domingo, 3 de julho de 2016

Cinco poemas e três passagens de Silvério Duque no livro Do coração dos malditos

Silvério Duque (foto daqui)


Nicolae Steinhardt
Silvério Duque

                                                        ao amigo, Elpídio Mário Dantas Fonseca

– Se existo é porque a carne não tem nome
e onde o amor se desfez a alma procura
a vontade de amar que ainda perdura
como perdura a morte e a sua fome.

Pela boca do tempo tudo some
mas se torna a viver é que a mais pura
vontade de existir revela e apura
o que a própria razão de ser consome.

Do assombro e do desejo em vão renasço
com o mesmo coração profundo e inquieto
se com Deus não me unir em estreito laço

como se une o silêncio a todo inverno
como se une a razão a nobre gesto
pois tudo o que é fugaz vive do Eterno.


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Sobre o grito de Munch
Silvério Duque

                                                      ao poeta e amigo, Patrice de Moraes

– Nas tardes mortas, eu perdi meu nome
e em cada uma delas morri um pouco
pois nada cabe a mim que achar-me um louco
que vive de comer a própria fome.

Esta visão de mim que me consome
dói como há-de doer um grito rouco
que o pudesse gritar um tronco oco
ante o vazio que a ele próprio come.

Hoje, só existe dor nesse sol-posto
e a natureza toda se apavora
ao ver-se refletida no meu rosto

que a noite sobre mim vem sem demora
como para me dar algum conforto
enquanto se retarda a minha hora.


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Balada para Cecília
Silvério Duque

                                                     à Danielle Pinheiro

– Convêm-nos que esta noite seja clara
ou simplesmente a última, sabendo
que todo mundo dorme e as nossas almas
são uma chaga a mais que o mundo abriu...

Convêm-nos que esta noite seja pura
como as pedras e os ventos, tão contrários
mas tão repletos desta mesma essência
e tão suaves como estes silêncios...

Enfim, toda esta noite seja breve
como o instante em que mortos renascemos
para todas as coisas que buscávamos:

as nossas mãos sem rumo e sem mistérios
nossos espelhos sem nenhuma face
nossas bocas caladas por um beijo.


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A mulher de Lot
Silvério Duque

– Qual um girassol, voltei meu rosto à agonia
de um sol destituindo-se de sua altura
e de seu brilho. Eis minha estranha impostura:
resignação da luz que nunca encontraria

(personificação da dor ao fim do dia).
Assim, eu fiz de meu destino uma escultura
de sombras, variação de estranha arquitetura
de coisas que eram luz e agora cinza fria.

Das formas mais exatas me sobram ainda
esta estátua de sal que sou - estranha e linda
imitação do amor ao que é perfeito. Mas

sob as estrelas que se acendem no horizonte
meu sofrer faz-se eterno. Vou virando fonte
para quem segue mudo... e sem olhar pra trás.


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Sérgio?
Silvério Duque

– Ao velho pátio do colégio antigo
até a lua regressou mais triste
mas há tanto de mim nestes silêncios
que a própria morte se achará sozinha.

Recordar é adiar outros regressos
sem que me doa a pressa doutros dias
sem que eu invente a infância que não tive
nas voltas em que a vida é reinventada.

Agora o que me cabe é viver
simplesmente e deixar para outros dias
as minhas súplicas e este tempo

qual o velho pátio do colégio antigo
irmão de meu vazio e minha ruína
ou como fazem os cães por entre as noites.


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"Pois se a luz não é deste mundo
assusta-nos toda beleza
há um horror em toda verdade
em toda poesia
em todo riso
se nos sorriem
sinceramente."


"Na velha casa de meu pai
até as sombras pereceram
e mesmo a morte está mais triste
por sobre as sobras do que amo."


"Quanta vida
quanta inquietude
existe
numa criança
que pergunta.
Talvez por isso
estejamos mortos
por nos fazermos
velhos
e sábios demais. Porque nos perdemos
nesta infinita distância da vida adulta
nesta eterna procura"





Presentes no livro de poemas Do coração dos malditos (Mondrongo, 2013), páginas 21, 17, 15, 39 e 37, respectivamente, além dos trechos da Elegia pelo solar abandonado (p. 50 e 45), presentes na mesma obra.

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