segunda-feira, 25 de julho de 2016

Vinte e seis poemas e vinte e nove passagens de Orides Fontela no livro Poesia completa

Orides Fontela (foto daqui)



Transposição (1969)

"salto buscando
o além
do momento"

Leia aqui





Helianto (1973)

"Os extremos do amor:
áridos
restos"

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Alba (1983)

"Há um caminho solitário
construído a cada passo:
não leva a lugar algum"

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Rosácea (1986)

"Nem tronco ou
caule. Nem sequer planta
– só a raiz é o fruto"

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Teia (1996)

"Nunca amar
o que não
vibra"

Leia aqui



domingo, 24 de julho de 2016

Seis poemas e cinco passagens de Orides Fontela no livro Teia

Orides Fontela (foto daqui)


sem título
Orides Fontela

Nunca amar
o que não
vibra

nunca crer
no que não
canta.


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Kairós
Orides Fontela

Quando pousa
o pássaro

quando acorda
o espelho

quando amadurece
a hora.


--------


João
Orides Fontela

De barro
o operário
e a casa

(de barro
o nome
e a obra).

II

O pássaro-operário
madruga:

construir a
casa
construir o
canto

ganhar – construir –
o dia.

III

O pássaro
faz o seu
trabalho
e o trabalho faz
o pássaro.

IV

O duro
impuro
labor: construir-se

V

O canto é anterior
ao pássaro

a casa é anterior
ao barro

o nome é anterior
à vida.


--------


Teia
Orides Fontela

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
                   prenhe:

no
centro
a aranha espera.


--------


Fala
Orides Fontela

Falo de agrestes
pássaros         de sóis
     que não se apagam
     de inamovíveis
     pedras

     de sangue
     vivo         de estrelas
     que não cessam.

     Falo do que impede
     o sono.


--------


Mão única
Orides Fontela

– é proibido
voltar atrás
e chorar.


--------


"mescladas
a esmo:
o fim o infinito
o mesmo

a hora e a sua
seta
o limite e o após
a meta"


"Ver
o avesso
do sol o
ventre
do caos os
ossos."


"E anulado
o espelho: eis
o infinito."


"e a pedra é
pedra: não germina.
Basta-se."


"o espelho aprofunda
o enigma"





Presentes no livro de poemas Teia (1996), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 372, 326, 313-314, 307, 308 e 328, respectivamente, além dos trechos dos poemas Coisas (p. 309), Ver (p. 339), Noturnos (p. 349), Pesca (p. 381) e sem título (p. 374), presentes na coletânea.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Rosácea

Orides Fontela (foto daqui)


Aforismos
Orides Fontela

Matar o pássaro eterniza
o silêncio

matar a luz elimina
o limite

matar o amor instaura
a liberdade.


--------


CDA (Imitado)
Orides Fontela

Ó vida, triste vida!
Se eu me chamasse Aparecida
dava na mesma.


--------


Aurora
Orides Fontela

Rosa, rosas. A primeira cor.
Rosas que os cavalos
esmagam.

--------


Iniciação
Orides Fontela

Se vens a uma terra estranha
curva-te

se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

– és infinitamente mais estranho.

--------


Ode
Orides Fontela

Neste tudo
tudo falta

(neblina)

e nesta
falta: eis
tudo.


--------


"Nem tronco ou
caule. Nem sequer planta
– só a raiz
   é o fruto."


"Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

(...)

só porque
erro
acerto: me
construo."


"em tudo pulsa
e penetra
o clamor
do indomesticável destino."


"Não amo
o espelho: temo-o."


"A tarde em mim se repete
num tempo irreal, decadência
obstinada, onde o
silêncio
nunca é completamente
treva

A tarde em mim se repete
configurando uma distância
irrealizada, evanescência
onde nunca anoitece."


"Cansa-me ser. A chaga inumerável
de mim cintila; sem palavras, úmida
fonte rubra do ser, anseio e tédio
de prosseguir, inabitada, viva."




Presentes no livro de poemas Rosácea (1986), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 230, 249, 221, 222 e 260, respectivamente, além dos trechos dos poemas Origem (p. 283), Errância (p. 223), As coisas selvagens (p. 235), O espelho (p. 238), Duas odes (antigas) (p. 285) e um soneto sem título (p. 293), presentes na coletânea.


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Alba

Orides Fontela (foto daqui)


Alba
Orides Fontela

I

Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
                                   na carne.

II

Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
é sempre.

III

Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.

IV

Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!


--------


Pouso (II)
Orides Fontela

Difícil para o pássaro
                       pousar
                       manso
em nossa mão – mesmo
                       aberta.

Difícil difícil
para a livre
           vida
repousar em quietude
                         limpa
                         densa

e inda mais
           difícil
– contendo o
          voo
   imprevisível –

maturar o seu canto
no alvo seio
de nosso aberto
mas opaco

silêncio.


--------


Murmúrio
Orides Fontela

O murmúrio não cessa. Nunca a
                                        fonte
deixará de cantar
oculta

e oculto mesmo
o canto
soterrado em cansaço
hábito e olvido

e tudo oculto sob árida
lápide
sob o contínuo deslizar
das formas

e tudo
oculto
mas água
sempre

pulsação
viva
centrando
o
tempo.


--------


Via
Orides Fontela

I

Há um caminho solitário
construído a cada
                            passo:
não leva a lugar algum.

II

Na floresta um branco
                                    pássaro
oculta-se em seu
                                    silêncio.

III

No alto
– jubilosamente –
uma estrela
apenas.


--------


Ode
Orides Fontela

O início? O mesmo fim.
O fim? O mesmo início.

Não há fim nem início. Sem história
o ciclo dos dias
vive-nos.


--------


"Eis a carta dos céus: tudo
indeterminado e imprevisto
cria um amor fluente
e sempre vivo.

Eis a carta dos céus: tudo
                                 se move."


"Da pura água
criar o vinho
do puro tempo extrair
o verbo.

(...)

A água embriaga
mas para além do humano: no amor
simples."


"A mão destrói-se
furtando-se
à textura do ser
e do silêncio

e – naufragada a forma –
subsiste uma estrela
sobre as águas."


"O que faço des
                    faço
o que vivo des
                  vivo
o que amo des
                  amo"


"Reteso o arco e o
                              sonho
espero:

nada mais é preciso."


"Um barco
fende – tranquilo – o mar
(o amor)           transporta
– voo profundo – o esplendor
do silêncio."




Presentes no livro de poemas Alba (1983), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 167, 171, 193, 208 e 211, respectivamente, além dos trechos dos poemas Mapa (p. 194), Bodas de Caná (p. 175), A mão (p. 178), Penélope (p. 187), Odes (p. 190), Nau (II) (p. 202), presentes na coletânea.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Helianto

Orides Fontela (foto daqui


Ode
Orides Fontela

E enquanto mordemos
frutos vivos
declina a tarde.

E enquanto fixamos
claros signos
flui o silêncio.

E enquanto sofremos
a hora intensa

lentamente o tempo
perde-nos.


--------


Impressões
Orides Fontela

Cimo
de palmeira rubra:
                  "vida".

Lago
de amarelo turvo:
             "tempo".

Cubo
de metal opaco:
            "Deus".


--------


Herança
Orides Fontela

O que o tempo descura
e que transfixa

o que o tempo transmite
e subverte

o que o tempo desmente
e mitifica.


--------


Claustro (II)
Orides Fontela

Antigo
jardim fechado:
águas, azulejos
            e sombra.

Macular esta paz?
               Proibido.
Só leves pensamentos
                transitam
– leves, tão
              leves
que agravam mais o silêncio.

E o jardim se aprofunda
                          espelho
verde do abismo: céu
nas águas claras

e este chão não existe
    – tudo é abismo –
e esta paz é vertigem
       – puro abismo –
e o pensamento fixo
    – mudo abismo –

tudo amplia mais o silêncio.


--------


Estrada
Orides Fontela

A estrada percorre
               o bosque
entre árvores mudas
entre pedras opacas
entre jogos de luz
            e sombra.

A estrada caminha
e o seu solo
(ancestralmente fundo)
não tem som.

A estrada prossegue
e seu silêncio
fixa presenças densas
e embriaga
sufocando toda a
                         memória...


--------


"Os extremos do amor:
áridos
restos"


"Cego?
Não: livre.
Tão livre que não te importa
a direção da seta.

(...)

Que forma te conteria?
Tuas setas armam
                               o mundo
enquanto – aberto – és abismo
             inflamadamente vivo."


"Inúteis o perfume
e a cor: apenas signos
de uma presença oculta
inútil mesmo a forma
claro espelho da essência

(...)

Basta o ser. O escuro
mistério vivo, poço
em que a lâmpada é pura
e humilde o esplendor
das mais cálidas flores."


"Da não-espera
acontecem as
flores."


"Um pássaro
invocou mudamente
o abismo."


"O
leque
fechado:
ausência.

(...)

O
leque
fechado:
espera."




Presentes no livro de poemas Helianto (1973), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 154, 103, 105, 158 e 159, respectivamente, além dos trechos dos poemas Elegia (II) (p. 156), Eros (p. 142), Repouso (p. 151), Poemetos (p. 153), Gênesis (p. 147) e Poemas do leque (p. 111), presentes na coletânea.


terça-feira, 19 de julho de 2016

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Transposição

Orides Fontela (foto daqui)


Ode I
Orides Fontela

O real? A palavra
coisa humana
humanidade
penetrou no universo e eis que me entrega
tão-somente uma rosa.


--------


Rota
Orides Fontela

Há um rumo intacto, uma
absoluta aridez
na ave que repousa. Nela
o repouso é a rota: não há mais
necessidade de voo.


--------


Notícia
Orides Fontela

Não mais sabemos do barco
mas há sempre um náufrago:
um que sobrevive
ao barco e a si mesmo
para talhar na rocha
a solidão.


--------


Média
Orides Fontela

Meia lua.
Meia palavra.
Meia vida.

Não basta?


--------


Fala
Orides Fontela

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)


--------


"salto buscando
o além
do momento."


"A saída
é a volta."


"Bendita a sede
por arrancar nossos olhos
da pedra.

Bendita a sede
por ensinar-nos a pureza
da água.

Bendita a sede
por congregar-nos em torno
da fonte."


"A porta está aberta. Que sentido
tem o que é original e puro?
Para além do que é humano o ser se integra
e a porta fica aberta. Inutilmente."


"Quebrar o brinquedo
é mais divertido.

As peças são outros jogos
construiremos outro segredo.
Os cacos são outros reais
antes ocultos pela forma
e o jogo estraçalhado
se multiplica ao infinito
e é mais real que a integridade: mais lúcido."


"O fluxo obriga
qualquer flor
a abrigar-se em si mesma
sem memória."





Presentes no livro de poemas Transposição (1969), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 52, 60, 61, 78 e 47, respectivamente, além dos trechos dos poemas Salto (p. 35), Caramujo (p. 59), Sede (p. 84), Revelação (p. 51), Ludismo (p. 33) e Tempo (p. 28), presentes na coletânea.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Vídeos - Leituras de poemas pelo autor



O escritor Emmanuel Mirdad, autor do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014), lê poemas selecionados de cada uma das partes da obra, em vídeos gravados por Sarah Fernandes em julho de 2016, na cidade de Salvador, Bahia.



Não consegue visualizar o player? Clique aqui para ver a playlist.




#01 - (P)arte

O autor lê o poema À vista, da parte (P)arte.

Veja aqui







#02 - Umbiego - Parte I

O autor lê seis poemas da parte Umbiego.

Veja aqui







#03 - Umbiego - Parte II

O autor lê seis poemas da parte Umbiego.

Veja aqui







#04 - Umbiego - Parte III

O autor lê sete poemas da parte Umbiego.

Veja aqui







#05 - Enfrascafatos - Parte I

O autor lê cinco poemas da parte Enfrascafatos.

Veja aqui







#06 - Enfrascafatos - Parte II

O autor lê seis poemas da parte Enfrascafatos.

Veja aqui







#07 - Micropatetice

O autor lê quinze micropoemas da parte Micropatetice.

Veja aqui






#08 - Superficiacidez - Parte I

O autor lê sete poemas da parte Superficiacidez.

Veja aqui







#09 - Superficiacidez - Parte II

O autor lê nove poemas da parte Superficiacidez.

Veja aqui







#10 - Ferinar | (Mo)rte

O autor lê seis poemas da parte Ferinar e um poema da parte (Mo)rte.

Veja aqui



sexta-feira, 15 de julho de 2016

Livro Olhos abertos no escuro (2016), de Emmanuel Mirdad



Olhos abertos no escuro
(Via Litterarum, 2016)
ISBN: 978-85-81511-21-4
30 contos | 268 pg
Posfácio de Carlos Barbosa
Orelha de Victor Mascarenhas
Foto da capa: Sarah Fernandes


Olhos abertos no escuro apresenta uma constelação de personagens complexos, situações extremas, solidão, romance, ironia e prosa poética. Plural, ácido e reflexivo, contém 30 contos, que podem ser divididos em três linhagens: 1) reflexivos e poéticos; 2) sobre relações afetivas; 3) literatura policial. Para Carlos Barbosa, que assina o posfácio, são pontuados por “amor e traição, bebidas e drogas, insegurança e solidão, tédio e indignação, sarro e revolta, sexo e medo – coisas da nossa contemporaneidade difusa e obscena”. Para Victor Mascarenhas, que assina a orelha, o livro é “uma coleção de contos que apresenta uma plêiade de personagens que vagueiam por aí, levando sua escuridão particular a qualquer hora do dia e da noite, assombrando e tirando o sono dos incautos leitores”.

Em Botox, o autor faz um mergulho no mundo das aparências, revelando tramas traiçoeiras que promovem ascensão e ruína social. Já no psicodélico e surreal Alucinação, uma peça de dominó escapole do tabuleiro para o nosso mundo, indignada pela morte do seu amor: Rita, a bucha de sena. Em Pássaros deliram, o delegado Mauro caça o psicopata Monstro, prolífico no intento de exterminar a humanidade.

Deserto poema traz as decepções do consagrado professor Belizário com a literatura. Cinzas retrata os seis dias de Carnaval de uma mãe solteira, com duas filhas pequenas. Em O barão do cagaço, acompanhamos a paranoia de um medíocre solitário que acabou de ganhar sozinho na loteria e não sabe o que fazer, e em Absoluto, a destruição progressiva de Madá por conta de uma paixão obsessiva. No sensível Formigas, o velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, à beira de um riacho, frágil e trágica. Em Amante, as peripécias de um ser atende às necessidades sexuais de diversas mulheres e em O Reino, um conquistador barato foge para a Chapada e confronta um adversário mais viril e poderoso: dois falos de pedra maciça encantada, brotados da terra, o mistério do sertão-montanha.

O título da obra foi retirado de uma passagem do conto Gravidade, do escritor Mayrant Gallo, para quem Mirdad dedica o livro, com uma epígrafe dele abrindo cada um dos seus 30 contos.


Compre aqui

Trechos selecionados dos contos aqui

Vídeos com o autor lendo trechos dos contos aqui

Cento e cinco passagens dos contos aqui

Release aqui

Fotos da noite de autógrafos aqui


Contos


Absoluto
A assessora de imprensa Madá esbagaça a sua vida por conta de uma obsessão tresloucada pelo misterioso mímico de rua Absoluto, sem palavras, só gestos.


Impermanência
Dois amigos conversam sobre a transitoriedade da vida — todos, sem exceção, passam.


Qualquer um
Qualquer um volta pra casa, depois do trabalho, e percebe que é só mais um medíocre solitário na multidão de medíocres, que vai morrer só e o seu legado é tão pífio que rapidamente será esquecido, por qualquer um.


Ela não quis
Manuela, 15 anos, estudante. Davi, médico. Colegas de natação. Da sedução matreira da garota à proposta arriscada e cretina.


Formigas
O velho pai, doente e fraco, observa a sua filha, nobre e ilustre, laureada de prêmios e acúmulos de títulos, que está surpreendentemente frágil, à beira de um riacho, trágica.


Que seja duro enquanto sempre
O amigo sensato se encontra com o amigo de coração partido num bar de ponta de esquina. O acaso faz tocar a canção Por enquanto, na voz de Cássia Eller.


Ingênio
Um astro da música brasileira rememora a sua importância para o público e imprensa, remexe as suas lembranças contraditórias e assume o fracasso de ser apenas uma caricatura "genial" que a sua carreira forjou no imaginário popular.


Sereno aceitar
Um solitário porteiro leva uma vida repetitiva e ordinária, até que um par de sapatos vermelhos importados provoca o fatal alumbramento repentino, forjando o mito do bacana em quem nunca deixou de ser medíocre — embora que ambos sejam ordinários, ao fim.


Alucinação
Mataram a Rita! E uma das peças, apaixonada pela bucha de sena, irrita-se com a jogada tonta que vitimou a sua musa, e escapole do tabuleiro de dominó, iniciando a saga surreal da alucinação.


Botox
A empresária Marília, influente, estrategista, sagaz e bem-sucedida, dona da grife mais valorizada, enfrenta o inimigo implacável: uma doença terminal, repentina e voraz.


Despedaço
Um profissional, por conta do acaso, se fascina pelo pôr do sol. Outro, caminha pela areia da praia, de terno, desolado. Encontram-se, desabados. O que há de comum além da dor e da redenção?


Selvagem
Moreno, armado com uma garrafa de água mineral, enfrenta uma barata cascuda na cozinha. Mas ela insiste em não morrer.


Derrame
O romântico nunca deixou de amar as mulheres que um dia declarou o seu amor libertário. De encontro em desencontro, o encanto de uma nova tentativa a livrá-lo dos desencantos da ilusão faminta, da reles possessão desesperada.


Maestro
O mendigo Maestro, bem-humorado e carismático pensador, morador da calçada do açougue, é assediado para disputar as eleições, candidato-fantoche da vez.


Deserto poema
As decepções do professor Belizário com a literatura e o encontro de um zumbi telepático, que oferece lições filosóficas a anjos e transeuntes carnais, com a empresária Aisha, cuja especialidade é faturar em cima de mitos burgueses.


Como uma pedra
O marido descobre a traição da esposa e resume a sua mediocridade enquanto homem na obsessiva pergunta, a única que lhe interessa: "Vocês transaram?"


Vingança
O cadeirante espreita o gigante, munido de pólvora e chumbo, degustando pacientemente o prato cruel da vingança.


Brutalistas
Para-raios de malucos brutalistas: Cristal, Thiago, Andrômeda, Tavinho, Moloko Veloz, Mestre Ganja, Fuça-fuça, Peripinho, Xica, Virussapiens, Fantasma Comparsa, Carrapatos Suspensos, Mendigos Cheirosos e I’m tired, todos girando no balão frágil.


O barão do cagaço
Um medíocre solitário ganha sozinho o prêmio de 47 milhões de reais. E, na noite da revelação, vai da euforia incontrolável à paranoia suprema. O que fazer? Quem procurar? Em quem confiar? Onde guardar o papelzinho de merda, única prova que dará acesso à vida de luxo e ostentação?


Cinzas
Os seis dias de Carnaval de uma mãe solteira, duas filhas pequenas, entre a arrochada de camisola no corredor do hotel para um strip-tease via Skype a uma fossa regrada ao brilhante esmagamento do indivíduo pelo Estado no filme Leviatã.


A farsa
Ele é um grande canalha que finge estar só. Ela é uma atriz que pergunta o que nunca poderá compreender. Não existe “nós” no “eu te amo”.


Pássaros deliram
O delegado Mauro caça o Monstro, um psicopata abominável, prolífico em sua matança desenfreada, e uma esfinge extremista: não deixa pistas, impressões digitais e o intento de exterminar a humanidade.


Play it again, Sam
Um pequenino exemplo da diferença no tratamento da opinião pública quando se trata de uma assassina negra e o desencanto do matador de aluguel Claudinho Tamagotchi.


Sem dó
Uma mulher disposta ao matriarcado que não consegue arrumar um companheiro.


Farfalla Solar
A borboleta da carne e cor do sol é uma musa que flutua e embasbaca o pobre homem da carne e cor do sol.


Adonias Chumbo
Um policial corrupto e o seu rolezinho aditivado para vingar o cunhado Pedra 90 e salvar a deputada caô, sequestrada por quatro esfomeados canalhas.


Fraseando
Uma patrulheira de redes sociais destila a sua inveja em posts corretinhos.


Hoje é sexta-feira 13
Um homem se torna extremamente sortudo no suposto dia do azar. Demais?


Amante
As peripécias de um ser que atende às necessidades sexuais de diversas mulheres, cada uma com um motivo distinto que justifica a traição.


O Reino
O conquistador confronta um adversário mais viril e poderoso: os falos de pedra maciça da mãe Gaia. As “preda’ encantadas do sertão-montanha do Reino!

Nostalgia da lama - Ferinar e (Mo)rte - Leitura de sete poemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os poemas Método infalível de brochar, Memórias dos pedaços, Erupção, Casulo, Vinícius sentenciou: "É fundamental!"
e 300, da parte Ferinar, e Construção, da parte (Mo)rte,
do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Vídeo gravado em 02/07/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Informações sobre o livro aqui

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Umbiego - Parte III - Leitura de sete poemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os poemas As máquinas jamais família, Enfado dos outros, O2, Diferenças, Átimo, Em vão e Nu, tempestade, da parte Umbiego,
do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Vídeo gravado em 02/07/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Informações sobre o livro aqui

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Enfrascafatos - Parte II - Leitura de seis poemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os poemas Calamidade: Confissão de misantropo, Convivência, Um só, Saidinha, Acordado e Hoje, da parte Enfrascafatos,
do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Vídeo gravado em 02/07/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Informações sobre o livro aqui

terça-feira, 12 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Superficiacidez - Parte II - Leitura de nove poemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os poemas Passeio, Presente!, Não valer, Objetividade feminina, Open heart surgery, De novo, Amores inúteis,
Sandálias de aço e Solitários, da parte Superficiacidez,
do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Vídeo gravado em 02/07/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Informações sobre o livro aqui

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Umbiego - Parte II - Leitura de seis poemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os poemas Cuscuz, Inhame, Sina, Mito, Microtons de sóis e O rangido, da parte Umbiego, do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Vídeo gravado em 02/07/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

Informações sobre o livro aqui

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Micropatetice - Leitura de quinze micropoemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os micropoemas Evolução, Chaveiro, (In)ferir, Contemporaneidade, Superlotação, Sete, catorze, 21, Calafrio, Heróis do imundo, O caminho regresso, Catedrático, O cinza, Dar-se-á show, Fortaleza discursiva, Temporâneo e 4:17, da parte Micropatetice,
do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Vídeo gravado em 02/07/2016, no escritório do autor na Pituba, Salvador, Bahia, Brasil.

Câmera: Sarah Fernandes

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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Enfrascafatos - Parte I - Leitura de cinco poemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os poemas Pó e Sra., Palmada palerma, Maria Cegueta, Guilhotina silêncio e Fagia, da parte Enfrascafatos,
do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Câmera: Sarah Fernandes

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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Umbiego - Parte I - Leitura de seis poemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os poemas Intervalo, Espiando os velhos, Depende, Espreita, Hiato e Gado bom é no meu prato, da parte Umbiego,
do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Câmera: Sarah Fernandes

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terça-feira, 5 de julho de 2016

Nostalgia da lama - Superficiacidez - Parte I - Leitura de sete poemas pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê os poemas Possuído, Pertença, Prato-feito, Fora da bolha: Crise!, Conforto?, Conveniência e Atento, da parte Superficiacidez, do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Câmera: Sarah Fernandes

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Os 30 mais do meu acervo de MP3

Fotos: Internet


Dezembro passado, comecei a digitalizar a minha coleção de CDs. Depois, fui organizando, aos poucos, o acervo de MP3. Pois ontem, terminei.

Em julho de 2016, tenho 7411 faixas, 629 álbuns, 309 artistas/bandas, em 38,12 GB de música.

Do acervo, considero que 30 são os mais especiais. Me formaram como artista, profissional, homem. Sem eles, eu não me reconheço.

1) Bob Marley & The Wailers
2) Pink Floyd
3) Radiohead
4) Legião Urbana
5) Sigur Rós

6) Dire Straits
7) Black Sabbath
8) Led Zeppelin
9) Creedence Clearwater Revival
10) Counting Crows

11) The Cranberries
12) The Wallflowers
13) The Swell Season
14) Placebo
15) U2

16) Jimi Hendrix
17) Burning Spear
18) Alpha Blondy
19) Peter Tosh
20) Edson Gomes

21) BB King
22) Muddy Waters
23) Flávio José
24) Santanna o Cantador
25) Coldplay

26) Zé Ramalho
27) Belchior
28) Fiona Apple
29) Audioslave
30) Gipsy Kings

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Nostalgia da lama - (P)arte - Leitura de um poema pelo autor



O autor Emmanuel Mirdad lê o poema À vista,
do livro Nostalgia da lama (Cousa, 2014).




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Câmera: Sarah Fernandes

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domingo, 3 de julho de 2016

Cinco poemas e três passagens de Silvério Duque no livro Do coração dos malditos

Silvério Duque (foto daqui)


Nicolae Steinhardt
Silvério Duque

                                                        ao amigo, Elpídio Mário Dantas Fonseca

– Se existo é porque a carne não tem nome
e onde o amor se desfez a alma procura
a vontade de amar que ainda perdura
como perdura a morte e a sua fome.

Pela boca do tempo tudo some
mas se torna a viver é que a mais pura
vontade de existir revela e apura
o que a própria razão de ser consome.

Do assombro e do desejo em vão renasço
com o mesmo coração profundo e inquieto
se com Deus não me unir em estreito laço

como se une o silêncio a todo inverno
como se une a razão a nobre gesto
pois tudo o que é fugaz vive do Eterno.


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Sobre o grito de Munch
Silvério Duque

                                                      ao poeta e amigo, Patrice de Moraes

– Nas tardes mortas, eu perdi meu nome
e em cada uma delas morri um pouco
pois nada cabe a mim que achar-me um louco
que vive de comer a própria fome.

Esta visão de mim que me consome
dói como há-de doer um grito rouco
que o pudesse gritar um tronco oco
ante o vazio que a ele próprio come.

Hoje, só existe dor nesse sol-posto
e a natureza toda se apavora
ao ver-se refletida no meu rosto

que a noite sobre mim vem sem demora
como para me dar algum conforto
enquanto se retarda a minha hora.


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Balada para Cecília
Silvério Duque

                                                     à Danielle Pinheiro

– Convêm-nos que esta noite seja clara
ou simplesmente a última, sabendo
que todo mundo dorme e as nossas almas
são uma chaga a mais que o mundo abriu...

Convêm-nos que esta noite seja pura
como as pedras e os ventos, tão contrários
mas tão repletos desta mesma essência
e tão suaves como estes silêncios...

Enfim, toda esta noite seja breve
como o instante em que mortos renascemos
para todas as coisas que buscávamos:

as nossas mãos sem rumo e sem mistérios
nossos espelhos sem nenhuma face
nossas bocas caladas por um beijo.


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A mulher de Lot
Silvério Duque

– Qual um girassol, voltei meu rosto à agonia
de um sol destituindo-se de sua altura
e de seu brilho. Eis minha estranha impostura:
resignação da luz que nunca encontraria

(personificação da dor ao fim do dia).
Assim, eu fiz de meu destino uma escultura
de sombras, variação de estranha arquitetura
de coisas que eram luz e agora cinza fria.

Das formas mais exatas me sobram ainda
esta estátua de sal que sou - estranha e linda
imitação do amor ao que é perfeito. Mas

sob as estrelas que se acendem no horizonte
meu sofrer faz-se eterno. Vou virando fonte
para quem segue mudo... e sem olhar pra trás.


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Sérgio?
Silvério Duque

– Ao velho pátio do colégio antigo
até a lua regressou mais triste
mas há tanto de mim nestes silêncios
que a própria morte se achará sozinha.

Recordar é adiar outros regressos
sem que me doa a pressa doutros dias
sem que eu invente a infância que não tive
nas voltas em que a vida é reinventada.

Agora o que me cabe é viver
simplesmente e deixar para outros dias
as minhas súplicas e este tempo

qual o velho pátio do colégio antigo
irmão de meu vazio e minha ruína
ou como fazem os cães por entre as noites.


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"Pois se a luz não é deste mundo
assusta-nos toda beleza
há um horror em toda verdade
em toda poesia
em todo riso
se nos sorriem
sinceramente."


"Na velha casa de meu pai
até as sombras pereceram
e mesmo a morte está mais triste
por sobre as sobras do que amo."


"Quanta vida
quanta inquietude
existe
numa criança
que pergunta.
Talvez por isso
estejamos mortos
por nos fazermos
velhos
e sábios demais. Porque nos perdemos
nesta infinita distância da vida adulta
nesta eterna procura"





Presentes no livro de poemas Do coração dos malditos (Mondrongo, 2013), páginas 21, 17, 15, 39 e 37, respectivamente, além dos trechos da Elegia pelo solar abandonado (p. 50 e 45), presentes na mesma obra.

sábado, 2 de julho de 2016

Treze poemas da antologia Cantares de Arrumação - Panorama da nova poesia de Feira de Santana e região

Organizada por Silvério Duque


Inverso
Anne Cerqueira

É preciso coragem
alguns me dizem
quando a tarde chega
e a água turva.

Cega e atônita
eu sei.

As flores
secaram
sob o sol mais rigoroso
e os rios
traçam seu curso
com giz

rápido
célere
o vento
nos arrasta.
Inverso.

Nada corre
nada avança
se não há guerra
também não há conforto

É preciso coragem
sob a mordaça.
Alguém avisa.
(moldura que nos ata
à força)

Eu sei.


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Miudinha
Ribeiro Pedreira (Dão)

                                       a Maria das Graças Ribeiro Pedreira

Mainha é pequena
de tamanho,
mas consegue pegar coisas
no alto.

Minha voz por exemplo
ela sempre bota no bolso.


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Direito prescrito
Herculano Neto

nasci
com defeito de fábrica
defeito na alma

minha mãe não notou
meu pai não notou
ninguém notou

só perceberam
quando achei de me remendar
me colar
me parafusar

aí já era tarde


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Uma outra história
Ronald Freitas

Na curva daquela estrada
a escuridão não veio.

(na curva, o dia era apenas sol)

Pena que não passamos por aquele caminho,
vivemos alheios às curvas.


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Travessia
Luiz Valverde

Pasmo de beira de rio
sofrendo vagar,
pelo que está no meio,
o impossível.

Na terceira margem do adeus
vasto céu, a suprema intriga,
onde sabemos que achar
é não ocultar o homem,
mas expô-lo por inteiro e perdido,
paralisado na travessia.


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Do agora
Clarissa Macedo

A vida é essa farsa:
faca de abrir mágoas,
pele de lamber palavras.

Refeita, na morte do dia,
escurece feito sangue –
porque não morre, cicatriza.

A vida é essa farsa:
todo dia costurada
para abrigar mais feridas.


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O toque da solidão
Sandro Penelú

Apenas vago como tantos que navegam
em busca de respostas,
respostas que eu, inquieto, não as possuo
e desesperado me acalmo
contemplando os lençóis,
as chamas que não me arderam,
a noite que não me beijou na madrugada
e, sozinho,
estamos ainda abraçados...


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Versos do inesperado I
Nívea Maria Vasconcellos

Vi minhas palavras em seu pensamento
E isso as fez no papel de seus versos.
Como se a imagem me tivesse levado
E como se quisesses, de modos diversos,

Fazer da estrofe um mundo só nosso:
Onde cada gesto vira uma rima,
Cada frase, de súbito, gera um ritmo
E onde as falas docemente se esgrimam

Entre a ambiguidade e o paradoxo.
E a cautela, nesse jogo, surge como escudo
No qual eu, muitas vezes, quase mudo

Não sei o que dizer e, então, calo.
Mas vem a palavra, a imagem, o ritmo
E, involuntária, novamente, falo.


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Torpor
Wesley Correia

Há funcionalidade nas coisas inúteis.
Mais ainda: há essenciais futilidades.

Sigo resiliente apesar de cético:
posso elevar a voz em novas e
formidáveis sinergias.
E, no entanto, posso rir do esforço
que isso me causa.

Mantenho o verso,
o verbo sedento,
a insaciável palavra sangrenta
de desejo reverso.


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A dor das horas
Thiago El-Chami

Eu sinto a dor das horas que a passagem
do feroz tempo arrasta, alta e inclemente,
mas que resistem a ir-se, simplesmente,
da alma que as sente, ainda que a paisagem

da viagem já esteja diferente.
Estas horas não passam como a aragem
ou o orvalho, que cedem, já não agem,
quando a Aurora arrebenta à tua frente,

mas como o outono triste, que a folhagem
deixa ao chão, mas como o estio ardente
que racha o solo, ou o inverno em sua friagem.

A dor que eu sinto é a dor do asfalto quente
que guarda em si as marcas da frenagem,
do que se foi e ainda está presente.


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Amor, escreve em mim teu alfabeto...
Patrice de Moraes

Amor, escreve em mim teu alfabeto.
Registra a cor local do teu traçado.
Povoa cada milímetro ofertado
como povoa a planta o arquiteto.

Implanta introdução do bem concreto
que és tu, neste papiro rasurado.
Teu desenvolvimento inacabado
fará da conclusão pseudoprojeto.

Porque tudo que almejo é ser um texto
composto à densidade do contexto
do vernáculo em ti constituído.

Um texto de idioma universal
que assente o seu império lexical
fluente à proporção que seja lido.


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A mancha no papel
Idmar Boaventura

A mancha no papel, o sono.
Folhas vermelha caindo.
Livros amontoados, fachos de luz
amarrados na cortina.
A sina.

Silvos no ar, segredos.
Sibilos de serpentes assassinas.
E alguma coisa que fica, em silêncio,
escondida no jardim.


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À maneira de Shaw
Ísis Moraes

Sonhos não existem.
Eu os alicio, e sei.
A desistência está posta.


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Presentes na antologia Cantares de Arrumação - Panorama da nova poesia de Feira de Santana e região (Mondrongo, 2015), organizada por Silvério Duque, páginas 33-34, 97, 82, 105, 13, 148, 25, 119, 143, 134, 60, 73 e 91, respectivamente.