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Pílulas: Ângelo Sobral Desce aos Infernos, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (Foto: divulgação - interferida por Mirdad)


"A sorte, meu amigo, é como a desgraça: só acontece aos outros"


"Diante do sofrimento alheio, fico tão abalado que não posso reagir sequer para mostrar-me de alguma forma solidário. Já li em mais de um rosto o julgamento cruel: insensível. Mas não, é o contrário: sofro tanto ao testemunhar sofrimento que fico literalmente prostrado. Mas uma na minha longa lista de fraquezas"


"Que diálogo - de verdade - pode existir entre meu genro e eu? É um bom rapaz, ótimo marido, porém são virtudes para minha filha, não para mim"


"A única certeza é esta: Helena está morta. Morreu ao meu lado e eu nem o percebi. Passou do sono ao nada sem que a travessia dessa extrema - a mais extrema - fronteira me fizesse abrir os olhos. E se os abrisse não seria mais do que a testemunha impotente. E uma testemunha que talvez nada testemunhasse de fato, de essencial, nada além do aparente. Se é que houve mesmo algo de aparência nessa passagem. Na verdade, morta, Helena parecia viva. Tanto que a sacudi várias vezes antes de reconhecer que não mais conseguiria despertá-la"


"O enterro, na tarde do dia seguinte, sepultou em mim boa parte de Deus. Sepultamento que já começara com a morte de tia Joana e se repetiria, multiplicando-se ao longo da vida, pedaços e pedaços de Deus se desprendendo e afundando num chão de indiferença, já em estado de decomposição. Da última viagem de meu avô, ficou-me uma imagem que de quando em quando me procura: um carro mortuário imenso, sinistro, trepidando no calçamento irregular, de pedras escuras e gastas, um carro de pesadelos com cortinas negras, negras"


Ruy Espinheira Filho
(Giostri Editora/2014)


"Nos meus anos mais pretensiosos, que se estenderam até mais ou menos os quarenta, um outro medo: o de deixar a minha obra inacabada. Depois descobri que assim fica toda obra, ao menos para o seu autor. Mesmo que eu viva mil anos não estarei satisfeito o bastante para considerar meu trabalho concluído"


"Servi-me outro uísque, respirei fundo e respondi que não escolhia tema nenhum - eles é que me escolhiam. E que a forma de escrever nasce com cada assunto, ou melhor: é o assunto. Acrescentei que cada autor é um caos único e gera os mundos que ele pode gerar, pois o autor escreve com o que ele é. E só. Não pode escrever como outro"


"Quanto aos meus netos: Paulo vai fazer engenharia e é um tipo de muito bom senso; Mário, porém, parece ter herdado algo do meu sangue mau: é dado a frequentar bibliotecas, livrarias e já soube que escreve poemas e contos ... Mas ele ainda é muito novo, talvez seja só febre da mocidade. Não dá ainda para saber se tem talento, se nasceu marcado pela fatalidade do artista. Sim, isto: a fatalidade. Porque o artista não se faz por opção: ele é o que é por sua condição. Que, para muitos, é, na verdade, uma maldição"


"Sempre acompanho o que os novos escrevem, para não correr o risco de ser morto à traição"


"Você sabe quando comecei a desabar? Ao perceber que meu ser físico e cronológico já não podia corresponder a certas esperanças: "Um dia farei isso; um dia serei aquilo": houve época em que estas palavras soavam em mim com absoluta confiança ... Aos dezoito, vinte anos, prometi a mim mesmo: serei um grande escritor aos quarenta. Hoje, porém, que prazo posso conceder-me para realizar algo maior do que já fiz? O espaço se reduz, as possibilidades se desfazem, as perspectivas se fecham, os sonhos (o que resta deles) mal conseguem respirar"

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ela disse
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