quarta-feira, 30 de março de 2016

Seis passagens de Marina Colasanti no livro de contos O leopardo é um animal delicado

Marina Colasanti (foto daqui)


"Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira ao tempo, sem que pérola rolasse. (...) Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando, enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava. Vinda dos pés – ou seria da nuca? – a paralisia que já lhe havia tomado os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração. (...) Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto. (...) E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além do hábito."


"Aquela tinha sido a primeira traição, pelo menos que ela soubesse. E talvez por isso a mais dolorosa. Houve outras depois. Que ela soube ou não soube e sempre suspeitou. Nunca mais depois da primeira achou que o tinha só para si. Também, para quê?, dizia-se às vezes dando de ombros como coisa que isso, que ele, não tivesse a menor importância. Tinha. Um marido é um marido, mesmo quando não é só da gente. E ele era um bom marido. (...) Agora ela se perguntava se deveria ir espiar também nas casas das outras. Mas quais haviam sido essas outras, e onde ficavam suas casas não sabia mais dizer. Tudo se confundia numa massa sem rostos, uma pasta de suspeitas que na sua memória não guardava nomes, mas amargura apenas e ainda, sempre, humilhação. Era essa a herança que ele havia lhe deixado ao partir, pensou ressentida."


"Primeiro os bares e os restaurantes perto do escritório dele, os que ele havia frequentado, os que talvez frequentasse. Percorreu todos. Entrava na hora de maior movimento, andava nos espaços estreitos entre as mesas, olhando, desculpando-se, debruçando-se para certificar-se. E voltava a entrar nas horas mortas, sentava, pedia um refresco, uma sobremesa, e demorava demorava diante do copo suado, do pratinho cheio de migalhas, à espera de vê-lo entrar de repente mas tão presa em seus próprios pensamentos que, se de fato ele entrasse, era capaz de nem percebê-lo. Onde teria ido parar seu marido? Que fim tinha levado o homem que lhe havia feito um filho, aquele que ela havia acreditado conhecer melhor do que ninguém, melhor do que ele mesmo, e que no entanto, como um desconhecido, havia desaparecido da sua vida deixando-a só, deixando-a tão só?"


"Um tiro que assalta nosso sono sempre atinge o alvo, ainda que o alvo não sejamos nós, pensou surpreendendo-se com a nitidez do pensamento. Sentia-se atingido, a sensação tão mais importante do que a ordem das palavras. (...) Esperou um instante para ver se a mulher a seu lado na cama se mexia. Mas o colchão continuou imóvel como se vazio. Melhor assim, ela era muito impressionável, se acordasse o assunto acabaria se estendendo no dia seguinte tornando-se difícil de pagar. Ele próprio continuou na mesma posição. Tentou ouvir a respiração dela. Antes que o conseguisse, adormeceu. (...) Talvez tivesse apenas cochilado, questão de minutos, porque logo estava novamente acordado, olhos bem abertos, nenhum descompasso, e a certeza de saber que lhe entrava quarto adentro. Dessa vez não era um tiro. Rajadas de metralhadora pareciam ricochetear entre os prédios estremecendo os vidros da janela. Um corte no ar, picotes abrindo superfícies que ele não via, não imaginava, recusando-se ainda a pensar carne e sangue. As rajadas seguiam-se a intervalos pequenos. E a cada brecha de silêncio ele desejava que fosse a última, fechando a noite onde ela havia sido rasgada, restaurando a integridade da escuridão como o lago restaura sua superfície encobrindo o corpo que caiu."


"O homem atendeu. Alô, disse, e era o mesmo homem de sempre, aquele que os vizinhos conheciam, seu Jonas da casa três, um pouco rude mas respeitador, marido da dona Selena. Atendeu com a voz de dono com que um homem atende o telefone da própria casa. (...) Bastou porém ouvir a resposta do lado de lá, para que a ameaça o alcançasse como um dardo. Delegacia? Não era um presságio, era a realidade do medo que lhe tomava os joelhos, o peito. E à medida que o outro falava, conciso, indo logo ao essencial, Jonas sentiu que deixava de ser o Jonas que sempre havia acreditado ser, tornando-se alguém que ainda não conhecia. Sem que o interlocutor pudesse perceber, uma metamorfose se operava do lado de cá da linha, e esse homem, Jonas, de fone na mão, via-se despido da sua segurança como a serpente é despida da pele, e nu, com sua branca carne viva, já não era o marido respeitado e invejado pela vizinhança mas alguém de quem se ri pelas costas (...) Expulso da serenidade, Jonas encontrou-se ao desabrigo. Sei, respondeu depois de um longo silêncio que o outro, de lá, tentava quebrar para ter certeza de ter sido entendido. Sei, repetiu. E, pela primeira vez, sabia."


"Do outro lado da rua, o homem ouve, ouve claramente o som daquela cabeça batendo na quina da calçada. O som de um coco partindo-se, dirá depois muitas vezes, todas as vezes que repetir a história na tentativa inútil de livrar-se dela. De um coco partindo, dirá juntando as mãos e abrindo-as lentamente. De um coco. (...) O homem afasta-se apressado ao longo da calçada, sem nem cruzar para ver o jovem de perto, sem ver o sangue que, ele sabe, se alastra por baixo da cabeça morena. Não quer complicações, polícia, depoimentos, é turista, não reconhecerá ninguém, não testemunhará, nem estava ali. Levará uma história consigo na viagem de volta. Só isso. História não é crime."





Presentes no livro de contos O leopardo é um animal delicado (Rocco, 1998), páginas 38-39, 67, 64,
90-91, 144-145 e 27, respectivamente.






Seleta dos contos

01) A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtain
02) Um dia, afinal
03) O leopardo é um animal delicado
04) A segurança mantida
05) As regras do jogo
06) É bela à noite
07) Na funda escuridão
08) Começou, ele disse
09) Além do muro, os coiotes
10) Lacoonte em negra água
11) Como é mesmo o nome?
12) Amor e morte na página dezessete


PS: Esta é a milésima postagem
do Blog do Ël Mirdad

Nenhum comentário: