Pular para o conteúdo principal

Cinco poemas e três passagens de Silvério Duque no livro Do coração dos malditos

Silvério Duque (foto daqui)


Nicolae Steinhardt
Silvério Duque

                                                        ao amigo, Elpídio Mário Dantas Fonseca

– Se existo é porque a carne não tem nome
e onde o amor se desfez a alma procura
a vontade de amar que ainda perdura
como perdura a morte e a sua fome.

Pela boca do tempo tudo some
mas se torna a viver é que a mais pura
vontade de existir revela e apura
o que a própria razão de ser consome.

Do assombro e do desejo em vão renasço
com o mesmo coração profundo e inquieto
se com Deus não me unir em estreito laço

como se une o silêncio a todo inverno
como se une a razão a nobre gesto
pois tudo o que é fugaz vive do Eterno.


--------


Sobre o grito de Munch
Silvério Duque

                                                      ao poeta e amigo, Patrice de Moraes

– Nas tardes mortas, eu perdi meu nome
e em cada uma delas morri um pouco
pois nada cabe a mim que achar-me um louco
que vive de comer a própria fome.

Esta visão de mim que me consome
dói como há-de doer um grito rouco
que o pudesse gritar um tronco oco
ante o vazio que a ele próprio come.

Hoje, só existe dor nesse sol-posto
e a natureza toda se apavora
ao ver-se refletida no meu rosto

que a noite sobre mim vem sem demora
como para me dar algum conforto
enquanto se retarda a minha hora.


--------


Balada para Cecília
Silvério Duque

                                                     à Danielle Pinheiro

– Convêm-nos que esta noite seja clara
ou simplesmente a última, sabendo
que todo mundo dorme e as nossas almas
são uma chaga a mais que o mundo abriu...

Convêm-nos que esta noite seja pura
como as pedras e os ventos, tão contrários
mas tão repletos desta mesma essência
e tão suaves como estes silêncios...

Enfim, toda esta noite seja breve
como o instante em que mortos renascemos
para todas as coisas que buscávamos:

as nossas mãos sem rumo e sem mistérios
nossos espelhos sem nenhuma face
nossas bocas caladas por um beijo.


--------


A mulher de Lot
Silvério Duque

– Qual um girassol, voltei meu rosto à agonia
de um sol destituindo-se de sua altura
e de seu brilho. Eis minha estranha impostura:
resignação da luz que nunca encontraria

(personificação da dor ao fim do dia).
Assim, eu fiz de meu destino uma escultura
de sombras, variação de estranha arquitetura
de coisas que eram luz e agora cinza fria.

Das formas mais exatas me sobram ainda
esta estátua de sal que sou - estranha e linda
imitação do amor ao que é perfeito. Mas

sob as estrelas que se acendem no horizonte
meu sofrer faz-se eterno. Vou virando fonte
para quem segue mudo... e sem olhar pra trás.


--------


Sérgio?
Silvério Duque

– Ao velho pátio do colégio antigo
até a lua regressou mais triste
mas há tanto de mim nestes silêncios
que a própria morte se achará sozinha.

Recordar é adiar outros regressos
sem que me doa a pressa doutros dias
sem que eu invente a infância que não tive
nas voltas em que a vida é reinventada.

Agora o que me cabe é viver
simplesmente e deixar para outros dias
as minhas súplicas e este tempo

qual o velho pátio do colégio antigo
irmão de meu vazio e minha ruína
ou como fazem os cães por entre as noites.


--------


"Pois se a luz não é deste mundo
assusta-nos toda beleza
há um horror em toda verdade
em toda poesia
em todo riso
se nos sorriem
sinceramente."


"Na velha casa de meu pai
até as sombras pereceram
e mesmo a morte está mais triste
por sobre as sobras do que amo."


"Quanta vida
quanta inquietude
existe
numa criança
que pergunta.
Talvez por isso
estejamos mortos
por nos fazermos
velhos
e sábios demais. Porque nos perdemos
nesta infinita distância da vida adulta
nesta eterna procura"





Presentes no livro de poemas Do coração dos malditos (Mondrongo, 2013), páginas 21, 17, 15, 39 e 37, respectivamente, além dos trechos da Elegia pelo solar abandonado (p. 50 e 45), presentes na mesma obra.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

A mesma resenha na versão impressa do jornal aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…