Pular para o conteúdo principal

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Alba

Orides Fontela (foto daqui)


Alba
Orides Fontela

I

Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso
                                   na carne.

II

Abrir os olhos.
Abri-los
como da primeira vez
– e a primeira vez
é sempre.

III

Toque
de um raio breve
e a violência das imagens
no tempo.

IV

Branco
sinal oferto
e a resposta do
sangue:
AGORA!


--------


Pouso (II)
Orides Fontela

Difícil para o pássaro
                       pousar
                       manso
em nossa mão – mesmo
                       aberta.

Difícil difícil
para a livre
           vida
repousar em quietude
                         limpa
                         densa

e inda mais
           difícil
– contendo o
          voo
   imprevisível –

maturar o seu canto
no alvo seio
de nosso aberto
mas opaco

silêncio.


--------


Murmúrio
Orides Fontela

O murmúrio não cessa. Nunca a
                                        fonte
deixará de cantar
oculta

e oculto mesmo
o canto
soterrado em cansaço
hábito e olvido

e tudo oculto sob árida
lápide
sob o contínuo deslizar
das formas

e tudo
oculto
mas água
sempre

pulsação
viva
centrando
o
tempo.


--------


Via
Orides Fontela

I

Há um caminho solitário
construído a cada
                            passo:
não leva a lugar algum.

II

Na floresta um branco
                                    pássaro
oculta-se em seu
                                    silêncio.

III

No alto
– jubilosamente –
uma estrela
apenas.


--------


Ode
Orides Fontela

O início? O mesmo fim.
O fim? O mesmo início.

Não há fim nem início. Sem história
o ciclo dos dias
vive-nos.


--------


"Eis a carta dos céus: tudo
indeterminado e imprevisto
cria um amor fluente
e sempre vivo.

Eis a carta dos céus: tudo
                                 se move."


"Da pura água
criar o vinho
do puro tempo extrair
o verbo.

(...)

A água embriaga
mas para além do humano: no amor
simples."


"A mão destrói-se
furtando-se
à textura do ser
e do silêncio

e – naufragada a forma –
subsiste uma estrela
sobre as águas."


"O que faço des
                    faço
o que vivo des
                  vivo
o que amo des
                  amo"


"Reteso o arco e o
                              sonho
espero:

nada mais é preciso."


"Um barco
fende – tranquilo – o mar
(o amor)           transporta
– voo profundo – o esplendor
do silêncio."




Presentes no livro de poemas Alba (1983), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 167, 171, 193, 208 e 211, respectivamente, além dos trechos dos poemas Mapa (p. 194), Bodas de Caná (p. 175), A mão (p. 178), Penélope (p. 187), Odes (p. 190), Nau (II) (p. 202), presentes na coletânea.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…