Imaginei-os, nus, amando-se com embaraço e tristeza. (...) Soubemos, passado algum tempo, que tinham ido para Londres. Trabalharam na cozinha de um restaurante. Ela lavou loiça até as suas mãos gretarem e sangrarem. Ele tratou dos desperdícios até o cheiro do lixo se entranhar nas fibras da sua roupa de agasalho. A dureza da vida que levaram em Londres fez com que o seu amor acabasse. Acontece muitas vezes. Só nos livros e nos filmes é que o amor vence montanhas, ultrapassa dificuldades, é enorme, belo e eterno, como um diamante. Na vida real, o amor não tem essa grandeza nem esse brilho. Esgota-se. O amor vale pouco. O goés voltou para a mulher e para os seus filhos. A Maria de Lurdes voltou para sua aldeia. A família, muito sábia, recebeu-a em silêncio. Nunca falaram sobre o assunto. A vida continuou como se nada tivesse acontecido."


"O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se um vício. Percebo bem o que queria dizer. Sou depressiva há muitos anos, mais de vinte, e não sei como me livrar da tristeza quando ela decide tomar conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tomei muitos comprimidos, lamelas e lamelas de comprimidos. Já falei com um padre. Já tive filhos para que a maternidade, me secundarizando, acabasse de vez com a tristeza. Já tentei preencher o tempo com coisinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros. Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho. Sou de vícios e fraquezas."


"O cabeleireiro chega por fim. Conheço-o vagamente. Vejo-o muitas vezes à porta do salão, entre dois cortes, a fumar. Está sempre tenso como se, permanentemente, lhe faltasse alguém. Pergunta com um sumiço de voz como quero o cabelo. 'Curto, muito curto'. Ele olha-me. Sabe que quando uma mulher arrisca tanto é porque alguma coisa se passa na sua vida. Ou tem vontade de fechar um capítulo da sua vida e de se tornar uma outra mulher, ou, então, precisa de se flagelar, de se penitenciar, de se magoar. Cortar o cabelo equivale a uma expiação. Senta-se num banco alto e, tesoura em riste, com precisão, vai-me decepando o cabelo. Ceifa-o com golpes profundos. Eu, como quando era pequena, desvio o olhar do espelho oval e começo a contar os vidrinhos de verniz que estão no interior de um cesto de verga."


"Guiomar abre a boca e diz: Amedrontam-me as horas tardias e tudo o que elas têm dentro. São intermináveis, as horas tardias. (...) Trazem dentro delas mãos, sombras, vultos. Trazem a urgência dos outros. De quem me quer. Eu deixo que me queiram. Deixo que me tomem. Deixo até que me toquem. Mas não sinto nada. Nunca senti nada. Não acredita? (...) Sabe, as horas tardias não são sempre iguais. Por vezes, são violentas. Precipitam-se. Transformam-se em palavras-arremesso. Cavalgam sem cabresto sobre mim. Outras vezes, são pacíficas. Quase mornas e confortáveis. Como um casaco velho de lã. Ou o cheiro da roupa lavada. Sabe por quê? Porque quem me quer nada exige de mim. Não tenho de demonstrar afecto nem interesse. Só tenho de estar ali. Disponível. Passo a ser um corpo que se consome por hábito. Quando as horas tardias são assim, mansas, consigo sair do meu corpo e ver-me. Vejo-me. Tenho quase sempre os olhos enxutos."


"Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei porque vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita. Petrifica-me. Torno-me um cristal baço. Uma mancha de bolor. Uma estátua grotesca. Repelente. (...) Sei, com precisão, onde, no meu corpo, se aloja a tristeza. Sinto-a aninhada na traqueia, perto da laringe e da faringe. Nas imediações da glote. Provoca-me náuseas. Vontade de vomitar, também. Hoje, durante o almoço, transformou-se em lágrimas e escorreu sobre a sopa de agriões."






Presentes no livro Ana de Amsterdam (Biblioteca Azul, 2016), páginas 115-116, 50-51, 59, 113, 94-95,
157, 61, 45 e 37, respectivamente.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Nove passagens de Raimundo Carrero no livro O senhor agora vai mudar de corpo

Raimundo Carrero (foto daqui)


"Começa a decidir que tudo isto, toda esta imensa contorção do Homem deve ser colocada no papel, escrita, para desvendar seu mundo interior, sua completa derrota, sua frágil, inquieta e tenebrosa condição humana. Está na hora de se despojar de todas as vaidades e honrarias, das manifestações exibicionistas de vitória, e de sucumbir diante do inevitável, do aterrador, do horroroso, misturando-se ao pó inquestionável da vida, das cinzas que são desmanchadas pelo vento. (...)"


"(...) A manhã do Recife, lerda e lenta, é a manhã do Recife, apesar do sol quente. Permanece na ambulância, preocupado com o anúncio da dor feito pela sirene... O que não gosta deste mundo é da proclamação da dor, como se faz em todos os lugares e por qualquer motivo. Lamenta o excesso de exposição. Quando estará em condições de ver novamente os jardins, as ruas quebradas, as praças desta cidade? Quando menino, gostava de andar nas calçadas recolhendo frutos. Às vezes os comia, lavando-os nas torneiras dos jardins... Agora, é apenas um traste velho interrompendo o trânsito da cidade com o corpo falido numa ambulância barulhenta."


"Compreende, enfim, que a arte se compõe desses elementos que resultam na proclamação da beleza – e, portanto, da vida, da impenetrável condição humana –, sem nenhum compromisso com a ética ou com a moral, passando apenas e exclusivamente pelo gosto, pela sutileza do gosto. Volta a se sentar e tem a vertiginosa sensação de que a arte penetrara com tanto vigor no seu sangue, com tanta firmeza e deslumbre, que a morte e a rejeição do mundo são, na verdade, apenas obras de arte, cujo artista é a Divindade."


"Neste instante, ele ouve o som metálico do frevo e a luz do sol multiplicando-se em muitas bolas de fogo, queimando as árvores e incendiando o céu empestado de fuligem e poluição do Recife, agora transformado num mundo de ansiedade e espera, algo que se aproxima muito do arco de desolação que se estende no horizonte de prédios e gigantes que ocupam a paisagem da cidade. Um mundo de ferro, cimento e pedra."


"(...) quanto mais se esforça, mais fica diante de si mesmo, jogo de espelhos que se agita nas entranhas, as imagens múltiplas de homens, bichos e monstros, até chegar em casa para o banho, para o jantar e para o sono, se é possível convidar os sinos do sono para acompanhá-lo. Para embalá-lo na noite medonha. Não tem sonhos nem pesadelos, as sombras multiplicadas da madrugada, a madrugada que é o bordado das sombras, e, dentro das sombras, os pensamentos, o sabor no segredo da fruta. Ele conhece a velha sentença embalando o corpo antigo, as sombras bordadas formam o tecido da noite e vão encontrá-lo já abrindo os olhos para ver as luzes azuis da manhã que se aproxima. Ele sabe, sabe e conhece muito bem, desde criança, que a luz azul é começo da manhã. Toda manhã começa azul para se tornar amarela, quando é completa e domina o mundo. (...)"


"– É que tive uma ideia estúpida.
– Estúpida? E por que está acreditando nela?
– Não estou acreditando... estou com medo...
– Então me fale dessa estupidez...
– Pensei que a vida fosse um milagre, como se diz por aí, e em sendo um milagre... é uma ofensa a gente olhá-la... Não podemos testemunhar um milagre porque não merecemos...
– Que absurdo é este, rapaz? Você não apenas sofreu um AVC, você ficou maluco.
– E quem é maluco pode escrever?"


"(...) O pobre homem sofria e estava morrendo, mas a medicina não podia ajudá-lo. Ninguém podia ajudá-lo... e a família se divertia nos cafés e nos teatros, gargalhando e amando. De que forma aquilo podia significar ‘a vida’? A vida do personagem que gemia de dor e de desesperança... A mesma desesperança que o atingia agora, o Escritor devastado pela angústia de não poder reagir. Jamais reagiria. E agora as pessoas nem mesmo queriam acreditar nele... (...)"


"– O senhor quer ler o meu romance?
O homem era alto, falava rouco e pausadamente:
– Leio sim, deixe o original comigo. Se eu não gostar, não significa que não preste, significa apenas que eu não gostei.
Isto ele não sabia naquele instante: começava ali uma amizade de quarenta anos, com muitos estudos, análises, leituras. E conversas acaloradas, exaustivas, demoradas. Cheias de humor e ironia. O Escritor estava certo de que enfim encontrara o caminho do nariz. Mas com Ariano aprendeu que a literatura se faz com metáforas e que a literatura brasileira pode ser erudita, requintada, a partir das bases populares. O folclore seria e é a base da nossa cultura mas sem ser registro documental ou cópia. O folclore é o símbolo da condição humana."


"(...) Desejava preparar uma marcha dos desesperados sobre o Recife, numa imagem cinematográfica e poética, própria de um sonhador, de um revolucionário impedido de sonhar. De um homem arrancado de sua vida tradicional, conservadora e pacífica. (...) – Vai ser um grande espetáculo, camarada. Quando a cidade acordar verá os famintos, os miseráveis, os desesperados saindo da lama do rio Capibaribe, levantando-se em andrajos, descalços e despenteados para ocupar a cidade. Sairemos sem armas, sem flores, sem cânticos e sem marcha, a revolução da dor, sem sangue e sem gemido. Ocuparemos os bancos, as lojas, os quartéis e as repartições públicas. Tomaremos os lugares dos chefes, dos soldados, dos administradores, e entregaremos todos os cargos aos famintos, às putas, aos loucos, a toda a pária social. (...) A partir desse dia, não se conhecerá mais a força desmesurada de depósitos bancários, empréstimos, juros, inflação, e só praticaremos o único gesto político de que o homem é merecedor – viver."





Presentes no livro O senhor agora vai mudar de corpo (Record, 2015), páginas 65-66, 27-28, 65, 16-17, 23, 57, 35, 73 e 99-100, respectivamente.



quarta-feira, 9 de março de 2016

Seis passagens de Renato Russo no livro Só por hoje e para sempre

Renato Russo (foto daqui)


"O guitarrista da Legião Urbana é uma das pessoas mais admiráveis que já conheci. Além de grande generosidade de espírito, inteligência, coragem e sensibilidade, ele é um raro exemplo de beleza física aliada a sex appeal: belo, sensual e de personalidade marcante (raramente beleza vem acompanhada de inteligência e charme). Pois bem, não confundo trabalho com sentimentos de ordem afetiva e nunca tinha me deixado afetar com sua companhia, até que vim a saber que Fernanda, sua esposa, e empresária da Legião de 84 a 87, se ressentia comigo, por achar que eu estava interessado em seu marido. Na verdade nunca tinha pensado nisso, mas, assim que soube de seu medo, passei a perceber Dado com outros olhos e, embora nunca tenha levado meu interesse às vias de fato (só em pensamento), as fantasias começaram. (...) Ele era o motivo para me esforçar, levar meu trabalho em frente, ter ânimo quando estava desinteressado e força quando estava prestes a desistir. Muitas vezes resolvi problemas e encontrei soluções criativas só porque Dado ficaria feliz. (...)"


"Por falta de assertividade (depois de tentar explicar meu ponto de vista de todas as maneiras que encontrava, acabava desistindo), sempre cedi aos caprichos do baterista da banda, Marcelo Bonfá, que na época tinha um grande ressentimento em relação à minha pessoa. Tentando evitar problemas maiores, decidi, junto com o guitarrista, Dado Villa-Lobos, que usaríamos o estúdio de gravação (...) para ENSAIOS, pagando em dólares os períodos hora/gravação, só porque o baterista não queria usar fones de ouvidos. Perdemos muito tempo e dinheiro, não achei os resultados plenamente satisfatórios (...) Por eu não ser assertivo, Bonfá se achava indispensável e sempre que possível dificultava as coisas, para se valorizar às custas do grupo. EU sempre cedia, também porque não suportava rejeição e queria ser amado. (...)"


"Por volta de 1984, antes de lançarmos nosso primeiro disco, estávamos em São Paulo para uma apresentação no clube Rose Bom Bom (uma casa new have da moda na época, com capacidade para um público de trezentas pessoas) e subi bêbado ao palco, o que atrapalhou minha dicção e deixou os outros membros da banda muito chateados (exceto o baixista, que também estava mais para lá do que para cá). O público não notou nada, porque nossa música na época era muito barulhenta e todos acharam que minha performance era parte do show. Não era, eles adoraram de qualquer jeito, mas fiquei muito descontrolado e (como sempre) sozinho depois do show porque ninguém queria falar comigo (acharam que tinha sido um desastre). Eu bebi mais (é claro) e achei, com arrogância, que isso era um comportamento tipicamente rock’n’roll, quando na verdade era antiprofissionalismo mesmo."


"No final de 1980, por ocasião dos sete dias de morte de John Lennon, estava programado um evento mundial: dez minutos de meditação e silêncio. (...) Na época ainda tocava no meu primeiro conjunto de rock, o AE (Aborto-Elétrico), e tínhamos uma apresentação no Cruzeiro, cidade-satélite de Brasília, uma coisa bem amadorística mas que levávamos muito a sério. Bebi um pouco, mas, na hora da meditação, lá fui eu me deitar para olhar o céu com um garrafão de vinho, que devo ter bebido pela metade. Já bêbado, chegou a hora da nossa apresentação, e o baterista (Felipe Lemos, hoje no Capital Inicial) se irritou bastante comigo. Lembro que achei que ele estava levando tudo muito a sério, mas tivemos uma briga, ele estava insuportável, agressivo e hostil (eu estava me sentido todo cósmico, paz e amor, principalmente porque, no momento exato do início da meditação, o céu, que estava cinzento e carregado, começou a abrir, o que achei que era alguma espécie de sinal. Em dez minutos exatos, o sol tinha voltado a brilhar). Mas ele, a meu ver, atrapalhou a apresentação, chegando a interromper canções para me tacar baquetas e gritar comigo, à vista de todos, se fazendo passar por líder do grupo. Me senti desprezado e saí do grupo naquele instante. Não me arrependi. (....)"


"Vários conhecidos famosos formaram um ‘grupo de estudos’ para debater Nietzsche (...) era a moda do fim de verão entre globais e gente da indústria musical. (...) No início o entusiasmo era geral, mas logo começaram as faltas às reuniões, as desculpas, os atrasos, os desinteresses e as panelinhas. Detesto panelinhas. Achava M., a cantora, insuportavelmente chata, com cara e atitudes de quem tinha comido um limão azedo. Nunca lhe disse isso, era passivo e ‘bonzinho’ ao extremo, tudo para me sentir aceito entre ‘iguais’. Fazia perguntas, participava ‘alegremente’, mas já na terceira reunião não estava mais interessado (era fácil fingir, porque sei manipular situações muito bem, como todo dependente químico, e utilizava minha inteligência como arma, para me defender e espantar o tédio.). Na verdade, aquelas pessoas me enfastiavam com sua arrogância, preconceitos e seus ares de ‘superioridade moral’ (com exceção de dois ou três amigos verdadeiros, sim, pois nem tudo é tragédia, ninguém ali estava realmente interessado em aprender alguma coisa). A sensação que dava era a de que se reuniram para se autoelogiarem (...) e falarem mal de tudo e de todos. (...)"


"Me acham louco, é claro. Não só por causa de meu não conformismo (sou considerado polêmico por ter assumido meu homoerotismo publicamente em entrevistas e em shows), mas até por referências à minha dependência química (...) em algumas de nossas canções. Também porque o público em geral parece exigir um comportamento dionísico de um artista e a reação nas apresentações ao vivo (principalmente quando danço ou finjo desmaios ou – pasmem – simulo masturbação no palco) é sempre a mesma: ‘Esse cara deve ser muito louco, meu’. Além do fato de que a maior parte das pessoas acha que só alguém que não é ‘normal’ escreve canções ‘profundas’, ou com conteúdo poético acima do normal, que tocam a sensibilidade de todos de um jeito especial."





Presentes no livro Só por hoje e para sempre (Companhia das Letras, 2015), páginas 105-106, 127, 21,
57-58, 134-135 e 24, respectivamente.

domingo, 6 de março de 2016

Sete passagens de Caio Fernando Abreu no livro de contos Os dragões não conhecem o paraíso

Caio Fernando Abreu (foto daqui)


"– Tu não avisou que vinha – ela resmungou no seu velho jeito azedo, que antigamente ele não compreendia. Mas agora, tantos anos depois, aprendera a traduzir como que-saudade, seja-bem-vindo, que-bom-ver-você ou qualquer coisa assim. Mais carinhosa, embora inábil.
Abraçou-a, desajeitado. Não era um hábito, contatos, afagos. Afundou tonto, rápido, naquele cheiro conhecido - cigarro, cebola, cachorro, sabonete, creme de beleza e carne velha, sozinha há anos. Segurando-o pelas duas orelhas, como de costume, ela o beijou na testa. Depois foi puxando-o pela mão, para dentro.
– A senhora não tem telefone – explicou. – Resolvi fazer uma surpresa.
(...)
Ela fechou o isqueiro na palma da mão. Quente da mão manchada dela.
– Vim, mãe. Deu saudade.
Riso rouco:
– Saudade? Sabe que a Elzinha não aparece aqui faz mais de mês? Eu podia morrer aqui dentro. Sozinha. Deus me livre. Ela nem ia ficar sabendo, só se fosse pelo jornal. Se desse no jornal. Quem se importa com um caco velho?
Ele acendeu um cigarro. Tossiu forte na primeira tragada:
– Também moro só, mãe. Se morresse, ninguém ia ficar sabendo. E não ia dar no jornal."


"Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar. Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara, tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não viu o que viu. Ô boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim – e eu ainda nem comecei a falar na morte..."


"(...) homens solitários não têm idade. Embora gelados, tontos de álcool, hirtos de frio, lúcidos dessa solidão que persegue feito sina os homens sem passado nem futuro, nem mulher ou amigo, família nem bens – eles não se olham. (...) Eles se ignoram. Porque pressentem que (...) se cederem à solidão um do outro, não sobrará mais espaço algum para fugas como alguma trepada bêbada com alguém de quem não se lembrará o rosto dois dias depois, o pó cheirado na curva da esquina, a mijada sacana ao lado do garçom ausente de conflitos, mas compreensivo com qualquer tipo de porre alheio, um baseado sôfrego na lama do parque. (...)"


"(...) impossível que você não perceba como é doloroso para mim mesmo encarar este rompimento. Afinal, a afeição que nutro por você é um fato. (...) Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria dito nutro & relacionamento & rompimento & afeto, teria dito também estima & consideração & mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado. Uma estalactite (...) cravada com extrema cordialidade no fundo do peito dela. Vampira, envelheceria séculos lentamente até desfazer-se em pó aos pés impassíveis dele. Mas ao contrário, tão desamparada e descalça, quase nua, sem maquilagem nem anjo da guarda, dentro de uma camisola velha de pelúcia, às vésperas da Sexta-Feira Santa, sozinha no apartamento e no planeta Terra."


"Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar você um filho da puta. Não é o máximo de compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as coisas."


"De todos aqueles dias seguintes, só guardei três gostos na boca – de vodca, de lágrima e de café. O de vodca, sem água nem limão ou suco de laranja, vodca pura, transparente, meio viscosa, durante as noites em que chegava em casa e, sem Ana, sentava no sofá para beber no último copo de cristal que sobrava de uma briga. O gosto de lágrima chegava nas madrugadas, quando conseguia me arrastar da sala para o quarto e me jogava na cama grande, sem Ana, cujos lençóis não troquei durante muito tempo porque ainda guardavam o cheiro dela, e então me batia e gemia arranhando as paredes com as unhas, abraçava os travesseiros como se fossem o corpo dela, e chorava e chorava e chorava até dormir sonos de pedras sem sonhos. O gosto de café sem açúcar acompanhava manhãs de ressaca e tardes na agência, entre textos de publicidade e sustos a cada vez que o telefone tocava. Porque no meio dos restos dos gostos de vodca, lágrima e café, entre as pontadas na cabeça, o nojo na boca do estômago e os olhos inchados, principalmente às sextas-feiras, pouco antes de desabarem sobre mim aqueles sábados e domingos nunca mais com Ana, vinha a certeza de que, de repente, bem normal, alguém diria telefone-para-você e do outro lado da linha aquela voz conhecida diria sinto-falta-quero-voltar. Isso nunca aconteceu."


"Ela crescia. Crescia não como as outras, para os lados, para a frente e para trás. Beatriz crescia principalmente para cima. Pescoço cada vez mais longo, rabo de cavalo preto liso escorrido batendo nas costas, abaixo dos ombros. Ele, não. Ele não crescia para lado nenhum. Só para dentro, parecia. Tinha horror de uma coisa densa, meio suja, entupindo ele por dentro. Descoordenava os movimentos, descontrolava a voz. Umas espinhas, uns pelos apareciam em lugares imprevistos. Sentia-se pesado, lerdo, desconfortável como se não coubesse dentro do próprio corpo, suspenso entre ter perdido um jeito antigo de comandá-lo e ainda não ter encontrado o jeito novo. Que devia haver um."





Presentes no livro de contos Os dragões não conhecem o paraíso (Nova Fronteira, 4ª edição, 2014), páginas 16 e 20, 131, 80-81, 95-96, 133-134, 55-56 e 34, respectivamente.





Seleta dos contos

01) Linda, uma história horrível
02) Os sapatinhos vermelhos
03) Sem Ana, blues
04) O rapaz mais triste do mundo
05) Dama da noite
06) O destino desfolhou
07) Mel & girassóis (ao som de Nara Leão)

sábado, 5 de março de 2016

Flica 2015 - Resumo oficial



Resumo da 5ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira, a Flica 2015, que aconteceu de 14 a 18 de outubro, na charmosa cidade histórica de Cachoeira, recôncavo baiano, com realização da CALI e Icontent/Rede Bahia.

O Governo do Estado da Bahia apresentou a Flica 2015, que teve o patrocínio da Oi e Coelba através do Fazcultura, Secretaria de Cultura, Secretaria da Fazenda, Governo da Bahia, Petrobras e Governo Federal, com apoio da Prefeitura Municipal de Cachoeira, Odebrecht, Caixa e Oi Futuro.

Site oficial aqui

Registro audiovisual: Create Produtora de Vídeo e Conteúdo




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terça-feira, 1 de março de 2016

Sete passagens de Caio Fernando Abreu no livro de contos Morangos mofados

Caio Fernando Abreu (foto daqui)


"(...) não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia, ela para e pede, preciso tanto tanto tanto, cara, eles não me permitiram ser a coisa boa que eu era, eu então estendo o braço e ela fica subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio puta e velha demais e completamente bêbada, eu não tinha estas marcas em volta dos olhos, eu não tinha estes vincos em torno da boca, eu não tinha este jeito de sapatão cansado, e eu repito que não, que nada, que ela está linda assim, desgrenhada e viva, ela pede que eu coloque uma música e escolho ao acaso o 'Noturno número dois em mi bemol' de Chopin, eu quero deixá-la assim, dormindo no escuro sobre este sofá amarelo, ao lado de papoulas quase murchas, embalada pelo piano remoto como um canção de ninar, mas ela se contrai violenta e pede que eu ponha Angela outra vez, e eu viro o disco, amor meu grande amor, caminhamos tontos até o banheiro onde sustento sua cabeça para que vomite, e sem querer vomito junto, ao mesmo tempo, os dois abraçados, fragmentos azedos sobre as línguas misturadas, mas ela puxa a descarga e vai me empurrando para a sala, para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor repetindo não se esqueça então de me mandar aquele cartão de Sri Lanka (...)"


"(...) Eu quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não para, tanto tesão mental espiritual moral existencial e nenhum físico, eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, éramos melhores, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou. Cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais, só consegui te possuir me masturbando, tinha a biblioteca de Alexandria separando nossos corpos, eu enfiava fundo o dedo na boceta noite após noite e pedia mete fundo, coração, explode junto comigo, me fode, depois virava de bruços e chorava no travesseiro (...)"


"(...) Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora faço o quê? (...)"


"A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, quando não havia ainda intimidade para isso, um deles diria que a repartição era como 'um deserto de almas'. O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente então, entre cervejas, trocaram ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clipes no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanhe nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra – talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum deles se perguntou."


"Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gesto habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo. Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia."


"Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes – quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente – povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais."


"(...) Caminhava na rua sem tocar na rua, conseguia. Movimentava-se entre espelhos. Caminhar na rua: jogo de infinitos. O de agora remetendo ao de antes, que refletia o depois, que era algo bem próximo do agora, e assim por diante ad infinitum circular. Tudo refletia-se. Cada reflexo o devolvia a algo que não a rua propriamente dita. Essa, por onde caminhava. Poder-se-ia argumentar contra Ele que isso não passava de mais um meio de não se comprometer demasiado. Uma daquelas Horríveis Nobrezas, porque concluir ou reconhecer uma aprendizagem não significava necessariamente passar a agir de maneira diferente. (...)"




Presentes no livro de contos Morangos mofados (Nova Fronteira, 12ª edição, 2015), páginas 34-35, 30-31,
32, 187-188, 105, 106 e 66, respectivamente.






Seleta dos contos

01) Aqueles dois
02) Sargento Garcia
03) Terça-feira gorda
04) Morangos mofados
05) Os sobreviventes
06) Transformações
07) Luz e sombra
08) Caixinha de música