sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Na produção do livro Muralha: Parte I - ok

Muralha por Minêu


Hoje, 24 de outubro, concluí, de fato, a Parte I de Muralha (o meu primeiro romance), intitulada Mudinho, com 14 capítulos e um total de 56 páginas de Word escritas. Nessa etapa, entre 2013 e 2014, investi 89 horas e 25 minutos de trabalho em 33 dias (média de quase três horas por dia), quase todos em Salvador – exceto dois dias em Porto Alegre e um dia em Florianópolis, na honra de escrever na casa do amigo e referência Tabajara Ruas.

A Parte I de Muralha (a história do goleiro que nunca tomou gol), conta a trajetória do tirador de coco e pescador Mudinho, no RG José Santos, de Caraíva a Porto Seguro, onde foi jogar pela seleção da cidade na fase final do campeonato amador. Suas defesas na final (e semifinal) garantiram o título inédito para o time porto-segurense. Acaba sendo contratado para jogar em um grande time de Salvador.

Nessa parte, revelo a origem de Muralha, filho de pai desconhecido, mãe morta meses após o parto (foi criado no orfanato, mas essa fase só mais à frente), sem ninguém no mundo que soubesse de seus parentes, e todas as suas estranhas idiossincrasias. Apresento o antagonista Marceleza, o índio goleador e marginal, e o coadjuvante Sanfilippo, dirigente da seleção amadora, que será o futuro empresário do surreal goleiro.

A ideia do personagem principal, orbitava em minha cabeça há tempos, mas somente em 2012 foi esquematizada num rascunho. Conversei com alguns amigos sobre o enredo ao longo dos meses, fiz uma pesquisa/sondagem com amigos jornalistas esportivos, como Ivan Marques e Darino Sena, e fiquei trabalhando mentalmente apenas. Só fui começar a escrever mesmo em junho de 2013, quando elaborei todo o esqueleto da história e levei a produção até o final de julho do mesmo ano, concluindo a primeira versão da Parte I.


O rosto e a cor da pele do personagem Muralha são iguais às 
do ator Djimon Hounsou quando jovem. Foto: Internet


Veio então a Flica 2013, a preguiça do final de ano, a produção e o lançamento do livro de poemas Nostalgia da lama em 2014, as regravações da minha banda The Orange Poem e a produção do novo livro de contos O grito do mar na noite, que deverá ser lançado em dezembro deste ano (será?). Muralha foi protelado.

Mesmo com uma nova Flica em pré-produção, retomei o romance em outubro de 2014, revisando a Parte I, alterando vários trechos, refazendo e corrigindo. Agradeço aos amigos escritores: Carlos Henrique Schroeder, pelo toque em refazer o capítulo I, que realmente estava muito fraco para uma abertura; Aurélio Schommer, pela dica de evitar o excesso de informação sobre a família do coadjuvante da trama; Mayrant Gallo, para evitar vínculos com clubes de futebol (irá servir para a próxima parte).

Deletei o esqueleto do enredo montado em 2012, sem dó. Desvinculei Muralha das Olimpíadas de 2012 e da Copa do Mundo de 2014 e ainda não defini o rumo que tomarei – após a Flica farei.

Aláfia! O trabalho, prazeroso e doloroso, segue.

Caricatura: Muralha na seleção de Porto Seguro, por Minêu

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ildegardo Rosa, o andarilho da ilusão

Ildegardo Rosa (1931-2011)

Salve Mestre Dedé, meu pai, muita luz pra ti neste 22 de outubro, teu dia! Para celebrar, um pedaço da obra do andarilho da ilusão, poeta e filósofo, com o registro de sua voz singular, de profeta do sertão, introduzido pelo também mestre Mateus Aleluia




Ildegardo Rosa (1931-2011) disse:


"Para que direção corre o curso da vida? Para cima, para baixo, para um lado, para o outro, para frente ou para trás? Ou corre para lugar nenhum? Então, observe apenas, não interrompa e nem interfira. Deixe-o simplesmente correr, não importa para onde. O que importa é estar nele, é ser ele mesmo, pois esse é o nosso destino, a nossa eterna condição. Não te arremesses no amanhã, no que desejas vir a ser, nem te agarres no passado, no que já foi e não voltará; são meras fugas e ilusões. O que tu tens de concreto e não importa o que te aconteças é este instante; não tentes escapar dele, viva-o com plenitude e coragem. Esgote-o! Ele é a tua única realidade, mesmo que nada seja real"


"Por que se agarrar à vida? Agarrar-se à vida é perdê-la. A vida é um processo. É um fluxo eterno. É um estar indo, não importa para onde, mesmo se for para lugar nenhum. Vá com a vida. Deixa de olhar para o teu umbigo como se fosse o centro do mundo. O teu destino pessoal não tens a mínima importância, pois tu és apenas um fenômeno passageiro e ilusório, uma emanação do que és, sempre foste, e sempre serás: a eterna existência. Desperta, homem! Aí então saberás que esta eternidade és tu mesmo e tudo mais que existe. Não penses que o mundo gira em torno de ti! Quão pequenina e fugaz é a tua megalomania dentro da Natureza. Enquanto estiveres cheio das tuas coisas, tesouros, paixões, posses, desejos, sofrimentos, deuses e ilusões, enfim, do teu próprio ego que carregas em vão, tu estarás no NADA, no sem sentido, na ilusão"


"Corri como um louco em busca da felicidade e trouxe apenas as mãos vazias pendentes de ilusões. Caminhei então, devagar, em busca do meu próprio destino e hoje trago as mãos cheias carregadas de vida. Me aconteci, me manifestei, me existi. Sou um ser que está fora. Para fora estão os meus olhos que percebem as ilusões do mundo. De fora entra o ar que respiro e mantém o meu alento. Lá fora é que estão o céu e o inferno, os santos e os demônios, os que me envolvem de amor e os que me sufocam de tanto ódio. Como então posso retornar para dentro? Desde o princípio que nunca principiou, pois sempre foi, é e será, eu sou. Não há caminho a se percorrer, algum Deus a se buscar ou iluminação a se alcançar. Tudo já está pronto como sempre esteve. Apenas abra os olhos porque então o desmistério acontece, se revela o que era irrevelado, face à minha ignorância, minhas perdições, meus pecados, minhas ilusões! Desde o princípio eu sou"


"Porque não existe nem o dentro, nem o fora, apenas o ser aqui e agora. De que estão se busca sentido? Eu venho de lugar nenhum e vou para nenhum lugar"


"Agora deixarei o mistério acontecer por si mesmo e se auto desvelar a cada instante por toda a eternidade. Agora relaxarei profundamente e cessarei essa tentativa ansiosa, desesperada e sofrida de querer desvelar o mistério e tudo ser em vão. Agora viverei a vida que está presente e que a cada instante acontece e desacontece, não importando seu destino e sua razão de ser"


"Não olhes para o alto em busca de soluções porque o alto é apenas uma distância vazia e inexpressiva. Não olhes para a esquerda ou para a direita porque são apenas posições relativas. Não olhes para trás, pois apenas entortarás a cabeça em busca de um passado que não retorna jamais. Não olhes para frente, pois seguirás em vão tua estrada sem rumo e sem destino que te conduzirás à morte. Olhe então para dentro de ti, pois ai estará a solução. De que? Só tu saberás!"


"Eu sei (ou quase sei) que estou lá ou aqui – pouco importa. O mundo é uma ilusão"

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Texto formado por trechos de 14 poemas de Ildegardo Rosa, produzidos em 1957, 1958, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997 e 1998, editados por mim. Os poemas foram: "O Curso da Vida" (02/04/1994) / "O Escapista" (03/12/1998) / "A Vida" (28/06/1994) / "O Egoísta" (08/10/1995) / "Do Existencial" (28/08/1957) / "O Tudo e o Nada" (14/09/1996) / "Solução" (13/12/1958) / "O Retorno ao Reino de Deus" (02/12/1998) / "Desde o Princípio Eu Sou" (18/09/1996) / "O Enigma" (02/02/1993) / "O Sentido" (28/10/1997) / "Onipresente" (14/08/1993) / "A Não Solução" (14/10/1997) / "Eu Sei... e Não Sei" (05/09/1993)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pílulas: Dicionário Amoroso de Salvador, de João Filho

João Filho (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


Segundo a editora Casarão do Verbo, a sua coleção de dicionários amorosos é "o território literário no qual os escritores ocupam, em todas as direções, o tecido urbano de algumas metrópoles brasileiras. É uma outra forma de olhar as capitais no que elas têm de aparente, secreto e inexplorado". Segundo a escritora Állex Leilla, "são chamados de Dicionários porque os temas entram em formato de verbetes, porém, se trata, na verdade, de crônicas amorosas, apimentadas, sensuais, satíricas, ácidas e poéticas acerca dessas 12 cidades. Os olhares são pessoais, e as imagens que saltam nas páginas são frutos da relação complexa que cada indivíduo - neste caso, escritores, poetas, artistas - têm com a cidade onde nasceram e/ou escolheram para viver".

O Dicionário Amoroso de Salvador é uma excelente obra do poeta e pensador baiano João Baiano, com ilustrações de Caius Marcellus.




Parte I
Leia aqui

"Baiano não morre de depressão, mata de pirraça"






Parte II
Leia aqui

"Salvador não é para principiantes. Braços abertos podem afagar ou sufocar"





João Filho
(Casarão do Verbo/2014)
249 pg
Preço: R$ 34,00

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Dedicatórias para o leitor Emmanuel Mirdad



O leitor Emmanuel Mirdad é um colecionador de dedicatórias. Para ele, é como se a assinatura do autor fosse uma autorização para imergir na obra, como se ela se tornasse mais legítima, o consumo consentido, receitado, referendado. Além disso, é uma dose de carinho, recado afetivo que se imortaliza como um retrato, digitalizado e compartilhado, uma selfie literária entre amigos e/ou colegas, comparsas, mestres e discípulos.


2015




Livros de João Filho, Tom Correia,
Bruno Liberal e Marielson Carvalho
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Livros de Victor Mascarenhas, Márcio Matos, Bruno Liberal e Ferreira Gullar
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Livros de Ronaldo Correia de Brito, Cristovão Tezza, Antônio Torres e Cristiano Ramos
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Livros de Mayrant Gallo em 2015

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Coletânea Outro livro na estante

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Livros de Carlos Barbosa, Tarcísio Buenas, Joana Rizério, Georgio Rios, Marcus Vinícius Rodrigues e Catarina Guedes

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2014




Livros de Gonçalo M. Tavares

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Livros de Matéi Visniec

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Livros de Ondjaki, Leonidas Donskis, Roberval Pereyr e Carlos Henrique Schroeder
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Livros de Ruy Espinheira Filho, 
João Filho, Kátia Borges, 
Marcio Matos, 
Nalini Vasconcelos 
e Odara Rufino

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Livros de Herculano Neto, 
Henrique Wagner, 
João Mendonça, 
Mayrant Gallo 
Dênisson Padilha Filho

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Livros de João Filho, Mariana Paiva, Marcus Vinícius Rodrigues, Márcia Moreira e Gustavo Felicíssimo
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Livros de Affonso Manta, Lima Trindade, Rodrigo Melo, Tarcí-sio Borges, Cau Gomez e Victor Mascarenhas
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Livros de Ricardo Thadeu, Cleberton Santos e Cyro de Mattos
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2010-2013



Livros de Pepetela

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Livros de Reinaldo Moraes

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Livros de Cristovão Tezza

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Livros de Hélio Pólvora e Ruy Espinheira Filho

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Livros de Mayrant Gallo

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Livros de José Inácio Vieira de Melo

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Livros de Sérgio Rodrigues, Mário Magalhães, Luiz Felipe Pondé e Állex Leilla
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Livros de Tabajara Ruas, Ronaldo Correia de Brito, José Eduardo Agualusa e Ana Paula Maia - Clique aqui




Livros de André Setaro, Victor Mascarenhas, Gláucia Lemos e Joca Reiners Terron
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Livros de Jessica Smetak, Carpinejar, Eduardo Bueno e Mariana Paiva
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Livros de Adelice Souza, Carlos Barbosa, Gláucia Lemos, As Baianas e Aurélio Schommer - Clique aqui





Livros de Leandro Narloch, 
Victor Mascarenhas, Aurélio Schommer, 
Katherine Funke, Wladimir Cazé 
e Karina Rabinovitz

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Livros de Fernando Conceição, Davi Boaventura, Saulo Ribeiro, Georgio Rios e Eliakin Rufino - Clique aqui




Livros de presente: Clarice Lispector, Rilke, Arnaldo Branco e Saulo Ribeiro

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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Pílulas: Parte 02 - Dicionário Amoroso de Salvador, de João Filho

João Filho (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Salvador não é para principiantes. Braços abertos podem afagar ou sufocar ... Salvador não se resume. Escapável sempre. Nasceu para seduzir e não ser seduzida. Quando alguém tenta enquadrá-la em termos mais ou menos fixos, ela escapa da moldura ... Ruas que personificam nomes. Ruas com alma, feito gente ... Daí cresceu a egolatria e se transformou em sinônimo de Estado. Quem vem a Salvador, vem para a Bahia ... Sua beleza é irrefutável, disso ninguém duvida. O que às vezes me cansa é esse pendor ao cartão-postal ... Salvador à revelia. A filosofia do cacete armado. A informalidade da chuleta, a bodega, o pé-sujo sem comparações. A estrutura do desconcerto. Se for muito arrumado, não vinga. É preciso o furdunço para o baiano aprovar ... Salvador em si não se contém. E transborda para que possamos, apesar de tudo, amá-la"


"Se a primeira impressão é a que fica, Salvador pode permanecer nos olhos do visitante como uma cidade carnal. É verdade que transborda matéria por todos os seus poros e, dizem, o que é comprovado empiricamente, o olho do baiano é na mão. Tem que tocar para ver. Nesse sentido, ele quer corporificar os sentimentos mais abstratos. Sim, pois sentimos certas coisas que nem sabemos nomear"


"Raro. Mais do que honestidade. Raríssimo. Mais do que olhos amarelos. O silêncio em Salvador. Aqui a realidade é contada por decibéis. Não somente pessoas, mas as coisas falam. Quer dizer, gritam. Mesmo nos longos feriados nos quais grande parte da população busca outros pagos esvaziando ruas e lugares, a cidade esperneia. As formigas usam megafones. O vento discursa para ninguém, mas quer ser ouvido. Todos querem ser ouvidos"


"Um baiano sem banzo não é baiano"


"Há um ritmo para subir ladeiras. Não se apresse porque Salvador desrespeita a linha reta. Veja! Até a linha do horizonte se rebela em curvatura. Dose a malemolência e suba como quem não quer nada. Depois de certo tempo, você verá que o seu ritmo cardíaco vai se adequando perfeitamente ao seu passo ... Na Ladeira da Água Brusca, uma das muitas que ligam a Cidade Baixa à Cidade Alta, quando você sentir que chegou ao topo, estará na metade ... A ancestral de todas, é a Ladeira da Preguiça ... também está abandonada, os casarões em ruínas a tornam fantasmagórica; nas noites de chuva, o vento uiva, não lamenta. Ele vive entre o ainda e o que já foi, mas não é nostálgico. Em vez de escravos carregando mercadorias grassam sacizeiros. A opressão conforme o século. Vê-se que empacamos na subida. Ou perdemos o rumo e descremos demasiado?"


"Salvador é uma orla só. O mar domina. A presença marítima é um dos dons desta cidade. Aqui todos os caminhos levam ao azul, quer dizer, ao mar. O Atlântico é o mare nostrum, o nosso mar, de águas quase mornas, lavando com seu sal o tempo e a memória. Grafando na areia e nas rochas a história do esquecimento"


João Filho
(Casarão do Verbo - 2014)


"Quem é capaz de no ato de não fazer nada enxergar o senhor da matéria? Um baiano"


"Desço e entro numa soturnidade que me perturba um pouco. Sua ambiência arquitetônica favorece tal estado tristonho, e esse raio melancólico invade o mar, tão próximo que, sob essa influência, permanece apático. No Unhão, mais do que em outro lugar de Salvador, as vidas vividas parecem se acumular em extratos invisíveis pelos seus recantos. Donzelas, senhores, escravos, meninos, bichos, ventos, noites, músicos, manhãs que passaram ou habitaram esses pisos. Quem vigia por eles? O tempo. Lavrando nas pedras, na argamassa, suas filigranas. O riso é necessário, a tragédia inevitável, mas a condição humana é dramática"


"Um não baiano, encantado com uma bela passante, diz:
- Ah, morena, ainda caso com você.
- Aooonde!
O "aonde" utilizado como interjeição negativa é um achado linguístico. Se a linguagem é um reflexo da realidade, em Salvador, ela é uma farra e será sempre uma licença poética"


"Smetak (1913-1984) confirma a minha tese de que a baianidade arrebenta os parâmetros lógicos ocidentais. Suíço inventor de instrumentos-esculturas, através da teosofia pesquisou os tais dos microtons. O que é isso? Um concretista comendo caruru ... Tentou e conseguiu, através dos nós dos sons, senão expandir o visto, pelo menos os tímpanos. Seus e alheios ... A música-mística das partículas. Smetak dividia, subdividia uma, digamos, onda acústica ao infinito até torná-la silêncio. Ou quase ... Smetak foi a quase imperceptível linha limítrofe entre a genialidade e a negação. Música manipulável? O vazio desenhado? Mancha barulhenta só? Talvez o espaço inabitável. A imaginação, a louca da casa, nele quis extrapolar as próprias ressonâncias. Foi ser luthier do delírio. Comprovável ... O Tropicalismo tem dedo seu. Smetak, tak, tak"


"Galegos. Gente que sabe o sal amargo das humilhações e ofensas. Suportando injustiças e a ignorância dos que a desconhece. A vida de Rosalía é a vida dos imigrantes galegos que por aqui aportaram - pobre, anônima e sofrida. A lágrima escorrendo sem testemunhas pelos subterrâneos dos séculos. Essa gente demorou, mas venceu; se não todos, alguns. Sua melancolia não se traduz em debilidade, mas em força"


"Jorge Amado deu não apenas rosto, mas corpo romanesco à Bahia. Desse modo, aquele mundo por ele criado existe, com os seus personagens e tramas picarescas, sua malícia quantas vezes romantizada, mas também esclarecedora do nosso caráter"

domingo, 12 de outubro de 2014

Pílulas: A noite em que nós todos fomos felizes, de Marcio Matos

Marcio Matos (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Mesmo espremida entre os fiéis, nunca passava despercebida. Adorava os encontrões e o esforço que muitos faziam para tocar seu cabelinho cor de fumaça, 'presságio de Nossa Senhora cacheadinho nas pontas'. A expressão oca e estranha servia para dona Milu alardear a pureza da filha. A maioria dos habitantes do alto do Bonfim, as velhas beatas e os jogadores de dominó concordavam e faziam questão de cumprimentar Marianinha no meio do aperto. Era um gesto de respeito 'à virgem', 'à noviça' e, apesar de roçarem despudoradamente no seu traseiro, os homens baixavam a cabeça em sinal de respeito. A menina, eles sempre ouviam dos vendedores de fita, estava 'reservada para os anjos'"


"A tarde estava penumbrosa e ela se deitou numa cama de massagem do Jardim de Alá para tentar esquecer de si e do marido. A massagista dizia dezenas de frases de autoajuda, que lhes reviravam o estômago, mas, ao mesmo tempo, tonificavam suas ideias. Tratava-se de uma vingança sórdida da gorducha e Laura concluiu que não existia desprendimento. Tudo que ela e as outras pessoas faziam continha boa dose de mesquinhez. Aquela gorda sabia que ninguém é feliz fazendo massagens no Jardim de Alá, nem quem executa, nem quem recebe"


"Desde quando ser esposa é vantajoso?, ele a provocava"


"Ser forasteiro e agnóstico nunca lhe pareceu um grande problema. Pelo contrário. O comportamento errático o protegia dos perigos da autopiedade e pavimentava atalhos para a realização de desejos vedados à maioria das pessoas"


"Qualquer homem precisa de amantes e elas devem permanecer quietinhas, na sombra. Nada de exigências nos fins de semana ou de indisposições na cama"


Marcio Matos
(P55 - 2014)



"Se o telefone chamar, aumentarei o som até obstruí-lo. Sou covarde demais para enlouquecer. Tenho a mania de representar pros outros um certo histrionismo romântico, que não é nada verossímil, mas que me livra de aporrinhações inquisidoras do tipo 'oh, o que faz de você essa pessoa tão estranha?' Não, não atenderei nenhuma ligação. Melhor sair para jogar uma pelada no campo de barro da ruinha e, do gol, mirar a paisagem da cidade até desperdiçá-la. Depois, voltar para casa, colocar Mac Arthur no volume máximo e só lembrar da noite em que nós todos fomos felizes"


"Ivan não desperdiçava oportunidades de conversar com sua jovem musa. Mantinha um espelhinho na prateleira central da barraca que refletia a mesa onde as ajudantes de padre Walter costumavam se sentar. Estrategicamente posicionado, o objeto indicava o momento ideal para uma abordagem. Quando Marianinha deslizava o canudo da coca-cola sobre a mesa, o tempo estava ocioso. E Ivan sabia: o ócio é confidente da sacanagem"


"Sempre achou que a vida poderia ser cartesianamente administrada, como uma planilha do Excel. Duas mulheres ocupavam seu tempo, oferecendo experiências distintas e indispensáveis e ele, onipotente em sua pose de controlador de voos, tentava conduzir a situação de modo a compensar as expectativas de ambas. As de Luiza sempre lhes pareciam plenamente atendidas. Tereza, por outro lado, passava oito horas do dia com ele, chegando a viajar para São Paulo e para o exterior na rubrica de esposa. Era a mulher corporativa, com a vantagem de não ter que se preocupar com as atribulações do lar. Isnard não entendia porque pessoas na condição dela ainda se impunham obrigações formais, porque desejavam a prisão das certidões"


"Havia uns dois minutos, o sacana desaparecera na festa, cínico e sem nenhum peso na consciência. 'É, acabou mesmo. Nem transar com você eu quero mais. Você é até gostosinha, mas meu pau não sobe mais com você'"


"Não deveria ser assim na maturidade, ele pensa. Casos de adultos, sobretudo os extraconjugais, se resolvem em motéis, já havia dito a Tereza. Acreditava em casamento e em poligamia clandestina. Não entendia outra forma de amar"

sábado, 11 de outubro de 2014

Pílulas: Parte 01 - Dicionário Amoroso de Salvador, de João Filho

João Filho (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Baiano não morre de depressão, mata de pirraça"


"Milhões de histórias individuais que se repetem, mas não são as mesmas. Três palavras resumem uma vida: nasceu, viveu, morreu. Porém, quanta realidade, quanto assunto, quanto drama e tragicomédia, entre os intervalos e em cada palavra. Na Estação da Lapa pode-se dizer com ou sem exageros que há de um tudo. Lá dentro, de um ponto estratégico, observo uma hora, durante uma semana, e constato: o excesso de movimento paradoxalmente produz imobilidade. A pressa, parece-me, não leva ninguém a lugar nenhum"


"Brotas não é um bairro. Dizem as boas línguas que é um país que faz divisa com Salvador ... Abarca oito subdistritos ... Apesar dos geógrafos insistirem, não tem limites, mas ninguém sabe onde começa ou termina. É um mistério. E avança ... Dificilmente você andará no plano. Brotas é a realidade acidentada ... Toda ladeira vai dar em Brotas ... Dizem as boas línguas que Salvador é uma ilha cercada por Brotas de todos os lados ... Absoluto, mas não exagerado, um filósofo local, de cima de uma laje, vislumbrou o bairro e asseverou: - Tudo é Brotas!"


"A coloração ferruginosa com pontos escuros das camadas e camadas dos telhados que cobrem o casario na cidade velha sugere, a quem olha do alto, o tempo em fuga, as caligrafias da chuva e a memória do vento. Esses telhados sabem da solidão aérea dos pássaros, o passo amante dos gatos no centro da noite mais escura. Escutaram e escutam – até quando escutarão? – os sonhos recônditos, os gemidos de amor, as lágrimas amargas, alegrias e misérias de homens e mulheres séculos e séculos. Esses telhados são os sábios silenciosos. Fizeram do silêncio uma forma de conhecer"


"Itapuã é toda a contradição e incompletude lendária que a fama em verso, prosa e música espalhou aos quatro ventos. As dunas descem. Os coqueiros caem. A lagoa encolhe. O descontrole clandestino devasta e Abá-eté – homem verdadeiro – soluça em seco sua lástima"


"Aqui é o território de todos e de ninguém ... Cabem no Largo todas as nuances psíquicas do humano, do civismo ao canalhismo, passando pela candura à selvageria, e a inocência dos meninos e meninas que burlam o tempo no parquinho"


João Filho
(Casarão do Verbo - 2014)


"O fato de ter sido Salvador a primeira capital do Brasil não passaria ileso pela psique do baiano. Daí seu nascimento em forma de inauguração. E tal fato, convenhamos, marca definitivamente todo um povo. Nós baianos temos o carma da primogenitura ... O baiano vive a existência à revelia com sua filosofia do cacete armado. Ele prefere o desconcerto ao redor de um eixo mais ou menos fixo e, se possível, histórico ... Se o exterior é o reflexo do interior, logo, ser baiano é uma experiência aberta, um arranjo que se molda ao instante e dele equilibra ou desequilibra a vida inteira"


"A fermentação humana na orla e nos pontos de buzu, a coloração agressiva que se torna comum. Todos os cheiros se exaltam. Alguns ácidos agridem. Formas, volumes, texturas se deslocam – gente, gente, gente –, se acumulam, tornam a se ajuntar, móvel como a vida; se espraiam nas calçadas, avançam pelo asfalto, a praia está tomada, e zoam em timbres os mais inusitados, competem com os motores de carros, motos, ônibus, é a orquestração da dissonância, a muvuca organizada, o caos simétrico de um dia de verão no Porto da Barra. Não se assuste: a praia é uma reivindicação coletiva"


"A baiana não é para ser encarada com olhos folclóricos. Não faça isso, é um erro. Joia encastoada não somente na paisagem, também no ethos soteropolitano, seu porte concentra Áfricas e Ásias percorridas por portugueses. A força de sua figura rompeu empecilhos, intolerâncias, desconhecimentos. Estimulando sem distinções o paladar dos que a procuram. Não é mera questão econômica. Reveja: você paga, mas ela te alimenta" (verbete "Baiana do acarajé")


"Alguém disse, já não me lembro quem, que a voz de Armandinho é a guitarra baiana. Fato único na história da música em que o instrumento é o próprio homem, ou vice-versa ... O mundo, as coisas, as pessoas para Guitarra-Armandinho são notas musicais, e suas cordas vocais são cinco, pois sentindo que se limitava, adicionou uma quinta corda grave para falar grosso. Na verdade, nasceram gêmeos siameses, mas, com o andante do tempo, a Guitarra prevaleceu. Armandinho não caminha, compassa. Não fala, executa uma peça. Por isso jornalistas, entrevistador, pesquisadores não deveriam jamais assediá-lo com perguntas. Além de insensibilidade, o óbvio é ululante e musical. A única alternativa é assoviar um trecho e, assim, o mundo se harmoniza, as coisas riem"


"Se me perguntassem o que mais me encanta em Dorival Caymmi (1914-2008), eu diria sem pestanejar: o tempo. Mas e as músicas, as letras, a melodia etc.? Insistiria: o tempo. Através da lentidão, que na verdade era paciência, o compositor baiano burilou verdadeiras pérolas do cancioneiro nacional. Há que defender Caymmi, pois sua propalada preguiça era espera consciente. Por isso, suas canções parecem seixos que de tanto rolarem rio abaixo foram se arredondando, e, no fim, nos causam a sensação de que eram composições retiradas da memória popular"


"Se a cidade de Salvador é o conluio por excelência de África, Europa e Ásia, onde a paleta de cores da pele humana conviveu, nem sempre, é verdade, em paz, o traço do artista plástico, escultor e desenhista Carybé (1911-1997), ao ir se despojando, conseguiu unir Salvador com o Japão. O máximo de movimento com o mínimo de traço expressivo. E muita, muita cor"

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

34

Selfie de Emmanuel Mirdad, quando completou 34 anos ontem, 07 de outubro de 2014


34
Emmanuel Mirdad

O bom de fazer 34 é somar três e quatro
E desvendar mais um sete
Neste sete de outubro
A escrever Muralha
Meu primeiro romance
Parto da patrulha que me perseguirá
Faça outro, faça melhor, faça
Que venha
Eu traço
Muralha não deixa passar nada
Bem entendo o que é isso
34 que começa no 14 e termina no 15
Tudo velho de novo
Esfinge

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Discografia Mirdad: The Orange Poem - Hybrid

Hybrid (2014) - The Orange Poem


Hybrid é o álbum duplo da banda de blues psicodélico & rock progressivo Orange Poem, de Salvador, Bahia, com os vocais de Glauber Guimarães (ex-Dead Billies), Teago Oliveira (Maglore), Nancy Viégas (Radiola), Mauro Pithon (ex-Úteros em Fúria), Rodrigo Pinheiro (Mulher Barbada) e a presença mais que especial da voz de floresta, ancestral, do mestre septuagenário Mateus Aleluia (ex-Os Tincoãs), um dos mais importantes e referenciais artistas da música afro-baiana.

Produzido pelo multifuncional Emmanuel Mirdad, curador e coordenador da festa literária Flica, o álbum foi gravado pelo experiente e talentoso Tadeu Mascarenhas, do estúdio Casa das Máquinas, responsável pela gravação de vários discos da nova música baiana. São 18 canções que foram lançadas digitalmente no Soundcloud da banda ao longo do ano, divididas em seis EPs, com uma bela arte gráfica assinada pelo também designer Glauber Guimarães, responsável pelo visual do poema laranja.

As músicas são quase todas de Emmanuel Mirdad, exceto por três parcerias com a banda, seu pai e o guitarrista laranja Saint. Como o próprio nome sugere, as letras são poemas em inglês, que tratam da condição humana, indagações, conflitos do íntimo, transcendências, angústias, revelações e relações espirituais, com algumas homenagens a ícones como Raul Seixas, Pink Floyd, Clarice Lispector e Salvador Dalí.




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui

Ouça no Youtube aqui e aqui

Download aqui

Release aqui

Ficha Técnica

HYBRID (2014)

Produzido por Emmanuel Mirdad

CD 01
Psychedelic

01. Cuts (BR-N1I-14-00014)
02. Last Fly (BR-N1I-14-00002)
03. Wideness (BR-N1I-14-00008)
04. Melissa (BR-N1I-14-00018)
05. The Unquietness (BR-N1I-14-00005)
06. Rain (BR-N1I-14-00003)
07. 8/8/88 (BR-N1I-14-00017)
08. Lost Mails (BR-N1I-14-00009)
09. Clouds, Dreams (BR-N1I-14-00015)
10. Homage (BR-N1I-14-00007)
11. Illusion's Wanderer (BR-N1I-14-00016)

Todas as composições de Emmanuel Mirdad, exceto "Illusion's Wanderer", de Ildegardo Rosa e Emmanuel Mirdad

CD 02
Rock

01. Child's Knife (BR-N1I-14-00011)
02. Neither Gods, Nor Devils (BR-N1I-14-00006)
03. Farewell Song (BR-N1I-14-00004)
04. One and Three (BR-N1I-14-00013)
05. Shining (BR-N1I-14-00010)
06. The Green Bee (BR-N1I-14-00012)
07. Dubious Question (BR-N1I-14-00019)

Todas as composições de Emmanuel Mirdad, exceto "One and Three", de Emmanuel Mirdad e Saint, e "Shining", de Emmanuel Mirdad, Artur Paranhos, Marcus Zanom, Hosano Lima Jr. e Fábio Vilas-Boas.



The Orange Poem

Marcus Zanom - guitarra e sanfona
Mirdad - violão 12 cordas, gritos e backing vocal
Hosano Lima Jr. - bateria
Saint - guitarra
Artur Paranhos - baixo
Tadeu Mascarenhas - piano, sintetizador, órgão, guitarra portuguesa, sanfona e guitarra

Convidados especiais


Mateus Aleluia
Voz em
"Cuts"
"Clouds, Dreams"

Backing vocal em "Illusion's Wanderer"



Nancy Viégas - voz em "Wideness", "Lost Mails" e "Shining"

Glauber Guimarães - voz em "Last Fly", "Rain" e "Farewell Song"

Mauro Pithon - voz em "Child's Knife", "One and Three" e "The Green Bee"


Teago Oliveira
Voz em "Melissa", "8/8/88


Rodrigo Pinheiro
Voz em "The Unquietness", "Homage




Ildegardo Rosa (in memoriam)
Voz em português em
"Illusion's Wanderer"
"The Green Bee"




Rajasí Vasconcelos - backing vocal e violão reverse em "Dubious Question", risadas em "Last Fly"

Gabriel Franco - grito em "Rain"

"Illusion's Wanderer" contém fragmentos de 14 poemas de Ildegardo Rosa, montados por Emmanuel Mirdad

"Child's Knife" contains "Les Autres", a Herculano Neto's poem, translated by Pedro Vianna

"The Green Bee" contains a fragment of "A Tirania das Formas", a Ildegardo Rosa's poem

Recording, mixing and mastering: Tadeu Mascarenhas at Casa das Máquinas, Salvador-BA

Artwork: Glauber Guimarães


Contracapa do Hybrid (2014) - The Orange Poem


Label do CD 01 do Hybrid (2014) - The Orange Poem


Label do CD 02 do Hybrid (2014) - The Orange Poem


Encarte do Hybrid (2014) - The Orange Poem