quarta-feira, 23 de março de 2016

Sete passagens de Sérgio Sant'Anna no livro A senhorita Simpson

Sérgio Sant'Anna (foto daqui)


"(...) desconfio que não apenas eu, mas todos nós, nos sentimos inexistentes. Por isso é que é paradoxal o egocentrismo, no que Galileu estava certo, se é que entendem a relação. Então fabricamos acontecimentos e histórias para podermos narrá-los, uns aos outros, convencendo-nos reciprocamente de que existimos. E é assim que produzimos cada vez mais carma e acontecimentos, fazendo rolar a história maior da espécie, que talvez já devesse estar extinta, sem nenhum prejuízo para todas as outras espécies, diga-se de passagem."


"– Como fazer literatura aqui? – ele disse, com um gesto largo e bonachão para a praça cheia de vadios, largando-me o braço. – Aqui, nesta paisagem sórdida. A não ser uma literatura também sórdida, nem mesmo proletária, com essa multidão de lumpens e pequenos criminosos. Falta o mistério (...) Aqui o sexo e a nudez são por demais escancarados, algo bruto, e a corrupção está no rosto das pessoas, os homens com seus bigodes, e sempre bicheiros nas histórias, nos filmes, vulgaridade. (...) Eu também não possuía pruridos ufanistas, neste ponto estávamos de acordo. Como orgulhar-me de alguma coisa lá de cima daquele viaduto, testemunhando a forma boçal como os motoristas dirigiam, como se ainda não houvéssemos superado o estágio da tração animal? (...) – Falta-nos uma civilização – eu disse isso pra ele –, e talvez já seja tarde demais para isso. (...) – Em algum ponto do caminho, talvez uma revolução houvesse resolvido. Não se constrói uma civilização sem guerras e revoluções; não se faz isso sem sangue. (...)"


"– Sabe o que eu acho idealista e furado na nossa posição? É que o mundo tem gente demais e as relações socioeconômicas se tornaram muito mais complexas para que ainda possamos aspirar a um doce, utópico e ingênuo anarquismo tribal. O máximo que vocês artistas podem fazer é colocar um pouco de farinha no discurso deles, para fazê-los engasgar. (...) – Tome cuidado, companheiro – retrucou um dos participantes daquele bucólico Conselho ao redor de uma fogueira. – Tome cuidado com a coerência do seu próprio discurso, que está sintático e sentencioso demais, para não dizer aristotélico. Daí para a lógica é um pequeno passo. (...) Piotr reagiu, ofendido: – A lógica que eu sempre usei era escorregadia como uma casca de banana colocada no caminho deles. (...) – Mas tome cuidado, companheiro, para você mesmo não escorregar nela."


"O homem ali sentado no banco, a maleta no colo, apoiando nas mãos o rosto com uma expressão fatigada. Uma das probabilidades é que haja perdido o trem e terá de aguardar outro por muitas horas ou mesmo todo um dia, pois percebe-se, pela modéstia da estação, que este é um ramal de província e secundário. E talvez existam poucas coisas que tornam um ser humano mais impotente e derrotado que a simples e longa espera. Pois nada se realiza que possa fazer existir o tempo e fluí-lo. E qualquer um que ali esteja, sozinho num banco de estação ferroviária, parecerá um retirante, ainda que sua aparência denote cuidados até um tempo recente."


"De volta à vida interior no meu cubículo. Existe algo de grandioso, solene e até belo na solidão, quando um homem, depois de ter tido o seu quinhão satisfatório de vida, resolve recolher-se a uma casa modesta e afastada, na montanha, para aí desfrutar da memória dos seus amores, seus sucessos e fracassos, os livros que ele não julga mais imperioso escrever, deixando as comportas abertas para uma vida mais contemplativa. Mas e a miserável solidão numa tarde de calor ali em frente ao viaduto, depois de um encontro de negócios fracassado? Os carros continuavam a passar com seu ruído infernal, literalmente, e eu não podia fechar as janelas ou as cortinas, porque não possuía um aparelho de ar-condicionado (...)"


"Os guarda-costas revistaram a prostituta com evidente prazer. Ao chegarem na parte de baixo tiveram uma surpresa. (...) – É um travesti – disse um deles, reaproximando-se do carro. – Quer que o fuzilemos? (...) O presidente refletiu gravemente e disse: – Não, deixe-o entrar. Vocês vão no banco da frente. Quem sobrar pega um ônibus. (...) Quem sobrou foi o assessor de imprensa. O presidente deu-lhe um bolo de notas para pagar o ônibus. Ou um táxi, se ele tivesse sorte. (...) Quando o carro arrancou, o assessor de imprensa encostava-se ao poste onde antes estacionara o travesti. A luz néon dava-lhe um ar pálido, quase cadavérico. Mariposas esvoaçavam mais acima, como pássaros da noite. Era bonito."


"Ele meditara também sobre as condições meteorológicas, olhando para o céu e concluindo que o tempo continuaria firme, o que significava que ele poderia passar a noite num dos bancos ou gramados do centro da cidade. Costumavam causar-lhe tédio, quando dormia na rua, as manhãs sem destino até a hora de pegar o serviço, procurando distrair-se olhando o mar e os aviões na ponta do Aterro, perto do aeroporto, ou frangos giratórios nos fornos envidraçados ou, nos cartazes de cinema, mulheres nuas e homens de ação. Mas este era um problema para amanhã e depois de amanhã, no máximo, porque no terceiro dia sairia o pagamento. Ele era um homem que vivia nas imediações do presente, pois o passado não lhe trazia nenhuma recordação agradável, em especial, e o futuro era melhor não prevê-lo, de tão previsível. A data de pagamento, porém, era um marco cronológico ao qual ele se apegava."





Presentes no livro de contos A senhorita Simpson
(Companhia das Letras, 1989), páginas 86, 26-27, 18-19,
33, 53-54, 37, 14, 159 e 43, respectivamente.






Seleta dos contos

01) Um discurso sobre o método
02) A mulher cobra
03) O homem sozinho numa estação ferroviária
04) Historieta numa República


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