quinta-feira, 21 de julho de 2016

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Alba

Orides Fontela (foto daqui)


Alba
Orides Fontela

I

Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
                                   na carne.

II

Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
é sempre.

III

Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.

IV

Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!


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Pouso (II)
Orides Fontela

Difícil para o pássaro
                       pousar
                       manso
em nossa mão – mesmo
                       aberta.

Difícil difícil
para a livre
           vida
repousar em quietude
                         limpa
                         densa

e inda mais
           difícil
– contendo o
          voo
   imprevisível –

maturar o seu canto
no alvo seio
de nosso aberto
mas opaco

silêncio.


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Murmúrio
Orides Fontela

O murmúrio não cessa. Nunca a
                                        fonte
deixará de cantar
oculta

e oculto mesmo
o canto
soterrado em cansaço
hábito e olvido

e tudo oculto sob árida
lápide
sob o contínuo deslizar
das formas

e tudo
oculto
mas água
sempre

pulsação
viva
centrando
o
tempo.


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Via
Orides Fontela

I

Há um caminho solitário
construído a cada
                            passo:
não leva a lugar algum.

II

Na floresta um branco
                                    pássaro
oculta-se em seu
                                    silêncio.

III

No alto
– jubilosamente –
uma estrela
apenas.


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Ode
Orides Fontela

O início? O mesmo fim.
O fim? O mesmo início.

Não há fim nem início. Sem história
o ciclo dos dias
vive-nos.


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"Eis a carta dos céus: tudo
indeterminado e imprevisto
cria um amor fluente
e sempre vivo.

Eis a carta dos céus: tudo
                                 se move."


"Da pura água
criar o vinho
do puro tempo extrair
o verbo.

(...)

A água embriaga
mas para além do humano: no amor
simples."


"A mão destrói-se
furtando-se
à textura do ser
e do silêncio

e – naufragada a forma –
subsiste uma estrela
sobre as águas."


"O que faço des
                    faço
o que vivo des
                  vivo
o que amo des
                  amo"


"Reteso o arco e o
                              sonho
espero:

nada mais é preciso."


"Um barco
fende – tranquilo – o mar
(o amor)           transporta
– voo profundo – o esplendor
do silêncio."




Presentes no livro de poemas Alba (1983), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 167, 171, 193, 208 e 211, respectivamente, além dos trechos dos poemas Mapa (p. 194), Bodas de Caná (p. 175), A mão (p. 178), Penélope (p. 187), Odes (p. 190), Nau (II) (p. 202), presentes na coletânea.


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